CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Cores íntimas
A artista cearense que retrata suas ex-namoradas
Tatiane de Assis | Edição 209, Fevereiro 2024
Azuhli demorou a se assumir como pintora. A primeira tela em que se exercitou, em 2015, foi presente de uma namorada que tentava arrancá-la da hesitação. “Ela foi ao Centro de Fortaleza, comprou tinta, pincel, e me disse: ‘Agora pinta’”, lembra a artista cearense. “Era uma tela grande, de 1 metro de altura por 80 cm de largura. Ficou lá em casa por meses, mas depois consegui fazer.”
O trabalho foi intitulado O monstro que nasce quando o amor acaba. Traz uma figura de gênero não identificado, sentada em uma cadeira. Sua expressão e postura transmitem dor. “Acho que é meio um autorretrato”, diz a pintora. No mesmo ano em que o relacionamento terminou, Azuhli pintou outra tela, A gente. No lugar das cores vibrantes que costuma utilizar, adotou tons preto, azul-petróleo e branco.
Aos 28 anos, Azuhli é uma das revelações da arte feita no Ceará. Seus trabalhos, que já foram expostos em alguns dos principais espaços culturais de Fortaleza, chamam a atenção ao retratar, em composições cromáticas exuberantes, casais homoafetivos e figuras femininas, muitas delas ex-companheiras ou flertes da artista. Nem todos os namoros foram inspiradores: alguns não renderam nem um desenho. Mas outros foram arrebatadores, como o que teve com a ginecologista Bárbara Barros. “Para ela, fiz mais de trinta pinturas”, contabiliza a Azuhli. “Namorar a Luiza me aproximou da arte”, diz Barros.
Criada por um casal de tios que a adotou, Luiza Maynara Diogo Veras era a caçula em uma casa com quatro filhos. “Fui adotada assim que saí da maternidade, porque minha mãe biológica teve depressão pós-parto”, conta. Como muitas crianças, ela gostava de desenhar. Usava cotonetes como pincéis para pintar paisagens e cartões de Natal. “Eu fazia tudo meio sozinha, porque meus irmãos eram bem mais velhos do que eu.”
Quando foi fazer curso superior, apostou em química e, depois, em engenharia de petróleo. Passou para as duas faculdades, mas seus pais acharam que nem uma nem outra combinavam com a jovem. “Eles foram muito iluminados, me falaram para esperar um pouco, que eu deveria fazer algo que tivesse mais a ver comigo.”
Em 2013, Azhuli entrou no curso de arquitetura e urbanismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), uma faculdade privada. Enquanto frequentava o curso, trabalhou no Espaço Cultural Unifor, que abriga parte da relevante coleção de arte do empresário Airton Queiroz (1946-2017), que foi mantenedor da universidade. Coube a um de seus professores, Lucas Gomes, dar uma nova sacudida na estudante. “Ele me aconselhou a largar tudo aquilo e me dedicar à arte.” Em 2018, ela ingressou no curso de artes visuais na Universidade Nacional das Artes, na Argentina, uma faculdade pública em Buenos Aires. “Mas era muita xenofobia e não completei o curso”, diz.
Foi nessa época que a artista passou a se apresentar como Azuhli, um anagrama de seu nome, Luiza, acrescido da letra H. Chegou a pensar em se chamar Azul, mas desistiu. “É o nome de uma cor, como eu iria patentear isso?” O azul, cor matriz de sua obra, ainda ressoa no nome, que também incorpora uma referência mineral: o lápis-lazúli é uma pedra muito apreciada no mundo da ourivesaria por seu azul singular, que não é tão brilhante, conservando certa opacidade.
Outra virada aconteceu em 2022, quando Azuhli fez uma residência de três meses na associação cultural Soma, na Cidade do México, recomendada por Pablo León de la Barra, curador de arte latino-americana do Museu Guggenheim, de Nova York. Durante a estadia, ela se deparou com o catálogo de uma exposição realizada no Museu Estanquillo entre 2016 e 2017, Que se abra esta puerta! Sexualidad, sensualidad y erotismo. O que mais chamou sua atenção no livro foi a série de imagens de casais homoafetivos desde o século XVII. A artista também ficou impressionada com a paisagem urbana da capital mexicana. “Comecei a procurar cores opostas e olhar para a saturação, para encontrar a harmonia que encontrei por lá: um portão rosa, com muro amarelo, detalhe em roxo, e ao fundo a casa em azul-cobalto. Era incrível.”
De volta ao Brasil, Azhuli terminou um relacionamento que mantinha desde 2021 porque o pai de sua companheira não aceitava a orientação sexual da filha. “Eu estava passando pela mesma coisa que lia em relatos de mulheres lésbicas no passado. As famílias só descobriam os relacionamentos dessas mulheres depois que elas morriam e eram achadas fotos delas com suas parceiras”, diz a artista. “Aqui em Fortaleza tem muito isso, histórias de primas ou amigas que vivem juntas, mas são, na verdade, um casal.” A discriminação também acontece na atividade profissional: “Várias vezes, fui aconselhada a não falar tanto de relacionamentos lésbicos, ainda mais em Fortaleza, que é uma cidade que consome pouca arte e tem muita gente conservadora.”
Neste ano, Azuhli se prepara para fazer uma mostra individual com cerca de setenta trabalhos, em um espaço ainda a ser definido. No ateliê que montou em um prédio comercial no Centro de Fortaleza, um letreiro luminoso traz a frase que guia sua vida e sua arte: “O amor é a coisa mais importante.”
