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<i>Das ist kaputt</i>

    O estudante: “À medida que conheço mais a língua alemã, começo a mudar de opinião. Agora, até acho bonita a escassa melodia das vogais, como nas palavras Strumpf(meia) e Schmerz (dor)” CRÉDITO: GUGLIELMO DI CHIARA_2025

diáro de berlim

Das ist kaputt

Até quando os esquilos vão caçoar da minha pronúncia em alemão?

Luís Henrique Marques Ribeiro | Edição 234, Março 2026

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DIA 8 DE OUTUBRO DE 2024, TERÇA-­FEIRA_Atrasado, com frio e com medo cheguei no nº 107 da Karl-Marx-Straße. Na entrada do prédio, que parecia uma casa-grande fortificada, havia uma pequena plaquinha onde se lia, em alemão: “Cursos de alemão para pessoas fabulosas.” Respirei fundo e repeti para mim mesmo: “Tudo bem se você não entender nada, tudo bem se você errar, você não é obrigado a aprender alemão.”

Abri a porta da sala de aula e deparei com o professor, Santiago, um chileno, e cerca de dezesseis alunos: turcos, árabes, africanos, asiáticos, europeus, latino-americanos. Seriam todos eles pessoas fabulosas?

“Por que você não faz um curso de alemão?” Guglielmo, meu namorado, havia sugerido isso em uma manhã de final de verão, em setembro, duas semanas depois de eu ter pisado em Berlim. Lembro de pesquisarmos juntos as escolas no apartamento dele, que no início do século XX havia sido uma oficina de produção de pianos.

 

Conheci Guglielmo no Brasil. Foi assim: na terça-feira de Carnaval, eu estava no bloco que tradicionalmente fechava os dias de festejo em Olinda, o Eu Acho é Pouco, quando encontrei pela segunda vez, na rua, o mesmo rapaz que havia beijado no domingo. Era ele, um italiano fazendo turismo no Brasil. Conversamos, contei que sou de João Pessoa, que vivia em Natal e iria para Lisboa em março, num intercâmbio do meu curso de doutorado em cinema e audiovisual na Universidade Federal Fluminense (UFF). Guglielmo disse que também estaria na Europa naquele período.

Fui de Lisboa até Berlim e passamos todo o mês de maio juntos. Voltei para o Brasil, e três meses depois estava vivendo na Alemanha, dividindo o quarto com Guglielmo naquele apartamento de mais de cem anos.

Tenho a sensação de que a maioria das pessoas que se mudou para Berlim teve um motivo parecido com o meu: um acaso do desejo. Eu não sabia o que procurava e acabei encontrando exatamente o que procurava, justamente por não saber.

 

Não é a minha primeira vez na Alemanha. Em 2020, quando fazia o mestrado em letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) ganhei uma bolsa como pesquisador visitante na Universidade de Coimbra. Aproveitei a estadia para visitar minha amiga Edna em Bensheim, no Sul da Alemanha. Lembro que, na época, escrevi uma nota: “Metas – estudar alemão e melhorar o meu inglês.”

Nunca cumpri nenhuma das duas promessas. Eu estava com 12 anos quando comecei a estudar inglês no ccaa. Adorava ir às aulas, apesar de ter muito medo. Acho que estudei um ano e meio. Depois tive que parar porque meus pais precisaram ajudar a pagar o tratamento de saúde do meu avô paterno. A professora de inglês me perguntou por que eu iria parar. Respondi que não queria mais estudar. Ela falou: “Luís, você vai se arrepender, inglês é muito importante.”

Para mim, falar um segundo idioma sempre foi um elefante branco na sala. Hoje tenho alguma fluência em inglês, que consegui a muito custo. Também tentei um pouco de italiano, francês e espanhol. Estudar alemão, do zero, em Berlim, é minha nova tentativa de dizer a mim mesmo: “Agora essa carroça anda!”

 

No primeiro dia na escola em Berlim, cheguei com a ideia de que podia ser herói, nem que fosse por um instante. Acho que consegui nos primeiros 38 minutos de aula. Depois, eu queria sair correndo. Eu não entendia nada do que o professor Santiago falava. N-A-D-A. Não conseguia identificar onde terminava uma palavra e começava outra. Pior ainda quando ele me fazia perguntas, de modo muito simpático. Eu tinha vontade de rir.

 

9 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Segundo dia de aula. Conversei com dois colegas, uma argentina e um chileno. Ela é supersimpática, meio nerd, está fazendo mestrado, em inglês, na Freie Universität, em Berlim. O chileno me contou que é engenheiro ambiental, com mestrado e doutorado, e quer arrumar um emprego na área. Para pagar o curso, que custa 300 euros mensais (cerca de 2 mil reais), ele trabalha num restaurante fast-food fazendo cachorro-quente.

No mesmo dia, enquanto eu voltava de um bar à noite, encontrei por acaso o chileno no metrô. Ele estava com sua bicicleta, todo empacotado na roupa de frio, e me falou que, apesar de ter trabalhado doze horas no restaurante, estava indo para uma festa. Desceu em Mehringdamm, estação que dá acesso ao bairro gentrificado de Bergmannkiez. Eu desci em Hermannplatz, uma praça onde sempre fazem manifestações pró-­Palestina e circula todo tipo de gente, com os idiomas se misturando: alemão, árabe, turco, inglês… É também pela estação Hermannplatz que se chega à Karl-Marx-Straße, a rua da escola, e à Sonnenallee.

Caminhar pela Sonnenallee (alameda do Sol, em tradução direta) foi um dos primeiros passeios que fiz em Berlim. É sempre impressionante passar por ali, porque é uma quebra de expectativa a respeito da Alemanha. Parece que você não está no país: são muitos os letreiros em árabe e sente-se o cheiro da fumaça do narguilé em toda parte. Mulheres passam com hijabs e tênis da Nike. Há também um aroma específico, que é o do xarope dos doces turcos, como a baklava (um mil-folhas recheado de pasta de pistache ou nozes) e o künefe (um bolo muito fino recheado com queijo e banhado em calda de açúcar). Todos os shisha bars (locais onde se fuma narguilé) e supermercados árabes, como o Al Madina, Baraka ou Azzam, têm iluminação branca fortíssima que destoa do resto da cidade, repleta de luzes amareladas e discretas.

 

11 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Hoje abandonei o curso de alemão. Fui apenas quatro dias à escola. Acho que não sou uma pessoa fabulosa. Não fazia o mínimo sentido permanecer ali repetindo frases que eu acabava por esquecer imediatamente depois de aprendê-las. Que sons eram aqueles? Eles me soavam caricatos. Ich – “eu”, em alemão – me fazia rir. Lembrava “Vixe!”, a interjeição nordestina e, ao mesmo tempo, parecia o assobio que a atriz Christiane Torloni fazia ao falar (há um compilado de vídeos desses momentos no TikTok). Ou então parecia um som atravessando uma dentadura frouxa, como gostava de imitar meu melhor amigo, Demi, que mora em João Pessoa.

Não é fácil se colocar em uma situação em que você, não sabendo absolutamente nada, é demandado o tempo todo a saber algo, mesmo que esse algo lhe tenha sido apresentado pela primeira vez cinco minutos atrás. Falar e errar na frente de todo mundo é a regra nas escolas de idioma. É preciso esperar muito tempo até conseguir entender e poder expressar algo. Durante essa espera, temos que aceitar a ignorância e seguir em frente. Mas eu não tive paciência.

 

22 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Larguei o curso de alemão, mas não tenho como fugir do idioma.

Hoje, fui sozinho fazer o meu Anmeldung, o registro do meu endereço oficial na Alemanha, algo que toda pessoa que vive aqui precisa ter. Anotei a frase em alemão que deveria falar para o segurança, assim que chegasse, e a fui repetindo mentalmente enquanto caminhava até o Bürgeramt, onde se faz o registro dos cidadãos e moradores. Eu mal conseguia reproduzir o som das palavras Anmeldung des Wohnsitzes (registro de residência). Mas no final deu certo, porque recorri ao inglês com a atendente, que me respondeu na mesma língua, algo raro de acontecer, pois é difícil falar com funcionários públicos em outros idiomas que não o alemão. Cinco minutos depois, recebi o Meldebescheinigung, o comprovante de residência alemão, documento necessário para tudo: abrir conta bancária, fazer contrato de trabalho, de seguro, pedir mudança de visto.

É complicado conseguir um apartamento ou um quarto para alugar em Berlim. Muitos apartamentos são deixados intencionalmente vagos por especulação imobiliária. O que explica essa situação é a onda, nos últimos dez anos, de abertura na cidade de sedes e filiais de startups, fintechs e big techs. Com isso, Berlim está deixando de ser uma cidade underground de esquerda para se tornar uma espécie de sucursal do Vale do Silício, com cafés hipsters e a estetização do estilo de vida “disruptivo”.

A chegada crescente de profissionais de tecnologia da informação, com boas ofertas de salários, está pouco a pouco desmontando aquele espírito alternativo que fez a fama de Berlim – expresso, por exemplo, na cultura de brechós, na recusa do consumo de grandes marcas e no hábito de colocar roupas e objetos ainda em bom estado para doação em caixas na rua.

Gugli e eu dividimos o apartamento em Neukölln, a 5 minutos da Hermannplatz, com Pierre, que veio de Camarões, e Janús, um alemão cujos pais são os verdadeiros locatários do imóvel (que nós sublocamos). Embora os pais de Janús vivam agora em uma fazenda agroecológica no Norte da Alemanha, eles continuam registrados como moradores de Berlim.

Em alemão, nosso apartamento é chamado de WG, ou Wohngemeinschaft – em português, apartamento compartilhado ou república. O “veguê” (como se pronuncia WG) é parte da alma de Berlim. Todo mundo que conheço na cidade mora dessa forma. A origem dos WG remonta aos anos 1970, quando prédios decadentes de Berlim foram ocupados por punks, artistas e jovens estudantes (eram os famosos squats). Na época, essa ocupação expressava uma revolta contra o “sistema capitalista”. Hoje, é uma espécie de liberdade encenada, a partir do combo “crise habitacional + vida estudantil internacional + estilo de vida informal e coletivo”.

Odeio viver no meu WG. Para mim, é como estar em uma mistura de Malhação com Friends e Big Brother Brasil. De vez em quando, levo um susto ao encontrar gente desconhecida na hora que vou ao banheiro.

 

23 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Tomei o café da manhã e depois peguei o celular para checar a previsão do tempo. Iria nevar, com mínima de 1ºC e máxima de 4ºC. Fui pintar uma aquarela. Desde que cheguei tenho aproveitado os momentos de silêncio absoluto no apartamento para me concentrar em atividades que precisam de muitas horas de foco, como a pintura. Também é um ambiente ótimo para fazer os relatórios e escrever os artigos da agência de publicidade brasileira para a qual faço frilas desde 2022. O ganho com essa atividade, somadas às economias que eu trouxe, garantem a minha permanência em Berlim.

Depois fui ao Penny, mercado que fica aqui perto. Entro um pouco em pânico toda vez que vou lá, porque acho que o segurança vai me seguir ou alguém vai me tratar mal. Sou negro e bastante visível para os seguranças de supermercados, aeroportos e lojas. Ir e voltar ao supermercado é uma conquista para mim. Fico nervoso até na hora de pagar, mas o script é sempre o mesmo. A caixa fala o valor e eu digo: Mit Karte, bitte. Então, boto meu cartão de crédito na máquina, ela pergunta se quero a nota, eu respondo: Ja, gerne. E saio. Aprendi essas palavras ali mesmo no supermercado. Também já sei me comunicar em cafés, restaurantes ou Spätis (lojas de conveniência). Quando vou ao Sahara, meu restaurante sudanês favorito, sempre falo: Ich möchte gern ein Chicken Halloumi Makali, bitte (Gostaria de um frango halloumi makali, por favor). A sensação de começar a entender o que as pessoas falam na rua é completamente unglaublich (inacreditável). Apesar de não frequentar a escola, sinto que estou mais próximo da língua alemã.

Ontem defendi, online, minha tese de doutorado na UFF. Meu trabalho analisa o cinema de Kleber Mendonça Filho, o diretor de Aquarius e O agente secreto, a partir do modo como ele filma os territórios. Uso o conceito de “representações sustentadas” para descrever como o cinema pode encenar a violência racial sem repetir essa violência na encenação e sem recorrer a estereótipos ou didatismos. Para comemorar, fiz um bolo e chamei todo mundo que conheci aqui nesses poucos meses. O bolo era decorado com a frase “O segredo é viver”, em português, e com uma foto da cantora Pepita de quepe policial e sorrindo.

 

2 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Voltei ao curso de alemão, mas, desta vez, em outra escola, a Hartnackschule. Custa 322 euros cada módulo mensal do curso intensivo, e somos dezesseis na sala. Há inclusive duas brasileiras. A professora é a grega Katharina, que dá aulas ali há dez anos e costuma usar um sobretudo lilás que chama a atenção, porque em Berlim as pessoas se vestem principalmente de preto e cinza, sobretudo no inverno. Ela também usa óculos de armações grossas e coloridas.

Jamais imaginei que um dia estaria aqui, em Berlim, estudando alemão. Ainda mais às vésperas de fazer 31 anos. Em vez de dizer “trinta e um”, em alemão se fala ao contrário, “um e trinta” (einunddreißig). Essa leitura anti-horária parece ser a forma mais básica de entender como eu, que vim do Nordeste brasileiro, me sinto agora na Europa: como alguém que entrou no túnel do tempo ao contrário, indo para o passado, em vez do futuro.

O curso intensivo que estou fazendo é uma das coisas mais insanas que já experimentei. Tenho que completar um nível inteiro em apenas dois meses. Por isso, as aulas são de segunda a sexta, três horas por dia, das 9 às 12 horas. Ter aula todos os dias naturaliza a língua, mas é conteúdo demais para assimilar em pouquíssimo tempo. É muito fácil se sentir culpado e frustrado por não conseguir acompanhar o ritmo. Felizmente, a personalidade da professora me interessou, e o seu jeito enérgico, mas amoroso, de dar aula tem me convidado a permanecer na escola e insistir no aprendizado.

 

9 DE DEZEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Dessa vez, quem desistiu do curso de alemão não fui eu, mas uma colega, Bethânia, do Rio de Janeiro, que estava em Berlim para compartilhar a vida com um senhor alemão que conheceu no Brasil. Ela teve um ataque de ira, se levantou da carteira e falou em bom e alto português: “Eu não sei! Que merda, que inferno! Pra mim já deu!” E deixou a sala de aula. A professora Katharina havia insistido para que ela respondesse sobre os artigos em alemão.

Katharina ficou incrédula e olhou para mim na expectativa que eu explicasse o comportamento de Bethânia. Um colega do Irã, que adora futebol e já havia perguntado se eu conhecia o Neymar, falou, em inglês: “Luís, faça alguma coisa para ajudar sua amiga.” E eu respondi: What?, com um olhar de “não é porque ela é brasileira que é minha amiga, meu bem”.

Uma noite dessas, conversando na saída de um cinema com Lucas, um paulista que conheci em uma partida de vôlei num parque em Berlim e que já editou clipes da Pabllo Vittar e da Anitta, falamos sobre o quanto aprender alemão nos coloca em uma posição de humildade. Você não avança se não aceitar as suas limitações.

 

1º DE JANEIRO DE 2025, QUARTA-FEIRA_Sangue de Cristo, como dizem minha mãe e todas as minhas tias. Que frio é esse? Agora entendo por que Roberto e Erasmo Carlos rimaram inverno com inferno.

É o primeiro dia do ano. Ontem, eu e Gugli nos arrumamos para encontrar Marcelo, um amigo de Florianópolis, para comemorar o Réveillon. Quando colocamos o pé na rua, vimos um batalhão de policiais com escudos de acrílico e capacetes. Bem nessa hora, alguém da janela do prédio em frente atirou uma garrafa de vidro nos policiais. A confusão começou. Entramos de volta. Subimos as escadas até o último andar e escalamos até o teto para ver a cidade. Depois, voltamos para o apartamento vazio e comemoramos ali mesmo, apenas nós dois. Hoje de manhã a cidade parecia um campo de pós-guerra: restos de fogos de artifício na rua, vidros quebrados, sujeira por todo canto.

Agora em janeiro, entro no segundo mês do curso de alemão. Como é a sensação de aprender uma língua? De não saber e, depois, começar a saber? Por que o medo de aprender? Como é o sentimento de não entender? Como é o sentimento de errar? E o sentimento de acertar? Como é dizer as mesmas coisas em outra língua? O que é possível dizer apenas nessa nova língua?

São essas perguntas que costumo fazer na viagem de 35 minutos no metrô que me leva da Hermannplatz, perto de onde eu vivo, até Nollendorf­platz, onde fica a nova escola. No trajeto, gosto de escutar Ich liebe das Leben (Amo a vida), da cantora greco-­alemã Vicky Leandros, Golden slumbers (Sonhos dourados), dos Beatles, cantada por Elis Regina, e Girassol, de Toni Garrido, cantada por Elba Ramalho. Minha tríade solar para enfrentar a rua invernal e me preparar para a aula. A canção de Vicky Leandros diz:

Sua mala já tá esperando no corredor
Você me deixa sozinho
Nos olhamos e só sentimos
Tem que ser assim
Ainda parado na porta, você pergunta:
O que vai ser de você?

Eu tento cantar em alemão:

Dein Koffer wartet schon im Flur
Du läßt mich allein
Wir seh’n uns an und fühlen nur
Es muß wohl so sein
Noch stehst du zögernd in der Tür und fragst
Was wird aus dir?

 

19 DE FEVEREIRO, QUARTA-FEIRA_Por sorte, Vitória entrou na minha sala de alemão. Ela é paulista, está em Berlim para viver a sua expressão de gênero com mais segurança do que no Brasil. Ela me ajudou com algumas dicas, como a declinação dos artigos no dativo, usado para indicar o objeto indireto ou complementos, quando o der (“o”) vira dem (para formar o sentido de “ao”, “para o”, “com o” etc.), e o die (“a”) vira der. Aprendi instantaneamente quando ela me falou: “deM de macho e deR de rapariga.”

Em alemão, há três artigos definidos: o masculino (der), o feminino (die) e o neutro (das). Não há correspondência de gênero entre os substantivos em português e em alemão. “Lua” e “estrela”, por exemplo, são palavras masculinas em alemão (der Mond, der Stern). “Sol” e “deserto”, por sua vez, são femininos (die Sonne, die Wüste). Já “celular” é neutro (das Handy), assim como “mar” (das Meer).

Tenho um sonho recorrente há muitos anos: estou prestes a morrer, mas, antes que isso ocorra, o sonho acaba. Nesse terceiro mês de curso intensivo parece que alguns parafusos se soltaram da minha cabeça e meu sonho com a morte mudou: depois daquele momento em que eu estou perto de morrer, o sonho continua – e eis que reapareço bem vivo. Quase um renascimento. À medida que vou aprendendo o idioma, sinto que, embora eu ainda seja eu mesmo, vou me tornando uma pessoa totalmente diferente. Acho que estou fazendo as pazes com o idioma e deixando de viver o seu aprendizado como uma violência.

 

4 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA_É Carnaval. Pela primeira vez em nove anos (fora a pandemia) não vou à festa de Olinda e Recife. Todos os meus amigos estão lá, pulando nas ruas. Chorei muito. Quando se está em um local onde tudo causa estranheza, você é obrigado a buscar algumas referências dentro de si mesmo. O Carnaval é, para mim, uma dessas referências. Tenha fé no azul que está no frevo/Que azul é a cor da alegria, diz a música Cometa mambembe, interpretada por Alcymar Monteiro e Bell Marques.

Como é impossível ficar sem Carnaval, mesmo em Berlim, acabei indo em uma festa brasileira aqui. Gugli perguntou se eu tinha gostado. Eu disse que não e ele ficou chocado. “Mas você dançou muito e parecia estar adorando.” Eu falei que sim, mas que isso não implicava que eu tivesse gostado.

Eu e Guglielmo conversamos em geral em português e inglês. Ele tem 37 anos, nasceu em Palermo, na Sicília, e, além do italiano, fala bem o alemão, que aprendeu na escola desde criança, o inglês, o francês, o espanhol, o português e um pouco de árabe. Também estudou latim e grego. Quando o conheci no Brasil, durante o Carnaval, ele estava fantasiado com a camisa do time de Palermo, pretendendo aludir à palavra portuguesa “palerma”, que designa alguém tolo ou imbecil. Não sei se as pessoas entenderam durante o Carnaval. Gugli trabalha há cinco anos em Berlim como arquiteto paisagista, especializado em projetos ecológicos.

Outro dia passei pela entrada da Berghain, a boate mais famosa da cidade. É muito engraçado ver a fila enorme e as pessoas que não conseguem entrar. Eu e Gugli observamos um pouco e depois seguimos. Um dia, eu tento. No TikTok há milhões de dicas de como conseguir entrar: não usar roupa colorida com logomarcas aparecendo, nem ir em grandes grupos, por exemplo. Tem gente que, todo fim de semana, tenta entrar, mas ouve apenas um gentil “não” do Bouncer (o controlador da entrada): Sorry, not today.

Em Berlim, o tempo todo eu sou convidado a falar “não”, a aprender a me colocar e estar bem com isso. Porque essa é a regra aqui. Você precisa, literalmente, aprender a dizer não e a reclamar. Essa foi, aliás, uma das lições do livro do curso A2: como fazer as famosas cartas de reclamação, aquelas que os alemães colocam debaixo da porta do vizinho para falar sobre alguma regra que está sendo quebrada por ele, como não separar o lixo ou ligar o aspirador de pó no domingo.

 

15 DE MARÇO, SÁBADO_É meu aniversário de 31 anos. Fizemos uma festa no apartamento com todo mundo que eu conheci nesses meses. Gugli me deu um estojo de tintas de aquarela Schmincke e vinte folhas do excelente papel Arches. Janús me presenteou com um livro de histórias infantis: Janosch’s wahre Lügengeschichten (algo como “as verdadeiras histórias mentirosas de Janosch”). Famoso escritor e ilustrador de livros infantis, Janosch (cujo nome real é Horst Eckert) já publicou mais de cem obras.

Falando em histórias infantis, é fácil ter alucinações quando se tem aulas de alemão cinco vezes por semana, três horas por dia. Eu estava passeando por Grunewald, uma grande floresta a Oeste de Berlim, e imaginei que um esquilo caçoava de mim no momento em que o chamei pelo seu nome em alemão: Eichhörnchen. É uma das palavras mais difíceis de pronunciar para mim e, decomposta (Eich-hörnchen), quer dizer: chifrinho do carvalho.

Antes mesmo de ter começado a estudar alemão, lembro de ter pesquisado no Google quais são as palavras mais difíceis de pronunciar no idioma. Eichhörnchen estava entre elas, e também Kraftfahrzeughaftpflichtversicherung (seguro de responsabilidade civil de veículos motorizados, ou seguro obrigatório para carros). Foi a minha forma de estar preparado para o pior, dando um pulo dramático no percurso. Acho que a professora Katharina também pensa dessa forma, com sua metodologia de aviso de linha de trem: “Pare, olhe e escute.” Ela apresenta o conteúdo, pede a nossa atenção, a gente observa, escuta e depois reproduz os sons e os desenhos daquelas letras, algumas totalmente impressionantes para mim, como a letra ß (Eszett), que tem som de “ss”: Ich heiße Luís (Eu me chamo Luís).

Até quando os esquilos caçoarão de mim?

 

4 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA_Terminei o curso A2. Uau! Quatro meses indo sem falta à escola e conseguindo sobreviver. Parece que alguém está aprendendo alemão. Lá perto da escola, picharam o memorial em homenagem aos homossexuais perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial. Em vermelho, escreveram hiv dresden. A cidade de Dresden é notoriamente uma base da extrema direita da Alemanha. Mas não é só lá que atuam grupos neonazistas. Estão espalhados por todo o país. Por isso, cuidado, meu bem,/há perigo na esquina…

Em alguns dias, embarco para o Brasil. Mas voltarei.

 

7 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Cheguei ao nível pré-intermediário, o B1.2. Muita interpretação de texto, muito vocabulário novo. Katharina pede para eu falar o tempo todo. Ela tinha prometido que eu poderia pular o B1.1 porque era bom aluno. Quando apareci no dia 5 de maio, segunda-feira, ela me deu um abraço tão gostoso e apertado que eu quase chorei. Ela se tornou uma das razões para eu querer aprender alemão, até pelo menos o nível C1. Professores e suas mágicas.

Mas confesso que estou enferrujado no idioma, porque fui inventar de passar quase todo o mês de abril no Brasil, com meus amigos e minha família. Gugli foi junto. Aproveitando a viagem, eu o pedi em casamento, numa roda de samba durante uma feijoada em Olinda. Ele aceitou.

 

20 DE JUNHO, SEXTA-FEIRA_O verão começou! Que luz maravilhosa. Luan, um amigo que como eu morou em Natal, me chamou para ir ao Kaulsdorfer Baggersee. Também chamado de Habermannsee, é um lago artificial a Leste de Berlim, em uma região que fez parte da Berlim Oriental até 1989, quando caiu o Muro que dividia a cidade.

O lago fica mais ou menos a uma hora de bicicleta. Foi construído em áreas de extração de areia e cascalho usados para erguer os grandes conjuntos habitacionais da Alemanha comunista (os Plattenbau). As crateras abertas no local se encheram de água com o tempo. Lá, as pessoas conversam, nadam, jogam frescobol, comem, tomam sol. Não é permitido tirar fotos. Não há poses para selfies e stories, nem rinha de caixas de som. Não há comércio ambulante, nem bares que prometem experiências premium. E a maioria das pessoas está nua, praticando FKK ou Freikörperkultur, a “cultura do corpo livre”, mais um clássico de Berlim.

A FKK surgiu no século XIX como parte do movimento naturista alemão, inspirado por ideias de vida saudável, educação física, retorno à natureza e crítica ao industrialismo urbano. Na época da Alemanha comunista, essa prática se integrou profundamente ao cotidiano: presente em praias, lagos, rios e parques, era vista como expressão de igualdade, já que a nudez apaga diferenças sociais.

Na Alemanha, a nudez comparece até nos livros infantis, como o que comprei dia desses num Flohmarkt (mercado de pulgas). A história do livrinho se baseia na pergunta Mutter sag, wer macht die Kinder? (Mamãe, me diga: quem faz as crianças?). Acompanha uma ratinha curiosa que pergunta à mãe sobre a origem dos bebês. A mãe, em vez de dar uma explicação direta, conta uma fábula sobre dois pequenos animais, a ratinha Tütü e a toupeira Diddi (do gênero macho), que se apaixonaram, viveram juntos momentos de afeto e, desse encontro cheio de ternura, nasceu um filhote. Em determinado momento, há ilustrações de um homem nu, com o pênis ereto, uma mulher nua e, mais adiante, o bebê nascendo pela vagina da mãe. Diz o livro:

Eles fazem assim: quando a mulher sente desejo, ela diz ao marido: ‘Ah, Walter, eu te amo. Me dá um beijo! Você está com vontade?’ Então o homem beija a mulher – porque quase sempre ele está com vontade –, e eles se deitam na cama ou na grama, ou onde quiserem. Geralmente as pessoas tiram a roupa e se abraçam como as plantas trepadeiras da floresta.

 

26 DE JULHO, SÁBADO_Hoje teve a parada LGBTQIAPN+ de Berlim. Gugli não queria ir, mas eu achei que valia a pena conhecer a parada oficial, que muitos classificam de comercial, porque todos os trios são patrocinados por grandes marcas (há uma parada alternativa, mais alinhada politicamente com a luta por visibilidade e direitos). Tirando o fato de um alemão ter vindo dar um tapa na minha bunda do nada e de uma mulher falar em árabe comigo, na certeza de que eu entendia tudo, a experiência foi ótima. Festa na rua é tudo o que Berlim precisa.

À medida que conheço mais a língua alemã, começo a mudar de opinião sobre ela. Agora, até acho bonita a escassa melodia das vogais no alemão, cujas palavras são cheias de consoantes, como Strumpf (meia) e Schmerz (dor) – ambas, com uma única e solitária vogal. Também descubro a graça dos verbos onomatopaicos, que imitam o som daquilo que significam, como o sibilante pfeifen significa “assobiar”. Fico fascinado ainda com os sons fortes, como o “r” gutural, que vem das profundezas da garganta, como Regen (chuva) e rot (vermelho).

É uma experiência linguística que passou a me trazer uma calma desconhecida. Talvez sejam sons que faltaram em muitos momentos da minha vida. Nos primeiros meses de curso, eu achava os diálogos em alemão parecidos com uma disputa violenta. Depois, comecei a ver que eu estava usando aspectos da minha própria vida para explicar aquilo que eu não entendia. A violência não estava na língua, mas em mim mesmo. Sinto que vivo uma transformação. E, para eu me transformar, preciso perder algo.

 

4 DE AGOSTO, SEGUNDA-FEIRA_Embora já estivesse apto a passar para o curso B2, resolvi voltar ao A2, porque não absorvi tudo. Eu ainda não sei fazer as declinações corretas de adjetivos, nem as orações subordinadas (as Nebensatz) e tenho pouco vocabulário. Sou um caminhão carregado de coisas, mas sem gasolina.

Dessa vez, o professor é um alemão chamado Henrik, que se parece muito com o Luciano Huck, em versão calva, loira e mais magra. Felizmente, ele não me pediu para soletrar nada. Mas eu até poderia soletrar wahrscheinlich (provavelmente), palavra que escrevi de memória na aula (com um único erro: esqueci o primeiro “h”). Também gosto de eigentlich (na verdade), que o professor sempre usa, e do verbo übertreiben (exagerar), um dos meus preferidos.

Entendo praticamente tudo o que Henrik fala. Agora, também entendo os textos e exercícios do livro. A aula dele é mais tranquila que a de Katharina. Tem dias em que as três horas são apenas para falar sobre um texto ou um assunto. Mesmo assim, as coisas são corridas, porque continuo a ter que completar seis unidades do livro por mês.

Além dessa maratona com o alemão, também estou correndo para organizar minha primeira exposição individual, que abre no dia 21 de agosto no novo apartamento que aluguei com Gugli. Nem preciso dizer que achar esse espaço foi uma das maiores conquistas da minha vida. O apartamento fica no bairro Neukölln, no sexto andar de um prédio habitado majoritariamente por árabes. Tem um quarto, sala, cozinha e varanda com uma vista panorâmica muito boa.

No apartamento ainda sem móveis, vou apresentar quarenta aquarelas que pintei desde o ano passado. Escrevi assim no texto de apresentação, em inglês: “Pintei essa série para explorar formas geológicas e orgânicas, mas também para retratar meu primeiro ano em Berlim. A experiência da primeira vez. O primeiro inverno. Os primeiros passos em uma nova linguagem.”

 

21 DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA_Hoje foi a abertura da exposição no apartamento novo. Eu me surpreendi com a quantidade de pessoas, em torno de cinquenta. Vendemos comida e bebida para arrecadar fundos e financiar o piso do apartamento, que precisa ser trocado.

Gugli fez antepastos italianos, como caponata e involtini di zucchine (rolinhos de abobrinha), além de panelle (bolinhos de grão de bico, típicos da Sicília). Também teve vinho branco alemão, cerveja tipo Radler (misturada com suco de limão), Aperol, limoncello spritz e refrigerantes. Alguns dos nossos amigos nos ajudaram no bar.

Obtivemos no final uns 500 euros. Há um tipo de predisposição comunitária em Berlim que ainda permanece. Lindo dia. Eu me senti em casa nessa cidade.

 

2 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA_Einsteigen, bitte (Embarcar, por favor!). Zurückbleiben, bitte (Afastem-se, por favor!). Aussteigen, bitte (Desçam, por favor!) Agora compreendo as frases ditas pelo condutor do metrô – e sei escrevê-las. Fantástico!

Também entendi praticamente toda a explicação da gerente do Klipper, o restaurante que Gugli e eu escolhemos como local de nossa festa de casamento. É um restaurante flutuante, instalado em 2001 em um veleiro de 1890 ancorado no Spree, o rio que corta Berlim. O espaço dispõe de um bar e um salão para cerca de quarenta pessoas.

 

27 DE SETEMBRO, SÁBADO_Às 19 horas, chegamos à “festa do tempo elevado” – a tradução literal se decompusermos a palavra Hochzeitsfeier, “festa de casamento” em alemão. Aprendi a palavra em uma lição do A2. Coloquei um terno marrom-claro de lã e cashmere, com corte clássico e caimento confortável, camisa laranja quente, calça marrom-escura de veludo cotelê e um Adidas Spezial azul cerúleo com detalhe vermelho pombagira. Gugli, de terno verde-oliva de linho, que caía perfeitamente nele, camisa rosa, em tom médio, calça de veludo cotelê num verde-oliva mais escuro e sapatos italianos bem polidos de couro azul-escuro. Cada um trazia ainda uma boutonnière (flor na lapela), vistosa, em tons de rosa, coral e verde.

Oferecemos vinho branco. Cada um escolheu o seu prato no menu do restaurante, que era de cozinha alemã clássica. Havia um duo de músicos brasileiros tocando MPB. Surpresa para nós. A cerimônia foi celebrada simbolicamente por nossa amiga Gabi Furst, jornalista e primeira travesti brasileira a atuar como correspondente internacional.

Dos membros de nossas famílias, apenas os irmãos de Gugli, vindos de Roma e Palermo, conseguiram comparecer. Em compensação, tivemos o momento “arquivo confidencial” do Faustão: projetamos vídeos dos meus familiares e amigos do Brasil, assim como dos de Gugli. Foram três mesas, com oito lugares cada, dispostas em semicírculo. Na semana anterior, havíamos casado no civil em Odense, na Dinamarca, cidade onde nasceu Hans Christian Andersen, o autor de famosos contos de fada, como A pequena sereia, O patinho feio e A roupa nova do imperador. Resolvemos fazer o civil lá porque é mais barato e menos burocrático que na Alemanha.

 

1° DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Comecei o curso B1.1, a bendita parte que eu havia pulado quando fui em abril para o Brasil. Por algum motivo me realocaram em uma nova turma. Elena, a nova professora, natural da Rússia, parece estar ligada sempre em 320 volts. Ela me perguntou o que eu havia feito no dia anterior, em alemão. Respondi: Ich habe Frühstück gegessen, dann bin ich mit meinem Freund ins Restaurant gegangen, danach bin ich ins Fitness-Studio gegangen. Und in der Nacht habe ich meine Hausaufgaben gemacht (Tomei o café da manhã, depois fui a um restaurante com meu amigo e, em seguida, fui à academia. E à noite fiz minha lição de casa).

Falei errado, eu sei, com erros de declinação, mas de forma totalmente compreensível e espontânea, com fluidez, sem precisar traduzir do português para o alemão na minha cabeça. É este o meu nível atual de alemão. A principal dificuldade é lembrar das declinações, que não existem em português. Tem que ligar o botão: “O.k., agora você vai falar alemão. Então lembre-se de que a qualquer momento vem aí a declinação, co­mo um goleiro de handebol sempre à espera, pronto para defender uma bola que pode chegar de repente.”

 

4 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_“Luís, você já deve saber que o cliente vem reduzindo o escopo com a agência, né? Cortou o social e agora também o SEO.”

Em outras palavras: eu estava demitido.

Era a primeira vez em três anos de trabalho que eu falava com o diretor financeiro e de operações da agência de publicidade brasileira para a qual prestava serviços como analista e redator SEO, ou seja, de Search Engine Optimization – o encarregado de incrementar os sistemas de busca da empresa, a fim de que ela aparecesse nas primeiras posições de pesquisa do Google para as pessoas certas. Especificamente, eu escrevia textos para a internet com o objetivo de atrair visitantes para o site de uma famosa rede de escolas de idiomas. Nos textos, cheguei a colocar muito do que eu próprio estou vivendo em Berlim, em meu aprendizado do alemão.

 

7 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Está meio punk acompanhar o curso da Elena, mas vejo que meu alemão começou a andar de vez. O que mudou em minha cabeça nos últimos meses foi que aprendi a ter mais paciência com meus erros. Também aceitei o fato de que, por mais que aprenda, nunca serei realmente fluente em alemão. Ou seja, aposentei um pouco a minha arrogância.

Enviei há alguns dias um e-mail a um professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Freie Universität, propondo um projeto de pós-doutorado sobre raça, cinema e território. O e-mail foi escrito em português, pois ele é brasileiro. Até agora não chegou a resposta.

Mas chegou a resposta a outro e-mail que enviei com a seguinte linha de assunto: Bewerbung um einen Minijob in Ihrem Restaurant (Candidatura para uma vaga de meio período em seu restaurante). Eu estava em busca de emprego – e fui aceito. Eu sabia que era um restaurante de culinária brasileira no bairro Friedrichshain-Kreuzberg, mas preferi escrever em alemão.

 

14 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Primeiro dia do período de experiência no novo trabalho. No Brasil, trabalhei em agências de publicidade como redator, em assessorias de comunicação do setor cultural e como jornalista freelancer. É a primeira vez que trabalho em um restaurante.

O restaurante em Berlim é de tamanho médio, com oito mesas internas, decorado com xilogravuras do pernambucano J. Borges, carrancas de barro, muita madeira e música brasileira tocando o tempo todo. A proprietária é brasileira. Exceto duas indianas, o restante da equipe de sete pessoas também é do Brasil. Parece uma família. Meu turno é das 17 às 22 horas.

Decidi não refazer o B1.2 do curso de alemão. Estou sem dinheiro. Com a demissão da agência de publicidade, minhas fontes de renda diminuíram.

 

25 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_Contrato assinado. Estou totalmente empregado no restaurante para trabalhar como faxineiro e ajudante de cozinha – em alemão, Reinigungskraft e Küchenhilfe.

Depois da faculdade, eu via poucas alternativas de emprego, fosse como professor, fosse como jornalista, e isso me angustiava. O que eu faria, caso não conseguisse trabalhar fazendo uma das coisas que mais gosto, que é escrever? Parecia o fim do mundo para mim.

Esse novo trabalho no restaurante me colocou em outra posição subjetiva. Não importa o que eu faça lá, agora sinto mais segurança para seguir adiante. Sei que posso contar com meu esforço a qualquer momento, mesmo se o restante das coisas desabar. Também tenho menos medo: da língua alemã, do presente, do futuro. Demi, meu amigo no Brasil, me disse que o trabalho em restaurante é igual ao que a gente faz em casa, só que bem mais volumoso. Fiquei contente com suas palavras, um misto de conselho e consolo – ou Rat und Trost, na fascinante língua de Brecht e Fassbinder

Luís Henrique Marques Ribeiro

É jornalista brasileiro residente em Berlim, doutor em cinema e audiovisual pela Universidade Federal Fluminense e mestre em letras pela Universidade Federal da Paraíba.

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