Para quem vem da morosidade da capital Islamabad, cidade planejada e tensa, estar em Karachi é como acordar no Rio ou em Nova York. O trânsito é louco; ônibus decorados com penduricalhos e latarias de todas as cores nos ultrapassam, lotados, com passageiros sentados no teto FOTO: AFP PHOTO_ASIF HASSAN
Bem-vindo ao Paquistão
Duas semanas no subcontinente indiano
Bernardo Carvalho | Edição 91, Abril 2014
É véspera da viagem e ainda não sei onde vou ficar. Podia estar histérico, mas desta vez decidi manter a calma. Estou supercontrolado. Mando um e-mail ao pessoal da embaixada, em Islamabad, perguntando o nome do hotel, no caso de ter que preencher algum formulário de entrada. É uma boa razão. Não quero aborrecê-los com mais uma pergunta irrazoável depois de todas as que já fiz sobre vistos e passagens (imagino o suplício de quem passou anos estudando política internacional e acabou no Paquistão, tendo que receber um escritor brasileiro). Não quero dar má impressão, não quero que pensem que sou uma pessoa difícil. Me esforço para não irritar o diplomata, mas fico realmente sem saber o que pensar da resposta: “Fique tranquilo, Bernardo. Estamos verificando com nossa equipe de segurança qual o melhor lugar para você.” Como assim? Estão gozando da minha cara. Desde quando embaixada brasileira tem equipe de segurança? Vou ter que esperar mais uns dias para entender que, no Paquistão, ninguém está de brincadeira.
Tenho duas opções para chegar a Islamabad: por Londres, voando pela Pakistan International Airlines, ou por Dubai. O diplomata me desaconselha a passar dez horas num avião da PIA – e agora entendo por quê (retrospectivamente, depois de ter voado de Islamabad a Karachi, ao lado de passageiros locais que nem por isso parecem acostumados a viajar debaixo das cascatas de água despejadas pelo ar-condicionado, das quais tentam se proteger com os jornais distribuídos a bordo).
Decido ir por Dubai e acabo vítima de uma triste mas educativa experiência. O capitalismo selvagem pode ser bom para alguns, mas certamente não é a melhor opção para quem, além de viajar sem dinheiro (porque espera receber pelas palestras que dará, se chegar a seu destino), ao tentar fazer o check-in no hotel, descobre que o cartão de crédito foi bloqueado.
A recepcionista me recebe com um sorriso de orelha a orelha, que ela não vai perder durante toda a nossa conversa, nem mesmo quando me disser que, sem cartão, não sou bem-vindo a Dubai. Ela começa de outra maneira, é claro: “Bem-vindo, sr. Bernardo! Bem-vindo ao nosso hotel, em Dubai!”, como se, às onze da noite, depois de quinze horas de viagem e mais uma hora e meia na fila da imigração (Dubai se orgulha por ser uma das maiores confluências aéreas do mundo), eu já não soubesse onde estou. Obrigado, obrigado.
Enquanto ela verifica a reserva, aproveito para fazer uma observação: “É a primeira vez que um hotel debita o valor da primeira diária dois dias antes de eu chegar, quando ainda tinha o direito de cancelar gratuitamente a reserva.” E ela, sem perder o sorriso: “Sr. Bernardo, nós não debitamos, não debitamos nunca; nós bloqueamos o valor.” Prefiro não discutir, estou exausto, quero dormir. A recepcionista arremata: “Então, já bloqueamos a primeira diária. Agora, vamos lhe dar a opção de bloquear a segunda diária.”
Como assim? Qual é a opção? Ela repete. E se eu não quiser bloquear a segunda diária? E se eu só quiser pagar ao sair do hotel, como todo mundo, no check-out? “Sr. Bernardo, como é que nós podemos confiar no senhor? Como é que podemos saber que o seu cartão vai funcionar no check-out?” Estou cansado. Entrego o cartão. E, em apenas alguns segundos, com os olhos flamejantes de prazer, ela me mostra a máquina do cartão: “Está vendo, sr. Bernardo? O cartão foi recusado. O senhor não teria outro?”
Por acaso, eu tenho. Mas nunca entendi tão bem o sentido da expressão “capitalismo selvagem”. Uma vez no quarto, psicologicamente comprometido e em estado avançado de ira, acesso a internet e começo a procurar o número para ligar a cobrar para o cartão de crédito, em vão. Demoro a entender que não há como ligar a cobrar de Dubai para o Brasil se não for por um celular da operadora local. Terei que deixar meu dinheiro ali, de qualquer jeito, nem que seja adquirindo um número local.
A Dubai do século XXI foi construída no nada, com o único objetivo de arrancar, o mais rápido possível e de todas as maneiras possíveis, entre uma crise mundial e outra, todo o dinheiro possível de quem cair na asneira de passar por ali. Tento burlar o bloqueio que me impede de fazer uma ligação a cobrar, me conectando dessa vez ao Skype, mas a esperança de quem não tem dinheiro dura pouco. Sobretudo em Dubai. Em Dubai, o uso do Skype também está bloqueado.
Por dois dias, vivo o pesadelo de que o cartão que me resta, último fio que me mantém conectado ao maravilhoso mundo do consumo e dos serviços, também venha a ser bloqueado, porque, nesse caso, eu deixaria de ser gente em Dubai. E, nesses dois dias, andando pela calçada que me leva do hotel ao maior shopping em área do mundo (não para comprar, mas simplesmente porque não tenho mais para onde ir, numa cidade dividida entre consumidores e serviçais, como se o mundo inteiro tivesse sido reduzido à Daslu), compreendo melhor o horror que está por trás de toda aquela fachada do que se tivesse assistido a uma aula de economia política. Não discordo de quem defende o capitalismo como possibilidade imperfeita de democracia, justiça e liberdade. Mas Dubai é indefensável.
Estamos no deserto, mas não há miragem de democracia, nem de justiça nem de liberdade. Na escala dos serviçais, você pode estar no nível mais baixo, equivalente à escravidão (os paquistaneses nos canteiros de obras), ou no mais alto (os russos, ucranianos e romenos nos hotéis e restaurantes de luxo).
Com tanto terrorista islâmico dando sopa por aí, por que é que não explodem Dubai, que é a maior heresia para qualquer fundamento religioso? “Porque é de lá que vem o dinheiro do fundamentalismo; de lá, da Arábia Saudita e dos outros países do Golfo”, me responde, espantado com tanta ingenuidade, o diplomata que me espera em Islamabad, onde desembarco cercado de peregrinos paupérrimos, voltando de Meca, via Dubai.
O voo noturno está lotado de camponeses vestidos com as roupas que ocidentais ignorantes como eu associam imediatamente aos pachtos e aos talibãs das reportagens da CNN e de filmes como A Hora mais Escura. Os dois assentos ao meu lado estão vazios quando começa uma discussão duas fileiras à frente. Um homem tomou o lugar de outro e não quer sair. Uma aeromoça é chamada às pressas para resolver o litígio. O homem que não quer sair não entende (ou não quer entender) que existem lugares marcados e que aquele não é o dele. A aeromoça exige o canhoto do cartão de embarque e, depois de examiná-lo, aponta para os dois assentos vazios ao meu lado.
Sempre seguido da mulher, o homem se levanta, contrariado, e se dirige à minha fileira. Usa uma salwar kameez – aquelas calças e camisas largas, típicas da região do Punjab. A mulher está vestida com roupas ocidentais. Ele aponta para mim, de longe, altaneiro, e dá a entender, com um gesto, que é para eu sumir. A princípio, a altivez do sujeito me irrita, mas logo começo a achar graça. Ele chama a aeromoça para me fazer sair do meu lugar que, segundo ele, é dele. E ela tem que lhe explicar que ele e a mulher estão sentados nos dois assentos do meio da fileira entre um corredor e outro. E não numa das pontas, como eu.
O casal se senta finalmente. O homem tira o sapato, dobra a perna e encosta o pé no meu joelho. Cutuca minhas costelas com o cotovelo. Quando mandam desligar os celulares, ele esconde os dois que traz nas mãos, entre as pernas. Durante a decolagem, assim que as rodas do avião se despregam do solo, um dos telefones começa a tocar. Ele atende e conversa como se estivesse em casa.
Estou preenchendo os formulários de imigração distribuídos pelas aeromoças quando um rapaz do outro lado do corredor toca o meu ombro. “O senhor está passando mal?” Ao contrário dos pais, com quem viaja, está vestido com roupas ocidentais: jeans, tênis e camiseta. Na borda inferior da camiseta, está escrito fashion. Ao longo da viagem, vou me dar conta de que há uma recorrência do termo estampado nas roupas ocidentais usadas pelos jovens das famílias camponesas, como um álibi ou uma justificativa para evitar os trajes tradicionais.
“Não, na verdade, estou ótimo”, respondo, surpreso e um pouco irritado com a intromissão inexplicável. “Pois então não preencha essa ficha. A menos que queira ficar retido para exames”, o rapaz adverte. E, de fato, as perguntas do formulário enumeram os sintomas mais terríveis de doenças contagiosas, como a gripe suína ou aviária, mas também um ou outro sintoma inofensivo, como uma dor de cabeça, que um hipocondríaco inocente como eu poderia marcar com prazer, por inadvertência.
Me dizem que há um terminal VIP no aeroporto de Islamabad, mas não é por onde desembarcamos. Em países como o Paquistão e a Índia, os controles de passaporte ocorrem por confirmações reiteradas, com intervalos de poucos metros. Em termos de segurança, pelo menos não faltam empregos. Você entra na fila, passa pelo guichê da imigração. Seu passaporte é examinado e carimbado. Cinco metros depois, um guarda quer ver o passaporte de novo. Examina o carimbo com atenção e devolve o passaporte. Cinco metros depois, outro guarda quer ver o passaporte. Examina o carimbo, devolve o passaporte.
Enquanto isso, uma multidão se aglomera em volta da esteira de bagagens, onde garrafas plásticas de água, dessas de 5 litros, algumas delas estouradas, desfilam entre as malas, sob os olhares desconsolados de velhos camponeses pachtos que guardaram dinheiro a vida inteira para fazer a viagem. Ao redor das garrafas rompidas, a esteira está inundada com a água benta que eles trouxeram de Meca.
Pouco antes de sair do hotel em Dubai, vi na BBC que o governo paquistanês tinha marcado uma reunião secreta com o Talibã para o dia da minha chegada. A situação no país é insustentável. É um acontecimento inédito. O jornalista na tevê estava excitadíssimo. As negociações de paz estão cercadas do maior sigilo. Ninguém sabe ao certo o local do encontro, talvez nas montanhas ou nos arredores da capital. Saio de Dubai como 007 a caminho de uma missão secreta. Entretanto, quando pergunto sobre o encontro aos diplomatas brasileiros que vão me buscar no aeroporto Benazir Bhutto, eles logo me trazem de volta à realidade.
E a realidade é bem menos excitante que um filme de James Bond. Me contam, por exemplo, que Imran Khan, o campeão de críquete e herói nacional, foi sondado pelos líderes do Talibã local para representá-los e declinou o convite, apesar de suas simpatias ideológicas. Me dizem também que boa parte da população e da elite apoia de alguma forma os religiosos. E que as supostas negociações de paz servirão no máximo como a desculpa que faltava ao governo para, uma vez fracassadas, justificar uma ofensiva militar contra os grupos militantes.
Depois do atentado ao hotel Marriott, em setembro de 2008, quando um caminhão carregado de explosivos deixou mais de 50 mortos e quase 300 feridos (A Hora Mais Escura começa com a explosão e a protagonista tentando escapar aos escombros), o governo decidiu blindar a cidade. Passamos por pelo menos dois controles policiais entre o aeroporto e o Centro. Como a embaixada brasileira segue as diretrizes da ONU e dos Estados Unidos, e calhou de eu chegar num período de alerta vermelho, a “nossa equipe de segurança” achou por bem evitar os dois hotéis mais visados da cidade (um deles, o Marriott, cuja entrada foi reconstruída depois da explosão, à imagem de um bunker).
O carro pega uma rua esburacada e escura. Estamos chegando. De madrugada não dá pra ver direito. O diplomata me tranquiliza. Diz que mora na mesma rua, quando finalmente chegamos ao meu destino. Vou ficar na Lush Guesthouse, uma casa murada que não faz jus ao nome e de onde sou aconselhado a não tirar os pés enquanto não vierem me buscar de carro no dia seguinte.
O porteiro da noite acorda com a nossa irrupção. Me entrega a chave do quarto e aponta para o 1º andar. Sou o único hóspede. É uma casa burguesa, com uma grande escada senhorial, no fundo do salão. O quarto é enorme. Já da entrada dá pra ver que nunca ocorreu a ninguém passar um aspirador debaixo da cama. As cortinas estão fechadas e os dois aquecedores elétricos, ligados nas duas extremidades do quarto, iluminam o ambiente como uma câmara de bronzeamento artificial. Se quiser dormir no escuro, vou ter que desligá-los e aguentar o frio. Por sorte, trouxe uma dessas máscaras de dormir em avião. Desmaio.
Só no dia seguinte, quando tento recarregar a bateria do computador, é que me dou conta dos frequentes cortes de luz. Ao abrir as cortinas, deparo com uma paisagem desolada de casas, muros e antenas de celular. Embaixo da minha janela, ao lado de onde param os carros, um gazebo abriga algumas mesas sob uma cobertura de plástico branco. O muro que cerca a casa é alto o suficiente para evitar visitas indesejadas. Não há ninguém em lugar nenhum. É tudo tristíssimo. Fico esperando que venham me tirar dali. E, enquanto isso não acontece, aproveito para revisar o texto da minha palestra.
Até agora, não disse a que vim: fui convidado pelas embaixadas do Brasil na Índia e no Paquistão para dar uma palestra em Islamabad e duas em Nova Delhi, além de participar de uma mesa-redonda no Festival de Literatura de Karachi. O texto da palestra esboça um ponto de vista periférico da literatura contemporânea, num mundo onde o inglês se tornou a língua hegemônica. Estou preparado para os mal-entendidos.
O casal de diplomatas que me recebeu no aeroporto vem me buscar para o almoço. Não têm 30 anos e estão casados desde os 19. Vêm acompanhados de uma oficial de chancelaria da mesma idade. Os três estão há dois anos e pouco em Islamabad e são adoráveis. Graças a eles, vou guardar as melhores lembranças do Paquistão. Vamos almoçar em Saidpur. É o que pode haver de mais próximo de um vilarejo pitoresco nos arredores da capital: um aglomerado de casas de pedra e casebres ao longo de um córrego, entre colinas com cabras. O restaurante está praticamente vazio. Escolhemos uma mesa na parte coberta.
Quem nos serve é uma menina andrógina, com a cabeça raspada e uma túnica azul. Ela não abre a boca e não para de nos trazer pão, durante todo o almoço, com um jeito ao mesmo tempo servil e insensato, como se estivesse fascinada por nós. Só no final é que vamos entender que ela não é uma menina. “Tome cuidado com eles. São o pior tipo de gente. Vêm bater à sua porta para destruir a reputação da sua família. E só vão embora quando você lhes der dinheiro”, dirá uma semana depois o meu guia em Agra, tentando me explicar o que ele quer dizer com “terceiro sexo”, mas sem esclarecer direito qual a relação do “terceiro sexo” com a reputação da sua família. “Terceiro sexo” é o destino de quem nasce homossexual entre os mais pobres, no Paquistão e na Índia, onde a homossexualidade é inconcebível. São como eunucos.
Islamabad é uma capital planejada. Foi inaugurada em 1966. Antes da minha palestra no Kuch Khaas, um pequeno centro cultural frequentado por expatriados e pela elite universitária local, meus anfitriões aproveitam para me mostrar as duas principais atrações turísticas da cidade: o monumento nacional e a mesquita, a maior do país, cuja forma deveria remeter à imagem de uma tenda de beduínos, mas que, assim como o monumento nacional, mais parece uma nave alienígena. Desço do carro para fotografar o prédio pavoroso e acabo me afastando um pouco. Em alguns minutos, quando volto para o estacionamento, percebo que o motorista, um militar aposentado e cioso de suas funções, tendo me perdido de vista, abandonou seu posto e está aflito à minha procura, entre os visitantes que passeiam pelo gramado, tirando fotos.
Encontro o embaixador pela primeira vez no Kuch Khaas. “Obrigado por vir ao Paquistão, quando todo mundo quer sair daqui”, ele me diz, como se tivesse adotado o país. É um homem muito simpático, que me faz lembrar um personagem conradiano, nem que seja pelo destino de ter que viver ali sozinho, naquele fim de mundo onde tudo é arriscado, até sair a pé ou de bicicleta, por distâncias tão curtas quanto as poucas quadras que separam a residência da embaixada. Meus novos amigos diplomatas, que tampouco andam sozinhos nas ruas, me explicam que o perigo não é ser sequestrado por terroristas, mas por gente que em seguida pode te revender a algum grupo terrorista nas montanhas. Faço uma gracinha qualquer sobre os sequestros e na mesma hora me dou conta da infelicidade da piada. “Isso não vai acontecer com você”, o embaixador repete mais de uma vez, sem achar a menor graça.
Como não há muito mais a fazer em Islamabad numa tarde de feriado além de visitar a mesquita e o monumento nacional, a sala do Kuch Khaas está cheia. No café, antes de começar a palestra, sou apresentado a uma palestina da Cruz Vermelha que vai assistir à minha fala, no fundo da sala, com uma expressão desconcertada. Como sempre nesses eventos, haverá todo tipo de interpretações da plateia, sobre as quais o palestrante não tem nenhum controle nem responsabilidade.
A certa altura, quando repito o que uma vez ouvi de um editor (que a literatura francesa “não viaja bem”), algum francófobo entre os ouvintes se manifesta com um risinho solidário, acreditando que sou contra a literatura francesa. Seu entusiasmo dura pouco. O mesmo acontece quando falo de uma escritora indiana que uma vez me disse que só os fracassados escrevem em híndi. Quem se entusiasma desta vez é o pai de um escritor paquistanês anglófono, sem perceber para onde se dirige a minha crítica.
Tenho que explicar muitas vezes o quanto adoro a literatura de língua inglesa e que não tenho nada a ver com nenhum tipo de nacionalismo antes de atacar os efeitos do que me parece ser uma uniformização disfarçada de pluralidade sob a hegemonia do inglês. O pai do escritor paquistanês anglófono, que achava que eu estava falando mal dos indianos, torce a cara. E, quando passam a palavra ao público, me desafia, perguntando por que escrevo em português, que é a língua do colonizador, e não na dos índios.
Em Karachi, o mal-entendido será outro. A cidade foi a capital do Paquistão até pouco antes da mudança para Islamabad. Karachi é um porto de mais de 23 milhões de habitantes, cercado de manguezais. A sensação de estar numa cidade de verdade, uma megalópole violenta, caótica e feia, mas cosmopolita e extremamente viva (a maior cidade muçulmana do mundo), é um alívio não só para mim.
Estamos todos na maior excitação. Para meus novos amigos, diplomatas narcotizados pela morosidade tensa de Islamabad, é como acordar em Nova York ou no Rio de Janeiro. O trânsito é louco. Entre o aeroporto e o Centro, ônibus decorados com penduricalhos e latarias de todas as cores nos ultrapassam, lotados, com passageiros sentados no teto, do lado de fora. Crianças com os olhos injetados pedem esmola e lavam os vidros dos carros nos sinais.
Deixamos as malas no hotel e vamos jantar no Okra, o melhor restaurante do país, segundo meus anfitriões. Fica em Clifton, o bairro rico que, como tudo em Karachi, também parece pobre. As ruas se alternam entre as “da frente”, como a da entrada do Okra, e as “de trás”, como a dos fundos do restaurante. As mansões se misturam com os conjuntos habitacionais. No caminho, passamos pela propriedade da família Bhutto (vemos apenas o muro alto e extenso) e por uma rotatória em que um imenso cartaz mostra Bilawal, o filho de Benazir Bhutto (a ex-primeira-ministra, assassinada em 2007), vestido de Super-Homem. Bilawal é um político em ascendência. E Karachi é o curral eleitoral da família Bhutto.
Como a venda de álcool é proibida no Paquistão, os clientes se encarregam de levar suas próprias provisões para os restaurantes. Por pouco não ficamos sem a nossa quando, horas antes, no aeroporto de Islamabad, o policial no raio X implicou com as garrafas de vinho nas malas. Cada um trazia uma. Foi preciso chamar o superior e esperar que ele explicasse ao guarda zeloso das leis o princípio de dois pesos e duas medidas (“São estrangeiros, bebem o que quiserem”) antes de sermos liberados.
No dia seguinte, participo de uma mesa-redonda sobre o romance. O Festival de Literatura de Karachi acontece no Beach Luxury Hotel, que, ao contrário do que diz o nome, fica à beira de um mangue, perto do porto. A excursão à praia terá que esperar. A mesa – da qual também participam um professor de estudos pós-coloniais, discípulo de Edward Said, uma tradutora italiana, uma especialista inglesa em literatura paquistanesa e um satirista alemão – é moderada por uma escritora local.
Falo um pouco das questões que me atormentam na literatura hoje, do que me parece ser uma progressiva uniformização do romance como gênero, graças a uma concepção massificada e barateada do realismo, a despeito da aparente diversidade multicultural. Falo de um lugar-comum transformado em exigência de mercado e de crítica: o “personagem de carne e osso”. Falo de uma crítica e de um leitor naturalmente mais conservadores, divulgadores e consumidores ideais desse realismo globalizado. E o troco vem a galope.
Uma jornalista vai me acusar, num jornal local, de ter transformado em boletim de mercado de ações uma sessão na qual ela esperava ouvir falar sobre o prazer da leitura. “Bernardo Carvalho é um desses escritores que mais parece um comerciante tentando vender seus exemplares. Sabe tanto do negócio de livros que a gente acaba se perguntando como é que ele faz para expressar sua criatividade. Será que existe uma seção no eBay onde se vende isso a preço de mercado?”
A descrição é o oposto mais extremo de tudo o que eu sou e de tudo o que eu disse. O mal-entendido (ou a má-fé) é tão grande que eu chego a pensar em processar as escolas onde estudei inglês ao longo da vida.
Enfim, vamos conhecer a praia depois do almoço. É uma espécie de Praia Grande, uma dessas longas extensões de areia escura e dura, como no litoral sul de São Paulo. Com a diferença de que, em Karachi, as pessoas estão vestidas e as mulheres usam véu. Ninguém vai nadar ou tomar banho de sol no inverno (que aqui não é mais frio que o inverno no sudeste do Brasil). Vão passear, comer ou dar uma volta de camelo.
Homens de turbante nos oferecem camelos e cavalos com arreios decorados. Um grupo se aglomera em torno do que, de longe, me parecem barraquinhas de comida, num canto da praia. Resolvo ir até lá. É a primeira vez que fico sozinho na rua desde que cheguei ao Paquistão. Me dá a maior sensação de liberdade. Os homens de turbante com seus camelos e cavalos percebem que não terão nenhuma chance comigo e me esquecem. Em poucos minutos, entretanto, meu amigo diplomata vem me dizer que precisamos ir embora.
Eu sei que ele e a mulher querem muito assistir a uma mesa-redonda do festival, que vai reunir a advogada, célebre ativista e feminista Asma Jahangir e o escritor Mohammed Hanif, autor de O Caso das Mangas Explosivas, num debate sobre direitos humanos. Saímos às pressas. Mas não é, como chego a pensar por um instante, porque estamos atrasados para o debate. Quando chegamos à calçada, o motorista já nos espera com as portas do carro abertas. Só então é que me revelam o motivo da pressa. Um menino havia empurrado a mulher do diplomata na praia. Eles estão acostumados com os hábitos paquistaneses. É a primeira vez que isso acontece. Sentiram que era hora de sair dali.
Não entendo bulhufas do debate sobre direitos humanos. O inglês é abandonado como língua comum quando Mohammed Hanif decide recorrer ao urdu para fazer um discurso incisivo e vivamente aplaudido. É como se uma comporta tivesse sido aberta pela língua autóctone. Os ânimos estão exaltados, as perguntas da plateia despertam comoção. Só dá para entender que uns são contra e outros a favor. No resto, sigo boiando. De vez em quando, reconheço uma palavra ou outra, como “talibã”.
Afinal, vejo um rosto familiar que se aproxima, mas é só quando já está demasiado próximo, quando é inevitável, que começo a suspeitar dos motivos da aproximação. É a palestina da Cruz Vermelha. “Depois preciso falar com você”, ela me diz. “Não tive tempo de te dizer o que achei da sua palestra em Islamabad.” Era só o que me faltava.
À noite, vamos à festa de um cineasta local. Chegamos ao prédio depois de passar por quadras de conjuntos habitacionais em Clifton. Ficamos com a impressão de ter surpreendido os porteiros e os seguranças fumando um baseado quando lhes pedimos que tirem uma foto da gente. O apartamento tem vista para uma espécie de mangue ou lagoa que precede a praia – ou pelo menos é isso o que eu deduzo da escuridão diante da janela.
Quando entro, um homem sorri e exclama: “Ah! O personagem em carne e osso!” É o marido da moderadora da mesa da qual participei pela manhã e está fazendo menção aos meus apartes à discussão. Tem um ótimo senso de humor. O dono da casa se aproxima para nos receber. É muito solícito, me entrega seu cartão de visita e me exorta a ver uns filmes no seu site (na maioria, documentários sobre a cultura pop local ou clipes e spots publicitários), e em especial o documentário A Jihad for Love, de Parvez Sharma, sobre gays no mundo muçulmano, do qual ele foi produtor associado e diretor de fotografia no Paquistão.
A festa tem tudo o que não se vê fora dali. Garçons servem todo tipo de bebida alcoólica. Quase todos os convidados têm alguma ligação com o festival de literatura. Alguns estão na cidade só por causa disso. Muitos são estrangeiros. Entre eles, um português que trabalha para agências humanitárias internacionais e coleciona pulseiras dos povos que visita. Está usando uma delas. Por um instante, você esquece que está em Karachi. Podia estar em Berlim ou Londres.
De repente, avisto a palestina. E, como já estou um pouco bêbado, desta vez sou eu que me adianto e pergunto: “Então, que é que você tem para me dizer sobre a minha palestra?” “Que você é um elitista”, ela diz. “Claro. E você é o quê? Uma populista?”, eu respondo. E imediatamente ficamos amigos. Alguns dias depois, ela me manda um e-mail adorável: “É sempre bom encontrar elitistas, especialmente quando também são revolucionistas.”
Tenho um voo marcado para bem cedo no dia seguinte. Vou passar o dia no avião. O único voo direto para Nova Delhi estava lotado, preciso fazer escala em Mumbai. Na sala de espera do aeroporto de Karachi, vejo um casal cujo filho de 20 e poucos anos anda de um lado para o outro, com uma pasta debaixo do braço, organizando tudo, indicando ao pai e à mãe onde devem se sentar e, à irmã, o que providenciar para os pais. Entre uma coisa e outra, ele se senta e examina os papéis que traz dentro da pasta, com o ar preocupado de um guia revisando os itinerários e as reservas de seus clientes.
Sento ao lado dele e do pai no avião. A certa altura, o rapaz se vira para mim e pergunta de onde eu sou. Estão indo visitar parentes que ficaram na Índia depois da partilha, em 1947, quando o Paquistão foi criado. “É muito difícil para nós entrar na Índia”, ele diz. “Vocês estrangeiros não fazem ideia. Você não pode imaginar o número de documentos que tivemos que juntar para fazer esta viagem. Só para conhecer meus tios e meus primos. Eles não podem vir ao Paquistão.”
Ele quer saber o que achei de Karachi. Digo que adorei, adoro cidades grandes, a despeito de tudo o que me disseram sobre o crime e a violência. O rapaz diz que é tudo mentira, invenção da mídia. E só então o pai, que ouvia tudo em silêncio, intervém, interrompendo o filho: “Não, ele tem razão. Há mesmo muito crime e violência.” E, virando-se para mim: “Mas isso vai acabar em um ano, assim que os americanos forem embora. Estamos nos matando. Mas somos irmãos. Assim que os americanos forem embora, nós vamos nos entender.”
Sempre me espanto com manifestações de pensamento positivo. Nunca sei o que dizer. Mas aquilo ali me deixa na maior tristeza.
Chego a Nova Delhi no começo da noite. A diplomata da embaixada a quem devo o convite e a organização de toda a viagem está me esperando no aeroporto. É de uma eficiência incrível. Está há dois anos na Índia e conhece tudo. No carro, entre o aeroporto e o hotel, ela agenda para o dia seguinte uma visita ao Centro antigo, de riquixá, antes da minha palestra no festival de literatura.
Faz o maior frio quando saio do hotel às oito da manhã. Como é domingo, os mercados do Centro estão fechados e não há nem sombra da multidão e do caos habitual enquanto o ciclista avança pedalando pelas ruelas tortuosas, comigo na garupa. O passeio de riquixá me deixa um pouco culpado. Peço ao ciclista que me espere na entrada do Forte Vermelho.
Volta e meia, durante a visita, caminhando pelos jardins do forte, sou abordado por grupos de indianos que pedem para tirar fotos comigo. Agradecem e saem rindo. Como bom paranoico, começo a suspeitar das roupas que estou usando. Não têm nada de estranho. Tento me convencer de que me confundiram com alguém. Mas o mais provável é que se divirtam, simplesmente, tirando fotos com estrangeiros desconhecidos.
Minha palestra é ao meio-dia, num centro cultural perto das embaixadas. O festival é organizado por um coletivo de jovens simpáticos, com interesses multidisciplinares (cinema, moda, design e literatura). Leio o mesmo texto de Islamabad e as reações são análogas, mas invertidas. Uma poeta sexagenária, que escreve em híndi, assiste da primeira fila. Envolta em seu sari e como se estivesse numa sessão da Câmara dos Comuns do Parlamento britânico, ela emite yeahs! de anuência e encorajamento a cada vez que reconhece no meu discurso um elogio ao pluralismo das línguas minoritárias e uma crítica à uniformização promovida por línguas dominantes e hegemônicas, como o inglês.
Logo me dou conta do potencial de mal-entendidos no que estou dizendo. Não é o melhor momento. As pesquisas preveem a vitória da direita nacionalista hindu nas próximas eleições, em maio. Os Estados Unidos, que até então mantinham o líder nacionalista Narendra Modi numa lista negra, agora o convidam para conversar com sua embaixadora. (Modi, que deve se tornar o próximo primeiro-ministro, foi acusado de leniência em relação à violência contra os muçulmanos durante seu governo na região de Gujarat.)
E a Penguin Books India decide retirar do mercado e queimar todos os exemplares restantes de The Hindus: An Alternative History, da professora da Universidade de Chicago e uma das principais indólogas do mundo Wendy Doniger, num movimento de autocensura, depois de um professor hindu aposentado de 84 anos, militante de um grupo obscuro de extrema-direita, processá-los, dizendo-se ofendido com a versão da autora sobre as origens do hinduísmo. Num artigo publicado no The Times of India, a escritora Arundathi Roy acusa a Penguin (sua editora) de ter sucumbido ao fascismo. Afinal, para que serve uma editora se já não defende o pensamento e a liberdade de expressão contra o obscurantismo?
Não tenho muitas fantasias. Ao contrário de muita gente, nunca vislumbrei no Oriente um parque de diversões espirituais. Na minha escala de volta, em Dubai, resolvo ir à praia, enquanto todo mundo se amontoa no shopping. Logo entendo por quê. A praia mais parece um canteiro de obras abandonado ao lado do porto. Pego um táxi de volta para o hotel. Mas, em vez de seguir para onde eu peço, o motorista se afasta cada vez mais, por uma autoestrada sem retorno.
Eu fico repetindo “não é por aqui, não é por aqui”, enquanto a silhueta do maior edifício do mundo, que se ergue como um foguete ao lado do meu hotel, desaparece na névoa da distância desértica. O motorista está nervoso, não sabe o que fazer. E é tudo tão explícito, que nem chego a pensar que eu possa estar sendo enganado (não por ele, pelo menos).
Quando finalmente encontramos um retorno, ele pede mil desculpas, diz que vai zerar o taxímetro e que recomeçaremos dali nosso caminho de volta para o hotel. Eu percebo o desespero e a honestidade do sujeito. Tudo bem. Digo que pode deixar o taxímetro correndo.
Ele agradece. Pergunto de onde ele é. Da Etiópia. Está em Dubai há três meses. “É uma armadilha”, ele diz. “Vim pelo dinheiro, mas quanto mais fico, mais me endivido. É tudo caríssimo. Tenho que sair daqui o mais rápido possível.”
Eu também.
