CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Baile dos excelentíssimos
Banda de juízes agita festas da magistratura paulista
Guilherme Henrique | Edição 218, Novembro 2024
O relógio marcava 21h15 quando Iberê Dias deixou uma das salas da Associação Paulista de Magistrados (Apamagis). Ele andava com certa pressa quando avistou o desembargador Francisco Eduardo Loureiro, corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Estado São Paulo. Sorriram e apertaram as mãos. “Vamos tocar daqui a pouco”, comentou Dias, de 47 anos. O desembargador correu a vista no salão para identificar o palco.
Naquela quarta-feira, 16 de outubro, 126 juízes recém-empossados pelo Tribunal de Justiça paulista celebravam, em uma festa para cerca de trezentos convidados, o encerramento do curso de formação iniciado em julho na Escola Paulista da Magistratura, destinado a concursados em início de carreira. Juiz desde 2000, atualmente titular da Vara da Infância e da Juventude de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, Dias não estava lá para dividir sua experiência jurídica com os novatos. Ele viera animar a festa com sua banda, Soul da Toga, formada somente por magistrados.
No palco, sua mulher, a flautista e saxofonista Liza Roxo, de 37 anos, juíza da 4ª Vara Cível de Americana, e o guitarrista José Fernando Seifarth, de 56 anos, da 3ª Vara da Família de Piracicaba, acertavam os últimos detalhes com o técnico de som. Dias dedilhou o baixo. Os demais músicos, vindos de diferentes comarcas, afinaram seus instrumentos: o baterista André Carneiro (de Santos), o vocalista e guitarrista João Walter Cotrim (da Praia Grande), o saxofonista, flautista e gaitista Eduardo Helene (de São José dos Campos) e o trombonista Marcelo Salmaso (de Tatuí).
Dez minutos depois, o show começou com Várias queixas, da banda Gilsons.
O Soul da Toga nasceu de encontros ocasionais de seus integrantes. “Nós nos conhecíamos, às vezes tocávamos juntos, mas não necessariamente em uma formação”, lembra Dias. O conjunto engrenou mesmo em outubro de 2022, quando, em uma viagem a Praia Grande, Dias se aproximou de Carneiro e de Cotrim. Em maio do ano seguinte, o grupo fazia seu primeiro show, também na Apamagis, em um encontro de juízes que trabalham com infância e juventude. “A primeira apresentação é sempre um pouco desastrosa”, diz o baixista, com sorriso meio amarelo.
No início, os ensaios, hoje esparsos, eram regulares: ocorriam a cada quinze dias, em um estúdio na região do bairro de Pinheiros, em São Paulo. A banda definiu pouco a pouco seu repertório, composto de canções de Jorge Ben Jor, Tim Maia, Seu Jorge, Gilberto Gil e Djavan, entre outros. “‘Toca Raul’ é um clássico. Sempre pedem”, conta Dias. Nos shows, o grupo cobre quase trinta canções em pouco mais de duas horas. “Tocamos o que as pessoas conhecem. Com uma sequência de sete ou oito forrós, todo mundo dança”, diz Seifarth. Sertanejo e funk estão fora. “Odeio hierarquizar a cultura. Não acho que o que nós tocamos seja melhor ou pior. Mas poucas bandas amadoras executam esse tipo de música”, explica Dias.
Eles fazem de duas a três apresentações por mês. Não há como acomodar um número maior de shows na rotina jurídica – ainda mais com as distâncias que separam os membros da banda. “Demorei 2 horas e 40 minutos para vir de Piracicaba até aqui, mas vim com alegria”, diz Seifarth, pouco antes da festa na Apamagis. O guitarrista, que em 2000 sofreu um desmaio no fórum por causa do estresse, reencontrou a paz nos palcos: “A música me leva a outro lugar. É como se eu fosse à terapia e despejasse tudo de ruim.” Ele acredita que tocar guitarra ajuda em seu trabalho. “Todo juiz deveria ter uma conexão com a arte. No meu caso, ela me deixa mais sensível às questões que julgo, ainda mais na Vara da Família”, diz.
Vários dos integrantes do Soul da Toga estudaram música em conservatórios na adolescência, mas só Seifarth teve uma experiência profissional. Aos 15 anos, ele integrou o quarteto Bombom, que fez sucesso com a versão em português de Vamos a la playa, do duo italiano Righeira. Em seu auge, entre 1983 e 1984, o Bombom gravou um compacto simples que vendeu 60 mil cópias e um LP, fez turnê pelo país e se apresentou nos programas do Chacrinha, Raul Gil e Silvio Santos. Acabou em 1986. “Tive tudo para seguir a carreira profissional, mas aos 17 anos comecei a fazer faculdade e a música ficou de lado.”
Formado em direito na Faculdade do Largo São Francisco, Seifarth é juiz há 31 anos. Ele acredita que antigamente sua atividade paralela como guitarrista não seria bem-vista por seus pares. “A magistratura de hoje não é a mesma de trinta anos atrás. Houve uma mudança no tribunal, com mais liberdade de expressão cultural.”
Pela lei, os membros da Soul da Toga não podem ser remunerados nem ganhar benesses ou presentinhos pela atividade musical. Assim, eles privilegiam shows em festas da magistratura ou eventos beneficentes. Dez dias depois do show na Apamagis, por exemplo, eles se apresentaram em Campinas, na Associação LatiCão, que resgata e abriga animais abandonados. No dia 19 deste mês de novembro, estarão no Celeiro Vó Tunica, em São Paulo, que abriga jovens mulheres socialmente vulneráveis.
Até o fim do ano, a Soul da Toga deve fazer mais sete ou oito apresentações. A principal será no dia 30 de novembro, na festa de final de ano da Apamagis. Os juízes abrirão o show da banda Raça Negra, no Monte Líbano, tradicional clube paulistano. “Vai ser diferente, porque estamos acostumados com exibições menores”, antecipa Seifarth. O repertório deve ser o mesmo, com uma novidade: a versão jazzística de Cheia de manias, música do Raça Negra – aquela do “dig-dig-dig-iê”.
O nervosismo paira no ar, e o público, cujo número ainda é uma incógnita, já dá calafrios na turma. “Acho que serão umas setecentas pessoas”, especula Dias. “Mais: umas 1,5 mil”, corrige sua mulher, Liza Roxo. Ele arregala os olhos, ajeita-se na cadeira e solta um “eita”.
