"Ele atirou quatro vezes na mãe porque era uma bala para cada um de nós: uma para Nancy, uma para ele próprio, uma para o irmão Ryan e uma para mim", diz o pai de Adam Lanza ILUSTRAÇÃO: SHOUT
Acerto de contas
O pai de um matador procura respostas
Andrew Solomon | Edição 94, Julho 2014
Do sótão da casa nova de Peter Lanza, numa isolada rua particular do condado de Fairfield, em Connecticut, transbordam caixotes do que ele chama de “o material”. Depois daquele dia de dezembro de 2012 em que seu filho, Adam, matou a própria mãe e outras 26 pessoas na Escola Fundamental Sandy Hook e, por fim, deu cabo da própria vida, desconhecidos do mundo todo lhe enviaram milhares e milhares de cartas e lembranças: xales de oração, bíblias, ursinhos, brinquedos artesanais, histórias com títulos como “Meu primeiro Natal no Céu” e cruzes, uma das quais confeccionada por presidiários. Mandaram-lhe doces também, e quando visitei Peter, no outono passado, ele me mostrou um saco de caramelos que havia chegado havia um ano. Não quis jogar nada fora, embora tenha receado “comer qualquer coisa” – e tampouco deixou que sua segunda mulher, Shelley Lanza, provasse um único daqueles caramelos. Como saber se não estavam envenenados? No piso térreo, em seu escritório, vi uma caixa de fotografias da família. Peter me contou que costumava manuseá-las, mas que agora mal conseguia olhar para as fotos de Adam, e lhe parecia estranho exibir apenas as do filho mais velho, Ryan. “Não estou lidando com o problema”, disse. Mais tarde, acrescentou: “Não é possível chorar pelo garotinho que ele foi. Não dá para se enganar.”
Peter evita a imprensa desde os tiros disparados por Adam, mas em setembro, perto do primeiro aniversário do massacre cometido por seu filho, ele me procurou para dizer que estava pronto para contar sua história. Tivemos seis encontros, um dos quais chegou a durar sete horas. Em geral, Shelley, bibliotecária da Universidade de Connecticut, se juntava a nós e preparava o almoço – sopa, chili ou salada. Vez por outra brincávamos com o pastor-alemão deles. Quando Peter fala, ainda se nota um forte sotaque rural de Massachusetts e do sul de New Hampshire, onde ele e sua primeira mulher – Nancy, a mãe de Adam – cresceram. Peter é um homem afável, dotado de uma compostura que, com frequência, oculta seu desespero. Contador, é vice-presidente encarregado de tributos de uma subsidiária da General Electric; manifesta uma necessidade quase maníaca em se ater aos fatos: nada o irritava mais em nossas conversas que especulação – minha, da mídia ou de quem fosse. Por natureza, não é uma pessoa dada à autorreflexão; muitas vezes, era Shelley quem assinalava o subtexto emocional do que ele dizia.
Por ocasião da matança na Sandy Hook, Peter não via o filho fazia dois anos, e mesmo retrospectivamente não acha que teria sido possível antever o ocorrido. Mas pensa muito se poderia ter agido de outro modo e gostaria de ter insistido mais em ver Adam. “Qualquer alternativa ao modo como procedi ou como me relacionei com ele só poderia ter sido boa – impossível um resultado pior”, diz. Em outra ocasião, afirmou: “Não se pode alcançar maior grau de maldade.” E acrescentou: “Se eu me atormento pelo fato de ele ser meu filho? Bastante.”
Dependendo do interlocutor, foram 26, 27 ou 28 as vítimas em Newtown. Vinte e seis, se contarmos apenas os que foram assassinados na Sandy Hook; 27, se incluirmos a mãe, Nancy Lanza; e 28, se contabilizarmos o suicídio de Adam. No telhado do Corpo de Bombeiros local contam-se 26 estrelas. No aniversário da tragédia, Barack Obama fez referência à morte de “seis dedicados funcionários da escola e vinte lindas crianças”, e o governador do estado de Connecticut pediu às igrejas que tocassem seus sinos 26 vezes. Algumas igrejas em Newtown já haviam prestado homenagem às vítimas com 28 badaladas, mas uma interpretação popular prevaleceu, segundo a qual Nancy – que, apaixonada por armas, ensinara o filho a atirar –, mais que vítima, havia sido cúmplice do crime. Emily Miller, editora do Washington Times, escreveu: “Não podemos atribuir a culpa do massacre perpetrado por Lanza a uma legislação indulgente quanto ao controle de armas, nem ao acesso a tratamentos de saúde mental, aos remédios vendidos com receita médica ou aos videogames. Podemos, sim, incriminar uma mãe que deveria ter tido mais consciência do grau da doença de seu filho e tê-lo forçado a se tratar.”
O controle inadequado de armas e o atendimento precário à saúde mental são problemas que invariavelmente balizam o debate que se segue a atrocidades como a de Newtown. Contudo, e ainda que essas sejam questões importantes, nosso impulso de procurar razões advém, pode-se argumentar, de uma necessidade mais básica: a de conferir sentido ao que parece não ter sentido algum. Quando, em dezembro, o procurador do estado de Connecticut publicou um relatório, a CNN anunciou: “O matador de Sandy Hook, Adam Lanza, levou para o túmulo o motivo de seu crime.” Uma manchete do Times dizia: “O assassino de Newtown: um olhar perturbador, nenhuma explicação.” Todavia, “motivo” nenhum é capaz de mitigar o horror de um banho de sangue envolvendo crianças. Tivéssemos nós descoberto – o que não aconteceu – que Adam era esquizofrênico, pedófilo ou que havia sido vítima de abuso quando criança, ainda assim não saberíamos por que ele fez o que fez.
De modo geral, os entrevistados desejam contar uma história. Peter Lanza, porém, se encontrava comigo tanto para responder como para fazer perguntas. É estranho viver num estado de permanente ignorância em relação a um acontecimento que se tornou o fato mais importante de sua vida. “Quero que as pessoas sintam medo de que possa acontecer a mesma coisa com elas”, ele me disse. Depois dos tiros, Peter ficou fora do ar por seis meses. “Mas é real”, ele diz. “Não é preciso que a gente entenda uma coisa para que ela seja real.”
Adam Lanza nunca foi um garoto como os outros. Nascido em 1992, só começou a falar aos 3 anos, e sempre compreendeu um número de palavras muito maior do que era capaz de empregar. Sua hipersensibilidade ao toque era tamanha que as etiquetas precisavam ser removidas de suas roupas. Na pré-escola e na Sandy Hook, da qual foi aluno até o início da 6ª série, ele volta e meia dizia sentir cheiros que ninguém sentia e lavava as mãos excessivamente. Um médico diagnosticou transtorno de processamento sensorial, e Adam fez fonoterapia e terapia ocupacional durante o jardim da infância e a 1ª série. Seus professores foram instruídos a ficar alerta para possíveis convulsões.
Ainda assim, as fotos mostram um menino alegre. “Adam amava a Sandy Hook”, diz Peter. “Sempre comentava como tinha gostado de ser criança.” O irmão, Ryan, quatro anos mais velho e hoje contador em Nova York, costumava zombar da proximidade entre Peter e Adam. Pai e filho passavam horas brincando de Lego no porão, inventando histórias para as cidadezinhas que construíam. Adam inventava até mesmo seus próprios jogos de tabuleiro. “Sempre pensava de um jeito diferente”, diz Peter. “Era apenas um garotinho esquisito normal.”
Mesmo numa época em que se atribui toda e qualquer perturbação infantil a um transtorno, a ideia de um “garotinho esquisito normal” parece bem razoável; Adam, porém, também manifestou sinais precoces de que apresentava problemas significativos. Lidar com emoções básicas, por exemplo, era uma dificuldade para ele, que recebia orientação de Nancy, mãe em tempo integral desde que Adam nasceu. Quando o menino precisou demonstrar sentimentos numa peça encenada na escola, Nancy escreveu a uma amiga: “O Adam levou tudo muito a sério. Praticou até expressões faciais no espelho!” De acordo com o relatório do procurador do estado, quando estava na 5ª série, Adam disse que “não tinha uma opinião muito elevada de si mesmo e acreditava que qualquer pessoa do mundo possuía mais méritos que ele”. Naquele ano, Adam e outro garoto escreveram um livro intitulado O Livrão da Vovó, no qual uma velha com uma arma na bengala põe-se a matar pessoas a torto e a direito. No terceiro capítulo, a avó e seu filho querem empalhar um menino para pôr sobre a cornija da lareira. Em outro capítulo, uma personagem chamada Dora, a Furiosa, afirma: “Eu gosto de machucar pessoas […] Sobretudo crianças.” Ao tentar vender cópias do livro na escola, Adam encrencou-se. Cerca de dois anos mais tarde, segundo o relatório do procurador, um professor notou uma violência “perturbadora” nos escritos do menino, a quem descreveu como “inteligente, mas não normal, demonstrando problemas de sociabilidade”.
Enquanto isso, o casamento de Peter e Nancy começava a se desfazer. O pai de Peter também havia vivido relativamente afastado da mulher, mergulhado no trabalho. Peter não dispunha de um modelo forte de vida em família. “Durante a semana, eu trabalhava um número absurdo de horas, e Nancy tomava conta das crianças”, ele me contou. “Então, nos fins de semana, ela cuidava das coisas que precisava fazer fora de casa, e eu ficava com os meninos.” Com frequência, nessas ocasiões eles empreendiam longas caminhadas. Em 2001, Peter e Nancy se separaram. Adam tinha 9 anos. Mais tarde, quando um psiquiatra lhe perguntou sobre essa experiência, ele respondeu que os pais se irritavam um ao outro na mesma medida em que o irritavam.
Peter recorda: “O engraçado é que, na verdade, a separação não alterou muito as coisas para as crianças.” Peter se mudou para Stamford, a quase uma hora de Newtown, mas ainda via os filhos todo fim de semana. Quando Adam ingressou na segunda etapa do ensino fundamental (o antigo ginásio), ele, orgulhoso, levou o pai para conhecer a escola. “E ele era um tagarela, falava à beça. Era impossível fazer aquele garoto calar a boca!”, Peter disse. Nos anos que se seguiram, passaram a conversar sobre política. Adam era fã do republicano Ron Paul e gostava de discutir economia. Adquiriu fascínio por armas de fogo e pela Segunda Guerra Mundial, além de manifestar interesse em entrar para o Exército. Nunca falou em assassinatos em massa e não era violento na escola. Raras vezes demonstrava suas emoções, mas tinha um aguçado senso de humor. Quando Peter o levou para ver Bill Cosby ao vivo, Adam riu por uma hora, sem parar. Adorava reprises de The Bob Newhart Show e do Agente 86, a que assistia com o pai. Certa ocasião, no Natal, disse aos pais que queria usar suas economias para comprar brinquedos para as crianças pobres, e Peter o levou às lojas.
Quando Adam começou o ginásio, as preocupações de Peter e Nancy aumentaram. A estrutura do cotidiano da escola havia mudado. Em vez de permanecer num único lugar, Adam agora precisava ir de uma sala para outra, e se ressentiu dessa perturbação da rotina. A sobrecarga sensorial afetava sua capacidade de concentração. Nancy fazia cópias em preto e branco dos livros didáticos, pois Adam não suportava ilustrações coloridas. Parou de tocar saxofone, de subir em árvores, evitava olhar diretamente para as pessoas e desenvolveu um modo rijo e desajeitado de andar. Dizia odiar aniversários e feriados, eventos que antes adorava. Ocasiões especiais perturbavam seu senso de ordem, cada vez mais rígido. Tinha “episódios”, ataques de pânico que obrigavam a mãe a ir até a escola. O relatório do procurador do estado afirma que, nessas ocasiões, Adam “em geral tendia a ser vítima, e não o ator da violência contra os outros”.
“Era óbvio que alguma coisa estava errada”, disse Peter. “A inaptidão social, o desconforto da ansiedade, a insônia, o estresse, a incapacidade de concentração, a dificuldade no aprendizado, aquele modo desajeitado de caminhar, o contato visual reduzido – dava para ver as mudanças acontecendo.” Era difícil saber ao certo se eram problemas novos que surgiam ou se eram os antigos que se tornavam agora mais aparentes. Michael Stone, psiquiatra estudioso de assassinatos em massa, afirma que, à medida que as crianças crescem e suas tarefas vão se tornando mais difíceis, o que parece ser uma incapacidade menor se transforma em outra, maior. “São garotos esquisitos na escola. Não têm amigos. Não são escolhidos para o time de beisebol”, comenta. “Mas, quando atingem aquela idade em que se começa a buscar parceiras e a namorar, eles não conseguem. Assim, a sensação de deficiência – pequena nos primeiros anos de escola e um pouco aumentada mais adiante – agora se torna aguda.” Stone acrescenta que, sem que haja uma piora do cérebro, “os próprios desafios da vida vão empurrando essas crianças na direção de um adoecimento progressivo”.
Todos os sintomas que afligiam Adam são sinais de um autismo que pode ser exacerbado pelas alterações hormonais que ocorrem na adolescência. Quando ele tinha 13 anos, Peter e Nancy o levaram a um psiquiatra, Paul J. Fox, que diagnosticou síndrome de Asperger (um distúrbio que, desde então, a Sociedade Americana de Psiquiatria inseriu no diagnóstico mais amplo do transtorno de espectro autista). Peter e Nancy finalmente souberam o que estavam enfrentando. “A descoberta foi comunicada da seguinte maneira: ‘Adam, essa é uma boa notícia. É por isso que você se sente desse jeito, e agora vamos poder fazer alguma coisa a esse respeito’”, Peter se lembra. Mas Adam se recusou a aceitar o diagnóstico.
Peter e Nancy, que mantiveram uma relação amigável no trato das necessidades dos filhos, procuraram escolas especiais, públicas e particulares. Peter foi a uma reunião da Global and Regional Asperger Syndrome Partnership (Grasp), para falar com adultos vítimas do mesmo transtorno e tentar imaginar uma vida para seu filho. Esperava que, “no futuro, a gente conseguisse inseri-lo no Grasp, e ele poderia ter relacionamentos e, talvez, se casar com alguém que também tivesse Asperger”. Nancy pensou em se mudar para uma cidade 80 quilômetros adiante, cuja rede escolar possuía bons programas para crianças com necessidades especiais, mas concluiu que mais uma quebra de rotina acabaria por anular os eventuais benefícios. Por um breve período, matriculou Adam numa escola católica que parecia possuir melhor estrutura, mas a medida tampouco funcionou. Fox recomendou que Adam recebesse educação em casa, argumentando que as desvantagens de mandá-lo para uma escola normal eram maiores do que aquelas decorrentes de isolá-lo de seus pares. Da 8ª série em diante, Nancy ensinou-lhe as ciências humanas, ao passo que Peter via Adam duas vezes por semana, para tratar das exatas.
Nancy ajustou o currículo doméstico ao da Newtown High School, a fim de garantir que Adam pudesse se formar no ensino médio, em vez de receber apenas um certificado de equivalência. Provinham dela todas as grandes decisões. “Eu assumia uma postura passiva”, diz Peter. Mesmo depois de ter começado com a educação em casa, Adam seguiu frequentando as reuniões do clube de tecnologia da Newtown High. “Ele estava em seu ambiente ali”, afirma Peter. “Eram todos esquisitos e inteligentes.” Certa vez, Adam promoveu uma festa em casa para os membros do clube. Nancy escreveu a Peter: “Foi bom ouvir o Adam conversando com os outros garotos, e todo mundo brincando com ele e ele sendo tão bem tratado.” Adam, porém, não entendia o que era popularidade, e uma vez perguntou a Peter: “Por que a gente precisa de amigos?”
Exibia aquilo que seu pai descreveu como “a arrogância que pode ter quem sofre de Asperger”. Escreveu que não ficava satisfeito se “a informação que me dão não é suficientemente profunda. Não aprendi nada no livro de história da 9ª série, porque ele não explicava os fatos com a profundidade necessária, nem analisava por que eles ocorreram”. Depois, desdenhou das aulas que tivera com os pais, afirmando que havia aprendido química sozinho.
Quando Adam tinha 14 anos, pouco depois de Ryan ter ido para a faculdade, Peter e Nancy o levaram até o Centro de Estudos Infantis de Yale, em busca de mais uma avaliação. O psiquiatra que o examinou, Robert King, anotou que Adam era “um jovem adolescente pálido, muito magro e desajeitado, de postura rígida e olhos voltados para o chão, que se recusou a um aperto de mãos”. Percebeu também que “sua fala espontânea é relativamente escassa, e ele responde num tom monótono, com pouca modulação e uma prosódia quase mecânica”. Muitos autistas falam num tom monótono, e evitar o contato visual é também uma característica comum, porque tentar interpretar a um só tempo sons e rostos constitui para eles tarefa avassaladora. Perguntas que demandam mais que um sim ou não também podem ser intoleráveis a um autista, e quando King pediu a Adam que fizesse três desejos, seu desejo foi o de que “aquilo que estivesse oferecendo os desejos não existisse”. King viu nele indícios do transtorno obsessivo-compulsivo que muitas vezes acompanha o autismo. Adam se recusava a tocar objetos de metal, como maçanetas, e tampouco gostava que a mãe os tocasse, porque temia que ela o contaminasse. “Ele impõe muitas restrições, cada vez mais onerosas para sua mãe”, escreveu King. “Não gosta que ela encoste em nada na casa, porque julga ‘impróprio’. […] Tampouco tolera que ela esbarre em sua cadeira, e desaprovou as botas de salto alto dela, porque faziam ‘muito barulho’. […] Se a mãe passa na frente dele na cozinha, insiste para que ela refaça o caminho.” Preocupou-o que os pais parecessem pensar acima de tudo na educação de Adam, afirmando ser mais urgente tratar de “como ajustar sua severa incapacidade social de uma maneira que lhe permita estar entre seus pares”. King viu “risco considerável na criação, ainda que com a melhor das intenções, de um ambiente artificial para Adam, que o poupa da convivência com outros estudantes ou de ter de se empenhar para superar suas dificuldades sociais”. E concluiu que Nancy estava se tornando “quase uma prisioneira em sua própria casa”.
Em Yale, Kathleen Koenig, uma enfermeira com especialização em psiquiatria, procurou dar prosseguimento a alguma terapia. Enquanto Adam esteve sob os cuidados dela, ele tentou o Lexapro que Fox havia receitado. Nancy relata: “Na terceira manhã, Adam reclamou de tontura. Naquela tarde, mostrou-se desorientado, sua fala não tinha coerência e ele não conseguiu nem sequer abrir a caixa de cereais. Suava em bicas. […] Na verdade, o suor lhe escorria das mãos. Disse que não conseguia pensar. […] Estava praticamente num estado vegetativo.” Mais tarde, naquele mesmo dia, ela escreveu: “Ele só ficou deitado em seu quarto escuro, olhando para o nada.” Adam parou de tomar Lexapro e nunca mais fez uso de psicotrópicos, o que preocupou Kathleen. Ela escreveu: “Embora Adam goste de acreditar que é inteiramente lógico, na verdade ele não é nem um pingo, e eu chamei a atenção dele para isso.” Kathleen disse que ele tinha uma disfunção biológica e que precisava de medicação. “Disse a ele que naquele momento ele estava vivendo dentro de uma caixa, e que, se não se tratasse, com o tempo essa caixa ia se tornar cada vez menor.”
Paul Appelbaum, psiquiatra forense da Universidade Columbia, nota que muitos jovens são associais e infelizes, passam muito tempo na internet, tornam-se viciados em videogames – mas não fazem mal a ninguém. Poucos são os perigosos, e é impossível identificá-los. “Ainda que soubéssemos quem são ou quais têm maior probabilidade de ser, não podemos afirmar se eles aceitariam se tratar. Rapazes jovens, possivelmente enraivecidos, desconfiados e isolados da sociedade, estão entre as pessoas mais difíceis de se interessar por uma terapia. Ir ao consultório do terapeuta uma hora por semana apenas para abrir o coração em geral não lhes parece ser das coisas mais atraentes.”
“Adam não estava disposto a fazer terapia”, disse Peter. “Não queria falar sobre seus problemas, nem sequer admitia que tinha Asperger.” Peter e Nancy confiavam tanto nesse diagnóstico que não procuraram outras explicações para o comportamento do filho. Nesse sentido, a síndrome de Asperger talvez os tenha distraído do que mais podia haver de errado com Adam. “Se ele tivesse sido um adolescente totalmente normal, bem ajustado e, de repente, se isolasse, aí, sim, ficaríamos alarmados”, diz Peter. “Mas não nos esqueçamos de que sua esquisitice correspondia à nossa expectativa.” Ainda assim, Peter e Nancy repetidas vezes procuraram ajuda profissional, mas nenhum dos médicos detectou no rapaz qualquer predisposição perturbadora à violência. Segundo o relatório do procurador do estado, “os profissionais de saúde mental que o examinaram não viram nada que permitisse prever seu comportamento posterior”. Peter disse: “Aqui estamos nós, perto de Nova York, um dos melhores lugares para o atendimento a problemas de saúde mental, e ninguém viu isso.”
Peter se irrita quando as pessoas conjecturam que o transtorno de Asperger foi a causa da violência cometida por Adam. “Asperger torna as pessoas diferentes, mas não dessa maneira”, ele diz, e defende a teoria de que esse transtorno “encobriu outro fator”. “Penso que o transtorno de Asperger poderia estar mascarando uma esquizofrenia.” A violência, quando cometida por autistas, é em geral mais reativa que planejada – deflagrada, por exemplo, por uma invasão do espaço pessoal. Estudos realizados com autistas que cometeram crimes sugerem que pelo menos metade deles sofria também de outro mal; em torno de 25% dos casos, psicose. Alguns pesquisadores acreditam que um aumento pronunciado na intensidade das obsessões de um autista pode ser um sinal de alarme, em especial se elas exibem traços sinistros. Registros das atividades online de Adam mostram que, por volta dos 20 anos, ele desenvolveu uma obsessão por assassinatos em massa. Mas o sinal de alarme não pôde ser acionado: sua obsessão só foi discutida com outras pessoas online, e sob pseudônimo.
Tanto o autismo como a psicopatia acarretam uma ausência de empatia. Os psicólogos, contudo, distinguem a deficiência de “empatia cognitiva” do autismo (a dificuldade de entender o que são emoções, os problemas para interpretar os sinais não verbais dos outros) da deficiência de “empatia emocional” da psicopatia (a falta de escrúpulo quanto a ferir os outros, a incapacidade de compartilhar dos sentimentos deles). As pessoas que não apresentam nenhum desses dois tipos de empatia parecem constituir um subgrupo pequeno, mas elas podem dar vazão a intenções criminosas de um modo tanto inocente quanto brutal.
O autismo é cada vez mais invocado nos tribunais como argumento em favor da leniência, às vezes sob a alegação de que o sujeito confunde causa e efeito. Opta-se, assim, por uma defesa baseada na confusão mental, por assim dizer. Adam Lanza, no entanto, tinha muita clareza sobre o que estava fazendo. Ele destruiu um de seus discos rígidos, mas conservou uma planilha sobre assassinatos em massa e fotografias dele mesmo com uma arma apontada para a cabeça. Um estudo recente sugere que a ausência de empatia pode estar ligada à insensibilidade para a dor física. A despeito de sua hipersensibilidade a estímulos menos significativos, esse parece ter sido um dos sintomas apresentados por Adam. Nancy havia avisado a escola que, por vezes, Adam não deixava de fazer uma coisa apenas porque ela lhe provocava dor.
Quando fui visitar Peter, ele me mostrou quatro pastas de e-mails impressos trocados entre ele, Nancy e Adam a partir de 2007. Em 2008, quando Adam fez 16 anos e só ia à escola para eventos ocasionais, os e-mails de Nancy descrevem a crescente infelicidade dele. “Teve uma noite horrível. […] Chorou no banheiro durante 45 minutos e perdeu a primeira aula.” Duas semanas depois, ela escreveu: “Espero que ele se recupere a tempo de ir à escola agora à tarde, mas duvido. Há mais de uma hora está sentado com a cabeça tombada para o lado, sem fazer nada.” Mais adiante, nesse mesmo ano: “Adam teve uma noite ruim. Ontem à noite, esvaziou seu quarto. Tirou tudo que havia nele. Deixou apenas a cama e o guarda-roupa.”
No período subsequente à decisão de educar Adam em casa, Nancy vivia pedindo a Peter que não aparecesse quando o jovem estivesse tendo um “dia ruim”; dos e-mails dela, porém, não emerge nada que sugira uma crise compatível com a avaliação feita em Yale. A intensidade do relacionamento de Adam com Nancy começava a afetar Peter, embora ele não percebesse essa intensidade como “de natureza problemática”. Peter era um pai tão dócil quanto Nancy era uma mãe obsessiva. Ela cedia às compulsões de Adam. “Construía o mundo em volta dele e o acolchoava”, disse Peter. Adam tinha dificuldade de coordenação e, aos 17 anos, no meio de uma caminhada – Peter contou a Nancy –, parara para amarrar os sapatos. Espantada, ela perguntou: “Ele amarrou os próprios sapatos?”
O senso de humor de Adam persistia. Quando tinha 16 anos, encontrou uma imagem que reunia Karl Marx (barba enorme), Lênin (barba pequena), Stálin (bigode) e Mao (cara limpa), e a ela acrescentou a legenda: “Camaradas, precisamos corrigir esse padrão oscilante de pelos no rosto.” Peter achou aquilo muito engraçado e mandou fazer camisetas com o cartum criado pelo filho. Todos procuravam estimular Adam e encontrar meios de estabelecer uma relação com ele. Nancy o carregava em suas viagens para a prática de tiro ao alvo. Os dois achavam que o filho não era violento; muitas vezes, a melhor maneira de construir um vínculo com um portador da síndrome de Asperger é compartilhar suas manias.
Ser pai ou mãe sempre implica uma escolha entre o dia presente (por que discutir de novo ao jantar?) e os anos futuros (a criança precisa aprender a comer legumes e verduras). O erro de Nancy parece ter sido concentrar-se sempre no presente, numa busca incessante por manter a paz cotidiana na casa que dividia com aquele estranho hipersensível, controlador e cada vez mais hostil que era seu filho. Ela acreditou que, tornando cada dia o melhor possível, podia manter os anos a uma distância segura. Contudo, a presteza com que cedia ao isolamento de Adam pode muito bem ter exacerbado os problemas que essa sua atitude visava corrigir.
No outono de 2009, os Lanza por fim se divorciaram. Uma das cláusulas do divórcio estipulava que Peter deveria dar um carro a Adam. Peter comprou um Honda Civic e o ensinou a dirigir. Segundo me disse, seu filho era “o motorista mais cauteloso da face da Terra”. Peter nunca se preocupou com a possibilidade de Adam cometer alguma infração, fosse qual fosse. Sentia, é verdade, que o filho estava perdendo interesse nele, mas o afastamento não lhe pareceu uma coisa do outro mundo: também ele se apartara dos pais ao final da adolescência. “Eu precisava lhe dar espaço”, explicou. “Ele vai se tornar mais maduro, e vou continuar fazendo o que puder, mantendo meu envolvimento com ele”, pensava.
Durante aquele ano, Adam desenvolveu sua obsessão particular pela ideia de matar. Começou a editar verbetes da Wikipédia sobre assassinos em massa conhecidos, e parecia sinistramente bem informado a respeito do assunto. Embora ainda não exibisse nenhum pendor visível para a violência, estava se tornando uma pessoa com a qual era cada vez mais difícil lidar. Nancy escreveu a Peter que o rapaz por vezes fechava a porta do quarto, quando ela tentava falar com ele.
Tarefas da escola muitas vezes deflagravam nele um sentimento de desespero. “Esteve exausto e letárgico o dia todo, disse que não conseguia se concentrar e não fez a tarefa”, ela escreveu. “Está à beira das lágrimas por não ter as anotações do diário para passar a limpo e entregar. Disse que tentou se concentrar, mas não conseguiu, e agora se pergunta por que é ‘um tremendo fracasso’ e se tem alguma coisa que ele possa fazer a respeito disso.” Adam andava tendo aulas na Western Connecticut State University (para complementar os créditos do ensino médio), mas aquilo era uma luta para ele. “No caminho para casa, não falava nada e cobria o rosto com o capuz”, Nancy escreveu certa feita. “Foi direto para o quarto e não quer comer. Dei um tempo para que ele se recompusesse e já tentei falar com ele duas vezes até agora, mas ele só fica dizendo ‘Isso não importa’ ou ‘Me deixa’, ou ‘Não quero falar sobre isso’.” Dois meses depois, Nancy registrou o desespero do filho diante de uma lição de um curso de alemão. “Finalmente, em lágrimas, ele disse que não consegue completar as frases. Não entende nada. Passou horas tentando fazer os exercícios e não consegue compreendê-los.”
Nancy arrumou um professor particular, mas: “Dez minutos antes de sairmos, ele estava se aprontando para ir, mas aí desmoronou e começou a chorar: não podia ir. Disse que não adiantava nada, que não sabia nem mesmo o que era que não sabia, e coisas desse tipo.” No começo de 2010, quando ela contou a Peter que Adam chorava histericamente no chão do banheiro, ele respondeu com veemência atípica: “O Adam precisa expressar o motivo desse seu sofrimento. Nós temos menos de três meses para ajudá-lo, antes que ele faça 18. Estou convencido de que, quando completar 18, ele ou vai tentar se alistar no Exército ou simplesmente vai sair de casa para viver como um maltrapilho.” Nancy respondeu: “Acabo de passar duas horas sentada na porta do quarto dele, perguntando por que ele está tão infeliz. Foi reprovado em todos os exames que fez. E achava que sabia a matéria.” Mais tarde, no mesmo dia, ela escreveu: “Tenho a sensação de que, quando disse que preferiria ser um mendigo a fazer outro exame, ele estava falando sério.” Nancy disse também que Adam estava fingindo ir às aulas, mas que, na verdade, passava o tempo todo na biblioteca.
Adam sempre teve aspirações muito acima de suas possibilidades. Sua lista de faculdades começava com Cornell, para a qual ele evidentemente não possuía currículo acadêmico suficiente. Depois, anunciou que se alistaria no Exército quando fizesse 18 anos, em abril de 2010. Queria juntar-se aos Army Rangers, um regimento de elite. “O que se faz nessa situação?”, Peter se perguntou. “Diz a ele: ‘Adam, você está sendo realista?’” Quando, porém, chegou o momento, ele não se candidatou. Peter o levou para conhecer a Norwich University, que também oferecia formação militar, mas depois concluíram que, antes de tentar ingressar em qualquer universidade, Adam devia se matricular num curso preparatório e mais modesto no Norwalk Community College, perto de Stamford. Adam quis fazer cinco matérias, mas Peter lhe disse que aquilo era muito para ele e sugeriu duas, com as quais poderia ajudá-lo. Quando, então, Peter foi buscá-lo para passar um fim de semana, Adam se recusou a acompanhar o pai. Peter disse: “Adam, a gente precisa arrumar um jeito de eu poder fazer alguma coisa.” O rapaz estava furioso. “Eu quase nunca o via zangado, mas ele estava puto”, Peter se lembra. “E o problema era: ‘Eu vou fazer as cinco matérias. Vou fazer todas elas.’” Isso foi em setembro de 2010 – a última vez que Peter viu o filho.
Antes, naquele mesmo ano, Nancy havia escrito: “Adam não quer ver você. Tenho tentado argumentar com ele, mas sem sucesso. Não sei o que fazer.” Um e-mail que Adam enviou a Peter, para se livrar de novo encontro, soou inofensivo: “Me desculpe por não querer ir hoje. Não tenho me sentido bem nos últimos dias.” Contudo, relatos posteriores de Nancy pintaram um quadro mais tenso. “Ele está desesperado, chora muito, não consegue. […] Tenho tentado convencê-lo a ver você, mas ele se recusa e, toda vez que toquei no assunto, só piorei as coisas”, escreveu ela. Nancy concluiu que Adam se ofendera com a advertência de Peter de que cinco matérias constituiriam carga muito pesada para ele.
Peter ficou frustrado, mas sentiu que não podia simplesmente aparecer na casa em Newtown e forçar um encontro. “Teria dado briga, e isso era a última coisa que eu queria. Jesus […] Se tivesse ido lá sem avisar e dito ‘Quero ver o Adam’ e ‘Por que você está fazendo isso?’, o Adam ficaria muito irritado comigo.” Mais tarde, Peter comentou: “Se eu dizia que estava indo lá, a Nancy respondia: ‘Não, a troco de quê?’ Quero dizer, ela controlava a situação.” Peter tentou permanecer no caminho da conciliação e nunca apresentou Shelley a Adam, pois suspeitava que aquilo fosse mais do que o filho seria capaz de suportar. (Todavia, apresentou-a a Ryan, que se mudara para Nova Jersey depois que havia terminado a faculdade.) Pensou em contratar um detetive particular “para tentar descobrir aonde Adam ia e, assim, encontrá-lo ‘por acaso’ em algum lugar”. Se tivesse feito isso, talvez tivesse descoberto que Adam costumava frequentar um local para jogar o videogame Dance Dance Revolution. Passava até dez horas seguidas ouvindo música e tentando acompanhar complexos movimentos de dança sobre uma plataforma iluminada. Um mês antes da matança, era o que ele fazia.
Eu me perguntava como Peter se sentiu ao longo daquele período. “Triste”, foi a resposta. “Estava magoado. Jamais pensei que nunca mais fosse falar com ele. Achei que era só uma questão de tempo.” Peter se pergunta: “Até que ponto você cede ou não? A Nancy tendia a ceder, assim como eu também.” E acrescentou: “Mas acho que ele percebeu que tinha um controle maior sobre ela que sobre mim.” Adam cortou também toda comunicação com Ryan, a quem tinha visto pela última vez dois Natais antes dos disparos. De acordo com Peter, o irmão tentou contato várias vezes, mas Adam nunca respondeu. Peter e Shelley suspeitam agora que Adam os excluíra para ocultar deles sua própria deterioração psicológica. “Eu não percebi que Adam estava se afastando”, diz Peter.
Por volta de 2011, as mensagens de Nancy haviam se tornado mais sucintas. Peter atribuiu a parcimônia mais a seu casamento com Shelley que a uma alteração no estado mental de Adam. Em outubro, catorze meses antes da tragédia, ela relatou que Adam “está muito bem e se tornou bem mais independente ao longo do último ano. Está começando a falar em voltar para a escola, o que seria muito bom”. Mas o relatório do procurador do estado observa que as pessoas que, à época, trabalhavam na propriedade de Nancy não podiam nem entrar na casa e chegaram a ser advertidas a jamais tocar a campainha.
No começo de 2012, Nancy disse que Adam concordara em se encontrar com Peter na primavera, mas isso não aconteceu. Nove meses depois, Peter reclamou que Adam nem sequer acusava o recebimento dos e-mails que ele lhe enviava. Nancy respondeu: “Vou falar com ele sobre isso, mas não quero atormentá-lo. Ele teve um verão ruim e, na verdade, não sai mais de casa.” Contou também que o carro de Adam havia ficado tanto tempo sem uso que a bateria arriou. E minimizou o silêncio de Adam aos e-mails do pai. “Ele parou de me mandar e-mails há cerca de um ano, mas imaginei que isso se devia ao fato de ele ter começado a falar mais comigo”, ela escreveu. Contudo, o relatório do procurador insinua que o relato de Nancy era enganoso: Adam não falava mais com a mãe e se comunicava com ela apenas por e-mail. “Me incomodou que ela me dissesse que ele não usava e-mail, enquanto ela própria escrevia e-mails para ele”, Peter me disse. Ele crê que o orgulho de Nancy a tenha impedido de pedir ajuda. “Ela queria que todo mundo pensasse que estava tudo bem.”
À medida que o isolamento de Adam se intensificava, a ingenuidade de Nancy passou a se confundir com denegação. Ela começou a fazer planos para se mudar com o filho possivelmente para Seattle, mas não disse nada a Peter. Havia também comentado com uma amiga que moraria ainda “por muito tempo” com Adam, situação que podia ser dolorosa para um jovem tão desejoso de independência a ponto de não permitir que o pai o ajudasse com os trabalhos da escola. Essa atitude de Nancy, mistura de tentativa de conciliação com desdém pela busca de ajuda profissional, parece agora espantosa. Atitudes semelhantes, porém, funcionam bem para outras pessoas: alguns autistas respondem melhor a uma combinação de laissez-faire com acompanhamento indulgente.
A última mensagem que Nancy enviou a Peter, no mês anterior aos disparos, era sobre a compra de um novo computador para Adam. Peter queria entregar o computador pessoalmente. Nancy disse que discutiria o assunto com Adam depois do Dia de Ação de Graças, no final de novembro. “Eu estava fazendo tudo que podia”, me disse Peter. “E ela, muito mais. Fico triste por ela.” Peter está convencido de que Nancy não tinha ideia de como o filho havia se tornado perigoso. “Ela nunca comentou nada com a irmã nem com a melhor amiga sobre sentir medo dele. Tinha armas em casa e dormia com a porta do quarto destrancada, o que não faria se estivesse com medo.” Cerca de uma semana antes da tragédia, Nancy teria dito a uma pessoa do seu conhecimento: “Estou preocupada porque estou perdendo meu filho.” Mas “perdê-lo” parecia ter a ver com o afastamento dele, e não com violência. A cautela com que ela reagia às demandas dele indica ansiedade, mais do que medo, o que deve tê-la feito se sentir tão solitária quanto Adam.
O matricídio é, em geral, cometido por garotos superprotegidos – por um filho que, “com esse ato de desespero”, como afirma um estudo, deseja “libertar-se de seu estado de dependência da mãe, uma dependência que, acredita ele, o impediu de crescer”. Outro estudo sustenta que, em cada um dos casos examinados, “a relação mãe–filho tornou-se extraordinariamente intensa e conflituosa”, ao passo que o pai “mostrou-se passivo e permaneceu relativamente alheio”. O relatório do procurador do estado afirma que, quando Nancy perguntou a Adam se ele ficaria triste caso alguma coisa acontecesse a ela, a resposta dele foi “não”. Um arquivo de Word intitulado “Egoísta”, encontrado no computador de Adam, explica por que as mulheres são, por natureza, egoístas. O documento foi escrito enquanto Peter e Nancy buscavam, de todas as maneiras possíveis, atender a cada uma das demandas dele.
Àquela altura, Peter acredita que Adam tampouco sentisse qualquer afeição pelo pai. “Pensando agora, sei que Adam teria me matado num piscar de olhos, se tivesse tido a oportunidade. Não duvido disso nem por um instante. O motivo pelo qual ele atirou quatro vezes em Nancy foi porque era uma bala para cada um de nós: uma para Nancy, uma para ele próprio, uma para Ryan e uma para mim.”
Na manhã de 14 de dezembro de 2012, Peter foi almoçar e encontrou os colegas de trabalho reunidos ao redor de uma televisão. Chocado com a notícia que viu, comentou: “Meus dois filhos estudaram nessa escola.”
E voltou para a sua mesa. Em seguida, reportagens mencionaram o envolvimento de um rapaz de 20 e de outro de 24 anos (as idades de seus filhos), e o fato de o atirador ter frequentado a escola. Sem condições de trabalhar, Peter voltou para casa para assistir à cobertura jornalística. Um repórter o aguardava na entrada da garagem e lhe disse que uma pessoa de sua família estava envolvida nos disparos. Peter entrou em casa, fechou a porta, ligou a tevê e viu que a CNN identificava Ryan como o atirador. Mas ele sabia da verdade. Telefonou para Shelley. É ela quem conta: “Peter falou: ‘Aqui é o Peter. Acho que é o Adam.’ Não reconheci a voz dele, que tornou a dizer: ‘É o Peter quem está falando. Peter. É o Adam.’ Eu ainda não estava entendendo nada. Ele repetiu: ‘Acho que é o Adam. É o Adam.’ Quando finalmente compreendi, soltei um grito e comecei a tremer violentamente.”
Tão logo Shelley voltou para casa, telefonaram para Ryan e viajaram por duas horas até a casa dele, em Hoboken. Ryan também saíra mais cedo do trabalho. Quando chegou em casa, a polícia já havia isolado o prédio onde morava. Adam portava a identidade de Ryan, o que causara a confusão entre ambos. Ryan aproximou-se da polícia com as mãos para cima e disse: “Vocês estão me procurando, mas não fui eu.” Como o haviam levado a uma delegacia, Peter e Shelley também se dirigiram para lá. Os dois foram interrogados por cerca de duas horas e tiveram de esperar outras duas até que lhes permitissem ver Ryan. Depois, reuniram-se no apartamento de uma tia de Peter; de lá, foram encaminhados a um hotel, à casa da família de Shelley e a outros locais seguros, acompanhados de uma unidade policial munida de cães, a título de segurança. Foram entrevistados pelo FBI, pela polícia estadual e por várias autoridades locais. “Nem roupas nós tínhamos”, Peter conta. “Tive de pedir emprestada uma calça do meu advogado.” Por fim, foram para New Hampshire, para cuidar do funeral de Nancy, e precisaram fugir do assédio da mídia, que queria cobrir o evento. Perguntei o que tinham feito em relação ao enterro de Adam. “Isso ninguém sabe”, ele me disse. “Nem nunca vai saber.”
Adam Lanza era um terrorista lutando por uma causa desconhecida que cometeu três atrocidades: matou a própria mãe, se matou e matou crianças e adultos que nunca tinha visto antes. Dois desses atos têm explicação; o terceiro é incompreensível. Existem muitos crimes que a maioria das pessoas desiste de cometer porque sabe a diferença entre o certo e o errado e toma cuidado com a lei. Muita gente gostaria de ter coisas pertencentes a outros; muitas pessoas já experimentaram uma fúria assassina. Mas o motivo pelo qual quase ninguém atira a esmo em vinte crianças não é o autocontrole: é o fato de não existir um único aspecto capaz de tornar atrativa uma ideia como essa. Desde 2006, segundo um estudo do USA Today, já ocorreram 249 assassinatos em massa nos Estados Unidos – ou seja, com mais de quatro mortos, excluindo-se o matador. Mas menos de 15% deles envolvem vítimas arbitrárias, desconhecidas[1].
O problema com as generalizações, em se tratando de assassinos em massa, é que o contingente da amostra é escasso, e a maioria deles morre antes que se possa examiná-los. Quase metade desses assassinos comete suicídio no próprio local, e muitos outros são mortos pela polícia. De fato, Paul Appelbaum, o psiquiatra forense da Universidade Columbia, considera esses casos como “suicídios nos quais o assassinato é um epifenômeno, em vez de assassinatos que terminam em suicídio”.
A visão contrária é igualmente possível: Henry J. Friedman, professor de psiquiatria em Harvard, afirma que, para esses matadores, a disposição para o homicídio é “um estado primário, e não um estado reativo”, e que seu “desejo de pôr um fim precoce à própria vida envoltos em uma aura de destruição apocalíptica” não sinaliza o “desespero verdadeiramente depressivo” típico dos suicídios. Para Adam, porém, matar outros e se suicidar foram, ambos, cruciais. A relação parece clara: quanto mais ele se odiava, mais odiava todas as demais pessoas. Émile Durkheim, o grande estudioso do suicídio, escreveu que este pode ser “um ato não de desespero, mas de abnegação”. Com seu ato, Adam abnegou a humanidade.
Cientistas estão sequenciando seu DNA para ver se conseguem encontrar anomalias capazes de explicar o que nele se quebrou. Contudo, se alguém cometeu crimes hediondos e então se descobre que seus genes eram ruins ou que ele era possuidor de alguma anomalia neurológica, haveremos de presumir que a biologia o compeliu a cometê-los? É um círculo vicioso, que funde a descrição do fenômeno com a sua causa. Toda a nossa mente encontra-se codificada numa arquitetura neuronal, e, se as tecnologias de mapeamento avançarem o bastante, teremos testes fisiológicos que poderão detectar se uma pessoa tem educação universitária, fé religiosa ou passou por um fracasso amoroso. Tal conhecimento nos proporcionará uma compreensão mais profunda?
As definições legais de insanidade ainda estão focadas na psicose, cujos delírios são entendidos como inibidores da responsabilidade pessoal. A medicina concebe muitos outros comportamentos, pensamentos e sentimentos insólitos. Historicamente, a definição legal de insanidade abrange questões relativas tanto à ação em si (ele não sabia o que estava fazendo) como à moralidade do ato (ele não sabia que o que estava fazendo era errado). A psiquiatria, em sua prática profissional, nem sequer considera assassinos em massa necessariamente insanos, o que aflige Peter. Para ele, o crime define a enfermidade – como ele mesmo disse logo depois de nos conhecermos, uma pessoa teria de ser louca para fazer uma coisa dessas. Negar a insanidade de Adam é, para Peter, uma ideia muito mais devastadora do que afirmá-la.
Estudando a literatura psiquiátrica sobre assassinos em massa, na tentativa de entender o que aconteceu a seu filho, Peter se deparou com a obra de Park Dietz, psiquiatra que, em 1986, cunhou o termo “pseudocomando”. Dietz afirma que, no caso dos pseudocomandos, a obsessão por armas de fogo e pela indumentária bélica funciona como compensação para um sentimento de impotência e fracasso. Segundo ele, insistimos na loucura dos assassinos em massa apenas para nos convencermos de que pessoas normais são incapazes de tamanho mal.
Os crimes passionais são relacionais, ao passo que os tramados, como os de Adam, são dissociais. Mas essa dicotomia não é nítida; a maioria dos crimes situa-se no interior de um espectro. Sandy Hook constituiu, portanto, um ponto culminante – nem repentino nem inteiramente calculado, ou ao menos não até o fim. James Knoll, psiquiatra forense da Universidade Estadual de Nova York, escreveu que o ato de Adam transmitiu uma mensagem: “Carrego comigo uma mágoa profunda – com minhas balas, vou transferi-la para vocês.” Provavelmente, esse é o único motivo que conseguiremos encontrar para seu crime.
No aniversário do massacre, Peter e Shelley finalmente se debruçaram sobre “o material”, e releram cartas de apoio que antes não haviam se sentido capazes de encarar. Peter queria que os remetentes soubessem quanto suas palavras o ajudaram. “Tinha uma mulher cujo irmão saiu atirando numa igreja”, ele contou. “Matou um monte de gente e se matou. Ela queria me dizer o quanto lamentava. E outra, cujo marido esfaqueou e matou uma criança. Pessoas mandaram rezar missa para Adam.” Algumas cartas continham números de telefone, para que ele ligasse caso precisasse de alguma coisa. Outras eram bizarras. Uma delas sugeria que Adam tinha sido drogado pela CIA e forçado a cometer aqueles atos com o intuito de angariar apoio para leis de controle de armas. O aniversário, a data em si, era insignificante. “Não passo uma hora sequer sem pensar no que aconteceu”, disse Peter quando nos encontramos naquele dia.
Ele se dispôs a se encontrar com as famílias das vítimas, e duas delas concordaram. “É arrasador”, disse. “Depois de conversarmos por três horas, a família de uma das vítimas me disse que perdoava o Adam. Eu nem soube o que dizer. Gente que perdeu o filho, o único filho.” A única razão pela qual Peter agora falava sobre o assunto com quem quer que fosse – comigo inclusive – era para compartilhar informações que poderiam ajudar as famílias a se precaver contra um acontecimento do mesmo tipo. “Eu preciso tirar algo de bom disso. E não há outra maneira de encontrar aí algo de bom. Se eu pudesse proporcionar alguma coisa que as ajudasse… Mas nada substitui, nada…” Ele lutava para encontrar palavras. “Eu trocaria de lugar com elas num piscar de olhos, se isso ajudasse.”
“Tenho uma atitude muito defensiva em relação a meu nome”, ele me disse. “Não gosto nem de pronunciá-lo. Pensei em trocar, mas assim eu me distanciaria, e não posso me distanciar. Não permito que isso me defina, mas senti que mudar de nome seria fingir que nada aconteceu, e isso não é certo.” A visibilidade, porém, foi difícil para ele. Amigos antigos continuam lhe prestando apoio incansável, mas Peter me disse acreditar que talvez jamais volte a fazer novos amigos. “Isso define quem eu sou, e eu não suporto que seja assim, mas a gente tem de aceitar.”
Na última vez que o vi, Peter tinha separado uma foto dele com os dois filhos na praia. “Uma coisa que me chamou a atenção nessa foto é que está evidente que ele é amado”, disse. Desde Sandy Hook, toda noite Peter sonha com Adam, sonhos de uma tristeza onipresente, e não de medo. Ele havia me dito que não podia ter medo de seu destino como pai de Adam, nem mesmo de ser assassinado pelo filho. Pouco tempo antes, porém, tivera o pior pesadelo de sua vida. Estava entrando por uma porta, quando uma figura começou a chacoalhá-la com violência. Peter pôde sentir o ódio, a raiva, “a pior maldade possível”, e pôde ver mãos erguidas para o alto. Deu-se conta de que era Adam. “O que me surpreendeu é que eu estava morrendo de medo”, ele narra. “Não podia entender o que estava acontecendo comigo. E então percebi que estava experimentando aquilo tudo do ponto de vista das vítimas.”
O que ele sentiria se pudesse rever o filho? “Honestamente, acho que não reconheceria a pessoa diante de mim”, ele disse. “Tudo que consigo imaginar é que não haveria ninguém ali, nada. Quase uma coisa assim: ‘Quem é você, estranho?’” Peter então declarou desejar que Adam jamais tivesse nascido, e que não conseguia se lembrar de quem ele era sem também se lembrar de quem ele se tornou. “Isso não me veio de imediato. Não é uma coisa natural, quando se trata do seu filho. Mas, Deus do céu, não tenho a menor dúvida. No fim, só pode haver uma conclusão. É algo recente, aliás, mas é, sem dúvida, nesse estágio que me encontro agora.”
[1] Depois da publicação do estudo, já ocorreram dois novos casos de grande repercussão nos Estados Unidos.
