Da esq. à dir., Paulo Pederneiras, Carmen Purri, Fernando de Castro, Cristina Castilho, Déa Márcia de Souza, Rodrigo Pederneiras, do Corpo, em Milão, em 1979: “Aqui nunca teve primeiro bailarino, solista etc.; todo mundo pode fazer tudo”, diz Purri CRÉDITO: JOSÉ LUIZ PEDERNEIRAS_1979
Pronqovô?
A trajetória do Grupo Corpo, que chega aos 50 anos
Karla Monteiro | Edição 222, Março 2025
Atención, atención, diz o cubano Elias Bouza, ao demonstrar mais uma complicada sequência de passos na sala de ensaios do Grupo Corpo, em Belo Horizonte. “E uno, e dos, e tres”, continua, com o forte sotaque, misturando às vezes espanhol e português. Sobre o amplo palco, os bailarinos se movimentam conforme a contagem melodiosa. Professor de balé clássico, Bouza, de 46 anos, faz parte da velha guarda do Corpo – a turma que se aposentou da ribalta e agora exerce funções nos bastidores. Ele chegou a Belo Horizonte há 25 anos, com uma bagagem e tanto: o peso de ser dissidente do regime cubano e a excelência da formação no Ballet Nacional de Cuba, fundado pela lendária Alicia Alonso, a prima ballerina assoluta, que morreu em 2019, aos 98 anos. “Em Cuba, só tive bons professores em todas as especialidades: moderno, clássico, repertório e dança folclórica”, conta. “Além disso, fiz cinco anos de francês, que é a língua universal do balé.”
No Ballet Nacional de Cuba, Bouza ganhava 148 pesos por mês, o equivalente na época a pouco mais de 5 dólares. “Eu muitas vezes ensaiava o dia inteiro, tendo ingerido apenas um copo d’água com açúcar mascavo”, recorda. Cuba se encontrava em pleno “período especial”, quando perdeu o apoio financeiro da União Soviética, dissolvida em 1991. “Lá, eu não avançaria como bailarino. Também não conseguiria as coisas básicas, como uma casa.”
Em 1998, aos 20 anos, Bouza aproveitou uma turnê do Ballet Nacional pela América do Sul e escapou do seu país. “Planejei cada detalhe. Não tinha volta.” Depois de uma apresentação em Montevidéu, ele deixou o hotel no meio da noite e saiu caminhando, sem olhar para trás. “Levei só uma pequena mochila, com uma calça, duas cuecas, três blusas e dois pares de meia.” Pouco tempo depois, cruzou a fronteira do Uruguai com o Brasil.
Instalou-se no Espírito Santo, onde vivia um professor cubano que lhe havia ensinado balé na infância, Vicente Hernández. Os custos da viagem até Vitória foram pagos por duas escolas de dança da cidade, onde Bouza depois trabalhou por cerca de dois anos. No ano 2000, ele desembarcou em Belo Horizonte, com 50 reais no bolso e um objetivo: o Grupo Corpo. “Logo abriu uma audição, cheguei à final, mas não passei. Aí o coreógrafo Rodrigo Pederneiras me disse que eu podia ficar fazendo aulas. Aproveitei a oportunidade.”
Na mesma época, o Palácio das Artes, uma das principais instituições culturais de Belo Horizonte, abriu audição para a sua companhia de dança – e Bouza conseguiu uma vaga. “Eu vinha para o Corpo de manhã, fazia aula até o meio-dia, e trabalhava a tarde toda na companhia do Palácio das Artes. Ganhava 1,2 mil reais.” (O salário mínimo na época era 150 reais.) No fim de 2000, o Corpo abriu nova audição, e ele entrou, enfim, na companhia. “No Corpo, encontrei respeito: você não é um instrumento, é um ser humano”, diz.
Para que a fuga de Cuba não comprometesse os membros de sua família em Havana, Bouza só se despediu da avó antes de abandonar o país. “Ela me disse que sabia desde sempre que eu não ficaria em Cuba.” O bailarino só reencontrou a mãe, Márcia, em 2015, quando conseguiu trazê-la ao Brasil para vê-lo dançar com o Grupo Corpo. “Ofereci para que ficasse aqui, no Brasil, mas ela não quis, a boba.” Casado com a bailarina Mariana do Rosário, também do Corpo, Bouza conta que em breve vai levar a Cuba suas duas filhas – Luana, de 23 anos, e Nina, de 7. “Elas precisam ver de onde eu vim.”
A sala de ensaios onde o bailarino trabalha fica no terceiro e último piso da sede do Corpo, um pequeno prédio no bairro Mangabeiras, com a fachada coberta de heras, em meio às quais ainda se vê o que restou dos desenhos de animais feitos na parede pelo artista piauiense Rogério Fernandes: um gato, uma zebra, uma baleia… No vaivém das escadas e dos corredores, as gerações se cruzam. Quando Bouza vê Rodrigo Pederneiras, ele aponta: “Esse cara aí foi o primeiro na minha vida que me disse ‘por favor’ quando pediu para eu fazer alguma coisa.”
São seis os irmãos Pederneiras – José Luiz, 74 anos, Paulo, 73, Pedro, 72, Rodrigo, 69, Miriam, 66, e Marisa, 65. Há exatos cinquenta anos, recém-saídos da adolescência e apaixonados por balé, todos eles se juntaram para criar o Grupo Corpo, que mudou a história da dança brasileira, projetando-a internacionalmente.
Hoje, somente dois irmãos seguem na ativa na companhia de dança: Paulo, o diretor-geral e cenógrafo, e Rodrigo, o coreógrafo. Miriam – que foi uma das principais bailarinas do grupo – se dedica ao Corpo Cidadão, braço social da companhia, e ao Grupo Experimental de Dança (GED), que dá aulas para crianças e jovens das periferias de Belo Horizonte. Marisa se afastou logo no começo de tudo, pois se casou e foi morar na Alemanha. José Luiz parou de dançar depois de Maria Maria (1976), o primeiro dos 43 espetáculos do Corpo, e passou a se dedicar à fotografia. Vive no Rio, mas todo ano retorna a Belo Horizonte, porque é responsável pela documentação fotográfica das montagens. Já Pedro Pederneiras, que foi diretor técnico e iluminador do Corpo até recentemente, acabou de se aposentar. Ele ainda faz alguns trabalhos para a companhia, mas não dá mais expediente.
No predinho da Avenida Bandeirantes, o expediente dos 58 funcionários do Grupo Corpo varia conforme a função. O dos 22 bailarinos começa às nove da manhã e segue até as três da tarde, com pequeno intervalo para o almoço às 12h30, quando chegam as quentinhas. Para se manter, a companhia gasta hoje em torno de 15 milhões de reais por ano – um valor expressivo, que é coberto pelos patrocínios (atualmente cinco: Cemig, Petrobras, Vivo, Itaú Unibanco e Instituto Cultural Vale) e pela Corpo Escola de Dança, dirigida pela ex-bailarina e ensaiadora Carmen Purri, uma das fundadoras da companhia. A escola tem duas unidades e 330 alunos.
A sala de Paulo Pederneiras, no andar térreo da sede, ao lado do cafezinho, está sempre de porta aberta. “Quando eu fecho, todo mundo sabe: é porque alguém vai chorar”, diz ele. Também ali as piadas de chefe se espalham pelos corredores, de acordo com a bailarina Ana Paula Cançado, que tem 33 anos de Grupo Corpo – dezenove no palco e catorze ensaiando a companhia. Uma das anedotas é a da empadinha. Ao ver Paulo absorto, no mundo da Lua, costumam perguntar a ele: “Caiu a empadinha?” A história vem de uma peça vista por ele, na qual o protagonista, faminto, olhava para o céu e suplicava por uma empadinha. “Eu penso muito”, diz Paulo, para explicar seus momentos de introspecção. “Enquanto o Rodrigo faz a coreografia, vou pensando o conceito visual do espetáculo. Muitas vezes este conceito vem num processo.”
Meio século depois da fundação do Grupo Corpo, tanto Paulo quanto Rodrigo têm pensado muito no futuro – e no processo de sucessão na companhia de dança. Como bons mineiros, contudo, eles não têm pressa. “Eu nunca vou me aposentar, mas quero diminuir as viagens”, garante Rodrigo, enquanto Paulo matuta: “Fico pensando em mais de uma pessoa para nos substituir, para que possam dividir funções. Mas é difícil. O futuro me funde a cabeça.”
Dois nomes saltam nas especulações sobre a linha sucessória: o da coreógrafa paulistana Cassi Abranches, de 50 anos, e o de seu marido, o diretor técnico do Grupo Corpo, Gabriel Pederneiras, de 43 anos, filho de Rodrigo e de Cristina Castilho, ex-bailarina e sócia da companhia, hoje diretora de comunicação. “O mundo é orgânico”, diz Abranches. “Dancei treze anos no Corpo e, depois que parei de dançar, rodei muito para entender que milhões de coisas podem acontecer. Acredito que tudo toma forma. Rodrigo ainda tem muita longevidade como coreógrafo.”
Abranches iniciou-se no balé aos 8 anos, na Escola Municipal de Bailado, do Theatro Municipal de São Paulo. Aos 14 anos, migrou do Municipal para a Raça Cia. de Dança. “São Paulo era um berço de dança contemporânea, e eu queria experimentar outra coisa”, ela conta. Seu pai, Guaraci Abranches, que era comunista, a fim de garantir que a menina fizesse faculdade, contou a ela uma mentirinha: “Você sabe que, mesmo no Bolshoi, na Rússia, os bailarinos e bailarinas são advogados, engenheiros, médicos?” Cassi Abranches decidiu então fazer vestibular para administração de empresas. Passou, mas, sem dinheiro para pagar o curso na Faculdade Mackenzie, resolveu enfrentar a peneira do time de futebol da faculdade. No futebol de salão, jogava na defesa. No de campo, na lateral direita. Acabou ganhando uma bolsa.
Foi nessa época que ela se apaixonou pelo Grupo Corpo, ao assistir pela primeira vez a uma apresentação da companhia. “Aquele é o meu lugar, eu disse para mim mesma.” Daí em diante, traçou uma linha reta em sua vida. Passou a conciliar as aulas de dança com a faculdade de administração. Depois de se formar, em 1998, aos 24 anos, desembarcou em Belo Horizonte para enfrentar uma audição no Corpo. Eram sessenta candidatas. Abranches ficou entre as oito finalistas, mas não entrou.
“Voltei para casa, e logo fui para o Balé Teatro Castro Alves. Pensei: ‘Continuarei tentando.’” Ficou um ano em Salvador e, depois, seis meses em Curitiba, no Teatro Guaíra. Antes de terminar o contrato no Paraná, recebeu o convite para participar de mais uma audição em Minas, dessa vez só para bailarinas convidadas. “Éramos 108. Ficamos cinco na final. Contrataram três, e eu fiquei de fora novamente.” Ao fim do teste, ela cruzou na recepção com Miriam Pederneiras. “O que é que me falta?”, perguntou Abranches. “Nada”, respondeu a então ensaiadora do Corpo, que avisou que em breve a companhia abriria outra vaga.
Abranches tinha sido convidada para dançar em uma companhia em Portugal, mas, pensando na oportunidade em Belo Horizonte, resolveu desistir. “Cheguei em São Paulo e liguei para Lisboa, agradecendo e dizendo que não iria”, conta. Mas a abertura da nova vaga do Corpo não acontecia. “Em janeiro de 1999, liguei para a Mirinha, pedindo para ficar só fazendo aulas. Ela deixou, eu vim para Minas, e numa tarde, do nada, a bailarina Jacqueline Ximenes, que estava deixando a companhia, chegou correndo e disse que o Paulo estava me chamando na sala dele. ‘Você pode começar quando?’, ele me perguntou. Eu respondi: ‘Agora.’ Ele então disse: ‘Pode subir.’” Ela assumiu o lugar de Ximenes na montagem de O corpo (2000), com trilha sonora de Arnaldo Antunes, espetáculo do qual passou a fazer parte.
Cassi Abranches e Gabriel Pederneiras se casaram em 2006 e têm dois filhos: Pedro, de 17 anos, e Estela, de 10. Depois que parou de dançar em 2013, aos 39 anos, Abranches assumiu a direção artística do Balé da Cidade de São Paulo – e o casal viveu nove anos entre Belo Horizonte e a capital paulista. Durante o tempo em que ficou fora do Grupo Corpo, ela fez em paralelo, como coreógrafa, Me despido, para o Ballet Nacional Chileno, e Black Sabbath – The ballet, para o Birmingham Royal Ballet, da Inglaterra, no qual o guitarrista Tony Iommi, do famoso grupo de heavy metal, fazia uma performance ao vivo. “Na estreia, eu fiquei mandando mensagens para o Gabriel sobre quem estava na plateia: Robert Plant, do Led Zeppelin, Brian May, do Queen, e toda essa gente”, ela relembra.
Gabriel, apesar do sobrenome Pederneiras, não teve um percurso mais fácil para ascender no Corpo. Até os 18 anos, ele não queria nada com a dança. Preferia seguir com a faculdade de comunicação social. Durante umas férias, entretanto, resolveu aceitar o convite de seu pai, Rodrigo Pederneiras, para acompanhar o grupo em uma turnê à Europa. “Eu mal via meu pai nessa época, então fui”, ele conta. Resolveu acompanhar as apresentações dos bastidores. “Foi um choque descobrir como tudo era feito, a complexidade. Fui ficando lá atrás nos espetáculos seguintes, participando da desmontagem. De Lisboa fomos para Londres, e lá eu nem quis passear: grudei no pessoal da técnica.”
Na volta a Belo Horizonte, Gabriel disse ao pai que queria um emprego no Corpo. Ele recorda que Rodrigo e o tio Paulo disseram: “Não. Desaparece daqui, vai estudar.” Mas o rapaz insistiu. “Foram meses chegando cedo e cumprindo expediente por conta própria. Eu fazia tudo que fosse preciso, até carregar as partes do cenário para o caminhão. Eu os venci pelo cansaço”, diz o atual diretor técnico do Corpo, responsável por toda a complicada logística do grupo.
No início de 2024, Abranches retornou de vez a Belo Horizonte e ao Grupo Corpo, agora como parceira de criação de Rodrigo Pederneiras, seu sogro, que pela primeira vez em cinquenta anos decidiu dividir a coreografia. Neste ano, eles estão criando dois espetáculos. Um deles nasceu de um convite de Gustavo Dudamel, regente titular da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, e tem estreia prevista para 2026. Não é a primeira vez que Rodrigo trabalha com o maestro venezuelano. Em 2023, coreografou Estância, a partir de peças do compositor argentino Alberto Ginastera (1916-83). O desafio agora é montar o balé Revolución diamantina, com composições da mexicana Gabriela Ortiz, de 60 anos. “A Filarmônica de Los Angeles nos convidou outra vez. É uma nova forma de fazer para o Corpo. Completamente diferente de tudo o que já criamos”, diz Rodrigo. Entre as novidades, eles colocarão os bailarinos dividindo o palco com a orquestra, que normalmente ficaria no fosso. O outro espetáculo é o que vai celebrar os cinquenta anos da companhia e terá, pela primeira vez, a trilha sonora composta por uma mulher, a compositora carioca Clarice Assad. A estreia acontece no fim do ano.
Abranches diz que foi Rodrigo quem lhe ensinou tudo. “E o que tem de mais legal neste momento é que ele está feliz e pronto para dividir”, conta. “Aqui no Grupo Corpo a gente tem que fazer valer, não tem essa de família.”
Tudo começou, porém, em família, quando os seis irmãos Pederneiras resolveram se dedicar à dança. Somente Paulo não dançava, mas namorava uma bailarina e já fazia cenários para balés e peças de teatro. Os pais da trupe, o engenheiro Manoel de Carvalho Barbosa e a dona de casa Isabel Pederneiras Barbosa, não tinham nenhum envolvimento com arte, mas cobriram os filhos de incentivos. Miriam foi quem puxou a fila, ao fazer aulas de dança moderna com Marilene Martins, no Grupo Trans-Forma, uma companhia de sucesso em Belo Horizonte.
Em 1973, quando o celebrado coreógrafo argentino Oscar Araiz veio dar um workshop no Festival de Inverno de Ouro Preto, os irmãos correram para lá. Estavam todos já mergulhados de cabeça em um movimento de renovação da dança que se esboçava em Belo Horizonte. Só na turma dos Pederneiras eram, com os irmãos, doze pessoas, entre elas Carmen Purri e Cristina Castilho, ambas de 16 anos e oriundas do Studio Anna Pavlova, que se dedicava ao balé clássico.
O encontro com Araiz foi determinante para que Paulo, ironicamente o único que não dançava, resolvesse tomar a napoleônica decisão de montar uma companhia profissional de dança. Inspirado pelo espírito hippie da época, a princípio ele pensou em alugar um sítio, onde todos viveriam em comunidade e criariam um grupo de dança horizontal, sem a hierarquia dos balés tradicionais. “No Corpo, nunca teve primeiro bailarino, solista etc., todo mundo pode e sabe fazer tudo. Isso moldou uma forma nossa de pensar”, diz Purri, hoje com 69 anos. Conhecida pelo apelido de Macau, ela recorda que a turma era inseparável e viajou seguidas vezes de ônibus para Buenos Aires apenas para fazer aulas com Oscar Araiz.
Em 1975, a companhia de dança finalmente virou realidade, batizada como Grupo Corpo. Os doze amigos tornaram-
se doze sócios, sob a batuta de Paulo – então estudante de arquitetura na Universidade Federal de Minas Gerais, curso que concluiu no ano seguinte. Como a ideia do sítio não havia dado certo, os irmãos Pederneiras recorreram aos seus pais: pediram a eles nada mais nada menos que cedessem a espaçosa casa da família no bairro da Serra para a companhia de dança. A mãe concordou em mudar para um apartamento, mas o pai resistiu à proposta. Até que, em um domingo depois da missa, que ele frequentava aos sábados e domingos, o engenheiro disse a Paulo: “Me mostra o projeto.” Acabou cedendo, motivado por sua mulher, segundo José Luiz, o irmão mais velho.
Os pais se mudaram, e foi iniciada uma reforma na casa, feita graças a um empréstimo bancário. Para bancar os custos de manutenção do grupo, os sócios decidiram montar no local uma escolinha de dança, da qual eles próprios eram os professores. Enquanto isso, a companhia se preparava para seu primeiro espetáculo.
Os irmãos Pederneiras e seus sócios não mediram a ambição ao planejarem a estreia do Grupo Corpo. Paulo propôs uma trilha sonora feita por Milton Nascimento, o nome mais ilustre do Clube da Esquina, que vinha tendo grande sucesso. Para se aproximar do cantor, ele pediu ajuda a Fernando Brant, outro nome famoso do Clube da Esquina. Os dois não eram amigos, mas as famílias Pederneiras e Brant tinham sido vizinhas no bairro da Serra. “Fui a um bar que o Fernando frequentava, sentei à mesa e disse que queria fazer um espetáculo de dança com música do Milton Nascimento. Pouco pretensioso, não?”, conta Paulo. Sim, mas deu certo. O compositor recebeu o convite no Rio de Janeiro, onde morava – e mandou dizer que aceitava.
As coisas continuaram a acontecer assim, sem muitas explicações. Paulo passou a frequentar o apartamento de Milton Nascimento. Pegava o ônibus em Belo Horizonte à noite, amanhecia no Rio e retornava no mesmo dia. “Num desses encontros, Milton tocou no piano a melodia de Maria Maria”, ele relembra. A canção (ainda sem letra, que só seria composta mais tarde) se ajustava perfeitamente ao roteiro de Fernando Brant, que também havia entrado na criação do balé. Com a trilha sonora pronta, outros músicos foram convidados para as gravações, como Nana Caymmi, Fafá de Belém, Beto Guedes e Tavinho Moura.
Ao ouvir a trilha, Oscar Araiz ficou entusiasmado e viajou para Belo Horizonte a fim de compor a coreografia do espetáculo que contava a história de Maria, uma mulher do povo que enfrentava com bravura os preconceitos e dificuldades. Paulo diz que nenhum dos artistas estava naquele momento recebendo pelo trabalho. “Hoje eu me pergunto por que eles toparam, mas, na época, não pensei nisso. As coisas foram acontecendo, tudo pareceu normal”, diz ele. “Nos anos setenta era assim.”
Os cinco bailarinos da família Pederneiras – José Luiz, Rodrigo, Pedro, Miriam e Marisa – se prepararam para subir ao palco. Paulo se dedicou ao cenário. A iluminação ficou sob os cuidados de um colega dele da faculdade de arquitetura, o artista plástico Fernando Velloso, que se engajaria de corpo e alma no novo grupo de dança, a ponto de ser conhecido como o “sétimo Pederneiras”.
O espetáculo Maria Maria estreou em 1º de abril de 1976, no Palácio das Artes, com grande repercussão. O sucesso em Belo Horizonte, pouco a pouco, irradiou pelo país, e começaram a pipocar convites de várias cidades. Depois, passaram a chegar os convites internacionais – e nos dez anos seguintes o Corpo apresentaria Maria Maria em catorze países. “Nós ficamos muito deslumbrados com o nosso sucesso”, diz Paulo. Enquanto isso, o grupo começou a construir a sede da Avenida Bandeirantes (mais tarde, a casa dos pais na Serra seria vendida). O prédio ficou pronto em 1978, mas a dívida contraída para erguê-lo se arrastaria pelos anos seguintes. Tão difícil quanto pagar a construção foi se livrar do sucesso do espetáculo de estreia. Naqueles primeiros anos do Corpo, se o grupo queria encher os teatros, precisava ter sempre Maria Maria no programa.
A última montagem desse espetáculo aconteceu apenas em 1985. Foi nessas derradeiras apresentações que o papel-título de Maria Maria passou a ser feito por uma bailarina negra, Regina Advento, de 18 anos. Moradora do Aglomerado da Serra, favela que contorna o bairro da Serra (onde viveram os Pederneiras), ela estudou na escola de dança do Corpo graças a uma bolsa obtida por sua mãe. “Eu era muito agressiva e fazer balé foi uma recomendação médica”, conta Advento, hoje com 62 anos. “Fui a primeira bailarina negra do Corpo e uma das primeiras bailarinas negras a dançar em uma grande companhia no mundo.”
Enquanto o Corpo ainda desfrutava do sucesso de Maria Maria, Paulo Pederneiras não tirava da cabeça uma ideia: o grupo deveria fazer tudo em casa, sem precisar recorrer a um coreógrafo estrangeiro. “Mas era muito difícil, ninguém conhecia o Rodrigo, ninguém conhecia o Grupo Corpo, as pessoas conheciam Maria Maria.” Não foi preciso, porém, esperar muito tempo pela decisão: já no segundo espetáculo da trupe, a coreografia foi entregue a Rodrigo Pederneiras. Cantares, com trilha sonora de outro músico mineiro, Marco Antônio Araújo, estreou em 1978, e dali em diante Rodrigo firmou-se como o coreógrafo titular.
Em seus primeiros trabalhos, ele preferiu sobretudo coreografar a partir de compositores clássicos, como Chopin no balé Prelúdios, de 1985, Villa-Lobos em Duo, de 1987, Schumann em Schumann ballet, de 1988, e Mozart em Missa do orfanato. Apenas em 1992 veio a mudança. No dia 18 de junho, no palco do Theatro Municipal de São Paulo, o Corpo estreou 21, que abriu um novo tempo para a dança no Brasil. Seguindo a sonoridade singular do grupo mineiro Uakti, que fez a trilha sonora, Rodrigo subverteu completamente a usual maneira de contar os passos e investiu na dinâmica do movimento com uma coreografia inspirada em combinações rítmicas em torno do número 21. “Nós dois temos um pé no clássico. O Marco Antônio Guimarães, do Uakti, vinha da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Mas estávamos, os dois, trilhando caminhos experimentais”, diz o coreógrafo.
A bailarina Ana Paula Cançado dançou na estreia de 21 e lembra como a montagem teve o efeito de uma revolução: “Foi uma loucura. O Rodrigo desestruturou completamente o balé e os movimentos convencionais de um bailarino. Para o meu corpo, foi maravilhoso, pois eu nunca fui bailarina de linha, sou bailarina de dinâmica e velocidade.” Na visão dela, duas coisas chamam a atenção no trabalho de Rodrigo: “O desenho espacial, com entradas e saídas perfeitas, e o ouvido. Ele consegue colocar os bailarinos em três tempos na mesma música: lento, médio e rápido.”
Hoje diretora da São Paulo Companhia de Dança, a capixaba Inês Bogéa foi bailarina do Corpo de 1989 a 2001. O primeiro espetáculo do qual participou foi Missa do orfanato. Ela também estava lá, quando Rodrigo se reinventou, em 21. Bogéa explica que o coreógrafo mineiro cria uma relação intrínseca entre movimento e som. “Cada bailarino precisa internalizar não apenas a música, mas também como ela se traduz nos vetores e gestos, o que exige atenção especial e um processo de adaptação. A característica técnica do Corpo é um dos elementos que define a identidade da companhia e contribui para a força visual e emocional das obras.” Ela também chama a atenção para o trabalho de Paulo Pederneiras. “A estética do grupo Corpo é igualmente moldada pela direção artística do Paulo, cuja visão transforma o palco em um universo cênico completo”, diz Bogéa, que foi organizadora do livro Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo (2007), com ensaios sobre a companhia.
Todos os espetáculos do Corpo partem essencialmente da música, e não de um tema ou uma narrativa, como fazem muitas companhias. Depois do sucesso de 21, o grupo decidiu retomar a ideia de sempre trabalhar com uma trilha sonora original, a partir da qual tudo deveria se encaixar perfeitamente no palco: cenário, luz, figurino e coreografia. “A trilha tem que ter climas diferentes, dinâmica. Não sei explicar essa dinâmica, mas tem que ter dinâmica”, diz Paulo. “A música nunca pode se fechar nela própria, entende? O espetáculo é uma obra só.” Ele diz que poucas foram as trilhas encomendadas que chegaram perfeitas. A de Arnaldo Antunes para O corpo, de 2000, foi uma delas.
Ao convidar um músico, o grupo quase nunca estabelece um tema. “A liberdade que o Corpo dá é um inferno”, diz Tom Zé, autor da trilha de dois balés, Parabelo (1997, com José Miguel Wisnik) e Santagustim (2002, com Gilberto Assis). A liberdade dada ao compositor, porém, não é tão plena assim. Ele precisa entender que está fazendo uma trilha para um grupo de dança e não um disco autoral. Moreno Veloso, autor, com o grupo + 2, da trilha de Ímã (2009), conta no documentário Grupo Corpo pela música que em uma das composições arriscaram algo totalmente sem ritmo. “E os irmãos não só toparam como colocaram na abertura”, diz Moreno. Para Lenine, que fez as trilhas de Breu (2007) e Triz (2013), qualquer desafio compensa quando se trata do Grupo Corpo. “Eu nunca tinha visto a minha música. Só o Grupo Corpo dá essa possibilidade, de você ver, tridimensionalmente, com aqueles corpos, o que você cria.” Rodrigo comenta, em tom de blague, à piauí: “Os músicos que a gente convida para trabalhar costumam brincar que têm dois objetivos na carreira: música em novela e trilha para o Corpo.”
No mesmo documentário, Caetano Veloso recorda que, quando esteve em Belo Horizonte com José Miguel Wisnik para mostrar aos irmãos Pederneiras uma trilha encomendada aos dois, deu boas gargalhadas. Para um “baiano falador”, aquilo era outro planeta. “Eles são muito mineiros”, diz, referindo-se a Paulo e Rodrigo. Primeiro, os compositores precisaram convencer os dois irmãos do título escolhido para a trilha: Onqotô. “Onqotô” (onde é que eu estou), para Caetano, seria a questão existencial dos mineiros. “Eu fiquei fascinado com o negócio do onqotô, que é aquela piada do mineiro falando: onqotô? Pronqovô? Quemqosô?” Enquanto ele argumentava, o silêncio dos irmãos era desanimador. Nem um pio. Na hora que mostrou a música, ouviu de repente, não sabe se de Rodrigo ou de Paulo, um suspiro: “Nuuuuu!” (a versão mineira de “Nooooosa”). Foi assim que Caetano soube que a trilha estava aprovada.
João Bosco conta à piauí que conheceu Rodrigo e Paulo nos idos dos anos 1970, quando era estudante de engenharia civil na Universidade Federal de Ouro Preto. Foi apresentado aos irmãos pelo artista Carlos Scliar, que morava na cidade histórica. “O Scliar fazia uma feijoada aos sábados e eu ia, muitas pessoas iam”, lembra. “Conheci muita gente lá, como Baden Powell e Vinicius de Moraes. O Scliar me apresentou para os irmãos Pederneiras como compositor. Os dois já andavam com a ideia de montar uma companhia de dança.”
O músico se diverte ao recordar o começo tortuoso daquele que seria um dos espetáculos mais celebrados do Corpo: Benguelê (1998). “O primeiro convite que recebi do Paulo e do Rodrigo naturalmente recusei. É isso que o mineiro faz. Depois, eles refizeram o convite e eu aceitei”, diz João Bosco, que é de Ponte Nova (MG). Ao aceitar, a velha Ouro Preto voltou à sua mente. “Veio aquele tempo em que os conheci, o barroco…” Poucos dias antes do Natal de 1997, João Bosco, de Nova York, enviou uma amostra da trilha que estava fazendo. No dia 2 de janeiro de 1998, Paulo ligou para o músico, com a difícil tarefa de dizer que não era bem aquilo que o grupo esperava. “O João é um sujeito maravilhoso, engraçado, espirituoso. Ele respondeu, na maior naturalidade, que faria tudo de novo, só que com todo mundo no estúdio ao lado dele”, diz Paulo.
“O que os irmãos Pederneiras queriam de mim era a negritude, o viés afro-brasileiro”, diz João Bosco. “Quando fomos ao estúdio, cheguei com a ideia de um mosaico de regiões sonoras, que vai de Minas à África do Norte, passando pela Europa. Foi alucinante, entrei dentro daquela trilha e virei um personagem. Fiquei cavando caminhos e fui chegando a lugares que só depois da trilha pronta eu fui perceber”, diz o compositor. Para ele, “a grande felicidade” dessa trilha foi poder levar para o estúdio todas as suas tribos, “daqui, dali, de hoje, da ancestralidade”. “Rodrigo e Paulo não sabem o que querem. Mas, quando ouvem, reconhecem o que queriam”, arremata João Bosco.
Paulo e Rodrigo parecem uma só entidade, o movimento a quatro mãos que cria o milagre da dança no Corpo. Mas as desavenças entre os dois irmãos é conhecida e se arrasta há anos. Nos bastidores, conta-se que eles só conversam o necessário. Depois de cinquenta anos de convivência, Carmen Purri, uma das sócias, diz, suspirando, que foi uma vida vendo os dois brigarem pelas mesmas coisas. “Quando o caldo entorna, a gente tenta resolver”, ela diz. A maior parte das desavenças seria por decisões conceituais sobre os espetáculos. “Às vezes, brigo muito, comigo e com os outros, porque quero sempre outra coisa”, afirma Paulo. “Isso você já fez, isto eu já conheço. A gente tem que fazer uma coisa que não sabe fazer. O que a gente sabe a gente já fez. Sempre houve esse embate entre nós.”
Algumas vezes é o cenário de um que atravessa a coreografia do outro, como aconteceu em Benguelê, em que Paulo impôs uma passarela cortando o palco, o que, para Rodrigo, avacalhou tudo. “Rodrigo tem a tendência de pensar só nos passos de dança, não gosta de interferência no espaço”, diz Purri. “O Paulo gosta de se expor, gosta do risco, e coloca o Rodrigo na fogueira. Vai aos trancos e barrancos.” Por causa da passarela, Rodrigo teve que mudar a coreografia. O resultado foi um dos espetáculos mais belos e surpreendentes do Grupo Corpo.
Uma grande desavença entre os irmãos se deu na montagem de Gira, de 2017. Na ocasião, Paulo convidou a banda paulistana Metá Metá para fazer a trilha sonora. A primeira música feita pelo grupo não deu certo. “Fui para São Paulo e sentamos para conversar. Eu queria a Elza Soares”, conta Paulo. “O Kiko Dinucci disse: ‘Então vamos implodir tudo.’ Eu respondi: ‘Vamos.’ E nós radicalizamos.” Dinucci, guitarrista e compositor do Metá Metá, diz que a frase dita por Paulo foi: “Está ótimo, vocês fizeram um belo disco. Agora falta a trilha.”
Quando chegaram ao resultado final, Paulo amou, mas Rodrigo ficou cabreiro. Foram semanas de negociações. “Forcei a barra”, diz Paulo. “O Gira mexeu com minha vida pessoal”, confessa Rodrigo. “A proposta era falar de Exu. Tive uma educação católica, nunca tinha pisado num terreiro. Comecei a frequentar e passei a fazer parte do terreiro Casa do Divino Espírito Santo das Almas, no bairro do Horto, em Belo Horizonte. Mudou minha vida.” Gira, baseado em temas da umbanda, estreou em 4 de agosto de 2017, no Teatro Alfa, em São Paulo. “Paulo sempre diz que o Corpo prefere se deixar influenciar que influenciar os outros. Acho que é isso mesmo”, diz Rodrigo. “Eu não começo a coreografar até a música entrar em mim.”
A bailarina Dayanne Amaral, de 33 anos, doze deles no Corpo, estudou em um projeto social relacionado à dança da Prefeitura de Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Graças a uma bolsa de estudos, entrou aos 9 anos na escola do Ballet Cristina Helena, uma das mais antigas de Belo Horizonte. Na adolescência, integrou a Cia. de Dança Sesi Minas, hoje extinta.
Ela gostava de dançar balé clássico. “Mas na época eu não percebia que isso era difícil para uma mulher preta”, conta. “Hoje olho para trás e vejo: estava lá o racismo. Nunca fiz princesa, nunca fiz rainha. Sempre fazia os papéis fortes, tipo cigana. Eu dançava de meia rosa-claro, enquanto as outras meninas usavam meias transparentes. Em mim, ficava estranhíssimo, uma pessoa de duas cores.” No Corpo, tudo mudou. “Aqui sou mais Dayanne do que qualquer coisa que fui antes”, ela diz. “Antes eu tinha que buscar inspiração fora de mim.”
Foi o caso também de Regina Advento, a única bailarina negra a fazer Maria Maria. Em 1989, após seis anos na companhia, ela participou de Missa do orfanato, espetáculo em que pôde mostrar o melhor de seu talento. “Eu não era uma bailarina clássica, me destacava pela energia, salto, giro, por ser rápida e dinâmica. Missa do orfanato me deu tudo isso.” Quatro anos depois, ela trocou o Brasil pela Alemanha, contratada pelo Tanztheater Wuppertal, o grupo de dança criado por Pina Bausch. “Engraçado, a companhia da Pina também fez cinquenta anos recentemente, em 2023, e muitas vezes cruzou com o Corpo em teatros pelo mundo”, ela comenta.
Uma porta que o Grupo Corpo abriu para jovens como Regina Advento e Dayanne Amaral e também para o futuro da companhia de dança passa pela sala de Miriam Pederneiras. Ela atuou mais de duas décadas como bailarina e se aposentou dos palcos em 1996. Dois anos mais tarde, ajudou a criar o projeto Sambalelê, com aulas de dança para crianças da periferia de Belo Horizonte. Desse projeto nasceu, em 2000, o Corpo Cidadão, presidido por Miriam, com quatro unidades (Belo Horizonte, Ouro Branco, Congonhas e Lagoa Santa). Ela explica que a ideia ali não é propriamente formar bailarinos, mas sobretudo cidadãos, com atividades em diferentes artes.
Para os que querem se dedicar ao balé, o Corpo Cidadão criou em 2007 o Grupo Experimental de Dança (GED). São trinta os bailarinos da companhia, que dispõem de alguns luxos, como eventuais coreografias de Rodrigo. O desejo de todos os jovens que passam pelo GED é conseguir uma vaga no Corpo, o que não é fácil de alcançar. Atualmente, dois bailarinos da trupe de Miriam Pederneiras obtiveram esse trunfo: Walleyson Malaquias, de 27 anos, e Dayanne Amaral, de 33 anos.
O espetáculo mais recente montado pelo GED, com trilha sonora de Tulipa Ruiz e coreografia de Rosa Antuña, estreou em dezembro do ano passado no Cine Theatro Brasil, uma das principais salas da cidade. Contrariando o mito da discrição mineira, o balé chamou-se Estardalhaço. É o mesmo título de uma música de Ruiz, que exclama: O Sol/Você merece o Sol/O Sol.
