CRÉDITO_ADRIANA KOMURA
Construímos muros de palavras ao redor
Yasmin Nigri | Edição 142, Julho 2018
ANA MARTINS MARQUES
Ana anda quebrando copos
porque não tem panelas
Ana não largaria tudo
por um grande amor
Ana esquece de responder às pessoas
mas no coração ela responde
e isso é o mais importante
Ana não gosta de arroz
e é alérgica a frutos do mar
Certa vez Ana foi a um jantar
onde serviram risoto de camarão
Ana não se desfaz
de nenhum livro que ganha
Ana achou bonito o meu enquadramento
embaixo das folhas de caule espinhoso
Enquanto fumávamos na varanda
pediu cuidado com os espinhos
Disse que daria uma linda fotografia
mas não tirou a fotografia
Ana não gosta de aparecer
em fotografias
Ana gosta de quem não faz alarde
e me pediu em casamento
quando cozinhei pra ela
Ana gosta do que faz
Ana me deixa bilhetes
em cima da mesa
e também alguns livros
Leio enquanto tomo café
imaginando que sejam pra mim
Ana acha difícil falar
e mais ainda escrever
Ana me dedicou um livro
agradecendo minha amizade
Ana é discreta
e tem muito senso de humor
Ana sorri mais
muito mais do que eu supunha
E mesmo quando dança
não é feliz
ACIDENTES
quantos acidentes temos infligido
um ao outro à espera
do primeiro a sucumbir
o amor possui em mim
suas próprias medidas e
toda vez que quis buscá-lo
toda vez que quis prová-lo
toda vez que quis prevê-lo
o amor ia mudando
até o ponto em que
já não éramos mais nada
CÚMPLICES
impetuosos em nosso amor fleumático
nos conhecemos a ponto de não temer
tocar nossas sombras
gosto do seu rosto encabulado
habituado ao próprio desvão
ar altivo e seguro
segredando tédio
construímos muros de palavras ao redor
do que não dava para amar nem destruir
já não tememos mais o silêncio
somos felizes
toda vez que nos esbarramos
ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO
Aprender alemão é se insinuar
Na direção do neutro
Impronunciável
Das fugas sorrateiras
E breves cintilâncias
Aprender alemão é se insinuar
Na possibilidade da margem
Impenetrável
Da filosofia
Na Alemanha aumenta a cada dia
A lista dos que amaram mais animais
Que seres humanos
Aprender alemão é se insinuar
Onde coexistem o melhor e o pior
Já alcançados pela humanidade
ENCONTRO
você arranca da plateia
aplausos ruidosos
e toca só pra mim
um som sussurrado
sou a única capaz de ouvi-lo
você o sabe
e quando nos encontramos
é porque repouso unicamente
em nossa melodia apaixonada
desde que nos conhecemos
nosso passo vai junto
silencioso
esse segredo delicado
não é amor
amor é outra coisa
o que tocamos intimamente
uma na outra
é a mais pura solidão
Os poemas integram o livro Bigornas, a ser publicado em agosto pela Editora 34.
