CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Arcas de Noé
O esforço para salvar animais do dilúvio gaúcho
Consuelo Dieguez | Edição 213, Junho 2024
Na sexta-feira, dia 3 de maio, quando as chuvas no Rio Grande do Sul desabaram em volume bíblico, uma espécie de comando interior coletivo parece ter mobilizado os gaúchos. Em meio ao dilúvio, voluntários deixaram suas casas (muitas delas também destruídas) e suas famílias, com a determinação de salvar vidas, de qualquer espécie.
Em Porto Alegre, os proprietários de barcos e jet skis logo entenderam duas coisas. A primeira, que poderiam fazer diferença no caos. A segunda, que não só pessoas estavam em risco, mas também cachorros, gatos, porcos, galinhas, patos e até cavalos, como o agora famoso Caramelo, que passou dias sobre um telhado em Canoas até ser salvo.
Quando a cidade começou a virar lago, clubes de vela de Porto Alegre, como o Jangadeiros e o Veleiros do Sul, convocaram os sócios à ação. O chamado foi ouvido. “As pessoas iam chegando e se oferecendo para ajudar, num movimento de absoluta solidariedade”, me disse o velejador Henrique Bagattini Neff, de 36 anos, operador do mercado financeiro em Porto Alegre, que assumiu, junto com amigos, os botes a motor colocados à disposição pelo Jangadeiros para que se iniciassem os resgates.
Lucas Mazin, de 30 anos, técnico de vela com grande experiência em navegação, tinha feito, na véspera, uma cirurgia para retirada de um dente de siso e estava proibido de entrar na água. Ele se dispôs, então, a coordenar as missões de resgate a partir de seu ponto de partida e retorno, o Pontal Shopping, na Zona Sul de Porto Alegre, que ofereceu suas instalações como base de salvamento. O grupo que trabalhou lá daria a si mesmo o nome de Pontal Sucesso Total, pela eficiência da operação.
“Às vezes me arrisco a dizer que havia a espiritualidade agindo, embora eu não seja religioso. Porque tudo funcionou com perfeição”, disse Mazin, por telefone, ainda emocionado. “Houve uma total harmonia entre o pessoal dos barcos e os voluntários em terra, que somavam mais de quatrocentas pessoas.” Para o resgate dos animais também foi tudo rapidamente organizado. “Havia quiosques para cada etapa do acolhimento: um para a recepção dos bichinhos, outro com veterinários e medicamentos, outro com comida e água, outro com roupa e cobertor.” O socorro dos bichos replicou o esquema organizado para receber as pessoas.
No mesmo dia 3 de maio, quando os primeiros barcos partiram do Pontal para socorrer desabrigados, cerca de quatrocentos animais foram resgatados. “Os bichos chegavam muito assustados. Vários deles desnutridos, machucados, doentes”, me contou a veterinária Tatiana Lina, de 38 anos, que veio de São Paulo para ajudar no acolhimento de animais. Ela já havia feito o mesmo na enchente do litoral paulista, no ano passado.
Lina trabalhou em um galpão cedido por um empresário gaúcho para abrigar a bicharada. Até o dia 18 de maio, já haviam sido recolhidos ali 250 cachorros e cerca de 30 gatos, todos tratados, vermifugados e vacinados. O trabalho agora será implantar um microchip em todos eles, fotografá-los e colocar suas imagens nas redes sociais, com as características de cada um e o lugar onde foram encontrados, na esperança de que sejam localizados por seus humanos. Aqueles que não forem reivindicados serão entregues para adoção.
Henrique Neff se define como um “cachorreiro” e, por isso, se dispôs a entrar na água barrenta para recolher cães perdidos. Um dos resgates mais emocionantes de que participou foi em uma casa inundada em Porto Alegre, onde encontrou uma família acompanhada de seus cachorros – entre eles, uma cadelinha em trabalho de parto.
Um dos filhotes nasceu no barco; outros seis nasceram já em terra firme, com auxílio de veterinários, que fizeram uma cesariana. O grupo de Neff também ajudou no resgate de três porquinhos e alguns cachorros largados numa área de reciclagem. “Eles estavam muito debilitados, se equilibrando em paletes de madeira”, disse. “Foi muito difícil chegar até lá.” Agora, todos passam bem.
Lucas Mazin não era ligado em bichos, mas isso mudou. Ele contou que uma das voluntárias, ela mesma resgatada de uma casa atingida pelas cheias, estava desesperada porque seus quatro cachorros tinham ficado para trás. Quando o grupo de resgate os trouxe para o Pontal, ele testemunhou a alegria dela e dos bichos ao se reencontrarem. “Foi uma cena de tamanho amor, de tamanha alegria entre eles, que mudei completamente minha relação com animais”, disse Mazin. “Foi uma evolução.”
O protetor de animais Paulo Goulart estava no abrigo que mantém em Viamão, cidade vizinha à capital, quando começou a tempestade. Assustado com o furor da natureza, ele logo partiu para sua casa na Zona Norte de Porto Alegre, onde sua mulher cuidava de sete filhotes de cachorro que Goulart tinha retirado da rua. “Corri para lá, e junto com minha mulher trouxe todos os bichinhos para cá”, contou. Bem a tempo: a Zona Norte, região pobre da cidade, foi das mais atingidas pela enchente.
O abrigo em Viamão já recebeu trinta cachorros e alguns gatos resgatados na enchente. Goulart, de 52 anos, começou a cuidar de bichos aos 11, quando ele e o irmão recolheram da rua alguns filhotes abandonados que encontraram no caminho até o lixão onde trabalhavam. O pai, que não permitia animais em casa, mandou que devolvessem os cãezinhos à rua. Desapontados, eles conseguiram que uma vizinha ficasse com eles. Depois disso, Goulart jurou que seria um guardião dos animais de rua. Há alguns anos, largou o emprego de zelador para cuidar de gatos e cachorros sem lar que, depois de tratados, são entregues para adoção. Faz isso com doações de voluntários e com parte do que ganha em trabalhos esporádicos.
A também protetora de animais Sara Vieira resgatou 31 cachorros da enchente e os levou para o seu abrigo, Anjos de Patas, onde já vivem 274 cães e 4 gatos. Vieira, de 48 anos, passou a se preocupar com animais abandonados há mais de duas décadas, depois de perder duas gestações. “Cuidar dos animais me salvou. Eles me tiraram da tristeza”, disse. Poucos anos mais tarde, ela finalmente conseguiu ter um filho, hoje com 13 anos. “Acho que Deus me abençoou por eu cuidar dos bichinhos.”
Na segunda quinzena de maio, os trabalhos de resgate praticamente se encerraram. Neff decidiu ficar com um dos filhotes da cadelinha que pariu no seu bote. Mazin, com outros voluntários, criou um sistema de “carona solidária”, que leva os animais até seus donos. Os dois não se conheciam antes das enchentes e agora acreditam que serão amigos para sempre. “Teremos muito trabalho pela frente”, diz Neff. “Todos teremos que ajudar na limpeza da cidade.”
Apesar de sua paixão por barcos, Mazin não ficou frustrado por trabalhar em terra. Diz que é como se tivesse se preparado a vida inteira para essa função. E se orgulha da equipe que ajudou a organizar: “Nunca vi tamanha solidariedade. Éramos todos elos de uma mesma corrente. Acho que, se um se partisse, tudo se perderia.”
