ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016
Consciência do traço
Uma escola paulistana de caligrafia
Ana Lima Cecilio | Edição 113, Fevereiro 2016
O paulista Marcelo Eduardo Junqueira terminou o exercício que estava fazendo e levantou-se para mostrá-lo ao professor, que aguardava de plantão em sua escrivaninha. Era um dos oito alunos reunidos naquela tarde na sala de estudos da centenária Escola de Caligrafia De Franco, na Zona Oeste da capital paulista. Funcionário do metrô, Junqueira é um moreno musculoso de 42 anos, que usa camiseta justa e unhas pintadas de “nude chocolate”. É também aprendiz de tatuador no Senac, e matriculou-se no curso de caligrafia por exigência do ofício pretendido. “Hoje as meninas gostam muito de tatuar frases”, explicou. Queria ter mais firmeza na letra, mas ainda titubeava na escrita “com mais firulas”.
Esferográfica vermelha em punho, o professor Flávio José De Franco Júnior passou os olhos com rapidez pela folha algo rasurada em que o aluno copiara várias vezes as letras do alfabeto em letra inglesa manuscrita. De Franco deteve-se sobre as letras escritas de forma mais apressada e com a inclinação imperfeita. Sem desviar a atenção do papel pautado, caprichando no volteio das maiúsculas, o professor levantou os olhos e observou: “Para fazer caligrafia é preciso ter muita concentração, deixar a ansiedade lá fora.” Junqueira acusou o golpe: “Essa foi pra mim”, disse, antes de voltar para a sala de exercícios para refazer a lição.
Flávio De Franco Jr. é um homem alto, de 58 anos e cabelos brancos, que fala com voz grave e se veste de maneira sóbria. É ele quem toca a escola de caligrafia fundada em 1915 por seu avô, hoje um bastião do ensino da “bela escrita” em São Paulo, com 120 alunos matriculados. Junqueira e outros aprendizes buscam a instituição atrás dos volteios da letra inglesa manuscrita tipo comercial moderna, a base do curso. “É uma das mais simples”, explicou De Franco. “Ela dá ao estudante a consciência do traço. Depois ele pode escrever o que quiser.”
Naquela tarde de janeiro, o entra e sai era intenso na casa elegante e bem aparelhada em que funciona a escola. As paredes cor de gelo, os tapetes aconchegantes, um poderoso ar-condicionado e a música ambiente davam ao lugar um clima ordeiro e acolhedor.
Já há algum tempo De Franco Jr. aboliu as turmas fixas – e a necessidade de justificar atrasos por causa do trânsito. Cada aluno tem liberdade para definir o próprio horário. Quem chegava cumprimentava o professor, recebia dele folhas numeradas de exercícios e se encaminhava para a sala de estudos mobiliada com duas grandes mesas. De vez em quando alguém saía da sala trazendo páginas preenchidas com letra caprichada buscando resolver dúvidas.
O professor não se cansava de desenhar e redesenhar o alfabeto. “Veja essa sequência especialmente complicada: o A, o M, o S de baixo para cima, o D, o R e o T, de cima para baixo”, explicou De Franco Jr. para Priscila Rossi, de 27 anos. Ela se inscreveu para não fazer feio no grupo de troca de cartas “de verdade” do qual participa (organizado pela internet). A caligrafia é muito valorizada entre os missivistas, “principalmente no envelope”.
Além da concentração, o aluno precisa do material adequado: esferográfica para as primeiras lições, penas de aço nas avançadas, vários tipos de tinta encorpada, papel Opaline (grosso, mas não poroso). As penas de aço são oferecidas pelo curso na segunda fase, quando o objetivo não é mais a letra legível, mas a caligrafia artística. Os alunos recebem então um kit de pontas de pena importadas da Europa pelo fundador da escola nos anos 40. Com medo de que o produto faltasse durante a Segunda Guerra Mundial, fez uma aquisição de vulto. O estoque, segundo seu neto, “pode durar pelos próximos 600 anos”.
O advogado Adriano Abdo, outro aluno, surgiu em seguida, vestindo uma camisa social fechada até o pescoço. Bastante sorridente, trazia orgulhoso uma folha com exercícios: seu traço era forte, ainda que um tanto vacilante. “Vim para poder passar em concurso”, explicou. “Eu me sentia preparado, mas não passava nunca. Amigos professores me avisaram que prova com letra feia é a última a ser lida.”
Antônio De Franco, avô de Flávio e fundador da escola, aprendeu a arte caligráfica com a mãe, uma italiana da região do Vêneto que veio solteira para o Brasil e se casou com um conterrâneo que acharia por aqui por volta de 1890. “Nessa época, uma mulher que viesse para o Brasil sozinha já indicava uma certa cisão com a família”, disse o neto. A avó, ele ressaltou, não havia rompido com um círculo social qualquer: “Quem sabia essas artes, a caligrafia, a esgrima, tinha sempre origem nobre.”
Incentivado pela mãe, Antônio De Franco abriu sua escola de caligrafia quando tinha apenas 18 anos. Desenvolveu um método, cultivou alunos e divulgou a arte pelo Brasil. Duas gerações depois, há quem aponte certo anacronismo na instituição. Seu neto argumenta que a técnica ali ensinada continua importante. A maior parte de seus alunos, ele disse, não quer se tornar profissional da caligrafia artística. “São pessoas que gostariam, antes de mais nada, de melhorar a letra”, de se fazer entender em provas, formulários, relatórios. São estudantes, trabalhadores de escritório, profissionais liberais. Médicos também? “Não, advogados, por causa dos concursos”, ele respondeu. E os médicos? “Essa é uma categoria muito, digamos, cética. Eles não acreditam que haja algo que possam aprender.”
O orgulho de De Franco Jr. com a escola não deriva apenas dos cursos que oferece. São inúmeros os trabalhos caligráficos feitos ali – diplomas, poemas, orações, homenagens, títulos, convites, cardápios. É na escola que foram redigidos, por exemplo, todos os livros do Termo de Posse do Governo do Estado de São Paulo desde 1920.
A escola já fez até as vezes de cupido, elaborando com esmero o trabalho encomendado por um jovem apaixonado em meados dos anos 90. “Ele chegou aqui e nos pediu um documento escrito todo em góticas alemãs, feito em couro animal, de 50 por 70 centímetros.” Tratava-se de uma carta em que expunha ao pai da namorada suas mais nobres intenções. O rapaz queria deixar bem claro que seu interesse pela moça era eterno. Três meses depois de executado o trabalho, o jovem voltou à escola. Encomendou dessa vez a caligrafia para os convites do casamento.
