García Márquez, Vargas Llosa, Fuentes e Cortázar: “Hoje não existe no mundo nenhum romancista mais jovem comparável a vocês” CRÉDITO: JULIO CESAR IBARRA_2024
Cartas dos compadres
A efusiva correspondência entre os principais autores do boom latino-americano
Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa | Edição 211, Abril 2024
Introdução de Alejandro Chacoff
Tradução de Rubia Goldoni e Sérgio Molina
Ao longo de muitos anos, quatro escritores – o mexicano Carlos Fuentes, o colombiano Gabriel García Márquez, o argentino Julio Cortázar e o peruano Mario Vargas Llosa, o único ainda vivo – trocaram inúmeras cartas entre si, tratando sobretudo de suas próprias obras, mas também de amizades em comum, fofocas do meio editorial, a situação literária e política do continente. Até um potencial livro a quatro mãos foi debatido por García Márquez e Vargas Llosa, embora nunca concretizado.
Em 2023, foi lançada na Espanha e em alguns países da América Latina a coletânea Las cartas del boom, que reúne essa correspondência entre os autores, abarcando seu período mais intenso, de 1955 a 1975, e também as trocas mais raras de anos posteriores (a última carta, de 2012, foi enviada por Carlos Fuentes para parabenizar García Márquez por seus 85 anos). A piauí publica a seguir, pela primeira vez em português, uma seleção dessas cartas, trocadas pelo grupo entre 1964 e 1967. Era talvez o auge do boom e um período fecundo para os autores, que haviam publicado – ou estavam prestes a publicar – romances agora tidos como clássicos (A morte de Artemio Cruz, de Fuentes; O jogo da amarelinha, de Cortázar; A cidade e os cachorros, de Vargas Llosa; e Cem anos de solidão, de García Márquez).
DE CARLOS FUENTES
PARA JULIO CORTÁZAR
México, 18 de janeiro de 1964[1]
Julio querido e admirado:
Enfio o nariz no meio de O jogo da amarelinha: era esse o cheiro que tinham, na minha infância, os cones de papel branco em que os vendedores de raspadinha derramavam essências de laranja e framboesa, de chocolate e tamarindo. E no Tabuleiro de leitura escrevo apressadamente, a lápis: “Este livro é a caixa de Pandora.” E as páginas finais, em branco, contêm outro romance em que persistem – por que não? – as presenças (não digo as vidas nem os personagens) de Talita e Manú, da Maga e de Holiveira, Rocamadour e Morelli.[2] E as anotações à margem também são uma segunda, terceira, infinita galeria de cada capítulo. Acabo de fechar o livro, hoje de manhã. Por onde começar? Que é que eu posso te dizer? Que nunca, na literatura latino-americana – e digo pouco –, vivi mais intensamente um romance? (Por que o chamo assim? É romance o dia que passei segurando tábuas em Buenos Aires; a noite que passei, com um misto de riso e náusea na garganta, acompanhando Berthe Trépat no seu concerto de sonâmbulos e no seu sonho de ruas parisienses? É romance a obsessiva continuidade da vida sem passado nem presente, tudo hoje, nada ontem, nada amanhã, dessa totalidade em que tudo está sendo, superando os limites convencionais para se prolongar no presente de Carlos Fuentes, no que ele diz, faz e escreve?) Ainda não posso me sentar para escrever sobre um livro que nunca voltará às prateleiras, ao lugar de Julio Cortázar na ordenada sucessão nacional e cronológica em que Os prêmios e Final do jogo[3] estão entre O sonho dos heróis e Uno.[4] O que teria a fazer O jogo da amarelinha numa estante? Vou pôr lá meu aparelho digestivo, as funções dos meus rins, o sonho que tive ontem ou terei amanhã, o gesto da minha mão ao parar um táxi na rua, o preservativo usado duas noites atrás, minha máquina de escrever, o aroma dos tejocotes que começam a florir no meu jardim, o que mais? Sim, vou escrever um ensaio, porque preciso falar de O jogo da amarelinha para os outros, vou publicá-lo, enviá-lo para você, talvez te interessem algumas ideias bem polidinhas e expressas sem erros de sintaxe em que eu tente ordenar a experiência do teu livro magistral, mas então terei assassinado um pouco a vida das tuas páginas (e sua não vida, tão importante também), e estou quase chorando porque sacrifico Talita e Manú, Maga e Hhhhholiveira ao me referir a eles num ensaio literário, hoprobioso, hinútil, hortográfico. E como vou continuar a escrever meu novo romance sem que nele apareçam as presenças de O jogo da amarelinha, os primeiros seres liberados do romance latino-americano, como vou fazer para que a minha Ligeia[5] não diga que quando morou em Buenos Aires conheceu a Talita ou a viu tomando chá com biscoitinhos? Não sei, não sei, não sei. Que frio horrível, disse Oliveira. All I want’s a little lovin’ before you pass away (Tudo que eu quero é um pouco de amor antes de você morrer). A leitura abolirá o tempo do leitor e o transferirá para o do autor. A “alma” é a alma de um corpo que não existe. O romance cômico (e o que é o Ulisses?). Habituado sem saber aos ritmos da Maga. Há cenas que começam às seis da tarde e acabam às cinco e meia. Um nojo. Mas claro, maninho, disse Oliveira. O terrível gesto do Adão de Masaccio.[6] Sabe, Julio, don Cefe tem razão: é preciso perguntar que coisas faltam no mundo e nomeá-las e pronto. Uma garota me disse em Punta del Este: “Gagarin foi largado no cosmos.” Mas a única coisa que vai nos salvando é o cheiro de xixi desse menino. As palavras, para Horacio (questão já mastigada em muitas horas de insônia: Good night, sweet prince, and flights of angels sing thee to thy rest [Boa noite, doce príncipe, que os anjos venham em coro lhe embalar o sono]). Um macaco olhando seu reflexo na água no primeiro dia do mundo: essa eu vou roubar, che, isso não vai ficar assim. Até a distração salvar a Maga da intensidade. Sim, encontraria a Maga? Ahã, disse Ovejero para animá-lo: encontraria a Maga? Morte ao cachorro – disse o 18, 1, 131, 58: que alucinação: quantos planetas com vida há no universo? A que distância fica Andrômeda? Quem está escrevendo neste instante O jogo da amarelinha num lugar meio fodido que decidimos chamar de Tau Ceti ou Epsilon Eridani?
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Várias horas depois.
O Cohen[7] está reunindo os textos para uma antologia da Penguin que vai se chamar New Latin American Writing (Novos escritos latino-americanos) e exige os teus contos rapidamente, sobretudo As armas secretas.
Murena[8] não é nem sequer um filho da puta, pois, apesar de tudo, estes foram gerados e nasceram inteirinhos, mesmo quando a fórceps; também não pode ser chamado de pendejo, porque essa categoria tem por trás a dignidade de todo um folclore. Acho bom você consultar don Cefe para encontrar um novo nome. Putejo? Penduta? Fácil demais. Qualquer nome o dignifica, e eu, como certo personagem de Joyce, outro dia limpei o cu com uma página da Cuadernos e depois nem me deu diarreia.
Que engraçado: o senhor Arciniegas[9] me mandou uma cartinha mimeografada pedindo para eu votar no melhor romance hispano-americano de 1963. Já mandei a resposta e o voto.
Posso mandar um beijo de longe para a Aurora? She was there, wasn’t she? (Ela estava lá, não estava?)
Teu amigo, admirador e – que alegria! – contaminado pelo pecado original da América,[10]
Carlos Fuentes
DE JULIO CORTÁZAR
PARA CARLOS FUENTES
Paris, 2 de fevereiro de 1964
Meu querido Carlos:
Quando a gente recebe uma carta como a tua, fica atordoado, sem querer acreditar que seja possível, virando-a por todos os lados para se certificar de que é realmente uma carta do Carlos dizendo tudo isso que ele diz. Sabe, você me deu uma dessas alegrias que levam a gente a abrir as janelas de par em par mesmo que esteja nevando e sentir que nem tudo está perdido, que valeu a pena passar quatro anos escrevendo garranchos, pois em algum canto do mundo há um irmão, alguém que entende e que compartilha e que anima. Olha, não é só por você ter gostado tanto do meu livro; acho que é algo que vai além da coincidência em certos modos de sentir a vida e a palavra. Tua carta é como uma pulsação, uma coisa muito viva; é esse abraço que depois, quando nos encontramos vez ou outra, não sabemos nos dar com os braços porque sempre há algo que nos freia e nos inibe, e no fim falamos de um monte de coisas que no fundo não são aquilo que poderíamos falar e que nossos livros, em compensação, falam por nós. Aí está, é isso. Você deve estar lembrado de uma carta muito longa que te mandei quando saiu La región;[11] eu também, embora lembre de ter feito algum reparo aqui e ali, estava profundamente impactado pelo teu romance, sentindo como se fosse uma reconciliação com o melhor da minha América do outro lado do mar. E agora você me diz todas essas coisas de O jogo da amarelinha e me dá uma felicidade que no fundo é o melhor que nós escritores podemos esperar. Nem preciso dizer que me deslumbra a ideia de que você escreva alguma coisa sobre meu livro, mas tua carta, Carlos, já basta ao meu coração.
Por falar em La región, já vi nas livrarias a versão francesa do romance, que me pareceu muito bem apresentada. Sem dúvida, a coleção Du Monde Entier é muito mais bonita que La Croix du Sud, e principalmente mais simpática, menos certinha. Não sei o que você vai achar da tradução; eu, para minha sorte, posso te ler rente e direto – derecho viejo, como diz o tango. Bom, a propósito do Cohen, que você voltou a mencionar, imagino que a Sudamericana deve ter enviado meus livros para ele, sem contar que já trocamos algumas cartas. Teu voto vai provocar urticária no Arciniegas; alguém me contou que no meio de uma reunião semipública da revista um francês (ninguém sabe quem) se levantou e pôs todo mundo abaixo de zero por causa do artigo do Murena sobre meu livro. Acho engraçado ter um amigo anônimo pronto para lhes dizer poucas e boas. Mas no fundo essa resenha acabou sendo para o Murena como um bumerangue mal arremessado; achando que falava de O jogo da amarelinha fez um autorretrato desses que não tem como apagar. E qual a importância disso tudo? De tarde eu tomo meu matezinho sossegado e estou ótimo em Paris. Quando é que você volta? Quando vamos nos ver de novo para conversar sem pressa? A Aurora aceita teu beijo e o devolve. Ah, as mulheres. E eu te abraço com todo meu carinho,
Julio
DE MARIO VARGAS LLOSA
PARA CARLOS FUENTES
Paris, 18 de fevereiro de 1964
Querido Carlos:
Só umas poucas linhas para avisar que o júri espanhol te indicou para o Prix International, junto com Carpentier, Cortázar e Asturias. Hoje à tarde me telefonou, de Barcelona, José María Castellet, presidente do júri. É que procuraram lá, em vão, A morte de Artemio Cruz,[12] e ele me pediu que enviasse alguns exemplares. Só que, infelizmente, o livro não se encontra em nenhuma das duas livrarias espanholas de Paris, e eu não posso enviar meu exemplar, pois preciso tê-lo à mão, já que provavelmente vou ter que informar sobre ele em Salzburgo. Você não poderia enviar um ou dois exemplares para a editora Seix Barral, aos cuidados de José María Castellet ou Carlos Barral? O endereço é o seguinte:
Provenza 219
Barcelona 8
Espanha
Saiu a versão francesa de La región más transparente. Na próxima semana vamos fazer um longo programa de rádio comentando teu livro, que será transmitido na sexta. O André Camp, que viaja ao México no início de março, vai te levar a gravação. Ontem à noite falei com Hubert Juin, de Les Lettres Françaises, e ele me disse que estava entusiasmado com teu romance. Se a Gallimard não te mandar os recortes, me avise, que eu mando.
Desculpe a precipitação desta carta, mas quero que chegue o quanto antes, e o correio já deve estar para fechar.
Lembranças afetuosas à tua esposa e um forte abraço para você,
Mario
Mudei de casa; ou melhor, voltei àquela que eu tinha antes, na 17, Rue do Tournon, Paris VIe.
DE CARLOS FUENTES
PARA MARIO VARGAS LLOSA
México, 29 de fevereiro de 1964
Querido Mario:
Acabo de terminar A cidade e os cachorros, e é difícil saber por onde começar a te escrever. Sinto inveja, do bem, diante de uma obra-prima que, de uma tacada só, leva o romance latino-americano a um novo nível e resolve mais de um problema tradicional da nossa narrativa. Falando com o Cohen, em Londres, concordamos em que o futuro do romance está na América Latina, onde tudo está para ser dito, para ser nomeado, e onde, felizmente, a literatura surge de uma necessidade, e não de um arranjo comercial ou de uma imposição política, como tantas vezes acontece em outros lugares. Agora, ao ler um após o outro O século das luzes, O jogo da amarelinha, Ninguém escreve ao coronel e A cidade e os cachorros, sinto meu otimismo confirmado: acho que não houve no ano passado outra comunidade cultural que tenha produzido quatro romances dessa categoria. A penosa ascensão narrativa através dos romances impessoais ou documentais, da selva e do rio, da revolução e da moral ilustrada nos permitiu chegar a um Carpentier, que transforma essa matéria documental em mito, e através do mito, o americano se torna o universal. Mas a plena personalização do romance latino-americano (num duplo sentido: personagens vivos vistos sob a perspectiva pessoal de um escritor) só é alcançada, acho, em A cidade e os cachorros. Para que vou te dizer o que me impressionou na tua maravilhosa obra? O mistério autêntico, secreto, da obra; a incrível encarnação de todos os problemas colocados na atualidade dos personagens, de modo que o relevo moral da obra corre paralelo à trama romanesca e é inseparável dela: você matou, para sempre, nossa terrível disposição para o comentário, a lição de moral, o sermão: não há nada na tua obra que não se depreenda tacitamente da própria ação, e é tanto o que se depreende! O que não se poderia encontrar na tragédia personificada por Alberto e o Jaguar, Teresa e o Jiboia, o flaco Higueras e Gamboa?: a primeira grande criação literária de uma cidade, Lima, e sua gente; o melhor romance latino-americano sobre a adolescência, mas também um grande romance universal sobre o mito doloroso da promessa, da juventude, da idade de ouro mentirosa e esplêndida na qual tantas coisas são prenúncio nunca realizado, plenitude de atos que a convivência não admite depois, pesadelo ao qual se sobrevive por milagre: a adolescência que não pode ser conservada, a maturidade que não vale a pena conservar: esse contraste soberbo que Gamboa oferece; a pulverização dos mecanismos internos de todas as nossas castas militares, sim, mas a revelação de todos os cordéis dos códigos de autoridade que o homem criou para mascarar sua vida, para não ser; as idades da imaginação, a reinvenção da realidade nos sonhos e nos atos dos teus seres… São tantas coisas. E já disse: tragédia. Eu suspeitava, encontrei o outro polo, o romance cômico, no esplêndido O jogo da amarelinha, do Julio. Agora você demonstra algo que eu só intuía em teoria: é possível resgatar o tema trágico no nosso tempo. Alguns críticos, como [George] Steiner, pensam que a linha do pensamento judaico-progressista, de Jeová a Freud passando por Marx, secou a fonte da tragédia em nome das necessidades da justiça. O encontro com o destino, em Tebas ou em Gaza, cega e destrói. O encontro com a injustiça, em Jerusalém ou Petrogrado, exige compensação. Nosso destino deixou de fluir na vida para se petrificar na história. Mas justamente o fracasso das ideologias, as contradições da práxis, todo o paradoxo que nega a tragédia e sai a combater a injustiça e implantar a razão, para amanhecer com as mãos manchadas de injustiça em nome da justiça e os olhos cegados, outra vez, pela loucura invocada em nome da razão, não nos conduz de novo, fatalmente, a uma visão trágica do homem e da história? E não é essa visão trágica a única capaz de abraçar a realidade, sim, da vida exterior, política, econômica, histórica, junto com a realidade, também, que o dualismo degenerado, materialismo versus idealismo, tentou negar em detrimento da verdadeira dialética: a realidade das perguntas metafísicas? O jogo da amarelinha no extremo do grande romance cômico, na linha de Pantagruel e Ulisses, e A cidade e os cachorros no extremo do grande romance trágico rompem essa suposta impossibilidade e seus produtos (os romances de costumes, de edificação, de discussão civilizada ou de denúncia rasa), e tornam a abrir a grande avenida da criação. O extraordinário é que o teu livro e o do Julio significam uma superação definitiva não apenas na América Latina, mas no mundo. Sem esquecer – desculpa a confusão destas linhas – outro feito magnífico de A cidade e os cachorros: essa assimilação perfeita da renovação técnica à matéria romanesca, essa ausência de forma gratuita, de experimentação consumida em si mesma (e aqui há muito de autocrítica). Por tudo isso, querido Mario, obrigado.
Falei do teu livro por meia hora num programa de tevê, e ele se esgotou numa semana.
Já consegui que a Fondo enviasse para Castellet e Barral os exemplares de Artemio Cruz.
Você não vem ao México com o General?[13] Quando você e a Julia quiserem, têm uma suíte à disposição na minha nova guarida, que parece projetada por um Heathcliff-Drácula. So don’t hesitate.
Como vai a nova obra? Que tijolo você tem em cima!
Quando vai ser a discussão de Salzburgo?
Te abraça com enorme admiração teu amigo,
Carlos Fuentes
DE MARIO VARGAS LLOSA
PARA CARLOS FUENTES
Paris, 7 de abril de 1964
Querido Carlos:
É imperdoável que eu só responda agora à tua carta, tão generosa e tão comovente. Tudo o que você diz nela sobre meu romance me emocionou profundamente, e sempre que fico deprimido a releio como quem toma um estimulante. Também acho que hoje o foco nevrálgico da narração está na América Latina e que é aí que têm de nascer a energia, os mitos, os procedimentos capazes de salvar o gênero, que aqui na Europa todos parecem decididos a liquidar de um jeito ou de outro. É realmente desanimador ler os romances franceses contemporâneos; são de uma frivolidade irritante, e a gente sai deles meio asfixiado de tédio. França, Itália e Alemanha apresentaram como candidato ao Prix International um romance de Nathalie Sarraute em que se fala confusamente sobre um confuso romance de um autor confuso. Não é de estranhar que o autor mais lido, segundo uma pesquisa recente, seja Hervé Bazin, um medíocre imitador de Balzac. Daí minha empolgação ao ler tuas declarações no L’Express, em cujas páginas Robbe-Grillet afirmou algumas semanas atrás “que a literatura não tem nada a dizer” e que seu “domínio exclusivo é a criação de novas formas”. Decididamente não, de modo algum podemos admitir que esses babões façam com o romance o que fizeram com a pintura. Acho formidável que você tenha dito que o problema dos escritores latino-americanos é dizer no romance o que a história e a política não dizem.
Esta tarde, passando por uma livraria do Quartier Latin, vi o livro que te envio nesta mesma correspondência; já conhecia teu excelente ensaio, mas não os outros.[14]
Estive trabalhando todo este tempo em marcha forçada, tentando enxugar um pouco o romance que terminei.[15] Tem uma dimensão exagerada para seu tema e ainda não estou nada contente com ele. Não sei se você viu na imprensa que, faz alguns dias, o glorioso Exército peruano se mobilizou na Amazônia contra uma tribo de supostos selvagens. Bombardearam suas aldeias com napalm, devem ter feito uma carnificina feroz. Meu romance está situado justamente nessa região, onde estive faz alguns anos. É uma mentira abjeta que os aguarunas e os achuales sejam tribos belicosas. A única coisa belicosa que existe lá são as guarnições de fronteira, de onde saem periodicamente nossos valentes oficiais para se abastecerem de indígenas que primeiro usam como concubinas e depois como empregadas. Jum, um cacique aguaruna que conheci, foi pendurado por dois dias no mastro de uma bandeira pelos militares e seringueiros, em Nieva, que depois o rasparam e queimaram suas axilas com ferros em brasa, por ter tentado organizar na sua tribo uma cooperativa para acabar com a exploração dos seringueiros. Para você ver quem são os verdadeiros selvagens. Mas é assustadoramente difícil escrever sobre essas coisas, justificá-las literariamente, torná-las verossímeis. A realidade peruana é demagógica, irreal, é preciso buscar formas extremamente complexas (barrocas, como você diz) para transpô-la a uma narração sem cair no esquematismo ou num panfleto.
Bom, querido Carlos, mais uma vez, obrigado pela tua carta. A reunião de Salzburgo começa em 28 de abril; no fim os candidatos de língua espanhola são você, Cortázar e Carpentier. Eu te escrevo de lá. Depois, em 7 de maio, vou ao Peru por algumas semanas, à selva. Quero ver de novo o Jum, se é que o coitado ainda está vivo.
Como vai o teu romance? Quais os teus projetos?
Um forte abraço para a Rita [mulher de Carlos Fuentes] e para você da Julia, e outro meu,
Mario
Assim como você, eu me mudei de novo. Agora moro em
17, Rue de Tournon
Paris VIe
DE JULIO CORTÁZAR
PARA MARIO VARGAS LLOSA
Genebra, 18 de agosto de 1965
Querido Mario:
Esta máquina não tem acentos; vou acrescentar à mão quando reler a carta, mas me desculpe se faltar algum. Estou devolvendo o romance por pacote registrado, e espero que você receba as duas coisas sem demora. Deixei passar uma semana depois da leitura do teu livro, porque não queria te escrever sob o arroubo de entusiasmo que A casa verde me provocou. E, no entanto, agora que vou dizer algumas coisas sem pensar demais, deixando a máquina voar quase a seu bel-prazer, sinto que o entusiasmo não apenas não diminuiu, mas se consolidou, tornando-se o que todo romancista quer para sua obra: lembrança, memória segura e firme. Queria te dizer, em primeiro lugar, que uma das horas mais gratas que o futuro me reserva é a da releitura de teu livro quando estiver impresso, quando eu não tiver que pelejar com esse “a” partido ao meio que tua maldita máquina tem (joga ela na rua, do 14o andar, vai fazer um barulho extraordinário e a Patricia vai achar muita graça, e na manhã seguinte você vai encontrar todos os pedacinhos na calçada e será ótimo, sem falar no estupor dos vizinhos, pois na França as-máquinas-de-escrever-não-se-jogam-pela-janela).
Sim, ler o teu livro impresso vai ser uma grande maravilha, porque voltarei a viver a longa viagem de Fushía e Aquilino, que considero a viga mestra do edifício, ou melhor, o fio condutor de toda a tapeçaria, como nos diagramas geográficos a linha do nível do mar parece reger todas as curvas ascendentes e descendentes, as montanhas e as fossas submarinas. E voltarei a me encontrar com Bonifacia e com Lituma, com Nieves e com Lalita, para mim os personagens mais vivos e mais bem construídos do romance depois de Fushía ou a par dele. Repare que com isso, ao soltar umas primeiras impressões quase passionais, já estou dando uma opinião sobre o livro; mas acho que antes de continuar preciso te dizer algo sobre a totalidade da obra. Bom, Mario Vargas Llosa. Agora vou dizer toda a verdade: comecei a ler teu romance morrendo de medo. Porque admirei tanto A cidade e os cachorros (que secretamente continua sendo para mim “Os impostores”)[16] que eu tinha um quase inconfessado temor de achar o teu segundo romance inferior e que chegasse a hora de ter que dizer isso a você (pois não deixaria de dizer, acho que nos conhecemos). Na décima página, acendi um cigarro, me acomodei na poltrona, e todo meu medo sumiu de repente, substituído de novo por aquela mesma sensação de maravilhamento do meu primeiro encontro com Alberto, com o Jaguar, com Gamboa. Quando cheguei aos primeiros diálogos de Bonifacia com as freirinhas, já estava totalmente dominado pela tua enorme capacidade narrativa, por isso que você tem e que te faz diferente e melhor que todos os outros romancistas latino-americanos vivos; por essa força e esse luxo romanesco e esse domínio da matéria que imediatamente deixa qualquer leitor sensível num estado muito próximo da hipnose (e isso não significa perda de lucidez, mas a passagem a uma outra forma de lucidez, que é o milagre de todo grande romance, de um Lowry ou um Joyce Cary ou um Dostoiévski, e não fique vermelho, peruaninho, que eu não elogio ninguém à toa, mesmo que seja um amigo muito querido).
A essa altura, a Aurora já tinha se apossado do primeiro caderno e me seguia de perto, portanto terminamos o livro quase ao mesmo tempo e pudemos falar muito e criticar tudo o que achávamos criticável, e nos controlar mutuamente para evitar as ingenuidades ou os entusiasmos excessivos ou passageiros. Para mim foi uma grande alegria que minha mulher sentisse exatamente o mesmo que eu, porque ela é uma crítica severa e tem sobre mim a vantagem de ser mais desapaixonada e tomar suas distâncias e julgar objetivamente. Quando senti que ela reagia como eu, as poucas dúvidas que pudessem restar sobre a minha primeira impressão se dissiparam por completo. Hoje, muitos dias depois da leitura, continuamos falando no mesmo tom do primeiro dia. Você escreveu um grande romance, um livro extraordinariamente difícil e arriscado, e seguiu em frente por todo lo alto, como diria um dos nossos colegas espanhóis. Rio com perversidade ao pensar nas nossas discussões sobre Alejo Carpentier, que você defende tão encarniçadamente. Mas rapaz, quando teu livro sair, O século das luzes ficará automaticamente situado nisso que eu te disse, para teu escândalo, no canto dos trastes anacrônicos, dos brilhantes exercícios de estilo. Você é a América, a tua é a verdadeira luz americana, seu verdadeiro drama, e também sua esperança, na medida em que ela é capaz de fazer o que você é.
Talvez te incomode este tom um pouco exaltado. Tudo bem, vou baixar o registro e falar profissionalmente, sem esquecer as críticas que me ocorrem à mente e sobre as quais voltaremos a falar quando nos encontrarmos. Mas como também ocorre que o romance me interessa profissionalmente, tem algo que preciso te dizer de saída, sem tirar nem pôr: no plano técnico, A casa verde é maravilhoso. Eu não sei se alguém já usou o recurso dos flashbacks que você incorpora à ação presente; não me lembro de nenhum exemplo e penso que você inventou o procedimento. Quando percebi isso pela primeira vez (Fushía e Aquilino falam na barca, Aquilino quer saber como Fushía fugiu da prisão, e aí mesmo segue um diálogo entre Fushía e seus companheiros de fuga, para em seguida voltar ao diálogo no presente, e depois outra vez ao passado), tive uma impressão quase vertiginosa. Compreendi que você conseguia uma télescopage do tempo e do espaço, que com isso poupava ao leitor um monte de ideias e situações intermediárias, que tocava o essencial do narrativo, essa escolha do que é realmente significativo e necessário, que todo grande romancista consegue à sua maneira. A esse primeiro acerto técnico, que continuo achando cada vez mais extraordinário, se somam muitos outros análogos; a irritante, às vezes exasperante ambiguidade dos planos do tempo, que exige do leitor uma atenção vigilante, os episódios que coexistem num só momento da narrativa por haver uma relação analógica entre eles, e por isso é natural que você os aproxime (natural, mas exige feitura, e é difícil, como na narração paralela da morte de Toñita e do aborto de Bonifacia). É curioso, mas quando eu ia chegando ao final do livro, antes do epílogo, fui tomado por uma sensação que poucas vezes tive ao ler romances; a de que havia como que uma estrutura musical muito complexa, no sentido em que um poema sinfônico pressupõe temas entrelaçados, de modo que o ouvido, apesar de percebê-los consecutivamente, pode alcançar graças à distribuição, aos timbres, aos desenvolvimentos e aos leitmotivs, algo assim como uma estrutura simultânea, um enorme pedaço de música petrificada em que tudo o que fluía se organiza numa imensa tapeçaria suspensa diante dos olhos – do ouvido, se quiser – como uma vivência total e simultânea. Não sei me explicar melhor, mas penso que, enquanto alinhavava os temas, os subtemas, as infinitas recorrências e ressonâncias do romance, você entrou, sabendo ou não, numa dimensão musical. Não entenda isso em termos de uma influência, claro (acho que você não é muito melômano), mas sim de uma analogia “estrutural”. Eu, que sou um melômano inveterado, não acho outro jeito de dizer até que ponto a trama do teu livro me parece uma espécie de potencialização, de projeção para esse plano da arquitetura sonora, sem a qual nenhuma obra humana (plástica, literária ou poética) pode superar suas limitações. Em todo caso, do ponto de vista da estrutura narrativa, teu livro é um dos mais complexos e provocadores que li nos últimos anos.
Prometi as críticas, e passo a elas para não continuar elogiando de uma maneira que possa parecer indiscriminada. A primeira observação vem de Aurora, e eu concordo com ela. Não gostamos do título do livro. É pitoresco e muito aquém de tudo o que nele acontece. Sei bem que um título é uma coisa difícil, mas tente imaginar outro. Eu gostaria de te sugerir algum, mas não me vem nenhuma ideia. E agora, passando aos personagens, talvez te surpreenda saber que, para mim, Anselmo não está bem construído. Digo que talvez te surpreenda porque para você, em certo sentido, ele deve ser o próprio eixo do livro, sem contar que o epílogo está centrado nele. Pois bem, não consegui “viver” o Anselmo. Assim como Lituma esbanja vida, e Bonifacia, e Fushía, e os inconquistáveis todos, e Lalita, acontece que vejo o Anselmo… literariamente. Não entendo muito sua chegada, a fundação do prostíbulo, sua decadência, me incomoda um pouco quando está velho e trabalha para a filha, não chega a me emocionar seu amor pela cega nem sua morte. Eu me pergunto por que isso, e talvez descubra quando voltar a ler o livro.
Em linhas gerais, sinto como se a segunda parte do romance fosse um pouco inferior à primeira, mas é que do início até a metade há tamanha variedade e força em tudo o que acontece que a gente fica meio acabrunhado, e pode ser que nesse ponto pese algum cansaço até físico. Não se preocupe com esta observação, que pode ser subjetiva demais. Acho também (fiz uma anotação para lembrar o lugar exato, mas perdi) que algumas referências “explicativas” são completamente desnecessárias, a menos que sejam irônicas e eu não tenha percebido a intenção. Por exemplo, uma passagem em que você fornece alguns dados geográficos sobre o Marañón (ou outro rio, mas acho que é mesmo o Marañón) e se estende em um ou dois parágrafos que parecem intercalados didaticamente, e por isso me incomodam. Justamente, o que é ótimo no livro (eu comentava isso com o Deustua[17] ontem) é que a descrição da natureza, fundamental no romance, está de tal maneira fundida à ação que nunca se percebe que você está mostrando ao leitor como é uma clareira na mata, uma curva do rio, uma rua da cidade. Existe apenas uma atmosfera em que tudo ocorre simultaneamente, cenários e ações, que é o mais difícil, e digo isso por amarga experiência própria. O clima geral do livro (secura e areia e vento, ou calor úmido e bichos e pântanos) surge com uma força tremenda, e quando, vez por outra, parei para analisar algumas páginas e ver qual era a acumulação de detalhes que provocava essa força, vi aquilo que comentei acima, ou seja, que te basta contar do teu jeito para que tudo se dê numa mesma instância narrativa, sem essa separação escolar entre “descrição” e “ação” que é própria do romancista comum.
Falando de descrição, acho que, assim como na edição de A cidade e os cachorros a Seix Barral incluiu a foto do Colégio Leoncio Prado,[18] seria muito bom se A casa verde incluísse um mapa. Os não peruanos teriam grande prazer em localizar melhor o cenário geral do livro, e acho – é uma ideia da Aurora, que, como você pode ver, colabora bastante nesta carta – que, se a capa fosse um grande mapa de toda a Amazônia (abarcando a lombada e a contracapa), isso evitaria o que um mapa no interior do livro poderia ter de pedante ou “científico”, e ao mesmo tempo daria ao leitor a grata possibilidade de localizar Iquitos ou de imaginar a barca de Aquilino em algum trecho do rio. Acho também que um pequeno glossário não seria inútil; as diversas tribos indígenas e umas cinquenta palavras-chave do livro mereceriam uma explicação. Dá para ir pegando o sentido pelo contexto, mas você há de entender que nós, os não peruanos, ficamos às vezes um pouco perdidos. Silabario puta, soldado carajo, che. Chuncha de la madre, calato, gamitana ou zúngaro, silabario jodido, che Mario.[19]
Uma última coisa: acho que você nunca dá o verdadeiro nome ao Pesado, mas no fim, quando ele se casa com Lalita, você dá seu sobrenome, e o leitor fica desconcertado, até que o reconhece. Ou você suprime o sobrenome (acho que seria a melhor opção, porque a essa altura a gente já fez amizade com o Pesado, e ele só tem esse nome) ou o dá algumas vezes no início, para que não surpreenda no final.[20]
Bom, acho que por hoje chega. Espero não ter sido muito chato, mas quando nos encontrarmos (ouvi dizer que você está para vir a Genebra, e seria ótimo, porque nós vamos ficar até o dia 27 e talvez ainda desse para nos ver), voltaremos a falar muito do teu livro. Agradeço a confiança que você teve ao me mostrar em manuscrito; tomei a liberdade de emprestá-lo ao Raúl, que só tinha lido em parte e queria terminá-lo. Outros o pediram (o Girbau,[21] por exemplo), mas não cedi, porque não me sentia autorizado.
Peço desculpas pela improvisação desta carta, dá um beijo na Patricia de parte da Aurora e da minha, e um grande abraço deste teu irmão que se sente muito feliz por ter escrito esta carta,
Julio
Oleriny[22] me mandou um postal e disse que você não lhe mandou o livro. Pediu para eu “perder duas palavras em seu favor”. Imagino que, em tcheco, quer dizer que é para eu te lembrar que ele gostaria de receber o romance.
Não tenho aqui o endereço do Chermak[23] em Praga. Você poderia encaminhar para ele o bilhete que envio anexo? Muitíssimo obrigado.
DE CARLOS FUENTES
PARA MARIO VARGAS LLOSA
Nova York, 29 de setembro de 1965
a/c Bob Wool
25 Central Park West
New York
Querido Mario:
Estou aqui terminando e revisando minha nova obra, falando com o tradutor e o editor etc., e protegido da fúria do FBI por um passaporte oficial. Agustín Yáñez é o ministro da Educação no México e já me disse: “Se os gringos não o deixarem entrar, eu o enfio de contrabando.”
Vou embarcar daqui a duas semanas para Le Havre e passar alguns dias em Paris, depois seguir para Roma, onde fico até o final do ano, e voltar a Paris para lá viver os meses de janeiro e fevereiro, antes de seguir para Buenos Aires, onde acho que vamos trabalhar juntos no concurso de romances.
Espero te encontrar em Paris e conversar longamente sobre muitas coisas. Se o Julio estiver por aí, diz para ele que logo mais eu vou e que não pude responder sua maravilhosa carta sobre Cantar de ciegos[24] porque alguém, numa festa na minha casa, afanou – se la voló, como dizemos nós, astecas –, decerto para não deixar testemunho elogioso do meu livro. No México é muito chique me atacar – bom, o mesmo que acontece com você no Peru e com o Julio na Argentina. Ou você é vermelho e subversivo, ou é decadente e invertido, e todos com boa consciência. Ah, a latinidade!
Um abraço bem forte e até mais,
Carlos Fuentes
DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
PARA CARLOS FUENTES
México, 30 de outubro de 1965
Magíster:
Não consigo pensar num melhor jeito de comemorar ter chegado à metade do meu romance que respondendo à carta que você me mandou de Nova York. Começo dizendo que você é um malvado por estar em Roma neste sábado sombrio, mas com uma ponta de egoísmo até agradeço, pois, como já não tenho quem visitar, dedico o chá de domingo a escrever. Até encontrei o título do romance: Cem anos de solidão. O que acha?
Fiquei feliz com o que você me disse sobre meus livros na Harper & Row. De fato, ficaram com todos. Em função disso, dei instruções para a Carmen Balcells[25] lhes oferecer Cem anos de solidão sem pedir adiantamento. Acho que, quando virem o livro pronto, ela pode conseguir condições melhores.
Isto aqui virou um borbotão, magíster: finalmente achei a solução do ditador, com o título que você já conhece: O outono do patriarca. Lembra que o meu problema era dar todo o contexto sócio-histórico-econômico-político? Que bobagem! Uma noite dessas, lembrando do julgamento de Sosa Blanco,[26] encontrei a chave: o romance deve ser o monólogo do ditador, decrépito, fora do ar, surdo e já quase totalmente gagá, tentando justificar seus atos durante 92 anos no poder perante um tribunal popular que o julga no estádio de beisebol. Tudo em primeira pessoa, com as palavras do velho, com seus erros, seus lapsos mentais, suas tautologias, idiotismos, ingenuidades etc. Foi uma solução tão explosiva que posso ter o romance pronto em seis meses, e agora sim vai ficar fácil dar a ele a dimensão poética que estava tão difícil – ou impossível – de conseguir do outro modo. Você que me conhece pode imaginar como estou contente – e insuportável – com esse achado.[27]
Antes de sair dos assuntos literários, quero te pedir um conselho: a Sudamericana me escreveu pedindo exclusividade para todos os meus livros. Estamos fazendo grandes malabarismos para liberar os que já estão comprometidos, pois querem lançar todos simultaneamente em Buenos Aires e no México. Acontece que as conversas com a Seix Barral para o próximo já estavam adiantadas. Pergunto: será que eu perderia muito se, em vez de publicá-lo com o Barral, o entregasse para a Sudamericana? Acho que você pode me aconselhar quanto a isso, e peço que o faça.
A região mais transparente é também a mais tranquila desde que você foi embora. O Cuevas[28] sozinho não dá conta. E ainda bem, porque isso favorece minha clausura e solidão.
Apareceu por aqui, como sempre, o Rodríguez Monegal. Já deve ter escrito para você. Anda pelo mundo caçando colaboradores para uma revista ainda sem nome (alguma sugestão?), que deve substituir a Cuadernos.[29] Pelo jeito, o Emir conseguiu levar a melhor sobre o pessoal do Congreso por la Libertad de la Cultura e acha que poderá fazer uma coisa com critério bem amplo. Prometi colaborar.
Como você sabe, o concurso da Primera Plana vai ser em março. É do meu conhecimento que você está no júri. Fui convidado para um simpósio em Buenos Aires nessa data. O Emir tem a missão de achar um jeito para que nós, escritores antiaéreos, nos abalemos até a Patagônia. Eu vou de barco a vela, saindo daqui por volta de 20 de fevereiro. Queria saber se você vai estar no México ou pensa ir diretamente das Europas. Seja como for, acho que podíamos combinar a volta. Me conte as tuas ideias nesse sentido.
Sucesso nas projeções privadas de Tiempo de morir.[30] A Rita, que parecia comovida, já deve ter te contado como foi. Eu já estava olhando para o cinema como algo bem distante, quando a Mercedes [mulher de García Márquez], toda compungida, me informou que depois de quatrocentas laudas de romance, estávamos devendo 21 mil pesos. E assim mergulhei em outro filme com o Arturo: “Patsy on the rocks ou a vida licenciosa do jovem escritor gótico Carlos Fuentes”.
Mestre Velo vai se casar com Angélica Ortiz![31] Merda! A notícia – inconfidente – está em todos os jornais. Não falei com o Velo porque imagino que deve estar puto com o estardalhaço. Liz e Burton ficaram reduzidos a pó de traque perto desse romance outonal. Que me diz?
Bom, mestre, me falta assunto neste encerramento. Abraços a Giancarlo e Alida.[32] E para você, cuate [companheiro] malvado e trânsfuga, um abração meu e da Mercedes,
Gabo
DE CARLOS FUENTES
PARA GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Roma, 19 de novembro de 1965
Querido master:
Acknowledgement pela carta, que me deu muita alegria em mais de um sentido. Tua ideia para o romance do tirano é SENSACIONAL: o ovo de Colombo elevado a omelete metafísico. Que maravilha! Você acertou na mosca, para má sorte tua, pois com uma solução tão perfeita agora deve estar dançando em chapa quente com o romance de Aracataca e louco para saltar no fogo com o do ditador. Fiz alguns testes aqui, nada menos que com Asturias, que deu um pulo na cadeira (and that means moving a Mayan Temple) [e isso significa mover um templo maia] quando lhe contei teu projeto, e com Feltrinelli,[33] que foi tomado de entusiasmo gibelino. Penso que você tem um achado nas mãos, e te invejo.
Quanto à escolha entre a Sudamericana e a Barral, minha impressão, muito pessoal, é que a Sudamericana te restringe demais, limita a circulação ao mundo latino-americano, sem a riqueza de projeção e contatos que o Carlos Barral oferece. Acho que na Sudamericana você fica só na Sudamericana, enquanto que com a Barral já tem o caminho aberto para as traduções e a presença na Europa e nos Estados Unidos. Mas quando fizer qualquer acerto com a Barral, não deixe de ler a letra miúda do contrato, pois (muito cá entre nous) acabam de passar a perna no Mario Vargas, enfiando uma cláusula que tira os 60% dos direitos estrangeiros que ele receber através da Barral – sendo que a Barral representa todos os seus direitos estrangeiros. Contornando esse obstáculo, continue com a Barral.
Notícias destas bandas: Antonioni comprou As babas do diabo, do Cortázar, para seu próximo filme (outro indício daquilo que sempre conversamos e que o Cohen frisou numa carta recebida hoje: There are not any younger novelist in the world today comparable with the half dozen of you) [Hoje não existe no mundo nenhum romancista mais jovem comparável a vocês], e o Times Literary Supplement publicou um longo e documentado ensaio sobre os últimos cinco anos de ficção hispano-americana, dando o primeiro lugar a você. Mandei o recorte para o Vicente Rojo, para que publique uma tradução na Siempre!. O Cohen já indicou o Coronel à Cape de Londres. Seria bom ficarem sabendo na Cape que a Harper já te contratou: isso vai fazer com que eles se decidam na hora; é bom mademoiselle Balcells se apressar.
Estou há duas semanas trancafiado com mestre Ibáñez,[34] só saindo depois do pôr do sol, agora sim em pleno vampirismo – oh sangue segreta o pelle morbide! [ó sangue secreto, ó pele macia!][35] Mas no final do mês o Juan vai voltar com nosso roteiro pronto, e vai mostrar para você fazer a crítica de praxe. Estamos muito contentes com ele, e não adianto mais à espera dos teus comentários quando você o ler.
Meu novo opus, definitivamente intitulado Evangelios del mundo caído,[36] já está em processo de tradução em Nova York, com uma avalanche de vivas de quem o leu. Acho que no fim vou publicá-lo nos Estados Unidos e na Itália, pois não vejo a necessidade de me expor no batismo às merdas dos críticos mexicanos. Aura segue à toda nos Estados Unidos, e aqui as filmagens começam em março, em Roma e Parma, com Anthony Perkins, Rosanna Schiaffino e Dita Parlo no elenco.[37] Sigo em frente com a minha bilogia das velhas, Circe e Galateia, The Bitches, que deve avançar, j’espère, entre dezembro e março, quando eu tomar meu vaporetto em Nápoles rumo a Buenos Aires: me enche de alegria saber que vamos nos encontrar sob o céu pampiano e na gandaia de La Boca. De BA, quero voltar para a Europa, onde encontro estímulos e comunicações praticamente ausentes em Anáhuac. Mas já sabe: se quiser gastar seus rublos e dinares mancomunadamente, embarcamos juntos do Rio da Prata para o mare Adriático.
Hoje vou à estreia de teatro de Alida e Giancarlo, que te mandam muitas lembranças.
Escreva, mestre: temos apreço e saudade. Lembranças à Mercedes e aos moleques, e aos cuates que tomavam chá com biscoitinhos, saudações.
Abraços,
Carlos
P.S.: A Macedo me escreveu emocionada com Tempo di morire. Hurray!
DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
PARA CARLOS FUENTES
México, 25 de dezembro de 1965
Master:
É importante que você escreva com muita frequência. O outro dia estávamos no jardim, desesperançados e num clima pesado, quando chegou tua carta abarrotada de boas notícias. Depois, analisando cada uma delas, percebemos que nenhuma dessas notícias resolvia nossos problemas, mas pelo menos tinham o dom de fazer esquecer os piores. Nos dias ruins, a Mercedes diz: “Como seria bom se o Carlos escrevesse.”
Nada de especial. Tudo muito tranquilo e mais ou menos encaminhado: meu romance avançando a passo de tartaruga, pois tive que ceder meia jornada às necessidades cotidianas e a alguns projetos de cinema para ter o que comer no ano que vem.
Na Reseña de Acapulco,[38] onde assisti à produção do ano passado, tive a assustadora revelação de que neste país estamos tentando renovar o cinema sem ver filmes. Eu me achei, depois de cinco anos no México, com quinze anos de atraso em cinema. Estou fazendo uma revisão geral de conceitos.
Apenas uma boa perspectiva: Anthony Simmons, o diretor inglês de Four in the morning, assistiu em Acapulco a En este pueblo no hay ladrones e não gostou do filme, mas sentiu que a base literária era ótima.[39] Ele me passou uma sinopse ambientada numa taberna do Caribe, e rapidamente combinamos de trabalhar em cima disso. Ontem recebi uma carta dele dando sinal verde ao projeto. Por enquanto, só tenho que melhorar a história numas vinte laudas. Depois entro no desenvolvimento do argumento para, numa etapa posterior, Simmons e eu trabalharmos na adaptação. Isso me interessa principalmente pelo contato. Fora que o Simmons é um cara muito ponta firme, um dos nossos, totalmente. Se você for a Londres, me avisa, para eu mandar a ele um cartão por seu intermédio.
Sabe como é o Juan Ibáñez: passou feito um meteoro e disse que me entregaria o script assim que acabasse de retocá-lo. Vinte e quatro horas depois, sumiu nas garras de uma francesa. Espero que a vampira lhe deixe um pingo de sangue para que eu ainda o reveja com vida.
Mestre Velo, atolado até o pescoço no pântano matrimonial, terá que enfrentar daqui a vinte dias o monstro paramuno.[40] Armou um pandemônio para a seleção dos atores, que submete a uma espécie de observação de laboratório cujos segredos só ele conhece. Mas, muito confidencialmente, tenho a impressão de que o elenco vai ser fechado pela Clasa[41] e a Angélica. Falando sério, até agora não consigo ver quem possa fazer o protagonista. López Tarso, claro, ficou com o papel de Fulgor Sedano – como sempre – e para o Mapache[42] ofereceram o do padre Rentería, que a meu ver é só um jeito de o Velo ficar bem. É bem provável que o Mapachón recuse: está de ego inflado com o sucesso de Tiempo de morir na Reseña e agora se encontra em Hollywood filmando com Richard Brooks.
Aviso que não vou a Buenos Aires. Não irei de avião, e de navio seria como ir descobrir o Estreito de Magalhães. Desorganizaria totalmente a minha vida. Na verdade, não quero sair daqui enquanto não terminar Cem anos de solidão, em maio, para em seguida atacar O outono do patriarca. Como se não bastasse, tenho já anotados uns cem contos muito curtos, muito simples, muito cosmopolitas, nos quais quero começar a trabalhar o quanto antes. A literatura é uma merda: primeiro te abandona por cinco anos e depois te atropela, exigindo coisas que estão acima das possibilidades por questões de tempo.
Fora dessas coisas esparsas, nada se move no México. Estou a cada dia mais enfurnado e com muita vontade de que você venha logo. Se ficar sabendo de um desses simpósios fantasmas aí na Europa onde possa me encaixar, faz a ponte, que aí, sim, eu iria. Sinto lufadas de saudades.
Recebi uma cópia da entrevista-crítica que dei para Luis Harss. Na minha opinião, ótima. Acho que será um livro muito bom. (*)
Isso é tudo, mestre. Mantenha-me informado de tudo e receba o grande abraço dos seus órfãos dominicais,
Gabo
(*) Na semana que vem, vou mandar para o Harss, para que vá tomando pé, umas oitenta laudas do romance, a cronologia, a árvore genealógica dos Buendía e outras notas. Se você o vir, pede para ele te mostrar esse material.
DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ PARA MARIO VARGAS LLOSA
México, 24 de agosto de 1966
Prezado Mario Vargas Llosa:
A Universidade da Colômbia me informou que você deve participar do ciclo de conferências sobre o romance latino-americano que acontecerá em Bogotá a partir de 18 de setembro.
Queria ter certeza, antes de aceitar o convite que me fizeram, de que você poderá comparecer. Depois do assustador buraco de Cem anos de solidão, do qual eu achava que nunca iria sair, estou atolado em horríveis trabalhos cotidianos para restaurar as finanças, mas disposto a abrir uma brecha para ir a Bogotá por uma semana, se você de fato for para lá. Posso garantir que o público é ótimo; espera de nós coisas muito boas como romancistas e coisas muito duras e verdadeiras como palestrantes.
Em caso afirmativo, peço que você me diga que aspecto do assunto pensa abordar, para não falarmos da mesma coisa. De resto, estou muito entusiasmado com a possibilidade de que caiba a mim abrir as portas do meu estranhíssimo país a você, e também, claro, com a de termos uma conversa de vários dias.
Acabo de ler A casa verde. É monumental. Vejo que concordamos no propósito de não abandonar os velhos reinos de [Rómulo] Gallegos e [José Eustasio] Rivera, por mais batidos que estejam, e sim, ao contrário, como você faz e eu tento fazer no meu último livro, voltar a eles desde o princípio para atravessá-los pelo caminho certo. Você já deve ter percebido que os jornalistas europeizantes não são muito compreensivos nesse sentido. Aqui andam publicando os absurdos mais estrepitosos sobre o suposto folclorismo do teu romance. Eu, que nem leio o que se escreve sobre meus livros, curiosamente não consigo suportar a raiva que me provocam as imbecilidades que dizem sobre livros que, como o teu, considero muito importantes. Tomara que possamos falar para valer sobre essas coisas em Bogotá.
Você é realmente incapturável. Quando eu pensava em te mandar meus livros para Paris, o Carlos Fuentes me escreveu dizendo que você estava em Lima. Alguns dias depois, você apareceu em Nova York, e eu mal acabava de receber a notícia quando o Paco Porrúa[43] mandou dizer que você já tinha ido para Buenos Aires. Espero que esta carta ache um jeito de chegar a você.
Até onde sei, o projeto de filmagem de A cidade e os cachorros foi por água abaixo porque o produtor ficou com medo da reação no Peru. Era de se esperar, mas, como você mesmo disse, não se perdeu nada tentando.
Peço que você responda logo para eu tomar decisões sobre a minha viagem. Tenho uma enorme quantidade de coisas para resolver antes. É uma pena não terem me avisado com mais antecedência, ainda a tempo de arrastar pelos bigodes o velho Fuentes e assim fazer um verdadeiro massacre literário em Bogotá.
Um cordial abraço,
Gabriel
DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ PARA MARIO VARGAS LLOSA
México, 11 de abril de 1967
Meu querido Mario:
Que alegria saber que você gostou da ideia do livro a quatro mãos. Eu acho fascinante, e penso que dificilmente poderíamos conceber um enredo mais inverossímil e hilário que esse esperpento[44] histórico. A possibilidade de dinamitar o chauvinismo convencional é simplesmente estupenda. Há muitos anos que tenho essa ideia na cabeça, mas me negava a pôr em prática enquanto não encontrasse um cúmplice peruano, porque assim “a traição” é completa, em dose dupla, e simplesmente sensacional.
Penso que isso deve ser tratado com a tranquila objetividade de uma reportagem, com recursos e técnicas puramente jornalísticos e com uma seriedade e uma profusão de dados que deixem os patrioteiros estatelados. Eu vou fazer toda a história do lado da Colômbia e você do lado do Peru. A única coisa que teremos que fazer em comum, na prática, é o cotejo de alguns episódios para evitar contradições. Por exemplo: você contaria o assassinato de Sánchez Cerro[45] e eu contaria como a notícia foi recebida e repercutiu na Colômbia.
Independentemente do aspecto terrivelmente cômico dessa história, acho que existe algo atroz: é provável que Sánchez Cerro e o nosso Olaya Herrera[46] tenham combinado essa guerra, que deveria consolidar ambos no poder. Olaya Herrera era o primeiro presidente liberal depois de 45 anos de hegemonia conservadora, e a guerra com o Peru lhe deu a oportunidade de unificar os partidos com a excitação patriótica, pondo um uniforme de general da República nos decrépitos senadores da oposição e mandando todos para morrer de malária na selva. Há uma versão não confirmada de que o jogo foi armado num clube de Lima por políticos e diplomatas de ambos os países que faziam parte de um time internacional de polo. Olha quanto pano para manga dá esse assunto!
O problema é que nós dois teremos que ir aos nossos respectivos países para coletar dados precisos. Eu penso em me trancar na redação de El Tiempo para reconstruir os fatos dia a dia e assim obter toda a versão oficial, que devo complementar com dados fornecidos pela Academia de História. De posse desse material, já vou ter uma boa pauta para pesquisar por minha conta. Imagine que um dos heróis dessas gloriosas jornadas é o poeta Juan Lozano y Lozano, que agora é embaixador da Colômbia em Roma e que foi enviado para lutar “representando as letras colombianas”. E há muitos como ele. Nossa vantagem é que agora se sentem próceres esquecidos, e com a menor provocação vão soltar a língua achando que faremos justiça a eles. Para você ter uma ideia, a Colômbia tentou aniquilar o Peru com uma delirante máquina aérea chamada sesquiplano, comprada em Londres e levada até a Baía de Tumaco desmontada em peças. O sesquiplano nunca se elevou acima de 10 metros, e durante muitos anos foi utilizado para fazer excursões turísticas, rente à água, na Baía de Tumaco.
Eu só poderei ir à Colômbia com essa finalidade daqui a um ano e tanto, depois de voltar da Europa e escrever o romance do ditador. Então penso em coletar os dados para outro livro, este de elaboração realmente arriscada, e por isso é bom eu usar essa pesquisa sobre a guerra com o Peru como biombo. Mesmo assim, devemos manter o assunto em segredo, que só falta se espantarem antes da hora e nos deixarem com o trabalho pela metade. Para guardar as aparências, maquiavelicamente, sou capaz até de aceitar algum cargo oficial, se bem que o mais provável é que eu me refugie pelo tempo que for necessário no Departamento de Divulgação Cultural da Universidade de Bogotá.
Imagino que para você vai ser mais problemático do que para mim, por causa da tua situação com os militares, que, imagino, deva piorar quando o teu romance sobre o guarda-costas for publicado.[47] Mas acredito que o tema faz mesmo valer a pena fingirmos baixar a cabeça por um tempo, para depois soltar o canhonaço. Por enquanto, o importante é que ninguém fique sabendo desses planos, até estarmos com os dados a salvo no exterior. Quando o Ángel Rama[48] esteve aqui, no congresso, varei uma noite falando sobre aquela guerra de opereta e cheguei a temer que ele tivesse uma apoplexia. Deu a impressão de que o assunto nunca tivesse chamado sua atenção. Mas hoje mesmo vou tratar de escrever ao Rama, para que ele não dê com a língua nos dentes.
Outro dia falo de outras coisas. Por enquanto queria deixar o assunto bem amarrado. Mais tarde, em qualquer lugar da Europa, damos outra demão.
Um grande abraço,
Gabriel
Ia me esquecendo: nos últimos dias do congresso, estourou aqui a notícia de que você tinha dado um tiro na cabeça. Por mais que o rumor parecesse completamente louco, passei algumas horas na dúvida, porque eu, que sou o antissuicida por excelência, posso entender que a pessoa estoure os miolos, de pura raiva, num desses horríveis sufocos que aparecem no meio de um romance. Foi tanta a rapidez e a insistência com que o boato se espalhou que em menos de duas horas recebemos nada menos que cinquenta telefonemas de amigos em busca de informação, e o Manuel Carballo (Emmanuel)[49] e eu tentamos descobrir o teu telefone em Londres para esclarecer as coisas de uma vez por todas. Foi impossível apurar a origem. Como sempre, tratava-se de uma senhora peruana que ligou para outra para dizer que tinham contado para ela que não sei quem tinha contado que tinham lhe contado. Na mitologia dos meus povos, esses rumores são interpretados como sinais de uma vida longa e próspera.
Saúde!
Trechos do livro Las cartas del boom, licenciado pela agência Carmen Balcells, sob permissão de:
© Espólio de Carlos Fuentes, 2023
© Espólio de Julio Cortázar, 2023
© Mario Vargas Llosa, 2023
© Espólio de Gabriel García Márquez, 2023
[1] Algumas notas de rodapé da edição em espanhol foram suprimidas na presente seleção, com o fim de melhorar a experiência de leitura e facilitar a compreensão para o leitor brasileiro. (N. R.)
[2] Com a exceção de referências a figuras públicas – como o astronauta russo Yuri Gagarin –, a maioria dos nomes próprios que Fuentes menciona nesta carta se referem a personagens de O jogo da amarelinha. (N. R.)
[3] Primeiro romance e segunda coleção de contos de Cortázar, respectivamente. (N. R.)
[4] O sonho dos heróis, de Adolfo Bioy Casares, foi publicado em 1954. Uno, de Elvira Orphée, é de 1961. (N. R.)
[5] Em romance posterior de Carlos Fuentes, Cambio de piel, de 1967, Elizabeth, personagem chamada também Ligeia, vive em Buenos Aires.
[6] Provável referência ao afresco Expulsão do Paraíso, de Tommaso di Ser Giovanni di Simone, conhecido como Masaccio, pintor pioneiro do Renascimento que influenciou Michelangelo. No afresco, Adão leva as mãos ao rosto num gesto de pesar. (N. R.)
[7] John Michael Cohen (Jim Cohen), tradutor e especialista em literatura ibero-americana do Times Literary Supplement.
[8] O escritor argentino Héctor Alberto Álvarez, mais conhecido como H. A. Murena (1923-75), autor de uma crítica extremamente negativa de O jogo da amarelinha, publicada na revista Cuadernos, em dezembro de 1963. (N. R.)
[9] Germán Arciniegas (1900-99), escritor e político colombiano, então diretor da revista Cuadernos, à época controlada pelo Congreso por la Libertad de la Cultura, organização financiada pela cia e com clara agenda anticomunista. A revista era sediada em Paris e foi publicada de 1953 a 1965.
[10] Menção irônica a um livro de Murena publicado com esse título em 1954.
[11] La región más transparente, romance de Carlos Fuentes publicado em 1958. (N. R.)
[12] Um dos principais romances de Carlos Fuentes, publicado em 1962. (N. R.)
[13] O general em questão é Charles de Gaulle, cuja viagem ao México, de 16 a 19 de março de 1964, seria coberta por Vargas Llosa, o que acabou não se concretizando.
[14] Où va l’Amérique latine? (Paris: F. Maspero, 1964). Tradução francesa de Whither Latin America? (Nova York: Monthly Review Press, 1963). O livro reúne, entre outros, o texto de Carlos Fuentes L’Amérique latine parle: quelques mots aux américains du nord.
[15] A casa verde, o romance no qual o autor trabalhava, seria publicado em 1966, em Barcelona, pela Seix Barral.
[16] Um dos títulos que Vargas Llosa considerou para o romance (N. R.)
[17] Raúl Deustua (1921-2004), poeta e tradutor peruano, amigo de Vargas Llosa.
[18] Colégio militar em que se passa a trama de A Cidade e os Cachorros.
[19] Ao ser publicado, A casa verde incluiu um mapa, mas não na capa. Nenhum glossário foi adicionado.
[20] Vargas Llosa não incorporou esta sugestão.
[21] Vicente Girbau (1923-98), diplomata espanhol exilado.
[22] Vladimír Oleríny (1921-2016), crítico e tradutor eslovaco, verteu para sua língua livros de Cortázar e García Márquez.
[23] Josef Čermák (1928-2020), da editora Odeon, de Praga, publicou contos de Cortázar em 1966 com o título Pronásledovatel (O perseguidor) e no mesmo ano Mĕsto a psi (A cidade e os cachorros).
[24] Romance de Carlos Fuentes publicado em 1964. (N. R.)
[25] Agente literária catalã (1930-2015), famosa por sua ligação com os autores do boom. Sua agência é ainda responsável pelos espólios de todos os autores desta correspondência. (N. R.)
[26] Jesús Sosa Blanco, eminente militar cubano ligado à ditadura de Fulgencio Batista. Logo após a vitória da Revolução Cubana, foi submetido a um julgamento sumário público, sob a acusação de assassinato e outros crimes, e fuzilado em fevereiro de 1959. García Márquez, que na época se encontrava em Havana, e o jornalista colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, seu amigo íntimo, assistiram ao julgamento.
[27] García Márquez havia reiterado esse achado em reportagem, assim como em seu diálogo com Vargas Llosa em Lima (1967), mas o descartaria em favor de uma estrutura polifônica na versão definitiva do romance, publicado dez anos depois (1975).
[28] O pintor e desenhista mexicano José Luis Cuevas (1934-2017). (N. R.)
[29] A nova revista, editada em Paris, se chamaria Mundo Nuevo. Seu primeiro número, publicado em julho de 1966, incluiu uma entrevista de Carlos Fuentes a Emir Rodríguez Monegal. Nos números 2 (agosto de 1966) e 9 (março de 1967), foram publicados trechos ainda inéditos de Cem anos de solidão. A existência de Mundo Nuevo foi acidentada e polêmica, com a revelação de que também recebeu financiamento da CIA. Várias cartas reproduzidas adiante fazem referência aos debates em torno dessa revista.
[30] Filme dirigido por Arturo Ripstein, com roteiro de Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes.
[31] Carlos Velo, diretor espanhol de cinema, exilado no México, a quem Carlos Fuentes dedicou um conto de Cantar de ciegos (Vieja moralidade) e Angélica Ortiz, produtora cinematográfica.
[32] O cineasta Giancarlo Zagni, e sua mulher à época, a atriz Alida Valli, italianos. Ambos trabalharam em Senso (1954), de Visconti – uma das películas favoritas de Vargas Llosa – e estiveram no México em 1963 para uma possível adaptação cinematográfica de Las buenas conciencias, de Carlos Fuentes, que não se concretizou.
[33] Giangiacomo Feltrinelli (1926-72), editor italiano. Publicou traduções de García Márquez, Vargas Llosa, e Carlos Fuentes.
[34] Juan Ibáñez, ator, roteirista e diretor de cinema mexicano. Dirigiu Los caifanes (1967), cujo roteiro é mencionado aqui, além de Los bienamados (1965), parcialmente baseado no conto Uma alma pura, de Carlos Fuentes.
[35] A forma gramatical correta da frase em italiano que Fuentes cita seria “oh sangue segreto o pelle morbida!” (N. R.)
[36] O manuscrito desse romance, que sairia como Cambio de piel, teve vários títulos preliminares, entre eles “El sueño”, e “Sol de noche”, além do mencionado pelo autor.
[37] A adaptação italiana de Aura (romance curto publicado por Fuentes em 1962), intitulada La strega in amore (1966), teve a direção de Damiano Damiani e, dentre os atores e atrizes mencionados por Fuentes, só contou com a participação de Rosana Schiaffino.
[38] Mostra de cinema realizada em Acapulco de 1958 a 1968 (a mostra se iniciou na verdade, em 1959, N. R.). A oitava edição, entre novembro e dezembro de 1965, teve Gabriel García Márquez como “visitante destacado”, entre outros.
[39] García Márquez foi coautor do roteiro desse filme, dirigido pelo mexicano Alberto Isaac e lançado em 1965.
[40] Trata-se da adaptação cinematográfica de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, dirigida por Velo, sobre roteiro que contou com a colaboração de Carlos Fuentes.
[41] Cinematográfica Latinoamericana S.A., companhia de cinema mexicana fundada em 1935.
[42] Apelido do ator mexicano Jorge Martínez de Hoyos. (N. R.)
[43] Francisco Porrúa Fernández (1922-2014) – Francisco “Paco” Porrúa era o diretor literário de Editorial Sudamericana.
[44] Gênero literário espanhol marcado pelo exagero grotesco e pela hipérbole, associado ao romancista Ramón María del Valle-Inclán (1866-1936). (N. R.)
[45] Luis Miguel Sánchez Cerro (1889-1933), militar e presidente peruano que governou de 1931 a 1933, foi assassinado por um membro do Apra (Aliança Popular Revolucionária Americana). O assassinato ocorreu enquanto Peru e Colômbia viviam tensões militares por uma disputa territorial. (N. R.)
[46] Enrique Olaya Herrera (1880-1937), presidente colombiano de 1930 a 1934, contemporâneo de Sánchez Cerro. (N. R.)
[47] “O romance sobre o guarda-costas” era uma referência ao que viria a ser o livro Conversa no catedral.
[48] Ángel Antonio Rama Facal (1926-83) – escritor e crítico literário uruguaio.
[49] Emmanuel Carballo (1929-2014) – crítico literário e ensaísta mexicano.
(1928-2012 Foi um escritor latino-americano
(1927-2014) Foi um escritor latino-americano
(1914–84) Escritor argentino que se radicou em Paris, autor de O Jogo da Amarelinha, da Civilização Brasileira
Romancista, ensaísta e crítico literário peruano, publicou Travessuras da Menina Má (Alfaguara)
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