A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

esquina

Baforadas nos Andes

Um fumante em Machu Picchu

Paulo Raviere | Edição 122, Novembro 2016

A+ A- A

“Não estou me sentindo muito legal”, lamentou o vendedor argentino Javier Miranda pouco antes de saltar da cama. A escuridão ainda imperava lá fora, em plena madrugada, quando o despertador de seu celular tocou. No quarto da rústica pousada, o chuveiro insistia em não funcionar direito. Sete horas depois do último banho, continuava a pingar copiosamente, mesmo com a torneira fechada. Em contrapartida, na pia do banheiro e no vaso sanitário não saía sequer uma gota. Eram três e meia de uma gélida manhã de junho, em Aguas Calientes. O povoado peruano ganhou fama não só em razão das diversas fontes termais, mas também por ser a última parada antes de Machu Picchu, a “cidade perdida dos incas”, localizada nos Andes, a 2 350 metros de altitude. “Na hora de dormir, resolvi dar uma volta para fumar e acabei tomando um vinho que não me caiu bem”, explicou o jovem de 29 anos enquanto juntava suas coisas no quarto.

É árduo o caminho que leva a Machu Picchu. Na manhã anterior, Miranda partira de Cusco numa van e passara igualmente mal, desta vez por causa da sinuosa e nauseante estradinha de terra. No percurso, conheceu os chilenos Flávio Pino, de 38 anos, e Yuri Soto, de 35, aos quais se juntou. Quando a via já não dava mais acesso a veículos de quatro rodas, o trio seguiu a pé por 11 quilômetros até Aguas Calientes. À noite, recebeu a recomendação de acordar cedo para enfrentar o trecho derradeiro da viagem. Era preciso chegar à mítica cidadezinha a tempo de fazer a visita guiada, que começaria às sete e meia.

Pela frente, havia os 1 310 metros de altitude que separam Aguas Calientes de Machu Picchu. A parte mais difícil da trilha soma 1,7 quilômetro de escadas, construídas com grandes rochas cinzentas, que ziguezagueiam encosta acima e exigem dos andarilhos algumas horas de esforço. Apesar da baixa temperatura e do escuro, uma multidão de diferentes nacionalidades fazia fila para iniciar o íngreme trajeto. “Vamos fumar um pouco antes de subir?”, sugeriu Miranda, tão logo avistou os primeiros degraus.

 

 

Erguida no século XV sob as ordens do imperador Pachacútec, Machu Picchu – cujo nome em quéchua significa “velha montanha” – virou um dos sítios arqueológicos mais visitados do mundo. Foi descoberto apenas em 1911 por Hiram Bingham, durante uma expedição financiada pela Universidade Yale e pela National Geographic Society. Entretanto, os indícios de que existira uma cidade pré-colombiana naquela região remontam ao século XIX.

A Machu Picchu que o arqueólogo e historiador norte-americano encontrou não possuía as mesmas feições harmônicas de hoje. Em vez de lhamas e grama aparada, ostentava artefatos indígenas, animais peçonhentos e uma densa vegetação, que crescia sem empecilhos e tomava conta de tudo.

A cidade tinha importância especial para os incas, povo afeito a observações astronômicas, por oferecer uma visão privilegiada do céu. Muitas das construções de pedra que a compõem eram, na verdade, gigantescos calendários. Ali também se espalhavam diversos templos, usados para rituais fúnebres e sacrifícios humanos.

 

 

À medida que avançava pelas escadarias irregulares, a massa de andarilhos ia se tornando menos compacta. Munido de uma lanterna, Yuri Soto liderava seu grupo. A rigor, ninguém é obrigado a encarar tantos degraus. Pode-se vencer a provecta montanha seguindo-se pela carretera Hiram Bingham, rodovia tão tortuosa quanto as linhas traçadas por um medidor de batimentos cardíacos. Geralmente, os ônibus turísticos a percorrem em alta velocidade e inundam de pressa uma paisagem que, paradoxalmente, exala mansidão. “Estou morrendo”, reclamou Flávio Pino, enquanto enxugava o suor da testa e da barba espessa. “Seria o caso de irmos pela carretera?”, indagou, apoiando o corpo num pedregulho, quando as escadas de pedra cruzaram a rodovia pela primeira vez. Ao longe, o céu adquiria uma coloração azul-escura, que prenunciava a luz da manhã.

Assim que o sol finalmente se levantou, os três sul-americanos já haviam superado metade do caminho. O fluxo de ônibus que passava por eles, nos demais entroncamentos da trilha com a carretera, se revelava cada vez maior. Grupos mais atléticos impunham à caminhada um ritmo constante. Aparentavam a mesma disposição que exibiam no início da jornada. Javier Miranda e seus parceiros mascavam folhas de coca para facilitar a respiração no ar rarefeito.

Quase três horas após o começo da escalada, os viajantes pisaram o último dos 1 643 degraus. No alto da montanha, idiomas se misturavam em busca das bandeirinhas que identificavam os guias, cada um à espera do seu rebanho. Embriagado pela chance de desbravar a cidade sagrada, Miranda já não sofria de enjoo ou dor de cabeça.

 

Por todo lado, via-se uma espantosa sequência de paredões rochosos. Sob a névoa fria, o cinza das pedras contrastava com o verde dos gramados. Os turistas que chegavam de ônibus tinham as pernas intactas e o sono em dia, bens escassos e invejáveis para o enxame de andarilhos com a língua de fora. Ainda que exausto, Miranda mantinha um ar sobranceiro. Apontou para a escadaria e o sopé da montanha, lá embaixo, antes de dizer: “Desfrutamos bem mais por ter sido assim.” Depois, satisfeito, acendeu um cigarro.

Paulo Raviere

Leia Mais

esquina

Noites ruidosas

Seis brasileiros, dois países e uma guerra

31 mar 2026_15h07
esquina

“Iranianos são respeitados”

Um curador de arte conta como o emirado enfrenta a guerra

31 mar 2026_15h03
esquina

Cidade do medo

Um israelense e um palestino resistem ao desalento

31 mar 2026_14h48
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30