Bolsa de relações: na coluna da esq. (de cima para baixo), o ministro do STF Kassio Nunes Marques, Fernando Oliveira Lima e o senador Ciro Siqueira; na coluna da dir. (de cima para baixo), Gusttavo Lima, Ernildo Junior e Antonio Rueda Credito: MONTAGEM DE BETO NEJME COM FOTOS: KASSIO N. MARQUES_ASS COM TRF-1/ FERNANDO O. LIMA_ REPRODUÇÃO INSTAGRAM/CIRO NOGUEIRA_DIVULGAÇÃO PP/ GUSTTAVO LIMA DIVULGAÇÃO/ ERNILDO JÚNIOR_DIVULGAÇÃO/ANTONIO RUEDA DIVULGAÇÃO UNIÃO BRASIL
A república do Tigrinho
No balaio das casas de aposta cabem políticos, juízes, artistas e bicheiros
Alessandra Medina e João Batista Jr. | Edição 226, Julho 2025
São raras as vezes em que uma CPI é criada no Congresso Nacional sob um clima de tamanha expectativa. Na terça-feira, dia 12 de novembro de 2024, a CPI das Bets saiu do papel com a promessa de estremecer as bases da jogatina online. Nas palavras inscritas na sua certidão de nascimento, a comissão vinha para “investigar a crescente influência dos jogos virtuais de apostas online no orçamento das famílias brasileiras, além da possível associação com organizações criminosas envolvidas em práticas de lavagem de dinheiro, bem como o papel de influenciadores digitais na promoção e divulgação das atividades”. Era uma missão gigantesca considerando que o universo do jogo online, entre casas de apostas legais e ilegais, movimenta quantias fabulosas de bilhões e bilhões de reais por mês.
Os trabalhos da CPI começaram em ritmo industrial. Já na segunda reunião, realizada em 19 de novembro, os senadores convocaram 57 pessoas para depor e convidaram mais de 70 para prestar esclarecimentos, incluindo especialistas do mundo das finanças, das leis e da saúde mental. Também aprovaram 37 pedidos de Relatórios de Inteligência Financeira, os temidos RIFs, que reúnem transações bancárias suspeitas de uma pessoa ou uma empresa. Nesta primeira leva, a CPI pediu RIFs das principais casas de aposta, incluindo gigantes como a Esportes da Sorte, cujo dono é herdeiro de um império do jogo do bicho em Pernambuco, e convocou para depor investidores do ramo, como Fernando Oliveira Lima, da One Internet Group (OIG), conhecido como Fernandin OIG. Tudo indicava que a CPI jogaria pesado.
Na terceira reunião, outra leva de pedidos: 24 convites, 1 RIF e 1 convocação, a do cantor sertanejo Gusttavo Lima, que foi alvo de um pedido de prisão, depois revogado, no âmbito de uma investigação sobre lavagem de dinheiro da Esportes da Sorte. Na quarta sessão, em 3 de dezembro, o fôlego aumentou: 17 RIFs, 6 convites, 3 convocações, mas alguma coisa começou a mudar. Os pedidos, que antes eram imediatamente ratificados, começaram a não ser sequer apreciados. Na quinta sessão, uma semana depois, a mudança se consolidou: houve 99 pedidos de RIFs e nenhum foi analisado. Em 17 de dezembro, na sexta reunião, a CPI já parecia ter adotado outro rumo, tal a paralisia que tomava conta dos trabalhos.
No dia 12 de junho passado, depois de sete meses de existência, a CPI colocou em votação o seu relatório final – e tudo terminou como se nem tivesse começado. Pela primeira vez na última década, o relatório final de uma CPI foi rejeitado no Senado. Quatro senadores votaram contra. São eles: Angelo Coronel (PSD-BA), Efraim Filho (União-PB), Professora Dorinha Seabra (União-to) e Eduardo Gomes (PL-TO), ex-líder do governo de Jair Bolsonaro. Três votaram a favor: Eduardo Girão (Novo-CE), Alessandro Vieira (MDB-SE) e a relatora Soraya Thronicke (Podemos-MS).
O relatório de Thronicke apresentava dezenove projetos de lei para conter os danos provocados pelas apostas virtuais. Entre eles, havia um projeto que proibia jogos semelhantes a caça-níqueis, incluindo o Fortune Tiger, que ficou famoso como o Jogo do Tigrinho e tornou-se símbolo tanto da febre dos jogos quanto dos seus malefícios. Outro projeto proibia apostas de quem está no CadÚnico, o cadastro do governo que identifica famílias de baixa renda, para evitar que parte do dinheiro pago a inscritos em programas sociais fosse para o ralo da jogatina. (Um estudo do Banco Central revelou que, apenas em agosto do ano passado, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família gastaram 3 bilhões de reais em apostas via Pix.)
O relatório rejeitado pedia ainda o indiciamento de dezesseis pessoas. Entre elas, estava Fernandin OIG, por suspeita de lavagem de dinheiro e associação criminosa. Estavam também figuras conhecidas do mundo digital, como Virginia Fonseca, a influenciadora cujo contrato com a Esportes da Sorte previa o chamado “cachê da desgraça alheia”. Pelos termos dessa cláusula, a influenciadora recebia 30% de tudo o que os apostadores perdiam no jogo. Outro nome na lista era a influenciadora Deolane Bezerra, que foi acusada de lavar dinheiro para as bets. Convocada duas vezes pela CPI, Bezerra obteve no Supremo Tribunal Federal (STF) o direito de não dar as caras.
Encerrada sem relatório final, a CPI nada fez sobre a “crescente influência dos jogos virtuais no orçamento das famílias brasileiras”, sobre “organizações criminosas” ou sobre o papel dos “influenciadores digitais na promoção e divulgação” da jogatina. No entanto, entre o começo tão promissor e o fim tão melancólico, a cpi deixou entrever uma aliança poderosa dos donos da jogatina online com certos políticos, certos juízes, certos artistas e certos bicheiros. Nem todos atuando à luz do dia.
No início da tarde de sexta-feira, 22 de novembro, enquanto almoçava com amigos em Brasília, a senadora Soraya Thronicke recebeu um telefonema perturbador. O presidente da CPI, Doutor Hiran (PP-RR), queria lhe dar um recado. De início, a senadora achou que era coisa amistosa. Afinal, Hiran, especializado em oftalmologia, além de seu amigo, foi também seu cirurgião quando ela teve um distúrbio nos olhos. Dada a confiança que tinha nele, a senadora se empenhara para que Doutor Hiran emplacasse como presidente da CPI. Queria um aliado no cargo. Mas, naquela tarde, algo estranho aconteceu.
Doutor Hiran avisou que seria impossível ouvir o empresário Fernandin OIG na CPI, porque ninguém conseguia encontrá-lo para que fosse notificado de sua convocação. Já se sabia que o empresário é dono da 7Games.bet, a quinta casa de apostas online mais popular do Brasil, com 120 milhões de acessos mensais e um enorme cardápio de jogos, cerca de 5 mil. O que estava – e ainda está – obscuro é a suspeita de que Fernandin oig tenha recorrido a operações ilícitas para abrir as portas ao Tigrinho no país, jogo que hoje é oferecido por quase todas as casas de aposta. A sede da PG Soft, a dona do Tigrinho, fica no paraíso fiscal de Malta.
Depois de ouvir o recado de Hiran, Thronicke lamentou o sumiço do empresário, mas não era a primeira vez que levava bolo dele. Quando presidia a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, a senadora também tentou – sem sucesso – convocá-lo para uma audiência pública. Thronicke encerrou o telefonema e, quando comentou o caso no almoço, uma amiga a interrompeu. Disse que, ao contrário do que informara Doutor Hiran, Fernandin OIG estava em local certo e sabido. Havia estacionado seu jato Gulfstream no Aeroporto de Brasília e, naquele momento, almoçava com o ministro Kassio Nunes Marques, do STF.
A senadora arregaçou as mangas. Ligou para o chefe da polícia do Senado, Alessandro Morales Martins. Disse que precisava notificar Fernandin OIG e havia a informação de que o empresário estava em Brasília. O policial confirmou que o jato do empresário estava na capital e acionou a Polícia Federal, a força autorizada a entrar nos aeroportos. Às 20h15, o chefe da polícia ligou para a senadora e informou que o trabalho estava concluído: Fernandin OIG havia sido notificado de sua convocação no próprio aeroporto. Ficou a impressão de que Doutor Hiran estava tentando evitar a presença do empresário na CPI. Em conversa com a piauí, ele se justificou. “Eu fui informado que ele não estaria [localizável].” Mas quem lhe deu a informação errada? O senador não disse.
Na véspera do seu depoimento, Fernandin OIG pediu um habeas corpus no Supremo para não comparecer à CPI. A ministra Cármen Lúcia mandou que depusesse, mas lhe concedeu o direito de manter-se em silêncio. No dia seguinte, acompanhado de seu advogado, o criminalista João Paulo Boaventura, o empresário depôs durante uma hora e meia. Não recorreu ao direito de ficar calado. Negou ser dono ou sócio do Tigrinho e disse que o verdadeiro problema das apostas online são os sites piratas. Não soube informar com precisão o faturamento de sua casa de aposta – que, além da 7Games.bet, opera a R7.bet e a Betão.bet –, e estimou o valor anual em cerca de 200 milhões de reais.
O depoimento acabou com dúvidas e imprecisões, mas seu comportamento na CPI chamou mais atenção do que as informações. Enquanto falava, Fernandin oig olhava constantemente na direção de Ciro Nogueira, o senador do Piauí que preside o Progressistas (PP) e estava sentado na primeira fila. A certa altura, a senadora Thronicke reclamou da dificuldade de notificar o empresário. “A gente não consegue intimá-lo. Não sei por que o senhor é tão difícil. É mais fácil encontrar o papa”, ironizou. Ciro Nogueira interrompeu e disse que não era verdade. Deu-se o seguinte diálogo:
– O senhor está dizendo que eu estou mentindo? – quis saber a senadora.
– Estou dizendo que não é verdade que seja difícil encontrá-lo – respondeu Nogueira.
– Para mim, é. Para o senhor deve ser fácil – cortou a senadora.
De fato. Na noite de 22 de maio passado, por exemplo, Ciro Nogueira embarcou no Gulfstream de Fernandin para assistir à corrida de Fórmula 1 em Mônaco, conforme revelou reportagem publicada no site da piauí. Não há nada de errado na amizade de um parlamentar com um empresário, mas, como o senador integra uma CPI que investiga esse mesmo empresário, a revelação da viagem – realizada enquanto a CPI ainda funcionava – agitou as redes sociais, que pediram uma explicação de Ciro Nogueira. Ele nunca falou publicamente sobre o assunto. Na CPI, no entanto, não escondeu seus laços com o empresário. “Conheço ele há muito tempo”, disse. Na mesma sessão, prometeu levá-lo para depor novamente, se fosse necessário. “Me comprometo aqui com a CPI caso decidamos trazê-lo de volta.”
Fernandin depôs na condição de testemunha. Logo depois, a CPI recebeu documentos que levantaram novas suspeitas sobre seus negócios. O empresário, então, foi convocado para depor novamente, desta vez na condição de investigado. Apesar das garantias oferecidas por Ciro Nogueira, ele nunca mais voltou à CPI.
Assim que os novos documentos chegaram, uma operação abafa ganhou fôlego. Alguns parlamentares assumiram a trincheira em defesa das empresas de aposta. “Os senadores cancelaram sessões, além de não comparecerem para não dar quórum”, diz o senador Eduardo Girão, que entrou na CPI depois da desistência de seu colega Marcos Rogério (PL-RO). “Dezenas de requerimentos nem foram examinados. Daí o Marcos Rogério jogou a toalha e eu entrei no lugar dele.” Girão conta que Doutor Hiran, o presidente da CPI, falava às claras que não iria colocar os requerimentos para votação. Hiran nega. “Muitos requerimentos eram control C [copiar], control V [colar], não tinham subsídios técnicos”, diz. “Eu chamei a atenção para que fossem individualizados. Conduzi a coisa com parcimônia, respeitando todos.”
Na prática, deu-se um movimento de sabotagem. Um senador fazia o papel de defensor de um suspeito, outro senador operava para que o suspeito não fosse localizado, e outros boicotavam as sessões e as pautas. Diante disso, a senadora Thronicke começou a pedir informações aos órgãos oficiais a partir do seu gabinete, e não mais nas reuniões da CPI. Assim, garantia que os dados ficassem restritos ao grupo de sua confiança. Advogados começaram a ficar tensos com a falta de informação e um clima de pânico se espalhou entre alguns investigados. Fazia sentido.
Quando a CPI recebeu alguns RIFs, as novas suspeitas apareceram na forma de conexões financeiras antes desconhecidas. As transações bancárias de Fernandin, por exemplo, ajudavam a explicar o nervosismo dos advogados e as razões pelas quais o senador Ciro Nogueira não levou seu amigo de volta à CPI. Por receio das ameaças que vinha recebendo, a senadora Thronicke não incluiu os dados oficiais dos RIFs no relatório final. Mas a piauí teve acesso ao seu conteúdo. E, em meio à papelada, há uma coleção de informações que sugerem relações suspeitas.
O RIF de Fernandin mostra que seu patrimônio evoluiu enormemente entre 2022 e 2023: passou de 36 milhões para 143 milhões de reais, um crescimento de 300%. É possível ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo dentro da legalidade, como acontece, por exemplo, com quem acerta na loteria ou recebe uma herança polpuda. Os autores do relatório financeiro, no entanto, não encontraram uma explicação plausível para a fortuna de Fernandin. O documento que encerrou a CPI afirma que a fortuna do empresário contém “indícios de incompatibilidade patrimonial e ausência de comprovação da origem lícita dos recursos”.
Uma operação chamou a atenção. Em 2022, Fernandin comprou um apartamento por 500 mil reais no bairro São Cristóvão, em Teresina. Pouco depois, decidiu comprar mais dois apartamentos no mesmo prédio, por 525 mil cada um. O que despertou a atenção nessas transações é que um dos sócios da incorporadora do edifício em São Cristóvão chama-se Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, que pertence ao senador. “Nunca ouvi falar dessa compra!”, exclama Ciro Nogueira. “Não tenho nada a ver com isso.” O senador explica que sua família é dona da empresa, da qual ele é também sócio, mas quem administra é seu irmão. Fernandin não mora em nenhum dos três imóveis, mas numa cobertura no bairro Horto Florestal, um dos mais ricos de Teresina.
Há outras curiosidades imobiliárias. No ano passado, Fernandin comprou uma sala comercial de quase 500 m2 em Alphaville, nos arredores de São Paulo, por 3,7 milhões de reais. O curioso é que o valor venal atribuído ao imóvel era de apenas 450 mil reais. Ao constatar tamanha diferença, o cartório de Barueri, onde fica Alphaville, comunicou a operação atípica ao Coaf, o órgão do Ministério da Fazenda que combate a lavagem de dinheiro. A piauí teve acesso à matrícula do imóvel e descobriu outra curiosidade. Três meses depois da compra por 3,7 milhões, a sala foi transferida à OIG Capital, de propriedade do próprio Fernandin, por nada menos que 7 milhões de reais. A valorização, de 88% em três meses, fortalece a suspeita de que a transação é parte de uma operação de lavagem de dinheiro.
Também apareceram incompatibilidades nas contas de Erlan Lima Oliveira, primo de Fernandin e sócio da OIG Gaming Brazil, que faleceu recentemente. Entre 1º e 19 de julho do ano passado, o primo recebeu 200 mil reais, que foram integralmente transferidos para terceiros no mesmo período – e de forma fracionada. É outra movimentação atípica. Além disso, o primo mantinha investimentos superiores a 1 milhão de reais na corretora XP, mas só começou a declarar Imposto de Renda em 2023, além de ter recebido o auxílio emergencial, o benefício criado pelo governo para ajudar grupos vulneráveis na pandemia. Entre 2022 e 2023, o patrimônio do primo desabrochou: saltou de irrisórios 162 reais para 1,8 milhão.
Outro RIF, ao qual a piauí também teve acesso, mostra que, entre dezembro de 2023 e setembro do ano passado, Fernandin remeteu 625 mil reais para Victor Linhares de Paiva, ex-assessor do senador Ciro Nogueira. O relatório informa que nesse mesmo período o ex-assessor transferiu mais de 30 mil reais para a conta do próprio senador. Ciro Nogueira disse à piauí que o valor corresponde ao reembolso de uma reserva de um hotel em Capri, na Itália. “Eu desisti da viagem e transferi para Victor a reserva que já estava paga, e ele me ressarciu, depositou na minha conta.” (Consultado pela piauí, o hotel, Quisisana, disse que não fornece informações sobre clientes.) Ciro Nogueira também disse que perguntou ao ex-
assessor por que recebeu 625 mil do empresário. “Ele me disse que foi um relógio que vendeu para Fernandin. Eu ainda disse: ‘Relógio caro esse!’ E ele me disse que era um Richard Mille e que estava tudo no Imposto de Renda dele e do Fernandin.”
Naquele período de dezembro de 2023 a setembro do ano passado, Victor de Paiva recebeu créditos que somaram 2,8 milhões de reais em sua conta, já incluídos os 625 mil de Fernandin. Segundo os documentos, ele transferiu ou fez pagamentos que totalizaram 3 milhões de reais, valor superior aos créditos que recebeu. Em 2020, Paiva, então com 34 anos, concorreu a vereador em Teresina pelo Progressistas (PP), o partido de Ciro Nogueira. Com 3 426 votos, virou suplente. Hoje é secretário de Articulação Institucional do prefeito de Teresina, Silvio Mendes (União).
Depois de depor na CPI, Fernandin tentou uma aproximação com a senadora Thronicke e pediu ajuda para um assessor de Ciro Nogueira. Recorreu a Victor Luiz de Oliveira Freitas, que exerce o cargo de “assistente parlamentar pleno” no gabinete do senador. Os dois, empresário e assessor, visitaram o lobista Silvio de Assis, cujo currículo inclui investigação e prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e venda ilegal de registros sindicais. A dupla pediu ao lobista, que vive há mais de 25 anos em Brasília, para marcar um encontro com Thronicke. Assis não topou a empreitada.
Os dois recorreram então à deputada federal Renata Abreu, presidente do Podemos, o partido de Thronicke. Apresentaram o mesmo pleito. Abreu telefonou para a senadora, que, em razão de seu cargo de relatora da CPI, disse que não receberia ninguém vinculado a casas de aposta. Fernandin não desistiu. Procurou o secretário do Podemos, Luiz França, tentando uma última cartada. Também não deu certo. A piauí perguntou a Fernandin o que pretendia conversar com Thronicke, mas ele preferiu não dar entrevista.
O certo é que os dados dos RIFs mostram que o empresário é bastante conectado com outros nomes que foram convocados para depor na CPI. No depoimento, Fernandin foi indagado se tinha negócios com o cantor Gusttavo Lima. Ele respondeu que não. Mas os documentos mostram que, entre 2023 e 2024, uma de suas empresas, a One Internet, despachou oito cheques, que somaram 1,8 milhão de reais, em favor de uma empresa da qual Gusttavo Lima é sócio, a N & R Empreendimentos e Participações. Os cheques chamaram a atenção dos analistas porque a One Internet já foi investigada sob suspeita de fraudes e lavagem de dinheiro de jogos e apostas esportivas ilegais, mas o caso acabou arquivado em razão de irregularidades nos procedimentos jurídicos.
Com frequência, os personagens das bets transitam num universo povoado de suspeitas. Por exemplo: os RIFs mostram que Gusttavo Lima também é dono da Balada Eventos e Produções, que, numa única transação, transferiu 8 milhões de reais à Supermercados BH Comércio de Alimentos. Um dos donos da Supermercados BH é Waldir Rocha Pena, que foi investigado sob suspeita de integrar uma organização criminosa envolvida em corrupção, emissão de notas fiscais frias, fraudes e lavagem de dinheiro no Ministério da Agricultura. (A Supermercados BH, por meio da assessoria, não detalhou a transferência de 8 milhões, mas disse que suas relações comerciais com Gusttavo Lima são “absolutamente lícitas, regulares e transparentes” e garantiu que nenhuma transação tem “relação com apostas ou qualquer atividade similar”.)
Fernandin OIG vem de uma família pobre em Teresina e tem apenas 34 anos. É um sucesso precoce. Começou a carreira agendando shows para o humorista Whindersson Nunes, que ainda vivia seus tempos de vacas magras e poucos seguidores. “Comecei a atuar no mercado de tecnologia em 2008”, disse ele na CPI. Trabalhou com jogos de RPG, depois com um jogo de perguntas e respostas dentro do Facebook e, durante a pandemia, investiu em aplicativos que fazem simulações – um mostrava como a pessoa ficaria na velhice, outro simulava como seria o rosto do filho de um determinado casal. Nessa trajetória, Fernandin enriqueceu e tornou-se um homem bem relacionado.
No mundo jurídico, suas conexões ficaram claras durante seu depoimento na CPI. Em dado momento, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), vice-presidente da CPI, quis saber sobre a amizade de Fernandin com o ministro Nunes Marques, com quem o empresário almoçava no dia em que foi notificado. “Quem?”, perguntou Fernandin. O senador explicou que falava do ministro do STF. “Ah, Kassio!”, exclamou o empresário. “É porque todo mundo [aqui] chama de Nunes Marques, mas eu conheço ele como Kassio. Kassio é amigo meu, de mais de dez anos atrás, de lá do Piauí, de panelada, de comer buchada de bode e galinha caipira.” Para se certificar de que falavam da mesma pessoa, o senador continuou:
– Kassio era juiz federal do TRF da 1ª região? – perguntou, referindo-se ao cargo que Nunes Marques exerceu em Brasília antes de tornar-se ministro do Supremo.
– Aí, eu não sei – disse o empresário.
– O senhor conheceu ele na buchada?
– Isso.
– Temos um milionário e um ministro do Supremo na mesma buchada! Está vendo? Que alegria! – ironizou o senador.
Em seguida, o senador perguntou se Fernandin confirmava ter dado carona em seu avião para o ministro comparecer à festa de aniversário de Gusttavo Lima, na Ilha de Mykonos, na Grécia. O empresário confirmou. A piauí perguntou ao ministro Nunes Marques quando ele conheceu Fernandin, se haveria algum conflito de interesse entre julgar temas relacionados às bets no Supremo e ser amigo de um dono de casa de apostas ao ponto de viajar em seu jatinho e, por fim, se o almoço entre os dois em Brasília tratou de assuntos públicos ou privados. Em nota, a assessoria do ministro afirmou: “Nos casos de impedimento ou suspeição, previstos em lei, o ministro do Supremo Tribunal Federal Nunes Marques segue o que estabelece a Lei Orgânica da Magistratura.” Nada foi dito sobre o almoço, nem sobre a amizade com o empresário.
O cardápio de relações de Fernandin com os togados vai além do ministro do STF. Ele cultiva essas amizades e faz questão de exibi-las nas redes. É bastante próximo do desembargador Erivan Lopes, corregedor-geral da Justiça no Piauí. “O Erivan é tipo um pai para Fernandin”, confirma o senador Ciro Nogueira. Numa triangulação aparentemente casual, aquele primeiro apartamento que Fernandin comprou por 500 mil reais – e foi construído pela incorporadora de Ciro Nogueira – pertencia ao desembargador. Em nota à piauí, Erivan Lopes afirmou que suas “relações pessoais com qualquer cidadão não se confundem com sua atuação jurisdicional”. Mas, como o mundo é pequeno, essas triangulações acabam se multiplicando.
Por exemplo. Fernandin estabeleceu a sede de um braço de seu grupo, a OIG Gaming Brazil, no interior do Piauí, na pequena Santo Antônio de Lisboa, com 6 mil habitantes. O vilarejo é a cidade natal do desembargador Erivan Lopes. Como fica a 355 km de Teresina, onde estão as demais empresas de Fernandin, a escolha de um local tão distante pareceu um erro estratégico. Mas, no dia 3 de fevereiro, o Diário Oficial de Santo Antônio de Lisboa trouxe a resposta: havia uma lista de favores, reduções e isenções tributárias que a prefeitura se comprometia a conceder para a OIG Gaming Brazil. A prefeitura é comandada por Erivaldo Lopes (PT), que vem a ser irmão do desembargador. E, como que provando a pequenez do mundo, o prédio que a OIG Gaming Brazil aluga em Santo Antônio de Lisboa pertence a Ana Francisca da Silva, a mãe da dupla Erivan e Erivaldo.
Em um perfil nas redes, Fernandin aparece em um vídeo na companhia do desembargador cantando e tomando uns bons drinques em um barco, em Angra dos Reis, no litoral do Rio. Ele também é próximo do juiz Valdemir Ferreira Santos, da Central de Inquéritos de Teresina. Certa vez, Santos analisou uma causa em que um operador de som, Felipe Costa Feitosa, era acusado de difamar Fernandin nas redes sociais. O juiz não se declarou suspeito para julgar o caso em razão da amizade com o empresário e determinou que o acusado passasse a usar tornozeleira eletrônica.
(A atuação das bets já resultou em suspeição dentro do próprio Judiciário. A Corregedoria Nacional de Justiça, que examina denúncias contra magistrados, pediu explicações sobre a atuação do juiz Itagiba Catta Preta Neto, da Justiça Federal em Brasília. Havia a suspeita de que o grupo BPX, dono da VaideBet, ObaBet e BetPix365, vinha se valendo do regime de plantão dos juízes para que suas ações caíssem nas mãos de Catta Preta. Na condição de plantonista, o juiz analisou pelo menos dois casos da BPX, um numa sexta-feira à noite e outro num domingo de manhã. As duas decisões foram favoráveis ao grupo. A Corregedoria Nacional de Justiça ainda investiga o caso.)
Com sua carreira fulminante, Fernandin é hoje dono de pelo menos sete empresas e gosta de divulgar uma rotina de ostentação. Em seu perfil no Instagram, ele aparece posando sentado sobre o capô de uma Lamborghini verde-limão, em iates no Caribe e em litorais da Europa. Nisso, ele não é uma exceção. É a regra. Deolane Bezerra, a influenciadora, por exemplo, só entrou na mira da polícia quando postou na sua conta do Instagram que havia comprado uma Lamborghini Urus por 3,4 milhões de reais.
José André da Rocha Neto, sócio da VaideBet, ostenta menos, mas a Polícia Civil de Pernambuco investigou suas atividades e encontrou gastos suspeitos com grifes famosas, como a francesa Hermès e a italiana Dolce&Gabbana. Em apenas dois anos, entre maio de 2021 e maio de 2023, o empresário e sua mulher, Aislla Sabrina Truta Henriques Rocha, desembolsaram 3,7 milhões de reais em compras nas duas marcas, segundo atestam notas fiscais obtidas pela polícia. Há duas estranhezas nessas aquisições. A primeira é que tudo foi pago em dinheiro vivo.
A segunda é que as marcas de grife aceitaram, sem pestanejar, esses pagamentos em espécie – o que, em volumes mais expressivos, é sempre um claro indicador de fraude. Segundo o relatório policial, a Hermès e a Dolce&Gabbana são suspeitas de envolvimento na receptação de valores possivelmente ilícitos. O relatório policial sugere que as duas marcas incorreram na “teoria da cegueira deliberada”, quando um indivíduo ou uma organização simula ignorar uma irregularidade flagrante e, assim, deixa de comunicar uma operação abertamente suspeita às autoridades competentes.
Na esfera política, Fernandin tampouco é uma exceção. Ele tem planos de se candidatar a deputado federal pelo Progressistas, do amigo Ciro Nogueira, mas está longe de ser o único tigrinho atrás de poder político. Ernildo Junior de Farias Santos, dono da Pixbet, pode ser considerado um pioneiro nesse campo. Em 2012, em Campina Grande, Ernildo Junior, como é conhecido, começou a fazer apostas online num salão de sinuca. Usava o nome da Sportingbet, casa de apostas inglesa, mesmo sem ter a devida licença. Ao longo dos anos, o negócio foi crescendo e, a partir de 2018, já com sede no paraíso fiscal de Curaçao, virou um fenômeno nacional. Em 2021, Ernildo Junior adotou o novo nome de Pixbet.
Hoje, a casa de apostas tem autorização para operar em todo o país. É patrocinadora do Flamengo, em um contrato de 470 milhões de reais por quatro anos. Enfronhada no universo do futebol, a Pixbet também patrocina o Avaí de Santa Catarina, o América de Minas Gerais e o Goiás, além do time do coração de Ernildo Junior, o Serra Branca Futebol Clube da Paraíba. Apesar da autorização para funcionar, a Pixbet enfrenta quatro processos de fiscalização. Três já resultaram em abertura de um procedimento para apurar infrações e aplicar sanções. Na investigação, o principal problema são ofertas ilegais, como a promessa de bônus aos clientes.
Na sua trajetória, além do mundo da bola, Ernildo Junior abraçou o mundo político: da política do interior da Paraíba – onde fez o prefeito de sua cidade natal, Serra Branca – à política nacional. Ele tornou-se amigo próximo de Antonio Rueda, presidente do União Brasil. Mas, aparentemente, Rueda hoje em dia prefere manter distância do dono da Pixbet. Consultado sobre sua amizade com Ernildo Junior, ele disse que não é “amigo”, apenas “conhecido”. Embora tenha ido a Serra Branca, onde participou do lançamento da candidatura a prefeito de Michel Alexandre, apoiado por Ernildo Junior, Rueda não lembrou o nome da cidade, nem o nome do prefeito, nem mesmo o partido a que pertence – ainda que a candidatura tenha sido integralmente financiada com dinheiro do União Brasil. Avisado que o prefeito é da legenda que ele preside, Rueda disse: “Deve ser, se você está falando.” Indagado se Ernildo Junior é filiado ao União Brasil, lembrou-se: “Não é. Não é. Se fosse, eu saberia.”
Além da política, Ernildo Junior fisgou um peixe graúdo da advocacia. Quem cuida dos contratos da Pixbet é o advogado Nelson Wilians, conhecido por ostentar sua fortuna pessoal a bordo de jatinhos e iates ao redor do mundo e por se apresentar como dono do maior escritório de advocacia do país, com representantes em todos os estados brasileiros e meia dúzia no exterior. Mas o que quase ninguém sabe é que Wilians já foi sócio de Ernildo Junior, o dono da Pixbet. Em 2023, eles fundaram o XBank, um banco digital com sede em um prédio de alto padrão na Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo. O objetivo do XBank era tornar-se o banco por meio do qual os 10 milhões de clientes da Pixbet pagariam as apostas ou receberiam eventuais prêmios.
O plano acabou não decolando e o XBank foi dissolvido, embora a empresa continue ativa na Junta Comercial. E Ernildo Junior e Nelson Wilians continuam próximos. Além dos contratos da Pixbet, Wilians frequenta as festas do amigo e esteve em seu aniversário na Paraíba. No ano passado, o advogado associou-se à Betvip, aposta online na qual Ernildo Junior é sócio de Wesley Safadão, para patrocinar um evento de música em Ibiza, a ilha espanhola.
Além de tudo, as bets convivem, às vezes intimamente, com outra ilegalidade – o jogo do bicho. Um dos poucos donos de empresas de aposta cujos dados começaram a ser investigados pela CPI é Darwin Henrique da Silva Filho, dono da Esportes da Sorte, casa suspeita de praticar lavagem de dinheiro. Darwin Filho é aquele herdeiro do jogo do bicho em Pernambuco. Tem mais de 2,2 mil bancas no Recife. (O mundo é mesmo pequeno: Darwin Filho foi quem vendeu a Lamborghini de 3,4 milhões para a influenciadora Deolane Bezerra.)
No Rio de Janeiro, a realeza do jogo do bicho também está envolvida com as bets. Segundo a Polícia Federal, o bicheiro carioca Rogério de Andrade, que se encontra preso desde outubro de 2024 por mandar matar um rival, vem investindo em cassinos online. Em 2022, durante uma operação de busca e apreensão em sua casa em Petrópolis, a polícia encontrou provas de que Rogério de Andrade mantinha um site de apostas denominado Headsbet.
Em fevereiro do ano passado, segundo investigação do Ministério Público, a máfia da contravenção no Rio de Janeiro também mandou assassinar a tiros – e em plena luz do dia – o advogado Rodrigo Marinho Crespo, no momento em que deixava seu escritório, no Centro da cidade. Crespo representava os interesses do site Apostou.com, que já havia obtido a licença da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para operar. O MP suspeita que o assassinato foi um “recado” dos bicheiros para dizer que não aceitam concorrência.
A CPI também encontrou conexões obscuras das bets com o futebol, mas tudo indica que viu apenas a ponta do iceberg. Descobriu quatro transferências, de mais de 5 milhões de reais, em favor da Brax Sports Assets, a maior agência de marketing do futebol brasileiro, que hoje, com as bênçãos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), controla as placas de publicidade nos estádios. As transferências para a Brax foram feitas pela PayBrokers, que intermedeia pagamentos entre apostadores e bets. Por que uma intermediadora de apostas pagou 5 milhões a uma agência de marketing esportivo? A CPI, boicotada pelos seus próprios membros, não achou a resposta.
À piauí, a Brax disse, em nota, que as transferências se referem à aquisição, nas temporadas de 2023 e 2024, de “cotas de patrocínio e publicidade de diversos campeonatos e eventos de futebol profissional”. Ocorre que a Brax, antes de cair nas graças da CBF, vinha atuando com apoio de uma “consultoria paralela” de um executivo da Betano, uma das maiores casas de apostas do mundo e que conseguiu virar a principal patrocinadora do Campeonato Brasileiro de Futebol. Para saber se a Brax foi remunerada para favorecer a entrada da Betano no futebol, a CPI até tentou ouvir Bruno Viana Rodrigues, um dos sócios da Brax. Rodrigues não compareceu à CPI porque estava no exterior e sua convocação nunca foi remarcada. O executivo que prestava a “consultoria paralela” já deixou a Betano, que, contactada pela piauí, disse que não podia comentar o assunto.
Na cronologia do caos gerado pelas empresas de aposta, o marco zero está no governo de Michel Temer, que legalizou as apostas esportivas – apenas elas – em busca de dinheiro para bancar a criação de um ministério extraordinário na área de segurança pública. Deu então um prazo de dois anos para regulamentar o setor. No governo de Jair Bolsonaro, o prazo foi ignorado. Com receio de desagradar os evangélicos, cujos líderes são contra a legalização do jogo, seja por princípios morais, seja para preservar a renda dos fiéis para pagamento do dízimo, Bolsonaro calculou que seria eleitoralmente mais vantajoso não fazer nada – e, no vácuo da sua inércia, as bets pintaram e bordaram.
Legalizadas, mas sem regulamentação, empresas sediadas em paraísos fiscais – Curaçao, Malta, Gibraltar – ampliaram a invasão no Brasil. Contrataram influenciadores como garotos-propaganda à base de cachês milionários e produziram uma onda de vício em jogo só comparável à epidemia das máquinas caça-níqueis nos anos 1990. Além de Virginia Fonseca e Deolane Bezerra, a lista inclui os influenciadores Carlinhos Maia e Maya Massafera, os jogadores Neymar e Vinicius Júnior, o locutor Galvão Bueno, o ator Cauã Reymond. Um dos últimos a aderir à onda foi o apresentador Luciano Huck, que fez propaganda para a Betmgm. (No ano passado, Huck vendeu um iate de quatro andares a Darwin Filho, o dublê de bet e bicho.)
Quando Bolsonaro perdeu a reeleição, o então ministro Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil, que já andava de braços dados com as bets, levou ao então presidente uma proposta de regulamentação. Como já tinha sido derrotado por Lula, Bolsonaro talvez se encorajasse a disciplinar o setor, enfrentando o voto evangélico. Mas Bolsonaro, que maquinava os planos golpistas para se manter no poder, não quis assinar o documento. A baderna continuou.
Na sua proposta, Ciro Nogueira colocava o Ministério dos Esportes no controle das outorgas que as casas de aposta teriam de pagar para funcionar no país. Quando Lula tomou posse, abriu-se uma disputa. O novo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, encarregou seu secretário executivo, Gabriel Galípolo, de solucionar a questão das bets. Galípolo convidou o advogado João Francisco Manssur, coautor da Lei da Sociedade Anônima do Futebol, para integrar sua equipe em Brasília. Manssur entrou na Fazenda com a missão de se debruçar na regulamentação das apostas online.
Ao longo de 2023, Manssur teve quase 560 reuniões com empresários do setor, entidades de classe, advogados e especialistas em saúde pública, que já andavam preocupados com a epidemia de viciados em jogos online. A meta era regulamentar o setor ainda no primeiro ano de governo. Um projeto de lei sobre o tema passou pela Câmara e o Senado, e novamente voltou para a Câmara com mudanças aqui e ali.
Nas últimas semanas de discussões, uma nova casta de parlamentares entrou na negociação. Eram políticos ligados a bicheiros na Bahia, no Rio de Janeiro e na Paraíba, entre eles o mais notório de todos, o deputado baiano Ângelo Coronel, defensor da legalização do jogo do bicho. Eles se uniram para ampliar o escopo da proposta do governo: além das apostas esportivas, como previa a lei desde os tempos de Temer, queriam incluir os jogos do cassino online. Jogavam com o fato de que, naquela altura, a jogatina virtual já havia inundado o país e ninguém conseguiria colocar o gênio de volta na garrafa.
O Ministério da Fazenda avaliou que, de fato, diante da popularidade de jogos como o Tigrinho, a exclusão das apostas online do projeto manteria 70% do mercado na ilegalidade – e, claro, o governo deixaria de arrecadar impostos. Assim, às 22h30 de 30 de dezembro de 2023, Lula enviou uma medida provisória ao Congresso Nacional regulamentando o setor – todo o setor. A medida previa que as casas de aposta deveriam pagar 30 milhões de reais pela outorga, que dava direito a operar no país. Começava aí a tal disputa.
Com o faro apurado para dinheiro e poder, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), aliado ao então ministro dos Esportes André Fufuca (PP), queria que o Ministério dos Esportes controlasse o pagamento das outorgas – exatamente como previa a proposta original de Ciro Nogueira. No projeto do governo, porém, Manssur criara um programa online no qual as empresas de bets podiam fazer todo o cadastro sem precisar de intermediários. Sua ideia era evitar a criação de um balcão de negócios. Mas Lira não gostou e, para chantagear o governo, começou a boicotar a reforma da Previdência e uma lei que ajudava o setor de eventos, abatido pela pandemia. Em fevereiro de 2024, Lira colheu uma vitória: a demissão de Manssur.
Foi uma vitória de Pirro. O Ministério da Fazenda saiu-se com uma solução engenhosa, bolada pelo advogado Regis Anderson Dudena, chefe da Secretaria de Prêmios e Apostas. Cada empresa de bet teria que ter duas autorizações – a primeira da Fazenda, a segunda do Esporte. Em caso de empate, a decisão final caberia à Advocacia-Geral da União. Como resultado, Fufuca não mudou nenhuma decisão da Fazenda, e não se tem notícia de nenhum balcão de negócios, como pretendia Manssur. Poucas bets tiveram a outorga negada por não comprovar a origem lícita dos 30 milhões, dentre elas a Zeroumbet, de Deolane Bezerra. Hoje, o governo conta com uma equipe de 94 funcionários na Secretaria de Prêmios e Apostas.
As regras do setor – a proibição de marketing mentiroso, da falácia de vender a aposta como “aumento” ou “incremento” de renda, da concessão de bônus para o apostador começar a jogar – estão em vigor desde o início do ano. No entanto, valem apenas para as 118 bets que operam legalmente. Estima-se que elas respondam por 40% do mercado. O grosso do setor está tomado por bets ilegais, que não pagam impostos, não são auditadas, não impedem as apostas de menores de idade, não garantem a segurança dos dados bancários, nem dos pagamentos dos eventuais prêmios.
No Instagram, Mauro Nepomuceno, o rapper Oruam, filho de Marcinho VP, um dos líderes do Comando Vermelho, divulga abertamente sites não regulamentados pelo governo. O rapper promove links e encoraja seus fãs a apostarem em jogos como Tigrinho. (Num único dia, durante a apuração desta reportagem, a piauí identificou quatro sites operando na ilegalidade.) Como são clandestinos, esses sites dependem pesadamente de influenciadores para atrair apostadores. E pagam bem. Oruam não tem cachê fixo. Leva 30% do que o negócio fatura com base nos links que ele promove. Sua média de ganho é em torno de 4 milhões por mês. À piauí, sua assessoria disse que o rapper não poderia se manifestar porque “está em turnê na Europa, o que dificulta um pouco a fluência da comunicação”.
A senadora Soraya Thronicke conta que, como relatora da CPI das Bets, enfrentou “um mercado muito poderoso”. “Não estou triste. A rejeição do relatório final me deu mais força. Saio feliz e tenho a convicção de que meu trabalho não termina aqui. Eu sabia que seria muito difícil. É um mercado muito poderoso. E mercado poderoso compra pessoas. Não se trata mais de um relatório da CPI. Agora, é uma denúncia. No período em que tive poder de política, consegui acesso a informações robustas. Agora, com alguns colegas, vou à Procuradoria-Geral da República, à Polícia Federal, até ao presidente da República. Se os senadores desistirem, irei sozinha. Não sou pizzaiola.”
Pelo visto, além de poderoso, o mercado também é perigoso. Thronicke afirma que recebeu ameaças durante a CPI. Adotou segurança 24 horas por dia. Com medo de ser envenenada, passou a beber água e café que levava de sua própria casa. “Eu tenho medo, claro. Mas se acontecer algo comigo, com alguém da minha família ou do meu gabinete, saiba que esta pessoa tem nome, endereço e foro privilegiado.” Ela não diz a quem se refere, mas, quando fala em “foro privilegiado”, sugere que seja um parlamentar e, possivelmente, um parlamentar que participou da CPI ou de suas sessões.
Nos trabalhos da CPI, seu maior rival foi o senador Ciro Nogueira. Os dois se enfrentaram com frequência. Numa das audiências, a senadora disse que convocaria o “governo Bolsonaro” para saber por que havia permitido que as bets tomassem conta da jogatina virtual. Os ânimos se exaltaram: “Dá para a senhora me explicar por que chamar o governo Bolsonaro?”, indagou o senador. “O governo Bolsonaro tinha dois anos para regulamentar, mas não fez nada”, disse Thronicke. “A senhora acha que isso vai ter algum ganho para o país, senadora? Eu não lhe devo explicações. Daqui a pouco é a senhora que vai ter que prestar muitas explicações aqui.”
A ameaça enigmática ficou clara logo depois da audiência, quando Ciro Nogueira procurou o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para fazer uma denúncia “muito grave”. Disse que um conhecido lobista – no caso, Silvio de Assis, aquele que se recusou a intermediar um encontro entre Thronicke e Fernandin – estava extorquindo empresários do setor de apostas, cobrando 40 milhões de reais para livrá-los de depor na CPI. Ciro Nogueira não disse claramente, mas deixou no ar a suspeita de que Thronicke estaria por trás dos achaques, já que tinha o poder de adiar os depoimentos. Na conversa, o senador disse que a Polícia Federal já estava investigando o caso. Pacheco ouviu, se disse preocupado, mas não tomou nenhuma providência, desconfiado de que se tratava de uma disputa intestina entre o senador e a senadora.
Informada sobre a denúncia pela imprensa, Thronicke ligou para o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e se colocou à disposição. Silvio de Assis mandou um e-mail à PF também se oferecendo para colaborar com a investigação. Consultada pela piauí, a polícia não se manifestou oficialmente, mas fontes da corporação disseram que não há nenhuma apuração nesse sentido. O senador Eduardo Girão propôs a convocação do lobista Silvio de Assis. Doutor Hiran nem colocou a proposta em votação. É um segredo de polichinelo que um depoimento do lobista, figura carismática e bem relacionada, poderia deixar um punhado de senadores sem dormir.
Com tanta influência, tantas ramificações e tanto dinheiro, as bets neutralizaram a CPI do Senado com facilidade. No fim, apenas dezenove pessoas foram ouvidas, uma parte ínfima do total de convocações e convites aprovados. Seis pessoas foram convocadas, não apareceram e ficou por isso mesmo – o cantor Gusttavo Lima foi convocado mas nunca teve seu depoimento marcado. “Me ligava todos os dias pedindo para não ir à CPI”, diz o senador Jorge Kajuru (PSB-GO). A CPI votou 192 pedidos de informações sigilosas. Só metade foi aprovada.
“Não conseguimos ouvir nem os donos das empresas de apostas online”, diz o senador Izalci Lucas (PL-DF), que fez um relatório paralelo de 2 mil páginas para ser apensado ao de sua colega Thronicke. Também pediu indiciamento de donos de bets e influenciadores, mesmo sabendo que não daria em nada. “Houve vários titulares da CPI que nem apareceram por lá, como o Angelo Coronel, o Omar [Aziz] e o Efraim [Filho].”
Os influenciadores que depuseram foram abertamente tietados pelos senadores e, na prática, serviram para deixar a grande maioria dos donos das bets e meios de pagamento convenientemente longe dos holofotes. Virginia Fonseca, fenômeno nas redes com 52,7 milhões de seguidores, depôs por mais de três horas e atraiu uma audiência de 1 milhão de pessoas em tempo real no canal da TV Senado no YouTube. O senador Cleitinho (Republicanos-MG), que nem integrava a CPI, apareceu para dizer à influenciadora que consumia sua marca de vitamina e pedir uma selfie para enviar à sua mulher. Doutor Hiran contou que sua filha é fã da influenciadora. Thronicke não escondeu a alegria quando percebeu que Virgínia começara a segui-la no Instagram. No fim, a influenciadora postou uma foto ao lado dos senadores para agradecer o tratamento que recebeu. (Saiu-se melhor entre os senadores do que entre o público. Quando disse que não sabia que as bets podiam causar vício, passou a perder seguidores, mas não perdeu nenhum contrato com a jogatina. Continua fazendo propaganda da Blaze, uma casa de apostas. Fatura 4,3 milhões por mês.)
“As bets têm influência econômica na sociedade e no Parlamento. Na verdade, elas têm lobby em todos os poderes”, diz Alessandro Vieira, o vice-presidente da CPI. “Sabemos que o jatinho de Fernandin que dá carona para o senador Ciro Nogueira até Mônaco é o mesmo que leva o ministro Nunes Marques para a festa de Gusttavo Lima.”
Antes mesmo do encerramento da CPI, os congressistas deram uma demonstração de que a bancada do Tigrinho começa a rivalizar em poder e influência com outros grupos de interesse, como as chamadas bancadas da bala, do boi e da Bíblia. Uma reportagem de Simone Iglesias e Martha Beck, publicada pela Bloomberg, informou que parlamentares ligados aos donos de bets foram especialmente ativos na oposição à proposta do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que aumenta o imposto das casas de aposta de 12% para 18%. A reportagem informa que a pressão da bancada do Tigrinho produziu uma guinada do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), que abruptamente avisou ao presidente Lula que o aumento do imposto corria o risco de cair.
A pressão foi articulada, além do onipresente Ciro Nogueira, pelos deputados Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL) e Dr. Luizinho (PP-RJ). A ideia inicial da Fazenda era aumentar o imposto das bets para 25%, mas, sabendo da força da bancada do Tigrinho, propôs apenas 18%. Nem assim desarmou a resistência. O aumento de 18% está previsto numa medida provisória, mas, se a MP não for votada no Congresso em até três meses, nem sequer entrará em vigor. A maior parte do dinheiro pago pelas bets vai para o Ministério do Esporte (36%) e o Turismo (28%), duas pastas sob comando do Centrão. Os números mostram que defender as bets explica muita coisa.
E vem mais pressão por aí. Centenas de prefeitos pelo país estão se articulando para criar as “bets municipais”. Apesar da fiscalização do Ministério da Fazenda, já existem cidades burlando a legislação e abrindo as comportas das apostas em nível local. A pequena Bodó, cidade de 2,3 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte, é um exemplo. O prefeito Horison Jose (PL) cobra 5 mil reais pela outorga e nada menos que 38 empresas já obtiveram a licença para funcionar no município.
Tende a ser uma nova avalanche. Durante a Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, realizada em maio passado, 237 prefeitos participaram de um evento pró-bets e manifestaram o desejo de lançar uma casa de apostas da prefeitura. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, já anunciou que pretende criar sua bet. Os prefeitos querem que o Supremo Tribunal Federal autorize que os municípios explorem as apostas nos mesmos termos das autorizações válidas para a operação federal ou estadual. No STF, o assunto está sob análise do ministro Kassio Nunes Marques. Ele mesmo.
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