CRÉDITO: CACO GALHARDO_2023
Chegou o chuchutone
Encomendei uma surpresa de Natal pro pessoal da repartição: panetone de chuchu cristalizado
| Edição 208, Janeiro 2024
1º DE DEZEMBRO_Inspirado pelo panetone de sushi, encomendei uma surpresa de Natal pro pessoal aqui da repartição: panetones de chuchu cristalizado. O chuchutone vai ser um sucesso.
Reunião com Roberto Campos Neto. O homem tem baixado tanto os juros que tive que lhe dar um presente: um exemplar encadernado do Manifesto comunista. É a hora de introduzirmos o marxismo disruptivo no mercado financeiro. Dou seis meses pro BC virar Bolchevique Central.
2 DE DEZEMBRO_Eureca! Fiquei sabendo em primeira mão que o Paul McCartney vai tocar aquela música do Fernando Haddad. Nosso ministro do Borogodó toca Blackbird com a chama revolucionária de um Cienfuegos e o charme latino de um Enrique Iglesias. Quando rebola, então, até a Gleisi começa a suar. Claro que o Paul ia adorar.
Soube que o Roberto Campos Neto ficou chateado por não ter ganhado o chuchutone. Quem pode, pode. Quem não pode, se sacode.
3 DE DEZEMBRO_Combinamos todos de marcar “Reunião Ministerial” na agenda. Mas na verdade era o festão de final de ano da firma. Minha Santa Mirtes do Cabelo Encaracolado… que fuzuê do balacobaco! Me lembro de flashes da luta com Flávio Dino no gel, especialmente do momento que a Gleisi berrou: “Dá um rabo de arraia nele!” Vez em quando passam pela minha cabeça uns relances da corrida de 200 metros que eu e Paulo Pimenta fizemos montados nas emas. Terminamos eu, Rui Falcão e Mercadante batucando na mesa do Arthur Lira: Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé! Manda essa tristeza emboooora!! No tempo do FHC, era aquela chateação de ouvir Frank Sinatra, tomando Beaujolais. De vez em quando, pra animar, o Serra arriscava uma ária de Schubert.
4 DE DEZEMBRO_Mandei uma playlist do Bala Desejo pro Roberto Campos Neto. Será que esse homem consegue desapegar daquela opacidade conservadora pra ser feliz como eu? A mão (esquerda) tá estendida.
5 DE DEZEMBRO_Foram tantas as compras de Natal que tive que dar um novo apelido carinhoso para minha companheira. Durante todo o mês de dezembro, só me referirei a ela como Magalu Alckmin.
Finalmente o povo descobriu que uso minhas redes sociais com a mesma jovialidade com que uso minhas meias. Trabalho incansável de desrecalque coletivo de minha equipe que já vem dando resultado. O pessoal começou a desenvolver uma intuição fina sobre o que tem grande potencial para viralizar. Exemplo: apostando todas as fichas no meu carisma e na minha desenvoltura digital, surpreenderam a nação com um post sobre a minha reunião com os dirigentes de todos os 26 órgãos delegados da Rede Brasileira de Metrologia, liderada pelo Inmetro. Vai virar trending topics.
6 DE DEZEMBRO_Rolou um evento com Pepe Mujica, nosso mestre Yoda da esquerda. Lancei um olhar afetuoso na direção dele, mas Pepe desviava, como se estivesse escondendo alguma coisa. Senti um certo constrangimento.
Fui ver a série Vale o escrito, sobre o jogo do bicho, e sonhei com um tucano. Qual será o significado?
7 DE DEZEMBRO_Os maus presságios de ontem se confirmaram da pior maneira. Dormi de conchinha com Magalu. Ela me consolou com um cafuné, um pão artesanal e um chá de valeriana. Já fiquei de fora do show do Paul aqui no Clube do Choro. Engoli em seco o rebaixamento do Santos. Mas eu não vou aguentar mais um ano de rejeição do Chico Buarque. Não vou! Tudo tem limite! Dessa vez ele organizou um jantar na casa dele! Chamou Caetano, Mujica, Bethânia. Até o Mercadante e a Dilma foram convidados. Quase um dream team do marxismo sul-americano. E eu fui saber do evento pelas redes sociais! Nem Júlio César sentiu uma dor de traição tão profunda. Chorei, chorei, até ficar com dó de mim.
8 DE DEZEMBRO_Acordei devastado. “Geraldo em vertigem.” Não tenho sangue de barata! Meus parcos fios de cabelo ficaram eriçados quando vislumbrei minha vingança: comecei a falar em latim. Verba volant, scripta manent. Entendedores sabem que alguma coisa acontece em Brasília quando um vice evoca o latim. E mandei avisar: se o Chico me ignorar de novo, começo a usar mesóclise.
E pra ficar clara a dimensão de meu descontentamento, mandei avisar pela “rádio corredor”: Lula não vai ganhar chuchutone.
10 DE DEZEMBRO_Ando tendo umas recaídas. Comprei um copo Stanley. Reassisti toda a franquia de Velozes e furiosos. Andei pensando se o colete da XP combina com a camisa da Lacoste. Comecei a ouvir o novo álbum do Gusttavo Lima ao vivo em Itumbiara. Tomei um copo de Beaujolais. Cantei My way. Não sei onde isso vai dar.
Magalu veio me perguntar se eu caí nesse conto do vigário do Jogo do Tigrinho. Falei pra ela que sou nascido e criado na perifa, malandro nato que dá nó em pingo d’água. Depois que ela saiu, dei um Google para saber do que se tratava.
11 DE DEZEMBRO_Baixei um app que simula qual o melhor penteado descabelado da extrema direita que combina com você. Ando pensando se a melhor estratégia é o implante ou a peruca.
Recebemos o padre Júlio Lancellotti para a inauguração do Plano Ruas Visíveis. Minha cabeça entrou em combustão. O antigo Geraldo era a favor dos padres, mas contra os moradores de rua. O novo Geraldo é a favor dos moradores de rua, mas continua adorando os padres. O que me leva a concluir que mudei, sim, mas não tanto quanto imaginava. Continuo entre Irmã Dulce e Gramsci.
12 DE DEZEMBRO_Recebemos Tarcísio de Freitas por aqui. Ele me chamou num canto e falou em privatização, tropa de choque e mobilidade multieixos. Me pegou num momento de fraqueza e confesso que quase bati continência. Acho que a Gleisi percebeu.
Cheguei em casa diferente. Magalu notou. Vi no seu semblante um misto de preocupação e alívio. Fomos dormir em quartos separados.
13 DE DEZEMBRO_Ao me despedir de Magalu pela manhã, ela me fitou com um olhar hesitante: “E nós dois?” Respondi, com voz grave: “Sempre haverá Pindamonhangaba.” E pra lá eu fui recarregar minha alma. The fundamental things apply. As times goes by.
14 DE DEZEMBRO_Recebi o Marcus Barão, presidente do Conselho Nacional da Juventude do Brasil e dei minha colaboração sobre o line-up do próximo Lollapalooza. Como sou um neopintalegrete descolado, sugeri um show do KLB.
Ando encafifado. Arroz com passas é de esquerda ou de direita?
15 DE DEZEMBRO_Santa Iracema das Águas Límpidas do Tapajós, derrubaram o veto ao marco temporal. Que baque! Mandei um chuchutone com recheio de beiju pra ministra Sônia. Espero que alivie um pouco a dor.
16 DE DEZEMBRO_Fiquei mareado ao ver o President’Lula calçando meias divertidas. Entendi como um gesto de reaproximação. Mas ainda é pouco.
18 DE DEZEMBRO_Depois do jogo de hoje, que valeu vaga pra final do Mundial de Clubes, percebi que o Fluminense é um exemplo de cooperação sul-americana a ser seguido pelo Mercosul. Germán Cano: argentino. Jhon Arias: colombiano. Marcelo: brasileiro. Todos eles, sem hierarquias, trabalhando ombro a ombro com John Kennedy.
19 DE DEZEMBRO_E no apagar das luzes de 2023, consegui convencer o Datena a entrar num partido socialista. Será que isso o Chico Buarque não enxerga?
24 DE DEZEMBRO_Todo mundo reunido aqui em casa pra ceia de Natal e ouço um barulho de sinos. Era a campainha. Do lado de lá da porta, estava ele! Ele! O bom velhinho de barba branca vestido de vermelho. Fiquei emocionado! O President’Lula apareceu, do nada! Catei, correndo, o chuchutone que tinha dado pro meu genro, ainda no embrulho. E sussurrei pra Magalu: Donec eris felix, multos numerabis amicos.
Por Renato Terra
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