Sóstenes, o malabarista: “A minha elegibilidade posso resolver com o Kassio Nunes Marques assim que ele assumir o TSE”, disse Bolsonaro CRÉDITO: CAIO BORGES_2025
A chantagem
Como o plano de anistiar Bolsonaro chegou tão longe
Ana Clara Costa | Edição 229, Outubro 2025
Minha primeira conversa com Sóstenes Cavalcante ocorreu na Livraria Argumento, no Leblon, Zonal Sul do Rio de Janeiro, por minha sugestão. Deputado eleito pelo PL em seu terceiro mandato, Sóstenes é alagoano, mas sua base eleitoral fica em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, embora ele próprio viva no Recreio. Ele nunca havia entrado na Argumento, que está lá há quase cinco décadas. Marcamos um café numa noite de sábado, depois da Marcha para Jesus, que acontecera na orla de Copacabana em 24 de maio, e da qual ele fora uma das estrelas, ao lado do pastor Silas Malafaia, seu padrinho político. As paredes do café da livraria estão forradas de fotografias que retratam grandes nomes da bossa nova e clientes ilustres, além de registros antigos da família Gasparian, a fundadora da casa. O local ganhou notoriedade depois de aparecer no filme Ainda estou aqui, porque a família era amiga do casal Rubens e Eunice Paiva durante a ditadura. “É muito legal aqui. Gostei. Eu não conhecia”, disse o deputado, ao sentar-se perto da imagem do autor Manoel Carlos, que durante anos frequentou o café.
Sóstenes é alto, tem sorriso afetuoso e cabelos num tom castanho muito popular entre os políticos de Brasília. Fala de forma pausada e clara. Diz que nossas conversas serão sempre on the record – ou seja, com a identificação da fonte – porque, ao contrário dos colegas de Parlamento, ele afirma prezar a transparência. É com essa franqueza sem adornos que defendeu ideias chocantes até para ouvidos reacionários, como o projeto de lei, de sua autoria, que equiparava o aborto depois de 22 semanas ao crime de homicídio, mesmo em caso de estupro. Em junho de 2024, a aprovação da urgência do texto – que autoriza um projeto a ser votado rapidamente, sem passar pelas comissões da Câmara dos Deputados – resultou em protestos em todo o país. A pressão da opinião pública fez o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), engavetar a matéria, mesmo diante do apelo de Sóstenes, que argumentava que as meninas menores de idade “não cumpririam pena, e sim medidas socioeducativas”.
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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