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    O painel, montado para orientar o filme de Woody Allen que se passa na Paris dos anos 1920, recria a atmosfera em que vivia a escritora Gertrude Stein: saudades de um tempo não vivido CRÉDITO: ANNE SEIBEL

anais da neurologia

A nostalgia reimaginada

A neurociência está descobrindo o que a propaganda política já sabe há muito tempo

Felipe de Brigard | Edição 168, Setembro 2020

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Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado. Mas quando voltou a ver do convés do navio o promontório branco do bairro colonial, os urubus imóveis nos telhados, a roupa dos pobres estendida a secar nas sacadas, compreendeu até que ponto tinha sido uma vítima fácil das burlas caritativas da saudade.

O Amor nos Tempos do Cólera,
GABRIEL GARCÍA MARQUEZ

 

Tradução de Sergio Tellaroli

 

Outro dia, me peguei lembrando dos tempos do colegial com uma espécie de tristeza e de saudade que só posso descrever como nostalgia. Senti um desejo de voltar no tempo e revisitar a minha sala de aula, as aulas de ginástica, os corredores compridos. Acessos de nostalgia são bastante comuns, mas esse foi um caso surpreendente porque de uma coisa tenho certeza: eu odiava o colegial. Pouco antes de me formar, costumava ter pesadelos nos quais era obrigado a fazer tudo aquilo de novo e acordava agoniado, ensopado de suor. Eu jamais iria querer voltar aos tempos do colegial. Então por que a saudade de um período que eu não gostaria de reviver? A resposta, na verdade, demanda que repensemos nosso conceito tradicional de nostalgia.

Cunhada pelo médico suíço Johannes Hofer em 1688, a palavra “nostalgia” referia-se a uma enfermidade (a saudade de casa) que se caracterizava pelo anseio incapacitante de retornar à terra natal. Hofer deu preferência a esse termo porque ele combinava dois traços essenciais da doença: o desejo de voltar para casa (nostos) e a dor (algos) da impossibilidade de o fazer. A sintomatologia era imprecisa – incluía a tendência à reflexão profunda, à melancolia, à insônia, à ansiedade e à falta de apetite –, e acreditava-se que a enfermidade acometia sobretudo soldados e marinheiros. Os médicos discordavam também quanto à causa. Hofer acreditava que a nostalgia era provocada por vibrações nervosas nas quais “perduram ainda” vestígios da ideia da terra natal, ao passo que outros médicos, notando que ela acometia predominantemente soldados suíços lutando em baixas altitudes, postulavam que a nostalgia era causada por mudanças na pressão atmosférica ou por dano aos tímpanos provocado pelo som metálico dos cincerros suíços pendurados no pescoço das vacas. Tão logo a doença foi identificada também em soldados de várias outras nacionalidades, a ideia de sua especificidade geográfica foi abandonada.

No começo do século XX, a nostalgia era considerada uma doença psiquiátrica, em vez de neurológica – uma variação da melancolia. Dentro da tradição psicanalítica, seu objeto – ou seja, aquilo em torno do qual gira o estado nostálgico – foi dissociado da causa da enfermidade. A nostalgia pode se manifestar como um desejo de voltar para casa, mas, segundo os psicanalistas, essa causa é, na verdade, a experiência traumática de ser arrancado da própria mãe ao nascer. Essa visão começou a ser questionada na década de 1940, quando a nostalgia tornou a ser vinculada à saudade da terra natal. Contudo, a “terra natal” passou então a ser interpretada de forma mais abrangente, incluindo agora não apenas lugares concretos, como a cidade da infância, mas elementos abstratos também, tais como experiências ou momentos passados. Por volta da segunda metade do século XX, embora o desacordo persistisse, a nostalgia começou a ser caracterizada a partir de três componentes. O primeiro era cognitivo: a nostalgia passa pela recuperação de memórias autobiográficas. O segundo, afetivo: a nostalgia é considerada uma emoção debilitadora, de valência negativa. E o terceiro, conativo: a nostalgia compreende um desejo de retornar à terra natal. A seguir, vou propor, no entanto, que essa caracterização tripartite talvez esteja equivocada.

 

Em primeiro lugar, dois esclarecimentos. A nostalgia não é nem patológica nem benéfica. Sempre me surpreendeu que, a fim de ilustrar a natureza debilitadora da nostalgia, estudiosos recorram ao exemplo de Ulisses, na Odisseia, sem perceber a patente contradição que há aí. Homero nos conta que pensar na terra natal era doloroso e enchia os olhos de Ulisses de lágrimas, mas a ideia de voltar para Ítaca não o incapacitava: pelo contrário, ela o motivava. O fato de Ulisses ter precisado de mais de dez anos para retornar tem mais a ver com Circe, Calipso e Poseidon do que com a natureza debilitadora da nostalgia. O segundo esclarecimento: os filósofos distinguem entre objeto e conteúdo de um estado mental. O objeto é aquilo em torno do qual gira o estado mental. O objeto não precisa existir – cito um exemplo: o Super-Homem. O conteúdo é o modo como se vê esse objeto. Pode-se vê-lo de diferentes maneiras – Lois Lane pode pensar em Kal-El como o Super-Homem ou como Clark Kent – e, assim, entreter pensamentos diversos, e até contraditórios, sobre um mesmo objeto (estou supondo aqui que os conteúdos se encontram exemplificados por representações neurais adequadamente vinculadas a seu objeto).

 

Com esses esclarecimentos em mente, vamos reavaliar a visão tripartite da nostalgia, começando pelo componente cognitivo. De acordo com a visão tradicional, a nostalgia envolve memórias autobiográficas da terra natal, o que sugere que o objeto do estado nostálgico há de ser um lugar. A pesquisa mostra, no entanto, que muitas vezes “terra natal” significa outra coisa para as pessoas: experiências da infância, amigos perdidos há muito tempo, comidas, costumes etc. De fato, a psicóloga norte-americana Krystine Batcho foi a primeira a sistematizar, em 1995, a natureza diversificada dos objetos da nostalgia. Ela documentou os eventos nostálgicos de 648 pessoas e descobriu que, embora muitas vezes elas se dissessem saudosas de lugares, sua nostalgia se aplicava também a itens não espaciais: a pessoas queridas, ao sentimento de “despreocupação”, a períodos de férias ou simplesmente ao modo “como as pessoas eram”. Da mesma forma, em 2006, o psicólogo Tim Wildschut e seus colegas da Universidade de Southampton classificaram o conteúdo de 42 narrativas autobiográficas publicadas na revista Nostalgia, assim como de dezenas de relatos de alunos de graduação. Descobriram, então, que grande parte dos textos tinha a ver não com lugares, e sim com outras coisas. Essa variabilidade também se verifica em outras culturas, como demonstrou o trabalho de Erica Hepper, que em 2014, junto a sua equipe internacional, estudou 1 704 alunos de dezoito países e descobriu que, com frequência, a nostalgia voltava-se para além de acontecimentos e lugares do passado: abrangia também relacionamentos sociais, objetos do passado e infância. Esse resultado sugere que os estados mentais associados à nostalgia não precisam ser lembranças de locais ou de acontecimentos autobiográficos específicos.

Por quê, então, os pesquisadores insistem no vínculo entre nostalgia e uma lembrança autobiográfica específica? O motivo para tanto, acredito, tem mais a ver com a metodologia experimental do que com a realidade psicológica. Em geral, os pesquisadores que se ocupam da nostalgia distinguem entre a nostalgia “pessoal” e a “histórica”. A primeira tende a ser estudada por psicólogos sociais, ao passo que a última costuma ser objeto de estudo da área de marketing. A consequência disso é que boa parte dos paradigmas experimentais aplicados pela psicologia social à nostalgia demanda aos participantes a evocação de lembranças específicas que os deixam nostálgicos. Pesquisadores da área de marketing, ao contrário, tendem a se valer de estímulos históricos externos e datados – “pense nos programas de tevê da década de 1980” – como forma de despertar sentimentos nostálgicos, os quais são, então, associados a algum tipo de comportamento dos consumidores (índices de audiência, por exemplo). Não surpreende que os resultados dessas duas estratégias experimentais muitas vezes se sobreponham do ponto de vista psicológico. Alguns estudos de marketing relatam que o estímulo proporcionado por produtos pode levar os participantes a memórias autobiográficas precisas, ao passo que, outras vezes, evoca acontecimentos menos precisos no espaço e no tempo (por exemplo: “minha época de escola primária”).

 

Mais interessante ainda é que a nostalgia pode trazer à mente períodos de tempo que não vivemos diretamente. No filme Meia-Noite em Paris (Woody Allen, 2011), pensamentos nostálgicos sobre a Paris da década de 1920 tomam conta de Gil. Roteirista moderno, Gil não viveu essa Paris, mas seus sentimentos são nada menos que nostálgicos. De fato, sentir saudade de um tempo que não vivemos parece ser um fenômeno comum, a se dar crédito a salas de bate-papo, páginas do Facebook e sites da internet dedicados ao assunto. Na verdade, uma nova palavra foi cunhada para capturar essa variação específica da nostalgia, anemoia, que o Urban Dictionary e o Dictionary of Obscure Sorrows (Dicionário de tristezas obscuras) definem como “saudade de um tempo não vivido”.

Como compreender que as pessoas sintam saudade não apenas de experiências passadas, mas também de períodos genéricos? Minha ideia, inspirada em comprovações recentes oferecidas pela psicologia cognitiva e pela neurociência, é a de que a variedade de objetos da nostalgia se explica pelo fato de seu componente cognitivo não ser uma lembrança autobiográfica, e sim uma simulação mental – algo imaginado, digamos –, da qual uma subclasse é composta por lembranças episódicas. Mas, a fim de embasar essa afirmação, antes é preciso discutir certos progressos da ciência da memória e da imaginação.

Embora memória e imaginação sejam em geral entendidas como coisas distintas, algumas descobertas críticas das últimas três décadas vêm questionando esse entendimento. Em 1985, o psicólogo Endel Tulving, em Toronto, observou que um paciente com amnésia não tinha dificuldade apenas para se lembrar do passado: tinha também problemas para imaginar possíveis acontecimentos futuros. Isso levou Tulving a sugerir que lembrar o passado e imaginar o futuro eram dois processos de um mesmo sistema dedicado à viagem mental pelo tempo. Na primeira década dos anos 2000, essa hipótese foi reforçada por uma série de estudos científicos que confirmaram que lembrar o passado e imaginar o futuro envolvem a chamada “rede padrão” do cérebro. Na década passada, no entanto, tornou-se claro que essa rede também dá suporte a simulações mentais de outros acontecimentos hipotéticos, como episódios que poderiam ter ocorrido em nosso passado, mas não ocorreram, atividades rotineiras atemporais (escovar os dentes, por exemplo), devaneios mentais, navegação espacial, imaginar os pensamentos de outra pessoa e compreensão narrativa, entre outros. Em consequência, pesquisadores hoje creem que essa rede neural não é unificada apenas pela viagem mental no tempo, mas, antes, por um tipo de processo psicológico mais geral, que se caracteriza por ser autorrelevante, possuir um significado social e ter vinculação episódica e dinâmica com a imaginação. Acredito que os tipos de conteúdo cognitivo não autobiográficos associados a estados nostálgicos são exemplos dessa categoria mais ampla de produtos da imaginação.

Se estou no caminho certo, então podemos explicar de pronto por que as pessoas tendem a sentir saudade de objetos outros que não acontecimentos autobiográficos do passado. O motivo para tanto, suponho, é o fato de os conteúdos cognitivos associados a seus estados nostálgicos serem modalidades de simulação mental que contam com o suporte da rede padrão, as quais, embora incluam lembranças autobiográficas, não se limitam a estas. Por consequência, pode-se associar a nostalgia a um passado não vivido, a um presente paralelo e irrealizado ou mesmo a um passado idealizado que, embora não vivido, se pode facilmente imaginar, bastando para tanto juntar pedaços de informação da memória para formar simulações mentais detalhadas e episódicas (como em Meia-Noite em Paris). Por fim, ampliar os conteúdos cognitivos da nostalgia para além das lembranças autobiográficas e rumo à classe mais abrangente das simulações dinâmicas episódicas, como as que acabo de discutir, ajuda também a explicar por que a nostalgia é em geral associada a fatos e experiências dotadas de significado pessoal e relevância social.

As emoções possuem diferentes valências: algumas são positivas; outras, negativas. Há, ainda, as que são ambas as coisas. Emoções com valência negativa incluem o medo e a tristeza, enquanto felicidade e alegria possuem valência positiva. De acordo com a visão tradicional, a nostalgia é vista como uma emoção negativa. Os primeiros relatórios médicos sobre o assunto descreviam pacientes com saudade de casa como tristes, melancólicos e letárgicos. A tradição psicanalítica deu continuidade a essa visão e caracterizou a nostalgia como um estado de tristeza e dor. De fato, catalogou-a inclusive como uma versão particularmente triste da melancolia, equivalente à depressão, como a conhecemos hoje.

Vozes discordantes sugeriram, por outro lado, que havia algo de agradável na nostalgia. Em 1872, por exemplo, Charles Darwin menciona que certos sentimentos são difíceis de analisar porque envolvem tanto dor quanto prazer, e dá como exemplo a lembrança nostálgica de Ulisses de sua terra natal. Quase um século mais tarde, e rompendo com a tradição psicanalítica, o psiquiatra norte-americano Jack Kleiner relatou o caso de um paciente profundamente nostálgico que, não obstante, mostrava alegria, o que levou Kleiner a propor uma diferenciação entre a nostalgia e a saudade de casa, alegando que a primeira envolvia tanto tristeza como alegria. Posteriormente, essa distinção foi reformulada, dando origem às nostalgias depressiva e não depressiva, e houve mesmo quem chegasse a sugerir que o caso anormal de nostalgia é o depressivo, por não conter o aspecto prazeroso. Desde então, os estudiosos das emoções passaram a pensar a nostalgia como um estado “agridoce”, ou seja, dotado de valências positiva e negativa.

Mas e todos aqueles sintomas de valência negativa associados à nostalgia – a tristeza, a depressão? Não são também provocados pela nostalgia? Minha percepção é a de que os médicos antigos inverteram causa e efeito: a nostalgia não produz afeto negativo, mas tem, antes, o afeto negativo como causa. Comprovam-no diversos estudos recentes que mostram uma maior probabilidade do sentimento nostálgico naquelas pessoas que estejam experimentando um afeto negativo. Mais especificamente, está documentado que certas experiências negativas tendem a desencadear a nostalgia, incluindo-se aí a solidão, a perda dos vínculos sociais, o sentimento da falta de sentido, o tédio e até mesmo temperaturas muito frias. Isso não significa que a nostalgia só é desencadeada por experiências negativas, mas sugere, sim, que o afeto negativo pode muitas vezes ser causa, e não consequência, da nostalgia.

A questão agora é como compreendê-la como algo que envolve a um só tempo valências negativas e positivas. Isso se torna menos surpreendente quando entendemos a nostalgia como imaginação. Com frequência, ao fazermos certas simulações mentais, transitamos de um lado para outro entre o ato presente da simulação e o conteúdo simulado. Tanto o ato da simulação quanto o conteúdo simulado despertam emoções, e não é necessário que sejam as mesmas. Pense em outra simulação mental dinâmica paradigmática: pensamentos contrafactuais ascendentes ou simulações mentais sobre resultados ruins que poderiam ter sido melhores (“se pelo menos eu tivesse chegado mais cedo, teria conseguido ingressos para o show”). De forma geral, esse tipo de pensamento contrafactual provoca arrependimento.

Contudo, como demonstraram os psicólogos norte-americanos Keith Markman e Matthew McMullen em 2003, se, enquanto simulamos o contrafactual, transferirmos nossa atenção da emoção sentida nesse momento para a emoção que sentimos ao nos concentrar tão somente no conteúdo simulado, o arrependimento pode se transformar em satisfação. Inversamente, podemos imaginar um resultado ruim em lugar de outro que foi positivo (“se tivesse errado aquele pênalti, teríamos perdido o jogo”). Em geral, esses “pensamentos contrafactuais descendentes” despertam sentimentos de alívio, uma emoção positiva. Mas, quando se foca a atenção apenas no conteúdo do pensamento contrafactual, e não na situação em que se está ao simular, isso pode dar ensejo a emoções negativas. Assim, a discrepância entre a emoção sentida no ato da simulação e o conteúdo propriamente dito da simulação pode explicar o caráter “agridoce” percebido na nostalgia.

 

O último componente da visão tradicional da nostalgia é o conativo, uma vez que se considera que a nostalgia envolve o desejo de voltar para casa. A despeito de sua centralidade, esse componente raras vezes foi estudado. De novo, a filosofia pode nos ajudar a analisá-lo. Ao pensar nos desejos, os filósofos distinguem entre o objeto de um desejo e as condições para satisfazê-lo, ou seja, o estado de coisas que, se alcançado, realizaria o desejo. Com frequência, são idênticos; se o objeto do meu desejo é um doce, então conseguir o doce satisfaz meu desejo. Com a nostalgia, porém, é mais complicado. Na visão tradicional, o objeto da nostalgia é um lugar – a terra natal, digamos –, e voltar para lá satisfaria o desejo. Mas, como não se pode voltar – pense em Ulisses –, o desejo permanece insatisfeito, ensejando afeto negativo.

As pessoas, no entanto, muitas vezes têm saudade de sua terra natal e, ao regressar, sentem que esse retorno não satisfez seu anseio. Pense na epígrafe deste artigo. Refere-se ao personagem Juvenal Urbino, de Gabriel García Márquez, um jovem médico que está estudando em Paris e relembra os odores, os sons e as sacadas de sua terra natal, o tempo todo desejoso de voltar para lá. Ao retornar, porém, sente-se decepcionado – enganado – pela coloração rósea atribuída a um passado nostálgico idealizado. Essa dificuldade nada mais é que a nostalgia encarnando um paradoxo bem conhecido do Górgias de Platão: uma pessoa pode desejar uma coisa e, ao alcançá-la, não satisfazer seu desejo.

Uma solução possível é pensar no objeto do desejo nostálgico como um lugar no tempo. Essa estratégia possibilita duas leituras. Numa primeira leitura, o que o indivíduo deseja é voltar ao passado com seu eu atual, retornar a um ponto em que as coisas eram melhores do que são hoje. Isso é doloroso, porque a viagem no tempo é impossível. Na segunda leitura, o que o sujeito deseja é que a situação passada seja trazida para o presente, isto é, ele não deseja viajar de volta no tempo para a situação passada, e sim que essa situação passada possa, de alguma maneira, substituir a presente. Aqui, o objeto capaz de satisfazer o desejo nostálgico não estaria no passado, e sim no presente, e o que provoca a dor é um tipo diferente de impossibilidade: a de recriar o passado hoje.

Uma versão mais favorável dessa segunda leitura foi defendida por Charles Zwingmann, em sua análise médica da nostalgia de 1960. De acordo com ela, o que o sujeito deseja é que traços gratificantes de experiências passadas sejam restabelecidos no presente, presumivelmente porque estão ausentes da situação atual. Ainda que uma pessoa sinta saudade de um amigo da infância, na verdade esse seu anseio seria satisfeito não por uma viagem ao passado, e sim por melhores relacionamentos no presente. Essa abordagem apresenta duas vantagens. A primeira é que ela ajuda a compreender a nostalgia particular presente no paradoxo do Górgias: o indivíduo nostálgico se equivoca ao atribuir os traços desejáveis do objeto a um acontecimento que não pode ser recuperado, quando, na realidade, pode dissociar dele esses traços e reassociá-los à sua condição atual. A segunda é que essa abordagem ajuda a entender descobertas recentes que sugerem que a nostalgia pode ser motivadora, aumentar o otimismo, a criatividade e comportamentos pró-sociais.

O que move esse elemento motivador? De novo, a resposta advém de considerarmos a nostalgia imaginação. A neurociência nos diz que, quando imaginamos, empregamos muitos dos mecanismos neurais que empregaríamos se tivéssemos nos lançado de fato à ação simulada. Quando imaginamos estar andando de bicicleta, usamos muitas das regiões cerebrais que teríamos usado se estivéssemos efetivamente andando de bicicleta. Como resultado disso, algumas opiniões contemporâneas – como as dos psicólogos Heather Kappes, em Londres, e Carey Morewedge, em Boston – sugerem que certos tipos de simulação são um modo econômico de trocar a experiência efetiva por um substituto próximo, do ponto de vista cognitivo – por uma espécie de sucedâneo, digamos.

Lembre-se agora de minha observação anterior, ao discutir a discrepância de valência entre dirigir nossa atenção para o conteúdo simulado ou para o ato da simulação. Minha proposta: o que subjaz a esse aspecto motivador da nostalgia advém de uma prazerosa sinalização de recompensa que o sujeito experimenta momentaneamente quando volta a atenção para o conteúdo simulado. Na verdade, isso é exatamente o que o neurocientista Kentaro Oba e seus colegas em Tóquio descobriram num estudo de 2016. O estudo mostrava atividade cerebral mais intensa em regiões associadas à busca de recompensa e à motivação durante a rememoração nostálgica. Lançar-se a simulações mentais que despertam o sentimento agridoce da nostalgia gera uma sinalização de recompensa que parece motivar os indivíduos a transformarem sua experiência do sucedâneo numa experiência real, e isso numa tentativa de substituir a emoção negativa (real) sentida na simulação pela emoção positiva (imaginada) do conteúdo simulado.

 

A nostalgia, em suma, é um estado mental complexo dotado de três componentes: o cognitivo, o afetivo e o conativo. Em linhas gerais, isso é reconhecido por todos. Mas minha caracterização difere da tradicional, na medida em que atribui posição central à imaginação. Em primeiro lugar, sugiro que o componente cognitivo não precisa ser uma lembrança, e sim um tipo de imaginação, de que são exemplos as lembranças autobiográficas episódicas. Em segundo, a nostalgia revela uma mistura de valências do ponto de vista afetivo, a qual resulta da justaposição do afeto gerado pelo ato da simulação (em geral, negativo) ao afeto despertado pelo conteúdo simulado (em geral, positivo). Por fim, o componente conativo não se constitui de um desejo de voltar ao passado, mas, antes, de uma motivação para restabelecer no presente as propriedades do conteúdo simulado, que nos faz sentir bem quando nos concentramos nele.

Concluo com uma breve especulação sobre um tópico importante para os tempos atuais. Nos últimos anos, temos assistido a um ressurgimento de movimentos políticos nacionalistas que ganharam impulso promovendo um retorno “aos bons tempos”. Nos Estados Unidos, é o Make America Great Again. No Reino Unido, o We Want Our Country Back. Essa política da nostalgia propõe a implementação de medidas que, supostamente, conduziriam as nações a um passado no qual as pessoas viviam melhor do que vivem hoje. Não surpreende que os arautos dessas políticas sejam grupos conservadores que, em geral, viviam no passado melhor do que no presente – independentemente da situação política específica da época. Num estudo de 2016, as psicólogas sociais polonesas Monika Prusik e Maria Lewicka submeteram um questionário de conteúdo nostálgico a uma amostra considerável da população polonesa, perguntando como eram as coisas antes da queda do comunismo, 25 anos antes. O resultado revelou que os poloneses que estavam melhor no passado que no presente sentiam muito mais saudade do governo comunista e nutriam sentimentos mais positivos a seu respeito; assim avaliaram-no também as pessoas mais velhas e aquelas que estavam infelizes no momento. Sem dúvida, pessoas mais velhas e de tendência conservadora que percebem o passado como melhor do que o presente – quer seja correta ou não sua avaliação – explicam a porção significativa do eleitorado que apoia os movimentos nacionalistas. Mas seria equivocado supor que elas são sua força motriz e, mais ainda, que compõem a maioria. E isso porque a pesquisa polonesa evidenciou algo bem diferente: revelou um grande número de jovens a apoiar com entusiasmo políticas nostálgicas capazes de levar seu país de volta a um passado que eles nunca viveram.

As razões psicológicas a fundamentar esse fenômeno seriam difíceis de explicar com base na visão tradicional de nostalgia. Se uma pessoa não viveu determinado passado, como pode sentir saudade dele? Contudo, se seguirmos a visão proposta aqui, uma explicação logo se apresenta. Sim, porque a política da nostalgia não se beneficia das lembranças de acontecimentos específicos que as pessoas possam ter vivido no passado. Em vez disso, ela se vale da propaganda política sobre como as coisas eram, e o faz a fim de dar às pessoas material episódico que lhes permita evocar cenários que, muito provavelmente, jamais existiram. Essas mesmas estratégias propagandísticas ajudam a convencer os cidadãos de que sua situação presente é pior do que de fato é, de modo que, ao justapor o conteúdo simulado – que, quando se atenta para ele, produz emoções positivas – aos pensamentos negativos sobre a situação presente, obtém-se um motivo para pôr fim a essa discrepância emocional e, assim, um pendor para a ação política. A política da nostalgia tem menos a ver com as lembranças de um passado cor-de-rosa do que com a propaganda política e a desinformação. Resulta daí o paradoxo de que a melhor maneira de combatê-la talvez seja melhorar o nosso conhecimento do passado. A nostalgia pode ser um poderoso motivador político, para o bem ou para o mal. Melhorar a precisão de nossas lembranças do passado pode, de fato, ser a melhor estratégia para restringir as burlas nada caritativas da política da nostalgia.


Artigo originalmente publicado na revista digital Aeo

Felipe de Brigard

Professor associado dos departamentos de psicologia e neurociência da Universidade Duke

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