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    “O Brasil não é para mim”, escreveu Knausgård numa das cartas. “Nem a vida brasileira, nem o futebol brasileiro. Não torcer para o Brasil, me afastar do futebol brasileiro, é como dizer que prefiro mulheres feias a mulheres bonitas. Ou que prefiro livros ruins a livros bons” IMAGEM: MAGNUS SJÖHOLM

correspondência

Argentina x Brasil

Um jogo entre dois escritores

Karl Ove Knausgård e Fredrik Ekelund | Edição 130, Julho 2017

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Durante a Copa do Mundo de 2014, o escritor Karl Ove Knausgård trocou cartas com o seu amigo sueco Fredrik Ekelund, também escritor, que viajara ao Brasil para assistir aos jogos. A correspondência entre os dois virou um livro – Hjemme/Borte (“Em casa, longe de casa”) – publicado na Noruega no fim de 2014 e ainda inédito em português. A piauí publica a seguir uma seleção dessas cartas.1

–

Limhamn, 10 de junho

 

Meu caro Karl Ove,

Começo com uma lembrança de 19 de novembro de 1983. Estou em Paris, seguindo alguns cursos livres, morando na Cité Universitaire, escrevendo para o antigo diário Arbetet e preparando um trabalho sobre um autor operário francês que eu havia conhecido no ano anterior, Georges Navel. É uma época feliz da minha vida. No mesmo ano, em agosto, meu primeiro romance foi aceito pela editora Bonniers, e eu vivo a embriaguez de saber que vou me tornar aquilo com que vinha sonhando havia tempos: escritor. Durante o dia, frequento o Collège de France e ouço Michel Foucault e Emmanuel Le Roy Ladurie, ou dou uma passada na École Normale para ouvir Jacques Derrida. A oportunidade de sentar aos pés de Foucault e de Derrida intensificou a embriaguez em que eu vivia naquela época.

Aquele 19 de novembro era a véspera do meu aniversário de 32 anos. Eu estava num restaurante estudantil do boulevard Saint-Michel, e bem na minha frente sentou um homem com feições indígenas, de expressão triste e austera. Começamos a conversar. Ele era mexicano e trabalhava como químico na rue d’Assas, ali perto. Para comemorar meu aniversário, eu havia planejado um pequeno jantar no estúdio onde eu morava, e de repente, não sei por quê, resolvi convidar meu companheiro de mesa, Juan. Fizemos amizade, começamos a conviver, e passado um tempo descobri que ele havia se mudado para Paris junto com uma americana com quem tinha um filho. Já em Paris, descobriu-se homossexual, se separou e foi morar com um francês. Certo dia conversamos sobre Octavio Paz. Expressei minha admiração por esse poeta mexicano e dei a entender que gostaria de aprender espanhol para poder ler no original, e perguntei se nós dois não poderíamos lê-lo juntos. E assim foi. Em um banco no Jardim de Luxemburgo. Juan lia em voz alta para mim. Eu repetia e saboreava frases como el laberinto de la soledad e a cinco años de Tlatelolco, e a palavra soledad me parecia tão bonita que só ela já justificaria aprender uma língua nova.

 

Foi assim que as portas da América Latina se entreabriram para mim.

De qualquer modo, Karl Ove, aquele banco no Jardim de Luxemburgo fez de mim um hispanohablante e – se posso dizer que cada língua é uma casa – me permitiu entrar na casa espanhola. O mais estranho é que por um instante eu me senti muito à vontade por lá, como se o espanhol já estivesse à minha espera, ou então em mim. O espanhol tem muito ar, é uma língua vocálica sonora e bela, e foi via espanhol que acabei no português – a variante brasileira, que fique claro –, uma língua igualmente bela, porém mais difícil de falar, mais difícil de entender e mais consonantal, sem tanto ar.

Foi bom ver você ontem no jardim florido de sua casa, em Glemmingebro. Dificilmente eu poderia imaginar contraste maior do que aquele entre o seu idílio na Escânia e o Rio de Janeiro. E a minha hora chegou – de novo. Talvez seja minha viagem de número 20 à América Latina. Em 1985, indo para o Chile, fiz uma escala no Recife e, quando desci a escada do avião, me deitei no chão e beijei o solo. Foi um gesto intuitivo, uma homenagem aos jogadores favoritos da minha infância: Pelé e Garrincha. Já não beijo mais o chão, mas estou com saudade, e em meus pensamentos já estou há tempos na Cidade Maravilhosa.

 

Saudações,

Fredrik.

 

Glemmingebro, 11 de junho

Meu caro Fredrik,

Você tinha razão: o contraste não poderia ser maior. Mais ou menos enquanto você descia do avião no Rio de Janeiro, ia até a cidade e se instalava no quarto onde vai morar durante as próximas cinco semanas, eu estava numa reunião de pais e filhos da turma da minha filha mais velha, na praia a uns poucos quilômetros daqui – primeiro grelhamos as salsichas que cada um havia levado, depois fizemos uma rodada de perguntas e por fim jogamos bola: 3ª série contra os pais, todos projetando longas sombras à luz do sol poente. Meu plano era escrever para você depois que as crianças fossem dormir, às 21 horas, mas poucos dias atrás eu estava nos Estados Unidos e ainda estou sentindo os efeitos do jet lag: às 21 horas deitei de roupa, rodeado de crianças, e só fui acordar à uma e meia da madrugada, rodeado pela escuridão. Meu plano B era escrever hoje de manhã, já que eu tinha chamado uma baby-sitter, que é como se fala hoje em dia, para cuidar da nossa filha de 4 meses. Anne, nossa filhinha, em geral é alegre e contente e não cria nenhum tipo de problema – ela dorme às oito e meia e acorda às seis ou seis e meia da manhã seguinte –, mas justo hoje, quando eu precisava de tempo para escrever, ela chorou como se estivesse possuída. A baby-sitter já não sabia o que fazer, então precisei acalmar a bebê, e depois lhe dei comida e troquei a fralda – e o que aconteceu no mesmo instante em que eu me afastei outra vez? Um novo surto: ela berrou até que o rostinho ficasse todo vermelho e as lágrimas começassem a correr. Peguei-a mais uma vez, e quando ela se acalmou de novo a baby-sitter acomodou-a no carrinho. As duas ainda estão passeando na rua, em meio a um chuvisco de verão. E eu finalmente posso escrever.

Da correspondência que você mandou ontem, um texto rico, denso e generoso, tiro a conclusão óbvia de que você é um romântico. Pelo menos as coisas sobre as quais escreveu me pareceram românticas. Época de estudante em Paris com Foucault e Derrida, encontro com jovens sul-americanos – e nessa hora eu penso no que Paris significava para os escritores latino-americanos, em especial Cortázar, que morou no exílio por muitos anos, e que escreveu algumas das histórias mais incríveis que já li. O que você escreveu desperta um desejo de estar lá, e ao mesmo tempo um sentimento de que agora é tarde demais, de que todos os trens já partiram. Mas você estava lá. E o seu primeiro livro foi aceito – essa também é uma ideia romântica: o jovem escritor em Paris. O último traço de romantismo que eu gostaria de apontar, antes de me dar por satisfeito, está relacionado ao movimento operário – tanto às descrições do trabalho manual, que aparecem nos seus livros, como à solidariedade demonstrada em relação à classe trabalhadora. Eu sou protestante até os ossos, sou o tipo de sujeito que nega certas coisas até para si mesmo, que diz não às coisas, e mesmo que eu goste de ler sobre o que há de exuberante, agitado, extrovertido e vital na vida das pessoas simples, em que abunda o elemento humano, e não material ou econômico, esse é um mundo onde eu não poderia viver, e onde eu mal conseguiria passar um tempo, porque sempre me afasto, quero estar sozinho, não suporto me relacionar com tanta generosidade e tanto calor.

Por que escrevo isto?

Talvez você já tenha adivinhado. O Brasil não é para mim. Nem a vida brasileira, que obviamente eu nunca vivi, e só conheço por descrições – dentre as quais as suas! –, nem o futebol brasileiro. Na Copa do Mundo da Coreia e do Japão, em 2002, quando a Alemanha jogou contra o Brasil, torci para a Alemanha. Eu nunca tinha feito isso antes, e provavelmente nunca vou fazer de novo. Mas esse foi o menor dos males. Assisti à partida com o meu irmão num bar em Estocolmo, e quando o Brasil fez um gol ele se inclinou para a frente e bateu palmas de um jeito exagerado, como que dizendo: Você está errado, não está vendo?

Não torcer para o Brasil, me afastar do futebol brasileiro, é meio como dizer que prefiro mulheres feias a mulheres bonitas. Ou, para dar outro exemplo que não pareça sexista logo de cara, é como dizer que prefiro livros ruins a livros bons.

Nem sempre foi assim. Quando eu era jovem, queria conhecer o mundo, queria ver, cheirar, ouvir e provar tudo. Queria viver. Tinha planos de viajar pela Europa, arranjar trabalhos pelo caminho, passar vários anos longe escrevendo o grande romance. Queria conhecer pessoas, viver aventuras, me apaixonar, encher a cara, me abrir para o mundo. Mas não foi o que aconteceu: eu nunca fui longe, fiquei parado em Bergen – nunca fui a Paris, como você, nem à América Latina – e dei início a um longo processo de negação da vida, que chegou agora ao ponto culminante, uma vez que moro numa cidade minúscula no interior da Suécia onde praticamente não vejo outras pessoas nem tenho algum tipo de vida social (ontem, na reunião de pais, não falei com ninguém). Não bebo praticamente nunca, como pouco e não dou bola para a comida. Tenho a consciência pesada o tempo inteiro porque trabalho pouco – não fazer nada não tem nada de bom, é simplesmente vagabundear.

É por isso que a sua carta, que fala sobre a vida e a juventude, desperta sentimentos tão intensos em mim. Mas esse trem já partiu, e na Copa do Mundo que começa amanhã eu simpatizo com dois times: Argentina e Itália. Ambos são times cínicos, como você bem sabe, times que nos melhores anos foram sempre extremamente organizados na defesa e que jogam mais contra as fraquezas do adversário do que com as próprias forças. As qualidades são extremas, mas não são empregadas para nada excessivo – nunca se faz uma jogada bonita em nome da beleza, apenas se joga por resultado. E a obstinação com que jogam tem um apelo irresistível para mim.

A primeira lembrança que tenho de assistir tevê é do verão de 1978, durante a Copa do Mundo na Argentina. O mundaréu de pessoas nas arquibancadas, os gramados cobertos de confete, Ricardo Villa, Osvaldo Ardiles, Mario Kempes. Não sabia nada sobre a situação política, claro, eu tinha 9 anos, mas estava encantado. A Argentina, tanto o time como o país, tinha uma aura de aventura. Mais tarde essa aventura se expandiu, porque li Borges, li Cortázar – agora estou lendo César Aira – e li o polonês exilado Witold Gombrowicz. (Os diários são incríveis, foram escritos na Argentina, e quando ele retorna a Paris, ao Velho Mundo, é como se os diários morressem, eles perdem por completo a força, a vitalidade – será que tudo vinha da existência no exílio?)

Existem muitos elementos românticos no que estou dizendo, mas é um romantismo distinto daquele que identifico em você e na sua carta – pela simples razão de que o Brasil que você abraça é uma grandeza física na sua vida, você esteve lá inúmeras vezes e conhece a cultura com o corpo – fala a língua, traduziu literatura brasileira para o sueco – e você joga futebol como um brasileiro. Sobretudo isso! O Brasil para você é vida vivida, uma força vital. E a Argentina para mim? Eu nunca estive lá, é apenas um sonho, uma fantasia sem lastro em lugar nenhum, a não ser nos livros que li. É o oposto de uma vida vivida, o oposto de uma força vital, é uma não-vida que levada às últimas consequências se transforma em uma negação da vida – e foi por isso que o título provisório do meu último romance, que acabou se chamando Minha Luta, por muito tempo foi Argentina.

Amanhã a Copa do Mundo começa. Estou feliz. Eu me lembro de todas as copas do mundo desde 1978, do que eu estava fazendo, onde morava, quem eu era e em que mundo tudo se passou. Mas sempre assisti a tudo pela tevê, nunca na realidade, e gostaria que continuasse assim – afinal, esse é o ponto de partida dessa correspondência, não? A vida contra a morte, o sim contra o não, o Brasil contra a Argentina.

Até mais,

Karl Ove.

 

 

Botafogo, 12 de junho

Meu caro Karl Ove,

É incrível ler sobre sua relação com o futebol, e nesse ponto, como em muitas outras vezes, você chega muito, muito perto daquele elemento proustiano que faz parte do seu signo, a sua marca distintiva: a profundidade. Eu precisei de uma vida inteira escrevendo para compreender que é isso o que eu quero, traduzir a alma, fazer com que tudo que nos acontece esteja ao alcance do leitor.

Tenho na memória uma imagem nítida sua de uns anos atrás, quando você estava trabalhando no volume três ou quatro de Minha Luta, se não me engano. Eu esperava uns músicos que deveria levar para uma apresentação. Estava de carro, em frente à Pizzeria Siciliana, quando você apareceu. Chovia muito, os limpadores de para-brisa a todo vapor, e lá, em meio à chuva, com o olhar sério e fixo de sempre, você surgiu como o capitão de uma esquadra de carrinhos de bebê em plena tempestade, com as crianças dependuradas, quase caindo por todos os lados dos carrinhos, e nesse exato momento estou formulando para mim mesmo essa imagem – na verdade você só tinha ido buscar seus filhos na escola, mas tudo bem –, essa vontade indômita de seguir adiante, com a vida, com os filhos, com o amor, com Linda e com a escrita, que é a sua especialidade. Ninguém consegue parar você. Nada consegue parar você. E depois você sumiu pela rua, como a imagem de um sonho.

Vivemos, convivemos e lutamos uns com os outros: amigos, namoradas, colegas e amigos de infância, e mesmo assim sabemos pouquíssimo a respeito dos outros e nos vemos apenas raramente. E nos olhamos nos olhos. E sentimos medo toda vez que isso acontece. Com o passar do tempo eu quis mudar isso, e agora tento olhar o mais que posso no rosto das outras pessoas, tento encontrar os olhos delas para ver o que acontece, mas também porque quero a realidade, a intensidade, a vida, o que provavelmente está ligado ao fato de que começo a ficar velho, tendo completado 60 anos no outono passado, como você sabe, e quero que tudo seja real, próximo, não quero desperdiçar o que ainda me resta em conversas de sonâmbulo, em uma vida de sonâmbulo, e por isso me sinto provocado por gente que boceja (para dizer a verdade, vários anos atrás terminei um relacionamento com uma mulher justamente por causa disso, que para mim era como uma bofetada, e muito tempo depois – continuamos bons amigos – ela me explicou que não era por cansaço nem indiferença, mas um simples movimento da boca, um reflexo, que não tinha nenhum significado profundo, humm…), que não quer nada da vida ou vai embora cedo de festas e jantares. Karl Ove, eu sei que deve parecer um pouco de histeria, e talvez seja mesmo, uma consequência do desespero, mas estou aberto a essa ideia e acho que pode estar relacionada ao fato de que sobrevivi a um câncer de próstata oito anos atrás. Depois da cirurgia, quando era ponto pacífico que eu não perderia a capacidade de ter ereções, prometi a mim mesmo lutar para que tudo, a partir daquele momento, fizesse sentido e fosse intenso, para que nada fosse relegado a uma vida de sonâmbulo.

Não tenho a pretensão de dizer que foi isso o que aconteceu, mas essa disposição continua firme. Sim, eu quero que tudo tenha sabor. E ontem, aqui, aconteceu uma coisa relacionada ao que escrevo. Depois de te escrever, fui até a estação de metrô Botafogo e peguei o trem até Cantagalo, uma estação em Copacabana (as pessoas em geral pensam em Copacabana como um sinônimo da praia, mas o lugar é muito mais do que isso. É um bairro com mais de 150 mil habitantes, um bairro fervilhante e efervescente). Quando chego ao semáforo na rua Barata Ribeiro eu sinto um arrepio no peito, o arrepio da minha presença naquele lugar, um sentimento de alegria. Você está aqui, agora! Agora mesmo você está aqui, no meio dessa efervescência, no meio dessa realidade e desses bares lotados e desses carros que passam, e lá, no fim da pista, como uma franja azul, o Atlântico.

Foi naquele instante que eu cheguei aqui, e nem estou falando da Copa do Mundo (o que deve soar completamente absurdo para você, mas já não sei mais ao certo qual é meu real interesse por esse teatro, já que sinto uma aversão cada vez maior pela máquina enorme e profundamente corrupta da Fifa), mas do Rio e do Brasil, da felicidade de estar num mundo em que eu, com frequência cada vez maior, me sinto perdido. Toda vez que falo “Brasil”, tenho a impressão de que a coisa sobre a qual eu falo escapa dos meus dedos, como uma barra de sabão, uma enguia, uma coisa que não se deixa capturar, e numa conversa que tive ontem com um amigo daqui, chamado Lennart Palméus, um ex-marujo que depois trabalhou como correspondente do Dagens Industri e hoje é proprietário de um hotel na beira da praia – caminhamos juntos pela Lapa, o bairro boêmio do Centro –, eu disse que, independente do quanto eu leia a respeito do Brasil, independente da frequência com que venha para cá, mesmo assim sinto, sempre meio puto da cara, como se nunca entendesse tudo. Ele riu com aquele rosto de marujo castigado pelo sol, ele que mora aqui há trinta anos e tem quatro filhos com a mulher brasileira do Espírito Santo: Fredrik, comigo também é assim! Por que será? Se você mencionar França, Itália, Alemanha, Argentina e vários outros países, tenho a impressão de que seria capaz de analisar cada um deles e explicá-los com certa racionalidade, mas isso não funciona com o Brasil, o que, segundo penso, tem a ver com a África. Tenho a impressão de que não sei o bastante a respeito da África e das religiões e da cultura africana, porque o Brasil é a África, Portugal, a França, a Holanda e diversas culturas indígenas em uma mistura incrível chamada sincretismo. No mundo europeu, quase sempre as coisas são pensadas em termos de ou isso ou aquilo, mas aqui é possível pensar em termos de isso e aquilo (como por exemplo no caso dos católicos adeptos da macumba). Depois segui em direção à “franja”, o mar, pela avenida Atlântica, cheguei à praia e andei pelos bares cheios de torcedores do mundo inteiro. Depois fui me atirar nas ondas, mas não me atrevo a ir muito longe, porque as correntes são perigosas e para muitos gringos o sonho do Rio acabou no fundo do mar, nos braços de Iemanjá. A visão dos navios cheios de contêineres no horizonte, o Pão de Açúcar, os prédios ao longo da orla, depois uma corrida, um pouco de alongamento e por fim os passos nervosos de volta às quadras junto ao Posto 4, onde o jogo corre solto.

Eu paro junto à lateral e observo com um olhar interessado, e de repente vem a pergunta. You want to play? E quando respondo: “Sim, quero jogar”, recebo um grande sorriso do Ladrão, que é o apelido do cara. Os brasileiros com frequência se impressionam ao descobrir que você fala a língua deles, como se não pudessem acreditar nos próprios ouvidos. Com o Ladrão, logo depois tive um mal-entendido engraçado. Eu já tinha jogado com aquele pessoal diversas vezes, o grupo é grande e toda hora surgem rostos novos, mas assim mesmo eu consigo me lembrar de uma boa parte, e de dois em especial (eles jogam todos os dias às cinco da tarde, Karl Ove, durante o ano inteiro!). Esses dois jogam assustadoramente bem e têm um controle quase total sobre a bola na areia fofa (futebol de praia é um esporte difícil, você precisa levantar a bola e chutar direto, conduzir a bola pela areia é complicado, mas esses dois são verdadeiros mestres). Um deles me fascina, e eu poderia passar uma eternidade simplesmente a observá-lo. Ele tem uma expressão meio dura, não ri nunca e cospe palavrões o tempo inteiro (“Porra! Filho da puta!”), como se fosse movido por um sofrimento nato, quase genético (e, ao receber uma decisão contrária do juiz, reverte ao estado de bebê de colo, e grita e berra até conseguir o que quer), mas que chute! Pelo amor de Deus! Em menos de uma fração de segundo ele toca a bola para cima e a acerta de voleio, e então a bola viaja pela orla como um cometa. Eu tinha entendido que o apelido desse cara era Ruim, uma maravilhosa ironia popular tirada de Bakhtin ou de Rabelais. É assim que eu, o intelectual da Europa, ando pela praia formulando teorias sobre as coisas. Mas ontem, quando expressei ao Ladrão minha admiração pelo Ruim, ele deu uma risada e disse que o nome dele é Rui. Eu tinha ouvido errado.

Isso mesmo. É assim que a língua cria realidades fantásticas, e os mal-entendidos criam realidades com vida própria. Como o nome Rio de Janeiro, por exemplo. O lugar foi descoberto pelos portugueses, justamente no mês de janeiro, e por isso o batizaram assim. O problema é que não existe rio nenhum por aqui. É uma baía – a Baía de Guanabara (“seio do mar”, em tupi). Será que importa? Não. O nome da cidade continua vivo, e o cara com chutes inacreditáveis do Posto 4 vai continuar se chamando Ruim no meu mundo. Como você pode ver, Karl Ove, para mim esse mundo, o do jogo cotidiano, é mais real e mais cheio de alegria do que o mundo da Copa do Mundo. Sempre foi assim. A magia de sentir a bola no pé, no meu pé, sempre foi maior para mim do que o mundo do espectador, mas eu estaria mentindo se dissesse que a posição de espectador nunca me causou sofrimentos. Sobretudo no Malmö Stadion, quando o Malmö FF joga, mas também, de tempos em tempos, quando a seleção da Suécia joga. Mas outros times também são capazes de me provocar arroubos, e é interessante que você tenha mencionado duas partidas que também me marcaram, França e Alemanha Ocidental em 1982, e Suécia e Senegal em 2002.

Sofro até hoje quando penso na partida da França. Eu estava num café em Arles, trabalhando como motorista de ônibus para 22 fotógrafos que eu tinha levado para um festival de fotografia organizado na cidade. Eles não tinham nenhum interesse por futebol e eu estava sozinho no café. No ano anterior eu tinha sucumbido a uma depressão profunda, mas naquele momento tudo havia mudado. Eu tinha ido de um extremo ao outro, e estava tão apaixonado que sentia meu peito arder – tudo por causa de uma mulher que havia me dado aulas de francês em Lund. Ela estava em Paris, e depois eu a encontraria lá. Eu estava tão presente nela, nas palavras dela, no rosto dela, na beleza dela e na realidade dela como naquela partida de futebol que acabou se tornando uma paródia de tudo que em geral concebemos como “francês” e “alemão” – a elegância contra a eficácia –, e se tivesse sido apenas o fato de que os alemães venceram a partida ainda seria possível aceitar esse resultado. O jogo bonito sempre acaba prejudicado de vez em quando, mas aquele nível de brutalidade, o ataque do Schumacher em cima do Battiston, foi simplesmente criminoso. O Schumacher não só devia ser expulso, como condenado a, sei lá, seis, oito meses de cadeia. Enfim, a uma pena memorável. Nada na história do futebol mexeu tanto comigo. O driblador a que você se referiu chamava Six, não Rocheteau; ele era incrível, mas ao mesmo tempo fazia o tipo Denílson, no sentido de driblar apenas pelo drible, o que nunca fez bem à saúde. Aliás, foi o Six que desperdiçou o pênalti decisivo.

Com base no resultado daquela partida, formulei uma pequena teoria segundo a qual existem duas histórias paralelas das copas do mundo: uma objetiva (baseada em estatísticas e resultados) e uma verdade paralela dos amantes do futebol; e nesse mundo paralelo, que é também o mundo da memória, é a França de Platini, Tigana, Giresse e companhia que ganha, são deles que lembramos. O mesmo aconteceu em 1954, quando a “verdadeira” campeã foi a seleção húngara, com Puskás no ataque. Ou em 1974, quando a Holanda de Cruyff e Neeskens venceu em nossos corações… São dois modos que operam em contradição.

A outra partida que você menciona também deixou marcas em mim, num grau ainda maior do que em você, uma vez que se trata da Suécia. Foi em 2002, nas oitavas de final contra o Senegal. Na tarde anterior eu tinha passado no estúdio da Sveriges Television, junto com o ex-técnico do time da Noruega, o Drillo, e um outro pessoal, e depois fui para o hotel. A partida contra o Senegal seria disputada pela manhã. Acordei cedo com um grito de desespero na janela: “Vai se foder, sua vaca cheiradora!” Imaginei que um adolescente da vizinhança tivesse brigado com a namorada ou coisa parecida. Mas aquelas palavras dilaceraram a manhã e pairaram como um eco ao meu redor durante toda a partida, que assisti deitado na cama do hotel. O sonâmbulo do Lagerbäck não pôs o Ibrahimović para jogar a tempo e, enfim, o resto da história a gente conhece. É assim que as memórias do futebol se fixam na gente, misturadas ao restante, e às vezes as copas do mundo servem de medida do tempo, mais ou menos como a música pop, que pode ser evocada para extrair sentidos da realidade e da nossa própria vida.

Está quase na hora. São 13h14, Brasil e Croácia começa às 17 horas daqui, e ao fundo eu já ouço umas buzinadas. Vou assistir à partida (meu palpite: 1 a 0) num telão em Copacabana. No fundo, o que é uma Copa do Mundo? Um grande palco de sonhadores, e esses momentos que antecedem o pontapé inicial são os mais importantes. Quando os sonhos de todos os torcedores ainda estão vivos e intactos. Os sonhos de brasileiros, argentinos, alemães e italianos, por exemplo, sonhos com a vitória, exatamente como os sonhos dos iranianos, australianos, camaronenses e suíços em relação a passar da fase de grupos. É muito bonito. A festa está viva. Todos chegaram. A mesa está posta. Ninguém foi obrigado a voltar para casa, e o primeiro sentimento melancólico de que tudo está acabando, a realidade da perda e da derrota ainda não aconteceu. Existe, sim – essa é minha quarta Copa do Mundo – uma profunda melancolia em uma Copa do Mundo também, e até mesmo um sentimento de vazio, que aos poucos vai tomando conta de todos após a fase de grupos, para não falar de quando as semifinais se aproximam. Nessa hora restam apenas quatro pessoas sentadas à mesa, quando todos os demais já foram embora da festa.

Saudações,

Fredrik.

 

 

Glemmingebro, 16 de junho

Meu caro Fredrik,

É manhã de segunda-feira, o sol está brilhando na rua e as crianças não param de falar em ir para a praia. Afinal, estão todos de férias. Eu disse que não, que preciso trabalhar. Mas trabalhar significa escrever, e nesse caso o que digo aos meus filhos soa meio falso, porque escrever nunca foi como um trabalho para mim, não é nenhum dever, nada que eu infelizmente precise colocar antes da vida na praia e do repouso de férias, pelo contrário, escrever é minhas férias, minha vida na praia. No fim eu disse que podíamos ir às três da tarde, e assim me resta uma hora e meia. Pode ser que com essa estratégia eu consiga assistir Alemanha e Portugal, um novo confronto para me alegrar. Talvez essa seja uma das fases mais bonitas na Copa do Mundo, quando os times se mostram pela primeira vez. Ontem foi a Argentina. Desde a última Copa do Mundo eu já vi muitos dos jogadores, mas não a seleção, e quando me sentei no sofá à meia-noite de ontem eu senti uma alegria enorme. Eles não me impressionaram como várias outras seleções – Costa Rica, Holanda, México, Croácia –, tampouco deram a impressão de ser um time sólido ou de ter controle sobre tudo, como o Brasil, que tem um potencial do qual ninguém pode duvidar – não, porra, o time pareceu não estar pronto! Na primavera eu estava em Barcelona, onde me encontrei com um fotógrafo argentino, e enquanto ele fotografava conversamos sobre a seleção dele. O homem disse que a Argentina tinha jogadores de incrível talento individual, mas não tinha uma seleção, e que com certeza teria um mau resultado na Copa do Mundo. Não acredito nisso, mas entendi o que ele queria dizer ao fim dos primeiros quinze minutos. Porém, o fato de terem feito um gol heroico já aos dois minutos deixou marcas na partida; para a Argentina estava tudo resolvido antes mesmo de ter começado. Não sei bem, mas tem muita psicologia envolvida – foi o que aconteceu na partida entre Espanha e Holanda, em que a Espanha foi o melhor time durante todo o primeiro tempo, mas levou um gol de empate logo antes do intervalo e, quando a Holanda fez o segundo, o time inteiro se desmanchou de repente. A Argentina jogou bem ontem, parece que tem um bom goleiro, a defesa funcionou, mas o meio de campo me parece ofensivo demais – no fim da partida a Bósnia fez um contra-ataque, mas só o Mascherano voltou, todos os outros jogadores do meio-campo estavam caminhando ou correndo devagar, como se o que acontece em frente ao próprio gol não dissesse respeito a eles. No ataque houve muitos passes errados, fiquei de olho no Di María, porque ele é um dos meus jogadores favoritos, mas deve ter errado uns 50% dos lances. E o Messi? Ele começou com quatro dribles, todos meio atrapalhados, mas foi parado em todos, e em certos casos de maneira a possibilitar um contra-ataque. Mas ele estava machucado e passou um bom tempo longe dos campos, e eu achei que o pior que podia acontecer seria que não continuasse tentando, porque mesmo que seja bom de passe – ele não cresceu no Barcelona por acaso –, não é isso que o torna um jogador único. Felizmente ele insistiu, e assim o jogo acabou em 2 a 0. Li os comentários sobre a partida na página do Guardian assim que o jogo terminou, e o colunista escreveu que a visão do Messi tocando a bola para a frente a toda velocidade é uma das visões mais belas no mundo esportivo. Eu nunca senti isso, jamais gostei de ver o Messi, porque mesmo que ele seja um jogador inacreditavelmente bom não existe nada no estilo dele que tenha qualquer tipo de apelo para mim. É estranho, pois do que se trata nesse caso? Você sentiu a mesma coisa em relação ao Robben, que também é um jogador brilhante, mas incapaz de despertar simpatia. Mas pegue um jogador como o Pirlo. (Esqueça por um instante o fato de que ele é italiano.) Ao jogar, ele atrai não apenas a bola, mas também os olhares. Tudo que ele faz com a bola me agrada. O domínio sobre a bola, as viradas e, pelo amor de Deus, a rapidez daqueles passes! Nesse caso, o que me agrada? Eu gosto desse cara, do jeito dele, talvez seja um resquício da infância, ele é cool, é heterodoxo, diferente desses espécimes maravilhosos de jogadores com enorme capacidade física e atuação quase mecânica que existem no futebol atual, com o peito bem torneado e os braços musculosos – o que o Messi, a propósito, também não é –, e eu gosto daquilo que ele representa, ou daquilo que faz o futebol se transformar: a astúcia. Eu admiro a astúcia. O Ronaldo não tem nada de astuto. O Messi não tem nada de astuto. Tampouco o Neymar. Mas o Pirlo tem! E o Maradona também. Por outro lado, o Maradona era tudo. Independente de você ter ou não admiração pelo Messi, independente de você sentir ou não calafrios ao vê-lo partir para o ataque, o jogo acabou em 2 a 0, e a Argentina, como o Brasil, deu início à campanha. O Brasil foi indiscutivelmente melhor, mas tenho a impressão de que a Argentina deve trazer surpresas mais à frente. Afinal, o Higuaín errou o recebimento de três em cada quatro passes depois que entrou e o Agüero errou praticamente tudo, mas de repente as coisas começaram a dar certo; foi ele que atrasou a bola para o Messi enquanto este vinha com tudo, antes de entrar pela esquerda e fazer com que dois bósnios caíssem por cima um do outro, para então chutar a bola como de costume, na trave esquerda, para então vê-la ricochetear à direita e entrar no gol. Outras combinações também deram certo, e nessas horas foi possível ver do que essa seleção é capaz. Por que será que eu gosto tanto do Di María? Um dos motivos deve ser a semelhança com Franz Kafka, outro deve ser o corpo dele, alto e magro como o de um garoto, o que não é comum em dribladores velozes como ele – mas, como vimos ao longo do ano, o Di María também tem outras qualidades muito distintas em campo. Ele joga no Real Madrid e foi usado nas laterais até a compra do Bale, quando acabou no banco; depois entrou no meio de campo, atrás do Benzema, onde de repente se transformou em outro tipo de jogador, ou mostrou uma outra dimensão do jogo, que inclui passes longos. Eu escrevi um pequeno artigo a respeito dele para um jornal antes da Copa do Mundo, e por isso assisti a uns quantos vídeos dele no YouTube. Verdade que todos os jogadores parecem bons no YouTube, já que praticamente todos têm uma ou duas fintas bem-feitas ao longo de uma temporada que, vistas fora do contexto, sem as centenas de minutos de fracasso que as acompanharam, parecem muito impressionantes. Mas de qualquer modo: eu vi o Di María fintar três zagueiros sem tocar a bola, ele simplesmente foi correndo atrás, fazendo pequenos movimentos rápidos com o corpo, e se livrou dos três. Eu o vi fazer um passe que deixou toda a zaga sem ter o que fazer e colocou o Ronaldo sozinho na frente do goleiro, e também o vi sozinho na frente do goleiro, que tentou parecer o maior que podia para tornar o ângulo o menor possível, e assim mesmo o Di María o humilhou com um toquezinho chulepento, atrasado justamente o tempo exato para que o goleiro não tivesse nenhuma chance. Foi meio parecido com o que o Maradona fez aquela vez com o Shilton, depois do famoso ataque, quando ele nem ao menos finta o Shilton, mas faz uma antifinta, ou seja, a finta esperada simplesmente não vem, ele segue reto. Esse também foi um exemplo de astúcia. Intuição, improvisação, nada ensaiado, nada que exista de antemão, mas que surge no momento exato em que a expectativa do adversário é lida, para então se fazer o contrário, ou uma ação totalmente distinta. E você, Fredrik, sabe tudo a respeito do que estou dizendo. Eu já joguei com você, e é justamente isso que você faz. Você joga com astúcia. Quando surge uma abertura você bate, com frieza e tranquilidade, e faz o gol. Quando está marcado, você espera o momento exato para se desvencilhar. Que você, dono de uma frieza e astúcia como essas, não tolere a Itália, e que chegue quase a odiar a seleção, me parece quase incompreensível. Isso só pode significar que existem outras razões em jogo – políticas (você falou no Mussolini, não? Ou pelo menos no Berlusconi), sociais (a máfia), estéticas (o esnobismo) –, mas as que dizem respeito ao futebol propriamente dito você deve no fundo admirar, ou pelo menos reconhecer, não? Afinal, jogar bem é ganhar, e não perder de maneira bonita. E a Itália ganha. De um jeito tão frio, tão refinado e tão cínico que acaba se tornando bonito, ou pelo menos admirável, não? Você certamente não tem nada contra o Pirlo, tem? A meu ver ele é o maior jogador de futebol que surgiu depois do Zidane. Jogadores como ele são a razão de eu assistir ao futebol.

Não, eu sei, não tem nada a ver com futebol, mas com posturas e ideais em relação à vida, tem a ver com a nossa infância. O futebol é uma das poucas coisas capazes de unir as crianças e os adultos, de colocar ambos em pé de igualdade. Então, para explicar por que eu gosto da Itália, preciso voltar a esse lugar. É meio constrangedor, mas consigo suportar o constrangimento. Na minha adolescência eu lia pilhas de revistas de música, tanto norueguesas como inglesas. Uma parte importante de tudo que se escrevia a respeito das bandas inglesas – a essa altura estamos no meio da década de 80 – dizia respeito a ter um visual bacana. O Ian McCulloch do Echo & the Bunnymen tinha um visual bacana – enquanto o arqui-inimigo dele, o Bono Vox, do U2, não tinha. O Bono representava a honestidade, a sinceridade, a ausência de fingimento, os sentimentos verdadeiros – mais ou menos a impressão que tive da seleção da Polônia no fim de semana –, e isso o desqualificava por completo, ele não era cool, não tinha o que era preciso, que aliás é uma coisa muito difícil de definir. Não eram as roupas, porque o McCulloch parecia bacana com qualquer coisa que vestisse, e também não tinha nada a ver com beleza física – na verdade, resumia-se a uma simples questão de atitude. Arrogância, confiança e lábios carnudos e vermelhos. O Paul Weller do The Jam e do The Style Council tinha um visual bacana, e o Noel Gallagher da banda merda e tardia Oasis também. Eu queria ter um visual bacana. Mas se isso não estava relacionado à aparência e nem às roupas, eu não teria a menor chance. Eu podia ir à Inglaterra e me vestir dos pés à cabeça como as bandas faziam na época e nem assim conseguiria um visual bacana. Uma vez eu vi um cara em Kristiansand que tinha um visual incrível, e eu o segui por vários quarteirões para descobrir qual era o segredo. Ele usava uma bermuda qualquer e uma camisa qualquer, mas assim mesmo tinha um visual incrível. Mas para meu enorme susto eu descobri que era o Alex James, o baixista do Blur! Esse episódio confirmou os meus pressentimentos mais sombrios, ele estava vestido como uma pessoa qualquer de Kristiansand, podia inclusive ser um dos meus amigos, mas alguma coisa indicava que ele não era de lá, que ele era mais importante, e isso era visível mesmo sem qualquer tipo de associação à banda e sem qualquer outro tipo de atributo. Eu soube que jamais conseguiria. Na época eu morava em Bergen, e um sujeito de Arendal tinha cunhado o termo irônico “roqueiros da H&M” para se referir a mim e ao meu irmão. Era assim que nos viam. Mas de volta à Itália. Na mesma época, no fim dos anos 80, eu estive em Florença pela primeira vez, fui de Roskilde para lá de carona com um amigo, e ao chegar descobri que todo mundo tinha um visual incrível. Todo mundo. Nesse ponto estamos na antítese da Polônia e da Noruega, mas também, pelo que entendi, do Brasil, não? Ah, são estereótipos, claro, mas afinal de contas essa correspondência não vai ser publicada no jornal, então vamos deixar assim. Todo mundo tinha um visual incrível em Florença. Os feios e os bonitos, os jovens e os velhos, os homens e as mulheres. Todo mundo tinha um visual incrível. Mas também o ambiente em que se encontravam, em meio às ruas antigas, os cafés novos, tudo parecia ter uma aura, um caráter, e tudo era bonito. Foi chocante, pois como explicar aquilo? Por que tudo lá era bonito e no meu país não? No meu país a natureza era bonita, claro, e uma proporção considerável de garotas também, mas não daquele jeito, quando até mesmo as feias tinham um visual incrível. O mesmo vale para o futebol, tanto para os jogadores, que têm um visual mais impressionante do que os jogadores de outros países (com a exceção de Sócrates, o rei dos jogadores com visual impressionante), mas também para tudo que diz respeito ao futebol. A Itália representa tudo o que eu quero ser (ou queria ser na minha infância e na minha juventude, porque desde então já me resignei), mas não sou e não posso ser. No que diz respeito ao futebol, aos aspectos claramente cínicos, calculados e traiçoeiros que são característicos de todos os times italianos e que deitam por terra não apenas as expectativas de fair play, sangue e suor (o ideal inglês), mas também de honra (os italianos são capazes de trapacear para vencer), existe também um elemento que permanece inalcançável, mas que eu gostaria de alcançar. Não sei mentir, porque me sinto ligado demais à pessoa para quem minto, preocupado demais em não decepcioná-la, então sou sempre sincero, tenho uma relação de 1 para 1 com a verdade – em outras palavras, eu não sei jogar o jogo. Não sei fingir. Estou condenado a agir de acordo com os meus sentimentos, mesmo sabendo que assim sou levado à beira do abismo. Não sei fazer planos, não sei fazer cálculos, não sei fazer uma coisa para conseguir a outra. Não sei me relacionar com a superfície, com o que há de externo, mas apenas com o que há de interno e de verdadeiro. Sou ético, e as pessoas assim sempre são antiestéticas também. Mas não é o que eu quero ser, eu quero ser livre, e livres são aqueles que jogam, que não se comprometem, que fazem o que estão a fim. E assim ganham. A Itália, como país do futebol, como cultura do futebol, é assim. Eles representam tudo que eu não tenho, mas gostaria de ter. Eles têm um visual incrível e sabem jogar o jogo. Eu não tenho um visual incrível e me deixo levar pelos sentimentos. Claro que eu amo a Itália.

E por lá os meus livros são publicados por uma editora que pertence ao Berlusconi…

Acho que a Argentina e o Brasil vão se encontrar na final.

E estou entusiasmado com Portugal, com o que são capazes de fazer; por muitos anos essa seleção deixou a desejar. Será esse ano, será talvez hoje que vão revelar todo o verdadeiro potencial?

Logo vamos descobrir. Divirta-se na Terra Prometida, Fredrik – agora eu vou organizar as crianças e o cachorro da melhor forma possível aqui na sua terra natal, para na sequência tentar oferecer um relato bonito.

Até mais,

Karl Ove.

 

Botafogo, 4 de julho

Meu caro Karl Ove,

É de manhã cedo aqui na rua Assunção, e me lembrei de uma coisa que eu tinha pensado em escrever na carta de ontem. Aquele negócio do choro, Karl Ove. De chorar e de ser homem. O Thiago Silva e os colegas de time receberam críticas ferrenhas dos jornais brasileiros porque choram demais ao cantar o hino nacional em campo e ao dar entrevistas depois da partida, e também porque estão sofrendo com a pressão psicológica. Uma voz, mas uma voz de peso, vai contra esse raciocínio: o Tostão, um dos grandes nomes da “melhor Seleção de todos os tempos”, a Seleção Brasileira que ganhou a taça no México em 1970. No dia 1º de julho ele escreveu na Folha de S.Paulo: “[…] como se o choro fosse incompatível com a razão e a lucidez. Penso o contrário. O que salva a Seleção é o envolvimento emocional dos jogadores, empurrados pela torcida e pela pressão de jogar em casa”. A melhor e mais longa conversa que já tive sobre o futebol brasileiro foi na casa dele, um ex-médico que se viu obrigado a encerrar uma carreira brilhante como jogador profissional aos 26 anos (problemas constantes na retina o impossibilitaram de continuar), doze anos atrás, numa casa em estilo bávaro em Vila Nova, um dos bairros residenciais mais bonitos de Belo Horizonte, e quando leio a coluna dele eu escuto a voz inacreditavelmente clara, quase juvenil, e penso mais uma vez na masculinidade, que se manifesta de várias formas, e no Tostão, que para mim é o mais distante do ideal latino-americano de macho que se pode imaginar, e na coluna dele, que me parece sensata. Como em Fernando Pessoa, aliás: não existe contradição entre a razão e os sentimentos. Pelo contrário, são coisas que pressupõem a existência uma da outra.

Será que ele tinha razão? Será que o choro é mesmo uma força nessa situação? Não sei, Karl Ove, sei apenas que eu também tenho dúvidas quanto a essa Seleção Brasileira pela mesma razão: como jogar futebol logo após uma descarga emocional tão intensa como aquela que o hino nacional provoca nos jogadores?

Saudações,

Fredrik.

 

 

Glemmingebro, 8 de julho

Meu caro Fredrik,

O papa é argentino, eu tinha esquecido por completo, e isso muda boa parte dos meus argumentos, e em certos casos chega a invalidá-los; por outro lado, o último papa era alemão, então talvez seja melhor não exagerar a importância disso. Mas quando você descreve a imagem do papa e dos cardeais assistindo futebol na tevê, reajo com um sentimento de que isso é errado. A tevê e o papa não pertencem ao mesmo universo, essa é uma colisão entre dois mundos completamente distintos. Não pense que estou brincando – é o que eu acho de fato. Não em termos racionais, mas por instinto: a forma da tevê e tudo que ela representa é incompatível com a forma do papa e tudo que ele representa. Me parece muito interessante que um sentimento tão intenso possa surgir – e não me entenda mal, eu não tenho nenhum envolvimento pessoal com o assunto, e por mim o papa pode fazer o que bem entende – trata-se da própria essência da religião, do que significa acreditar em Deus, de como a relação entre o humano e o divino se constrói nesse caso – porque tudo isso tem de fato um significado.

Um pensamento que me ocupa com frequência enquanto ando por aqui, de um lado para o outro entre as casas, dia sim e dia também, é a ideia de que a humanidade é muito pequena, muito aleatória, muito improvisada, muito contingente, muito esculhambada, por assim dizer, porque nos cortamos ao abrir uma lata, esquecemos onde deixamos a chave do carro e passamos a manhã inteira a procurá-la, perdemos o ônibus, de vez em quando corremos atrás dele e batemos na porta enquanto o motorista permanece tranquilo na cabine aquecida (porque essas coisas acontecem quase sempre no inverno) e balança a cabeça, sem dúvida tomado por uma alegria intensa ao ver nossa desgraça. As crianças erram o salto no trampolim, batem de cara no poste de ferro e quebram um dente. Derramamos café em cima do teclado, dizemos coisas estúpidas para as pessoas de quem gostamos e nos arrependemos por dias a fio, nos esquecemos de que o fogão está aceso e queimamos a panela, salgamos a comida a ponto de torná-la quase intragável, nos espetamos no roseiral que precisa de cuidado porque foi derrubado por uma tempestade de inverno ou então percebemos tarde demais que a erva daninha que arrancamos com a mão é um pé de urtiga. Eis uma pequena seleção de toda estupidez que ocorre por toda parte, todos os dias. Podemos inclusive dar um passo à frente e começar a pensar em todas as idiotices que têm resultados fatais – o sujeito que foi atropelado fantasiado de Moomintroll[1] e morreu, as pessoas que caem e batem a cabeça na borda da banheira e morrem, as pessoas que sobem nos escolhos para admirar as ondas enormes no inverno e são arrastadas pela água e levadas para o alto-mar, onde se afogam. As pessoas que serram as árvores em que estão trepadas, caem e morrem. Os tratores que tombam e esmagam os tratoristas. As pessoas que dormem bêbadas e se asfixiam no próprio vômito. Gente com uma das mãos na água e a outra num eletrodoméstico ao mesmo tempo. Gente que cai na escada do porão e morre. Enfim, você entende o que estou dizendo. O mundo é material, é constituído por superfícies mais ou menos duras com cantos mais ou menos pontiagudos, e as pessoas são criaturas em constante movimento, que nunca têm controle total sobre os desdobramentos das próprias ações, de maneira que os imprevistos podem ocorrer a qualquer momento, às vezes com resultados fatais. E não estou nem falando de todos os mal-entendidos que surgem, nem dos conhecimentos meramente aproximados, quando não totalmente errôneos, que as pessoas detêm. Assim são as coisas. Assim é o mundo. Vista por essa perspectiva, a religião é uma invenção incrível, a maior em toda a história da humanidade, porque instaura um céu esplendoroso acima de tudo que há de desprezível e de miserável, e então as pessoas passam a dizer: essa é a verdade, essa é a essência, essa é a existência autêntica ou o parâmetro da realidade. E lá, nesse ambiente perfeito, encontram-se criaturas perfeitas, criaturas sagradas, o princípio divino. Podemos ou não acreditar nisso. Mas, independente da nossa posição, construíram-se igrejas no mundo, e portanto lugares sagrados, como uma zona de sacralidade em meio à realidade trivial. E nesses lugares tudo era diferente. As roupas do sacerdote eram magníficas, ninguém tinha visto nada parecido em outros lugares. O canto e as músicas eram magníficos. A linguagem, a invocação ou a idealização de Deus era magnífica, e tão distante da realidade quanto seria possível. A queima do incenso era magnífica. As velas eram magníficas. Não havia armas. Não havia discórdia. Não havia vozes alteradas. Não havia tropeços. Não havia refeições a preparar. Apenas orações solenes. Foi nessas construções sagradas que a vida humana se tornou solene, por meio dos rituais do batismo, do casamento e das cerimônias fúnebres. Não importava nem um pouco se o falecido tinha caído no porão de esterco e se afogado em bosta, porque o enterro era feito com dignidade, com reverência, com solenidade, aquela era uma vida sagrada, nossa vida era sagrada, a humanidade era grandiosa, e não pequena. Tudo isso dependia de que as coisas fossem mostradas em um lugar predeterminado visitado por todos em horários predeterminados. O fato de que mais tarde o sacerdote talvez batesse uma punheta na pia do banheiro ou tivesse vermes e precisasse abaixar as calças para coçar o cu assim que estivesse sozinho não tinha importância nenhuma, porque ninguém via. Certas pessoas com certeza pensavam que o sacerdote também precisava cagar enquanto o viam fazer a pregação, mas nada disso era dito, nada disso era visto, nada disso existia naquele ambiente sagrado, nada disso fazia parte daquilo. Mas a tecnologia que temos hoje fez com que a burrice humana, que antes era privada e vista apenas por uma, duas ou talvez vinte pessoas que por acaso presenciassem a cena, e a mediocridade humana, que antes também estava ligada a um determinado lugar e a um determinado momento, se revestisse de um caráter ilimitado, passasse a existir em toda parte, e o que assim se perde, e o que ninguém quer de volta, são a grandeza e a dignidade. O papa com certeza assiste tevê desde a década de 50, e desde então se diverte com isso, mas quando essas coisas deixam de ser acobertadas, deixam de acontecer às escondidas e passam a ocorrer em público, a ser transmitidas por agências de notícias e são impressas em jornais e exibidas em sites pelo mundo inteiro, nessa hora já não há mais papa, nessa hora ele já não é mais um representante de Deus na Terra, nessa hora tudo está misturado e o sagrado se encontra diluído em meio aos demais componentes da mediocridade e da estupidez. O fato de ninguém esboçar qualquer reação, ou de que muito pouca gente faz isso, deve-se provavelmente ao fato de que outros lugares, outras zonas assumiram o papel que a Igreja tinha antigamente, o lugar de um céu sob cuja abóbada a vida humana se torna uma coisa grandiosa.

Como ontem fui idiota a ponto de comparar futebol e arte, hoje vou ser ainda mais idiota e comparar futebol e religião. Afinal, num campo de futebol como aquele que vamos admirar daqui a exatos 49 minutos, quando for dado o pontapé inicial entre Brasil e Alemanha, quase tudo que acontece é distante da vida humana; restam apenas regras, rituais e padrões de comportamento decididos de antemão, dos quais praticamente toda dúvida e ambivalência foram removidas: quando ocorre um gol, não existe nada além daquilo, a alegria pelo novo placar é total, o jogador que marcou grita o mais que pode e corre de braços abertos enquanto o restante da equipe grita e corre atrás. Quando vamos ter esse tipo de alegria na vida real? Nem quando uma criança nasce vemos uma alegria tão abrangente e sistemática, tão simples e pura. O futebol é um teatro, um lugar onde o mundo comum não tem vez, uma zona em que os significados se encontram condensados. Se alguém na rua tivesse vomitado um melão no ar, saltado para trás e o acertado com um chute, ainda no ar, mais ou menos como o Ibrahimović fez com aquela bola no jogo contra a Inglaterra, ninguém teria admirado o feito, ninguém teria admirado o responsável pela façanha, porque seria uma façanha desprovida de qualquer valor. As coisas que um jogador de futebol faz só têm valor dentro de campo, não fora. Na verdade as partidas de futebol não têm valor nenhum, claro, do mesmo modo que a água derramada sobre a cabeça de uma criança na verdade não tem valor nenhum. Mas essas coisas têm valor dentro de uma área claramente delimitada nas quais decidimos que esses atos têm valor. A diferença, alguém poderia objetar, é que as ações e os rituais eclesiásticos têm um valor real, enquanto as ações futebolísticas executadas nos estádios não têm. Têm apenas uma espécie de pseudovalor, o valor de um substituto para a guerra, para o embate, enfim, o valor de entretenimento. Mas a estrutura é a mesma, e foi isso que ficou tão claro quando o papa assistiu futebol pela tevê, conforme você descreveu, Fredrik. Por isso, termino com uma oração:

Deus do Céu

Faz com que o Brasil ganhe da Alemanha hoje à tarde

Faz com que o jogo seja bom, faz com que a partida seja disputada, permite até que a seleção da Alemanha saia na frente, mas não deixe que ganhe!

Faz com que o Brasil ganhe, para que possa chegar à final

Faz com que enfrente a Argentina

E faz com que a Argentina ganhe a final

Pois teu é o reino,

o poder e a glória para sempre

Amém.

Até logo,

Karlos Blasfemios Dias.

 

Glemmingebro, 9 de julho

Meu caro Fredrik,

A partida acabou de terminar. O Brasil perdeu de 7 a 1. Na semifinal, jogando em casa. Se eu tivesse 12 anos, estaria chorando agora. Uma das coisas mais difíceis de assistir é esse tipo de humilhação – uma dor, uma tristeza, uma vergonha que dá vontade de desviar o rosto. Me pergunto como você deve estar agora, em meio aos amigos brasileiros, o que foi dito e o que foi feito, e como foi assistir à partida aí. A gente estava aqui em casa, nossos amigos Fredrik e Karin, Olle, o filho deles, Linda e eu. O Brasil fez pressão durante os primeiros cinco minutos, mas cometeu erros graves, na maioria das vezes perdia a bola ao avançar, e passado um tempo a Alemanha marcou, e não por acaso, foi uma cobrança de escanteio e o Müller estava completamente sozinho a 5 metros do gol enquanto o David Luiz corria em vão: quando a bola parou nos pés dele, o placar ficou 1 a 0. Seria impossível cometer uma falha mais grave na defesa, e aconteceu justo na abertura da mais importante partida da Seleção Brasileira em sessenta anos. Tinham se passado apenas seis minutos, e portanto o Brasil ainda dispunha de todo o tempo do mundo para marcar um gol e empatar. Já tínhamos visto nas quartas de final o que a Alemanha é capaz de fazer com essa vantagem, então não seria nada fácil, mas tampouco seria impossível. No entanto, o Brasil perdeu completamente o controle, de repente os jogadores foram tomados por uma vontade tão intensa que esqueceram tudo que sabiam a respeito de futebol, tudo relacionado à tática, à astúcia e à frieza, não restou nada além da vontade, e era uma vontade individual; o David Luiz queria ganhar a partida sozinho, então avançou, ou então começou a jogar pelas laterais, e quando os alemães contra-atacavam não havia ninguém no caminho, ninguém para marcar, apenas o coitado do Dante e o coitado do Maicon e o Marcelo voltando o mais depressa que podia, cada vez mais exaustos e mais destrambelhados, até que por fim estavam todos correndo feito um bando de galinhas decapitadas em meio aos alemães. Não havia formação nenhuma, nem o meio de campo brigava contra os alemães, não havia nenhuma cooperação, somente a vontade. Não foi pânico, foi excesso de vontade, cabeça quente demais, estrutura de menos e nenhuma coletividade. E foi um fato marcante, já que a impressão deixada pela Seleção tinha sido justamente de coletividade – você deve ter visto que todos entraram em campo em fila, com a mão no ombro uns dos outros, como um organismo único. A camiseta do Neymar que todos seguraram durante a execução do hino. E a própria execução do hino: camaradagem, união, companheirismo, coletividade. E os alemães, que entraram em campo sem exibir nenhum laço afetivo entre si, ou pelo menos não de maneira explícita como o Brasil, se revelaram como o verdadeiro espírito de coletividade, um time no qual todos jogavam uns pelos outros, mantendo-se nas devidas posições e executando o trabalho combinado de antemão.

Ao final da partida, o Bastian Schweinsteiger saiu andando pelo gramado de torso nu, com uma camisa da Seleção Brasileira jogada no ombro e um sorriso largo no rosto. O time em fila, as mãos nos ombros uns dos outros, o cumprimento ao público, tudo aquilo pareceu indecente, como se não houvesse espaço para a comemoração da vitória naquela situação, porque aquilo não era uma vitória, era uma coisa muito diferente. Mais adiante Oscar chorava sem parar e buscava o ombro do Thiago Silva.

Um colapso desses nunca havia ocorrido em um nível tão alto. Mas, enquanto eu assistia tudo aquilo, me pareceu estranho que não acontecesse com maior frequência. Como o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, quando nem Gana perdeu tão feio? Por acaso o Brasil não é melhor do que Gana? Gana botou uma pressão enorme sobre a Alemanha, deixou a Alemanha preocupada, e com um pouquinho de sorte podia ter ganhado a partida. E Gana é um time africano que não tem a experiência do Brasil nas copas. A diferença é enorme. Gana sabia que a Alemanha é a melhor seleção do mundo e se preparou para jogar nesse cenário: manteve a formação a todo custo, nunca avançou com o time inteiro, jogou com o time recuado, com equilíbrio e controle, pensando que a chance de marcar podia aparecer a qualquer instante. O Brasil não pensou assim em nenhum momento. Nunca pensou que a seleção da Alemanha fosse melhor, e que a única chance de vencer seria ganhar tempo e esperar, manter o meio de campo fechado, fazer um jogo físico e cerrado, correr e correr. O Brasil achou que podia dominar a partida, impedir a Alemanha de jogar, era esse o plano traçado para o embate, e esse plano ganhou mais força a partir do momento em que o Brasil começou a perder, eles queriam partir para o ataque, queriam ajeitar as coisas o mais depressa possível, e isso, meu amigo, se chama húbris. O Brasil teve húbris e, como em todas as tragédias, a húbris culminou na queda do herói.

A enorme pressão teve um resultado fatal; havia muita coisa a ganhar, não era apenas aquela bola, aquele carrinho, mas a honra do Brasil, e com essa possibilidade desapareceram as únicas ferramentas capazes de ajudar, todas as ferramentas treinadas à exaustão pelos jogadores, cada um deles, ao longo de vinte anos de carreira, muitos no mais alto nível esportivo. Como por exemplo a formação do time quando os oponentes estão com a bola. Se você não faz isso, surgem espaços, e a Alemanha é ávida por espaços, está atrás de espaços o tempo inteiro com todos os jogadores. Se ela detém a posse de bola e o espaço necessário entre o meio de campo e a zaga, os defensores do time adversário precisam correr acompanhando os atacantes, e assim mesmo as coisas dão errado uma em cada quatro vezes, em circunstâncias normais. Nessa partida a defesa do Brasil estava completamente aberta, às vezes eram quatro alemães contra dois brasileiros, eles ficavam tocando a bola entre si enquanto os brasileiros corriam feito loucos até que a bola estivesse livre para um chute a gol.

Aquilo que antes da partida eu imaginei que podia favorecer o Brasil – a intensidade dos sentimentos, a religiosidade, a força de vontade quase louca – já que eu imaginava que o misto de irracionalidade e imprevisibilidade, somado à enorme pressão, poderia de fato desequilibrar a Alemanha, surgir como um elemento contra o qual os alemães não teriam defesa, porque jogam de maneira extremamente racional e calculada: poucas vezes cometeu-se um erro mais terrível. Foram justamente essas mesmas coisas que derrubaram o Brasil, e agora sabemos para toda a posteridade: no futebol, a razão ganha da emoção com um resultado arrasador.

A questão foi que o Brasil estava jogando por coisas demais. Estava jogando por 200 milhões de brasileiros, estava jogando para se recuperar do trauma da Copa do Mundo de 1950, estava jogando por Deus, estava jogando para mostrar ao mundo e estava jogando pelo Neymar, enquanto os alemães só estavam jogando para eles mesmos, para aquela partida, com aquela seleção naquela tarde. Estavam jogando pelo próximo carrinho, pelo próximo passe, pelo próximo contra-ataque, pelo próximo escanteio. Eu me lembrei do que Geir escreveu no livro Bagdad Indigo a respeito de como os pacifistas que foram a Bagdá queriam impedir a invasão com os próprios corpos, todos defendiam ideais nobres, queriam salvar o mundo, mas, quando as bombas começaram a cair, tudo aquilo se desfez, e praticamente todos fugiram. Os ideais não valiam a pena, não se convertiam em ações, não criavam nenhum tipo de elo entre as pessoas, nenhuma relação horizontal – e a horizontalidade é o trabalho conjunto, a cooperação, as ligações entre as pessoas –, não, era tudo vertical, ia de cada pessoa diretamente para cima, rumo ao ideal abstrato – paz na Terra – com o qual todos se relacionavam, mas que não foi o bastante, não foi capaz de mantê-los por lá, e todos debandaram. Os marines dos Estados Unidos, com quem Geir também passou um tempo, são a expressão máxima de uma posição diametralmente oposta – naquele ambiente ninguém luta pelos ideais, pela pátria ou pela ditadura, mas pelos companheiros, pelo soldado ao lado, e esse laço, que não tem nada de idealizado, mas é real, concreto e físico, se mantém. Nesse cenário existem coisas a fazer o tempo inteiro, e essas coisas, cada uma delas, todas essas pequenas coisas vistas individualmente os mantêm juntos, e os impele a fazer o que precisa ser feito, que na grande perspectiva são coisas de interesse coletivo. Parece um salto grande em relação à partida de hoje, que no fim das contas era apenas futebol, e não uma guerra, mas não consigo deixar de pensar nessas coisas, na relação entre as palavras e as ações, e na maneira como os laços que levam à ação não podem ser abstratos ou idealistas, mas precisam levar em conta a situação, o que está acontecendo aqui e agora.

Essa partida também fez dessa Copa do Mundo uma das mais inesquecíveis de todos os tempos. Os atuais campeões foram eliminados na fase de grupos. Os países pequenos jogaram no mesmo nível dos grandes praticamente o tempo inteiro. E o país-sede, campeão mundial em diversas ocasiões, perdeu de 7 a 1 na semifinal. Foi uma sensação, mas não uma partida que eu vá gostar de lembrar, como por exemplo a semifinal de 1982 entre a França e a Alemanha Ocidental, já mencionada tantas vezes, porque nesse caso tudo que um jogo de futebol tem a oferecer estava presente, e a diferença clara foi que houve uma disputa entre dois adversários equilibrados, afinal a ideia de que quanto mais equilibrados forem os adversários melhor é a partida é quase um princípio elementar do futebol, mas hoje aquilo que vimos foi um massacre. Como um bicho paralisado, com a lâmina fria na garganta, cortado de maneira precisa e sem nenhuma consideração pelo sofrimento que ocasionaria. Esse foi o jogo do Brasil contra a Alemanha.

Estou curioso para ler sua descrição, Fredrik, para saber o que você achou. Amanhã temos Argentina e Holanda, e os dois times estão em condições de abalar a Alemanha como Gana fez, talvez até ganhar, pois mesmo que a Alemanha tenha jogado a melhor partida nessa Copa do Mundo, eles ganharam porque a partida seguiu uma lógica predefinida, um desdobramento predefinido, não porque sejam – pelo menos em geral – tão melhores assim. Essa é uma das coisas que torna o futebol tão fascinante: cada partida tem uma vida própria, como diz o clichê, e por vezes acontece o que nunca tinha acontecido antes. Nunca sabemos quando vai acontecer, apenas que vai – talvez daqui a cinquenta anos, talvez amanhã. Então a Holanda, apesar de ser um time médio com três jogadores incríveis, pode ganhar, e a Argentina, com o futebol orgânico-cínico e um único gênio, pode ganhar.

Mas, conhecendo você, Fredrik, imagino que ache que a Alemanha deva ser campeã depois de tudo o que aconteceu ontem, que nessa Copa do Mundo já são os campeões morais, como se costuma dizer, por obra do desempenho fantástico de ontem. Por outro lado, já errei meus palpites a seu respeito incontáveis vezes ao longo desse mês. Não tenho a menor ideia sobre o que você pensa disso. Mas estou ansioso para descobrir.

Volto a escrever mais tarde ainda hoje, mas vou estar com a Anne e com as crianças, então acho que serão apenas umas breves considerações. Nos falamos!

Karl Ove.

 

Botafogo, 10 de julho

Meus parabéns, Karl Ove!

De certo modo você tinha razão quanto à seleção da Argentina, quando disse que o time queria crescer; foi o que de fato aconteceu, o que para mim parece engraçado, já que – se eles forem campeões – eu vou poder voltar para casa e dizer que estava no Brasil e que vi os campeões do mundo, embora apenas num dos primeiros jogos da fase de grupos em uma partida aborrecida contra a Bósnia.

Ontem despertei cedo, como se tivesse acordado por causa do silêncio e da tristeza brutais, como se centenas de milhares de pessoas estivessem tornando a atmosfera mais densa (Strindberg, o “louco”, provavelmente teria empregado um modelo de descrição espiritista, dizendo que milhares de almas haviam batido na porta dele em uma ação coletiva para tirá-lo cedo da cama), e acordei muito cedo só para vivenciar o silêncio. Não se ouvia nada, ainda que fosse um dia útil “normal”. Nenhum cachorro, nenhuma criança, nada, nada. E então de repente o silêncio é cortado por uma briga entre um homem e a mulher na casa ao lado. Uma voz desesperada de homem começa a gritar qualquer coisa a respeito de “cinco anos”, e imagino que a discussão possa degringolar de vez, mas vinte segundos depois tudo passa e me sinto mais uma vez engolido pelo silêncio que paira sobre Botafogo como se fosse um mar.

Depois, às oito da manhã, vou à banca de jornal, as pessoas têm o olhar vazio, olham para o asfalto e há uma outra coisa que eu a princípio não compreendo, mas apenas pressinto, e por fim noto que todo o amarelo de ontem desapareceu, todas as referências ao Brasil nas combinações de cores sumiram, tudo parece cinza e neutro, meio como na minha cromofóbica Suécia, mas de repente ouço o barulho de uma britadeira – pessoas trabalhando! – e uma gari bonita que varre uma pilha de folhas secas e um táxi a toda velocidade, um ônibus que passa estrondeando, implacável, e por fim a máquina do mundo mais uma vez em movimento, e aquele dia impossível, no qual nenhum brasileiro queria viver, no qual nenhum brasileiro queria entrar, no qual nenhum brasileiro queria ser jogado, está desfraldado na frente de todos, e não há mais como recuar, o único jeito é sair naquele calor, naquele sol intenso, e ficar cara a cara com essa derrota histórica e bizarra, tentar manter o queixo erguido e chegar ao trabalho sem se atirar na frente do trem na estação de metrô, sem dar aquele passo extra e parar na frente do ônibus, e na banca de jornal a manchete vem estampada com as letras da guerra: VERGONHA – VEXAME – HUMILHAÇÃO – VÁ PRO INFERNO, FELIPÃO, e a capa do Extra, um jornal do Rio, traz uma fotografia enorme do Moacir Barbosa caído de bruços enquanto o chute do Ghiggia acerta a trave na final de 1950, e por fim um MUITO OBRIGADO a todos os que jogaram aquela partida (a maioria dos jogadores já morreu, mas para demonstrar o tempo que essa dor acompanhou os brasileiros eu posso mencionar que quando estive no Maracanã no ano 2000, poucos dias depois da morte do Barbosa, o goleiro da Seleção Brasileira de 1950, eu vi um cartaz do outro lado do campo: “Barbosa, não foi sua culpa!” – cinquenta anos depois da partida, e quando entrevistei o Zizinho, capitão da equipe na época, em 2001, ele ainda estava bravo e amargurado por causa dos políticos que tinham arruinado a mobilização do time cinquenta anos antes! Para muitos jogadores daquela Seleção a vida se tornou um verdadeiro inferno, e não tenho dificuldade nenhuma em imaginar que o mesmo deve acontecer outra vez com muitos desses rapazes de agora, em especial pela diferença entre perder por um gol em uma final de Copa do Mundo absolutamente equilibrada e ser derrotado por 7 a 1, imagino que muitos deles hoje estejam felizes por serem profissionais, e quanto ao Fred, independente do quanto possa ganhar do Fluminense aqui no Rio, eu não gostaria nem um pouco de estar na pele dele, porque essa jornada ao inferno mal começou e talvez, se a história do Barbosa se repetir, vá acabar apenas quando ele morrer, digamos, daqui a cinquenta ou sessenta anos, o futebol pode mesmo ser uma coisa terrível por aqui), para que os jogadores de então possam deixar para trás o poste de vergonha a que estavam amarrados desde 1950, mas agora a equipe de ontem vai ser amarrada a esse mesmo poste, pois a humilhação que trouxe ao povo brasileiro, de acordo com todos os jornais – todos! –, está além de qualquer tentativa de explicação, e o maior jornal esportivo do Brasil, Lance, atribuiu um inexplicável 1,8 como nota média para o time (0,7 para o Felipão) numa escala de 1 a 10. Isso nunca tinha acontecido na história do jornal, e uma nota de 3,0 em geral só é dada a quem jogou mal o tempo inteiro.

A análise da partida que você fez me pareceu brilhante e para dizer a verdade eu não tenho muito a acrescentar, gostaria apenas de ressaltar a pressão psicológica, que eu já temia para essa Copa do Mundo; uma seleção jovem como essa não teria como suportar a pressão de 190 milhões, e agora os meus temores se concretizaram, não havia nenhum líder em campo, e o que os segurou quando enfrentaram a Colômbia, e que pareceu tão bonito no rosto do David Luiz, voltou como um bumerangue depois do terceiro gol da Alemanha e os acertou em cheio, um por um. Um fracasso histórico em todos os aspectos – os melhores do mundo, aqueles que todos associam ao espírito de amor ao futebol, o país-sede da Copa do Mundo –, em relação aos quais a derrota da Suécia na final de 1958 por 2 a 5 agora permite que “nós” deixemos para trás o poste da vergonha a fim de abrir espaço para o Brasil. O Scolari construiu um castelo de cartas ao redor do Neymar, e quando ele sumiu tudo desabou, mesmo que, como você escreveu, não seja impossível parar a Alemanha, e tanto Gana como a Argélia conseguiram segurá-los, mas pode ser que essa derrota tenha revelado uma verdade ainda mais profunda sobre o futebol brasileiro: a falta de humildade. Os alemães montaram uma seleção incrível e começaram da estaca zero (com grandes apostas em jovens imigrantes), já que o resultado pretendido era uma mudança ao mesmo tempo social e esportiva. O Brasil confiou em figuras conhecidas, como o Parreira e o Scolari, que já haviam ganhado copas com uma filosofia similar: retranca segura (defesa primeiro) e depois uma contraofensiva (ataque depois). Deu certo em 1994 nos Estados Unidos e deu certo no Japão e na Coreia do Sul em 2002, mas dessa vez foi quase cômico ver que o futebol brasileiro ficou para trás, e sem nenhuma dificuldade eu consigo pensar em oito, nove times que jogaram um futebol mais atraente nessa Copa do Mundo (Colômbia, Bélgica, França, Gana, Chile, México, Alemanha, Holanda e talvez Argentina). A CBF priorizou a filosofia de vencer a Copa do Mundo a qualquer custo, e como resultado investiu no que parecia ser uma aposta segura, uma colaboração entre o Scolari e o Parreira, e o resultado foi, sem meias palavras, um futebol de merda que a muitos brasileiros parece ser uma grande enganação, e que além disso – felizmente, devo acrescentar – mostrou-se completamente imprestável para ganhar uma copa.

Se a CBF e os que detêm o poder sobre o futebol brasileiro quiserem aprender uma lição com essa Copa do Mundo e com essa revelação contra a Alemanha, se os responsáveis aguentarem dizer uns para os outros: “Estamos nus, fomos revelados, talvez a gente tenha o maior número de talentos do futebol no mundo inteiro, mas não temos nenhum plano, nenhuma organização, nenhuma filosofia e não sabemos como administrar nossa riqueza”, se tiverem a capacidade de reconhecer a estaca zero em que o Brasil se encontra nesse exato momento em termos de futebol, e se tiverem a humildade de estudar o Barça e o Bayern de Munique, por exemplo, um modelo de organização europeu, sem virar as costas para as próprias raízes – não o Dunga, mas o Pelé, o Zico e o Neymar –, talvez daqui a mais umas finais de Copa do Mundo o Brasil ressurja com um futebol realmente grandioso, o futebol que os brasileiros querem, e não com uma seleção em que os jogadores não sabem conduzir a bola em alta velocidade, erram passes simples no estilo do Barça e não conseguem jogar com pressão psicológica. E com isso, Karl Ove, eu quero anunciar em alto e bom som a morte do futebol brasileiro ao mesmo tempo em que exalto o jogo bonito, o tipo de jogo que os alemães apresentaram ontem, e que portanto seria aquele capaz de fazer renascer – como em Hegel! – um futebol realmente brasileiro.

Argentina e Holanda? Uma briga entre duas grandes seleções, uma briga em que os dois times se engalfinharam por dez, quinze minutos, mas depois foi como se tivessem concordado em manter certa distância para lamber as feridas e reunir as forças, uma briga ao estilo Karl Ove, pensei, é disso que ele gosta, dessa partida física, em que os jogadores se cheiram e cavoucam, um futebol de javali, no qual as equipes procuram buracos nas muralhas uma da outra e o jogo parece nunca andar, no qual os dois times jamais disparam pelo campo a cada ataque, mas cavam trincheiras no meio de campo, e então começam a buscar novos buracos por onde o Robben ou o furão Messi consigam passar. Não é o meu tipo de futebol, Karl Ove, mas como agora estamos nos escrevendo e tento ver o futebol pela sua perspectiva, de repente consegui perceber a grandeza do Mascherano, por exemplo, e nesse caso tenho um jogador favorito, nem preciso de incentivo seu para gostar dele, que é o Lavezzi (meio parecido com o Andrzej Tichý, ex-lateral-direito na antiga seleção de escritores suecos), e para mim a atuação dele no primeiro tempo foi o grande destaque, mas já no início do segundo tempo eu cochilei. Tive dificuldade para me manter acordado e acompanhar as repetidas tentativas de ataque, sempre com medo que o Robben conseguisse encontrar um buraco e decidir o placar enquanto eu esperava um boletim sobre o Messi, meu fascínio por ele aumentou muito durante essa Copa do Mundo. Mas ontem a diferença entre ele e o Maradona ficou muito clara, aquele tipo de partida foi justamente o que fez o nome do Maradona (como nas quartas de final contra o Brasil em Florença no ano de 1990, a disparada pelo meio de campo que termina no passe para o Caniggia). O Messi não faz essas coisas, não tem o mesmo nível, não tem a mesma força, pelo contrário, está abaixo desse nível, mas se num lance de gênio conseguisse definir a final ele acabaria no mesmo lugar, no Valhala do futebol, na companhia dos verdadeiros grandes (às vezes eu me pego a observá-lo com a camisa do Barcelona ou da Argentina, quando a bola está em outro lugar e eu devia estar prestando atenção ao restante da partida, mas não, eu gosto de vê-lo andar pelo campo durante a partida inteira, o que pode ser uma experiência igualmente cheia de emoção, porque satisfaz minha profunda necessidade por diferença, junto com a visão daquele rosto de expressão meio ausente, fria e sonhadora – Que diabos ele está pensando?, eu me pergunto nessas horas).

Por último, um dos grandes momentos dessa partida, a briga de Mascherano nos últimos segundos frenéticos, um desempenho de mestre, ele atrás de Robben, o jogador mais rápido do mundo que ainda por cima tem a bola no pé, mas, com um movimento que desafia todas as leis da física e da fisiologia, consegue estender aquele dedão categórico nos últimos centésimos, e se a Argentina for campeã, é provável que esse tenha sido o lance decisivo, porque de outra forma aquela bola teria entrado, e assim chegamos à injustiça constitucional de toda a crítica futebolística: esse lance vai ser esquecido, mas se o Messi decidir a final com uma bela descida de slalom, ninguém vai falar mais nada, ninguém vai falar sobre a jogada que lançou as fundações da vitória, infelizmente.

Sendo assim, meus parabéns, Karl Ove, mais uma vez!

Saudações cordiais,

Fredrik.

P.S.: No que diz respeito ao papa, por mim ele pode assistir tevê sem problema – o que me abalou foi a maneira norte-coreana como todos estavam sentados, dispostos em linhas e fileiras, mas eu me solidarizo com a sua exaltação e com o seu desejo de que certas coisas possam manter uma aura sagrada, como Mahler e Proust, mas, depois de pensar um bocado sobre o assunto, percebo que, como ateu, também posso ter uma experiência similar. Anos atrás entrei na igreja onde os meus pais se casaram e fiquei lá sozinho, em silêncio absoluto, quando uns visitantes atrás de mim abriram uma lata de refrigerante com aquele chiado típico e estridente, o que me abalou muito, e talvez se assemelhe aos seus dois mundos em colisão.

P.P.S.: Tem algum jogador de defesa nessa Copa do Mundo com quem você simpatize, alguém em quem você gostaria de encarnar se pudesse trocar de corpo, idade e nacionalidade?

–

[1] Popular personagem infantil escandinavo, originalmente criado pela escritora finlandesa Tove Jansson.

Karl Ove Knausgård
Karl Ove Knausgård

Karl Ove Knausgård, escritor norueguês, é autor da série autobiográfica Minha Luta, publicada no Brasil pela Companhia das Letras

Fredrik Ekelund

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