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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025

esquina

Arrastão da saudade

Uma professora supera o luto na festa do Pavulagem

Leandra Souza | Edição 225, Junho 2025

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É d’ouro, prata e brilhante/As iniciais BP/De rubis e diamantes/Estrelinhas tão cintilantes/Que é pra todo mundo ver.

Basta ouvir esses versos de Iniciais BP para que o folião se sinta transportado ao meio de uma multidão que brinca na Avenida Presidente Vargas, em Belém do Pará. A canção de Ronaldo Silva e Toni Soares é um dos sucessos do Arraial do Pavulagem, festividade que neste ano ocorre nos domingos de 15, 22 e 29 de junho e 6 de julho.

Pela avenida, dançando e cantando passam a banda e os brincantes na cola do símbolo da festa: o vistoso Boi Pavulagem (BP, na sigla da música), versão azul do Boi-bumbá. O animado cortejo é separado por uma cordinha do público que sai à rua só para admirar a festa.

 

Por anos, Izadora Aguiar esteve na condição de admiradora. A professora de língua portuguesa do ensino fundamental e médio acompanhava a festa para ver seu irmão caçula, o estudante de música Iury Aguiar, que tocava banjo no meio dos arrastões (assim são chamados os desfiles).

Izadora, de 30 anos, relembra com saudade aqueles domingos em que via Iury se expressar de uma maneira única. “Nas fotos que tenho do meu irmão no Pavulagem, ele está sempre sorrindo, gesticulando, iluminado”, diz. Iury tocou banjo nas três edições da festa promovidas entre 2018 e 2022 (não houve arraial em 2020 e 2021, por causa da pandemia, mas foram feitos eventos virtuais).

Em 2022, ela combinou com o irmão de 23 anos que naquele ano tocaria banjo ao lado dele. Mas Izadora acabou perdendo o prazo de inscrição no arraial – festeiros neófitos têm de passar por um período de preparação, sobretudo quando tocam instrumentos musicais. Resignou-se a mais uma vez acompanhar as festividades como mera espectadora. Foi a última vez que viu Iury tocar seu banjo no cortejo do boi azul.

 

 

A palavra “pavulagem” (ou “pabulagem”) consta nos dicionários como sinônimo de “presunção” ou “empáfia”. Para os brincantes de Belém, no entanto, o termo designa o exibicionismo alegre de foliões como Iury Aguiar.

Criado em 1987 pelo grupo musical de mesmo nome, o Arraial do Pavulagem começou como uma folia modesta que celebrava a cultura popular do Pará. Foi crescendo até se tornar um dos eventos mais esperados de Belém. A organização estima que a festa carrega pelo menos 40 mil pessoas às ruas todos os anos.

Em 2003, foi criado o Instituto Arraial do Pavulagem, que veio consolidar os laços sociais e culturais do evento com os belenenses. “A gente tem uma comunidade de pavuleiros muito engajada e ligada nas coisas que acontecem, muito apaixonada por viver as coisas que o arraial propõe”, diz Leandro Moreira, assessor do instituto.

 

Desde o ano passado, o Arraial do Pavulagem faz parte do Patrimônio Cultural Nacional. Proposta em 2019 pelo então deputado federal Cássio Andrade (MDB) – hoje vice-prefeito de Belém –, a lei que reconhece a festa como manifestação da cultura brasileira foi sancionada em setembro de 2024 pelo presidente Lula. Mas para paraenses, como Izadora Aguiar, a festa tem um significado que suplanta essa consagração oficial.

 

A alegria que Iury Aguiar exibia nos folguedos juninos não permitia suspeitar de seu sofrimento psicológico. O rapaz que tocava banjo morreu dias depois de seu último domingo de apresentação, em 2022.

A irmã foi arrastada para um luto profundo. “Eu estava num lugar muito obscuro. Não conseguia sair, não conseguia me relacionar com as pessoas. Não conseguia mais dar aula”, conta Izadora. Nesse período, ela não podia ouvir falar do Arraial do Pavulagem – a associação com o irmão era imediata e dolorosa.

Aos poucos, porém, ela entendeu que precisava se conciliar com a imagem que lhe causava tanta tristeza: Iury, feliz, na avenida. Resolveu fazer isso se inscrevendo, em 2023, nas oficinas de banjo do Arraial do Pavulagem, uma das portas de entrada para novos brincantes. Sua intenção era ficar só na aprendizagem do instrumento, sem brincar na avenida. “Minha ideia inicial era homenagear o Iury, dar um novo significado ao meu laço com o Pavulagem”, diz. “Mas eu não queria ficar no arrastão.”

Ela acabou participando dos ensaios. Foi nesse ambiente festivo que conheceu um advogado (e instrutor de banjo) de 31 anos chamado João Paulo Barros. Os pe­didos de namoro e noivado ocorreram entre junho e julho, época da festa do boi.

Com o casamento não poderia ser diferente: será neste mês de junho, em meio às celebrações do Arraial do Pavulagem. É claro que João Paulo Barros e Izadora Aguiar vão desfilar juntos, tocando banjo, como já fizeram nos dois anos anteriores. E a professora, mais uma vez, estará dedilhando o instrumento que pertenceu a seu irmão.

Na braçadeira do banjo, está escrito “Iury Presente!”. Para Izadora, o espírito de seu irmão segue vivo em cada detalhe da festa. “Ele virou encantaria. O único lugar em que sinto ele presente é dentro do arrastão”, diz.

Na sabedoria afro-indígena, uma pessoa “vira encantaria” quando transcende a vida material e se torna uma entidade que salvaguarda os rios, as florestas e seus povos. Em 2023, Izadora teve a percepção de que Iury protegia o primeiro Arraial do Pavulagem de que ela participou como brincante: “Foi ali, no meio do batalhão, tocando Iniciais BP, que eu senti meu irmão vivo, perto de mim. E aí, sim, eu voltei a me sentir feliz.”

Leandra Souza
Leandra Souza

É estagiária de jornalismo na piauí

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