CRÉDITO: CACO GALHARDO_2025
Chuchu é a nova lentilha
Aqui em casa, o amigo secreto é auditado pela Caixa Econômica
| Edição 232, Janeiro 2026
1º DE DEZEMBRO_Aqui em casa, o amigo secreto é auditado pela Caixa Econômica. Cada papelzinho com nome é autenticado em cartório. É como ensinamos as crianças a zelar pela eficiência e transparência. Por algum alinhamento cósmico, sempre tiro a Libelu.
O pessoal da repartição se divertiu imaginando como será animado o Natal da família Bolsonaro. O clima parece muito bom entre os Irmãos Metralha e a Michelle. Sorte deles que o Bananinha só poderá participar por holograma, o que distende qualquer ambiente. Espero que o Ciro Gomes mande uma lembrancinha.
2 DE DEZEMBRO_Consultei minhas bases marxistas e todos estão vidrados no novo disco da Rosalía. Ninguém ouviu, mas tá todo mundo ligado no hype. Resolvi dar um de presente para Libelu. Um disco da Rosalía mostraria que estou a par das novidades, que sou jovem e bem informado. Fui à loja que vendia LPs na minha quebrada e, para minha surpresa, virou uma farmácia. Comprei uma Neosaldina.
3 DE DEZEMBRO_Tenho lido coisas excelentes da editora Boitempo. Mas um texto da Bruna Della Torre me comoveu. “Hoje, o apocalipse se tornou uma espécie de consenso cultural – e como acontece com grande parte da doxa, sua função como ideologia parece ter sido deixada de lado.” Eu, que fui criado na Opus Dei, nunca percebi que o Apocalipse pode ser visto como ideologia ou consenso cultural. Mandei uma carta mimeografada para a Bruna agradecendo pelo despertar. Aproveitei para perguntar o que é doxa.
Este texto ficou preso na minha mente. De noite, comecei a ver a série Pluribus com Libelu na Apple TV. A série traz uma espécie de Apocalipse do bem. Não há violência, todo mundo é prestativo. Ninguém é cancelado na internet.
Como Bruna ainda não respondeu, fui buscar na internet o significado de doxa. Descobri que tem um relógio suíço com esse nome. Quem diria! Bruna faz merchan? Nós comunistas também precisamos pagar o aluguel e o gás. Como não logrei êxito com o LP da Rosalía, acabei comprando um Doxa pra Libelu.
5 DE DEZEMBRO_Flávio Bolsonaro anunciou a pré-candidatura. Não sabemos se vai concorrer à Presidência do Brasil ou da Kopenhagen. De qualquer maneira, bom estrategista que sou, fiquei pensando no vice. O primeiro que me veio à cabeça foi o Fabrício Queiroz. Seria um nome de confiança. Mas refleti melhor e concluí que o Queiroz deve acabar virando tesoureiro.
7 DE DEZEMBRO_O Flávio Bolsonaro já veio dizer que sua candidatura tem um preço. Pelo histórico dele, o pagamento deverá ser em dinheiro vivo.
Liguei para o Sidônio Palmeira para saber se ele estava por trás da candidatura do Flávio e da investida do Bananinha nos Estados Unidos. É tanto marketing positivo para o Lula que seria uma tacada de mestre. Ele fez a egípcia.
9 DE DEZEMBRO_Aprovamos o projeto que democratiza o acesso à carteira de motorista. O Brasil que queremos é cada vez mais diferente do Detran. Só não concordo como andam desprezando por aí os testes psicotécnicos. Um erro. Sinto que eles deviam ser aplicados com mais assiduidade. Inclusive na Câmara, no Senado e no STF.
10 DE DEZEMBRO_Impressionante como as coisas no Brasil se repetem. Primeiro, a Lava Jato. Depois, a Vaza Jato. Agora, o Dias Toffoli pega carona com advogado para a final da Libertadores e inaugura a Leva Jato. Outra coisa que se repete é a obsessão pela anistia, agora apelidada de “dosimetria”. Tudo isso me lembrou da Bruna Della Torre: se houver um apocalipse à brasileira, se salvarão todos os que são bem relacionados ou que contrataram parente de ministro do STF. No Juízo Final, se você chega lá representado pela mulher do Xandão ou o filho do Gilmar, é tapete vermelho na certa.
13 DE DEZEMBRO_Mandei recado para a Paula Lavigne: estou à disposição para cantar Babalú nos atos deste domingo. Mas não obtive resposta.
Um jornalista veio me dizer que o Toffoli parou de responder pelo WhatsApp. Como sou dado à galhofa, argumentei que o ministro devia estar em “modo avião”.
14 DE DEZEMBRO_Chico Buarque não só insiste em manter um silêncio obsequioso a meu respeito como ainda convidou a Fernanda Torres para cantar Vai passar ao seu lado na manifestação. É de cair os butiá do bolso. O que ela tem que eu não tenho? Um Globo de Ouro? Eu recebi o Prêmio JK de Gestão Pública. Melhor atriz em Cannes? Eu tenho o Prêmio de Mérito Industrial da Abifina, dificílimo de ganhar e dado a pouquíssimos. Um Jabuti? Tem algum mérito, mas quero ver é receber o Colar Cândido Fontoura, da indústria farmacêutica. Se o Chico pedisse com jeito, eu até subiria no palco com o meu em torno do pescoço. Fernanda não. Por quê? PORQUE ELA NUNCA PASSOU NEM PERTO DE GANHAR UM CÂNDIDO FONTOURA.
15 DE DEZEMBRO_Com atraso, vi que Francisco Bosco recebeu duras críticas por dizer que “Há uma confusão entre crítica ao machismo e a crítica aos homens”. Também soube que o Rodrigo Hilbert se afastou dos amigos por considerá-los machistas. Eu, que sou um homem desconstruído e atravessado por afetos, sinto que há muita crítica para pouca autocrítica. Os homens precisam conversar entre si, melhorar, mudar. Foi o que falei hoje cedo pessoalmente para o Hugo Motta.
18 DE DEZEMBRO_Vi um trailer do Dark horse, o filme do Mario Frias que vai contar a história do Bolsonaro. Mandei o MinC investigar se a caracterização do ator Jim Caviezel como Bolsonaro foi feita pelo pessoal que faz os especiais de fim de ano do Porta dos Fundos. Sou responsável pela indústria criativa brasileira. Estamos num bom momento, não se pode vacilar assim.
19 DE DEZEMBRO_Li que “a Pantone elegeu cloud dancer (PANTONE® 11-4201) como a Cor do Ano de 2026, um tom de branco suave, arejado e etéreo, que simboliza calma, clareza, renovação e um ‘sussurro de paz’ num mundo agitado, marcando a primeira vez que um branco é escolhido, evocando simplicidade, foco e um respiro na hiperconectividade”. Ora, ora. Não quero me gabar, mas a Pantone criou uma cor inspirada em mim. Alguém lá viu a aura off-white que emito toda vez que abro uma planilha de controle de gastos ou participo de eventos sobre descargas eletrostáticas ou microprocessadores de sistemas embarcados.
20 DE DEZEMBRO_Me recolho para as festas de fim de ano com dois pedidos para 2026: o primeiro é ouvir a notícia de que o President’Lula ganhou as eleições pela voz maviosa de César Tralli. O outro é conhecer o Chico Buarque antes do Apocalipse.
Neste ano, todos aqui em casa vão passar o Réveillon vestidos de Cloud Dancer. Para ampliar a evocação etérea em busca de simplicidade, vamos trocar as lentilhas pelo chuchu
Por Renato Terra
Leia Mais
