CRÉDITO: CACO GALHARDO_2025
Coloquei meias divertidas no Curupira da COP
...mas o pobrezinho escorregou e o cabelo de fogo raspou num fio desencapado
| Edição 231, Dezembro 2025
1º DE NOVEMBRO_Pouca gente soube, mas eu e Libelu nos enfurnamos num casebre de taipa no coração da Amazônia para começar a preparação espiritual para a COP30. Hoje iniciamos a Cerimônia do Cacau para desbloquear um portal interno de ancestralidade xamânica. Ao cacau, adicionamos pimenta wai wai, cumaru e leite Ninho. O som do vento quebrando diretamente no meu cocuruto abriu caminhos para uma viagem sensorial. De repente, me dei conta de que “Pindamonhangaba” significa “lugar onde se fazem anzóis” em tupi-guarani. Ainda não sei o que fazer com essa informação.
2 DE NOVEMBRO_Embarcado numa piroga de cristal, com o corpo coberto apenas de urucum e carisma, vi a imagem de Baby do Brasil flutuando sobre a foz do Rio Amazonas. Ela cantava Quando eu penso no futuro do nosso planeta/Fatalmente me lembro dessa gente tão careta/Que não tá nem aí pro que pode acontecer/Que tudo quer pra si/E não quer nem saber. Caminhou na minha direção e me entregou um zangarilho.
Só de noite, depois de dançar forró com um tuiuiú e ler A queda do céu de trás para a frente, foi que juntei todas as informações: venho de “Pindamonhangaba”, o “lugar onde se fazem anzóis” e recebi um zangarilho, uma isca artificial usada para pescar lula. Eureca! Os guardiões da floresta estão me dizendo que devo fisgar o President’Lula.
3 DE NOVEMBRO_De volta ao batente depois de uma experiência tão transformadora, só me restou ir a Itu para a 7ª edição do Fórum Paulista de Desenvolvimento. Qualquer um no meu lugar faria o mesmo. Alguns cidadãos mais sensíveis notaram que eu emanava uma energia lilás. Todos sentimos que minha presença espalhou eflúvios holísticos para a cidade. Encerrei o evento cantando Açaí, do Djavan, de trás para a frente.
4 DE NOVEMBRO_Precisei adotar medidas práticas para renovar as energias em torno do President’Lula. Meu primeiro ato foi marcar uma reunião com Tales Pena Machado, presidente da Centrorochas, a Associação Brasileira de Rochas Naturais. Vou abrir uma licitação para revestir o gabinete do Lula de amazonita. O Tales me disse que a amazonita atrai boa sorte, melhora as capacidades mentais, abre os caminhos e ainda ajuda a tratar casos de osteoporose.
5 DE NOVEMBRO_“Brasil ohechuka COP30pe mymbairü’i ra’anga hérava Kurupira.” Qualquer pessoa minimamente letrada em guarani sabe que o bafo aí de cima significa que o “Brasil divulga COP30 e apresenta a mascote do Curupira”. Mas resolvi fazer um teste e joguei a frase no Google Tradutor. E não é que a suposta inteligência artificial traduziu “Kurupira” como “crocodilo”? Convoquei Libelu para uma cerimônia dedicada a honrar Tupã e denunciar o desprezível neocolonialismo linguístico do Google. Tenha dó!
7 DE NOVEMBRO_Hoje eu despertei com uma sensação que nunca tinha experimentado em outros aniversários. Uma clareza cósmica, como se eu tivesse trocado minha lente antiga por óculos Ambervision. Fiz questão de dizer para Libelu: “Sou uma pangeia humana com aura de Guia Quatro Rodas e muito desejo por doce de leite e isotônico.”
8 DE NOVEMBRO_Meu astrólogo disse que a Lua em Escorpião e o Sol em Sagitário são fatores para um momento de transformação intensa. Numa madrugada produtiva, mudei os móveis do quarto de posição. Libelu foi contra. Assertivo, declarei que não existe argumento terreno quando há um imperativo cósmico. Fui para a posse do Rodrigo Paz, novo presidente da Bolívia e, quando voltei, Libelu tinha devolvido os móveis para a posição de origem. Tenho que aprender urgentemente a dar limites.
9 DE NOVEMBRO_Minha passagem por Itu já está rendendo bons frutos: atletas ituanos tiveram uma atuação de destaque na 9ª Etapa da Liga Metropolitana de Tênis de Mesa.
10 DE NOVEMBRO_Começou a COP! Infelizmente não pude estar presente porque tinha outro compromisso importante: uma entrevista para a revista Caras feita pelo meu amigo José Roberto Maluf. Sou como o Paulinho da Viola: Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado.
Mas mandei uma mensagem ao President’Lula recomendando abrir a COP com a Cerimônia do Cacau. Ele respondeu com um meme da Gretchen. Estou fisgando o homem.
13 DE NOVEMBRO_Fui ver O agente secreto e me lembrei das muitas estripulias que o jovem Geraldo cometeu naqueles coloridos anos 1970. Ah, eu era mesmo a última bolacha do pacote. De noite, escrevi uma carta para o Kleber Mendonça Filho: “Caso haja um spin-off envolvendo a perna cabeluda, deixo aqui a sugestão para ela calçar meias divertidas.”
14 DE NOVEMBRO_Continuo com meu planejamento para transformar o President’Lula em xamã. Hoje recebi o Fernando Claudio Genschow, diretor de Defesa Profissional do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA). Perguntei se era possível injetar cacau na pele sem a pessoa perceber. Parece que não.
16 DE NOVEMBRO_O Nicolás Maduro não cansa de me desconcertar. O Professor Girafales da Venezuela cantou Imagine, do John Lennon, para pedir a paz em meio à escalada militar dos Estados Unidos no Caribe. Me lembrou de quando a atriz Paolla Oliveira, em 2014, pintou uma unha de branco para, também, pedir a paz. Foi bonito, mas não muito eficaz. Será que o líder chavista pretende angariar uma indicação para o Grammy Latino? Será que pagou direitos autorais? Imagine.
17 DE NOVEMBRO_Cheguei chegando na COP. Lancei a braba. Cobrei prazos, descasquei os combustíveis fósseis, falei em “COP da verdade”, reforcei a meta de desmatamento ilegal zero até 2030. Para marcar posição, entreguei meias divertidas para o Curupira: vesti aqueles pezinhos com uma meia de cano alto que trazia meu discurso impresso em verde e amarelo. A fonte ficou muito pequena, mas valeu a intenção. Ficou estiloso.
18 DE NOVEMBRO_Estou revoltado! Acabou o amor! Queimei sutiãs, suspensórios e meias coloridas! Como é que o President’Lula resolve proibir o gênero neutro na comunicação pública? É hora de agir. Coloquei uma isca no zangarilho e tomei uma decisão. Atualizei meu nome nas redes sociais para Geralde (elu/delu).
19 DE NOVEMBRO_Aproveitei o burburinho da chegada da cantora Dua Lipa no Brasil para me atualizar nas músicas jovens. Gostei da moça porque, assim como eu, ela também é do povo: vai ao Maracanã lotado, bebe no bar da esquina, visita quadra de samba… Virei um Dualover e já entrei em contato com a equipe da cantora para fazermos um feat chamado Alquimia. Vai estourar a boca do balão.
21 DE NOVEMBRO_Estou arrasado com esse incêndio na COP. Soube que o Curupira acabou escorregando por causa das meias e aquele cabelo de fogo encostou num fio desencapado. Quem acabou preso no zangarilho fui eu.
Menos mal que a energia ancestral liberada pela minha interpretação no chuveiro de Um índio, do Caetano, cantada de trás para a frente, cruzou as Américas e atingiu o Trump com a força de uma entidade de terreiro preocupada com a carestia da pipoca, do café, do amalá e do caruru. Bingo: suspensão imediata e retroativa das tarifas. Por essa o Dudu Bananinha não esperava. Nem o Mauro Vieira, aliás. Falta aos dois a conexão telúrica que eu mantenho com Gaia.
22 DE NOVEMBRO_Essas várias desculpas para explicar a solda na tornozeleira não são boas. Se eu fosse ele, teria me saído com outra: “Ministro, o senhor sabe que eu ia receber a visita dos governadores golpistas e a ocasião exigia uma certa formalidade. Tentei calçar as meias divertidas com rostinhos do Pinochet e do Médici que ganhei do Brilhante Ustra, mas a tornozeleira teimava em atrapalhar. Ficava aquele volumão, parecia que o Pinochet estava com caxumba. O jeito foi apelar para o ferro de solda.” Alexandre é um homem elegante, ele compreenderia.
Por Renato Terra
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