"Experiência é um privilégio. Encontrar mãos decididas equivale a achar o gênio da lâmpada dos desejos infinitos. Mas mentiria se dissesse que é o sexo que me atrai nos homens mais velhos" FOTO: MARCOS LOPEZ_2013
Amar o pai
Uma escritora reflete sobre seus romances com homens mais velhos
Margarita García Robayo | Edição 87, Dezembro 2013
UM
Em primeiro lugar, a pele do meu pai.
Era macia e quente, e era marrom-clara – como de um branco curtido ou de um preto desbotado. Lembro que tinha vontade de afundar a polpa dos dedos em seu rosto e depois colocá-los na boca para sentir o gosto. Meu pai tinha a mesma pele que eu tenho agora: fina como papel de arroz, hipersensível ao frio e ao calor. E ao sol, sobretudo ao sol. Quando era criança, gostava de pensar que meu pai e eu tínhamos pele de vampiro. Quando era criança, levantava de noite e entrava no quarto deles com a discrição de um inseto. Parava ao lado dele e o olhava dormir, esticava os dedos para acariciar seu rosto pálido, mas não chegava a tocá-lo por medo de que acordasse. Então tocava meu próprio rosto pálido e lambia os dedos, mas não tinham gosto de nada.
De manhã, antes de ir para a escola, meus irmãos e eu – meio debruçados sobre a mesa da cozinha – fazíamos bagunça enquanto minha mãe preparava ovos mexidos. Meu pai entrava de banho recém-tomado – cheirando a pós-barba e ao primeiro cigarro – e nos beijava a testa: um, dois, três, quatro, cinco beijos em cinco testas de cinco crianças geradas por ele. Meu segredo era uma piscadela de olho que ele me dava no final do percurso: Você e eu somos diferentes, mas não conte para ninguém. Meu pai beijava todos, mas ninguém beijava meu pai. Nem mesmo minha mãe. Beijá-lo era obedecer a uma ordem dela: Vão cumprimentar seu pai, ou vão se despedir do seu pai, ou é aniversário do seu pai, já lhe deram um beijo? Ninguém o beijava à toa, num rompante. Ele era um senhor sério e mais velho: tinha dezenove anos mais que minha mãe e 52 anos mais que eu. Minha mãe sempre o tratou com a veneração de uma serva, mais que de uma esposa – até mesmo de uma esposa caribenha.
Uma vez, quando eu era muito pequena, tive uma alucinação. Por muitos anos fiquei em dúvida se aquilo tinha acontecido mesmo; felizmente me convenci de que não. Entrei no quarto de meus pais e dei de cara com minha mãe ajoelhada aos pés do meu pai, sentado em sua poltrona grande e macia, de frente para a tevê, de costas para a porta. Pensei que ela estivesse rezando para ele e me assustei: a gente só reza para os mortos. Ela me olhou com expressão de terror, se levantou aos berros. Agarrou meu braço com força, me tirou do quarto e fechou a porta. Ficamos as duas sozinhas no corredor escuro e empoeirado, dezenas de livros cobrindo as paredes, lágrimas quentes escorrendo no meu rosto. Ela se agachou, me segurou pelos ombros: Nunca mais entre sem bater. Estava com o rosto suado, os olhos muito vermelhos, a respiração de um touro furioso. Seu hálito era salgado e amoníaco.
Aí, na fantasia do cheiro do meu pai em sua boca – ou seja, meu cheiro e o de todos os meus irmãos, e o dela mesma depois de ter sido inundada por ele tantas vezes –, deve ter começado oficialmente a nossa competição. Que se acirrou quando aprendi a ler e meu pai aprendeu o vício de escolher os livros que eu ia ler. Ele os retirava de sua estante e os levava até minha mesa de cabeceira: Você vai gostar deste aqui. Achava incrível que ele soubesse que eu ia gostar de um livro e não de outro. Aceitava todos e pedia mais: Já acabei, me dá outro. Ele ria baixinho e pousava sua mão pesada e impregnada de nicotina sobre minha cabeça: Minha menininha já sabe ler.
Sabia. E lia obsessivamente: procurava nos livros, como na sopa de letrinhas, mensagens ocultas; sublinhava na vertical, na diagonal, montava frases a que atribuía sentidos descabelados: eram coisas que meu pai queria me dizer mas não podia.
Minha mãe também sabia ler, mas lia principalmente os romances açucarados de Corín Tellado.[1] Eu logo percebi que aqueles livros não caíam muito bem aos olhos de meu pai. O que podia cair bem aos olhos de meu pai? O dicionário. Foi assim que aprendi a encaixar, no meio das frases mais banais, palavras como onomatopeia, tautologia e emancipar. Os adultos se espantavam, me olhavam perplexos. Minha mãe morria de vergonha, cobria o rosto com as mãos e balançava a cabeça. Depois me olhava com medo, como se eu fosse um gremlin prestes a pular no seu pescoço e arrancar um naco de carne. Mas eu não me importava, porque meu pai, ao contrário, inchava como um pavão e dizia: Minha menininha já sabe falar.
Virei uma gênia mirim aos olhos dele, uma leitora voraz só dos livros dele, uma menina velha para ficar mais perto dele. Os outros não me importavam: minha mãe, meus irmãos, a empregada, o cachorro, as paredes, as ruas do bairro, a escola, os carros da cidade, o horizonte e depois o mar, as muralhas e o céu. Tudo compunha um cenário necessário para que ele e eu, e nosso segredo expresso em piscadelas matinais, nos mantivéssemos a salvo.
DOIS
Sou um desenho emoldurado na parede de uma casa enorme, no qual uns bichos estranhos caminham pelos corredores: a galinha azul do caldo Maggi e um canguru anão que come bananas. Um homem que é meu pai, mas tem a cara de outro homem, me olha de fora, e eu tento cumprimentá-lo mas não consigo porque sou um desenho. O homem abre a braguilha, se toca e solta um jato poderoso que espirra no desenho como num quadro de Pollock; o homem se aproxima e esfrega a mão lambuzada sobre sua nova obra: Minha semente é sua.
Eu sou eu e meu pai é ele, tal e qual. E está me ensinando a boiar num lago de águas arroxeadas. Minhas costas descansam relaxadas sobre a superfície, porque as mãos dele me amparam por baixo da água. Meus olhos se fixam em seus olhos, que no reflexo são os mesmos. Ele me diz não se mexa, concentre-se, e avisa que vai tirar as mãos das minhas costas. Peço para ele não me soltar, mas ele me solta e eu afundo, me afogo, morro e ressuscito. Saio da água como um foguete disparado, chego ao céu e encontro um meteorito, que atiro no lago arroxeado, onde meu pai ampara pelas costas uma menina igual a mim. Tudo voa em pedaços.
Eu sou meu pai, mas sou mulher. Meu pai é meu filho: um bebê lindo que amamento pelo pênis.
Aos 11, 12 anos, meus sonhos seriam um banquete para um psicanalista. Aos 13 tudo mudou. Começou numa noite em que eu tinha me deitado com dor de barriga, e minha mãe preparou um chá com mel que me fez dormir. Sonhei que eu paria um sapo gordo e gosmento, que à medida que saía ia mordiscando as paredes internas do meu ventre, e a dor não se parecia com nenhuma dor conhecida. O sapo não queria sair, aferrava-se a minhas entranhas – eu tinha lido a palavra entranha, por acaso, num romance de Corín – com presas afiadas e eu pedia socorro com gritos desesperados e mudos. Levantei de madrugada, banhada num líquido escuro que era meu sangue. Fui ao banheiro do corredor, me lavei e me troquei, e ao sair dei de cara com meu pai, assustado: O que houve? Nada. Escutei um barulho. Fui ao banheiro. O que você tem, está tudo bem? Já estava limpa, mas me sentia suja. Achei que a bolota de papel que eu tinha colocado entre as pernas para estancar o sangue estava tão encharcada que pingava. Não tive coragem de olhar para o chão, me imaginei no meio de uma poça vermelha que se espalhava pelas lajotas do corredor até cobrir todo o piso da casa, e escorria para a calçada por baixo da porta, e transbordava pelas ruas do bairro numa enxurrada, arrastando casas, carros, prédios.
Pensei ver no rosto do meu pai uma careta de nojo que me fez baixar a cabeça, primeiro de vergonha, depois de raiva. Então minha mãe chegou com um copo de leite e um comprimido: me pegou pelo braço, me levou até a cama. Já tinha colocado lençóis limpos, cheirando a Woolite. Puxou as cobertas e não disse uma palavra.
TRÊS
Meu mundo anterior aos beijos era mais ou menos assim: garotas que eu detestava porque choravam por garotos que arrotavam em público e eram aplaudidos; garotos que eu detestava porque sofriam em silêncio por garotas que os achavam uns bolhas e riam na cara deles. Um espelho redondo que me mostrava redonda. E um teto trincado, meu único amigo: gastava boa parte do dia largada na cama, de barriga para cima, mascando chiclete, resmungando.
Uma noite abandonei o teto e fui a uma festa de debutante. Lá, entre esculturas de gelo seco, comecei minha coleção de namorados mais velhos: seu nome era R, tinha 22 anos e fumava. Pedi uma tragada, e ele não deu. Pedi um beijo, e ele disse tem certeza? R foi o primeiro que fez essa pergunta que depois eu ouviria de C, F, D, F de novo, J, G, M, H e L. Nem todos foram namorados, alguns não passaram de um beijo e, depois dos 18, alguns não passaram de uma noite. De qualquer forma, todos faziam a mesma pergunta, como um aviso: tenho sete, dez, treze, dezesseis, 23 anos a mais que você, tem certeza que você quer? E eu sempre queria. Diante do sinal verde, os homens mais velhos são bem diretos. Eu gosto do que é direto. Detesto o tatibitate, a dúvida, o nervosismo visível, o “Isso nunca aconteceu comigo”, o “E agora?”: são os germes do engano.
Então: eu gostava dos namorados mais velhos por serem diretos, sim, mas também – principalmente? – porque adoravam conquistar uma garota como eu. E como eu era? Como todas, mas me achava melhor. Ainda sabia dizer tautologia e, além disso, tinha aprendido a dizer: certeza absoluta. Minhas amigas não entendiam: Os namorados mais velhos são como?, perguntavam, com um misto de nojo e curiosidade. E eu respondia: São como qualquer namorado, só que mais felizes.
Eu gostava dos namorados mais velhos porque, depois da surpresa inicial, fechavam a boca, chamavam o garçom e continuavam: O que você quer beber? Aos 16 era delicioso andar aos beijos com R e com C – e principalmente com F –, mas a vida não parava depois de cada beijo: eles continuavam sendo funcionais, gente que pede cafés e a conta, e que se comporta como se aquilo, o primeiro beijo, tivesse acontecido mil vezes – e tinha mesmo acontecido mil vezes.
Minhas amigas insistiam em não entender: eu desprezava as primeiras vezes. O que são as primeiras vezes? Um trâmite necessário. Anos mais tarde, a maioria de nós concordaria que o verdadeiro mito da primeira vez é mais do que um trâmite necessário: um castigo doloroso, um carma inescapável, um momento de merda. Minha verdadeira primeira vez, apesar dos namorados mais velhos, aconteceu muito depois que a das minhas amigas, habituadas a deitar com garotões cheios de espinhas. Eu fui para a cama com J aos 18: entre nós, oito anos e dois quarteirões. E eu não o queria como namorado, mas como pistoleiro de aluguel: queria que fizesse o trabalho sujo, que rompesse o hímen e preparasse o caminho para os que viriam depois. Mas J fez tudo errado, teve pena, se assustou com meus gemidos de dor e uma noite, quando já estava quase lá, se encolheu como um feto e caiu no choro: Desculpa, eu não consigo, vai ter que ser com outro.
Poucos dias depois, conheci o outro. Seu nome era G, tinha um violão e doze anos mais que eu. Seus beijos eram às vezes picantes e às vezes amargos, porque fumava cigarros sem filtro. Sua saliva era pastosa; deixava a barba por fazer, o que lhe dava uma aparência rude. Praticamente obriguei G a me violentar num quarto de hotel barato, que cheirava a desinfetante. Apesar das lágrimas que me encharcaram os olhos, assisti a todo o episódio no espelho do teto: seu corpo entre minhas pernas se contorcendo como um verme, a cama desconjuntada e bamba, os lençóis puídos, soltos nas beiradas do colchão. Durou pouco, doeu muito. O sangue que saiu não se parecia com o sangue que costumava sair de mim. Era outro sangue, mais escuro, quase preto. Fiquei algum tempo me olhando no teto: de início com mais repulsa do que curiosidade; no fim, verdadeiramente fascinada com meu novo corpo rasgado. Enquanto eu me olhava, G pegou seu violão e cantou Angel, e dos quartos vizinhos chegaram gritos de xingamento. Depois disso, ele quase não tocou mais em mim: sentia-se culpado e me tratava com tantos dedos que me lembrava J. Troquei G por M.
QUATRO
Numa praia quase deserta, ao lado de um deserto caribenho, um pai e uma menina brincam de tudo e nada: de correr um atrás do outro, de se jogar água, de rir juntos. O pai pega a filha pelos tornozelos e a vira de ponta-cabeça, ela morre de rir. Depois a segura pelas mãos e gira rápido, faz a menina voar como um cometa que orbitasse em torno dele.
Meu amante e eu bebericamos sossegados nosso drinque ao entardecer. Ele lê, eu observo o pai e a menina, imagino o que aconteceria se, numa dessas cambalhotas frenéticas, ele a soltasse.
Chamo meu amante de meu amante, mas ele não é isso: nem ele nem eu estamos comprometidos; quer dizer, ele tem filhos, dois, mas quase não os vê porque moram em Berlim. Passamos o dia fazendo essas coisas: nadar, comer, descansar. Depois entramos na choupana que é nosso quarto e nos despimos. Meu amante disse que eu era uma criatura linda e que o sol me fazia muito bem. Mentira, o sol me fazia muito mal, mas ele não sabia. Depois da hora da sesta, fomos atrás de mais uma birita, e aqui estamos, nesse instante em que o sol afunda na água como uma pastilha de Redoxon. Você gosta das vulvas lisinhas?, pergunto. Ele ri, mas não responde.
Nunca tinha ido sozinha a lugar nenhum com nenhum homem. Este era onze anos mais velho e duraria três dias.
Arrumo outro amante. Conheço no bar de um hotel, numa viagem de trabalho a um país frio. Bebo uísque, já é a segunda vez que o garçom pede um documento para conferir minha idade. Aquele que será meu amante pelo jeito gosta disso. Olha para mim e sorri, ergue o copo, faz gestos previsíveis e acima de tudo desnecessários. Terminamos a noite no quarto dele, mas sem sexo, porque não há ereção. Ele diz que isso nunca lhe aconteceu antes, mas que está nervoso por causa de sua filha Jacqueline, que tem 16 anos, problemas com drogas e um namorado punk. Diz que quando Jacqueline está angustiada, ela literalmente arranca os cabelos. Depois diz que o punk é uma coisa ultrapassada.
Essa é uma característica lamentável dos homens mais velhos: em geral, têm filhos; em geral, falam deles com uma intensidade que exige atenção e, às vezes, intervenção. Perguntam: Você acha que uma garota da idade dela deveria se comportar assim? E esperam que você responda.
Eu pergunto a meu amante frustrado se alguma vez ele sentiu tesão por Jacqueline, quando ela tinha seus 8, 9 anos. Ele me olha fixo, inexpressivo e diz nunca. Como na terra do Peter Pan. Então me pergunta se eu alguma vez senti tesão pelo meu pai, quando tinha essa idade, e eu respondo que não sei, talvez sim. Ele segura minhas mãos e diz, com expressão séria, que é normal as meninas sentirem tesão pelo pai, mas que não é normal os pais sentirem tesão pelas meninas. Já sei disso.
O homem seguinte não quis ser meu amante, não gostava desse título. Eu adorava, era uma homenagem àquela que na época era minha escritora favorita. Expliquei o motivo, mas ele não entendeu. Chamava-se H, era dezessete anos mais velho que eu e, em vez de sermos amantes, me propôs o seguinte: que eu lhe oferecesse uma década, no máximo, da minha radiante juventude e, depois, quando minhas prioridades mudassem e eu resolvesse querer filhos ou bichos de estimação ou um pênis mais novo, eu o deixasse. E eu, o que é que ganho?, perguntei. Nada, respondeu, você já tem tudo. Achei encantador.
Minha mãe reclamava dos meus relacionamentos. Era estranho, porque ela não sabia nada sobre isso. Eu tinha saído de casa fazia uns dois anos, via minha mãe aos domingos, com o resto da família, vez por outra sozinha, no meio da semana, para um café. Meu pai, eu só o encontrava aos domingos, rodeado de filhos e netos. Não me lembro de uma única conversa com ele depois dos 13. Lembro, sim, que nessa época não me dava com ele: em alguma cavidade do meu cérebro guardava um ressentimento, não sei por quê. Uma cavidade cheia de bolor.
Um dia resolvi contar para minha mãe que estava saindo com um homem mais velho. Mais velho quanto?, ela perguntou. Muito. Na verdade, eu não estava saindo com nenhum homem mais velho, nem com algum garoto, nem com ninguém, mas dava na mesma: queria ver sua reação. Ela se escandalizou, disse três coisas: 1) que os homens mais velhos caducavam logo, que podiam ficar doentes… câncer, por exemplo, podiam ter um câncer, e uma mocinha não queria nem podia lutar contra o câncer; 2) que as mulheres bonitas como eu, com o colágeno tinindo e a bunda no lugar, ou saíam com príncipes, ou não saíam com ninguém, que os velhos não combinavam comigo, que se me juntasse com velhos ia envelhecer; e 3) que nem passasse pela minha cabeça usar o caso dela com meu pai como pretexto.
Por quê?
Porque nós somos diferentes. Temos outra história. Toda história é única.
Naquela tarde, na hora em que nos despedimos, ela baixou a guarda. Disse: Saia com quem você quiser, os homens não têm tanta importância assim. Não falava por ela, claro, nem dos seus homens – meu pai e meu irmão –, que eram tudo em sua vida. Falava por mim, porque me conhecia. E a verdade é que, vistos agora, até meu último homem – chamado T –, nenhum outro teve muita importância para mim. Nem o sexo. O sexo era uma instância da conversa que degenerava na própria conversa, e aí começava a melhor parte. Com os homens mais velhos era assim: primeiro vinha o sexo, depois o resto. O sexo era importante para quebrar o gelo, para estabelecer um ponto de contato, mas, depois de comprovar que tudo estava bem – suas partes e as minhas, suas mãos nas minhas partes –, o sexo nunca me pareceu nada de muito especial. Quer dizer: tive orgasmos memoráveis; na lista de mitos sobre os homens mais velhos há um que é inegável, o da experiência. A experiência é um privilégio. Encontrar mãos decididas equivale a achar o gênio da lâmpada dos desejos infinitos. Mas mentiria se dissesse que é o sexo que me atrai nos homens mais velhos: não é. Nem nos mais velhos, nem nos mais novos, nem na vida em geral.
CINCO
H não tinha filhos, nem queria ter. Viajava muito e no último ano mudou de país. Isso foi bom, porque evitou a temível convivência. Uma amiga dessa época – menina de família, casada prematuramente – me perguntou: Você gosta de caviar? Eu adoro caviar. Então pensa que o amor é comer caviar, e cagar caviar é a convivência: mas é cagar junto com o outro, numa espiral de merda que sai do cu dele e entra no teu, que sai do teu cu e entra no dele. E assim, todos os dias da vida.
Eu e H trocamos a convivência pelas viagens, e também foi uma merda. Era horrível ir e vir, uma despedida interminável. Também era horrível viajar juntos. Ele tinha uma necessidade irreprimível de controlar o roteiro, de decidir itinerários e de escolher o que meus olhos deviam ver. Ele tinha viajado muito, e eu nada. Ele podia me mostrar o mundo, seu mundo, e seu mundo me parecia tremendamente chato.
Isso criou um cacoete em mim: contrariá-lo sempre. E teve uma consequência: parecer mais nova do que eu era.
Uma vez alugamos um apartamento em uma cidade da Europa. Alugamos um carro e compramos passagens de trem. O plural é um sofisma: foi H quem fez tudo, pela internet. Quando chegamos, o dono do apartamento nos olhou perplexo e pediu desculpas: o apartamento não estava preparado. Como assim?
Estávamos numa quitinete impecável e linda, com uma grande cama e um janelão que dava para uma rua de paralelepípedos. O homem balbuciava: … não sabia que eram pai e filha, desculpem, esperava um casal, mas não se preocupem, agora mesmo consigo uma cama extra.
Não era a primeira vez que uma coisa assim acontecia conosco, mas foi a primeira que H acusou o golpe. Passou o dia inteiro de péssimo humor, eu tentava animá-lo com piadas nabokovianas que só pioraram a situação. Tentava animá-lo com piadas do passado: Você gosta das vulvas lisinhas? Ele se levantou e foi embora.
Trepar, nem pensar.
Eu me lembro de um instante daquela tarde, lindo e fugaz: H e eu sentados num banco diante de um castelo medieval; com a cabeça encostada no ombro dele, eu lhe contava uma história que já esqueci. Lembro que, no meio da minha história, H me afastou empurrando meu ombro, se levantou bruscamente e ficou me olhando: Por que você se veste assim?
Eu estava de meias coloridas, vestido preto estilo princesa e rabo de cavalo.
Assim como?
A gafe do sujeito do apartamento passou a ser culpa minha. Eu que a provocara: eu e minha fantasia de falsa ninfeta, com cara de quem perdeu a chupeta. De volta ao apartamento, tirei o vestido e o rasguei em pedaços. Deitei de bruços e pensei em todas as coisas que poderia dizer a H, se tivesse coragem. Velho frustrado, velho de merda, velho maricas, velho brocha, velho balofo, velho bobo, velho safado, velho, velho, velho. Minha cabeça explodia.
Antes de pegar no sono, pensei na minha cabeça e na cabeça de H e na cabeça de todas as pessoas conhecidas e desconhecidas: pensei em cabeças como recipientes de palavras não ditas, de atos falhos, de intenções sepultadas, de verdadeiras intenções, de rancores inconfessos, de fantasias vergonhosas, de imagens que só existem ali. Me despedi de H num aeroporto enorme – cada um para um destino diferente – com as lágrimas mais doídas de que guardo lembrança.
Todos os homens mais velhos com quem tive uma relação ficaram furibundos ou desabaram de tristeza sempre que alguém confundiu o parentesco com a mocinha ao lado deles. Mas eles queriam o quê? Eu gostava dos velhos, não queria ser velha. Acima de tudo, não podia.
Depois de H, fiquei com L, que tinha um filho mais velho do que eu, detalhe que o perturbava, mas isso não era o pior. O pior em L era sua tendência a confundir o chamado aplomb com falta de alegria. Com L, as noites duravam menos, as festas não existiam, as madrugadas eram uma lembrança difusa da já distante adolescência. L não dançava, achava uma coisa grotesca. Mas alguma vez você dançou?, eu lhe perguntava, vestida para matar, maquiada com glitter, indignada. Não lembro. L não ouvia música porque precisava pensar. Pensar em quê? Em você. Bah. L não ria, a não ser do Cantinflas. Eu odiava Cantinflas. L não sentia a menor necessidade de fazer aquelas coisas que desprezava, só para me agradar. Por que ele estava comigo? Porque eu, ao contrário, era capaz de chegar ao nível dele: de falar de livros, de política, da baixa autoestima do seu filho. Por que eu estava com ele? Porque gostava de provar que podia.
Nossa relação durou pouco, mas graças a ele me convenci de uma coisa que me passou despercebida quando estava com H: a juventude prescreve. A juventude como estado de espírito, aquilo que o mito atribui arbitrariamente a todo tipo de pessoa com certa aparência e atitude, se acaba quando começa a ser um esforço. Era ridículo pedir a L que fôssemos dançar, encher a cara e nos drogar até o amanhecer, porque aos olhos do mundo – mas sobretudo aos olhos dele e aos meus – ele não seria o namorado mais velho, cool, que acompanha o pique da namorada novinha e animada, que se coloca no nível dela para agradá-la; ele seria o velho ridículo que faz um esforço desmedido para disfarçar a velhice.
Agora que até eu envelheci, me lembro de L com seu cabelo grisalho, seu sorriso tranquilo, seu aspecto quase lúgubre mas satisfeito, e volto a gostar dele, a respeitá-lo e até a admirá-lo como não fui capaz naquela época. Pouca gente domina a arte de saber envelhecer – L fazia parte dessa respeitável minoria.
SEIS
Vinte anos é tudo que o bolero permite, depois disso é corrupção – corrupção: vício ou abuso introduzido nas coisas não materiais. Corrupção dos costumes, corrupção da moral.
Dizem que a preferência pelos velhos é um vício adquirido, que nesse campo não se improvisa. Uma vez consultei um psicólogo sobre o assunto, e ele me disse que em geral as garotas edípicas são assim desde sempre, e se mantêm a fixação na idade adulta é bem provável que tenham sofrido abusos ou sido expostas durante a infância a uma relação semicarnal com alguém próximo ao núcleo familiar.
Talvez seja meu caso. Ou talvez não, mas isso não importa.
Talvez T seja o final. Ou talvez não, mas isso também não importa.
Não conheço o final.
Tenho em casa uma foto enevoada que tiraram de T comigo no dia em que nos conhecemos. Estamos embaixo de um estreito portal, protegendo-nos da chuva. Estávamos a caminho de uma palestra que ele daria na fundação onde eu trabalhava. Na foto, nota-se que a umidade tinha deixado uma pátina brilhante sobre nosso rosto. Na foto, ele tinha 46, e eu, 23; era magra e presunçosa: cabelo pela cintura, sobrancelhas erguidas como quem domina o mundo. T olha para mim e sorri. Não faz nem uma hora que me conheceu, e já sabe que sou sua. Não fui sua logo em seguida, passaram-se meses, longos meses, mas nessa foto ele já sabe.
Naquela tarde a chuva caía pesada, levantando um cheiro lamacento que saía das bocas de lobo. A rua estava alagada, e não podíamos seguir nosso caminho. Não havia muito o que fazer a não ser esperar. Eu disse odeio a chuva e T respondeu: É só água. Se bem que depois ele recordaria o contrário. Talvez tenha sido o contrário.
Enfim, chovia como chove em Cartagena, minha cidade: num persistente aguaceiro que levanta os vapores do chão. Depois de algum tempo naquele portal, envoltos naquele mormaço, T acendeu uma cigarrilha Mehari’s e me perguntou coisas: livros, filmes, vícios, idade. A fumaça deformando seu rosto me fazia pensar num espião soviético incumbido de uma missão mequetrefe num país tropical. No fim, acabamos falando do que na época era meu assunto preferido: os pais. Soube então que o pai dele e o meu tinham nascido no mesmo ano e tiveram vidas muito diferentes: enquanto o meu era um advogado conservador e de província, casado uma única vez, o dele era um médico espanhol, anarquista e exilado que casara sete vezes. Soube que ele também o detestava por um motivo indecifrável e que o amava por todo o resto. E que se chamava como ele: T.
Com T, minha referência se estreitou – o que agora torna difícil extrapolar preferências: eu já não gostava de homens mais velhos em geral, e sim de T, com particular intensidade. Ainda assim, à distância, poderia dizer que graças a T pude deduzir, afinal, que o que me atraía nos homens mais velhos se resumia principalmente a duas coisas, e que uma dependia da outra.
A primeira é o conforto.
É isso: eu me sinto confortável entre homens mais velhos do que eu, e me sinto desconfortável entre meus contemporâneos. Por quê? Não sei ao certo. Poderia puxar da manga aquela duvidosa estatística de que algumas mulheres amadurecem mais rápido que os homens, poderia dizer que eu estou nesse grupo: se fui velha desde menina, se minha maturidade estava à frente da minha idade, devo ter procurado homens afins a essa circunstância. Mas é mentira. Eu não era madura coisa nenhuma, era atirada. Sou atirada. Dou importância à idade porque dou importância ao tempo: quantas coisas cabem no tempo das pessoas. Eu sei que ninguém o preenche da mesma forma, mas costuma acontecer que, quanto mais tempo você vive, mais vê, aprende, come, lê, descobre, perde, e tudo isso faz de você uma pessoa mais complexa.
E agora a segunda razão: a complexidade me atrai. A simplicidade me parece absolutamente idiota.
O atrativo do jovem é a beleza fresca – que não se distribui indiscriminadamente e que, de todo modo, acaba com o uso – e a inocência. Imagino que eu tenha sido inocente. Quer dizer, que aqueles homens mais velhos que eu chamava de amantes gostavam da mesma coisa que eu desprezava em outros: para mim a inocência é quase tão idiota quanto a simplicidade. A inocência é um lastro do qual os mocinhos e as mocinhas deveriam se livrar antes das espinhas. Diria então que os homens mais velhos me atraem, e até que eu também os atraio. Diria que me atraem, também, porque já perderam a inocência e as espinhas – e o cabelo em alguns casos, o que se há de fazer –, e ganharam outras coisas: densidade, coesão, solidez, espessura. Como os molhos que se apuram na fervura.
A palestra de T foi cancelada por causa da chuva, e ficamos conversando sob o portal até que estiou. Poças tomavam a calçada e estávamos ilhados numa esquina, ombro contra ombro, para não molhar os sapatos: T estava de alpargatas de lona e eu de sandálias. T cheirava à cigarrilha que tinha fumado e a um perfume desconhecido; estava vasculhando sua bolsa, procurando alguma coisa: ouviam-se barulhinhos metálicos. Bolinhas de gude, pensei. Imaginei que esticava meus dedos, que os afundava em seu rosto e depois os lambia. Imaginei que ele me perguntava tem gosto do quê? E eu dizia de sal e de água, e ele dizia de mar? E eu dizia de mar. T puxou uma câmara da bolsa e me olhou com aquela expressão, entre maliciosa e maravilhada, que eu já tinha visto em outros olhos. Para ele, ao contrário, tudo era novo: ele nunca tinha estado, nem imaginado estar, com uma mulher tão nova como eu. Nesse terreno, T era um novato e eu tinha toda a experiência.
Começava a estiar: pela calçada vinha uma senhora que tinha improvisado um chapéu com um saco preto. Atrás dela, uma carroça de verduras coberta com um plástico. E um cachorro esquelético. E atrás deles um casal de turistas a quem T pediu que tirassem uma foto.
Nesse dia ainda faltavam horas para que acontecesse um beijo e alguns anos para que acontecesse algo bem parecido a um casamento. Faltavam encontros fortuitos e felizes, visitas de surpresa, hotéis de passagem, sexo grandioso, sexo péssimo, mudanças em conjunto, casas pequenas, casas gigantes, filhos planejados, filhos descartados, filhos substituídos por um gato. Faltavam mais mudanças, um quintal com churrasqueira, amigos em comum, brigas horrendas, sexo de reconciliação, sexo sem vontade, temporadas sem sexo, sexo com outros, sexo com mais ninguém. Faltavam inimigos, festas em família, festas íntimas, presentes perfeitos, presentes muito ruins, aniversários de namoro tristes pela ausência do outro, e felizes pela ausência do outro, e aniversários esquecidos. Faltavam seis, sete, oito aniversários de namoro. E duas, três batidas de carro. Faltava dar um tempo, faltavam dezenas de viagens, encontros fortuitos e tristes, lembranças felizes para esquecer e o vazio de somar isso tudo.
Mas, ao mesmo tempo, naquele dia não faltava nada. Como a evidência confirma, naquele pequeno canto enevoado, T e eu vivemos felizes para sempre.
Costumo pensar que nem os bons nem os maus momentos que passei com T têm a ver com a diferença de idade, mas sei que é mentira. Vejamos: se eu tivesse que atribuir uma razão ao sucesso – isto é, continuidade – da minha relação com T, e ao fracasso – isto é, ruptura – de outras, diria que tem a ver com a extrema consciência da diferença e a pouca necessidade de disfarçá-la. E se eu tivesse que atribuir uma razão ao fracasso – isto é, ruptura – da minha relação com T, e ao sucesso – isto é, continuidade – de outras, diria que tem a ver exatamente com a mesma coisa. A diferença funciona nos dois sentidos: a excitação do exotismo – um casal díspar, digam o que disserem, é sempre carregado de exotismo – pode ser exaustiva. A “normalização”, por sua vez, é paliativa. Houve momentos em que, para mim, foi terrível perceber-me diferente e, sobretudo, saber que ser diferente era irremediável; o que durante muito tempo me pareceu um exercício de poder que ostentava uma orgulhosa excentricidade – vejam: eu saio com velhos –, agora reconheço como uma genuína diferença diante de boa parte das minhas contemporâneas. Quero dizer, não sou tão feia, nem tão burra, nem mesmo tão gorda. Ou seja, acho que seria capaz de arrumar um namorado jovem e bonito que me situasse na linha de equilíbrio do meu hábitat geracional: as fotos do Facebook em que minhas amigas se mostram radiantes com seus vestidos de noiva, seus maridos garotões e, depois, indefectivelmente, seus bebês rosados e rechonchudos. Sempre que tentei – sempre que disse a mim mesma o.k., quero ser como o resto –, continuei fracassando fragorosamente: há algo de frágil e volátil na consistência da relação que estabeleço com os homens mais novos, que minha inépcia – inexpertus– não permite que vingue.
Às vezes acho que aos 50 vou estar com um rapaz de 20 e poucos, e um dia, quando me sentir excepcionalmente generosa, vou olhar para ele com condescendência: calma, já vai passar. E nesse gesto lhe entregarei todo o meu amor. Ou seja, às vezes penso que também no meu caso vai passar. No caso de minha mãe, não passou, meu pai já não está com ela, e ela não só continua a amá-lo como o ama ainda mais. Mas ninguém disse que o amor pelos homens mais velhos entra pelo líquido amniótico: eu não sou a minha mãe, nem procuro por meu pai, embora este texto insinue o contrário. Provavelmente, de um jeito muito diferente do dela, tudo o que eu quero é chegar ao final com a fantasia de que minha história é única e que, por mais que o mundo esteja cheio de garotas insolentes que encantam outros velhos, nenhuma delas será como eu, nem seus homens como o meu, que certamente já não viverá para ouvir esse relato, salvo na minha lembrança magnificada.
[1] María del Socorro Tellado López (1927–2009), escritora espanhola de romances comerciais e fotonovelas, publicou mais de 4 mil títulos.
