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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Cristão do pancadão

O pastor que leva a Palavra aos bailes funk

Luigi Mazza | Edição 196, Janeiro 2023

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Depois de apresentar a quinta música da noite, MC Lele JP – nome artístico do funkeiro Alessandro Venâncio Silva – interrompeu o baile para chamar um amigo ao palco de uma boate apertada no bairro de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo. Passava das três da madrugada quando Claudemir Gonçalves, o amigo do MC, assumiu o microfone: “Para quem não sabe, eu sou o pastor que dá assistência espiritual para o Lele.”

O aviso era mesmo necessário. De suéter Dolce & Gabbana, calça esportiva, boné e tênis All Star, Gonçalves não parece um pastor. “Eu vim falar com vocês, para vocês saírem abençoados daqui. Amém!” O público devolveu um “amém” tímido. O pastor insistiu: “Então só quem é abençoado faz barulho para Deus aí!”

Dias antes, Gonçalves levou a Palavra a um baile funk comandado pelo MC GP – na vida civil, Gabriel Porto dos Santos. A jovem plateia fez coro ao pastor de 46 anos, entoando “Tá na luz! Tá na benção!” Desde 2021, Gonçalves levantou gritos de louvor em vários bailes funk paulistanos.

 

Essa vida noturna começou quando seu amigo Eduardo Brito, dono da gravadora A Luz Records, o convidou a fazer um culto para os artistas da casa. Os músicos gostaram do pastor. Desde então, ele comanda dois eventos semanais na gravadora: leitura da Bíblia na quarta-feira e culto na sexta-feira. Foi sua porta de entrada para o universo do funk. “Quando se fala em funkeiro, muita gente já pensa em droga, em crime”, diz Gonçalves. “Tinha isso mesmo, mas desde que a gente começou a fazer esse trabalho com eles o ambiente mudou. Hoje eles são tementes a Deus.”

 

No boca a boca, Gonçalves acabou conhecendo pelo menos uma dezena de MCs de São Paulo. Lele JP é seu maior amigo no meio. Aos 20 anos, o MC estourou fazendo o que alguns chamam de “funk consciente”, que se afasta de temas como sexo e violência para falar de fé e superação. Lele tem quase 3 milhões de ouvintes mensais no Spotify e mais de 2 milhões de seguidores no Instagram. Ostenta fotos ao lado de carrões em suas redes sociais. Na mão direita, exibe uma tatuagem com o rosto de Jesus Cristo.

O pastor também se converteu em influenciador digital, em escala mais modesta. Tem 28 mil seguidores no Instagram. Tornou-se uma espécie de “parça”, como são conhecidos os amigos de jogadores de futebol que estão sempre ao lado deles em festas e viagens. Já pregou para artistas famosos como MC Liro, MC Kadu e MC Brinquedo e costuma estar presente em eventos de lançamento de clipes. Às vezes, a pedido dos MCs, conduz um miniculto no meio dos bailes. Meses atrás, embarcou na van da equipe de produção do MC Lele JP para dar seu recado evangélico em quatro casas de show de São Paulo. As plateias costumam ser receptivas ao pastor.

 

Afinado com as tendências do coaching, Gonçalves diz que seu trabalho é uma mentoria espiritual. “As pessoas, por mais que tenham fama e dinheiro, não são livres de ter depressão ou conflitos espirituais. Então a gente chega para ajudar com a palavra da Bíblia.” O contato com os artistas é rotineiro. “Eles me ligam quando vão pegar a estrada para viajar. Às vezes ligam antes de começar o show. Já me ligaram até de madrugada para orar.”

 

Pastor há quinze anos, Gonçalves começou na Assembleia de Deus. Depois, abriu seu próprio ministério, a Igreja Pentecostal Deus Salva, em Fortaleza, sua cidade natal. Atualmente, prega na Igreja do Nazareno Central de Campinas, uma denominação metodista. Ele reconhece que seu trabalho missionário é pouco comum. “O meu foco é nas pessoas que estão lá fora”, explica. “Lá fora”, no caso, quer dizer fora da igreja.

Antes de mergulhar no universo do funk, o pastor trabalhava com jogadores de futebol. Em Fortaleza, organizou orações em grupo com jogadores do Ceará e do Tiradentes, clubes da segunda divisão do Campeonato Cearense. No começo da pandemia, o amigo Brito – que, além de dono de gravadora, é agente de futebol – o apresentou ao jogador Helinho. Jogando no São Paulo, o meia-atacante vivia então uma fase ruim. “Helinho teve uma contusão e ficou um tempo afastado. Numa oração que fizemos, Deus nos disse, pelo dom da revelação, que ele seria transferido para outro clube e faria sucesso”, conta Gonçalves.

 

Pelo menos a primeira parte da revelação se realizou pouco depois: Helinho foi contratado pelo Red Bull Bragantino. Em 2021, o pastor se mudou de Fortaleza para Campinas e se tornou um habitué da casa do jogador, em Bragança Paulista, a 65 km de distância. Além dos momentos de comunhão, os dois se dedicam ao que Gonçalves chama, informalmente, de “resenha em Cristo”.

As pregações em bailes funk são trabalho voluntário e não dão dinheiro, segundo Gonçalves. Seu sustento vem de doações eventuais dos fiéis e do artesanato em madeira (ele vende placas com inscrições como “fé” e “gratidão”). Recentemente, por indicação de um amigo pastor, tornou-se representante comercial de um fabricante de filtros para motores a diesel.

É possível que, em breve, o pastor consiga tirar alguma renda do funk. Ele conta que ajudou a compor uma nova música que será lançada por MC Lele JP em parceria com o cantor gospel Thalles Roberto. O nome da canção é Vale. “O Lele tinha só o refrão, mas não estava funcionando. Aí eu falei: ‘Pega a Bíblia aí e abre em Ezequiel.’ Mostrei pra ele que o vale é um lugar de sofrimento, de luta, e que Deus permite à gente entrar no vale pra depois nos tirar. A gente foi compondo junto. Ficou uma coisa bonita.”

O pastor crê que, por sua influência, os MCs estão mudando o foco das composições. “Agora são músicas que falam de fé, amor, perseverança.” Nem todos abraçaram o ideal de vida cristã. No clipe da música Malokeragem, do final de 2021, MC GP aparece cercado de mulheres e bebidas. Já MC Kadu, na música Ta Ignorante, lançada em parceria com MC GP e outros dois MCs, fala de “balinha”, “baseado” e de uma mulher que “senta com a raba”. “É um processo”, explica o pastor, sem se deixar abalar. “Nossa obrigação é pregar a Palavra. Aos poucos, o próprio Espírito Santo vai fazendo a conscientização.”

Luigi Mazza
Luigi Mazza

Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina

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