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    Andreas Kisser, Greyson Nekrutman, Derrick Green e Paulo Xisto Jr., no Teatro Flores, em Buenos Aires, em 21 de abril do ano passado: o carinho do público faz diferença para Kisser, que perdeu o pai, a mãe e a mulher nos últimos anos CRÉDITO: MARTÍN DARKSOUL_2024_@MARTINDARKSOUL

anais da pauleira

“É muito legal quando você morre”

A última turnê do Sepultura, a mais celebrada banda brasileira de heavy metal

Gilberto Porcidonio | Edição 220, Janeiro 2025

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A morte é uma antiga companheira da banda Sepultura, que já no nome de batismo indicou o caminho que seguiria na música: o do death metal, a vertente do heavy metal mais apegada aos temas mortuários. Quem escuta com atenção os dezessete álbuns de estúdio do grupo, de Bestial devastation (1985) a Quadra (2020), observa que a própria palavra death aparece 101 vezes na totalidade das músicas (algumas vezes, aparece “morte” mesmo, em português). Além da obsessão pelo tema fúnebre, a banda teve sua história atravessada por lutos e separações traumáticas, como também por superações e ressurreições.

No início de dezembro de 2023, o Sepultura anunciou que iria se despedir em definitivo da cena musical, com a turnê mundial Celebrating life through death (Celebrando a vida através da morte). O último show estava marcado para o dia 24 de novembro passado, em Praga, na República Tcheca – pouco menos de um mês antes do aniversário de quarenta anos da banda. Mas a turnê fez tanto sucesso que o Sepultura, um dos mais celebrados grupos de heavy metal do mundo, resolveu programar uma longa despedida: o show final será em 2026. Uma espécie de morte adiada.

A turnê que celebra a vida através da morte começou em 1º de março do ano passado, sexta-feira, na cidade que viu o Sepultura nascer – Belo Horizonte. Horas antes, o céu da capital mineira escureceu e caiu um aguaceiro, inundando ruas e calçadas, inclusive os arredores da casa de espetáculos BeFly Hall (que na época se chamava Arena Hall), na área boêmia da Savassi. Com o temporal, a apreensão do grupo foi às alturas. Aquele seria não só o show de abertura da turnê, mas o espetáculo de estreia do americano Greyson Nekrutman como novo baterista do Sepultura.

 

Nekrutman substituiu o paulista Eloy Casagrande, que, faltando três dias para o início da turnê, anunciou sua saída do grupo “para seguir carreira em outro projeto”. Somente em maio revelou sua mudança para a banda americana Slipknot, de nu metal – estilo de heavy metal que flerta com o hip-hop. “Nossa história é assim: quarenta anos de doideira, com empresários que viraram família, que viraram mulher, com trocas repentinas de integrantes, e agora a saída do Eloy”, diz à piauí o guitarrista Andreas Kisser, líder do Sepultura, no camarim do BeFly Hall. “Mas é aquela coisa: fecha uma porta, tem quinhentas outras abertas”, completa.

Foi Andreas Kisser quem encontrou a solução para o impasse causado pela saída de Eloy Casagrande. Não ele, precisamente, mas um de seus filhos, o compositor e multi-instrumentista Yohan Kisser, de 27 anos. “Yohan me mostrou Greyson Nekrutman tocando, e eu comentei a respeito com o Derrick, que mora hoje em Los Angeles e foi ver uma apresentação dele”, recorda. “Quando aconteceu tudo isso com o Eloy, ele já estava no radar”, diz Yohan, que acompanhava o trabalho de Nekrutman havia algum tempo e o achava um baterista excepcional.

Depois de assistir ao show, o americano Derrick Green, vocalista do grupo, retornou a Andreas, dizendo que Nekrut­man realmente era um craque e, além disso, um fã do Sepultura. “Greyson é um puta talento”, diz Andreas. “Obviamente, a gente ainda está se adaptando. Foi uma mudança em cima da hora, e o repertório é muito complexo, sobretudo para a bateria, mas ele está fazendo um trabalho fantástico.”

 

O Sepultura se consagrou com três adolescentes mineiros e um paulista já em 1987. Hoje, o grupo é meio brasileiro, meio americano. Ao lado do vocalista Green e do baterista Nekrutman, estão os dois únicos remanescentes da formação clássica da banda: o paulista Andreas Kisser e o baixista mineiro Paulo Xisto Jr. Os homens na meia-­idade são maioria: Kisser, com suas longas madeixas, chegou aos 56 anos; Xisto Jr., que adotou o look grisalho, tem 55; e Green está com 53. Nekrutman é a exceção: tem apenas 22 anos.

Depois que a tempestade acabou em Belo Horizonte, um clima descontraído tomou conta do camarim do BeFly Hall. Não parecia que os músicos do Sepultura iriam iniciar dali a pouco tempo uma de suas turnês mais importantes. Estavam todos muito à vontade e tranquilos. Ou aparentemente tranquilos, pois Kisser, de bermuda e camiseta regata do time de basquete americano Phoenix Suns, exibia um detalhe nervoso: não parava de balançar a perna, como se, em vez de guitarra, estivesse tocando o bumbo de uma bateria imaginária.

Kisser, Xisto Jr., Green e Nekrutman entraram no palco, um depois do outro, ao som da batucada que abre Refuse/resist – do álbum Chaos a.d., de 1993 –, a música escolhida para abrir todos os shows da turnê. Nos primeiros acordes, o coro dos cerca de 5 mil espectadores repetindo a letra praticamente engoliu a voz arrasa-quarteirão de Green. O Sepultura tocou 21 músicas, de todas as fases do grupo, para uma plateia muito variada: homens e mulheres, jovens e maduros, muitos portando as bandeiras de seus estados e até cocares indígenas.

 

Os fãs que compraram o ingresso VIP puderam assistir à passagem de som, quatro horas antes do show. Estavam eufóricos por conseguir ver os ídolos de perto, como num ensaio aberto, durante o qual Kisser teve que ditar – leia-se: gritar – os acordes de algumas músicas que Nekrutman não tinha pegado por completo, como os de Troops of doom, com suas súbitas e velozes viradas de tempo. (Pouco a pouco, ao longo da turnê, Nekrutman foi se “sepulturando” e incorporou mais tons e pratos à bateria.)

O ingresso VIP também dava direito a participar do Meet & Greet, o encontro exclusivo com os músicos, realizado em uma sala no BeFly Hall na qual havia sido montada uma espécie de museu, com guitarras usadas por Kisser, camisetas com estampas da banda de vários anos, cartazes de shows, capas de revistas e os discos de ouro e platina. Em destaque numa parede, estava a lembrança de um passado tanto glorioso quanto turbulento: um pôster do grupo dos anos 1990, quando ainda faziam parte do Sepultura os dois irmãos que começaram toda a história – Max e Iggor Cavalera.

 

O primeiro show do Sepultura aconteceu em 4 de dezembro de 1984, num salão de festas no bairro Barroca, em Belo Horizonte: o extinto Barroliche. O público não passava de oitenta pessoas, que foram até lá para ouvir sobretudo as bandas Tropa de Choque e Overdose, para as quais o Sepultura faria o show de abertura.

A ideia era subir ao palco com cinco músicos, mas o Sepultura se apresentou como um trio. Na última hora, o guitarrista Roberto UFO não apareceu e o baixista Paulo Xisto Jr. precisou viajar com a família. O guitarrista Max Cavalera, de 15 anos, o baterista Iggor Cavalera (então apenas Igor: ele passou a assinar com dois “g” em 2008), de 14 anos, e o vocalista Wagner Lamounier, também de 14 anos, se apresentaram adornados com pulseiras de couro cheias de pregos pontiagudos (spikes) e uma maquiagem que tentava ser mórbida, no estilo black metal, mas os deixou mais parecidos com ursos panda. Iggor se destacou no quesito fantasia: vestiu uma peruca e, por cima, um capacete estampado com a suástica nazista (a banda só abandonou o símbolo nefasto depois de uma aula de história do vocalista Carlos Lopes, da banda carioca Dorsal Atlântica).

O som não era dos melhores. A guitarra estava desafinada, e Iggor espancava a bateria como se não houvesse amanhã. Só restou aos músicos aguentar as gargalhadas do público ao ouvir cantigas como Adote um rato e Anti-Cristo. Ali, no salão de baile, nada indicava o que aconteceria alguns anos depois com aqueles adolescentes desengonçados.

O futuro, porém, começou bem antes. Em 1965, a mineira Vânia Valquíria Ferreira, uma linda modelo de cabelos cacheados e olhos amendoados, conheceu em São Paulo um funcionário do Ministério das Relações Exteriores italiano, chamado Graziano Cavalera. A sintonia foi grande, e os dois logo se casaram. Apesar de o casal viver em São Paulo, Vânia preferiu ter os filhos em Belo Horizonte, onde podia contar com o apoio da família. Em 1969, nasceu Massimiliano (Max) Antônio. Um ano depois, Igor Graziano. Em 1977, o casal adotou Kira.

A família morava em Higienópolis, um bairro de classe média alta, e tinha uma vida confortável em São Paulo. Graziano, apreciador de óperas, gostava de tocar violão e cantar canções italianas. Os meninos não dispensavam os jogos de futebol, se esbaldando nos estádios com a torcida do Palmeiras. Em setembro de 1979, às vésperas de uma mudança planejada para Roma, todos foram fazer um passeio de barco na Represa de Guarapiranga, em São Paulo. Lá, Graziano começou a se queixar de dores no peito. As dores pioraram e a família foi às pressas para um hospital. Não houve tempo de socorrer o pai: ele morreu de infarto.

A morte de Graziano virou a vida da família de cabeça para baixo. Vânia e os filhos precisaram se mudar para Belo Horizonte e passaram a depender da ajuda de parentes e amigos. “Era difícil até arrumar emprego, as mulheres viravam a cara para mim, tinham medo de uma ex-modelo viúva na cidade. Eu vivia com o dinheiro da pensão [do marido], porque não tinha reservas”, disse Vânia à revista Trip, em 2010. Para Max, a morte do pai cravou uma mudança radical na vida dos irmãos. Em sua autobiografia, My Bloody Roots (Minhas raízes sangrentas, de 2013), ele diz: “Embora a morte do meu pai tenha sido algo terrível, trazendo uma mudança total no estilo da nossa família, ela nos fez encontrar um propósito. Sempre digo a mim mesmo que, se ele não tivesse morrido, talvez nunca tivéssemos nos tornado músicos […] Tudo nasceu da morte dele.”

Na discoteca do pai, Max e Iggor encontraram discos de Led Zeppelin e Black Sabbath. A descoberta intensificou a paixão dos dois pelo heavy metal, que vivia um momento de ascensão nos anos 1970/80. Os irmãos adolescentes encontraram um modo de expressão e de revolta nessa vertente pesada do rock e encafifaram de criar um grupo musical. Iggor, que tinha experiência com percussão nos tambores que surrava durante os jogos do Palmeiras, elegeu a bateria como o seu instrumento. Max ficou com a guitarra.

 

No jargão militar, heavy metal é um termo utilizado para se referir a armamentos grandes e pesados. Na química, designa os metais de alta densidade. A origem do termo musical é incerta, mas, no fim dos anos 1960, foi incorporado por críticos, como Mike Jahn e Lester Bangs, para classificar bandas que praticavam um blues-rock mais agressivo, como os grupos Cream (britânico) e Steppenwolf (americano).

Esse estilo musical é uma exaltação extrema do rock: a guitarra e o baixo adensam a melodia com acordes enérgicos e pesados, a bateria ataca com rajadas fortes e frenéticas, o vocal avança sobre a melodia com sons guturais. O visual dos músicos remete à experiência apocalíptica: cabelos longos, correntes, braceletes, crânios, crucifixos e, claro, roupas na cor preta – que o historiador francês Michel Pastoureau diz que foi associada ao mal pela Igreja Católica. O preto é também a cor da rebeldia juvenil, fixado nas jaquetas de couro dos filmes O selvagem (1953), com Marlon Brando, e Sem destino (1969), com Dennis Hopper e Peter Fonda, que, aliás, tem como tema principal a canção Born to be wild, do Steppenwolf.

Muitos cravam que o heavy metal começou com Helter skelter (1968), dos Beatles, canção na qual o baterista até reclama por ter que tocar tão forte (“Estou com bolhas nos meus dedos”, berra Ringo Starr no fim da faixa). Para outros, o gênero remonta à performance do músico americano Screamin’ Jay Hawkins (1929-2000), no hit I put a spell on you. Todos concordam, porém, que o grupo fundador do heavy metal se chama Black Sabbath.

O Black Sabbath – banda formada em 1968, em Birmingham, na Inglaterra, pelo guitarrista Tony Iommi, o baixista Terry “Geezer” Butler, o vocalista Ozzy Osbourne e o baterista Bill Ward – resolveu deixar o blues de lado para investir em músicas que aterrorizassem as pessoas. A ideia era espantar a pasmaceira no Reino Unido e expressar a falta de perspectiva da juventude proletária britânica. A experiência do Black Sabbath acabou por se irradiar pelo meio juvenil de todo o Ocidente, prostrado com o declínio da era hippie, do fracasso das revoltas de 1968 e dos múltiplos traumas do período, como a Guerra do Vietnã e os assassinatos de Martin Luther King e Malcolm X.

No Brasil enjaulado pela ditadura militar, a primeira banda de heavy metal, Stress, apareceu em Belém, em 1974. Inspirada por grupos como Judas Priest, Kiss e Deep Purple, praticava o que era então chamado de “rock pauleira”. Nos anos 1980, o gênero se espalhou por capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, com grupos formados por jovens de classe média e baixa. Também na pacata e muito católica Belo Horizonte o cenário roqueiro pesado prosperou, com grupos como Sexo Explícito, Banda do Lixo, Serpente, Pássaros da Noite e Sagrado Inferno.

A primeira turma reunida pelos irmãos Cavalera era formada por Roberto “Gato” Raffan (baixo), Roberto UFO (guitarra) e Wagner Lamounier (vocais). Todos tinham entre 15 e 17 anos, e mal sabiam tocar os instrumentos. A primeira guitarra de Max foi uma Phelpa Coronado, marca nacional famosa por ter em seu corpo dois interruptores tipo os de parede (Roberto Carlos usou uma do modelo Apache no filme Roberto Carlos em ritmo de aventura, de 1968). A “bateria” de Iggor consistia em um tarol de fanfarra, um surdo tosco e um prato precário enfiado num cabo de vassoura cravado numa lata de tinta com cimento. Como ele não tinha bumbo, marcava o tempo batendo o pé no chão, como contaram o jornalista André Barcinski e o empresário Silvio “Bibika” Gomes, no livro Sepultura: toda a história. Gomes foi vizinho dos Cavalera, com os quais estabeleceu uma forte amizade. Foi também um dos primeiros a perceber o potencial do grupo, do qual se tornou empresário – desde aqueles tempos pré-históricos até 2006.

O nome cogitado pelos jovens para o grupo de heavy metal foi Tropa de Choque. Mas já havia em Belo Horizonte uma banda chamada Tropa de Choque. Eles decidiram, então, extrair o nome da música Dancing on your grave, do grupo britânico Motörhead. Em português, “Dançando na sua sepultura”.

No bairro Santa Tereza, os Cavalera eram praticamente vizinhos da família dos músicos Márcio e Lô Borges, do Clube da Esquina – grupo que os garotos metaleiros odiavam, por achar muito “tilelê” (hippie). Um dia, aconteceu o imprevisto: cansada da balbúrdia infernal da guitarra da turminha, a cantora e compositora Solange Borges, irmã de Márcio e Lô, foi até a casa dos vizinhos e afinou o instrumento para eles.

Nessa época de barulhos encorpados e vacas magras, a vida dos Cavalera também andava bastante desafinada. Vladimir Korg, na época funcionário de uma famosa loja de discos de Belo Horizonte, a Cogumelo, conta que, certa vez, Iggor saiu às pressas do estabelecimento porque não queria perder o sorteio em sua casa para escolher quem comeria o único bife do dia. “Max e Iggor também costumavam ir à casa dos amigos na hora do almoço, ou então dormiam lá. A Vânia segurava uma barra muito pesada e todo mundo sabia disso. Mas eles nunca pediam nada.” (Mais velho que os irmãos, Korg foi vocalista da banda de metal Chakal e integra hoje o The Mist.)

Sentindo que o sonho dos filhos era seguir a carreira musical, Vânia resolveu apoiar as duas crias cabeludas pra valer. A escola deixou de ser uma obrigação para eles (Max e Iggor não chegaram a terminar o ensino fundamental) e a banda virou uma prioridade na família.

Raffan e Lamounier deixaram o grupo e foram substituídos por Jairo Guedez (na guitarra) e Paulo Xisto Jr. (no baixo), também conhecido como “Paulinho Kiss”, por ser um grande fã da banda mascarada americana. Os ensaios passaram a ser feitos na casa de Xisto Jr., na Rua Pouso Alegre, em Santa Tereza, bairro onde todos moravam. A casa dos irmãos Cavalera, na Rua Dores do Indaiá, virou o “escritório” – o local onde Iggor pintava camisetas, Max cuidava da correspondência e Gomes tentava arranjar shows. Outra atividade no escritório era copiar as fitas cassete gravadas nos ensaios para enviar a fanzines, a maioria de fora do país.

Em meados dos anos 1980, a loja Cogumelo, num movimento ousado, resolveu investir na gravação de discos de bandas de metal. Na época, o grupo mais azeitado em Belo Horizonte era o Overdose, de heavy metal tradicional. Mas, como o Overdose não dispunha de material suficiente para fechar um LP, surgiu a ideia de juntar ao disco uma banda novata. Korg indicou a dos irmãos Cavalera para os donos da loja e da gravadora, Pat Pereira e João Eduardo. Em dezembro de 1985, mesmo ano do fim da ditadura militar, a Cogumelo Records lançou a primeira gravação profissional do Sepultura, em conjunto com o Overdose, no LP conjunto Século xx/Bestial devastation.

Ali, todos já estavam devidamente apelidados, conforme a mitologia heavy metal. O guitarrista e agora vocalista Max Cavalera era “Max Possessed” (possuído). O baterista Iggor Cavalera, “Igor Skullcrusher” (esmagador de crânios). Paulo Xisto Jr. se tornou “Paulo Destructor”, e Jairo Guedez, “Tormentor”. Apesar da gravação tosca feita com instrumentos emprestados, o disco teve a primeira prensagem de mil cópias vendida rapidamente e chamou a atenção dos fãs de heavy metal. Pela gravação, o grupo recebeu duzentos discos para vender por conta própria. Graças ao dinheiro arrecadado, Iggor ganhou finalmente uma bateria.

 

O segundo álbum da banda – e o primeiro solo – foi lançado em 1986, também pela Cogumelo Records. Desta vez, as gravações foram feitas em São Paulo, e as vendas de Morbid visions surpreenderam: cerca de 10 mil cópias, um feito para a época. Em dezembro daquele ano, o Sepultura foi convidado a abrir, no Mineirinho, os shows do grupo canadense Exciter e da banda inglesa Venom. Embora fossem uma das principais referências dos jovens mineiros, os músicos da Venom não agiram com muita simpatia: chegaram a impedir que o Sepultura se aproximasse do equipamento deles. O humor dos ingleses piorou quando notaram que o show do Sepultura foi tão intenso e aplaudido quanto o deles. Mas a antipatia vinha de pouco antes. Cronos, o vocalista do grupo, às vésperas de embarcar para Belo Horizonte, ganhou o disco do Sepultura de um fã e o lançou imediatamente na piscina do hotel em que dava uma entrevista à imprensa, no Rio de Janeiro.

Em 1987, Guedez, o Tormentor, decidiu deixar a banda. Entrou então em cena Andreas Rudolf Kisser, um rapaz de 18 anos, de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Ex-guitarrista da banda paulista Esfinge, ele havia conhecido Iggor na loja de discos Fucker Records, em Santo André. Iggor o convidou para acompanhar um ensaio do Sepultura em Belo Horizonte. Kisser foi – e a conexão com os irmãos se ampliou.

Com o aval de Vânia, o paulista foi morar na casa dos Cavalera. Viveu lá durante dois anos. Havia trazido na bagagem novas ideias, que acabaram sendo processadas no álbum Schizophrenia, de 1987, o terceiro do Sepultura, que colocou o satanismo recreativo de lado para falar de guerra e transtornos mentais. “Andreas, como diria o escritor Orígenes Lessa, juntou duas coisas: o feijão e o sonho”, comenta Korg. “O Max era o sonho, porque ele tem uma estrela, é um cara diferenciado desde criança. E aí chega o feijão, que é o Andreas, que colocou tudo em seu devido lugar, trazendo disciplina, a questão da composição, da estética sonora, do respeito e da profissionalização. Dali para a frente, a banda seria outra coisa, sem perder os seus princípios.”

O novo disco também arrastou a banda para outro leque da música pesada, o thrash metal (algo como metal porrada), outra variante do heavy metal, mais rápido e violento, com letras que misturam ocultismo e rebeldia social, como fez o Sepultura na música To the wall, do álbum Schizophrenia, escrita em inglês por Korg. A música diz em um trecho: “Pra parede, exige o soldado/Meus últimos passos guiam para a morte/Últimos desejos! Inferno! Isso é idiotice/Foda-se eu/fodam-se todos vocês.”

A música foi feita depois de os músicos sofrerem diversas abordagens da polícia e serem obrigados a ficar encostados em uma parede, como diz o título. “É que a gente usava roupas militares como forma de protesto. Não se vendiam essas roupas em loja, era tudo de quem já havia servido no Exército. A gente tinha medo de estar vestido com esse tipo de coisa e ser parado pela polícia, já que eles tomavam a roupa e, claro, nos batiam”, lembra Korg. “Tratamento para headbanger [metaleiro] era mão na parede e tapa na nuca, e isso com sorte. A gente apanhava pra caralho de polícia. Os caras eram mais filhos da puta do que são hoje”, avalia Gomes. Não à toa, um dos covers que ficariam mais famosos na voz do Sepultura é o de Polícia, dos Titãs.

Em fevereiro de 1988, com 18 anos, Max Cavalera, de rabo de cavalo e vestindo um terno barato, embarcou para os Estados Unidos com uma passagem descolada de graça com um amigo que trabalhava na PanAm. Passou dois dias em Nova York, onde se encontrou com os jornalistas Don Kaye e Borivoj Krgin – os primeiros a receberem e propagarem o som da banda fora do Brasil. Também conheceu o empresário americano Monte Conner, caçador de talentos da então independente gravadora Roadrunner. Três meses depois, o Sepultura assinou um contrato com a gravadora americana. No ano seguinte, o grupo mineiro lançou seu quarto álbum, o primeiro pela Roadrunner, Beneath the remains (Sob os escombros), produzido pelo americano Scott Burns e gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro.

A família Cavalera decidiu se mudar de Belo Horizonte para São Paulo. Foi viver em um apartamento no Centro da cidade, enquanto Kisser e Xisto Jr. se estabeleceram em Santo André. Beneath the remains foi bem-sucedido, e o Sepultura iniciou sua primeira turnê internacional. Em 1989, a travessia pelos Estados Unidos, além de ampliar o prestígio da banda, trouxe uma personagem nova para a trupe: a produtora americana Gloria Bujnowski, que teria papel importante como empresária do Sepultura. E mais que isso: em 1993, ela se casaria com Max.

É dessa época uma das mais esdrúxulas histórias do vasto folclore sobre a banda. Durante uma viagem pela Europa, o Sepultura passou a dividir o ônibus da turnê com o grupo alemão Sodom, com o qual o clima não era dos melhores. Para começar, porque os alemães obrigaram os brasileiros a se instalarem nas camas do fundo do ônibus. Além disso, porque, para irritação do Sodom, o Sepultura era o grupo mais aguardado nas cidades visitadas. As coisas azedaram de vez, literalmente, depois que os alemães intimaram Max a tomar um banho (ele havia evitado o chuveiro durante vários dias para submeter o empresário do Sodom e os músicos ao cheiro cadavérico que se espalhava pelo tour bus durante as viagens – os outros membros da banda brasileira se uniram no protesto.)

A viagem ao exterior ajudou a popularizar o grupo no Brasil, culminando em um show no Maracanã em 23 de janeiro de 1991, na segunda edição do Rock in Rio, quando a banda foi ovacionada por um público de quase 80 mil pessoas. Os fãs não sabiam que as coisas andavam mal para o Sepultura, que vinha trabalhando quase de graça para a gravadora americana, pois o contrato de oito discos previa que a banda restituísse à Roadrunner todo o investimento recebido.

Dois meses depois da apresentação no Rio, o Sepultura lançou seu quinto álbum, Arise. O lançamento seria acompanhado de uma turnê de 25 meses em mais de 30 países. Antes disso, a banda decidiu fazer um show gratuito em São Paulo, em agradecimento ao público. Em 11 de maio de 1991, cerca de 30 mil pessoas se reuniram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, para o espetáculo, que se transformou em tragédia: várias brigas pipocaram no local e um jovem de 19 anos, Alexandre Salcedo, levou um tiro na cabeça. Morreu a caminho do hospital. O assassino nunca foi pego, mas testemunhas disseram que seria um membro dos temidos “carecas”, versão brasileira dos grupos nacionalistas que se intitulavam skinheads e tinham rixa com os metaleiros e os punks. Um fã levou uma bala abaixo do pulmão e outros dois foram esfaqueados. Dois dias depois, o jornalista Sérgio Sá Leitão (que viria a ser ministro da Cultura no governo Temer) escreveu na Folha de S.Paulo que “em São Paulo, o grupo deixou um rastro de fanatismo e sangue”. Com os acontecimentos do show, os “metaleiros” ganharam fama de pessoas violentas. (Não foi o único incidente enfrentado pela banda. Três anos depois, Max foi preso depois de uma apresentação no Hollywood Rock, em São Paulo, acusado de vilipendiar a bandeira do Brasil. Ele negou que tivesse pisado e cuspido no símbolo nacional.)

Enquanto alguns tentavam fazer do Sepultura o inimigo nº 1 da pátria, a banda iniciava um processo de “descoberta” do Brasil, colocando um pouco de lado as referências anglófilas e internacionalistas do heavy metal. “No período radical, a gente só queria escutar as coisas de fora. Tudo que era do Brasil era um lixo para nós”, conta Kisser. “A partir do momento em que começamos a viajar para o exterior, vendo o Brasil de longe, a gente começou a respeitar o país como um astronauta vê o planeta Terra. A turnê fez isso com a gente, e começamos a introduzir uns elementos de percussão associados com a música brasileira que viraram uma característica da banda.”

A busca do Sepultura por uma brasilidade que combinasse com o seu som ficou mais nítida no sexto álbum, Chaos a.d., de 1993, quando também foi abraçada outra influência, o groove metal – estilo no qual, em meio à porradaria sonora, emergem algumas levadas que instigam à dança e ao balanço (mais dos cabelos que do corpo, no caso dos metaleiros). A junção do metal com os ritmos brasileiros gerou a surpreendente Kaiowas – a partir do povo Guarani/Kaiowá, que sofre com altos índices de suicídio, em decorrência das pressões que enfrentam para deixar suas terras. Em Refuse/resist, a gravação das batidas do coração de Zyon, filho de Max, enquanto a criança ainda estava na barriga da mãe, é seguida de um paredão percussivo abertamente inspirado nos tamborins das escolas de samba (vinte anos depois, a música estaria entre as que foram usadas como fundo sonoro de vídeos para as redes sociais feitos durante os protestos de Junho de 2013).

Em meados dos anos 1990, quando a internet ainda engatinhava e as rádios FM estavam no auge, o heavy metal precisou enfrentar o furacão do movimento grunge, uma nova onda de bandas de rock alternativo que vinha dominando o mercado. Parecia que a era do metal estava chegando ao fim. Os velhos grupos partiram então para experimentações musicais, como o Metallica, que tentou adaptar seu estilo thrash metal a algo mais palatável, adequado à FM. O grupo angariou novos fãs, mas acabou sendo acusado pelos fãs mais antigos de ter feito a mudança para se tornar mais comercial.

O Sepultura fez diferente. No início de 1995, resolveu dobrar a aposta da brasilidade e iniciou a criação do álbum Roots (Raízes), que, com sua guinada “antropológica”, dividiria em duas a história do heavy metal mundial. Primeiro, a banda foi à Terra Indígena Pimentel Barbosa, em Mato Grosso, para gravar uma faixa com os indígenas xavantes – Itsári (termo a partir da palavra xavante isãna’rada, que significa “raízes”). Depois, convidou o músico baiano Carlinhos Brown, na época no grupo Timbalada, para participar de uma faixa samba-reggae-metal, Ratamahatta (neologismo a partir das palavras “rata” e “Manhattan”).

Como abertura do disco, o Sepultura criou um riff de guitarra que parece emular o som gingado do berimbau. A música Roots bloody roots (Raízes, sangrentas raízes) viraria uma espécie de hino da banda: I say we’re growing every day/Getting stronger in every way/I’ll take you to a place/Where we shall find our/Roots, bloody roots (Digo que estamos crescendo a cada dia/Ficando mais fortes em todos os sentidos/Eu te levarei para um lugar/Onde encontraremos nossas/Raízes, sangrentas raízes). Apesar de sua busca pelas raízes brasileiras, o Sepultura manteve as letras das músicas na órbita anglófona (Max certa vez disse que “metal em português é como samba em alemão”).

Lançado em 1996, Roots, o sétimo álbum, traz na capa a imagem de um indígena do povo Karajá, a partir de uma imagem que estampava a nota de 1 mil cruzeiros. “Quando ouviram o disco, as pessoas da gravadora detestaram. Disseram: ‘Que porra é essa, meu? Vocês são loucos?’ Muitos fãs também não gostaram, e não gostam até hoje. Lógico que eles não estavam tendo a visão”, diz Kisser. Não tiveram, de fato. Roots foi o álbum mais vendido do Sepultura: meio milhão de cópias só nos Estados Unidos e mais de 2 milhões no restante do mundo. Também inspirou bandas do nu metal, como Limp Bizkit, Deftones e o próprio Slipknot (aquela da qual faz parte hoje Eloy Casagrande, o ex-baterista do Sepultura).

A pesquisadora Melina Santos, que estudou a apropriação do death metal em regiões periféricas no livro We do rock too: os percursos do gênero musical metal ao longo do movimento do rock angolano, atribui as reações negativas ao disco a uma atitude “racista e purista do que é música”, diz ela à piauí. Santos chama a atenção para a importância do álbum para os metaleiros dos países da África. “Para a cena angolana, o Sepultura é uma banda que conseguiu demonstrar ser possível fazer metal com certo nível de qualidade, imaginação da sua cultura e rompendo com alguns estereótipos”, afirma. “Isso coloca o Brasil numa perspectiva de matriz cultural de produção de rock e metal para bandas africanas e europeias.”

 

O Sepultura havia alcançado o estrelato mundial e nada parecia impedir o heavy metal brasileiro de conquistar o vil metal do show business. Mas o clima nos bastidores do grupo não era nada bom. De acordo com Barcinski e Gomes – os autores da biografia do Sepultura –, Gloria Bujnowski, agora Gloria Cavalera, a mulher de Max, e Monika Bass, a então mulher de Iggor, andavam se estranhando. Além disso, aumentava entre os integrantes da banda a sensação de que Gloria estava valorizando mais seu marido que os demais músicos. Os rebelados pediram que o contrato dela como empresária, que venceria em 1996, não fosse renovado.

Em agosto daquele ano, quando o Sepultura chegava ao festival Monsters of Rock, em Leicestershire, na Inglaterra, para tocar com Ozzy Osbourne e Kiss, o grupo recebeu a notícia de que Dana Wells – filho que Gloria teve de outro relacionamento – havia morrido, aos 21 anos, em um acidente de carro nos Estados Unidos. Max Cavalera viajou com sua mulher para o enterro, e o restante da banda honrou seu compromisso no festival.

Depois do funeral nos Estados Unidos, a banda inteira se reuniu e optou por ficar longe dos palcos por duas semanas. Gloria, porém, decidiu cancelar a turnê inteira, que duraria ainda dois meses, terminando apenas em outubro. Os músicos, um pouco contrariados, cumpriram o período de interrupção, mas em dezembro Gloria foi demitida. Em solidariedade à sua mulher, Max resolveu se desligar do Sepultura, sem aviso formal. “A Gloria estava representando o Max bem, mas não estava falando a mesma língua que a gente”, afirmou Iggor na época em uma coletiva de imprensa. Silvio Gomes, o primeiro empresário da banda (além de coautor da biografia do grupo), analisa esse cisma como uma falta de maturidade geral para lidar com a crise. “Faltou isso, inclusive, para a Gloria. O certo era a banda ter tirado um ano de folga. Qualquer banda que acaba nunca cai para cima, com raríssimas exceções. O timing foi ruim.”

Max Cavalera sustenta até hoje que foi traído pelo irmão e pelos amigos – e que foi expulso. Fora da banda, o guitarrista criou o grupo Soulfly, para prosseguir com as ideias que começou a elaborar em Roots. Os dois irmãos ficaram dez anos sem se falar. Só retomaram o diálogo em 2006, atendendo a um pedido da mãe, Vânia Cavalera. (Ela morreu em 2023, aos 80 anos, e suas cinzas foram espalhadas por Iggor na Avenida Paulista, durante a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, como ela havia pedido.)

A saída do guitarrista gerou uma onda de “viúvas do Max” – aqueles fãs que só aceitam o Sepultura na formação clássica. Sem Max, a banda precisou se reposicionar no mercado da música, como se começasse do zero. “Foi um trauma fodido”, lembra Gomes. “Os caras quase acabaram para valer. E é claro que houve um boicote dos americanos e dos europeus, inclusive da própria gravadora, que tirou produtor, divulgação, grana de investimento. Nessa época, tinha show nos Estados Unidos com público de apenas trinta pessoas.”

O empresário e músico Baffo Neto avalia que, na cabeça dos fãs, a identidade artística da banda acabou se fixando na figura de Max: “Muita gente vê uma banda como uma unidade quase indivisível, mas a verdade é que, àquela altura, o Max era um ídolo mundo afora. E um ídolo tem muito menos problemas em continuar uma carreira. Por isso, os outros tiveram algumas dificuldades ao longo do tempo. Tem discos excelentes, mas o problema do Sepultura não é o presente: sempre foi o passado.”

 

A nova fase da banda, sem Max Cavalera, começou em 1997, quando uma fita cassete enviada por um americano chamou a atenção dos músicos. Derrick Leon Green soubera que o Sepultura estava procurando um novo vocalista e resolveu enviar uma amostra de seu vozeirão para o Brasil. Filho de uma professora de música com um eletricista, ele já havia cantado na Outface, banda de hardcore (uma variante da música punk, mais rápida). Mas deixou a carreira musical e foi trabalhar como segurança de boate em Nova York. Em 1998, Green desembarcou no Brasil para gravar o novo álbum do Sepultura, Against.

“O Sepultura era muito conhecido nos Estados Unidos, mas eu não sabia nada sobre o Brasil. Como nessa época não existia internet, fui a uma biblioteca atrás de um livro sobre o país”, conta Green, um homem negro e vegano de 1,95 metro de altura. “Ao chegar aqui, pensei: ‘Putz, preciso fazer tudo o que for possível, esse é um momento muito importante para mim.’ Os ensaios foram difíceis, porque eles já tocavam juntos havia muitos anos. Mas, então, lá estava eu: diante de milhares de pessoas que gritavam quando me viam, uma coisa inédita para mim.”

O début do vocalista americano foi em agosto de 1998, em São Paulo. Dois anos depois, ele se mudou para o Brasil. “No início foi difícil porque eu não falava português, e poucas pessoas aqui falam inglês. Eu me sentia uma criança. Agora, quando estou fora do Brasil, tudo o que eu quero é voltar. Hoje, o Brasil é a minha segunda casa, e se alguém fala mal do país eu digo: ‘Cala a boca, caralho. Você não sabe nada do Brasil!’”

A “era Derrick Green” do Sepultura começa marcada por um som mais cru e próximo do minimalismo do hardcore, do qual o vocalista era mais íntimo, como nos álbuns Against, de 1998, e Nation, de 2001, o último pela Roadrunner. Depois de treze anos, a banda resolveu romper seu contrato com a gravadora americana, alegando falta de interesse da parte dela, desde a saída de Max. Mas Gomes aponta outro motivo: “Nunca se falou abertamente, mas sempre houve um preconceito com a banda colocar um cara preto. As pessoas da gravadora boicotaram mesmo.” Em 2007, a Roadrunner foi comprada pela Warner Music Group. A inclusão de Green, como se verá mais adiante, foi altamente inspiradora para os metaleiros antirracistas.

O décimo álbum, Roorback, de 2003, trouxe um Sepultura mais coeso e mais robusto. As conexões com importantes festivais de música foram refeitas, e o grupo passou a produzir trabalhos mais elaborados e conceituais, como os álbuns Dante XXI (2006), inspirado na Divina comédia, de Dante Alighieri; A-Lex (2009), calcado no livro Laranja mecânica, de Anthony Burgess; Kairos (2011), que reflete sobre o tempo; The mediator between head and hands must be the heart (2013), parcialmente inspirado no filme Metrópolis, de Fritz Lang; Machine messiah (2017), sobre a robotização da humanidade; e Quadra (2020), o mais elogiado da nova fase, inspirado nas ideias do pensador cartaginês Marciano Capela (360-428 d.C.) de sistematizar todo o conhecimento humano.

No meio da retomada, aconteceu outro baque. Em 2006, Iggor Cavalera deixou o grupo, alegando que “muitos anos de trabalho em conjunto fizeram com que o relacionamento fosse se desgastando cada vez mais”. A saída de Iggor foi um segundo choque, mas bem menos traumático que o provocado pela saída de Max. Iggor foi substituído na bateria, primeiro, pelo mineiro Jean Dolabella, que ficou até 2011. No lugar, entrou o paulista Eloy Casagrande, substituído pelo nova-iorquino Greyson Nekrutman. (Atualmente, Iggor toca no Cavalera Conspiracy, que ele e Max criaram em 2007. Os dois têm regravado os primeiros discos que fizeram, apostando nas sonoridades tradicionais de black e death metal que exploraram no início da carreira, bem mais sujas e pesadas, o que agrada os fãs nostálgicos do Sepultura antigo.)

Enquanto isso, o mundo girava: mudanças radicais ocorriam no mercado fonográfico, com a venda de discos físicos despencando depois do mp3 e do streaming. Os roqueiros cabeludos e tatuados também já não eram mais vistos como o bicho-papão da vizinhança, e o Rock in Rio até oficializou o seu Dia do Metal. Andreas Kisser, por seu lado, fez diversas parcerias na música brasileira, com aparições ao lado de nomes da tradicional MPB e do pop, de Caetano Veloso a Ivete Sangalo.

Nesse novo mundo, surgiu há dez anos, também em uma cidade mineira, Uberaba, uma manifestação rara no meio do heavy metal: uma banda com discurso e presença antirracista. Dois irmãos negros, Charles Gama e Chaene da Gama, de 38 e 40 anos, que tocavam covers do Sepultura, se uniram ao baterista Rodrigo “Pancho” Augusto e formaram o Black Pantera, um power trio (formato de banda de rock com guitarra, baixo e bateria). “Na época, a entrada de Derrick Green no Sepultura foi um espelho gigantesco para a gente. Antes, você mal contava os integrantes pretos das bandas de heavy metal”, conta Chaene. “Daí, o cara chegou, e ele era só o vocalista da maior banda de metal do Brasil.” Em 29 de novembro passado, o Black Pantera abriu um dos shows da turnê de despedida do Sepultura em Ribeirão Preto.

 

Quase dois meses depois do início da última turnê, em Belo Horizonte, o Sepultura aportou em Buenos Aires para uma única apresentação no Teatro Flores. Foi o 13º show da turnê pela América Latina, que incluiu também Peru, Equador, Chile, Uruguai e Costa Rica. O setlist foi praticamente igual ao da capital mineira, com a mesma abertura: Refuse/resist. A resposta do público portenho parecia com a de uma torcida organizada: um prolongado “ô ô ô” em várias músicas. A plateia chegou a adaptar um cântico de estádio para saudar a banda: “Sou Sepultura /o sentimento não pode parar/Olê olê olê, olê olê olê olá/olê olê olê/a cada dia te quero mais.”

A devoção não é gratuita. É muito mais fácil encontrar camisas da banda em Buenos Aires – como na feira do bairro San Telmo – do que no Rio de Janeiro e até em Belo Horizonte. Mas não havia apenas argentinos no Teatro Flores. Vindos do estado de São Paulo, os comerciantes Natália Godinho e Gustavo Garcia, ambos de 41 anos, já tinham visto mais de cem shows do grupo e só tinham um desejo: “Que essa turnê dure uns dez anos.” (Três dias depois, Buenos Aires teria um dos maiores protestos contra o governo de Javier Milei, o ultraliberal da extrema direita que costumava se vestir com jaqueta preta de roqueiro e fez covers dos Rolling Stones na juventude.)

“Estou cansado”, disse Andreas Kisser à piauí, horas antes do show. No hall do Hotel Metropolitano Supara, na capital argentina, alguns fãs já se aglomeravam do lado de fora atrás de um autógrafo. O guitarrista estava bem mais sereno e introspectivo do que às vésperas do show em Belo Horizonte. Vestia um casaco preto e usava óculos escuros. Parecia um recurso de estilo, mas na verdade era uma estratégia para esconder as olheiras. “A gente saiu cinco da manhã de Santiago, e essa turnê é feita toda de avião. Logística difícil, mas os shows estão sensacionais, é muito legal quando você morre”, ele brincou. “Quando você morre, você vira santo, né? Os seus defeitos ficam em segundo plano, e o mesmo está acontecendo com o Sepultura. É um sentimento muito bom perceber que a gente realizou algo que valeu a pena e fez a diferença para tantas pessoas.”

A injeção de carinho do público tem feito diferença para Kisser, que foi assombrado três vezes pela morte nos últimos três anos. Em 2021, ele perdeu o pai, Siegfried Kisser, aos 85 anos. Em 2022, sua mulher, a empresária e produtora musical Patrícia Perissinotto Kisser, morreu de câncer, aos 52 anos. “Eu só tenho a agradecer aos 32 anos com a minha esposa”, ele diz. “Criei três filhos e fiquei com ela até o último dia como sempre prometi. E a gente era bem diferente um do outro. Ela gostava de Chitãozinho e Xororó, eu era do metal. Enfim, foram as nossas diferenças que fizeram a gente ficar, se amar e construir. Ela acabou a parte dela por aqui e eu fiquei.”

Em 6 de março do ano passado, o guitarrista recebeu a notícia da morte de sua mãe, Anna Maria Tarkusch, de 79 anos. “Descanse em paz, Dona Anna, muito obrigado por tudo, mãe. Você q sempre me apoiou nas minhas escolhas da vida, te amo eternamente. Obrigado, obrigado!!!!!”, escreveu o músico em sua página no Instagram. Foi Tarkusch quem deu a Kisser, em setembro de 1983, a primeira guitarra.

As perdas levaram Kisser a refletir mais profundamente sobre a morte e o luto. Ele se tornou um ativista do movimento pela democratização dos cuidados paliativos – que visam dar conforto a quem sofre de uma doença que oferece risco de vida. Também se engajou no Movimento Mãetricia, que ele criou, em homenagem à sua mulher, para defender o direito individual à dignidade na morte. “A morte é minha grande professora. Se você não tem fim, você não tem sentido”, diz Kisser. “A gente não precisa temer a morte, a gente precisa aprender com ela. Foram anos difíceis depois da partida da minha esposa, do meu pai e da minha mãe. Mas eu cresci demais, porque escolhi não sentir pena de mim mesmo, ficar quebrando camarim, bebendo em casa, me matando aos poucos, revoltado com o mundo e com Deus, seja quem for, sabe?” Kisser está há mais de quatro anos sem beber.

O último show da turnê de despedida está previsto para meados de 2026, mas ainda não tem nem data exata nem local. Kisser prometeu que esse extenso gurufim deve culminar com o lançamento de um álbum derradeiro, com quarenta faixas ao vivo, registradas em quarenta cidades onde o grupo terá tocado. Haverá também algumas faixas inéditas e, quem sabe, a participação de ex-integrantes. “Eu levo os sentimentos bons de estar no palco, de agradecer ao fã e respeitar esse tempo”, diz Kisser.

Correm rumores de que Max e Iggor Cavalera poderão fazer uma participação especial no último show da turnê. O próprio Kisser fez o convite aos irmãos e também aos antigos integrantes do grupo, em uma entrevista que deu para o site alemão Moshpit Passion, em novembro passado. A piauí procurou o vocalista, mas a empresária Gloria Cavalera, sua mulher, disse por e-mail que Max não tem interesse em falar sobre o assunto. “Mas eu tenho muita esperança de que isso vai rolar. O que eu puder fazer do meu lado, vou fazer”, diz Silvio Gomes, a única linha direta entre a banda e os irmãos Cavalera.

Quando Patrícia Kisser morreu, foi Gomes quem contou a Iggor em primeira mão. O baterista não deixou de ligar para Andreas Kisser e transmitir seus pêsames. Quando morreu Vânia Cavalera, mãe dos irmãos, Gomes entrou em cena outra vez: avisou logo Kisser, que fez uma ligação para Iggor, a fim de dar suas condolências. “Já o Max é inacessível, porque a Gloria não deixa ninguém falar com ele”, diz Gomes. “Mas tenho esperança de que Max e Iggor vão perceber que essa é uma oportunidade de ouro, até porque eles são 50% dessa história, é uma obrigação estar presente em algum momento. Imagina um show com todos eles no Mineirão? Viria gente do mundo inteiro. Só tem que desenhar isso com os caras.”

Gilberto Porcidonio
Gilberto Porcidonio

É checador e repórter do site da piauí, roteirista e apresentador da audiossérie Chumbo & Soul, um Original Audible produzido pela Rádio Novelo

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