As reações sobre a inadmissível chacina do Complexo do Alemão
| Edição 233, Fevereiro 2026
ANAIS DA CORRUPÇÃO
Parabéns a Allan de Abreu, que trouxe uma matéria exemplar na piauí_232, janeiro (“Duvido não aceitar”). Lamentável é a omissão dolosa de órgãos de fiscalização e corregedorias da Justiça, pois sou advogado inscrito na OAB/DF há 37 anos e fico triste de ver criminosos impunes no Judiciário, na OAB e no tráfico internacional de drogas. Uma jovem advogada trabalhista consegue uma liminar e André do Rap está livre. E, conforme a reportagem, foram pagos 5 milhões de dólares, e não acontece nada. As partes envolvidas são exemplos de homens honrados e pregam, em podcasts variados, com voz de locutor de rodeio, conduta moral que não têm, e os advogados honestos não soltam um trabalhador de crime famélico. Allan, da próxima vez, procure a OAB/DF, porque mulher e filhos de ministros, desembargadores e juízes fazem o que fazem e continuam advogando nos moldes descritos.
UIRAN SILVA FREITAS_BRASÍLIA/DF
VULTOSAS
Eu só queria registrar meu agradecimento pelo texto do Fernando de Barros e Silva na piauí_232, janeiro (A erosão da República). É de uma precisão no diagnóstico de parte do país que chega a assustar.
Tenho a certeza de que usarei esse material nas aulas do primeiro período de direito, em que leciono pensamento jurídico. Temas como República, cidadania e democracia são parte obrigatória do curso, e esse texto será muito útil para a visualização do passado e a exploração do presente.
ELISA CRUZ_RIO DE JANEIRO/RJ
PRÓS & CONTRAS
A piauí_231, dezembro de 2025, surpreende novamente seus leitores com o generoso número de páginas (102) e o alto nível das reportagens. Apontar algumas delas seria injusto com as demais, porém o espaço é restrito, o que me obriga a fazer uma espécie de escolha de Sofia. Assim sendo, optei pelo relato de Angélica Santa Cruz (O inconformado). É um texto que emociona, pois nos transporta para uma época terrível de nossa história. Como num filme de suspense, a autora traça, passo a passo, a luta do engenheiro aposentado Gilberto Carvalho Molina em resgatar os restos mortais do seu irmão Flávio, preso, torturado e morto pelas forças de repressão. Ele foi um militante da ALN e, por fim, do Molipo, organização totalmente esmagada pela luta desigual com o sistema vigente.
Finalmente ele pôde recuperar os despojos mortais do irmão para enterrá-lo dignamente no Cemitério São João Batista, assim como conseguiu um atestado de óbito relatando o ocorrido. Angélica praticamente deixou o esboço de um roteiro pronto para um eventual cineasta aproveitar e tentar repetir o sucesso do Walter Salles em Ainda estou aqui.
Porém… Já na edição de janeiro (piauí_232), devo ressaltar que o editor de cartas realmente se excedeu, desrespeitando os missivistas, pois se apropriou indevidamente do nosso precioso espaço, preenchendo-o com baboseiras que não interessam a ninguém e sem a mínima graça. Teve o desplante de justificar o uso indevido com o argumento de que faltaram cartas, o que é um absurdo, pois o número de dezembro premiou os leitores com matérias excepcionais, o que deve ter motivado inúmeras correspondências para a Redação. Só nos resta lamentar tal fato, e que entregue o cargo, diante de tanta incompetência.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA TEMERISTA DA REDAÇÃO: Não renunciarei! Repito: não renunciarei! E não esqueça: Verba volant, scripta manent.
DEZEMBRO
Fim de ano é tempo de renovar a vida, mas a piauí_231, dezembro de 2025, estava repleta de morte. Não, não reclamo, apenas constato. Também não quero revelar as angústias havidas com a leitura. Apenas como exemplo, deve-se elogiar o artigo de Fernando de Barros e Silva (Os vivos e os mortos) em que ele fez um profundo levantamento das escolhas de manchetes da grande imprensa em relação ao massacre no Complexo do Alemão, comparando a forma como a ação no presídio do Carandiru foi noticiada. Sangue é líquido que escorre gratuitamente na periferia.
Por outro lado, quebrando a dureza da edição, pudemos ler a doce relação entre as irmãs Rilda Machado Lorch e Ruth Rocha por meio das revelações de Armando Antenore (Olhos emprestados). Lágrimas de emoção e não de tristeza embaçaram a leitura. Também é significativo o fato de a escritora Ruth Rocha resgatar a importância do imaginário na formação de leitores, representado por Monteiro Lobato, dentre outros, mostrando que passados nefastos devem ser explicados, e não cancelados.
Por fim, fica o protesto pela diminuição do espaço das cartas de leitores.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA TOFFOLISTA DA REDAÇÃO: O respondedor de cartas faz saber que todos os ataques ao respondedor de cartas ficarão acautelados sob a guarda do respondedor de cartas.
O artigo (Os vivos e os mortos, piauí_231, dezembro de 2025) expõe a prática adotada e exacerbada pela direita de insultar nossa inteligência, e faz isso sem nenhum receio.
O jorro de mentiras e ódio absorvido pela população embotou o poder de reflexão, pois não se consegue ver que é ela mesma a maior vítima da violência vinda de todos os lados.
A função da polícia é evitar que as pessoas se matem; a solução do problema viria de outros órgãos do Estado, o que não acontece. Então, tome mais e mais violência.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
O texto de Fernando de Barros e Silva, Os vivos e os mortos, demonstra bem o quão pusilânime foi a cobertura feita pelo Grupo Globo da chacina do Complexo do Alemão, no Rio, ocorrida em outubro de 2025. O grau oficialesco do tratamento global ao massacre fez com que lembrássemos de como eram tratadas quaisquer manifestações da famigerada força-tarefa da Operação Lava Jato. Tristes tempos para o jornalismo.
Fato é que os horrores bolsonaristas, somados a uma anódina e até mesmo folclórica adesão a uma pauta inclusiva nos costumes, incutiram no imaginário coletivo sobre a Globo uma vaga visão de progressismo, que nunca foi real. Não há dúvida de que lado estarão nos embates econômicos que contrariem seus interesses empresariais ou quando tiverem que defender direitos humanos de pretos e pobres, alguns deles eventualmente faccionados.
Até mesmo a relativa boa vontade demonstrada com o governo Lula, creio eu, não sobreviverá à eleição deste ano, caso surja algum candidato palatável à sua linha editorial. Não são tontos, sabem que um sobrenome Bolsonaro tende a ser pior para os seus negócios, mas abraçarão sem medo um projeto de bolsonarismo sem Bolsonaro.
No mais, o texto de Fernando de Barros e Silva é um exemplo de revisão crítica da cobertura midiática e deveria ser leitura indicada nas faculdades de jornalismo do país.
UMBERTO ABREU NOCE_BELO HORIZONTE/MG
É lamentável que grande parte de nossa imprensa se utilize da linguagem esópica para normalizar o absurdo.
Assim, os termos “chacina” e “massacre” foram eliminados pelo noticiário da operação policial que resultou em mais de cem mortes no Rio de Janeiro. O inefável governador Cláudio Castro a princípio tentou partilhar tal infâmia com o governo federal. Desmentido, partiu para a comemoração da grande vitória contra o crime organizado. A sua eficiente polícia cuidou de contaminar a cena do crime, precavendo-se contra uma perícia imparcial.
Nessa toada, uma jornalista sabedora de encontros entre o ministro Alexandre de Moraes e o dirigente do Banco Central, Gabriel Galípolo, deduziu que se tratava de possíveis alternativas para o Banco Master. Desconsiderou a aplicação da Lei Magnitsky que deixou o ministro e familiares sem cartão de crédito e acesso a contas bancárias, graças à campanha patriótica de Eduardo Bolsonaro visando anistia ao ex-presidente, seu genitor.
Outrora a sutileza era mais presente na imprensa ao tentar suavizar ou mesmo fazer desaparecer situações esquisitas e propósitos políticos dúbios. Hoje em dia, com as tolices das sandálias e outras mais, é desnecessário o refinamento.
Felizmente uma voz quase solitária de Fernando de Barros e Silva (Os vivos e os mortos, piauí_231, dezembro) nos auxilia a enxergar a realidade. Sem dúvida, temos com ele uma dívida, por ora impagável.
SEBASTIÃO MAURÍCIO DUARTE PESSOA_RIO DE JANEIRO/RJ
FICÇÃO
Gostei muito do texto Cheiro de moleque (piauí_231, dezembro de 2025), pela forma como a história é contada. A escrita é envolvente, cheia de imagens e faz a gente entrar na cena com facilidade. A lembrança da infância, narrada de maneira tão direta, é forte e ao mesmo tempo delicada. É aquele tipo de texto que prende o leitor sem esforço e continua mesmo depois da leitura. Parabéns ao autor, Renê Bionor, e à revista pela escolha.
ELENIZE ALMEIDA_BELO HORIZONTE/MG
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Sou leitor da piauí há mais de uma década e a considero um dos últimos bastiões do jornalismo investigativo e literário. Em tempo de inteligência artificial, que inevitavelmente será usada para revisão de texto e síntese de informação, faço meu apelo para que a piauí também seja uma trincheira contra o uso de LLM (Large Language Models, ou Grandes Modelos de Linguagem) para a escrita. Treinadas para aproximar palavras com base em probabilidades encontradas nos textos de treinamento, majoritariamente em inglês, elas promovem uma pasteurização da linguagem, que era justamente o diferencial da piauí. Com o tempo é possível que humanos não consigam distinguir um texto escrito por inteligência artificial de um escrito por humanos, mas por ora ainda é possível. Ainda mais para quem recebe centenas de textos mensais feitos por estudantes usando ChatGPT, Claude, Gemini e similares.
Mesmo quando disfarçadas as características visuais óbvias (frases curtas em ordem direta, recorrência de pontuação, tópicos e ícones), vocabulário padronizado e fórmulas muito típicas do inglês (not only… but also), ainda há marcas sintáticas típicas da IA que dificilmente uma escrita humana replicaria com tanta frequência. Por exemplo, a constante adjetivação de substantivos como em “A ironia sutil ou a piada rasgada sempre eclode nos livros da escritora, incluindo os que abordam situações amargas”. Dificilmente um humano faria quatro adjetivações seguidas em uma frase curta de ordem direta como na matéria Olhos emprestados (piauí_231, dezembro de 2025). Tomara que eu só esteja vendo fantasmas (e não seja alvo de chacota na seção de cartas), mas ao menos enquanto a Matrix não consegue enganar todos os mortais, bem que a piauí podia ser também resistência à escrita direta na IA.
ALYSSON RAMOS ARTUSO_CURITIBA/PR
NOTA ESTUPIDAMENTE ADJETIVADA DA REDAÇÃO: Apesar de acolher a crítica cortante, feita por um leitor astuto, morador da gélida Curitiba, a piauí se dá o douto direito de dizer, por meio desse egrégio editor de cartas, que seus textos – sempre tão lapidados, inconformados, maiúsculos – não fazem uso dos assustadores recursos dessa suposta quimera que se convencionou chamar de inteligência artificial. A proibição explícita, incontornável e peremptória consta no item Em relação às redes sociais e inteligência artificial do esmerado, elegante e criativo Código de Conduta da revista, que pode ser acessado no site.
CARTA
Ao ler a carta de Daniel Recco na piauí_229, outubro de 2025, sobre o fardo de acumular e movimentar os seus 30 kg de revistas, fiquei pensando sobre a minha situação.
Detentor de TODAS as edições da piauí, desde o primeiro exemplar, e radicado na Colômbia desde 2015, meus pais são os encarregados de receber a revista todos os meses e organizar tudo em um armário que ficou para trás quando eu me mudei.
Já cansado das queixas dos velhos e da iminente falta de espaço, peço à Redação uma singela contribuição financeira para fretar um contêiner e trazer a minha coleção de piauís para a Colômbia. Aguardo o Pix!
STHEFANO VENGA PEREIRA_ZIPAQUIRÁ/COLÔMBIA
NOTA SUSTENTÁVEL DA REDAÇÃO: Scanner? Será?
COMPLEMENTO DO EDITOR
Na parte VII do dossiê Geração Democracia – A floresta e a obra (piauí_230, novembro), Erasmo Theofilo afirma que seu pai “fez o primeiro contato entre os brancos e os indígenas do povo Arara, junto com o padre Alírio Bervian”. O relato refere-se a um grupo Arara da região de Medicilândia (PA) que, segundo Theofilo, ainda não havia sido contatado por não indígenas. De acordo com o Instituto Socioambiental, os primeiros contatos com o povo Arara ocorreram no século XIX, seguidos por tentativas intermitentes ao longo do século seguinte, com destaque para as frentes de atração lideradas por sertanistas como Afonso Alves da Cruz e João Carvalho nos anos 1960.
No mesmo texto, consta a afirmação de que o “Exército invadiu a aldeia e matou muitos indígenas (do grupo Arara)”. O relato baseia-se em memórias locais, transmitidas oralmente entre indígenas araras da região. Nos registros oficiais, não há menção a uma operação militar com as características descritas.
