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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

esquina

Bósnia no ataque

Os maiorais do vôlei sentado

João Pedro Soares | Edição 120, Setembro 2016

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Foi o levantador Sabahudin Delalić quem marcou o ponto da medalha. Sentado na quadra com uma perna dobrada para trás e a outra para a frente, o capitão da seleção da Bósnia-Herzegovina ergueu os braços e bloqueou a cortada do atacante iraniano. A bola ainda resvalou num defensor antes de sair. A equipe dos Bálcãs fechou o quarto set por 25 a 15 e conquistou o ouro nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012.

Potência no vôlei sentado, o time masculino da Bósnia-Herzegovina venceu as últimas nove edições do campeonato europeu e é o atual campeão do mundo. “Sempre que entramos numa competição com os caras, já sabemos que chegaremos, no máximo, em segundo lugar”, declarou Lukas Schiwy, da seleção alemã, ao receber a notícia de que sua equipe integraria o mesmo grupo dos bósnios nas eliminatórias para os Jogos do Rio. Fazendo jus à previsão mais otimista, a Alemanha se classificou justamente em segundo.

Praticada numa quadra menor que a do vôlei convencional e com rede mais baixa, a versão sentada da modalidade reúne jogadores com deficiência locomotora causada por lesão na medula, paralisia cerebral, amputação de membros inferiores ou outros problemas. Vários atletas da Bósnia-Herzegovina são mutilados de guerra. Feriram-se na década de 90, durante o prolongado conflito em que o país se livrou do domínio sérvio no processo de dissolução da antiga Iugoslávia. O capitão do time não foge à regra. Delalić tinha 19 anos quando, lutando pelo exército bósnio num cerco a Sarajevo, ficou sob a mira de um tanque da Sérvia. O projétil atravessou três muros e atingiu a perna direita do rapaz, que precisou amputá-la na altura do joelho. A partir de então, ele se locomove com uma prótese, removida antes de entrar em quadra.

 

Hoje, aos 44 anos, é um dos atletas mais experientes da Bósnia-Herzegovina. Está na seleção desde 1996 e vai disputar a Paralimpíada pela quinta vez (já tem duas medalhas de ouro e duas de prata). No que depender dele, a equipe manterá a hegemonia. “Em Londres, achavam que muitos de nós estávamos velhos e desmotivados, mas nos sagramos campeões. No último europeu, não perdemos nem sequer um set.”

Além de jogador, o capitão da seleção é deputado na Assembleia Cantonal de Sarajevo, uma casa legislativa regional. Elegeu-se pelo Partido da Ação Democrática, identificado com a comunidade islâmica, majoritária no país, e defende os interesses de esportistas, ex-combatentes e pessoas com necessidades especiais. Foi em seu gabinete que Delalić me atendeu numa manhã de primavera, para uma conversa intermediada por um tradutor e embalada pela música pop que tocava no rádio.

O atleta afirmou ser enorme a expectativa pelo ouro na Paralimpíada carioca, que ocorre entre os dias 7 e 18 deste mês. “Em 2008, nos Jogos de Pequim, quando ganhamos a prata, a opinião pública considerou o resultado decepcionante”, relembrou. Os bósnios depositam tantas esperanças na modalidade porque é a única do país que conquistou medalhas olímpicas ou paralímpicas. Se a cobrança pesa bastante, também acaba servindo de estímulo. “Devemos muito aos torcedores. Eles nos motivam imensamente.”

 

Troncudo e de poucas palavras, Delalić manteve a fisionomia fechada ao longo da curta entrevista. Minutos antes do meio-dia, deu por terminada a conversa. Era sexta-feira e o levantador, como os demais homens muçulmanos, tinha de rezar a Jumu’ah – tradicional oração islâmica – numa mesquita de Sarajevo.

 

Eleito o melhor atleta no último Mundial, o de 2014, na Polônia, o atacante Safet Alibašić virou o principal ídolo da seleção bósnia. “Esse cara é uma lenda”, me disse o intérprete tão logo soube que o encontraríamos. Com 1,85 metro de altura e cabelo preto cortado rente, Alibašić vai disputar a Paralimpíada pela quarta vez. Tinha 12 anos e ainda não praticava esportes quando saiu para colher framboesas e pisou numa mina terrestre. O acidente lhe custou o pé esquerdo, agora substituído por uma prótese. “Naquela idade era terrível imaginar que eu não poderia mais ir aonde quisesse”, recordou o jogador, que completa 34 anos em dezembro. “Mas o vôlei me fez seguir adiante.”

Para se sustentar, Alibašić trabalha na Arena Aquática Olímpica de Sarajevo, onde nos recebeu. Lá ocupa um cargo administrativo em tempo integral. “Mesmo depois de ganhar inúmeros títulos, o vôlei sentado não dispõe de financiamento público”, reclamou, enquanto segurava no colo a filha Aga, de 2 anos. “Os prêmios nos igualam a outros grandes atletas, mas o Estado não nos dá o devido reconhecimento.”

 

As mãos grossas do atacante controlavam os gestos da filha, que insistia em mergulhar um biscoito dentro do suco que estava tomando. Sem perder a paciência com a menina, ele contou que é fã de futebol – admira Cafu e Thiago Silva – e que pretende visitar o Maracanã quando vier ao Rio. “Tenho certeza de que torcerão por nós, especialmente as brasileiras”, brincou.

 

As seleções da Bósnia-Herzegovina e do Brasil são velhas conhecidas. Além de se enfrentarem todos os anos no Sarajevo Open, jogaram duas vezes no Mundial de 2014, com duas vitórias dos europeus por 3 sets a 0. Mas o placar não refletiu o equilíbrio entre as equipes, na avaliação de Fred Doria, uma das estrelas do vôlei sentado nacional. “Na partida da primeira fase, já estávamos classificados e entramos em quadra apenas para cumprir tabela”, explicou. Quando os times voltaram a se cruzar na final, o confronto se mostrou bem mais apertado, com sets disputados ponto a ponto. “Rivalidade à parte, a Bósnia é realmente um timaço”, admitiu Doria.

Ele começou a praticar vôlei sentado em 2010, após romper um tendão do joelho (antes, se destacou por dezoito anos no vôlei de praia). Veterano, o atleta enxerga semelhanças entre o jogo ofensivo dos brasileiros e o da Bósnia. “É um estilo diferente do adotado pelo Irã, que só ataca depois de trabalhar bastante a bola”, comparou. Na opinião dele, nossa Seleção deve ficar de olho em dois bósnios durante a Paralimpíada: “No Ermin Jusufović, um ponteiro grandalhão, e no Alibašić, claro.” A final da modalidade está marcada para 18 de setembro.

João Pedro Soares

É jornalista freelancer, correspondente da Deutsche Welle no Brasil e sócio da Agência Andante

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