George Santos chega ao tribunal de Central Islip, em Nova York: “O meu problema foi uma ambição cega, eu perdi o controle. Foi pura ambição”, ele disse a um programa de tevê CRÉDITO: JULIA DEMAREE NIKHINSON_AP PHOTO_IMAGEPLUS_2025
The loser
Como George Santos afundou a si próprio
João Batista Jr. | Edição 225, Junho 2025
Depois de apresentar o passaporte na recepção, os jornalistas foram convidados a se dirigir ao segundo andar da Central Islip Federal Courthouse, o tribunal de Justiça de 12 andares, 23 cortes e 81 mil m², em Long Island, na Região Metropolitana de Nova York. Na sala de imprensa, decorada com dois sofás e uma mesa de cor branca, foi preciso deixar celular, gravador, relógio e qualquer outro dispositivo com recursos de gravação. A partir dali, só era permitido usar bloco e caneta.
Em seguida, os repórteres tomaram o elevador até o décimo pavimento. Eram trinta jornalistas, que formaram uma fila em frente à última sala do andar. Às 10h05 do dia 25 de abril passado, sexta-feira, o chefe da segurança autorizou a entrada de todos para dentro da sala do júri.
Do lado direito, havia cinco longos bancos de madeira, dois deles com uma placa, onde se lia: Row reserved to the U.S. Attorney’s Office, law enforcement, victims and other government officials. Eram assentos destinados a promotores, agentes de segurança, vítimas e outros membros do governo. Atrás, em outros três bancos, aglomeraram-se os jornalistas de veículos como The New York Times, New York Post, Fox News e MSBBC. Do Brasil, apenas a piauí. Do lado esquerdo, em cinco fileiras de bancos se acomodaram civis e outros profissionais de imprensa. Ao todo, havia cerca de sessenta pessoas na plateia. O ambiente estava bastante barulhento, com os jornalistas e promotores conversando entre si.
Às 10h29, George Santos, o americano de origem brasileira que teve seu mandato de deputado cassado em dezembro de 2023, entrou no tribunal, acompanhado de seus três advogados – Andrew Mancilla, Robert Fantone e Joseph Murray. Todos na sala ficaram em silêncio. Santos estava ali para a audiência que iria definir a sua sentença pelos crimes de fraude eletrônica e desvios de recursos de campanha. A pena poderia ser de 24 a 87 meses de prisão. Os procuradores pediram a punição máxima.
Mais gordo e mais altivo do que aparece nas fotos, Santos entrou na sala como um manga-larga avançando em uma pista de hipismo: porte imponente, passos duros, sem olhar para os lados. Sentou-se entre Mancilla e Fantone. Às 10h34, chegou a juíza Joanna Seybert, uma senhora magra, cujo cabelo parecia esculpido em pedra, tal o excesso de laquê. Todos se levantaram. O espetáculo iria começar.
O procurador que chefiava a acusação, Ryan Harris, e o advogado de defesa Mancilla se apresentaram à juíza. Santos tomava um gole d’água quando Seybert abriu a audiência, olhando diretamente para o ex-deputado. “Se o senhor não disser a verdade, as consequências poderão ser ainda piores”, disse ela. Ainda que seja algo protocolar em audiências, essa frase ganhou uma forte conotação, tendo em vista o histórico de mentiras de quem estava sentado no banco dos réus.
Antes de passar a palavra a Santos, que tinha o direito de fazer um apelo final, a juíza perguntou se ele havia ingerido droga, medicação ou álcool nas últimas 24 horas a ponto de perder a habilidade de se comunicar. O réu disse que não e iniciou sua manifestação. Começou em tom seguro, mas pouco a pouco sua voz fraquejou. Disse que se sentia “envergonhado” e “arrependido” e que havia traído a confiança de seus eleitores. “Peço as mais profundas desculpas. Não posso reescrever o passado, mas posso controlar o caminho que tenho pela frente.” Quando terminou, estava emocionado.
A juíza começou os trabalhos se mostrando incomodada com o comportamento de George Santos nas semanas anteriores. Nos dias que precederam a audiência, ele usou o seu perfil no X (que ele apagou no fim de maio e onde tinha 195 mil seguidores) para atacar os procuradores e se dizer vítima de perseguição política. Falou que era um “bode expiatório”, que jamais iriam conseguir “dobrá-lo” e que deveriam se preocupar muito mais em investigar pedófilos dentro de toda estrutura de poder, inclusive do governo americano. As postagens enfureceram os procuradores, que se manifestaram nos autos dizendo que o criminoso confesso continuava “a não demonstrar arrependimento por seus crimes”.
Seis dias antes da audiência, em 19 de abril, Santos enviara uma carta de três páginas à juíza para tentar contornar o estrago. O documento serviu como aperitivo de qual seria a estratégia de sua defesa. Ele afirmou que, depois de um processo de “autoexame”, tinha se arrependido de suas ações. Contudo, se sentia injustiçado, por entender que os procuradores queriam julgá-lo por sua atuação nas redes sociais, e não pelos crimes cometidos.
Na mesma carta, Santos citou quatro casos de criminosos de colarinho branco que tiveram penas menores que a pedida pelos procuradores no seu caso. E jogou a culpa no colo de Nancy Marks, a tesoureira de sua campanha a deputado, em 2022. A estratégia não colou. Sobre o conteúdo de sua carta, a juíza Seybert disse o seguinte na audiência: “Não estou aqui para fazer juízo político, mas para julgar os crimes que o senhor cometeu.” Santos tomou mais um gole d’água.
O advogado Mancilla, que é também cantor de rock, começou a sua argumentação. A performance foi pouco convincente. Ele disse que seu cliente delegou a Nancy Marks as transações financeiras feitas durante a campanha, sem que ele tivesse ciência do que estava se passando. “Ela administrava e controlava tudo”, afirmou o advogado.
O procurador pediu a palavra para lembrar que foi Santos quem contratou Marks e que, portanto, era ele quem tinha o poder de decisão. Em seguida, chamou uma vítima das fraudes financeiras. Usando blazer e saia azuis, Roberta Reardon se levantou e assumiu o microfone no púlpito. Ela foi gerente do órgão do estado de Nova York que administrou a ajuda financeira à população desempregada durante a pandemia. Reardon começou a ler um texto: “Durante a pandemia, o nosso fundo foi esticado até o limite, com uma aplicação de 1,6 milhão de dólares em apenas seis semanas, durante a maior crise econômica de nossa geração.” Depois, ela contou que Santos, mesmo sem estar qualificado para receber a ajuda pública, fez o seu registro no aplicativo do órgão reiteradas vezes. “Não foi apenas um erro ou um mal-entendido, foi uma decisão consciente de fraudar o sistema, tomada repetidamente a cada vez que ele se cadastrava para receber os benefícios.” A leitura do texto durou 3 minutos.
Em fevereiro de 2020, Santos, que é filho de brasileiros que imigraram para os Estados Unidos, foi contratado para o cargo de diretor regional de uma empresa de investimentos sediada na Flórida. Recebia um salário anual de 120 mil dólares (na época, cerca de 500 mil reais). No mês seguinte, os Estados Unidos sancionaram uma lei para mitigar o impacto da Covid entre os desempregados. Em junho, quando ainda trabalhava, Santos solicitou o auxílio, alegando estar desempregado desde março de 2020. Deste mês até abril de 2021, ele recebeu de forma fraudulenta 24 mil dólares (cerca de 136 mil reais). Reardon afirmou que as ações de Santos afetaram a sociedade e que a sua condenação devia servir de exemplo.
Mancilla então tomou a palavra novamente. O advogado falou que Santos tem sido tratado por todos como um mentiroso patológico, colocando de lado sua condição de “ser humano” que nunca cometeu um crime violento. Descreveu o ambiente familiar em que o réu cresceu, tomado por “brigas e infidelidade”. Mancilla aventurou-se então pela psicologia. Disse que esse contexto biográfico fez com que Santos desenvolvesse um anseio por uma vida idealizada, com educação de qualidade e independência econômica. “Apesar do alter ego com que se apresenta ao mundo, ele é um homem bom, que hoje se sente muito envergonhado por tudo”, disse o advogado, que passou em seguida a desenvolver uma linha de defesa arriscada.
Mancilla afirmou que o seu cliente iria restituir ao governo o dinheiro desviado da ajuda emergencial durante a pandemia e falou da apropriação das doações para sua campanha política. “Eu não contesto os doadores que ele fraudou, mas saibam que esse ato teve pouco impacto nas finanças deles”, disse. O advogado se referia ao fato de que boa parte dos doadores são moradores de Long Island, uma área muito rica, com residências que ultrapassam o valor de 25 milhões de dólares (cerca de 140 milhões de reais). Ou seja, ele não negou que Santos tenha roubado os doadores, mas minimizou o roubo por ter sido feito a gente rica.
Mancilla prosseguiu: “Ele já foi expulso do Congresso e ninguém lhe daria um emprego. Então, os únicos rendimentos que pode vir a ter são de documentários [sobre sua vida] e outras atividades ligadas ao caso. Ele é uma das pessoas mais famosas do mundo e para sempre vai ser conhecido por isso [mentiras e fraudes]. Todo mundo odeia George Santos. Nos últimos anos, ele tem sido pintado e ridicularizado como um malfeitor e fraudador. Como posso me levantar aqui e dizer que isso não é verdade?” E começou a citar outros casos de crimes de colarinho branco cujas penas foram em média de dois anos, sentença que ele pleiteava para o seu cliente.
Às 11h20, a juíza concedeu a palavra a George Santos. Ele tomou outro gole d’água antes de fazer a sua última defesa. “Eu traí a confiança dos constituintes e, por isso, peço o meu mais profundo pedido de desculpas”, disse, com a voz embargada. E repetiu: “Não posso reescrever o passado, mas posso controlar o caminho que está por vir.” Ele pediu a sentença mais branda – dois anos –, para, em suas palavras, conseguir “provar que pode contribuir positivamente com a comunidade que prejudiquei”. Em seguida, baixou a cabeça – e Fantone, seu outro advogado, lhe entregou um lenço branco para que enxugasse as lágrimas. Santos não apresentou nenhuma testemunha de defesa.
O procurador falou pela última vez. “Este homem cometeu crime após crime”, disse. Ryan Harris informou que os desvios não foram apenas de pessoas ricas, mas de muitos doadores pequenos, além do dinheiro destinado aos desempregados durante a pandemia. “Não foram crimes provocados por necessidade, mas por ganância e ambição”, falou o procurador, lembrando em seguida que parte do dinheiro desviado foi usado para compra de produtos da grife Hermès, aplicação de botox e assinatura na plataforma de entretenimento adulto OnlyFans. “Ele diz estar arrependido, mas hoje em dia dirige um Jaguar, usa relógio Rolex e mora em uma casa na Pensilvânia. Que arrependimento é esse, se em seu podcast ele se refere aos procuradores como ratos e minimiza o seu caso dizendo que se aliou com pessoas que deveria ter conhecido melhor? George Santos dobrou a aposta”, encerrou Harris. Enquanto escutava o procurador, Santos chorou.
Antes de a juíza Seybert ler a sentença, George Santos, sentado em sua cadeira, ajeitou o blazer no corpo. Depois, colocou os dois cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos como quem faz uma prece e baixou novamente a cabeça. A juíza olhou diretamente para ele e disse, num tom que tinha algo de simpático: “O senhor está com 36 anos e é saudável, tem apenas uma lesão nas costas.” Prosseguiu: “Em tudo, o senhor culpa o governo, mas eu não sou o governo.” Citando o histórico de mentiras e ressaltando que Santos até o momento não pagara nenhuma das restituições às vítimas, como havia sido determinado pela Justiça, a juíza questionou o argumento do réu de que estava arrependido. “Onde está o remorso? Onde posso ver o remorso?” Por fim, deu sua cartada final: “Senhor Santos, as palavras têm consequências. Eu tenho simpatia pelo senhor e vejo que tem um futuro, mas o senhor merece totalmente a sentença que vou proferir.” Nesse momento, o silêncio tomou conta da sala. Santos, ainda com as mãos entrelaçadas, seguia olhando Seybert, apreensivo, enquanto os seus três advogados olhavam para ele.
E então a juíza proferiu a sentença: 63 meses de prisão por fraude eletrônica e 24 meses por falsidade ideológica – um total de 7 anos e 2 meses de reclusão, mais 2 anos de liberdade condicional. Pena máxima.
Santos começou a chorar. Mancilla passou a mão várias vezes em suas costas, consolando o cliente. Alguns jornalistas das tevês e dos sites de notícias saíram em disparada da sala, para comunicar o resultado da audiência às suas redações e aos produtores das emissoras que se aglomeravam na porta do tribunal, fazendo transmissão ao vivo.
Quem saiu correndo perdeu os últimos embates. Depois de Santos receber a pior das penas que poderia esperar, ainda houve um movimento que agravou a sua situação. Os advogados do réu pediram que o ex-deputado tivesse tratamento especial na cadeia e pleitearam que não compartilhasse a cela com outros condenados, por segurança, alegando que ele poderia ser alvo de ataques – e disseram que Santos havia sido agredido recentemente na Flórida.
A juíza negou de imediato e colocou em dúvida o tal ataque – disse que desconhecia esse fato até aquele momento. Os advogados continuaram a insistir, enquanto Seybert subia o tom de voz, dizendo: “Não, não, NÃO.”
Conformados, os advogados de defesa pediram então que Santos cumprisse a pena em prisão federal nos arredores de Nova York, para facilitar a visita de seu companheiro, o gaúcho Matheus Gerard. A juíza também negou, dizendo que esse pedido precisaria ser feito ao sistema prisional. Ela deu noventa dias (até 25 de julho) para que a pena começasse a ser cumprida. Para finalizar, falou da restituição de 373,7 mil dólares (cerca de 2 milhões de reais) às pessoas lesadas por ele e da multa de 205 mil dólares que Santos deve pagar pelo dinheiro desviado.
Às 11h50, a audiência terminou. Antes de se levantar, Santos tirou do bolso do blazer seus óculos de sol Ray Ban, vestiu-os e só então se virou para o público que assistia ao desfecho de sua meteórica trajetória política. Foi quando se deu conta de que, atrás dele, estavam sentadas três pessoas conhecidas – duas mulheres e um homem, que a piauí não pôde identificar. Chorando sem travas, o réu abraçou os três. Nesse momento, Santos pareceu ter abandonado toda encenação. Havia sido dobrado.
Os abraços, porém, não duraram mais do que 1 minuto. Os guardas pediram que todos deixassem a corte, inclusive os jornalistas que ainda permaneciam ali. Cerca de 15 minutos depois, Santos deixou, pela porta da frente, o prédio do tribunal do distrito de Central Islip, acompanhado de seus advogados. Uma SUV branca o aguardava. Ele saiu do local pisando duro, sem falar com a imprensa. Na rua, manifestantes o chamavam de mentiroso, aos gritos: Liar! Liar!
George Santos pode ser acusado de mentiroso serial e de ter cometido diversos crimes financeiros, mas não se deve desconsiderar sua audácia. Ou, como disse o procurador, sua coragem de dobrar a aposta.
Há quase um ano, no dia 19 de agosto de 2024, com a investigação de todas as suas fraudes em curso e correndo o risco de amargar mais de vinte anos em cana, Santos fez um acordo com a Justiça e assumiu suas culpas, a fim de obter alguma redução de pena. Como parte do acordo de confissão para atenuar a sua condenação, ele terá de restituir 373 749,97 dólares às pessoas que lesou e pagar uma multa de 205 mil dólares.
O ex-deputado confirmou ter cometido uma série de crimes:
* Fraude de cartão de crédito: entre julho de 2020 e outubro de 2022, ele usou dados e informações de doadores de sua campanha eleitoral, cobrando mais doações nos cartões de crédito deles, sem avisá-los. Parte das “doações” foram parar em sua conta privada.
* Uso fraudulento de contribuição para a campanha política: Santos operou uma empresa com o objetivo de receber doação e enganar seus apoiadores financeiros. Duas pessoas fizeram contribuições de 25 mil dólares, cada uma, a serem investidos na campanha publicitária da disputa eleitoral. Com o dinheiro, Santos foi às compras, adquirindo produtos da Hermès.
* Apropriação indevida de auxílio desemprego: fingindo estar desempregado, ele conseguiu obter 24 mil dólares de ajuda durante a pandemia.
* Declarações falsas à Câmara dos Deputados: como candidato, teve de fornecer dados de renda e patrimônio, e os certificou como verdadeiros e completos. Incluiu, falsamente, o recebimento de um salário anual de 750 mil dólares da Devolder Organization LLC, empresa de sua propriedade sediada na Flórida, dedicada a cuidar de investimentos de seus clientes. Ao todo, ele declarou ter recebido também entre 1 milhão e 5 milhões de dólares de dividendos da mesma empresa.
Mesmo depois de ter se declarado culpado para a Justiça, Santos continuou a viver uma vida de luxo. Carro? Como disse o procurador, um Jaguar. Relógio? Como disse o procurador, um Rolex. Coleção de sapatos? Mais de 320 pares, com certo apreço por aqueles de solas vermelhas da grife Christian Louboutin. Para reforçar a imagem de milionário, ele passou a frequentar no inverno uma casa com vista para um lago congelado e montanhas cobertas de neve. Era ali que se refugiava com o marido nos fins de semana e de onde fazia reuniões por videochamada.
Em 2022, o jornal The New York Times publicou uma reportagem mostrando que os currículos escolar e profissional do deputado George Santos não passavam de uma cascata de lorotas. Ao ser expulso do Congresso, em 1º de dezembro de 2023, Santos se tornou o primeiro congressista republicano cassado em toda a história americana e o primeiro político a perder o mandato nos Estados Unidos antes de ter sido condenado pela Justiça. Um feito e tanto, ainda mais que conseguiu unir contra si mesmo republicanos e democratas. Votaram a favor de sua cassação 311 deputados, entre eles 105 republicanos, total que ultrapassou os dois terços necessários para a expulsão. Apenas 114 congressistas defenderam sua permanência.
Tão logo foi obrigado a deixar a vida política em Washington, Santos se movimentou como pôde em busca de fama e dinheiro. No dia 4 de dezembro, estreou um perfil no Cameo, aplicativo com serviços de vídeo e áudio personalizado, muitos deles de artistas, atletas, estrelas de reality shows e influenciadores. O acordo com o Cameo foi firmado depois de um almoço de Santos com Steven Galanis, presidente do aplicativo, no Beach Cafe, em Nova York. Em entrevista ao videocast de Santos, o executivo contou como foi acertada a adesão da nova estrela ao seu casting da plataforma: “Ele falou que, com certeza, não iria conseguir um emprego no mercado financeiro ou em uma empresa de private equity, então decidiu que iria ficar milionário com o Cameo.” Santos começou cobrando 75 dólares, mas em poucos dias o seu cachê pulou para 400 dólares por vídeo, com duração de até 1 minuto. Logo depois da estreia, tornou-se o nome com a maior demanda, gravando 75 vídeos por dia.
Santos jurou que não aceitaria gravar qualquer tipo de mensagem. No entanto, fez um vídeo para celebrar o aniversário da North American Man/Boy Love Association (Nambla), uma entidade sem fins lucrativos que apoia a relação consensual de menores com adultos. Sua atividade no Cameo acabou chamando a atenção da imprensa. Em fevereiro de 2024, ele moveu um processo contra o apresentador Jimmy Kimmel, o canal ABC e o grupo Disney por usurpação de direitos autorais, enriquecimento ilícito e má-fé.
Kimmel, âncora de um famoso programa de humor no canal ABC, havia pedido à sua produção que criasse perfis no Cameo e solicitasse, sem se identificar, vídeos personalizados a Santos. O objetivo era fazer troça do ex-deputado, que caiu feito um pato. Em um vídeo solicitado pela equipe de Kimmel, gravou: “Ei, Brenda, queria te parabenizar pelo sucesso na clonagem do seu amado schnauzer, Adolf”, disse Santos. O conteúdo foi usado no programa Jimmy Kimmel Live! para deleite da plateia.
Ao saber da intenção de Santos de processá-lo, o apresentador fez graça da situação: “Imagina se eu for processado pelo George Santos por fraude? Quer dizer: como seria bom! Seria como um sonho se tornando realidade.” Em agosto, a juíza Denise Cote não acatou o pedido de processo, alegando que o caso não encontrava respaldo nas leis de direitos autorais.
Os dados divulgados por Santos a respeito de seu sucesso no Cameo poderiam ser mais uma de suas lorotas, mas não são: ele faturou uma bela quantia emprestando sua voz e seu rosto para gravações curtas na plataforma – 360 mil dólares, como revelou a procuradoria durante a audiência. A título de comparação, o salário anual de um deputado federal nos Estados Unidos é de 170 mil dólares por ano. Segundo o procurador Ryan Harris, Santos também recebeu 200 mil dólares ao assinar um contrato para ser tema de um documentário. O filme está em produção desde 2023, dirigido pelo americano Jenner Furst, um dos realizadores do documentário Fyre fraud, sobre um festival de música nas Bahamas em 2017 que se revelou um embuste. Furst pagou cachê para entrevistar Santos e ter acesso a material de acervo do personagem – fotos e vídeos antigos. No dia da audiência em Nova York, o diretor estava lá para captar imagens para o seu filme, que ainda não tem data de lançamento.
Outros três filmes sobre o ex-deputado estão em andamento, mas sem que Santos tenha recebido um centavo. Um deles é baseado no livro The fabulist: the lying, hustling, grifting, stealing, and very american legend of George Santos (O fabulador: George Santos, a americaníssima lenda da mentira, da fraude, da trapaça e do roubo), do jornalista e escritor americano Mark Chiusano. Quem comprou os direitos foi Frank Rich, cujo currículo inclui a produção executiva da série Succession. “Será uma ficção, mas nem o elenco foi definido nem as gravações têm previsão de início”, me conta Chiusano no Lower East Side, em Manhattan.
Ele passou um mês no Brasil pesquisando para seu livro e também entrevistou amigos e parentes de Santos nos Estados Unidos. O ex-deputado se negou a dar entrevista para o filme e ainda ameaçou processar Chiusano, o que não fez. “Hoje, estou bloqueado no WhatsApp e nas redes sociais dele”, diz o escritor.
Há ainda uma equipe de documentaristas independentes americanos gravando entrevistas desde 2023 sobre Santos. Ele deu certo acesso à equipe, tendo sido entrevistado diversas vezes. Mas o projeto, que tem dezenas de horas já gravadas, está estacionado. “Com a eleição do Trump e toda essa turbulência no noticiário, George Santos passou a ser menos interessante”, conta uma pessoa da produção que pediu para não ter seu nome divulgado. Do Brasil, o documentarista Guilherme Coelho contatou Santos, a fim de entrevistá-lo para um trabalho que tratará do caso do ex-deputado, entre outros temas. Santos topou, mas com uma condição: receber um cachê de 25 mil dólares. Coelho agradeceu, declinou e já começou as filmagens – sem a entrevista.[1]
A data da audiência de Georges Santos havia sido marcada pela corte de Nova York para o início de fevereiro passado, mas os seus advogados pediram que fosse adiada. Recorreram ao argumento de que o réu havia acabado de estrear um videocast com o qual almejava arrecadar fundos para pagar a restituição de 373,7 mil dólares e a multa de 205 mil dólares definidas no acordo de admissão de culpa. O videocast Pants on fire – expressão americana que pode ser traduzida como “pego de calças curtas” – tem tido um sucesso bastante tímido.
Santos vem publicando desde dezembro entre uma e duas entrevistas por semana no programa, sempre ao lado da influenciadora Naja Hall. Alguns dos vídeos não atingem mais do que quinhentas visualizações. Como o ex-deputado tem negado entrevistas à imprensa (exceto se for pago), os programas permitem conferir algo de sua personalidade. Os vídeos mostram um homem que fala alto, interrompe diversas vezes a sua colega, gosta de se exibir e contar vantagens ao longo das entrevistas com influenciadores, jornalistas e personalidades extravagantes e até criminosos. Um deles foi o presidiário Joe Exotic (cujo nome de registro é Joseph Maldonado-Passage), um criador de tigres condenado por crueldade contra animais e tentativa de assassinato.
Santos tem aproveitado as conversas para se justificar publicamente e não se intimida de recorrer ao cinismo. Assim explicou sua adesão ao Partido Republicano: “Faz sentido ser gay e conservador, porque queremos pagar menos impostos para comprar Louboutins.” Apesar de sua orientação sexual, ele gabarita a cartilha da extrema direita. Diz que é contra a woketopia – termo pejorativo que os reacionários americanos usam para desqualificar as políticas identitárias –, que não acredita em aquecimento global e que foi impactado pela quantidade de propaganda comunista no TikTok. Não cita um exemplo sequer.
Ao comentar sobre o assassinato do diretor executivo da United Healthcare em plena luz do dia pelo jovem Luigi Mangione, em Manhattan, Santos criticou os planos de saúde de forma geral. “Eu briguei durante quatro meses com o seguro de saúde para cobrir uma medicação [para o fígado] que o meu marido precisava, e, quando finalmente conseguimos a aprovação, tivemos de pagar 7 mil dólares. A medicação custaria 63 mil dólares.” Em outra ocasião, Santos reconheceu sua fama de mentiroso. “Às vezes, você repete uma mentira tantas vezes que acaba acreditando nela – você realmente acredita, e acaba ficando delirante em relação a isso. E eu sei disso por experiência própria. Estou ficando limpo”, afirmou, usando a expressão utilizada para quem se recupera de algum vício.
Limpo ou não, o fato é que duas semanas antes da audiência da sentença em 25 de abril passado, Santos contou a um interlocutor que fora convidado para uma reunião com Donald Trump na Casa Branca, no dia 22, a fim de obter o perdão presidencial para seus crimes. A reunião nunca existiu. Desde que assumiu o segundo mandato, Trump concedeu perdão para mais de 1,5 mil pessoas, condenadas ou investigadas pelos ataques ao Congresso americano em janeiro de 2021, bem como a líderes de extrema direita. Santos não está entre os perdoados.
“Sabe quando Trump vai conceder um perdão ao Santos?”, pergunta o advogado e publisher americano Grant Lally, que apoia os republicanos. “Nunca”, ele mesmo responde, na conversa com a piauí, na sala de reunião de seu escritório em Long Island. “Ele representa aquilo que o Trump mais abomina: é um loser [perdedor].” Na lógica trumpista, mentir, roubar e disseminar mentiras não são, necessariamente, um problema, desde que a pessoa triunfe. Lally é dono do jornal The North Shore Leader, fundado em 1955 e adquirido por sua família nos anos 1990. Por cobrir a região de North Shore, em Long Island, o jornal semanal (tiragem de 5 mil exemplares) entrou na mira dos interesses eleitorais de Santos.
O então aspirante a deputado se encontrou com Lally pela primeira vez em um evento com membros do Partido Republicano, no começo de 2020. “De cara, algo pareceu errado”, recorda o publisher. À mesa, Santos se apresentou como integrante de uma rica família brasileira do mundo das finanças. Lally é casado com uma mulher da Guiana Francesa, frequenta a América Latina e conhece brasileiros de fato abastados, muitos de ascendência libanesa. Foi o que o levou a perguntar a Santos se ele descendia de imigrantes libaneses, na expectativa de que Santos citasse algum milionário com essa origem no Brasil que fosse do conhecimento de ambos. “Ele não entendeu o que perguntei, e aquilo me pareceu suspeito”, conta o publisher. “Era como alguém se dizer vendedor de diamantes do Brooklyn, mas não conhecer nenhum judeu.” Santos levava ao pescoço um cordão com um crucifixo. (Tempos mais tarde, ele diria ser de origem judaica e que seus avós haviam escapado do Holocausto ao se refugiarem no Brasil.)
Depois que eclodiu a pandemia, no início de 2020, Lally achou suspeitas as diferentes versões que Santos deu sobre a sua contaminação, entre elas a de que teria sido o paciente zero afetado pelo vírus da Covid. Lally se convenceu de que Santos era um farsante e decidiu endossar em um editorial no The North Shore Leader a candidatura do seu rival, o democrata Tom Suozzi, mesmo sendo um republicano.
Suozzi venceu com 56% dos votos, contra 44% dados a Santos, que, porém, não rompeu com Lally, calculando que precisaria do apoio do publisher para a sua nova tentativa de concorrer, dali a dois anos. “Mas as coisas foram ficando mais claras”, diz Lally. Ele lembra de ter ouvido Santos dizer que havia comprado casas nos distritos de Oyster Bay e Hamptons, duas áreas ocupadas por milionários em Long Island, por valores que chegavam a 3 milhões de dólares. “Ele chegou a mostrar fotos das casas, mas nunca ninguém as visitou”, conta.
No segundo semestre de 2020, o estado de Nova York decidiu criar um abrigo para oitenta famílias em situação de vulnerabilidade social em um antigo hotel da rede Hampton Inn, em Long Island. O prédio fica a menos de 1 km da Jericho High School, escola frequentada por filhos de famílias ricas que vivem no entorno. “Nós, pais desses alunos, chegamos a pagar coisa de 100 mil dólares por ano de imposto”, diz uma brasileira casada com um empresário do setor de papel e celulose que pede para não ser identificada. “Tem gente que vem morar aqui do lado para que seus filhos possam estudar nesse colégio.” No estacionamento da escola, a piauí viu Porsches, Lamborghinis e Land Rovers, pilotados pelos alunos maiores de 16 anos.
A ideia de um abrigo para vulneráveis não agradou a vizinhança rica. “Não quero ser preconceituosa, mas não tinha como nossos filhos estudarem ao lado de um lugar que iria abrigar ex-presidiários e pessoas condenadas por diversos crimes”, diz a brasileira, embora o abrigo não fosse exclusivo para egressos do sistema prisional.
Desesperada com essa possibilidade, ela frequentou reuniões de pais para impedir a transformação do hotel em abrigo público. Foi quando conheceu George Santos. “Ele se apresentou como um self-made man, preocupado com o futuro das nossas crianças.” Nas suas redes sociais, Santos fez diversos discursos e gravações, tanto na porta do hotel quanto no fórum local, sempre contra o projeto do abrigo. “Vamos colocar em risco os distritos escolares para as crianças e as pessoas que pagam altos impostos para ter qualidade de vida? É isso que queremos? Vamos ser antiamericanos e destruir o futuro das nossas crianças?”, ele discursou certa vez.
O projeto do abrigo não foi para a frente (hoje o local é um dormitório estudantil), mas Santos estabeleceu laços importantes que o ajudariam na sua ascensão política. Além da brasileira, que organizou jantares com amigos e deu dinheiro para a campanha, ele caiu nas graças de uma socialite judia chamada Jennifer Vartanov. A milionária levou Santos para bailes de gala e doou, junto com o marido, 20 mil dólares para a segunda campanha de Santos ao Congresso, em 2022.
Foi durante essa campanha que Grant Lally, o dono do The North Shore Leader, pediu a uma repórter que fizesse uma investigação jornalística sobre Santos. Em setembro de 2022, dois meses antes da eleição, o jornal publicou uma reportagem sobre o “aumento inexplicável” das finanças do candidato, que em apenas dois anos viu seu patrimônio saltar de 5 mil dólares para 11 milhões de dólares. A reportagem também dizia que Santos havia doado 600 mil dólares do próprio bolso para a sua segunda campanha e que, embora afirmasse ter mansões em Oyster Bay e nos Hamptons, vivia de aluguel em um apartamento conjugado no Queens. A repercussão da reportagem foi nula, devido à pequena circulação do jornal.
Santos disputou a segunda eleição contra o democrata Robert Zimmerman, um homem de fato rico, morador de Long Island, próximo da família Clinton e dono de uma agência de marketing e relações públicas. A cobertura da imprensa sobre a eleição na região não deixou de destacar o combate inédito entre dois homens gays – um progressista, outro conservador.
Na campanha, Zimmerman montou uma equipe para pinçar falas problemáticas de Santos na imprensa e em podcasts, sobretudo contra o aborto, a liberdade de professores para pronunciar a palavra “gay” nas escolas e o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) – que, para Santos, tem a mão de “marxistas”, como todas as manifestações contra o racismo e a violência policial. Quase nada do que a equipe de Zimmerman divulgou teve apelo junto aos eleitores.
O democrata também entrou em contato com jornalistas dos principais veículos de Nova York quando o The North Shore Leader publicou as denúncias sobre Santos. “Eu ouvi todo tipo de resposta e de silêncio”, ele recorda, enquanto toma um chá gelado no bar do The Peninsula, hotel de luxo de Manhattan. Os veículos disseram que não valia a pena prestar atenção em um candidato sem chances de vencer. “Mas houve quem tenha dito que a pauta compensaria caso Santos vencesse. Mas, então, já seria tarde demais.” Zimmerman lembra que seu rival, além de mentir sobre o currículo, pautou sua campanha conforme a estratégia trumpista: ancorada no medo e na conspiração, apelando à insegurança nas ruas e ao aumento da criminalidade, atacando os imigrantes de forma geral.
George Santos era um desconhecido quando tentou se cacifar para a eleição de deputado federal em 2020. Como foco de sua campanha, escolheu um distrito em Nova York onde vivem 775 mil pessoas e cuja renda familiar média é de 126 mil dólares por ano (cerca de 770 mil reais). Na época, era o quinto distrito mais rico dos Estados Unidos (hoje é o 13º). Apesar disso, os republicanos não tinham grandes quadros para disputar a eleição ali. “Pode parecer estranho, mas ele foi escolhido porque não tinha concorrência”, diz Lally. O partido achava que um republicano não teria chances no distrito, e que ninguém queria perder dinheiro sabendo que o ambiente eleitoral estava mais propício para um democrata – o que acabou se confirmando, com a vitória de Suozzi, em 2020. “Santos era apenas um personagem ridículo, e ninguém deu muita confiança”, diz o democrata Robert Zimmerman.
Apesar de ter perdido a primeira eleição, Santos se fez conhecido pelo público. Quando voltou a tentar a eleição em 2022, muita coisa tinha mudado, com a crise social e econômica causada pela pandemia. Santos voltou a se articular com o Partido Republicano, conseguindo o aval da legenda depois de declarar ter recursos próprios de 600 mil dólares para investir na própria campanha. Contratou a tesoureira Nancy Marks, veterana em disputas eleitorais. Também se mostrou mais profissional, ao menos no script. “As roupas dele mudaram. Antes usava umas blusas e camisas simples. Passou a adotar peças mais sofisticadas”, conta a mesma brasileira que se opôs ao abrigo para os vulneráveis.
O aumento dos índices de criminalidade em Nova York passou a preocupar mais os moradores de comunidades seguras. Em 2022, o estado registrou 421 322 ocorrências de crimes em geral, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Os crimes contra a propriedade privada tiveram um aumento de 25%. Santos foi sensível ao problema e passou a explorar o medo do eleitor. No segundo semestre de 2022, numa entrevista feita pela piauí em parceira com a Rádio Novelo, contou que havia sido assaltado por dois homens armados em plena Quinta Avenida, perto do Central Park. Os bandidos – se é que existiram – nunca foram pegos pela polícia.
Alinhando-se a Trump, Santos atacou sobretudo os imigrantes ilegais, que ele acusava pelos assaltos no seu distrito. A isso, acrescentou teorias da conspiração e toda uma pauta negacionista: contra as vacinas, o isolamento social e os cuidados sanitários. Outra de suas estratégias foi evitar comparecer em debates eleitorais nas tevês e nas rádios. “Santos ficou fora do radar, quanto menos as pessoas soubessem dele com profundidade, melhor”, diz a brasileira.
Em novembro de 2022, o candidato George Anthony Devolder Santos – filho do pintor mineiro Gercino Antonio dos Santos Junior e da diarista niteroiense Fátima Horta Devolder, casal de migrantes que se conheceu em Nova York – venceu a eleição contra Robert Zimmerman, com 53,8% dos votos. Foi o primeiro deputado assumidamente gay a tomar posse pelo Partido Republicano. A alegria da vitória durou pouco.
No dia 19 de dezembro, o New York Times publicou uma reportagem que desmascarou o currículo mentiroso de Santos. Ele havia mentido sobre ter cursado uma faculdade de prestígio, da qual teria sido estrela do time de vôlei, a Baruch College, onde na realidade nunca pisou. Era igualmente falsa a informação de que havia trabalhado em bancos como Citigroup e Goldman Sachs, na Wall Street. Também não passavam de lorotas as histórias de que tinha antepassados judeus, de que a mãe era uma executiva que sobrevivera aos atentados às Torres Gêmeas, de que ele produzira o musical Spider Man: turn off the dark (Homem-Aranha: apague a escuridão), na Broadway e de que quatro de seus funcionários haviam conseguido escapar do massacre de cunho homofóbico à boate Pulse, na Flórida, em 2016.
Havia ainda mais mentiras. Anos antes, em 2008, depois de se separar nos Estados Unidos, a mãe de Santos voltou ao Brasil com ele e a irmã, Tiffany. Todos foram morar na casa da avó materna, em Niterói.
Aqui, Fátima Devolder passou a trabalhar como cuidadora de idosos. Aproveitando da situação, Santos – que tem dupla nacionalidade, americana e brasileira – roubou um talão de cheques de um homem para quem a sua mãe tinha trabalhado e fez compras em uma loja de roupas. Mas, como o idoso já havia falecido, o cheque não pôde ser compensado. O calote foi descoberto porque o namorado de Santos no Brasil voltou à loja para trocar um tênis. Depois de uma investigação policial, Santos acabou confessando o crime em 2010. Confessou, mas não quitou a dívida, que foi paga pelo funcionário que havia feito a venda na loja de roupas. Em 2011, ele não foi mais encontrado pela Justiça.
Descobriu-se também que, em seguida, quando estava com 24 anos, Santos se casou nos Estados Unidos com uma brasileira. Os dois estiveram oficialmente ligados até o divórcio, em 2019, um ano antes de ele disputar a sua primeira eleição. “O George me apresentou a essa mulher, dizendo que iria ajudá-la a ter documentação”, me contou por telefone Yasser Rabello, farmacêutico brasileiro que em 2012 alugou um quarto na casa no Queens onde Santos vivia com a mãe e irmã – todos haviam retornado aos Estados Unidos. Rabello dormia em um dos quartos; Fatima Devolder e a filha, no outro; e Santos, no sofá da sala. “Nesse período, o George me disse que era repórter da Globo e teve a cara de pau de falar que já havia trabalhado como modelo e vivia nos desfiles da grife Victoria’s Secret.”
A verdade é que, nessa época, Santos acabara de deixar o seu trabalho como operador de telemarketing da Dish Network, que vende canais de tevê por assinatura nos Estados Unidos. A empresa lhe pagava entre 12 e 14,50 dólares por hora, e o expediente consistia em dez horas de trabalho por dia, durante quatro dias por semana. Todo funcionário tinha de ser fluente em ao menos duas línguas. O acesso à programação da Rede Globo, principal produto voltado aos brasileiros que viviam nos Estados Unidos, custava na época o equivalente a 19,90 dólares.
“Eu e ele entramos na empresa quase juntos e sentávamos um ao lado do outro”, conta uma paulista radicada em Nova York, em um restaurante tailandês com vista para a Ponte do Brooklyn. Ela pediu para não ter sua identidade revelada porque teme ser processada por Santos, que ela define como uma “personalidade persecutória”.
“Desde o início, ele inventava mentiras, mas de forma inteligente. Primeiro notava algum ponto de interesse da pessoa, então contava para ela algo que criava uma conexão com ele.” A ex-colega do telemarketing dá um exemplo: se alguém dizia que tinha um enfermeiro na família, Santos inventava que sua mãe era enfermeira. Ele também chegou a oferecer aos colegas de trabalho marmitas preparadas pela mãe.
Santos saiu da empresa por conta própria, em menos de um ano. Antes, tentou mobilizar os colegas para que entrassem com uma ação trabalhista contra a Dish Network, porque a companhia obrigou os funcionários a venderem, além de canais a cabo, também canais de streaming – o que não estava previsto nos contratos dos empregados.
Em 2023, depois que suas mentiras emergiram nos Estados Unidos, Santos foi intimado no Brasil a pagar o calote que dera na loja de roupas, mais de uma década antes. Ele acabou fazendo um acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro e pagou 10 mil reais de multa (que foi destinada a uma entidade assistencial) e 14 mil reais ao vendedor da loja que havia arcado com o prejuízo. No mesmo ano, vieram à tona fotos de Santos vestido de drag queen – e com o nome Kitara Ravache –, feitas na época que ele viveu no Brasil, no fim dos anos 2000. Ter sido drag não afeta o currículo de ninguém. Mas, apagando o próprio passado, Santos, durante sua campanha a deputado, passou a defender o banimento do programa Drag Story Hour, em que drag queens liam histórias para crianças em escolas americanas.
Desde que recebeu a pena de 7 anos e 2 meses de prisão, George Santos bate na tecla de que seu julgamento foi político e injusto, pois não cometeu nenhum crime violento. Ele não se encontrou com Trump, como fabulou, mas já pediu o perdão presidencial em rede social: se não a anulação completa da sentença, pelo menos a redução do tempo da pena.
O apelo mais direto a Trump foi feito no início de maio, em uma entrevista ao programa Piers Morgan Uncensored, antes veiculado na Fox Nation e hoje restrito ao YouTube. Santos se emocionou ao dizer que, como sete anos de distância afeta qualquer relação, vai deixar o seu marido livre para fazer o que quiser. Afirmou também que irá sentir falta de sua sobrinha de 7 anos, que tem um severo grau de autismo. Falou ainda que teme por sua integridade física, uma vez que abordou temas como a imigração ilegal e apoiou o endurecimento de leis contra a população carcerária. Ele se definiu como um “navio que está afundando”. E lamentou: “O meu problema foi uma ambição cega, eu perdi o controle. É horrível. Nem mais, nem menos. Foi pura ambição.” Santos prometeu no programa que irá pagar os 373,7 mil dólares de restituição e 205 mil dólares de multa fixada pela juíza Joanna Seybert e comentou sobre seu empobrecimento: “Eu vim do buraco, e consegui sair dele. Agora voltarei ao buraco, mas conseguirei sair outra vez.”
Fumando um cigarro atrás do outro no quintal de sua casa em San Diego, na Califórnia, o estrategista digital Vish Burra, ex-integrante do time de comunicação do conspiracionista Steve Bannon, me contou por videochamada sobre sua experiência como líder do time digital do então deputado George Santos. Burra foi chamado para apagar o incêndio provocado pela reportagem do New York Times. Ele descreve Santos como uma pessoa muito inteligente, com grande capacidade de adaptação. “Se foi a personalidade dele que o colocou nessa, será a mesma personalidade que vai tirá-lo”, diz.
O estrategista acredita que a prisão não será o fim de carreira de Santos, que ele vê como predestinado ao ramo do entretenimento. Burra acredita inclusive que a passagem pela prisão pode trazer um apelo extra para o sucesso futuro do ex-deputado. Ele avalia que Santos não teve sorte e virou alvo da imprensa em um momento no qual o noticiário andava sem fatos quentes, durante o governo de Joe Biden. A história do homem de origem pobre que enganou todo o sistema político americano acabou chamando a atenção popular, à medida que ia sendo exposta sua teia de mentiras e crimes. George Santos viralizou, foi tema de paródias em programas humorísticos da tevê e de manifestações de usuários das redes sociais. Acabou sendo incluído na miscelânea da cultura pop americana.
Outro desses crimes foi revelado pela jornalista americana Jacqueline Sweet, que estava sentada ao meu lado na audiência em Long Island. Ela trabalha para veículos como The Guardian, Politico e The Intercept, e publicou em uma reportagem que George Santos montou em 2017, muito antes de pensar em se candidatar a deputado, um esquema de roubo de dados de cartões de crédito em parceria com um amigo brasileiro. “O George não é um mentiroso caricato: ele ameaça e ataca pessoas”, ela me disse. “Está sendo sentenciado hoje apenas por parte dos crimes, não por todos.”
Na saída da corte, dentre as dezenas de jornalistas e manifestantes que esperaram por George Santos, estava um homem de cabelos ralos, óculos de grau e muletas. Era Richard Osthoff. Veterano da Marinha americana, pela qual serviu no Afeganistão, ele sofre de transtorno pós-traumático. Decidiu, por isso, adotar uma cachorrinha da raça pit bull, batizada de Sapphire. O recurso emocional deu certo. Até que, em 2015, viu surgir na costela esquerda do animal um nódulo do tamanho da uma bola de pingue-pongue. Sapphire estava com câncer.
Desesperado, com muitos problemas financeiros e morando em barracas, Osthoff soube por um veterinário que havia um perfil no Facebook chamado Friends for Pets United, destinado a ajudar animais. Ele entrou logo em contato. Do outro lado, estava Anthony Devolver – os nomes do meio com os quais George Santos se apresentava nas redes sociais.
Osthoff enviou uma foto sua ao lado da pit bull como forma de sensibilizar potenciais doadores. Santos usou a plataforma de vaquinha online GoFundMe para atingir o objetivo: “Sapphire é uma pit bull de nariz vermelho de 10 anos que tem feito companhia a esse homem. Ela não merece morrer por causa desse tumor. Ela merece ser tratada e cuidada.”
Comovidos com a situação, amigos e parentes de Osthoff doaram os 3 mil dólares necessários para a cirurgia. Assim que a soma foi reunida, começaram as discussões sobre o agendamento e a escolha do veterinário que faria o tratamento – até que Osthoff perdeu contato com o Friends for Pets United. O tumor de Sapphire evoluiu e levou-a à morte. O tutor nunca pôs as mãos nos 3 mil dólares.
Quatro anos depois, em dezembro de 2020, Osthoff reconheceu, em um noticiário da tevê, o sujeito que iria ajudar a sua cachorra. Passou então a acompanhar as mentiras que Santos vinha contando aos americanos. Quando soube da audiência para definir a sentença de Santos, Osthoff resolveu aparecer no tribunal. “Eu viajei 107 km”, ele me contou. “Eu não tinha grana para a viagem, pedi uma ajuda de 60 dólares em uma postagem no Facebook. Uma amiga me emprestou.”
Quando Santos deixou o tribunal com passos largos, rumo ao veículo que o aguardava, o militar reformado era uma das pessoas que gritavam: Liar! Liar! O deputado cassado estava próximo o suficiente para ouvir os berros. “Eu vim só para dizer: ‘Bem feito!”, disse Osthoff, dirigindo-se a Santos. “Perdi a minha cachorra, mas estou vingado.”
[1] Uma parte do documentário de Guilherme Coelho será baseada em reportagens sobre George Santos publicadas na piauí, cujos direitos autorais foram cedidos à produtora Ventre Studio, que vai atuar em parceria com a Matizar Filmes. (N. R.)
