Dodecassílabos alexandrinos fajutos
| Edição 229, Outubro 2025
ÍTACA
O texto de Olavo Amaral (Somos todos Ítaca, piauí_228, setembro) expôs um dilema que eu julgava muito particular meu, mas fiquei feliz de descobrir que pode ser um lugar-comum: tenho muita dificuldade em me desfazer das minhas coleções, especialmente de CDs e DVDs, mesmo não tendo nenhum aparelho para poder consumi-los hoje. Já ensaiei diversas vezes um ritual semelhante ao do autor, de procurar quem os queira, mas ainda me falta coragem (ou me mudar definitivamente de estado, como foi o caso do autor).
Além disso, simplesmente não sei o que fazer com a minha coleção de revistas piauí! Sou assinante desde o número 121, portanto tenho mais de cem unidades armazenadas em um armário na minha casa, que tenho que empacotar diligentemente a cada mudança e levá-las para meu próximo destino.
Respondedor de cartas, socorro! Qual seria o ritual adequado para me desfazer desses 30 kg (sim, eu pesei) de revistas que tenho em casa e liberar um espaço tão essencial em meu lar?
Texto escrito sem o ChatGPT.
DANIEL RECCO_SÃO PAULO/SP
NOTA CARIDOSA DA REDAÇÃO: Já pensou em doar para os que estão privados do uso da internet, Daniel? O Brasil tem uma enorme população carcerária formada por generais, almirante e capitão reformado.
DODECASSÍLABO
Uma pequena correção métrica ao saborosíssimo artigo de Fernando de Barros e Silva na edição de setembro (Os “normais” e sua hora, piauí_228): a frase “VTNC seu ingrato do caralho” é um verso dodecassílabo, sim, mas não um alexandrino. Isso porque – de acordo com o Tratado de versificação de Olavo Bilac e Guimaraens Passos, de 1905 – “o alexandrino clássico, o verdadeiro, o legítimo” precisa ser divisível em duas metades (hemistíquios) de seis sílabas poéticas cada. É verdade que o enquadramento como alexandrino seria possível com uma pequena adaptação – “VTN seu C ingrato do caralho” – e que os eminentes tratadistas já então admitiam a existência de poetas modernos contrários à “tyrannia do hemistichio”, mas desconfio que nosso filhote de tirano não abriria mão do conservadorismo nem mesmo nos costumes poéticos: ele jamais permitiria – por uma questão de valores moraes – que fossem alexandrinos os seus versos. Ora (direis), punir golpistas!
DANIEL SERRANO_CAMPINAS/SP
NOTA DODECASSÍLABA ALEXANDRINA DA REDAÇÃO: O Da-ni-el Ser-ra-no // De Cam-pi-nas es-se pê.
O texto do Fernando de Barros e Silva, Os “normais” e sua hora, mostra a total decadência moral de nossas elites econômicas e suas manobras no cenário político, buscando em primeiro lugar seus interesses nada nobres, geralmente escusos, pouco se lixando para as nefastas consequências de suas atitudes. O país afundando e la nave va, eis o triste resumo de nossa democracia caquética.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
SEGUNDA NOTA DODECASSÍLABA ALEXANDRINA DA REDAÇÃO: Dir-ceu Lu-iz Na-tal // Do Ri-o de Ja-nei-ro er-re jo-ta.
ARMAS E BARÕES ASSINALADOS
Ainda que Eduardo Bolsonaro não tenha chegado a elaborar um soneto completo, mas apenas um verso, Os “normais” e sua hora , de Fernando de Barros e Silva, foi providencial como abertura do que viria à frente na edição. Mesmo não sendo alexandrino, o primeiro verso decassílabo heroico de Os lusíadas cabe bem como resumo dos acontecimentos: As armas e os barões assinalados. Lembremos que barões é variante de varões, ou filhos. Violência e filhos escolhidos, assim profecia Luís de Camões, não que a epopeia fascistoide brasileira se compare aos portugueses se lançando ao mar.
Tudo fica bem revelado e concatenado pela angustiante reportagem de João Batista Jr. (Pai (e eu) acima de tudo, piauí_228, setembro), esperando que apenas um almoço para o jornalista, nada além, tenha sido pago pelo Null drei – mudança sutil para a língua de Goethe, já que Fernando Barros usou a de Victor Hugo, revelando a cultura que pelo Texas não abunda, sem trocadilhos. Ficar com dívida com o Demo é impagável. Aliás, ter de acompanhar o quinta-coluna brasileiro no estrangeiro deve mexer muito com o estômago. E os detalhes das articulações para o tarifaço e as sanções de Donald Trump são postos antes do julgamento pelo stf e do avanço dos projetos de anistia a golpistas e de autoproteção a parlamentares. A máquina da insanidade criminosa é contínua.
Por fim, achei doce o reparo histórico feito por João Moreira Salles (Obituário de um obituário, piauí_228, setembro) com os múltiplos erros de mais de dezessete anos atrás (antes tarde do que nunca).
No entanto, creio que outra nota será necessária, uma vez que foi destacado que a piauí não mais usa a expressão “crioulo”: deverá ser corrigido o termo “travestida” no final do artigo, substituindo por “disfarçada”, respeitando as pessoas transgênero.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
TERCEIRA NOTA DODECASSÍLABA ALEXANDRINA DA REDAÇÃO: A-dil-son Ro-ber-to Gon-çal-ves // De Cam-pi-nas es-se pê.
SETEMBRO
piauí, eu estou cansado, dramaticamente cansado (levo as mãos à testa em um suspiro).
Seja por que meu pai de direita manda indiretas pra que eu cumpra meu dever com o meu país (já o fiz, como fez Eduardo, em Pai (e eu) acima de tudo, piauí_228, setembro).
Seja por que minhas inspirações artísticas mandam me vestir de alguém além de mim (igual fez a Luísa, em Da turbulência ao silêncio, piauí_228, setembro).
Ou porque meu corpo perdeu o gingado, ou porque busco maneiras de não me identificar com os demais (como os ocidentais).
Ou porque prefiro a morte à criptomoeda (O criptoboy, piauí_228, setembro).
E tenho tudo isso passando em minha cabeça enquanto sou expulso do bar, porque já não aguento mais o coice do álcool de duas caipirinhas.
Vivendo sobre a bandeira do clichê sentimental que se apoderou da nova geração Brasil, que assim como a todos me faz negar com o fervor da apatia e do silêncio o que na juventude me causava indignação.
É isso que quebra as correntes desse ciclo de geração de morte?
Ou é apenas o canto de um pássaro que deseja a morte do pavão?
Perdoe-me pelo excesso de poesia, estou de férias na Bahia.
P.S.: Esta edição está uma delícia, não sabia que jornalista se fazia de amigo de Brás Cubas.
UBIRACY DO AMARAL JÚNIOR_PORTO SEGURO/BA
NOTA FRUSTRADA DA REDAÇÃO: U-bi-ra-cy do A-ma-ral Jú-nior // De Por-to Se-gu-ro Ba-hi-a // De-us do céu! Ne-nhu-ma des-sas no-tas da re-da-ção, tan-to a da-qui, quan-to as de a-co-lá, é um do-de-cas-sí-la-bo a-le-xan-dri-no.
MUITO AGRADECIDO
Como um “lombadeiro” safado, não podia deixar de elogiar, entusiasticamente, a HQ de Allan Sieber e Eduardo Souza Lima (Free William, piauí_228, setembro). É a mais fina ironia, e ainda com a mascote da revista.
Aliás, fiquei devendo um elogio quando da publicação da contundente HQ do Joe Sacco e Art Spiegelman sobre a Faixa de Gaza (Nunca mais!… E mais… E mais… E mais…, piauí_222, março). Mas a verdade é que qualquer comentário sobre a piauí ser um expoente da nona arte é chover no molhado, dadas as charges que mensalmente enriquecem a edição, assim como as publicações longínquas de Robert Crumb.
Os quadrinhos estão aí para nos fazer refletir e contemplar essa realidade que nos atropela como um caminhão desgovernado. Sorte a nossa de ter a piauí para ao menos compreender – enquanto estamos estatelados no chão – o trajeto anterior do veículo, o porquê de seu descontrole e tentar prever se ele vai cair no penhasco ou subir a tortuosa via que se aproxima.
Enfim, deixo aqui meu mais sincero obrigado.
LUCCAS CARDOSO_RIO DE JANEIRO/RJ
