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A pátria em disputa

Projeto autoritário sofre revés, mas segue vivo

Fernando de Barros e Silva | Edição 229, Outubro 2025

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Se tudo correr bem, setembro de 2025 entrará para os livros de história como o mês em que a Justiça brasileira condenou pela primeira vez um ex-presidente da República a mais de vinte anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Junto com Jair Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal condenou, também de maneira inédita, três generais de quatro estrelas e um almirante de esquadra para mofar por um bom tempo atrás das grades. Todos golpistas.

A democracia, enfim, levou a melhor contra o que o historiador Carlos Fico chamou de Utopia autoritária brasileira, título de seu livro recente, cujo subtítulo é autoexplicativo: Como os militares ameaçam a democracia desde o nascimento da República até hoje. Um longo histórico de rupturas da legalidade e de impunidade foi interrompido.

Esse processo, no entanto, não é linear. É claro que não se deve subestimar o significado e as implicações da condenação histórica dos golpistas. Mas não se pode, ao mesmo tempo, acreditar que a democracia no país está consolidada e não corre mais riscos. “Rir, antes da hora, engasga”, nos ensina Riobaldo.

 

Os embates das últimas semanas mostraram que este é um jogo muitíssimo aberto. A começar por Tarcísio de Freitas, todos os nomes da direita que alimentam a intenção de suceder a Lula estão comprometidos com a anistia a Bolsonaro. Anistiar significa consagrar, mais uma vez, a velha impunidade e encorajar a extrema direita a retomar seu projeto de destruir a democracia a conta-gotas, a exemplo do que Donald Trump está fazendo nos Estados Unidos, ou na porrada, como conhecemos bem. Bolsonaro é a prova empírica de que os caminhos não são excludentes.

A disputa não se limita à Presidência. Em entrevista recente ao jornal Valor Econômico, a ministra Simone Tebet disse com clareza: “Na eleição de 2026, o Senado vai ser o baluarte da democracia. Sabemos o projeto que a extrema direita tem para o Brasil, que é colocar o Poder Judiciário sob jugo da política. Então, em função disso, a princípio, eu sou candidata ao Senado.” A titular do Planejamento cogita se candidatar por São Paulo, com o aval de Lula e do PT. Cada estado elegerá dois senadores em 2026.

 

Dias antes da sentença do STF, milhares de pessoas saíram às ruas em defesa de Bolsonaro. Escolheu-se o Sete de Setembro, nosso Independence Day, para protestar contra o Supremo e reivindicar a anistia aos golpistas. Houve manifestações em quase todos os estados. No Rio, mais de 40 mil pessoas foram a Copacabana, onde o governador Cláudio Castro discursou. São Paulo também reuniu mais de 40 mil manifestantes, que puderam testemunhar Tarcísio dizer, do alto do carro de som, que “ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes”.

 

O empenho do governador em aderir à narrativa golpista e engrossar o caldo da perseguição a ministros do STF e das retaliações de Trump ao Brasil só teve rival, em matéria de entreguismo e vassalagem, na cena grotesca, até para os padrões bolsonaristas, da imensa bandeira dos Estados Unidos aberta em frente ao Masp, em plena Avenida Paulista, como sinal de luta… patriótica!

O disparate deu ensejo para que, duas semanas depois, manifestantes do campo progressista estendessem, no mesmo endereço, uma gigantesca bandeira do Brasil, no ato público que protestou contra a PEC da Blindagem e contra a aprovação, também pelos deputados, da urgência para votar um projeto de anistia aos condenados pelos atos golpistas. O contraste entre as duas imagens falou por si.

Sem a indignação deflagrada pela emenda constitucional que pretendia conceder aos parlamentares uma espécie de passaporte para roubar, é muito provável que a mobilização do dia 21 não tivesse incendiado o país na escala em que ocorreu. Na esteira da pressão das ruas, o Senado enterrou por unanimidade a PEC da Bandidagem.

 

Ficou, como saldo, o registro histórico: foi a direita que quis, foi a direita que fez. Celso Rocha de Barros, parceiro de Foro de Teresina, o podcast de política da piauí, disse no programa o óbvio que ninguém diz: a tentativa de blindagem não foi obra “da Câmara” ou “da classe política”; foi obra da direita, com ajuda significativa do centro e de alguns votos do PT. Apontar isso não é ter viés de esquerda, omiti-lo é que é ter viés de direita.

Mais de 90% dos parlamentares dos partidos de direita votaram a favor da couraça da impunidade. Um dos grandes receios dos marmanjos são as investigações sobre a roubalheira embutida no orçamento secreto, prática que correu solta no mandato de Bolsonaro, sob a batuta de Arthur Lira. Não por acaso, o deputado alagoano havia tentado aprovar a PEC da blindagem assim que assumiu a presidência da Câmara, em 2021. Em vão.

 

Ao menos por ora, a direita perdeu a batalha em duas frentes que nos últimos anos, ou décadas, lhe deram ampla vantagem sobre a esquerda. Primeiro, a defesa da pátria. Ficou difícil a vida de quem diz “Brasil acima de tudo” com a cabeça coberta pela bandeira americana num momento de ataque contra o país.

A entrada de Trump em cena aproximou a luta política brasileira do enredo de Bacurau, o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, de 2019. Eduardo Bolsonaro orna no papel de lacaio, ou mercenário, a serviço do vilão externo contra a cidade (alegoria da nação) que se arma de volta para não sucumbir aos invasores e preservar sua soberania.

Além de perder a posse simbólica da bandeira, a direita sofreu outro revés na agenda ética, em torno da qual se concentrou o grosso das críticas a Lula pelo menos desde o mensalão, em 2005, passando pelo petrolão e pela Lava Jato.

No longínquo ano de 2000, então presidente de honra do PT, Lula ainda podia escrever um artigo intitulado A honestidade como vantagem comparativa, publicado na Gazeta Mercantil. Naquele ano, Marta Suplicy seria eleita prefeita de São Paulo, derrotando Paulo Maluf, a quem então se associava o slogan “Rouba, mas faz”, originalmente inspirado na figura do ex-governador Ademar de Barros.

Como se sabe, o artigo virou peça de museu, mas, tantos anos depois, e depois de um longo período de “desvantagem comparativa”, Lula tem a chance histórica de se beneficiar da armação ilimitada da direita, que negocia impunidade aos ladrões em troca de anistia aos golpistas e vice-versa.

 

É muito sintomático, neste momento, o ressurgimento (ou a tentativa de ressurreição) da turma que conspirou para a queda de Dilma Rousseff a fim de promover o que Romero Jucá chamou à época de grande acordo nacional, “com Supremo, com tudo”, um eufemismo para abortar os efeitos da Lava Jato sobre a classe política depois de cumprida sua finalidade (derrubar a presidente e tirar Lula do páreo).

A imagem da reunião recente entre Paulinho da Força, Aécio Neves e Michel Temer na casa do ex-presidente é o retrato do que se pode chamar de “uma ponte para o passado”. Em 2016, Temer falava em governo de “salvação nacional”. Agora, a palavra de ordem é a “pacificação” do país.

Por trás da retórica ornamental, que busca conferir dignidade à acochambração de interesses escusos, o que se pretende aqui é substituir a proposta de anistia pela redução das penas impostas aos golpistas e, no limite, evitar que Bolsonaro tenha que saborear seu condensed milk em regime fechado.

Não satisfeito com as atribulações de sua vida de lobista, Temer encontra tempo para atuar como um bolsonarista de casaca. Ele, Aécio, Paulinho e outros tantos macunaímas morais que povoam o Congresso estão brincando mais uma vez com a democracia, a pretexto de preservá-la. O Brasil não precisa de anistia, não precisa nem deve negociar o relaxamento da punição aos golpistas para se pacificar. O Brasil precisa encontrar mais liberais como Simone Tebet.

Fernando de Barros e Silva
Fernando de Barros e Silva

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