A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

anais da luta armada

As 38 estrelas

Como se planejou e executou, em Montevidéu, uma fuga em massa de prisioneiras políticas

Josefina Licitra | Edição 106, Julho 2015

A+ A- A

Domingo Trujillo seguia de carro para o bairro La Comercial, no centro de Montevidéu. Fazia um frio do cão e, vista pela janela do automóvel, a cidade parecia um corpo contraído e estático. Naquela madrugada do início de julho de 1971, Trujillo se sentia nervoso e agitado: tinha pela frente uma tarefa árdua. Quando chegasse a seu destino – uma casa simples, com um portão largo por onde poderia entrar com o carro – deveria dar início ao trabalho: a escavação de um túnel subterrâneo. Em silêncio, com muita paciência, ajudado por outros companheiros, Trujillo teria que percorrer os 1 400 metros – cerca de doze quadras – que iam daquela residência particular à prisão feminina de Cabildo. Na outra extremidade, entre os muros da penitenciária, havia 38 presas políticas à espera.

O plano de fuga estava em andamento havia pelo menos seis meses. Fora calculado nos mínimos detalhes pelos líderes do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T), uma organização clandestina que décadas depois se tornaria internacionalmente conhecida com a chegada de José Pepe Mujica – militante tupamaro – à presidência do Uruguai. Àquela altura, início da década de 70, o MLN-T era a maior dor de cabeça do governo de Jorge Pacheco Areco, que, tendo assumido legalmente o poder em 1967 – em substituição a Óscar Diego Gestido, que morrera e de quem era vice –, vinha realizando uma gestão marcada pelo ajuste econômico e pela repressão social.

A instauração das Medidas Prontas de Segurança, eufemismo para “estado de sítio”, autorizando a polícia a deter cidadãos sem a intervenção da Justiça, arrastara milhares de militantes de esquerda para as prisões. Tendo em vista a inexistência de garantias institucionais, mal eram encarcerados, os detidos já planejavam escapar o mais depressa possível, passando para a clandestinidade.

 

No caso do MLN-T, a possibilidade de escapar, mais que um plano, era uma gesta romântica que transcendia a fuga em si. O movimento contava com membros de origem operária e rural, mas também da classe média universitária, e desse cruzamento resultavam ações armadas extremamente calculadas e temerárias, e sobretudo de forte impacto político. Os tupamaros roubavam bancos, limpavam financeiras, furtavam armas das casas dos militares, faziam sequestros e planejavam as fugas com precisão de ourives. No dia 8 de março de 1970 já haviam levado a cabo a Operação Paloma, que resultara na libertação de treze presas da prisão de Cabildo, gerida por uma ordem religiosa. (Simulando um fervor místico, as presas haviam comparecido à missa e depois fugiram pela porta principal da igreja da penitenciária, que dava para a rua.)

No segundo semestre de 1971, planejavam realizar mais duas operações audaciosas: a evasão da penitenciária masculina de Punta Carretas – um resgate a que chamariam “O Abuso”, já que o número de prisioneiros libertados seria, diziam com sarcasmo, “um abuso” – e uma segunda fuga da prisão feminina de Cabildo. Denominada Operação Estrela, acabaria por se tornar uma das maiores fugas em massa de uma prisão feminina, mas nem por isso passaria à história.

Por um lado, o silêncio histórico pode ser atribuído ao sucesso da operação O Abuso: ocorrida dois meses depois, a manobra libertaria nada menos que 111 presos, entre eles José Mujica. Por suas proporções, não só figuraria no Guinness Book of Records como acabaria relegando à invisibilidade todo acontecimento ocorrido logo depois dela. Por outro lado, há que se considerar o fato de a Estrela ter sido protagonizada por mulheres. Embora algumas delas tenham integrado o governo de Mujica – inclusive Lucía Topolansky, senadora e mulher do ex-presidente –, os padrões de comportamento da época também tiveram efeitos no interior da esquerda revolucionária e deixaram a militância feminina num plano talvez mais obscurecido.

 

 

“Este é um mundo muito machista”, diz Domingo Trujillo, na mesa de um bar de Montevidéu. Trujillo tem um nariz carnudo e forte, bigodes com personalidade e uma atitude de assombro permanente. Filho de um empregado de frigorífico e de uma funcionária da área da saúde, ingressou no movimento tupamaro aos 19 anos, levado pela mesma maré histórica que aproximara tantas pessoas. A Revolução Cubana de 1959 – o mais grandiloquente dos vários processos insurgentes que avançavam na América e na África – convencera toda uma geração de que uma mudança política e social era factível. E de que essa mudança ocorreria caso se implementasse o que o teórico francês Régis Debray denominara “teoria do foco”: os movimentos deveriam se impor por meio da luta armada contra o poder instituído.

No Uruguai, esse esquema atingira sua versão mais acabada e romântica com o MLN-T: organização nascida publicamente em 1965 – ao apoiar uma revolta de trabalhadores da cana-de-açúcar, os assalariados mais pobres do país – e que em questão de meses conseguira criar sua própria mística. Um número cada vez maior de pessoas simpatizava com os tupamaros – porque eles não abusavam da violência e agiam em defesa das classes mais desfavorecidas.

Além dos procedimentos usuais (roubos, sequestros), de vez em quando eles apreendiam caminhões carregados de mercadorias que em seguida distribuíam nas comunidades pobres da cidade. Esses gestos haviam produzido frutos. Em 1971, ano da Operação Estrela, a organização – que ao nascer contava com 50 membros – somava 5 mil integrantes ativos e tinha um raio de influência de 30 mil pessoas, o que fazia do MLN-T o fenômeno de mais rápido acúmulo de forças da história de toda e qualquer associação política.

 

Domingo Trujillo, ainda adolescente, ingressara nesse grupo.

Naquela madrugada de julho, o rapaz entrou na casa, localizada no cruzamento das ruas Constitución e Nueva Palmira, e foi conduzido a um quarto com assoalho de madeira. Por baixo, bem dissimulado, havia um berretín: espécie de esconderijo utilizado para ocultar pessoas ou armas. No caso, o berretín era um cubículo de 5 metros quadrados e pouco mais de 1 metro de altura onde Trujillo deveria passar os dez dias subsequentes agachado. Não estaria só. Outros quatro companheiros encarregados da mesma tarefa se revezariam com ele.

 

“Para você, companheiro”, alguém disse a Trujillo, entregando-lhe uma chave de fenda e um formão. Eram as únicas ferramentas que permitiam escavar sem fazer barulho. A missão parecia impossível. Mas era viável, porque não se tratava de abrir 1 400 metros de túnel daquela forma: a tarefa de Trujillo, a rigor, era o último elo de uma sequência de providências que já vinha sendo elaborada havia algum tempo. Dias antes um grupo construíra o esconderijo debaixo do assoalho e outra equipe fizera um primeiro túnel de 14 metros unindo a casa à rede de esgotos. A terceira equipe, essa da qual Trujillo fazia parte, deveria percorrer as catorze quadras de rede de esgotos até chegar à altura da prisão. E lá, debaixo da rua Acevedo Díaz – uma das que delimitavam a penitenciária –, tinha início sua missão. Era preciso perfurar o solo e construir um segundo túnel unindo a tubulação ao piso de cimento da penitenciária, mais exatamente às quatro lajes que forravam o piso de um dos dormitórios das detentas.

O trabalho exigiria cerca de dez dias de esforço ininterrupto. Os membros da equipe só poderiam sair eventualmente, para ir ao banheiro ou tomar uma ducha; todo o resto do tempo deveriam permanecer debaixo da terra. Em cima, na casa, transcorria a aparente rotina de uma família com filhos. Tratava-se de um casal de militantes que se prestara a fazer o que no movimento se denominava “cobertura”: uma fachada de normalidade que permitisse o desenvolvimento de atividades clandestinas. Se na casa havia crianças – que de nada sabiam – e televisores ligados na hora do jantar, no subsolo cinco homens iam e vinham pelos canos, perfurando a argila que em seguida era descartada e levada pela própria corrente de esgotos.

Se tudo saísse bem, a missão seria o preâmbulo de uma fuga que reunia todos os requisitos para ser perfeita: não envolvia confronto sangrento e tinha um significado político claro, dois fatores altamente relevantes dentro da organização. Era tudo questão de temeridade e paciência, e, sobretudo, de precisão. Na outra ponta, na penitenciária, as detentas haviam escolhido o local exato onde a boca do túnel deveria se abrir: no dormitório localizado na área mais afastada da polícia penitenciária. Para diminuir a margem de erro, uma das presas, a arquiteta Marta Avella, tirara as medidas com um dos vários metros de costura que a prisão fornecia às prisioneiras para que fizessem o que as autoridades acreditavam que competia a uma mulher: costurar e bordar. Em seguida essas informações haviam sido levadas para fora da casa de detenção e chegaram às mãos dos companheiros.

 

“Havia muito vaivém, muita comunicação entre o dentro e o fora”, diz Graciela Jorge, à época um dos maiores quadros políticos detidos na penitenciária.

“Sei que a pergunta é ingênua, mas a verdade é que vocês estavam presas. Como faziam para se comunicar?”, pergunto.

Graciela sorri com pena ou resignação.

“É mesmo, você é superingênua. Sempre há maneiras de se comunicar.”

Nas bainhas das calças que confeccionavam para que as famílias vendessem fora da casa de detenção. Em sedinhas de cigarro, muito finas, dobradas infinitas vezes e depois recobertas com fita adesiva (eram denominadas “cápsulas”), e finalmente passadas de uma mão para a outra nos dias de visita, ou de uma boca para outra durante um beijo. Em mensagens cifradas que só podiam ser decodificadas com a ajuda de um livro previamente estabelecido (e nesse caso os números “4 10 140” significavam, por exemplo, “letra 4, linha 10, página 140”).

Tínhamos muitas maneiras de transmitir mensagens, diz Graciela Jorge com serenidade, sintonizada com o presente. Já faz três décadas que sua vida é, por assim dizer, tranquila. Com a chegada da democracia ao Uruguai – a ditadura começou em 1973 e terminou em 1985 –, Graciela Jorge abandonou a clandestinidade e atuou, entre outros cargos, como coordenadora executiva da Secretaria de Direitos Humanos durante a presidência de José Mujica. Além disso, é autora da única publicação existente sobre as fugas da prisão de Cabildo, o livro Historia de 13 Palomas y 38 Estrellas (História de Treze Pombas e 38 Estrelas) – numa alusão aos nomes das duas operações. Editado por um selo do MLN-T, foi retirado de circulação a pedido da própria autora, que pensa que o volume precisa ser revisto e melhorado, pois carece de perspectiva histórica.

Já se passaram mais de quatro décadas desde que ocorreram aquelas fugas.

 

Em julho de 1971 Graciela Jorge constituía um dos quadros políticos mais fortes e, embora tivesse apenas 24 anos, era uma das militantes mais velhas no interior de uma penitenciária onde boa parte das moças mal chegara à maioridade. A extrema juventude era uma característica do movimento, composto por um terço de mulheres, algumas delas recém-egressas da escola secundária.

“Os homens, em compensação, eram mais velhos. Mas as mulheres da idade deles, inclusive as esposas de alguns companheiros, eram, em geral, donas de casa. Depois, quando o movimento se consolidou, houve mulheres adultas que passaram a militar. Mas no início éramos vistas socialmente como umas rebeldes, ovelhas negras que infringiam a ordem social”, recorda Jorge.

Ao contrário do que se poderia pensar, aos 24 anos Graciela Jorge já possuía uma vasta história de militância. Quando ela era criança, em Paysandú, departamento de perfil industrial localizado no interior uruguaio, seu irmão mais velho – militante de esquerda – lhe apresentara Raúl Bebe Sendic: o maior líder da história do MLN-T e o homem a quem todos, inclusive Mujica, invocam sempre que falam de um patriarca político.

Sendic vinha do campo e criara um movimento que se diferenciava do resto da esquerda pela supremacia dos atos sobre a retórica. “As ações nos unem e as palavras nos separam”, dissera certa vez, e com essa afirmação resumira a filosofia dos tupamaros. Diante de um país empobrecido, que deixara de ser “a Suíça da América” e começava a ser demolido pelas políticas liberais – o que envolvia demissões, problemas sindicais e militarização dos espaços de trabalho –, Sendic apregoava a luta armada, o que, por sua vez, supunha uma atividade clandestina permanente.

Ele passou para a clandestinidade em 1963; Graciela Jorge, ainda uma adolescente, visitava-o nos refúgios onde se escondia, atuando como leva e traz de informações. Até que três anos depois, em 1966, a jovem também entrou na ilegalidade e – ainda na vigência de um governo formalmente democrático – passou a integrar a primeira leva de clandestinos do movimento. Numa certa tarde de 1970, na véspera de um encontro político num apartamento de Montevidéu, a militante ignorou um alerta – uma persiana erguida em sinal de perigo – e bateu à porta de entrada. Foi recebida por um rosto estranho.

 

“Eu gostaria de falar com o dr. Mardones”, disse Jorge. Era a senha, mas assim que ela acabou de pronunciar a frase combinada sentiu que um homem apoiava um revólver em suas costas e a empurrava para o interior. O resto do dia consistiu em observar como, um após outro, vários companheiros chegavam e eram presos, durante um episódio – a “queda da Almería” – que anos depois Costa Gavras encenaria no filme Estado de Sítio. Horas mais tarde, Jorge foi levada para a chefatura de polícia, onde a interrogaram. Finalmente, foi encarcerada na prisão de Cabildo.

Desde o momento em que chegou, começou a pensar em sair dali. Não era uma iniciativa individual, mas uma política interna do movimento, que possuía comissões de fuga em todas as penitenciárias onde houvesse tupamaros presos. Enquanto se dedicavam a trabalhos manuais, limpavam os dormitórios, preparavam a comida ou faziam ginástica – a boa condição física era um requisito básico dentro da organização –, tramavam fugas que iam sendo discutidas, em código, com os companheiros que estavam do lado de fora. Depois de descartar algumas possibilidades, traçaram o plano definitivo: cavariam um túnel que alcançaria a rede de esgotos, a partir da qual tomaria o rumo de uma casa alugada especialmente para a ocasião.

Um grupo saiu à procura de casas e outro se encarregou de analisar o mapa dos esgotos de Montevidéu, um tesouro que haviam furtado da prefeitura tempos antes. Os guerrilheiros urbanos – dizia-se em Montevidéu – deviam conhecer a cidade como um guerrilheiro rural conhece a mata. E isso incluía os subsolos.

“Fidel Castro mencionara a rede de esgotos como uma segunda cidade por baixo da cidade. Ela era considerada um território de entrada e saída, de deslocamento e de segurança. De modo que tratamos de obter o mapa. Eu tinha um amigo engenheiro que trabalhava na prefeitura e ele conseguiu para mim – relembra Mauricio Rosencof, um dos quadros mais importantes do MLN-T e atual secretário de Cultura da Prefeitura de Montevidéu. Na parede de seu apartamento em Playa Malvin – perto de onde se deu a “queda de Almería” –, há uma foto onde ele aparece apertando a mão de Fidel Castro, em Cuba. Foi Castro quem, naquela viagem, ofereceu a Rosencof o Mila 18: um livro que explicava como a rede de esgotos fora utilizada na Segunda Guerra Mundial para burlar a segurança do gueto de Varsóvia. Era só fazer o mesmo no Uruguai.

Se o mapa estivesse correto, as presas deveriam percorrer doze quadras por baixo da terra até chegar ao cubículo da rua Constitución. Uma vez ali, encontrariam Rosencof e Henry Engler – outro quadro importante da organização – com mudas de roupa limpas, calçados secos, armas, munição, algum dinheiro, documentos falsos e uma frota de carros que as levaria aos diversos esconderijos espalhados pela cidade. Para que tudo isso acontecesse, porém, primeiro era preciso cavar.

 

Domingo Trujillo começou seu trabalho. Precisava rastejar por um corredor estreito e raspava a argila até ficar sem ar. A anoxia – falta de oxigênio – era um problema, e por isso todos tinham um barbante amarrado ao pé. Passados vinte minutos, alguém puxava o barbante para sinalizar que estava na hora de recuar e ceder o lugar a outro companheiro. “Alguns sentiam náuseas ou tinham hemorragias nasais, aquilo não era para qualquer um”, recorda Trujillo.

De tempos em tempos voltavam ao cubículo para se alimentar ou descansar. Salvo exceções, contudo, não podiam sair para o exterior enquanto a tarefa não estivesse concluída. Nos esgotos, precisavam ser pacientes e resistir não apenas à exiguidade do espaço como à ocorrência de chuvas – que provocavam correntezas perigosas ali embaixo –, à profusão de ratos e baratas e ao medo constante de serem descobertos.

Os guardas estavam logo acima, sobre suas cabeças. Dava para ouvir as botas pisoteando as tampas dos bueiros no ar gelado do inverno. Até que, quando conseguiram avançar e ficar exatamente embaixo da casa de detenção, os sons que lhes chegaram aos ouvidos foram outros: os das presas. Os ruídos acima deles já não provocavam medo, mas um sentimento de cumplicidade.

Para encobrir o rumor que vinha de debaixo da terra, as presas empurravam móveis, faziam ruído com os utensílios de cozinha, organizavam campeonatos de vôlei, montavam peças de teatro, falavam alto, aumentavam o volume do rádio e tocavam violão ao longo da tarde. Quando anoitecia, ficavam estudando violão para fazer barulho e iam ao banheiro periodicamente para dar a descarga e, dessa maneira, contribuir para afastar a terra acumulada no túnel durante a escavação.

“Precisávamos ser discretas não só por causa das ‘milicas’, mas também por causa de nossas companheiras, já que pouquíssimas ali sabiam que havia uma fuga planejada”, conta Sonia Mosquera, que foi, de acordo com o testemunho de seus companheiros, uma das militantes de base mais aguerridas da organização. Mosquera, que tem os cabelos compridos até os ombros, a voz áspera e fala num tom didático, relembra os fatos com parcimônia.

A ex-militante mora num apartamento de Montevidéu próximo à Faculdade de Psicologia, onde é professora. É especialista em analisar como se construiu a subjetividade depois das ditaduras do Cone Sul, um tema quente no Uruguai: o atual ministro da Defesa – o tupamaro Eleuterio Fernández Huidobro, ex-marido de Graciela Jorge – confrontou alguns organismos de direitos humanos argumentando que não podemos estigmatizar as Forças Armadas com base em seu passado. Mesmo considerando que esse passado, como se sabe, é difícil de engolir. Embora a ditadura uruguaia tenha tido poucos desaparecidos – acredita-se que não mais de 200, sendo que boa parte deles sumiu na Argentina –, os anos mais duros, e também os anteriores, se caracterizaram pelo encarceramento, sem julgamento prévio, de milhares de militantes políticos.

 

Sonia Mosquera chegou à prisão de Cabildo um mês depois da Operação Paloma. Caíra sob a acusação de roubo à mão armada por participar de uma ação de invasão de domicílio e roubo de armas na casa de um militar que as colecionava. Nos primeiros tempos de detenção permaneceu na chefatura de polícia, já que a prisão, depois das ocorrências de La Paloma, estava em reforma – procuravam implantar um sistema de segurança mais efetivo para receber presas. Em junho de 1970, Mosquera chegou a Cabildo. Cerca de seis meses depois, ficou sabendo que a Operação Estrela estava sendo planejada para ocorrer à meia-noite entre 30 e 31 de julho de 1971.

“Ninguém sabe muito bem a razão desse nome, estrella. Suponho que seja porque o símbolo do MLN é uma estrela de cinco pontas. E também porque éramos todas mulheres, então a estrela também tem essa conotação feminina. E tem um brilho. É associada a coisas muito bonitas”, diz a ex-militante.

Naquele momento, a informação de que se planejava uma fuga era confidencial: no interior da prisão, menos de dez pessoas tinham conhecimento do assunto. As demais só ficariam sabendo na tarde do dia combinado, depois do horário de visita – para evitar que alguma observação escapasse durante as conversas –, sempre por meio de comunicações individuais. Uma a uma, seriam convidadas a partir ou ficar. Mas faltava muito para que chegasse aquele dia, e até lá toda cautela era pouca.

E Sonia Mosquera foi cautelosa. Meses a fio, cumpriu a rotina de todas as prisioneiras do pavilhão de presas políticas. De acordo com a atitude metódica do universo militante – divergente dos hábitos carcerários convencionais –, as mulheres se organizavam em grupos de cozinha, limpeza, estudo, vôlei, ginástica e debate político alimentado não só pelas leituras – Marx, Engels, Lenin, Mao –, mas também pelas notícias que chegavam pelo rádio e pelo televisor existente no pavilhão. Enquanto isso, também desempenhavam as tarefas previstas para mulheres em cativeiro: costuravam e tricotavam para fora, e no desempenho dessas atividades aproveitavam não só para tomar as medidas do espaço como para costurar as saias que pretendiam usar no dia da fuga.

No dia 30 de julho, as presas teriam de usar um uniforme rigorosamente estipulado: sapatilhas, calça, uma camisa, um lenço na cabeça para proteger o cabelo da sujeira e uma saia enrolada na cintura. Uma vez alcançado seu destino, descartariam o calçado e a calça, trocando-os pela saia e pelos sapatos limpos, e sairiam para a rua. Que era, a rigor, outro tipo de cela, pois passariam no ato à clandestinidade. No caso de Sonia Mosquera, a decisão implicava – uma vez fora – ter pouco contato com o filho e o companheiro, Adolfo Wassen, alto quadro do MLN-T que acabaria morrendo de câncer numa cela durante a ditadura militar.

Mas isso seria depois. Nos primeiros meses de 1971 a vida de Mosquera, assim como a de algumas outras, consistia unicamente em conspirar, costurar e silenciar.

“Acho que elas davam uma avaliada no seu jeito, depois resolviam se era o caso de contar ou não”, relembra Alba Antúnez, a presa mais jovem da penitenciária. Mesmo hoje Antúnez conserva uma fisionomia inocente, com um toque infantil. É diretora do Programa Esquinas de la Cultura, da Prefeitura de Montevidéu, e tal como Graciela Jorge e Sonia Mosquera não traz no corpo a topografia da dor por que passou.

Tempos depois da fuga, Alba Antúnez foi novamente presa e passou a viver – a partir do início da ditadura militar, em 1973 – como uma espécie de refém, permanecendo isolada em quartéis, sujeita a tortura e fuzilamentos simulados durante mais de dez anos, até o advento da democracia, em 1985. Não foi a única a experimentar esse circuito: eram onze tupamaras presas dentro do mesmo sistema, sem contar que em seguida houve nove reféns homens – entre eles Mujica –, detidos em 1973 e mantidos presos em porões de 1 metro quadrado, sem possibilidade de comunicação, luz ou assistência médica, e sujeitos a uma moeda de troca: se o MLN-T matasse alguém, o Estado matava um refém.

 

Em março de 1985, quando uma lei de anistia libertou os presos políticos, foram só os homens que ocuparam o espaço público e deram a primeira conferência de imprensa em liberdade. As mulheres – entre elas Antúnez – mais uma vez foram mantidas à parte, em obediência às normas de um procedimento social e simbólico que também explicaria o silêncio sobre a Operação Estrela.

É disso – da hipótese de haver machismo no interior dos grupos guerrilheiros, mais exatamente no interior do MLN-T – que fala o livro Las Rehenas (As Reféns), publicado em 2012 pela historiadora feminista Marisa Ruiz e pelo pesquisador Rafael Sanseviero, que, na qualidade de militante do Partido Comunista durante a ditadura, dividiu a prisão com os tupamaros na penitenciária de Libertad.

“As mulheres foram eliminadas do relato público. Interessava-nos refletir por que algumas memórias são mais significativas que outras, e como esse predomínio se relaciona a outros tipos de submissão”, diz Sanseviero.

“Em 1985, algumas mulheres destacadas do MLN não se sentiram representadas nessa conferência de imprensa protagonizada por um grupo de iluminados recém-saídos da prisão. Obviamente, no amplo espectro da esquerda uruguaia não havia feminismo, mas essa organização especificamente calou a voz das mulheres. Não era do interesse do movimento que falassem: se tivessem a possibilidade de se afastar do discurso monolítico da organização, poderiam questioná-lo. Nesse contexto, a fuga da Estrela não foi percebida como uma demonstração do poderio militar do MLN, mas como uma ação de propaganda armada simpática e atrevida. Era mais conveniente que fosse vista dessa forma”, diz Marisa Ruiz.

“O problema com as mulheres é que não surgiu, entre as companheiras, o equivalente a um Raúl Sendic, um Fernández Huidobro, um Pepe Mujica”, diz Marcelo Estefanell, que foi militante do MLN-T e integrou o setor logístico da Operação Estrela. “Há companheiras de primeiríssimo nível, mas não temos grandes líderes porque se trata de uma sociedade machista e porque, para arrematar, a companheira mais famosa acabou sendo traidora.”

Estefanell se refere a Alicia Rey Morales, companheira de Amodio Pérez, um dos fundadores do MLN-T e cabeça da Operação Paloma, a fuga anterior à da prisão de Cabildo. Ambos delataram companheiros e em 1973 partiram para a Espanha – onde vivem até hoje –, e com seu gesto atingiram a organização com um dos golpes morais mais significativos. Antes que isso acontecesse, porém, eram verdadeiros líderes no interior do movimento. Tanto é assim que em 1971, logo antes da fuga da Estrela, quando se definiu a ordem de saída das presas, a Negra Alicia encabeçou a fila.

“Ninguém imaginava que ela fosse delatar. Foi um desfalque tremendo. Contudo, quando cheguei à prisão, vi uma coisa muito escura no rosto dela”, relembra Alba Antúnez.

 

Filha de uma modista e de um trabalhador que fazia um pouco de tudo, Alba Antúnez chegara à prisão de Cabildo aos 18 anos, vestida como uma adolescente. Fora presa na rua com o marido – os dois haviam se casado para poder viver juntos sem despertar suspeitas – e acabara na chefatura de polícia de minikilt, casaco azul-claro e meias três-quartos que lhe cobriam as canelas. Pelo que se vê na única foto que circula na internet, ela era uma menina bonita, de cabelo comprido e escuro, o rosto meigo. Com esse semblante aportou, depois de quinze dias de interrogatório, à prisão de Cabildo.

Era no início de julho e faltava menos de um mês para a fuga. Quando abriram as portas e a puseram para dentro, viu-se sozinha num salão onde havia uma escrivaninha e algumas imagens de santos, já que aquela penitenciária, convém lembrar, era administrada por uma ordem religiosa. A detenta permaneceu em pé, olhando as imagens.

“Mas quantos anos a senhorita tem?”, disse uma voz ríspida atrás dela. A garota se virou e viu uma freira.

“Dezoito.”

A freira bufou.

“Tão jovem e já envolvida nessa merda… Entre.”

A freira fez um gesto com a cabeça para que a detenta a seguisse, e entrou no recinto da penitenciária. À medida que avançava pelo pátio, Antúnez começou a ouvir o canto das companheiras: quando sabiam que uma nova presa estava adentrando, as outras a recebiam cantando o Cielito de los Tupamaros, uma espécie de hino militante que conferia à chegada uma aura heroica e ao mesmo tempo amistosa.

Nas casas de detenção masculinas, em compensação, o espírito costumava ser mais rude. Marcelo Estefanell relembra um episódio que viveu na penitenciária de Libertad, que era onde iam parar os militantes durante a ditadura. Quando se entrava – porque alguma ação tinha dado errado –, a primeira coisa que se fazia era uma autocrítica. Foi por isso que, no dia em que Raúl Bebe Sendic chegou a Libertad, foi diretamente para a cela onde estava Estefanell – o único que possuía uma tomada, razão pela qual sua cela era especialmente concorrida – e deu início ao seguinte diálogo:

“O Conejo Picardo está por aqui?”, quis saber Sendic.

“Está. Na cela 23”, respondeu Estefanell.

“Vá dizer a ele que comece a autocrítica do Plano Tatu.”

O Plano Tatu fora um plano de guerrilha no interior do país. O nome aludia aos buracos que deveriam ser feitos para esconder as pessoas e o material bélico. O plano fracassara. De modo que Estefanell se dirigiu à cela onde estava Picardo.

“Che, Conejo, o Bebe mandou dizer que é para você começar a fazer a autocrítica do Plano Tatu.”

Picardo olhou para ele.

“Pois diga ao Bebe que vá para a grandíssima puta que o pariu.”

 

Assim se passavam as coisas no universo masculino. No mundo das mulheres, porém, a cabeça era outra. Depois do Cielito, Alba Antúnez foi deixada no pátio, cercada por dezenas de rostos desconhecidos que pediam notícias “de fora”. A recém-ingressa precisava ser prudente e só falar o indispensável. A estrutura do MLN era compartimentada e, por se tratar de uma organização clandestina, poucos militantes se conheciam e ninguém nunca sabia com quem estava falando. Enquanto contava as novidades, observava aqueles rostos: uns lhe pareciam familiares devido a alguma foto vista nos jornais. E um, entre todos, era inqualificável, estranho, inquietante.

Pouco depois, uma companheira chamada Stella Sánchez foi lhe mostrar as instalações – dois dormitórios, dois pátios e vários espaços comuns – e a conduziu até sua cama. A novata se encontrou num espaço com bordados, artesanatos, trabalhos manuais alegres. Viu um lugar com circulação interna livre e aposentos sem chave, já que apenas o portão geral fechava a área. E viu, em resumo – como haveria de confirmar ao longo daqueles dias –, um universo bastante semelhante à sociedade pela qual lutava; um ecossistema tão perfeito que até as carcereiras andavam em dupla porque havia o temor de que, se andassem desacompanhadas, as presas poderiam convencê-las a entrar na luta. Mesmo assim, naquele reduzido mundo feliz, Antúnez não conseguia se desvencilhar do rosto perturbador que vira ao chegar.

“Quem é aquela?”, perguntou a Stella Sánchez, enquanto as duas percorriam os banheiros e olhavam os objetos artesanais feitos com estopa nos quais guardavam as escovas de dentes e os sabonetes.

“Alicia Rey, por quê?”, foi a resposta.

No ato, Alba relaxou e esqueceu sua desconfiança. Alicia Rey era o maior quadro feminino dentro do MLN-T e não havia razão para imaginar nada de ruim.

“Anos depois, quando eu soube que Alicia traíra, lembrei-me daquela cena como se tivesse sido uma espécie de premonição”, diz Antúnez.

Poucos dias depois, e ainda quando era quase uma menina e uma recém-chegada, Antúnez estava entre as poucas que sabiam que uma fuga se aproximava. A informação só foi divulgada a todas no dia 29 de julho, e poucas preferiram permanecer na penitenciária – só quatro ou cinco, o número exato não é claro.

Uma estava em estágio avançado de gravidez, duas tinham ordem de soltura assinada – e não se justificava entrar na clandestinidade no momento em que estavam para ganhar a liberdade de maneira legal –, outra tivera um filho pouco tempo antes, e aparentemente havia uma última que não se sentia em condições de retomar a luta clandestina. Sem essas detentas, o número de fugitivas chegava a 38. Para elas, o plano consistia em aguardar as dez da noite, que era quando passava a última guarda, esperar pela abertura completa da boca do túnel e começar a descer.

 

O último jantar antes da fuga foi um festim. Sabendo que não poderiam levar nada consigo, as detentas consumiram todos os víveres que normalmente eram racionados e fizeram um silencioso banquete. Assim que a última guarda se afastou, Sonia Mosquera assumiu a tarefa de rechear todos os pijamas com roupas para simular corpos debaixo das cobertas.

Às dez e meia todas se sentaram no dormitório menor – onde dormiam as grávidas, as mães com bebês e as mulheres com problemas de saúde – para assistir televisão. Foi então que escutaram o aviso combinado: debaixo de seus pés soaram três pancadas, às quais responderam com outras três, produzidas por um escovão.

Estava na hora de abrir a entrada do túnel. Debaixo da terra, alguém fez pressão com um macaco hidráulico e o cimento rachou. Graciela Jorge recorda até hoje as pequenas fendas, aquela espécie de teia de aranha que rebentou para dar lugar a um buraco do qual surgiu uma cabeça. Em silêncio, as presas afastaram os escombros, expondo o poço, e apertaram a mão do companheiro. Chegara a hora de descer.

A primeira foi Alicia Rey Morales. Depois foi a vez de Graciela Jorge, Yessie Macchi, Sonia Mosquera, Chela Fontoura e uma longa lista determinada por dois critérios: o peso político e o tempo de pena de cada detenta. A fila se encerrava com as companheiras mais combativas, capazes de se defender a tiros se a fuga fracassasse e fossem perseguidas pela rede de esgoto.

Mas não haveria problemas. Era tudo questão de rapidez e silêncio. O primeiro trecho consistia em rastejar ao longo de 14 metros até chegar a uma abertura em ângulo e com uma peça corrediça por onde só se conseguia passar ajeitando o traseiro de determinada maneira e com a ajuda de outro militante.

“Vamos, ande, ande!”, do outro lado, Esteban Schroeder, um estudante de medicina, oferecia-lhes uma lanterna e as ajudava a ficar na posição correta para conseguir descer até a tubulação, que era mais espaçosa. Algumas companheiras tinham quadris incompatíveis com as medidas do túnel.

“Ai, olhe essa bunda!”, impacientou-se Schroeder em certo momento, puxando com as mãos como se estivesse retirando um corpo do canal de parto.

Uma vez embaixo, na tubulação, era preciso andar depressa, desconsiderando os bichos e se esquivando das descargas que chegavam aleatoriamente das casas.

Passaram vinte minutos assim, avançando com água nunca acima dos joelhos; esforçando-se para que os fachos de luz da lanterna não focalizassem os bueiros que se abriam para a rua; escutando as pancadas das botinas militares perto das bocas de lobo; e pensando na maravilha de estarem se afastando por debaixo daqueles passos. Na casa da rua Constitución eram esperadas por Rosencof e Henry Engler. Os dois ficaram vigiando o cubículo aberto até verem surgir o cabelo enrolado de Schroeder.

“Aí vêm elas”, disse Schroeder, que sorria.

Alguns minutos depois, todas começaram a chegar. As mulheres trocaram abraços rápidos com os companheiros e puseram-se a realizar velozmente todas as fases da operação: descalçaram as sapatilhas, despiram as calças, lavaram pés e mãos, baixaram as saias, calçaram sapatos novos – havia pilhas de sapatos agrupados por tamanho –, pegaram uma arma e um punhado de balas, receberam um documento falso e, na noite fechada, se dirigiram aos veículos que as levariam rumo a casas com “coberturas” em diferentes pontos da cidade.

 

Na prisão, a fuga só foi descoberta na manhã seguinte – as detentas que ficaram não sofreram represálias, embora tenham sido interrogadas –, e desse modo foi impossível localizar imediatamente a casa da rua Constitución. E isso graças às pistas falsas que Schroeder espalhara à medida que o grupo avançava pelo esgoto – pedaços de roupa, sapatos –, em canos que se bifurcavam em direção a outros pontos de Montevidéu. Só alguns meses depois o cubículo embaixo do assoalho seria localizado e destruído pela polícia.

A essa altura, boa parte das fugitivas já estava encarcerada de novo. Entrar e sair da prisão fazia parte de uma ideia de existência.

“Mocinha, vou facilitar as coisas para você”, me diz Mauricio Rosencof. “Para nós existe um caminho que você percorre a vida inteira, que é o da militância, o do amor ao próximo. Nesse caminho você dispõe de todos os instrumentos que deseja: num dia participa de uma manifestação, no outro apanha, no outro matam alguém ao seu lado, no outro você é presidente. E no outro, talvez, você estará novamente distribuindo panfletos no ônibus. Ao longo desse trajeto acontece absolutamente tudo: você se apaixona, vai para a prisão, matam um companheiro seu, você mesmo morre, leva um pau… Mas tudo isso tem um único horizonte como perspectiva. Um horizonte esquivo, porque basta você se aproximar dois passos dele para que no mesmo instante ele se afaste dois passos de você.”

“E que perspectiva é essa?”

“A de que não haja explorados nem exploradores”, responde Rosencof, e em seguida toma um mate e come um pedacinho de coco. É uma manhã límpida de abril e agora só falta visitar a casa da Constitución e a prisão de Cabildo.

A casa é um chalé singelo com uma entrada de garagem e ao fundo, pendurado, um cartaz de Pepe Mujica. Ali vive uma senhora desconfiada. “Uma fuga? Não sei do que a senhora está falando, sou inquilina”, diz. Depois fecha a porta.

A distância entre a casa e a prisão é, eu sabia, de doze quadras. Visto da superfície, o trajeto coberto pelas detentas é um caminho normal, cheio de árvores, carros que se arrastam e, a cada tanto, tampas de bueiros que dão acesso à rede de esgotos. Dessa maneira entorpecida, invariável, chega-se à prisão de Cabildo: um prédio de dimensão mais reduzida – se comparado a qualquer outra penitenciária – e cercado por bancas de ambulantes que vendem comida, roupa íntima e quinquilharias importadas da China. Num dos muros, encimados por rolos de arame, vê-se a entrada de uma igreja – foi por ali que ocorreu a fuga na Operação Paloma – e se avista uma pequena porta aberta.

Do outro lado há um balcão vazio, um televisor ligado e uma vidraça que dá para um pátio com paredes parcialmente desmoronadas: a prisão está sendo reformada – por presos que têm habilidade para tanto – e tudo está envolvido por essa estranha solidão povoada das obras em construção. Depois de vários minutos aparece a policial que está de guarda.

“Precisa de alguma coisa?”

É uma mulher sorridente, com várias argolas nas orelhas e os dentes escurecidos de nicotina.

“Eu queria saber se foi aqui que aconteceu a fuga da Operação Estrela”, esclareço.

A mulher me olha desconcertada. Seus olhos são de um azul-claro desmaiado, infinito. Entra, então, um guarda parrudo que parece ter saído de uma sesta.

“Che, você está sabendo de alguma fuga por aqui?”, pergunta ela.

“Uma fuga que aconteceu em 1971”, explico.

O homem dá de ombros.

“Eu nasci em 1976”, desculpa-se. E suga um mate.

 

Depois da fuga, os destinos foram variados e, de certa maneira, comuns. As mulheres tinham a opção de sair do país ou de ficar e passar para a clandestinidade. Todas preferiram a segunda alternativa, e isso trouxe consequências. Boa parte das fugitivas tornou a cair e foi para Punta de Rieles, uma penitenciária com medidas mais estritas de segurança. Mas Graciela Jorge, Alba Antúnez e Sonia Mosquera conseguiram resistir por mais tempo. A primeira foi se reunir a seu companheiro da época, Eleuterio Fernández Huidobro – recém-chegado de Punta Carretas –, e os dois decidiram ter um filho: se um dos dois morresse, o outro teria a companhia da criança. A filha hoje se chama Gabriela.

Alba Antúnez caiu pela segunda vez em 1973, e com apenas 20 anos passou a fazer parte do grupo de reféns do qual só seria libertada em 1985. E Sonia Mosquera teve um destino semelhante: viveu um ano na clandestinidade – período em que mal viu o filho, e teve de passar quase um mês escondida na rede de esgotos, em decorrência do que se acredita ter sido uma delação de Amodio Pérez – até cair definitivamente em 1972, para ser solta somente em março de 1985 e encontrar o filho crescido: o bebê de quem se afastara já era um adolescente.

Foram acontecimentos duros e curiosamente silenciados. Nem a história de Sonia Mosquera, nem a de Alba Antúnez, nem a das outras nove companheiras detidas durante mais de uma década, nem das 38 mulheres que escaparam no dia 30 de julho de 1971 mereceram maior destaque na mídia.

“A mulher, embora às vezes tenha desempenhado papéis deslumbrantes e terríveis, sempre ficou na sombra”, diz Domingo Trujillo.

“Éramos totalmente invisíveis. Poucas de nós chegaram a cargos de direção. Havia uma diminuição, uma desvalorização da mulher. Mas vai ver que estamos pensando muito com a cabeça de agora e naquele momento a cultura, que era muito mais machista, impregnava-nos a todos. O fato de ser uma organização revolucionária não significa que você está imune a ser atingido pelos valores dominantes da sociedade”, diz Sonia Mosquera.

“Ah, você quer falar com as mulheres… O problema é que elas falam pouco. Não se entregam. Não se abrem. São paredes que você precisa ficar raspando, apenas para encontrar uma camada mais antiga de pintura. Se fosse um companheiro, você ia lá, tomava uma grapa com ele e ele lhe contava tudo. Mas as mulheres são fechadas, nesse sentido”, disse, sorrindo, Marcelo Estefanell, quando, meses atrás, pedi sua ajuda para começar a contactar fugitivas da Operação Estrela.

“Como assim, não falamos? Eu preferiria dizer que ninguém nos perguntou. Não sei se temos muito público…”, diz Graciela Jorge, com um sorriso paciente.

“Há espaço para muita opinião, todas muito respeitáveis, mas prefiro não entrar nesse terreno”, avisa finalmente Rosencof, um pouco incomodado. Em seguida lança uma frase pronunciada décadas antes, e que fez história no interior do movimento: “Um homem nunca é tão igual a uma mulher quanto atrás de uma pistola 45”, diz.

Embora, quanto a isso, como em tudo, seja possível haver mais de um ponto de vista.

Josefina Licitra
Josefina Licitra

Josefina Licitra, jornalista argentina, é autora de El Agua Mala: Crónica de Epecuén y las Casas Hundidas, da editora Aguilar

Leia Mais

anais da luta armada

Depois da guerrilha, o quê?

Aluízio Palmar, um dos fundadores do MR8, foi preso, torturado e por pouco escapou da morte. Até hoje, continua vasculhando arquivos da ditadura

24 maio 2024_08h54
anais da luta armada

Por Marighella e seu bando, 5 mil dólares

Estados Unidos queriam pagar recompensa pelo líder guerrilheiro e planejavam disfarçar a origem do dinheiro, mostram telegramas secretos

19 dez 2018_15h50
anais da luta armada

Estados Unidos treinaram ditadura para combater guerrilha na selva

Cursos de contrainsurgência começaram em 1967, cinco anos antes das operações no Araguaia

23 jul 2018_22h53
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30