CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023
Câmera yanomami
Um documentarista indígena sonha com o Oscar
Pedro Tavares | Edição 202, Julho 2023
Uma das mais conhecidas e respeitadas lideranças indígenas do Brasil, o yanomami Davi Kopenawa é muito procurado por jornalistas na sua aldeia de Watoriki (região do Rio Demini), na divisa entre Amazonas e Roraima. No início dos anos 2000, sempre que uma equipe de filmagem chegava à aldeia, o agente de saúde indígena Morzaniel Ɨramari, também do povo Yanomami, aproximava-se para acompanhar o trabalho dos cinegrafistas.
A equipe da Hutukara Associação Yanomami, de Boa Vista, notou o entusiasmo de Ɨramari pelas gravações e decidiu convidá-lo a participar do projeto Pontos de Cultura Indígena, parceria do governo federal com o Vídeo nas Aldeias – promovido por uma organização não governamental para estimular oficinas audiovisuais em diferentes aldeias indígenas.
Em 2009, ele recebeu um kit com equipamento de produção audiovisual. Abriu o pacote com todo cuidado. “Quando peguei a câmera, eu estava segurando uma criança. A minha criança. Na hora, agradeci a todo mundo e me emocionei muito”, lembra Ɨramari, de 43 anos. No ano seguinte, ele concluiu sua formação pelo projeto e começou a carreira de diretor, que agora chama a atenção em festivais no Brasil e no mundo, com o documentário Mãri hi – A Árvore do Sonho, seu segundo curta-metragem.
Em abril, o filme de Ɨramari levou o prêmio de melhor documentário brasileiro de curta-metragem no festival É Tudo Verdade, em São Paulo. A distinção habilita o filme a se inscrever na disputa do Oscar na categoria documentário de curta-metragem, dada a qualificação do festival pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, dos Estados Unidos. No dia 14 de junho, o diretor desembarcou na Inglaterra para a exibição de A Árvore do Sonho na seleção oficial do Sheffield DocFest, mas fora da mostra competitiva. Foi o oitavo festival de cinema de que participou no primeiro semestre. No dia 29, a 35a Bienal de São Paulo anunciou que Ɨramari é um dos nomes convidados para a mostra de arte, que será aberta em setembro.
Foi entrevistando os xamãs, conversando com a população da aldeia e filmando os rituais de seu povo que Ɨramari estreitou a relação com a câmera e com a linguagem cinematográfica. Esse ambiente familiar inspirou sua primeira produção, o curta Xapiripë Yanopë – Casa dos Espíritos, de 2010. Em 2014, dirigiu o primeiro longa-metragem, Urihi Haromatimapë – Curadores da Terra-Floresta, que ganhou o prêmio de melhor filme do festival Forumdoc.bh, em Belo Horizonte.
Depois de um hiato de nove anos – quando se dedicou a outras atividades –, Ɨramari lançou Mãri hi – A Árvore do Sonho, em parceria com a Aruac Filmes, a Hutukara Associação Yanomami e o Instituto Socioambiental. Narrado por Kopenawa, o curta-metragem de 17 minutos fala sobre os sonhos, que segundo os yanomamis são uma das formas de comunicação com a natureza. “Quando as flores da árvore Mãri nascem, nós sonhamos.” As visões que os xamãs têm nos sonhos são sinais enviados pela floresta – pedidos de ajuda, alertas e ensinamentos. Depois, eles repassam a mensagem ao seu povo. “Para mim, esse filme representa a luta para defender a nossa terra. O filme é o meu sentimento”, diz o diretor.
A Árvore do Sonho faz parte de um projeto maior, chamado A Queda do Céu – título de um livro de Kopenawa e do antropólogo francês Bruce Albert –, desenvolvido pelo casal de diretores Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha. Além de A Árvore do Sonho, outros dois curtas foram lançados em 2023 pelo projeto, ambos dirigidos por Aida Harika, Roseane Yariana e Edmar Tokorino: Yuri u Xëatima Thë – A Pesca com Timbó e Thuë Pihi Kuuwi – Uma Mulher Pensando. Harika e Yariana são as primeiras mulheres yanomamis a assinar a direção de produções cinematográficas.
Além de produzirem os curtas-metragens, Rocha e Cunha estão realizando um longa-metragem sobre os yanomamis, que deve ser lançado no ano que vem. “Dirigir um filme é seguir sonhando com a criação todos os dias, desde o primeiro desejo até ele explodir na tela. Nesse sentido, como artistas, nos entremeamos aos yanomamis”, diz a diretora, sobrinha-neta da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, que atua há décadas na defesa dos direitos dos povos indígenas.
A repercussão dos filmes feitos por indígenas vem despertando o entusiasmo de jovens yanomamis pelo cinema. Gabriela Carneiro da Cunha está estudando até mesmo a viabilidade de criar um polo audiovisual yanomami, para formar novos cineastas nas aldeias. Ela aponta Ɨramari como o grande inspirador da juventude: “Morzaniel tem desempenhado um papel fundamental de fomentador do cinema yanomami junto aos jovens, abrindo novos caminhos.”
O risco de que esses filmes possam escapar à compreensão do público que não tem conhecimento prévio da realidade dos povos amazônicos não parece preocupar os diretores. “Estamos trabalhando para que cheguem ao maior número de pessoas possível, dos mais diversos grupos”, diz Eryk Rocha – que é filho de Glauber Rocha. “Entendemos que este é um momento em que as bolhas podem ser furadas, dada a importância geopolítica da Amazônia, dos yanomamis e dos povos indígenas para o Brasil e para o mundo.” Os curtas realizados pelos yanomamis também abordam os problemas graves enfrentados por seu povo, sobretudo com o avanço do garimpo durante o governo Bolsonaro.
Perguntado sobre o que diria na entrega do Oscar, se seu curta fosse premiado, Ɨramari apelou ao sentimento de solidariedade dos espectadores de todo o mundo: “Eu falaria assim: ‘Olá, meus amigos e autoridades presentes. Eu estou muito feliz que todos vocês estão assistindo meu filme para conhecerem a nossa imagem. Não é só assistir, têm que sentir o que nós estamos vivendo na terra yanomami. É muito importante o apoio de vocês.’”
Leia Mais
