Tarcísio e Bolsonaro, na manifestação do Sete de Setembro: se o subproletariado ficou com o lulismo, o precariado, associado a frações da pequena burguesia, ficou com a extrema direita CRÉDITO: IAGO QUEIROZ_ESTADÃO CONTEÚDO_2024
Bolsonarismo Shrek
Como as urnas afetaram as coalizões que devem se enfrentar em 2026
André Singer | Edição 218, Novembro 2024
Quando o regime democrático engripa, como ocorre aqui desde o impeachment de Dilma Rousseff, cada eleição vira uma partida plena de reviravoltas, a ser decidida no olho mecânico. A incerteza é inerente à democracia, mas a multiplicação de “gatilhos”, para usar a imagem de Tostão, que mudam um jogo, depois “o campeonato e a história do futebol”, consiste numa anormalidade.
Em 2018, com o candidato à frente nas pesquisas preso em Curitiba e proibido de participar do pleito, um atentado em Juiz de Fora, desvinculado de qualquer força política organizada, ajudou a projetar a extrema direita, levando-a ao poder. Em 2022, 0,8 ponto percentual dos votos válidos evitou a reeleição do radical que alcançara a Presidência quatro anos antes, em condições excepcionais.
Nas eleições de outubro passado, o tira-teima entre Lula e Bolsonaro foi interrompido e modificado por um violento personagem da internet, desconhecido na política, que roubou a cena, manteve a Justiça paralisada e ficou a apenas 57 mil votos de ir para o segundo turno em São Paulo. O episódio, fora dos trilhos, reorientou o confronto entre as duas coalizões que cortam o país, alterando a narrativa do que virá adiante.
Ao mobilizar a raiva de uma parcela da sociedade contra o “sistema”, Pablo Henrique Marçal reativou impulsos radicais e dividiu o campo da direita. De um lado, estava a turma da pancada, cuja pulsão é chutar o pau da barraca. De outro, o grupo que opera pelos métodos tradicionais da dominação brasileira. No fim, a camiseta polo venceu a batalha paulistana e se qualificou para liderar o confronto com Lula em 2026.
Triunfante na batalha de Piratininga, Tarcísio de Freitas – aquele que usa o cargo para prejudicar o oponente em pleno domingo do segundo turno, ao mencionar um suposto direcionamento de votos pelo crime organizado, aquele que implanta escolas cívico-militares; aquele que restringe o número de câmeras nos uniformes policiais; que entrega o fornecimento de água ao capital privado. Tudo isso com silhueta plácida, sem palavrões e com gestos calmos (quando não está dando marteladas descontroladas em pregões) – lidera a seleção reacionária: entra em campo uma espécie de bolsonarismo Shrek que, inspirado no ogro verde da animação americana, tem uma aparência inofensiva, em oposição ao bolsonarismo raiz, cujo aspecto é assustador.
Se chegar ao final do torneio, Shrek promete dar trabalho ao lulismo em câmera lenta ora em funcionamento. Ainda que o presidente se beneficie do efeito reeleitoral, precisará resistir à crescente pressão da burguesia cosmopolita pela austeridade. O neobandeirante, por sua vez, tem longo caminho a percorrer. A tarefa de abrir diálogo com a parcela precarizada e revoltada dos trabalhadores, que colou o “M” no baú das motocicletas, será árdua. Os 18% que Marçal obteve na pesquisa Quaest para presidente sugerem fenômeno nacionalizado de repúdio às práticas mandonistas. O ogro-conservadorismo de Tarcísio teve 15% no mesmo levantamento, e o amálgama que propõe com o partido do interior, isto é, as oligarquias locais reunidas, torna a conversa complicada, pois o pessoal do pé na porta odeia o establishment.
Nada mais establishment do que o modo pelo qual Ricardo Nunes, do MDB, superou Guilherme Boulos, do Psol, por 59% a 41% dos válidos na disputa paulistana. No entanto, mesmo com onze agremiações coligadas, com 36 dos 55 vereadores, o Diário Oficial e 1 300 supostas obras em execução, Nunes só conseguiu se manter na prefeitura porque os marçalistas quiseram evitar a esquerda.
Na coalizão, encontrava-se a quintessência do coronelismo: além do MDB de Michel Temer, o ubíquo PSD de Gilberto Kassab, o União Brasil de ACM Neto, e o pp, outrora comandado por Paulo Maluf e agora pelo senador Ciro Nogueira. Estavam, também, é verdade, o PL de Valdemar Costa Neto e o Republicanos da Igreja Universal, ambos, no momento, com pitadas de extremismo. Foi a festa de reencontro do Centrão, descosturado desde que o PL se tornou veículo organizativo do bolsonarismo.
Visto em conjunto, aliás, o pleito parece ter repetido, metaforicamente, o que ocorre desde 1534, quando d. João III criou as capitanias hereditárias. Na maioria das 5 569 unidades administrativas, os poderosos habituais continuaram a ser os habituais poderosos. Dizem os especialistas que as emendas PIX, o adicional no Fundo de Participação dos Municípios e a boa dinâmica do PIB garantiram caixas fornidos aos que estavam nos postos. O fundo público partidário disponível para propaganda foi igualmente generoso. Viu-se, então, um recorde de reeleições no primeiro turno. Segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), mais de 80% dos que se recandidataram aos executivos tiveram êxito. Note-se que 5 466 cidades possuem menos de 200 mil eleitores (não há segundo turno), e cerca de 2,5 mil municípios reconduziram quem estava no cargo – de modo geral sem maioria absoluta. Outras tantas cidades devem ter assistido a uma sucessão entre situacionistas.
Não surpreende que MDB, PSD e Progressistas, que ocuparam as três posições superiores em número de prefeituras em 2020, tenham liderado o ranking deste ano, dando a impressão de avanço do centro e da direita, quando, na realidade, houve apenas continuidade, aliás, bastante antiga. PSD e PP são filhotes da Arena, sigla que de 1966 a 1979 deu sustentação à ditadura, depois de reunir os oriundos do primitivo Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional (UDN), legendas da classe dominante durante a democracia de 1945-1964. Pessedismo e udenismo que, por sua vez, deitavam raízes na República Velha, quiçá no Império. A leitura de Os donos do poder, de Raymundo Faoro, instrui a respeito. O MDB, para completar a genealogia, herdou as bases da oposição consentida ao regime militar, recebendo em 1965 parte do PSD e da parcela não cassada do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) original, fundado em 1945 por Getúlio para abrigar setores populares varguistas.
Na prática, MDB, PSD e PP integram o longevo partido do interior, que se caracteriza por intenso fisiologismo e mobilidade programática absoluta, deslizando de aliança em aliança, da esquerda à extrema direita, a depender do provável ganhador, desde que permaneça no aparelho de Estado. Os pequenos municípios, mostrou Victor Nunes Leal, em Coronelismo, enxada e voto, dependem de verbas que vêm, sobretudo, do Executivo federal e, desde 2015, parcialmente, de emendas parlamentares obrigatórias.
A sobrevivência do partido do interior, portanto, depende dos orçamentos estatais, secretos ou não, dos cargos oficiais e dos mil e um favores que se pode fazer e receber na esfera pública. A maneira mais eficaz de operar o mecanismo é pondo de lado toda ideologia em favor da fisiologia. Mesmo o PP, na média um pouco à direita de seus primos, tem aliança com o PT na Bahia. Em João Pessoa, o prefeito (reconduzido) do PP tem um vice do PSD. São apenas dois exemplos, entre vários.
O “moderno” PSD – que se aliou a Bolsonaro para ganhar em Florianópolis, fechou com Lula para vencer no Rio de Janeiro e se manteve neutro para ter êxito em São Luís – abocanhou duas centenas de prefeituras, além das que possuía, suplantando assim o MDB por 885 a 852. Com isso, o emedebismo perdeu a primazia que detinha desde 1988 com relação ao número de executivos municipais sob seu domínio. Esses são, contudo, deslocamentos dentro da mesma esfera, como trocar os móveis do escritório pelos da sala. O pp continua ocupando a terceira posição, com 746 executivos. O quarto primo, União Brasil – também descendente da Arena, via PFL, DEM e fusão com o Partido Social Liberal (PSL) – passará a controlar 583 localidades e, no espectro que vai da esquerda à direita, se localiza perto do pp. Somados, os quatro partidos dominam 55% das administrações do continente brasileiro.
Dado que a confederação bolsonarista está, por natureza, ancorada no agronegócio, o entrosamento com a família do interior é natural, embora isso envolva certa normalização do radicalismo de origem. Tarcísio – que, apesar de ser carioca e ter enfrentado as urnas pela primeira vez em 2022, saltou para o Palácio dos Bandeirantes, embora derrotado por Fernando Haddad na capital – parece tê-lo percebido com nitidez. O modo como operou a cavalgada de Nunes deixou isso claro, pois Tarcísio submeteu o bolsonarismo ao banho emoliente do jeito caipira, sutil nas ambiguidades. Esperto, não abriu mão de carregar junto Bolsonaro, sujeito arredio, idiossincrático, mas dono de estranho carisma popular. Distanciou-se, porém, do mesmo Bolsonaro, quando, diante da aparição de Marçal, o ex-presidente se fez uma metamorfose ambulante. Assim, por diferenciação, nasceu o bolsonarismo Shrek que, até certo ponto, prescinde de Bolsonaro.
Tudo começou em 8 de agosto, quando o influenciador goiano de 37 anos desembarcou de um teleférico imaginário na tv Bandeirantes para se apresentar no debate inaugural da campanha paulistana. Até ali, o candidato do PRTB era só o portador de um passado obscuro e de um surpreendente quarto lugar na pesquisa de intenção de voto do Datafolha. Quando o coach foi perguntado por que desejava ser prefeito, de maneira inopinada, respondeu que se candidatava, sobretudo, para que Boulos nunca sentasse “essa bunda dele” na “cadeira de prefeito”.
As nádegas foram usadas para causar frisson, mas o recado tinha endereço certo: a tendência irracional de culpar a esquerda pelas falhas do capitalismo. Em 1967, o filósofo e sociólogo Theodor W. Adorno, falando a estudantes na Universidade de Viena, apontou que determinadas camadas tendiam a transferir “a culpa de sua própria desclassificação potencial não ao aparato que a causa, mas àqueles que se opuseram criticamente ao sistema”. No caso, o sistema capitalista. O contexto era outro, e o pensador se referia a frações pequeno-burguesas em decadência na Alemanha. O raciocínio, porém, se aplica ao caso brasileiro.
Marçal se dirigia a uma pluralidade de setores médios, cujo escopo vai do corretor da bolsa até o entregador de aplicativo, passando pelo motorista de Uber. Trata-se de um conjunto altamente heterogêneo de pessoas que se matam para chegar ao fim do mês e, sem saber, preferem atacar o funcionário supostamente refestelado no holerite estatal do que refletir sobre como o capitalismo tardio atua na dissolução da classe trabalhadora. São batalhadores que lutam para ascender e deixar para trás o universo da carência. Então, à merda com o sujeito que desvaloriza o esforço meritocrático! Abaixo Paulo Freire!
Em coluna publicada na Folha de S.Paulo, em setembro, o antropólogo Juliano Spyer relatou o caso de uma família evangélica da periferia paulistana que tem uma microempresa e atende pequenos negócios em comunidades. Um dos filhos, que estudou em universidade federal, tentava entender por que os seus parentes haviam aderido a Marçal. Concluiu que desejavam alguém antiesquerda e pró-mercado, que conhecesse os desafios de ter um negócio próprio e empregasse empenho e disciplina para alcançar seus objetivos.
Ao ofender, caluniar e provocar os adversários na eleição como representantes de um absurdo Consórcio Comunista do Brasil, a ponto de levar cadeirada de um deles durante debate na tv Cultura, Marçal retomou o viés fascista que vinha sendo esquecido pela operação atual de Bolsonaro e Valdemar Costa Neto na linha de frente do pl. O show da extrema direita tinha que continuar. Atingido pela cadeira de José Luiz Datena, saiu dos estúdios em ambulância e com máscara de oxigênio, simulando gravidade. Logo, voltou à lida, portando um gesso (cenográfico, segundo Tabata Amaral) no punho direito e um ar humilde, ao estilo “barbeiro de subúrbio” (alternado com modos de King Kong).
Nessa matéria, o alerta do escritor Stefan Zweig (1881-1942) merece ser repetido: “O nacional-socialismo […] evitava revelar todo o radicalismo de seus objetivos antes de acostumar o mundo […]. Uma dose de cada vez e, depois, […] esperar um pouco para ver se não era forte demais.” Absorvido o golpe do cadeiraço, Marçal retomou os chutes abaixo da cintura, típicos da “economia da atenção”. No meio de um dos espetáculos, auxiliares seus entraram no palco de debate, e um deles desferiu um soco no supercílio do publicitário a serviço de Nunes, o qual apareceu sangrando em abundância nos jornais do dia seguinte. Apesar do absurdo, a Justiça calou-se, e a intenção de votos não parou de crescer até Marçal empatar com Nunes e Boulos. O mundo estava se acostumando.
Conforme explica o professor João Cezar de Castro Rocha, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), no meio internético ganha quem grita mais. O mecanismo é óbvio. Para além do interesse racional que leva um sujeito a navegar na Web, para, digamos, pagar o IPVA, o instinto puxa o olho para o insólito, o extravagante, o bizarro que está ali dando sopa. Fisgado pelo inconsciente, o navegante incauto se torna alvo dos produtos anunciados no espaço que atraiu a vista, no caso o número 28: aperte M para causar.
Sem espaço no horário eleitoral gratuito, uma vez que o PRTB tem zero assentos na Câmara dos Deputados, o coach por pouco não desbancou as coalizões principais: uma apadrinhada por um presidente e outra por um ex-presidente. A habilidade nas redes, o cinismo que faz rir a despeito do horror implícito e o deboche a tudo que lembre civilização, Estado ou democracia levou 1 719 274 cidadãos a comprar o brand M no domingo, 6 de outubro.
Diante dos discursos padronizados, próprios do teatro político, a fala destrambelhada e supostamente livre do influenciador expressava o desejo de uma parcela da sociedade de “botar pra quebrar”, conforme expressão do crítico literário Roberto Schwarz. A função aparente do marçalismo – dizer o que todo mundo vê, mas ninguém quer reconhecer – é produzir o afrouxamento da repressão sobre os instintos. Com isso, traz uma satisfação imediata pela suspensão da censura. Só que, ao fazê-lo, leva junto a consciência de que, se a pulsão de morte não for contida, caímos em uma situação de barbárie que começa pelo esmagamento dos mais fracos.
Utilizando a análise percuciente de Herbert Marcuse, a filósofa Wendy Brown, em Nas ruínas do neoliberalismo, aplica a hipótese marcuseana à chamada direita alternativa (alt right) dos Estados Unidos com resultados elucidativos. “Os escombros da consciência deixados pelo niilismo também podem ajudar a explicar a agressão e a sevícia sem precedentes que emanam dos telejornais da tevê a cabo, da internet, dos blogs e tuítes da direita”, escreve Brown.
A aparição de Marçal introduziu o universo do Coringa na cena tapuia. Condenado a quatro anos e meio de prisão por furto qualificado, tem currículo perigoso. Segundo Castro Rocha, tornou-se ídolo na internet vendendo mentorias esquisitas para pessoas necessitadas de orientação profissional e pessoal. No ano passado, durante “maratona” de “autoajuda empresarial”, um jovem auxiliar do coach morreu do coração. No desafio para a tal maratona, Marçal escreveu: “Minha mãe não é mãe de fraco. Meu pai não é pai de otário. Minha vó não é vó de trouxa”, conforme publicado no jornal O Globo em junho do ano passado. O desprezo pela fraqueza fica patente.
Mais, ainda. Segundo reportagem do Uol, Marçal fundou um movimento que “mistura religião, autoajuda e culto à sua imagem”, chamado Quartel-General do Reino (QGR), havendo quem ali o siga de maneira fanática. Depois de vários limites ultrapassados, a divulgação de um laudo médico visivelmente falso a respeito de Boulos, às vésperas do primeiro turno, adicionou um cheiro de totalitarismo nazista ou stalinista à mistura já em si mesma explosiva.
Diante do arrasto de massa demonstrado pelo general do QGR, Bolsonaro mudou de posição quatro vezes. Em 5 de junho, concedeu-lhe a medalha de “imbrochável”, “incomível” e “imorrível”, condecoração antes recebida por figuras egrégias como Javier Milei, Viktor Orban e Neymar Jr. Naquele momento, essa condecoração do pré-candidato era pretexto para emplacar o coronel Ricardo de Mello Araújo, ex-comandante da Rota, batalhão de elite da Polícia Militar, como candidato a vice na chapa de Nunes. Aceito o nome, Bolsonaro passou a defender Nunes e, quando a marcha do imbrochável acelerou, o filho Eduardo foi escolhido para vir a público denunciar que o condecorado não era pessoa confiável. Uma semana depois, sob a gritaria de bolsonaristas identificados com o novo imorrível, escalou outro filho, Carlos, para fazer as pazes com Marçal em nome do clã.
Foi então que Tarcísio entrou em cena para salvar Nunes, que corria o risco de ficar fora do segundo turno. Dedicou-se a pressionar Bolsonaro para largar o candidato-surpresa – e não precisou insistir. No Sete de Setembro, Marçal chegou à manifestação contra Alexandre de Moraes quando o ex-presidente acabava de discursar, e as cortinas se fechavam. Ovacionado pela multidão na Avenida Paulista e, sempre filmado para os futuros “cortes” nas redes sociais, Marçal queixou-se de ter sido impedido de subir no palanque. Coube ao pastor Silas Malafaia ser sorteado por Bolsonaro para postar quase um vídeo diário chamando o coach de, no mínimo, oportunista. Como os únicos que entendem a fundo as manhas de um manipulador são as suas vítimas, vale a pena examinar a indignação de Malafaia, para quem Marçal seria um “psicopata” – segundo o Dicionário Houaiss, trata-se de quem apresenta “um distúrbio mental grave”, portando “comportamento antissocial ou amoral”.
Difícil pensar numa qualificação pior. A pregação do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, contudo, teve pouco efeito. De início, Marçal, que abocanhara a maior parte dos votos evangélicos, chegando a 31% deles em 12 de setembro, caiu cinco pontos percentuais entre aqueles eleitores. No entanto, recuperou o fôlego e encerrou o percurso no mesmo patamar anterior, deixando Nunes e, sobretudo, Boulos bem atrás nesse segmento religioso.
Depois das idas e vindas, Bolsonaro se afastou de São Paulo. Derrotado no Rio e, no segundo turno, em Belo Horizonte, o ex-presidente acabou mal no triângulo que parece funcionar como os nossos swing states – como são chamados nos Estados Unidos os estados em que a disputa é tão pendular que, a cada eleição, tanto um democrata quanto um republicano podem vencer. Em 2022, com a nação dividida, Rio e Belo Horizonte deram maioria a Bolsonaro, enquanto São Paulo optou por Lula, o que foi decisivo para o resultado final. Apesar do desempenho ruim na zona cosmopolita em 2024, o bolsonarismo deu sinais de vitalidade no interior que o sustenta, onde vigora o setor primário da economia. Blumenau e Cascavel, no Sul, São José do Rio Preto, no Sudeste, e Anápolis, no Centro-Oeste foram exemplos significativos de vitórias extracapitais do PL.
Dispondo de quase 1 bilhão de reais do fundo partidário, o PL lançou 11 452 candidatos a prefeito, 58% a mais do que em 2020, e acabou vencendo em 516 situações, tendo um crescimento proporcional. Com isso, ficou com o quinto lugar na quantidade de prefeituras, logo após as siglas do partido do interior – PSD, MDB, PP e União Brasil, nessa ordem. Alcançou o mesmo patamar no que se refere à quantidade de vereadores, quase cinco mil, que irão legislar a partir de 2025.
O resultado premiou o esforço organizativo de Costa Neto, que, depois de ter se aliado ao espectro inteiro da política, assumiu nessa fase da vida a tarefa de construir uma legenda ideológica de direita. Premiou, igualmente, a disposição do aparato de agitação e propaganda, o agitprop, do próprio Bolsonaro, que visitou 143 cidades entre 25 de fevereiro e 4 de outubro, algo como uma urbe por dia útil, durante sete meses seguidos. Além de polos regionais, como Campina Grande (PB), chegou a frequentar cidades médias, como Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, em um ativismo que lembrou o de Lula nas caravanas da cidadania da década de 1990.
OPT, até 2002, havia sido um raro caso de relativa capilarização sem apoio do governo federal, o que o PL tenta imitar agora. O projeto pode garantir sobrevida ao bolsonarismo, mas tem preço: entrar de cabeça no modus brasiliensis de mandar, o que envolve alguma cordialidade, no sentido de Sergio Buarque de Holanda, isto é, do velho poder oligárquico. Não surpreenderia se o PL se tornasse uma nova UDN, com Bolsonaro no papel de um Carlos Lacerda popular. Se ocorresse, abriria espaço para marçais e símiles, de uma extrema direita que recusa a normalização.
Além de se inserir no interior, essa talvez aspirante à UDN deu passos para ser a expressão organizada da confederação bolsonarista de 2022. Conquistou as capitais de Mato Grosso, Acre, Sergipe e Alagoas, consolidando áreas de influência no Centro-Oeste e Norte, além de uma cabeça de ponte nordestina. Com o maior número de candidatos na rubrica securitária (delegados, sargentos, capitães), foi também o partido que mais elegeu pessoas desse universo, que o Instituto Sou da Paz chama de “policialismo”. Também foi o que mais entronizou pastores. Por fim, entre as cem cidades mais ricas do agronegócio, ficou atrás apenas (e por pouco) do União Brasil no primeiro turno.
Uma legião jovem, impulsionada por Bolsonaro, ultrapassou a barreira do primeiro turno em capitais – como André Fernandes, em Fortaleza, Bruno Engler, em Belo Horizonte, e Fred Rodrigues, em Goiânia –, vocalizando a oposição a políticos tradicionais. Ainda que com perfil etário distinto, Cristina Graeml, em Curitiba, realizou trajetória semelhante. Todos eles acabaram derrotados no segundo turno, mas nenhum teve uma votação desprezível. Além disso, em Curitiba, o vencedor Eduardo Pimentel terá como vice um bolsonarista, o ex-deputado Paulo Martins.
Em que pesem esses insucessos pontuais no segundo turno, foram dados passos efetivos no sentido de transformar o bolsonarismo de um espasmo em parte orgânica do processo institucional. O problema é que, à medida que se integra à paisagem estabelecida, fica claro que o bolsonarismo não terá como ir adiante sem fazer alianças com setores menos radicalizados, como reconheceu Costa Neto ao jornal O Estado de S. Paulo. “Ou nós aumentamos a nossa base, trazendo o pessoal do centro que defende pautas da direita, ou nós perdemos a eleição. Nós não temos voto hoje para ganhar”, disse. “O problema é o pessoal (do bolsonarismo) entender isso aí”, concluiu, elaborando a doutrina Shrek.
Enquanto a direita se viu às voltas com um excesso de opções, a esquerda saiu do pleito perplexa pela falta de alternativas. Com a economia rodando a 3%, emprego no patamar saudável de 2014 e o salário mínimo em valorização, havia a expectativa, puxada por Lula, de, no mínimo, reeditar 2022. Daí o investimento em São Paulo e na figura de Boulos, um dos quadros à esquerda moldados para resistir aos tempos bicudos da ascensão trumpista urbi et orbi. A pronta atuação do Planalto nas enchentes do Rio Grande do Sul também acendeu a esperança de voltar à liderança em Porto Alegre, reeditando a época alvissareira do orçamento participativo e do Fórum Social Mundial. Dada a conjuntura particular de Belo Horizonte, decidiu-se apostar, lá também, em um nome do PT. Em Goiânia, uma delegada cujo pai fora prefeito petista em épocas heroicas prometia surpreender. Se tudo desse errado, ainda haveria resultados positivos em Teresina e Fortaleza.
Belo Horizonte e Goiânia caíram no primeiro turno, deixando para o segundo apenas a opção de escolher entre adversários mais ou menos conservadores. O que, aliás, se repetiu em diversos quadrantes. As chances em Cuiabá e Natal não se confirmaram, embora as candidaturas tenham se mostrado competitivas. Na capital gaúcha, a recuperação de Sebastião Melo (MDB) – atual prefeito que deveria ter prevenido as cheias devastadoras de abril e maio, mas não preveniu – logo sinalizou resistência do eleitorado ao retorno do PT. O revés em Teresina, mesmo contando com o governador, ampliou o amargor petista. Em São Paulo, depois do caos provocado pelo coach, a unidade conservadora se impôs sobre Boulos.
Sobrou a vitória em Fortaleza, importante colégio eleitoral do Nordeste, com 1,8 milhão de eleitores, confirmando o bastião setentrional do petismo, numa vitória suada contra o bolsonarismo raiz. Ao todo, o PT venceu em 252 prefeituras (67% delas no Nordeste), tendo crescido quase 40% com relação a 2020. Os dirigentes explicaram que era um recomeço, depois da debacle de 2016 e 2020. Ficou claro, contudo, que as realizações federais estiveram longe de criar uma onda positiva como a de 2012, quando Dilma contava com 56% de ótimo e bom nas pesquisas de opinião. Naquela conjuntura, as cinco siglas que compõem a ala progressista do Congresso (PT, PDT, PSB, PCDOB, Psol) somaram 1 468 prefeituras, inclusive São Paulo (a Rede não existia em 2012, tendo obtido registro em 2015). Agora, chegaram a apenas 731, sendo que a Rede obteve mais quatro. O petismo continua a representar uma estrutura partidária sólida, com 3 127 vereadores e uma implantação territorial invejável. O problema é que o vento global sopra para a direita e, se as velas do PT forem desfraldadas demais para o lado destro, em busca de votos, haverá uma descaracterização fatal.
O desconforto provocado na esquerda, contudo, não se transfere de maneira automática para o governo. Com 36% de ótimo e bom no levantamento do Datafolha fechado em 8 de outubro, Lula 3 chega ao final do segundo ano em condições estáveis. Os gastos obtidos na PEC da Transição permitiram aumentar o valor do Bolsa Família em 150 reais por criança até 6 anos e retomar programas como a Farmácia Popular, duas iniciativas de impacto junto à faixa da população com renda familiar mensal de dois salários mínimos. Com isso, há um clima relativamente ameno no eixo Alvorada-Planalto.
Na hipótese de Guilherme Mello, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o gasto social produziu um efeito multiplicador sobre o PIB, seja pelo efeito cascata que desencadeou, seja porque os benefícios concedidos aos pobres “vão quase todos para o consumo”, como escreveu o jornalista Vinicius Torres Freire na Folha de S.Paulo, resultando em um crescimento anual do PIB de cerca de 3%. Em consequência, grosso modo, os que votaram em Lula no primeiro turno de 2022 continuam a apoiá-lo, sobretudo no Nordeste, onde o presidente conta com 51% de ótimo e bom. Registre-se que, se dependesse da base da pirâmide, a sua avaliação positiva também subiria, chegando a 46%.
O problema é que o Datafolha registra uma queda abrupta da aprovação – nada menos que dezenove pontos percentuais –, quando se passa para o degrau seguinte (a população com renda familiar mensal de dois a cinco salários mínimos). A queda se repete nos escalões superiores de renda. Ou seja, os de menor ganho – como se dá desde o realinhamento de 2006 – continuam lulistas, porém destacados de todos os demais, cujo apreço pelo atual governo flutua em torno de um percentual pouco confortável – 27% de ótimo e bom. Na mesma linha, em que pesem indicadores positivos de PIB, emprego e renda, houve ligeira alta da percepção negativa da economia nos últimos meses. Em dezembro de 2023, 35% achavam que a situação econômica do país havia piorado. O número subiu para 41% na pesquisa do Datafolha de março de 2024 (proporção confirmada pela Quaest de setembro passado).
O resultado traz um problema semelhante ao enfrentado nos Estados Unidos, o que tem causado perplexidade aos analistas. Tanto aqui como lá, ouve-se que, não obstante os números positivos, o cotidiano do cidadão comum continua muito difícil, explicando o consequente desprestígio dos governos. Além do problema da inflação, com a veloz transformação em andamento no mercado de trabalho, o emprego, quem sabe, tenha perdido centralidade e, com isso, determinados marcadores sociológicos precisem ser revistos. São meras conjeturas para pensar.
De acordo com a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, do University College de Dublin, nada menos de 25 milhões de pessoas no Brasil hoje tentam vender algo pelo Instagram. “A lógica da pessoa de querer ser chefe de si mesma, em um país onde muitos empregos estão marcados pela lógica da humilhação, é muito libertadora”, disse ela à BBC. Talvez esteja aí uma pista para entender por que a nova classe trabalhadora – nascida durante os governos Lula 1 e 2 – é atraída por Pablo Marçal, este mago da internet, que, segundo uma admiradora, ensina “autogestão, empreendedorismo e liberdade financeira”.
Pode até ser que esteja em curso um realinhamento, termo cunhado pela ciência política americana para referir-se à lealdade entre determinados blocos sociais e partidos ou candidatos. O sociólogo Dylan Riley e o historiador econômico Robert Brenner argumentam que nos Estados Unidos a classe trabalhadora se dividiu entre os de escolaridade superior, que seguem com os democratas, e os de escolaridade inferior, que se bandearam para o trumpismo. Numa eventual analogia, se poderia pensar que, numa formação invertida, o subproletariado teria permanecido com o lulismo, enquanto o precariado, em associação com frações ressentidas da pequena burguesia, aproxima-se da extrema direita, onde encontra o empresariado do agro, do extrativismo e dos serviços, inclusive financeiros. O percurso teria começado nas manifestações de Junho de 2013, atravessado os protestos com o Pixuleco (o boneco inflável de Lula com roupa de presidiário), sofrido com a retirada de direitos com a Reforma Trabalhista durante o governo Temer e chegado à desestruturação provocada pela pandemia e acentuada por Bolsonaro. Agora, com Marçal, se teria revelado uma insuspeita conexão entre o precariado, a classe média ressentida e a Faria Lima.
Cinco dias depois das trombadas do primeiro turno, Lula deu uma entrevista na qual, de modo sutil, repassou ao PT a responsabilidade pelos fracassos. Mencionou as derrotas em São Bernardo e Santo André para lembrar que as condições originais de fundação da sigla tinham desaparecido. Em torno de 1974, no fim do milagre econômico brasileiro, a Volkswagen tinha 44 mil operários, hoje são 12 mil. O desejo de prosperar por conta própria viraliza, e a esquerda não sabe como dialogar com tal aspiração.
Na aparência, Lula está abaixo e acima dessa peleja. Abaixo, porque os votos dados a ele vêm sobretudo daqueles que ainda contam com o auxílio do Estado para garantir suas necessidades mínimas. Portanto, não se bandearam para o outro lado. Acima, porque o presidente criou uma supercoalizão governamental na qual cada senhor tem o seu feudo, menos o bolsonarismo raiz. Acordos firmados diretamente com Lula e não vinculados a um programa – le programme c’est moi – lhe permitem contar com aliados em lugares estratégicos, independente de decisões tópicas. Eduardo Paes (PSD), no Rio de Janeiro (Sudeste), João Campos (PDB), no Recife (Nordeste), Igor Normando (MDB), em Belém (Norte), foram vitoriosos em capitais estratégicas – e Lula está com eles. “Não confunda. Lula não é o PT”, lembrou Gilberto Kassab, numa entrevista de avaliação do primeiro turno. “Lula não pode ser menosprezado nunca. É um dos motivos para eu achar que o Tarcísio não deveria concorrer à Presidência. Enfrentar o Lula nunca é fácil”, arrematou, em outra entrevista.
Lula afirmou, em junho, numa conversa com Leonardo Sakamoto e Carla Araújo, do uol: “Hoje só há dois governantes mais experientes que eu na história brasileira: Dom Pedro II e Getúlio Vargas.” Estará Tarcísio disposto a arriscar uma reeleição provável a governador por uma luta incerta contra uma entidade desse porte? Afora gatilhos improváveis, entre eles a elegibilidade de Bolsonaro, a resposta dependerá de dois fatores. O primeiro diz respeito à unidade do bloco direitista. O segundo, ao andamento da economia no último biênio de Lula 3.
Neste mês, o presidente da China, Xi Jinping, desembarca no Brasil para uma visita de Estado, antes da reunião de cúpula do G20, em 18 e 19 de novembro. Trará no bolso uma lista polpuda de investimentos para o Patropi? O implacável cerco em torno do corte nos gastos sociais levará Lula a prejudicar os pobres, pondo em risco a base que o sustenta desde 2006? Se não o fizer, perderá o apoio, obtido a duras penas em 2022, da burguesia cosmopolita? As respostas virão com os meses. Por ora, só se pode afirmar que, após o 27 de outubro, o bolsonarismo Shrek entrou no aquecimento.
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