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Com vocês, a Leoa

    Janja, olhando para Lula, durante um encontro com eleitoras do ex-presidente: ela é alvo do machismo e, segundo Gleisi Hoffmann, presidente do PT, é do machismo dos próprios petistas CRÉDITO: EGBERTO NOGUEIRA_ÍMÃ FOTOGALERIA_2022

vultos do petismo

Com vocês, a Leoa

Janja, a mulher de Lula, cresce e aparece

Thais Bilenky | Edição 193, Outubro 2022

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Campinas, interior de São Paulo, 5 de maio. No Teatro de Arena da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Janja, a mulher de Lula, anda de um lado para o outro, impaciente. A segurança perdeu o controle do palco, invadido por simpatizantes ávidos por assediar o ex-presidente. Uma parte do público começa a gritar, em coro: “Libera o palco! Libera o palco!” Janja levanta e abaixa os braços estendidos, como se regesse a plateia, estimulando os presentes a cantar para liberar o palco. Aos poucos, as coisas vão entrando nos eixos, a plateia se acomoda no chão, ao redor do palco, por todos os lugares. Depois dos discursos iniciais, chega a vez de Lula. A certa altura, já perto do fim, diz que um homem apaixonado como ele nem pensa em vingança. Aproxima-se da mulher, estende a mão, como quem a chama. Ela se levanta da cadeira no palco, vai em direção a ele. O casal entrelaça as mãos. Lula diz que está de bem com a vida, mas tão bem, que vai “casar com essa mulher”. Faltavam então treze dias para o casamento. Janja deita o rosto no ombro dele. Encosta o nariz em seu pescoço, sorrindo, seguidas vezes. Ele diz que está apaixonado. Ela, ainda o enlaçando, sopra vários beijos no ombro, brincando com o gesto que se popularizou como forma de exibir superioridade.

Salvador, capital da Bahia, 2 de julho. Na Arena Fonte Nova, diante de uns 15 mil apoiadores, Lula decide ler o discurso. Como o vento está muito forte, pede a Janja para segurar as folhas com o texto. Ela se aproxima, segura os papéis, faz uma reverência ao público, dobrando os joelhos enquanto segura a ponta do vestido, e joga um beijo para a plateia.

Rio de Janeiro, 7 de julho, na Cinelândia, praça no Centro da cidade. A mestra de cerimônias chama Janja para cantar o jingle. “Olha só”, começa Janja. “Andaram falando que eu desafino”, diz, referindo-se à sua interpretação da nova versão do famoso jingle Lula lá, que fez sua estreia na campanha presidencial de 1989 e nunca mais deixou de frequentar as manifestações petistas. A própria Janja produziu um vídeo com uma nova versão. “E aí eu quero dizer para quem falou isso que o que importa mesmo é cantar sem medo de ser feliz. Vamos lá, Rio de Janeiro, canta comigo. Quero todo mundo cantando, desafinando ou não.” Solta o jingle.

 

Brasília, 13 de julho. O auditório do complexo hoteleiro Brasil 21 está repleto de artistas e produtores culturais. Há pessoas sentadas nos corredores, nas escadas e no palco. No final do discurso, Lula chama para perto uma senhora do Baobá, um coletivo de mulheres negras. Beija-lhe a testa e lhe estende o microfone. A ativista diz algumas palavras em homenagem ao presidenciável. Assim que ela termina, Janja toma o microfone da mão de Lula, aparta o candidato da ativista e, indignada, põe-se a ordenar ao microfone: “Gente, por favor. Não invadam o palco. Por favor. Está muito crítico.” Ela convoca a segurança, a transmissão é encerrada.

Garanhuns, Pernambuco, terra natal do ex-presidente Lula. Janja está sobre o palco neste 20 de julho. Lula está no fundo. Ao microfone, ela canta Sem Medo de Ser Feliz. Encerrada a música, o casal se abraça e se beija. Lula vai começar a discursar para uma massa de simpatizantes. Janja volta para sua poltrona, no centro do palco. No caminho, faz uma parada, dá um beijinho no ombro e ri ao microfone. Ele discursa, sob um Sol escaldante. Janja levanta-se da poltrona, vai até Lula. Interrompe o discurso do marido, coloca um boné na sua cabeça , ajeita seu cabelo. Lula retoma sua fala, dizendo: “Quem tem cuida.” O público aplaude.

Serra Talhada, sertão pernambucano, horas depois. Sobre o palco, diante de milhares de militantes, Janja termina de cantar o jingle, põe a mão sobre o ombro de Lula. Ele sorri e faz um gesto dizendo “não quero beijo”. Ela o abraça, aproxima seu rosto do dele. Ela volta-se ao público e informa: “Ele não quer dar beijo hoje.” Janja volta para sua poltrona no palco.

 

Fortaleza, 30 de julho. Janja acaba de cantar o jingle de mãos dadas com o marido no comício que ocorre no Centro de Eventos do Ceará. Eles se abraçam, se beijam. Quando Lula faz menção de começar seu discurso, o locutor anuncia “o momento pelo qual todos estão esperando” e Janja o interrompe. “Eu entrego ele para vocês”, diz, dirigindo-se ao público. Lula discursa e, meia hora depois, faz questão de reafirmar sua virilidade. “Não pensem que estou veinho, não. Se eu estivesse veinho, não tinha casado agora.” O palco está cheio de autoridades em pé, mas Janja está sentada numa poltrona. Ela manda outro beijinho no ombro.

A socióloga Rosângela Silva, uma paranaense de 56 anos, duas décadas mais jovem que Lula, é uma estrela ascendente no PT e comporta-se assim mesmo: é espontânea, falante, sobe no palco, debocha, canta, faz as vezes de chefe da produção, da segurança, do palco, e se envolve com tudo que gira em torno de Lula – tudo mesmo. “Se atirarem no Lula, ela é capaz de morrer porque se joga na frente para protegê-lo”, diz a advogada e amiga Gabriela Araújo, casada com o petista histórico Emidio de Souza, hoje deputado estadual por São Paulo. “É ruim, ela se queima, porque tem a equipe de segurança para fazer isso. Já falei isso para a Janja, mas o Lula gosta que seja assim. Se ele não quisesse, ela não faria.”

Nos eventos de que participa, o público costuma acolher Janja, fica atento a tudo o que faz e costuma aplaudi-la. Mas sua presença ostensiva vem atraindo elogios públicos e críticas privadas. Nas disputas de poder dentro do PT, o surgimento de um nome que mobiliza e galvaniza interesse sempre causou ciumeiras, divisões e, em alguns casos, intermináveis batalhas fratricidas. Com Janja acontece algo semelhante, embora ela não seja uma liderança política. Há, porém, um dado que muda tudo. Ao contrário das outras figuras cuja ascensão já provocou cizânia interna, Janja é mulher de Lula – o que ora lhe favorece, ora lhe prejudica.

 

 

O namoro entre Lula e Janja se tornou público no dia 18 de maio de 2019, quando o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira visitou o ex-presidente na cadeia em Curitiba e, depois, informou na sua página do Facebook que o petista estava apaixonado e pretendia se casar quando fosse solto. Desde então, Lula repete que fez “a proeza de arranjar uma namorada na cadeia”, só que não foi bem assim. Eles já se conheciam, mas o relacionamento começou depois de um jogo de futebol em dezembro de 2017, quatro meses antes da prisão e quase um ano depois que Lula enviuvou de Marisa Letícia, vítima de um AVC em fevereiro daquele ano. Eles se encontraram durante uma confraternização de Natal da esquerda ligada ao PT, em Guararema, no interior de São Paulo. Na ocasião, houve também um jogo de futebol entre o Politheama, time do compositor Chico Buarque, e a equipe do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Janja estava na torcida, tietou Chico e postou foto a seu lado no Instagram: “Essa é para matar de inveja!!!” Depois, passou a se referir ao compositor como “dindo”.

Três meses depois, em março de 2018, Janja acompanhou Lula na caravana que percorreu os três estados do Sul durante dez dias. Lula orientava a equipe para não chamar a atenção para o namoro, e Janja era então uma presença discretíssima, que fugia dos holofotes. Era sempre assim. Um mês antes, por exemplo, eles passaram uns dias na casa de praia de Gabriela Araújo e Emidio de Souza, em Maresias, no litoral paulista. Para passarem incógnitos, não chamaram uma funcionária para arrumar a casa. Janja encarregou-se do serviço. “Ela tem TOC de limpeza. Acordei um dia, ela estava com a vassoura lavando o quintal”, lembra Araújo. “Estava no auge da Lava Jato, Lula estava bem em baixa. Todo mundo que era superamigo sumiu”, completa ela.

Poucas semanas depois, em 7 de abril, Lula foi preso em São Paulo e levado para Curitiba. Na Vigília Lula Livre, montada diante do prédio da Polícia Federal, na qual militantes diariamente davam “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” para Lula no megafone, Janja aparecia de vez em quando. Desconhecida dos organizadores, certa vez chegou a ser barrada no acesso ao grupo que coordenava a vigília. Em ocasiões especiais, como no aniversário do ex-presidente e quando se completou um ano de prisão, Janja deu palinhas em shows na vigília, cantou parabéns no palco, apagou as velas do bolo. Nunca se apresentou como namorada de Lula.

Aos poucos, ela foi se enturmando com o pessoal que cuidava do dia a dia de Lula na cadeia. A “panelinha”, como ela apelidou o grupo, era formada por quatro pessoas: Nicole Briones (que tomava conta das redes sociais do ex-presidente), Ricardo Stuckert (seu fotógrafo há quase duas décadas), Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola (sociólogo e assessor), e Neudicleia de Oliveira, a Neude, que, nas palavras de Janja, foi “chegando de mansinho, ressabiada, mas de coração aberto”. Neude era uma das organizadoras da vigília e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Às vezes, o grupo saía para jantar, tomar uma cerveja, com frequência no Costelão, uma modesta churrascaria que fica no bairro Alto da XV.

A afinidade entre Janja e Neude aflorou. A amiga a acompanhava nas “loucuras de amor”. Certa vez, foram até a rua da Polícia Federal, em plena madrugada, e colocaram uma música no som do carro no volume máximo. Lula entendeu o recado e respondeu acendendo e apagando a luz dentro da cela. Enquanto esteve na carceragem da PF, o ex-presidente recebeu Neude duas vezes. Na saída de uma das visitas, em março de 2019, ela usou o alto-falante para dar o recado aos colegas. “Estive uma hora com o presidente Lula. Inveja!”, disse para o público. “Mas ele mandou dar um abraço em todos e todas que estão aqui.” A amizade com Janja perdurou. Na campanha presidencial, a ativista do MAB se tornou sua assessora pessoal.

Janja foi uma presença constante na vida de Lula durante os 580 dias de prisão. Lavava sua roupa e cozinhava diariamente, mandando entregar tudo na carceragem da PF. Deixava de viajar para ficar por perto. Lula retribuía as gentilezas com buquês de flores e outros mimos, que assessores compravam e entregavam a Janja. Como Lula não tinha direito à visita íntima, o casal trocava duas cartas por dia. “Era legal. Eu recebia a dela de tarde, 4h30, 5 horas. Ela recebia a minha às onze da manhã. Isso manteve a gente conversando o tempo inteiro”, contou Lula, depois de solto, em entrevista a Gustavo Conte, um youtuber e seu fã. Ao lado de Lula na entrevista, Janja recordou que os advogados do petista, Manoel Caetano e Luiz Carlos Rocha, às vezes se esqueciam de pegar a carta de Lula e diziam que ele não tinha escrito nada. Ela insistia: “Como não tem carta? Tem carta, sim. Pode voltar e procurar que essa carta está lá em algum lugar.”

 

Na tarde do dia 8 de novembro de 2019, Janja fez sua estreia pública como namorada de Lula. Naquele dia, o ex-presidente deixou a cadeia e foi até a vigília dos apoiadores para o primeiro discurso em liberdade. As ruas nos arredores transbordavam de gente. Ladeado por Janja e líderes petistas, Lula cruzou a pé um corredor humano. Janja estava junto, perdeu-se de Lula, voltou a alcançá-lo e abraçou-o pelas costas, voltou a perdê-lo e voltou a alcançá-lo. Quando Lula começou a falar, logo agradeceu aos líderes da vigília e, entre eles, a amiga Neude. Janja ergueu os braços vibrando e fez carinho nas costas dele e dela enquanto se abraçavam. Lula falou da família, dos políticos, dos militantes. Até que chegou a vez de Janja.

“Quero apresentar para vocês a minha futura companheira”, anunciou Lula. “Consegui a proeza de, preso, arrumar uma namorada, ficar apaixonado e ainda ela aceitar casar comigo. É muita coragem.” Janja sorria largamente. Os militantes pediram um beijo. Ela olhou fixamente para ele, que lhe deu então um selinho. O público aplaudiu. Era a entrada de Janja em cena. Já se podia perceber que ela não se acanhava com os holofotes. Tinha desenvoltura, como demonstraria mais tarde na campanha, e sempre esteve disposta a garantir seu espaço ao lado de Lula.

Assim que deixou a prisão, Lula voltou a morar em São Bernardo do Campo, seu berço político, em um sobrado alugado. Janja foi junto. Em Curitiba, onde viveu a maior parte de sua vida, Janja morava com a mãe, Vani Terezinha Ferreira, que tinha a doença de Alzheimer. Levou a mãe para São Bernardo. (Ela pegou Covid e morreu em outubro de 2020, aos 80 anos.) Também levou Resistência, vira-lata que se tornou mascote da Vigília e que ela acabou adotando. Lula e Janja tinham uma rotina quase convencional. Visitaram cinco estados, e Lula fez duas viagens ao exterior, mas a liberdade de sair de casa durou pouco. Com a chegada da pandemia no começo de 2020, o casal recolheu-se. Lula mergulhou nas lives, nas quais Janja fazia breves aparições, ainda demonstrando um certo comedimento. Numa conversa ao vivo organizada pelo MST, Janja ficou quase o tempo todo em silêncio, fora do alcance da câmera. Só entrou em cena, deixando aparecer metade do rosto, depois que a advogada Carol Proner surgiu com o namorado, Chico Buarque, para cantar uma música.

Na entrevista com o youtuber Gustavo Conde, Janja descreveu assim a rotina do casal nessa época: “Nosso dia a dia é isso. Café da manhã, ele me ajuda a lavar a louça, vou cuidar do almoço, ele vai fazer as entrevistas”, disse Janja, que já então mostrava sua inclinação para cercar o ex-presidente de cuidados. “Ele trabalha sem parar e eu sempre ali: ‘Dá uma desacelerada, cuida da voz, não grita.’” Na sua conta do Twitter, Janja publicava fotos das refeições do casal. Certo dia, preparou batata frita com ovo frito e foi à rede. “Zoião avec french frais à moda Paola Carosella!!! Meu bem adorou!!”, escreveu, marcando a chef. Uma seguidora reclamou do cardápio. “Isso é comida pra velhinho? Ele tem que comer salada. Se esse homem morrer de enfarte, a gente te mata. Ele ainda tem uma Presidência para tomar.” Janja reagiu. “Menosssssssssss!!! Pequenos pecados! Cuido muito da alimentação dele!” E fechou sua resposta com uma hashtag: #quemamacuida.

Em suas interações nas redes sociais, costumava fazer comentários na condição de mulher de Lula. Certa vez, o jornalista Fernando Morais, biógrafo do petista, escreveu que o ex-presidente estava “no ringue”, colocou uma foto dele lutando boxe e informou que, “para permanecer em forma e aliviar as tensões, faz esteira, puxa ferro e treina boxe”. Ao compartilhar a publicação, Janja acrescentou: “E namora comigo.”

Em setembro de 2021, Lula e Janja deixaram o sobrado de São Bernardo e alugaram uma casa de 700 m2 no Alto de Pinheiros, um bairro de classe média alta em São Paulo. Ali, ela continuou uma vida praticamente anônima. Levava Resistência para passear, fazia o supermercado, quase sempre desacompanhada, e frequentava o salão de beleza. (Até hoje, mantém um hábito anterior à fama: sai descalça do salão para não arranhar o esmalte aplicado nas unhas dos pés.) “Quantas vezes fomos ao [shopping] Iguatemi e nunca ninguém a viu?”, diz Gabriela Araújo. “A gente ia comprar roupa juntas. Ela reclama que eu não sei me vestir como uma doutora advogada, que tenho que ser mais moderna. Me faz gastar dinheiro”, diverte-se a amiga. Nos fins de semana, elas e os maridos faziam churrasco. “Janja sempre prepara alguma coisa especial para mim porque não como carne. Nos domingos, ela mesma cozinha, lava a louça, uma vida normal, supernormal.”

A mudança, feita por insistência de Janja, não foi trivial. Lula deixou a cidade em que morou por décadas e onde nasceu politicamente nos anos 1970. Em conversas reservadas, ouve-se alguma reclamação sobre a troca de endereço, que deixou Lula mais distante de amigos históricos. Até seu convívio com os filhos tornou-se menos frequente. Mas nem todo mundo concorda. “Lógico que temos menos tempo para estar junto, conversar, tomar um guaraná para molhar as palavras”, diz Moisés Selerges Jr., presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. “Mas, de forma alguma, em nenhum momento, eu senti afastamento. Janja nunca atrapalhou essa relação. Ao contrário.” Luís Cláudio, o caçula de Lula, indagado se a relação com Janja distanciou o pai dos filhos, dispensa comentários. “Quem tem que responder é meu pai. Melhor perguntar para ele, não vou falar nem que sim nem que não. Não é meu assunto.”

Na nova casa, Lula e Janja instalaram uma pequena academia. Outros amigos entraram na vida do casal. Vizinhos quase de porta, o advogado Marco Aurélio de Carvalho e sua mulher, Alessandra Gaspar, diplomada em relações internacionais, foram dos que mais se aproximaram. Líder do Prerrogativas, grupo que reúne advogados progressistas, Carvalho conheceu Janja e, só depois, Lula. “Milito desde os 13 anos, sou filiado ao PT desde os 16. Geralmente quando encontramos alguém por quem temos admiração quase incontida, a tendência é a frustração”, diz Carvalho, referindo-se a Lula. “Foi o oposto”, derreteu-se. Sua admiração se estende a Janja. “Ela é um ativo. Mantém os ânimos e a resistência com descontração e firmeza.” Os dois casais se encontram de vez em quando. A vida social de Janja e Lula é intensa. Em ocasiões informais, Janja improvisa na recepção. Pede pizza ou esquenta uma torta. Lula adora uma que vem recheada de abóbora com carne-seca. Com convidados menos íntimos, como o compositor Caetano Veloso, serve queijos e vinhos.

Embora não seja vegetariana, o restaurante favorito de Janja é o Camélia Òdòdó, da chef e apresentadora Bela Gil, na Vila Madalena. “Ela fala que é o escritório dela”, diz Gil. As duas se conheceram em 2018, quando a cozinheira visitou a Vigília Lula Livre, em Curitiba. Janja, ainda anônima na multidão, mas sempre curiosa para conhecer famosos, a abordou. Três anos depois, quando se reencontraram, a agora mulher de Lula rememorou o episódio. “Não lembrava que lá eu tinha me encontrado com ela. Tem uma foto que o Stuckinha [apelido do fotógrafo de Lula, Ricardo Stuckert] tirou de nós. Aí lembrei. Sou péssima de memória”, disse Gil, numa videochamada de Berlim, onde acompanhava a turnê do pai, Gilberto Gil.

As duas se tornaram amigas e, quando Janja marcou a data do casamento, Bela Gil indicou a estilista Helô Rocha para fazer o vestido. “Ela ficou super-hiperfeliz, disse que já tinha pensado na Helô e falou: ‘Não acredito que ela é sua amiga! Queria muito!’ Liguei para a Helô na hora, elas marcaram uma reunião lá no Camélia e deu no que deu. Ficou lindo.” O vestido teve como tema o “luar do sertão”, com referências às fases da Lua e a plantas da região, como mandacarus e xiquexiques, que foram bordadas por costureiras de Timbaúba dos Batistas, no Rio Grande do Norte. A noiva pediu um detalhe a mais, uma pedrinha vermelha dentro de uma estrela bordada, em homenagem ao PT. Queria uma estrela brilhando.

No início, Lula não fazia questão de formalizar a relação, mas, diante do desejo de Janja, embarcou na ideia. O casamento ocorreu no dia 18 de maio passado, três anos depois do anúncio público do namoro. Estava apinhado de influenciadores e de gente com muitos seguidores nas redes sociais. O evento bombou no ambiente digital e repercutiu bem no mundo político. Janja então entrou em definitivo para o mundo dos holofotes.

 

No primeiro sábado de maio, em São Paulo, o PT realizou um ato público para lançar oficialmente a aliança com o ex-governador Geraldo Alckmin, que havia trocado o PSDB, seu partido por mais de trinta anos, para se filiar ao PSB e concorrer a vice na chapa de Lula. Na programação, só estavam previstos os discursos dos dois candidatos. Alckmin, convalescendo da Covid, falou por meio de um telão. Pouco antes de Lula começar a falar, Janja pediu a palavra. Tinha uma surpresa para o futuro marido, um presente antecipado pelo casamento que se realizaria dali a dez dias. Nas semanas anteriores, ela produzira o vídeo com uma nova versão do famoso jingle Lula lá.

Com a ajuda de Stuckert, o fotógrafo, ela convidou diversos artistas para regravarem o jingle. Entre eles, estavam Pabllo Vittar, Duda Beat, Chico César. “Foi muito fofo”, diz Bela Gil, ao recordar a história. “Janja estava almoçando com umas amigas no Camélia, eu estava com a Flor, minha filha. Ela veio e disse que queria fazer um convite supersecreto, que não podia chegar no ouvido do presidente.” E então pediu para Flor participar da regravação. “A Flor ficou super emocionada”, diz a mãe. A garota, de 13 anos, abre o clipe. Numa das versões mais famosas, de 1989, o jingle é cantado por Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil, avô de Flor.

A surpresa do jingle não foi a primeira vez em que Janja entrou numa seara política, coisa que nem todos os petistas graúdos consideram adequada. Numa campanha, o jingle é peça importante do marketing eleitoral. É pensado pelos estrategistas para atingir um certo público, definido por meio de pesquisas e testes prévios. Com a iniciativa de Janja, o setor de marketing foi apenas informado de que ela ressuscitaria o jingle histórico. Que “foi ficando”. Desde então, em todos os comícios do petista pelo Brasil, o clipe é projetado no telão, enquanto Janja canta, dança e estimula a plateia a fazer o “L” de Lula com os dedos. Em agosto, finalmente o marketing lançou mais um jingle para a campanha. É uma nova versão da mesma música, agora em ritmo de forró e interpretada por artistas populares, como Maciel Salú e Cida Lobo.

Em dezembro de 2020, bem antes da campanha, Janja já havia dado sinais de que não seguiria ordens alheias. O casal viajou para Cuba, onde Lula participaria das filmagens de um documentário do diretor norte-americano Oliver Stone. A equipe do petista queria discrição por causa da situação do Brasil, que vivia restrições na pandemia e enfrentava o crescimento da pobreza e a volta da fome. Janja, no entanto, postou uma selfie com o então namorado de óculos escuros e chapéu-panamá. Era tudo o que os assessores de Lula não queriam. A comitiva, quase toda ela, contraiu Covid na ilha e fez o isolamento por lá mesmo.

Os profissionais da política dizem que Janja deveria procurar se comportar como uma extensão da imagem que Lula construiu junto ao povo. Mas ela não dá ouvidos e vem cavando seu espaço a seu modo, deixando admiradores e opositores pelo caminho. Junéia Batista, secretária de Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT), é uma das poucas militantes que critica Janja sem pedir o anonimato. Diz que pegou “antipatia pessoal” pela nova companheira de Lula depois de vê-la posando para fotos com a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, em jantares privados com socialites. “Marta é uma traidora. Fiquei muito brava”, diz Batista, relembrando que Suplicy votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

Mais tarde, outro episódio reforçou a má impressão – e, de novo, envolveu Marta Suplicy. Janja quis levar a ex-prefeita à manifestação do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, organizado pelas centrais sindicais na Avenida Paulista. Batista vetou. “A gente trabalha para trazer a mulherada, organiza, divulga, faz reuniões intermináveis. Aí, no dia que o bolo está pronto, vem a pessoa querendo ser a cereja? Não vai, porra nenhuma”, disse. Janja apareceu na Paulista sem Suplicy, apresentou-se às organizadoras, mas não subiu no carro de som.

A gota d’água aconteceu dois dias depois, num evento com Lula. Batista encontrou Janja num corredor. Cumprimentou-a e comentou que uma conhecida queria fazer uma reunião. “Mas ela disse que não podia. Achei uma coisa, assim, meio superstar, sabe? Eu sou dirigente sindical da CUT, sou militante política há 34 anos, feminista anti-homofóbica, antirracista. Sou conhecida no movimento sindical internacional, mas nunca tratei ninguém com nariz empinado, atendo todo mundo que quiser falar comigo. Achei aquilo um pouco arrogante. Menos, sabe?”

As comparações com Marisa Letícia, com quem Lula foi casado durante 43 anos, não demoraram a aparecer. Os mais próximos dizem que a ex-primeira-dama não se envolvia diretamente nas campanhas e conseguia aterrar Lula. Era capaz de lhe dizer verdades e evitava que se perdesse no próprio sucesso. Janja, ao contrário, faz questão de aparecer na linha de frente e inebria o ex-presidente. Antigos parceiros atribuem a ela o novo guarda-roupa de Lula, a exibição de acessórios caros, como um relógio de luxo da marca suíça Piaget, e os hotéis mais refinados em que ele passou a se hospedar.

Os paralelos, claro, comparam histórias diferentes. Marisa casou-se com Lula em 1974, ainda antes de seu marido presidir o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, e compartilhou com ele uma vida inteira até chegar ao Palácio do Planalto. Janja se casou com um homem que, para apoiadores e opositores, já era dono de uma biografia lendária e ex-presidente por dois mandatos. Ainda assim, Janja acabou por desempenhar um papel que nunca existiu nas campanhas presidenciais do PT – o da esposa alegre, que cuida do marido e é a prova pública de sua virilidade.

Janja não se intimida e faz questão de delimitar seu espaço de primeira-dama da campanha. Em junho, numa passagem por Porto Alegre, os organizadores da viagem reservaram um tempo para uma sessão de fotos de Lula com candidatos. A fila era longa e alguns ainda entraram de gaiatos. Havia camisetas para ser autografadas, selfies sem fim, gente que não o via há tempos e queria colocar o papo em dia. Resultado: o candidato, descabelado e rouco, começou a dar sinais de exaustão. Já passava da hora de almoço. Janja chegou no corredor e, na frente de todo mundo, suspendeu a sessão toda.

No mesmo mês, em Natal, Lula visitou uma feira de agricultura familiar com a governadora do Rio Grande do Norte, a petista Fátima Bezerra. A equipe perdeu o controle do acesso a Lula, que foi agarrado por todos os lados. Um aliado percebeu que, depois da prisão, cresceu a mitologia em torno de Lula. Muita gente tem necessidade de tocá-lo, quase arrancar um pedaço. Janja ficou tão irritada com o assédio que interrompeu a visita, contrariando conselheiros que veem no vínculo de Lula com as pessoas seu ponto forte. Situações assim levaram quarenta profissionais da campanha – da segurança, da logística, do credenciamento, do cerimonial – a reduzir o acesso a Lula.

Em seus embates, Janja vem ganhando a parada. Nos planos originais, ela não teria participação nos programas do horário eleitoral, mas fez sua estreia na televisão e no rádio no começo de setembro. Falou por trinta segundos, dirigindo-se ao eleitorado feminino. “Sabemos das dificuldades que nós, mulheres, enfrentamos atualmente. São milhões de mulheres endividadas para poder levar alimentos para suas famílias. São mães que perderam suas casas e hoje dormem com seus filhos nas ruas. Mudar essa realidade é uma luta de todas nós”, disse. Janja ficou empolgada com a gravação, mas achou que o resultado não a favoreceu, segundo falou para a equipe.

Sua estreia veio poucos dias depois de Michelle Bolsonaro gravar para o programa do seu marido, numa tentativa de reduzir a rejeição de Bolsonaro no eleitorado feminino. A primeira-dama disse que o governo levou água para mulheres no sertão nordestino, “um presente para a mulher que merece e deve ser o que ela quiser”. Era uma referência à transposição do Rio São Francisco, concluída por Bolsonaro, mas iniciada ainda nos tempos do Império e tocada por todos os governos recentes. Janja ficou indignada com a apropriação. Num comício de Lula em São Luís, no Maranhão, já partiu para o contra-ataque. “O lado de lá só sabe falar mentira. Eles são tão caras de pau que têm coragem de ir para a televisão e dizer que foram eles que levaram água para as mulheres do sertão nordestino.”

No dia seguinte ao Sete de Setembro, em que Bolsonaro sugeriu uma comparação entre Michelle e Janja, chamando a sua mulher de “princesa” e “mulher de Deus”, a petista voltou a reagir. Antes de cantar o jingle em um evento de Lula em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, mandou seu recado. “Eu queria pedir para vocês acenderem a luz dos seus celulares para ver se tem alguma princesa por aí ou por aqui”, ironizou, falando com a voz melosa. “Não tem”, respondeu, subindo o tom. “Aqui só tem mulher de luta. E são essas mulheres que vão ganhar essa eleição!”

Janja atribui parte das críticas que recebe ao machismo, e não é dos adversários. É dos “companheiros do PT” mesmo. A essa reclamação, petistas reagem dizendo que a forma como ela se impõe, muitas vezes ocorre à revelia das orientações do partido. Veem nela um desejo de se tornar uma voz influente, que esbarra nas estratégias de campanha. Mesmo entre as feministas, há quem torça o nariz para o papel de Janja na campanha – dela ou qualquer outra mulher de candidato. Acham que pode ressuscitar, dentro da própria esquerda, o estereótipo da primeira-dama, aquela mulher que existe apenas como apêndice do marido.

A figura da primeira-dama desidratou-se no Brasil a partir do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, quando a antropóloga Ruth Cardoso não ocupou a função tradicional da assistência social e atuou no governo na condição de acadêmica com conhecimento técnico, criando o programa Comunidade Solidária. A atuação decorativa e assistencial, que retoma alguns dos velhos preconceitos sobre o papel feminino na sociedade, só voltou no governo de Michel Temer, com Marcela, e agora, no governo Bolsonaro, com Michelle.

Gleisi Hoffmann, presidente do PT, acha que boa parte das críticas vêm mesmo é do machismo – e do machismo de petistas. Ela concorda com Janja. Afirma que os comentários negativos, em geral velados, refletem preconceitos. “É querer que a mulher fique lá sentadinha no canto, comportada. Não condiz com o lugar que queremos para a mulher na política. E não precisa ter mandato, cargo. Janja tem dado muita contribuição.”

 

Janja nasceu na pequena União da Vitória, no interior paranaense. Mudou-se para a capital do estado com dez dias de vida. Em 1983, aos 17 anos, na época em que o país se mobilizava para a campanha das Diretas Já, filiou-se ao PT e passou a frequentar os comícios do partido. Um ano depois, ingressou no curso de ciências sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Usava cabelo no estilo joãozinho, gostava de Chico Buarque e Maria Bethânia e militava no movimento estudantil. “Tinha um aspecto de muito menina, carinha de 15, 16 anos”, diz Nelson Rosário de Souza, hoje professor titular do curso que ambos fizeram três décadas atrás.

Como havia quatro Rosângelas nas ciências sociais, seu apelido de família ganhou força e se perpetuou. Frequentava festas e confraternizações dos estudantes, participava das reuniões do centro acadêmico e costumava dar suas opiniões com convicção. “A Janja da faculdade é a Janja de hoje, só que mais nova, muito alegre e franca”, lembra Mazé Rossetti, amiga daqueles tempos. Ela se lembra de uma viagem que fizeram a Porto Alegre, em 1986, para um congresso universitário. Alojaram-se numa sala de aula da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, puseram colchonetes no chão e uma bandeira do PT na parede. Uma foto dessa ocasião voltou a circular no grupo dos amigos agora com a fama da antiga colega. Janja aparece com o corte da moda, sorriso largo, brincos de argola, camisa polo amarelo-gema, jaqueta de camurça cotelê bege, minissaia rosa e meia-calça lilás. Os estudos ficaram em segundo plano. Das doze disciplinas do primeiro ano de curso, passou apenas em duas: introdução à economia e sociologia geral. No segundo e terceiro anos de faculdade, repetiu o padrão. (Acabou interrompendo os estudos, retomou e formou-se apenas em 1991, quase prestes a ser jubilada.)

Naquela primeira metade dos anos 1980, os universitários viviam a efervescência política diante da iminente queda do regime militar. Os estudantes militavam dentro e fora dos limites da universidade. Imersa nesse ambiente, Janja conheceu um estudante dez anos mais velho, petista como ela, e igualmente aguerrido. Marco Aurélio Monteiro Pereira estava começando o mestrado em história na UFPR e tinha três empregos. Vivia uma fase puxada e cheia de responsabilidades. “Estava exausto emocional e psicologicamente, e a Janja é uma menina muito jovial”, ele contou à piauí em um telefonema. “Ela era alegre, expansiva, agradável. Era impossível ficar triste perto dela.”

Os dois namoraram por cerca de dois anos até que Pereira foi aprovado num concurso para professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Corumbá. Mantiveram o relacionamento a distância durante um ano, quando o historiador foi aprovado para uma vaga na Universidade Estadual de Ponta Grossa, cidade industrial paranaense a 115 km de Curitiba. Janja conseguiu um emprego como professora colaboradora de sociologia na mesma universidade e foi morar com o companheiro. O casal se instalou em uma casa espaçosa de esquina, que se tornou um ponto de encontro da turma do PT na cidade. Com outros docentes, organizaram um movimento chamado Cidade Viva, que levava projetos de extensão universitária a regiões periféricas de Ponta Grossa, como recorda o professor Edson Silva, amigo do casal.

Pereira e Janja moraram juntos por quase dois anos, ao lado de um filho dele de outro relacionamento. Mas ela quis voltar para Curitiba. “Ponta Grossa não é uma cidade fácil de se viver, e a Janja era uma menina mais cosmopolita. Compreendi claramente a incompatibilidade que havia. Tentamos por um tempo ir e voltar, mas acabou não dando certo.” Pereira mergulhou na vida universitária. Além de lecionar história, estudou música erudita com predileção por composições medievais, renascentistas e as experimentais nórdicas. Foi comentarista político na antiga Rádio Rock e na CBN locais. Fez um curso livre de teologia e se tornou pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Em 2018, com a eleição de Bolsonaro, decidiu se afastar do pastorado. “Ficou inviável diante da forma avassaladora com que as lideranças da igreja foram cooptadas pelo projeto que está na Presidência da República hoje”, diz. “Ter igreja que leva escultura de revólver de 4 metros de comprimento para a Marcha pra Jesus… O meu cristianismo se assusta, sabe? Essas coisas de exaltação de princípios que matam gente não me fazem muito bem.”

Uma vez separados, Janja e Pereira perderam contato. Faz dez anos que não se falam, ele conta. No início de 2022, ele se desfiliou do PT e passou a simpatizar com o Psol. Soube pela imprensa do relacionamento da ex-companheira com Lula. “Para mim foi bem surpreendente, claro”, disse, rindo. “Eu fico feliz por ela, e o Lula também merece. A Janja foi um sopro de vida para mim e creio que está sendo um sopro de vida para ele também.”

Quando voltou para Curitiba, Janja trabalhou na liderança do PT na Assembleia Legislativa do Paraná. Em 2003, no primeiro ano do governo Lula, foi contratada como consultora na Itaipu Binacional, onde fez carreira. Em 2005, foi efetivada como funcionária e, em quase duas décadas na Itaipu, trabalhou em diversas funções, entre as quais a de assistente do diretor-geral, o petista Jorge Samek, e coordenadora de programas de desenvolvimento sustentável. Nessa época, Janja conheceu Gleisi Hoffmann, que foi diretora financeira da usina entre 2003 e 2006.

Em 2012, Janja licenciou-se do trabalho e se mudou para o Rio de Janeiro, onde atuou como assessora de comunicação e relações institucionais da Eletrobras. Quatro anos depois, voltou para Curitiba e reingressou nos quadros da Itaipu. No final de 2019, já no governo de Bolsonaro, Itaipu convocou os servidores a morar em Foz do Iguaçu, onde fica a sede da usina. Janja preferiu se aposentar.

Ela tem um irmão, mas não tem contato com ele. Com o pai, José Clóvis da Silva, que vive numa clínica em Curitiba, encontra-se esporadicamente. No sábado, 17 de setembro, Silva foi ao comício de Lula na cidade. Janja e o marido desceram no aeroporto e foram direto para o ato, montado na Boca Maldita, na região central. Encontraram-se com o pai de Janja, que ficou acomodado numa cadeira no fundo do palco. Ele se locomove com dificuldade e permaneceu sentado, longe da vista do público. A filha mencionou sua presença ao microfone. “Estou muito feliz que meu pai está aqui com a gente”, disse. Ao falar da mãe, a voz embargou e lágrimas escorreram. “Mas estou muito emocionada porque tem uma pessoa que não está aqui comigo hoje que infelizmente eu perdi para a Covid, a minha mãe. Queria dedicar o que a gente vai cantar aqui à minha mãe, uma das quase 700 mil vítimas da Covid, de quem irresponsavelmente o presidente do Brasil não tomou conta. E cada vez que vejo vídeo dele imitando uma pessoa sufocada é como se a minha mãe morresse mais uma vez.” E concluiu: “Hoje eu vou cantar para a minha mãe. Mãe, te amo. Você está aqui no meu coração para sempre.”

No final do ato, Janja e Lula foram direto para o aeroporto.

 

Janja tem olhos castanhos, pesa cerca de 65 kg e mede aproximadamente 1,65 metro, apenas um pouco menor que Lula, que tem 1,68 metro. Costuma usar salto baixo. É vaidosa e adepta de exercícios físicos. Antes do começo da campanha, fazia musculação quase todos os dias e, de vez em quando, praticava esportes de aventura, como rapel. É zelosa quanto à alimentação. Prefere produtos orgânicos. As amigas consideram que é uma mulher extrovertida, despachada e bem-humorada. Entre conhecidos, é solícita e doce. Com seus subordinados, pode ser dura e arrogante. Quando faz refeições nas instalações do PT, não é raro que reclame de alguma coisa com os garçons. Entre desconhecidos, é reservada. Quando lhe pisam nos calos, muda o tom de voz, fala com rispidez e não tem papas na língua – nem no mundo real nem no mundo digital.

Fluente nas redes sociais, Janja tem conta ativa no Twitter, Instagram e TikTok. No ambiente digital, sua desenvoltura tem sido cada vez maior. De início, antes do começo oficial da campanha, Nicole Briones, que cuidava das redes sociais de Lula, barrava a presença de Janja nas contas do ex-presidente sem maiores cerimônias, por considerar que ela poderia virar alvo do bolsonarismo e prejudicar a campanha do petista. Em novembro de 2021, Lula viajou à França para encontrar-se com o presidente Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, em Paris. Janja ficou incógnita por determinação da assessoria. Mas não gostou, confidenciou um deputado petista a par da situação. Na volta, Briones foi afastada da função. Em dezembro, Lula foi a Buenos Aires visitar o presidente argentino Alberto Fernández, e Janja protagonizou os vídeos do encontro na Casa Rosada. Procurada pela piauí, Briones não quis comentar sua saída.

Com a mudança, os perfis de Lula passaram a compartilhar as publicações de Janja, curti-las e mencioná-las com frequência maior. Lula não manuseia sozinho aparelhos de celular, não tem WhatsApp nem frequenta redes sociais. Janja, ao contrário, fala a língua da internet, usa os bordões, entra nas polêmicas próprias das redes – o que deixa alguns petistas de cabelo em pé. No início de agosto, Michelle Bolsonaro divulgou imagens de Lula em um ritual de religiões de matriz africana e escreveu: “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não.” Os bolsonaristas vibraram em público, mas houve adeptos do presidente que, em privado, ficaram incomodados com a demonstração descarada de intolerância religiosa da primeira-dama.

Janja não deixou passar. “Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo”, escreveu no Twitter. “A minha vida e a do meu marido sempre foram e sempre serão pautadas por esses princípios.” Em resposta, as redes bolsonaristas espalharam imagens em que Janja aparece em um altar de orixás, tendo escrito na legenda: “Saudade de vestir branco e girar, girar, girar…” O objetivo dos detratores era provocar a repulsa do eleitorado evangélico, parte do qual associa religiões de matriz africana com “entidades satânicas”. Janja dobrou a aposta. Abriu para todo mundo seu perfil no Instagram, até então acessível apenas a amigos autorizados. Nele, havia imagens de rituais de candomblé e umbanda. Uma legenda dizia: “Ontem foi dia de bater cabeça para minha mãe Iansã!! Eparrei oyá!”

Foi uma resposta à altura, própria de quem de fato defende a liberdade religiosa, mas alguns petistas acharam que Janja caiu numa provocação que não interessava à campanha. Do ponto de vista religioso, Janja não é diferente de milhões de brasileiros que passam no terreiro para consultar os búzios, aparecem numa sessão espírita e, no domingo, rezam na missa. Ela posta imagens de orixás, fala de Deus, casou-se na Igreja Católica e, quando sua mãe morreu, mandou rezar uma missa de sétimo dia.

Na campanha de Lula, a petista passou a trabalhar com temas como diversidade, feminismo, direito dos animais e sustentabilidade. São assuntos que interessam à socióloga. Com a campanha pegando tração, ela passou a falar mais de segurança alimentar e fome. Participou de um evento de Lula sobre o tema. Em abril, na Brasilândia, na periferia de São Paulo, fez uma fala breve. “A gente sabe que a cara da fome do Brasil é a cara das mulheres, as mulheres que estão na linha de frente sofrendo junto com a família buscando alimentação para seus filhos.”

Janja também é uma incentivadora da aproximação da campanha com a cena cultural. É fruto de articulação sua a realização de reuniões do candidato com artistas em todos os estados visitados na pré-campanha. Mas não apenas. A jogada com maior visibilidade foi o apoio que a cantora Anitta declarou ao petista, em julho. Com 118 milhões de seguidores nas redes sociais, a funkeira carioca é apontada como um cabo eleitoral de peso, sobretudo entre os mais jovens. Janja ajudou a aproximá-la de Lula.

Anitta é próxima da empresária Paula Lavigne. As duas debatem política com frequência e se identificam na rejeição a Bolsonaro. Depois de diversas conversas, Lavigne sugeriu que Anitta telefonasse para Janja. A cantora ligou e Janja colocou Lula no viva-voz. Segundo interlocutores dela, o primeiro papo entre o ex-presidente e a cantora não fluiu muito bem. Anitta, rápida e direta, disse que nunca tinha votado no petista e agora pretendia declarar ao público que preferia Lula a Bolsonaro, mas isso não significava apoio indiscriminado a seu partido. Lula tomou um susto com o rumo cortante da conversa. Além de Janja, Lavigne também ajudou a rearranjar as coisas, e uma nova conversa foi marcada, quando então se selou o apoio. “Sou Lulalá primeiro turno. E lutarei por uma novidade na política presidencial brasileira nas próximas eleições”, anunciou Anitta.

Foi um gol de Janja. Mas nem todo o entorno de Lula comemorou. Alguns petistas ponderaram que esse tipo de movimento poderia não ajudar a conquistar o eleitor religioso e conservador. Uma pesquisa Quaest/Genial, logo depois do anúncio de Anitta, perguntou aos eleitores se o apoio da cantora ajudava no voto em Lula. Para 68%, não fazia diferença. Para 19%, diminuíam as chances. Para 12%, aumentavam. Mas Anitta ganhou 300 mil novos seguidores assim que anunciou apoio ao petista.

A desenvoltura de Janja na campanha já rendeu debates internos sobre seu papel em um eventual terceiro mandato de Lula. No dia 5 de setembro, durante um encontro com assistentes sociais, o ex-presidente falou sobre o assunto. Sem citar Michelle Bolsonaro, descartou que sua mulher viesse a ocupar função similar à da atual. “A Janja sabe que não tem essa de primeira-dama ficar cuidando da assistência social. Quem vai cuidar de assistência social é alguém especialista em assistência social”, declarou. A socióloga, no palco, assentiu com a cabeça e ergueu o braço direito com a mão fechada, um gesto simbolizando luta.

 

Domingo, 3 de julho, o almoço estava servido. Quibe cru, quibe frito, coalhada, esfiha – cardápio árabe clássico, preparado pelo dono de um restaurante libanês em São Paulo, que é também aluno da professora e ex-primeira-dama de São Paulo, Lúcia França (PSB). Ela e o marido, o ex-governador Márcio França (PSB), recebiam para almoçar outros três casais: Lula, Alckmin e o ex-prefeito Fernando Haddad, com as respectivas mulheres. Estavam sentados em uma mesa redonda. Márcio França formalizou sua desistência de disputar o governo de São Paulo, em favor de Haddad. Sairia candidato a senador na chapa. O ex-governador passou a palavra para Lula, mas Lúcia França o interrompeu.

“Vocês estão na minha casa, então eu vou falar”, disse. Lembrou que em meados da década de 1990, na disputa de uma eleição em São Vicente, cidade natal e berço eleitoral do seu marido, o prefeito petista descumpriu o acordo de apoiar França e lançou um candidato do PT à prefeitura. Anos depois, petistas impediram que França, candidato a deputado numa coligação com o PT, subisse no carro de som durante um comício em Santos. Diante desses episódios do passado, Lúcia queria saber como poderia confiar no PT que, agora, prometia apoiar a candidatura de seu marido ao Senado.

“Já que você falou, também vou falar”, respondeu Janja. “De mulher para mulher.” E garantiu que o acordo seria, sim, cumprido. Ana Estela, mulher de Haddad, também decidiu falar sobre a lealdade e a força das mulheres e mencionou a origem comum: ela e Lúcia França, por uma enorme coincidência, pertencem a famílias que vieram de um mesmo vilarejo no interior do Líbano. Sempre muito discreta, Maria Lúcia Alckmin, a Lu, resolveu entrar na conversa. Disse que estava “duplamente feliz”. Porque receberia a visita de sua neta e porque o acordo entre França e o PT acabara de ser alcançado. O anfitrião aproveitou a deixa e disse que todos os homens ali presentes ficariam felizes quando todas elas fossem candidatas sem a necessidade de preencher cotas nos partidos.

Às vésperas da eleição, as expectativas não haviam sido frustradas. O PT manteve o apoio à candidatura de Márcio França ao Senado, conforme prometera, e Lúcia França tornou-se candidata a vice-governadora na chapa de Fernando Haddad. Quando se bateu o martelo sobre a formação da chapa, Janja mandou uma mensagem parabenizando a candidata.

As duas se reencontraram na convenção do PSB, no final de julho. A mulher de Lula não gostou da posição dos refletores no palco, colocados atrás de onde o marido discursaria. Acionou Lúcia França, que recorreu aos técnicos, que, por sua vez, conseguiram fazer a mudança de última hora, num evento para 3 mil pessoas. “Cada um que segure a sua Juma”, brincou Márcio França, sobre a sua mulher e a de Lula. Referia-se a Juma Marruá, personagem da novela Pantanal, da Globo, que se transforma em onça. Gilberto Carvalho, ex-ministro de Lula e seu assessor de campanha, também recorre a uma metáfora felina para descrever a mulher do petista: “Janja é uma leoa. Defende Lula e faz um bem notável a ele.”

Thais Bilenky
Thais Bilenky

Foi repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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