A ambição de Zuckerberg tinha sido criar outra internet, ou talvez outro mundo, dentro do Facebook, e induzir as pessoas a usá-lo ao máximo; o modelo do negócio se baseava na publicidade, que tem apetite infinito pelo tempo das pessoas FOTO: MISTER THOMS
Dois anos que abalaram o Facebook – e o mundo
Como a maior empresa das redes sociais tomou o rumo do desastre
Nicholas Thompson e Fred Vogelstein | Edição 141, Junho 2018
I
Num dos últimos dias de fevereiro de 2016, Mark Zuckerberg fez circular um memorando entre todos os funcionários do Facebook, tratando de um gesto inquietante da parte do pessoal. A mensagem dizia respeito a certas paredes da sede da empresa, em Menlo Park, na Califórnia, usadas como um mural onde qualquer funcionário pode deixar sua assinatura ou escrever algumas palavras. Em mais de uma ocasião, alguém tinha riscado as palavras Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] e escrevera por cima All Lives Matter [Todas as Vidas Importam]. Zuckerberg queria que o responsável parasse com aquilo. “Que Vidas Negras Importam não significa que as demais não tenham importância”, dizia o memorando. “Nunca impusemos regras sobre o que as pessoas podem ou não escrever nos nossos murais”, continuava o texto, mas “riscar o que outro escreveu significa silenciar a palavra alheia, ou [dizer] que a palavra de uns vale mais que a de outros.” As rasuras, afirmava, estavam sendo investigadas.
De ponta a ponta dos Estados Unidos, mais ou menos na mesma época, as discussões em torno de questões raciais e políticas ficavam cada vez mais ásperas. Donald Trump tinha acabado de vencer as primárias da Carolina do Sul, atacando as declarações do papa Francisco sobre a imigração e conquistando o apoio entusiástico de David Duke. Hillary Clinton acabara de suplantar Bernie Sanders em Nevada, mas foi interpelada no meio de um discurso por um militante do movimento Black Lives Matter que protestava contra declarações dela, racialmente carregadas, de duas décadas antes. No Facebook, enquanto isso, um grupo popular conhecido como Blacktivist vinha adquirindo influência, trombeteando mensagens como “a construção da economia e da potência americanas baseou-se na migração forçada e na tortura”.
Assim, quando a advertência de Zuckerberg começou a circular, um jovem funcionário terceirizado da empresa, Benjamin Fearnow, decidiu que ela merecia a atenção da imprensa. Capturou a tela do seu monitor e mandou a imagem para um amigo chamado Michael Nuñez, que trabalhava no site Gizmodo, especializado em notícias de informática. Imediatamente, Nuñez publicou um texto curto sobre o memorando.
Uma semana mais tarde, Fearnow deparou-se com mais uma informação que lhe pareceu do interesse de Nuñez. Num outro comunicado interno, o Facebook convidara seus funcionários a fazer possíveis perguntas a Zuckerberg, numa reunião geral do pessoal da empresa. Uma das perguntas mais votadas daquela semana foi esta: “Qual responsabilidade o Facebook tem em contribuir para que Trump não se torne presidente em 2017?” Fearnow tornou a fotografar a tela, dessa vez com seu celular.
Fearnow, formado pouco antes em jornalismo pela Universidade Columbia, trabalhava no escritório do Facebook em Nova York numa divisão conhecida como Trending Topics, uma lista dos assuntos mais frequentes que surge na tela cada vez que alguém abre o Facebook. Essa lista era gerada por um algoritmo, mas moderada por uma equipe de cerca de 25 pessoas com formação ou experiência em jornalismo. Toda vez que aparecia o nome “Trump”, como era frequente, essa equipe aplicava seus critérios para identificar a notícia mais importante a respeito do candidato. Se a publicação satírica The Onion ou outra página de humor publicasse algum absurdo que ainda assim viralizasse, cabia à equipe manter a postagem fora da lista. Se alguma chacina a tiros acontecesse, por exemplo, cabia também a eles injetar a notícia na lista dos assuntos destacados.
O Facebook se gaba de ser uma empresa onde as pessoas adoram trabalhar. Mas Fearnow e sua equipe não estavam exatamente felizes. Foram contratados por intermédio da empresa de consultoria e serviços BCforward, e todo dia algo lhes lembrava que na verdade não faziam parte do Facebook. Além disso, desde o início esses jovens jornalistas sabiam que seus empregos não tinham futuro. A maioria das empresas de tecnologia prefere que muito pouco seja feito diretamente por seres humanos – visto que, como se diz com frequência na área, não geram ganhos de escala: não é possível contratar 1 bilhão de jovens jornalistas, e o trabalho deles sempre produz alguma interferência, ausente quando o algoritmo opera sozinho. Empregados precisam de intervalos para ir ao banheiro, pedem seguro-saúde e – o mais irritante de tudo – volta e meia abrem a boca para a imprensa. Todo mundo esperava que, no futuro, os algoritmos do Facebook se tornassem capazes de responder por todo o pro-jeto, e que os membros da equipe de Fearnow – cuja função era, em parte, instruir esses algoritmos – pudessem ser devidamente dispensados.
Fearnow capturou a segunda tela numa quinta-feira. Assim que acordou na sexta, depois de passar a noite no escritório, constatou que tinha recebido umas trinta convocações para uma reunião com gente do Facebook. Respondeu dizendo que era seu dia de folga, lembra ele, mas ainda assim lhe pediram para estar disponível dali a dez minutos. E logo estava participando de uma videoconferência com três dirigentes da empresa, entre eles Sonya Ahuja, a investigadora-chefe do Facebook. Segundo o relato de Fearnow, Ahuja lhe perguntou se ele havia feito contato com Nuñez. Ele negou. Então ela lhe disse que estava de posse do registro das conversas dos dois no GChat – que, até então, ele imaginava fora do alcance do Facebook. Fearnow foi demitido. “Por favor, feche o seu laptop e não torne a abrir”, foi a instrução que ouviu da interlocutora.
No mesmo dia, Ahuja conversou com um outro funcionário da área dos Trending Topics chamado Ryan Villar-real. Vários anos antes, ele e Fearnow tinham dividido um apartamento com Nuñez. Villarreal respondeu que não tinha capturado tela alguma e que não tinha vazado qualquer informação. Mas tinha clicado like no post sobre a história do Black Lives Matter publicada por Nuñez, que figurava entre os seus amigos no Facebook. “Você não acha que os vazamentos são um problema?”, perguntou Ahuja a Villarreal, que também foi demitido. A última notícia que ele teve de seu empregador foi uma carta que recebeu da BCforward. A empresa lhe pagara 15 dólares a título de compensação de despesas e queria o dinheiro de volta.
A demissão de Fearnow e Villarreal deixou sobressaltada toda a equipe dos Trending Topics – e Nuñez continuava cavando, atrás de novas notícias. Pouco tempo depois, publicou um texto sobre a pesquisa interna que demonstrava o interesse dos funcionários do Facebook em barrar o avanço de Trump. Mais adiante, no início de maio, foi a vez de um artigo fundamentado em conversas com um terceiro ex-funcionário da área de Trending Topics. Dizia o título aparatoso do texto: “Ex-funcionários do Facebook: Nós diariamente suprimimos notícias conservadoras.” A matéria sugeria que a equipe dos Trending Topics funcionava como num delírio febril da Fox News: curadores tendenciosos que “injetavam” posts liberais e barravam as postagens conservadoras, constantes de uma “lista negra”. Em poucas horas, o texto tinha sido retransmitido por meia dúzia de sites especializados em tecnologia e política, todos com um alto tráfego de leitores, entre eles o Drudge Report e a Breitbart News.
O post de Nuñez viralizou, mas a batalha que se seguiu em torno dos “tópicos populares” não se limitou a dominar o noticiário por alguns dias. De maneira que só agora ficou totalmente clara, deu o tom dos dois anos mais conturbados da existência do Facebook – iniciando uma cadeia de fatos que deixariam a empresa atarantada e confusa, enquanto calamidades ainda maiores começavam a envolvê-la.
Esta é a história desses dois anos, da maneira como se desenrolaram tanto dentro quanto em torno da empresa. Conversamos com 51 funcionários ou ex-funcionários do Facebook para este artigo, e muitos deles nos pediram para não terem seus nomes citados – por motivos que qualquer pessoa que conheça a história de Fearnow e Villarreal certamente há de entender. (Um funcionário ainda na ativa pediu ao repórter que desligasse seu celular para que a empresa tivesse mais dificuldades em rastrear se tinha estado próximo do telefone de alguém do Facebook.)
Os relatos variam, mas a maioria conta a mesma história: de uma empresa e seu CEO, cujo otimismo tecnológico foi esmagado à medida que perceberam as inúmeras maneiras como a sua plataforma pode ser usada para o mal. De uma eleição que deixou o Facebook atônito, enquanto suas decorrências imediatas deixaram a empresa sob intensa pressão. De uma série de ameaças externas, cálculos defensivos internos e hesitações que adiaram, para o Facebook, a devida avaliação de seu próprio impacto nos acontecimentos globais e nas mentes de seus usuários. E – nos capítulos derradeiros da história – da tentativa esforçada da empresa em se redimir.
Em toda esta saga, Fearnow desempenha um desses papéis obscuros mas cruciais que a história volta e meia propicia a alguns indivíduos. Ele é o Francisco Ferdinando do Facebook – ou talvez seja mais adequado compará-lo ao malfadado jovem assassino do arquiduque austríaco. De um modo ou de outro, o vazamento de Fearnow pode ser considerado o pontapé inicial da calamidade crescente que vem envolvendo o Facebook desde o início de 2016.
II
Nos dias que correm, a história do crescimento desenfreado do Facebook virou praticamente o mito da criação de nossa era da informação. O que começou como um recurso para conectar amigos de algumas turmas da Universidade Harvard transformou-se em meio de conexão com pessoas de outras universidades de elite, depois de todas as faculdades americanas e, finalmente, com gente de toda a parte. De lá para cá, o login de cada usuário do Facebook tornou-se o caminho para a conexão com outros sites da internet. O aplicativo Messenger, acessório do programa, começou a competir com as formas tradicionais de correio eletrônico e mensagens de texto. O Facebook se transformou no lugar onde, depois de um terremoto, você avisa às pessoas que está bem. Em países como as Filipinas, para todos os efeitos, o Facebook é a internet. A energia incontrolável desse Big Bang emana, em grande parte, de uma intuição simples e brilhante. Os seres humanos são animais sociais. Mas a internet é um vazadouro geral. O que deixa qualquer um com medo de se identificar e revelar detalhes pessoais online. Basta solucionar esse problema – transmitir aos usuários segurança para postar – que eles se entregarão a um compartilhamento obsessivo. Em seguida, torne disponível para os anunciantes todo o banco de dados com as conexões interpessoais e as informações compartilhadas em particular, e a plataforma irá se transformar numa das tecnologias de comunicação mais importantes do início do século XXI.
Porém, mesmo com todo o poderio de sua ideia original, a expansão do Facebook também foi impelida graças a muito esforço. Zuckerberg mostrou-se um comandante determinado, até impiedoso, do destino manifesto da empresa, com um talento impressionante para distinguir a aposta certa. Nos primeiros tempos do Facebook, “aja rápido e quebre as coisas” não era apenas uma recomendação para os seus programadores; era a filosofia que servia para solucionar um sem-número de conflitos delicados – muitos deles envolvendo a privacidade dos usuários –, sempre da maneira mais favorável ao crescimento da plataforma. E, no que diz respeito a fazer frente à concorrência, Zuckerberg sempre se mostrou implacável, fosse na aquisição ou no bombardeio de qualquer desafiante que desse a impressão de se deslocar de vento em popa.
Na verdade, foi no processo de suplantar um desses rivais que o Facebook passou a dominar o modo como encontramos e consumimos notícias. Em 2012, a rede mais promissora de distribuição de notícias pela internet não era o Facebook, mas o Twitter. Os tuítes com 140 caracteres aumentaram a velocidade da difusão de notícias, fazendo sua influência na indústria jornalística crescer muito mais depressa que a do Facebook. “O Twitter era uma ameaça imensa, gigantesca”, diz um ex-executivo do Facebook profundamente envolvido na direção da empresa na época.
Em face daquela situação, Zuckerberg seguiu uma estratégia que empregaria muitas vezes contra os concorrentes que não conseguiu comprar: copiar e depois esmagar. Fez ajustes no chamado Feed de Notícias do Facebook para permitir a incorporação de notícias inteiras (apesar do nome, a seção privilegiava originalmente as novidades de cunho pessoal), e ajustou o produto para que mostrasse as chamadas de cada matéria e o nome de seus autores. Em seguida, emissários do Facebook se espalharam para conversar com jornalistas e explicar-lhes as melhores maneiras de atingir os leitores por meio da plataforma. Ao final de 2013, o Facebook tinha duplicado sua participação no tráfego para os sites de notícias e começava a pressionar o Twitter, no sentido do declínio. Em meados de 2015, já tinha ultrapassado o Google como o maior remetente de leitores aos sites de conteúdo e respondia pelo encaminhamento de um número de leitores de notícias treze vezes maior que o do Twitter. No mesmo ano, o Facebook lançou o Instant Articles, oferecendo aos órgãos de imprensa a oportunidade de publicar seus artigos diretamente na plataforma. As matérias carregariam mais depressa e apareceriam com mais destaque, mas os produtores das notícias desistiriam de parte do controle sobre o conteúdo. A indústria jornalística, zonza havia muitos anos, em grande parte concordou. Agora, na prática, o Facebook era o dono das notícias. “Se você puder reproduzir o Twitter dentro do Facebook, porque iria ao Twitter?”, pergunta o ex-executivo. “O que estão fazendo hoje com o Snapchat, fizeram com o Twitter naquela época.”
Entretanto, parece que o Facebook não ponderou com cuidado todas as implicações de se transformar na força dominante da indústria da notícia. Na administração da empresa, todos davam importância à qualidade e à correção, e criaram regras, por exemplo, para eliminar a pornografia e proteger os direitos de autor. Mas o Facebook contratou poucos jornalistas e dedicou muito pouco tempo à discussão das grandes questões que atormentam a indústria da notícia. Em que consiste um tratamento justo e imparcial? O que é um fato? Como assinalar a diferença entre uma informação, uma análise, uma sátira e uma opinião? E o Facebook passou muito tempo aparentando julgar-se imune a esses debates por ser uma simples empresa de tecnologia – que apenas tinha criado “uma plataforma para todas as ideias”.
Essa noção de que o Facebook é uma plataforma aberta e neutra converteu-se quase num dogma dentro da empresa. Assim que são recrutados, os novos funcionários ouvem uma palestra de orientação dada por Chris Cox, o principal diretor de produto da empresa, na qual este lhes diz que o Facebook é uma plataforma de comunicação totalmente nova, que estaria para o século XXI como o telefone esteve para o século XX. Mas, caso alguém dentro do Facebook não se mostre convencido por essa fé religiosa, sempre existe o artigo 230 da Lei de Decência nas Comunicações, promulgada em 1996. Esse artigo da lei americana isenta os intermediários da internet de qualquer responsabilidade pelo conteúdo que seus usuários postam. Se o Facebook começasse a criar ou editar conteúdo em sua plataforma, correria o risco de perder essa proteção – e é difícil imaginar como poderia existir se pudesse ser responsabilizado pelos bilhões de itens de conteúdo que seus usuários postam a cada dia.
Desse modo, devido à autoimagem da empresa e a seu medo da regulação, o Facebook tentou nunca favorecer qualquer tipo de conteúdo noticioso em detrimento de outro. Mas a neutralidade, por si só, já é uma escolha. Por exemplo, o Facebook resolveu apresentar basicamente da mesma forma todos os itens de conteúdo que aparecem no seu Feed de Notícias – sejam as fotos do cachorro de alguém, seja uma reportagem jornalística. E, assim, todas as notícias do feed também tinham mais ou menos a mesma aparência, fossem elas investigações do Washington Post, fofocas do New York Post ou óbvias mentiras do Denver Guardian, um jornal totalmente de araque. Para o Facebook, isso era a informação democratizada. Você via o que os seus amigos queriam que você visse, não a notícia escolhida por algum editor do New York Times. Mas é difícil defender que isso não tenha sido uma decisão editorial. Pode ter sido, inclusive, uma das mais importantes decisões editoriais de todos os tempos.
De qualquer maneira, a adoção de notícias pelo Facebook desencadeou mais um crescimento explosivo das maneiras como as pessoas podiam se conectar. A partir de então, o Facebook passou a ser o lugar onde as publicações podiam se conectar com seus leitores – e também onde adolescentes macedônios podiam se conectar com eleitores americanos, e operadores em São Petersburgo podiam se conectar com um público à sua escolha, de um modo que ninguém na empresa jamais tinha visto.
III
Em fevereiro de 2016, ao mesmo tempo que a crise dos Trending Topics vinha ganhando força, Roger McNamee tornou-se uma das primeiras pessoas de dentro do Facebook a perceber coisas estranhas que aconteciam na plataforma. McNamee foi uma das primeiras pessoas a investir no Facebook, e mentor de Zuckerberg em duas decisões cruciais: recusar a oferta de 1 bilhão de dólares do Yahoo! pela empresa em 2006; e contratar, em 2008, uma executiva do Google chamada Sheryl Sandberg para ajudar a encontrar um modelo de negócio. McNamee não tinha mais contato direto com Zuckerberg, mas permanecia como investidor, e naquele mês começou a achar preocupantes certas coisas ligadas à campanha de Bernie Sanders. “Vi memes que, para todos os efeitos, vinham de um grupo do Facebook aparentemente associado à campanha de Sanders, mas que jamais poderiam ter vindo daí”, ele lembra, “mas ainda assim eram organizados e difundidos de um modo que sugeria haver dinheiro por trás. E então pensei cá comigo, ‘Que coisa mais estranha. Isso não me parece um bom sinal.’”
Contudo, McNamee não disse nada a ninguém do Facebook – pelo menos não de imediato. E a empresa, por sua vez, não captava nenhum sinal preocupante, fora um único ponto piscando no radar: no início de 2016, sua equipe de segurança percebeu um aumento na proporção de iniciativas russas no sentido de roubar as credenciais de jornalistas e figuras públicas. O Facebook relatou o fato ao FBI, mas a empresa afirma que nunca teve resposta do governo, e as coisas ficaram por isso mesmo.
Em vez disso, o Facebook passou o segundo trimestre de 2016 muito ocupado em se esquivar das acusações de que podia influir nas eleições de modo totalmente diverso. Quando o Gizmodo publicou sua história sobre o viés político dos Trending Topics, em maio, o artigo explodiu como uma bomba em Menlo Park. Alcançou milhões de leitores em pouco tempo e, numa ironia especialmente saborosa, foi incluído ele próprio no módulo dos Trending Topics. Não foi essa repercussão negativa, porém, que mais abalou o Facebook – foi a carta de John Thune, um senador republicano de Dakota do Sul, que lhes chegou depois da matéria. Thune é o presidente do Comitê de Comércio do Senado americano, que por sua vez supervisiona a Comissão Federal de Comércio, uma agência especialmente ativa em investigações envolvendo o Facebook. O senador queria que a empresa respondesse se estava sendo de fato tendenciosa, e esperava uma resposta rápida.
A carta de Thune pôs o Facebook em alerta máximo. Seu alto escalão foi imediatamente despachado para Washington, a fim de se reunir com a equipe de Thune. Em seguida, a empresa produziu uma resposta com doze páginas em espaço 1, explicando que tinha empreendido uma revisão profunda dos Trending Topics e que isso lhe permitia afirmar que as alegações da reportagem do Gizmodo eram amplamente infundadas.
O Facebook também decidiu que precisava fazer um aceno claro de paz à direita americana, boa parte da qual vinha esbravejando contra a suposta perfídia da empresa. E assim, pouco mais de uma semana depois que a reportagem foi divulgada, o Facebook se apressou em convidar um grupo de dezessete republicanos proeminentes para uma visita à sede de Menlo Park. Na lista se encontravam apresentadores de tevê, estrelas do rádio, membros de think tanks e um dos conselheiros da campanha de Trump. A intenção básica era obter uma resposta dos convidados. Mais do que isso, porém, a empresa queria se penitenciar ostensivamente por seus pecados, tirando a camisa e expondo as costas às chibatas.
Nas palavras de um funcionário do Facebook envolvido no planejamento do encontro, a ideia era, em parte, reunir na empresa um grupo de conservadores certamente fadados a brigar entre si. Tiveram o cuidado de chamar tanto libertários que jamais proporiam a regulação da plataforma quanto políticos que achavam ser esta a melhor coisa a fazer. Outra intenção do encontro, segundo o funcionário, era garantir que os convidados ficassem “mortalmente entediados” com uma apresentação técnica, feita ao grupo depois dos discursos de Zuckerberg e Sandberg.
Num dado momento faltou luz, e o calor no salão causou muito desconforto. Tirante isso, o encontro ocorreu conforme o planejado. Os convidados realmente bateram boca, e não apresentaram uma oposição unificada que parecesse ameaçadora ou mesmo coerente. Uns queriam que a empresa estabelecesse cotas para a contratação de funcionários conservadores; outros acharam a ideia maluca. Como acontece em muitas reuniões entre gente de fora e representantes do Facebook, os visitantes passaram quase todo o tempo tentando descobrir maneiras de atrair mais seguidores para as suas próprias páginas.
Depois da visita, Glenn Beck, um dos convidados, escreveu um artigo sobre o encontro, elogiando Zuckerberg. “Perguntei a ele se o Facebook, hoje ou no futuro, seria uma plataforma aberta para o compartilhamento ou um curador de conteúdo”, escreve Beck. “Sem hesitação, com toda a coragem e clareza, Mark respondeu que só existe um Facebook e um único caminho à frente: ‘Somos uma plataforma aberta.’”
No interior do próprio Facebook, aquela repercussão negativa em torno dos Trending Topics inspirou muitas reflexões honestas. Mas nenhuma delas foi muito longe. Um discreto projeto interno, conhecido pelo codinome Hudson, organizou-se mais ou menos nessa época visando determinar, como conta alguém que esteve envolvido, se o Feed de Notícias devia ser modificado para lidar melhor com algumas das questões mais complexas envolvendo o produto. Ele tende a privilegiar posts que enfurecem as pessoas? Favorece ideias simples, ou mesmo falsas, em vez das mais complexas e verdadeiras? Essas perguntas são difíceis, e a empresa ainda não tinha as devidas respostas. Finalmente, no final de junho, o Facebook anunciou uma alteração modesta: o algoritmo seria modificado de maneira a favorecer as postagens de amigos e da família. Ao mesmo tempo, Adam Mosseri, o chefe do setor Feed de Notícias, postou um pronunciamento intitulado “A construção de um melhor Feed de Notícias para você”. Nos corredores do Facebook, o texto era citado como uma espécie de Magna Carta; a empresa nunca tinha dito antes como realmente funcionava o Feed de Notícias. Para gente de fora, porém, o texto parecia menos momentoso. Dizia mais ou menos o esperado: que a empresa se opunha ao clickbaiting, a “caça aos cliques”, mas que não estava empenhada em favorecer certos pontos de vista.
A consequência mais importante da controvérsia em torno dos Trending Topics, na opinião de quase uma dúzia de ex-empregados e funcionários atuais, foi que o Facebook passou a temer qualquer gesto que pudesse dar a ideia de que tendia a abafar as notícias conservadoras. Ficara escaldado da primeira vez e não pretendia repetir a experiência. E assim começou um verão marcado por calúnias e um rancor profundamente partidário, enquanto o Facebook fazia o possível para manter-se fora da briga.
IV
Pouco depois de Mosseri publicar seu guia dos valores que norteiam o Feed de Notícias, Zuckerberg viajou até Sun Valley, em Idaho, para a conferência anual organizada pelo bilionário Herbert Allen, na qual magnatas de camisas de mangas curtas e óculos escuros entregam-se à folgança e fazem planos de comprar as empresas uns dos outros. Mas Rupert Murdoch estragou o clima num encontro ocorrido no interior de sua villa. De acordo com vários relatos sobre a conversa, Murdoch e Robert Thomson, presidente da News Corp, expuseram a Zuckerberg seu grande descontentamento com o Facebook e o Google. As duas gigantes da tecnologia apossaram-se de quase todo o mercado publicitário digital, transformando-se numa ameaça à existência do jornalismo sério. Segundo pessoas que conhecem o teor da conversa, os dois líderes da News Corp acusaram o Facebook de ter feito modificações radicais em seu algoritmo de base sem uma devida consulta a seus parceiros da mídia, provocando consequências funestas ao sabor dos caprichos de Zuckerberg. Se o Facebook não começasse a oferecer negócios melhores à indústria da notícia, disseram Thomson e Murdoch em termos ásperos, Zuckerberg podia ter certeza de que os executivos da News Corp tornariam mais públicas as suas queixas, além de fazer um lobby mais declarado. Já tinham criado um ambiente bem difícil para o Google na Europa. E podiam fazer o mesmo com o Facebook nos Estados Unidos.
O Facebook achou que a News Corp estava ameaçando pedir uma investigação antitruste do governo, ou talvez perguntar às autoridades se a empresa realmente merecia ficar isenta de responsabilidade por ser uma plataforma neutra. Dentro do Facebook, a diretoria acreditava que Murdoch podia usar seus jornais e suas estações de tevê para amplificar suas críticas à empresa. Mas a News Corp disse que não era disso que se tratava: ameaçava pôr em campo executivos, e não seus jornalistas.
Zuckerberg tinha motivo para levar esse encontro especialmente a sério, segundo um antigo executivo do Fa-cebook, pois tinha conhecimento de primeira mão sobre o talento de Mur-doch para práticas maléficas. Em 2007, o Facebook fora criticado pelos procuradores-gerais de 49 estados por não pro-teger seus usuários mais jovens de predadores sexuais e conteúdo inadequado. Pais preocupados dirigiram-se ao procu-rador-geral de Connecticut, Richard Blumenthal, que deu início a uma investigação, e também ao New York Times, que publicou uma reportagem a respeito. No entanto, segundo um ex-executivo do Facebook a par de muitas histórias, a empresa concluiu que muitas das contas e boa parte do comportamento predatório a que essas queixas se referiam eram falsas, trazendo as digitais dos advogados da News Corp ou de outras pessoas a soldo de Murdoch – dono do principal concorrente do Facebook, o MySpace. “Rastreamos a criação de várias contas do Facebook e encontramos endereços de IP associados à loja da Apple a um quarteirão de distância do escritório do MySpace em Santa Mônica”, diz o executivo. “Em seguida, o Facebook localizou indícios de contato entre essas contas e advogados da News Corp. Contra o Facebook, Murdoch vem usando todos os recursos possíveis há muito tempo.” (Tanto a News Corp quanto a 21st Century Fox, a ela subordinada, não quiseram comentar.)
Quando Zuckerberg voltou da conferência de Sun Valley, disse a seus funcionários que as coisas precisavam mudar. Ainda não tinham entrado para a indústria da notícia, mas deviam garantir que ela continuasse a existir. E precisavam comunicar-se melhor. Uma das pessoas que recebeu uma lista de tarefas foi Andrew Anker, um gerente de produto que tinha chegado ao Facebook em 2015 depois de uma carreira no jornalismo. Uma das suas atribuições foi ajudar a empresa a imaginar maneiras como os donos de jornais e revistas podiam ganhar dinheiro na plataforma. Pouco depois da conferência de Sun Valley, Anker reuniu-se com Zuckerberg e pediu a contratação de sessenta novos funcionários para trabalhar em parcerias com a indústria da notícia. Antes do fim da reunião, seu pedido tinha sido aprovado.
No entanto, escalar mais gente para conversar com os grandes editores apenas enfatizava o quanto seria difícil solucionar os problemas financeiros que Murdoch queria ver corrigidos. Os órgãos de imprensa desembolsavam milhões para produzir as notícias de que o Facebook se beneficiava, e o Facebook, na opinião deles, dava-lhes muito pouco em troca. O Instant Articles, especialmente, lhes parecia um verdadeiro cavalo de Troia. Na opinião dos grandes editores, eles podiam ganhar mais dinheiro postando as notícias em seus próprios aplicativos de celular que no Instant Articles do Facebook. (E muitas vezes era o que faziam, frustrando a resposta esperada pelos anunciantes, ao inserir nessas postagens anúncios que os leitores provavelmente nem chegariam a ver, o que não ocorria no Facebook.) Outra diferença aparentemente irreconciliável: o faturamento de publicações como o Wall Street Journal, de propriedade de Murdoch, dependia de paywalls, mas o Instant Articles não admitia a existência de paywalls, pois Zuckerberg não os aprovava. Afinal, perguntava ele, de que maneira essas barreiras de cobrança de pedágio podiam contribuir para um mundo mais aberto e interconectado?
As discussões quase sempre terminavam em impasse, mas pelo menos o Facebook vinha se mostrando mais atento a essas questões. Contudo, essa nova importância que conferia às preo-cupações dos jornalistas não se estendia aos jornalistas do próprio Facebook envolvidos com os Trending Topics. No final de agosto, todos os membros dessa equipe ficaram sabendo que seus empregos deixariam de existir. Ao mesmo tempo, a autoridade sobre o algo-ritmo usado foi transferida para uma equipe de programadores sediada em Seattle. Em muito pouco tempo, mentiras e histórias fictícias começaram a emergir no módulo. Poucos dias depois, uma das manchetes em destaque afirmava: “A Fox News faz revelações sobre a traição de Megyn Kelly , demitida por apoiar Hillary Clinton.”
V
Enquanto o Facebook tentava lidar, no plano interno, com a transformação que vivia – tornando-se uma companhia que dominava os meios de comunicação, mas não queria ser ela própria uma empresa de mídia – a equipe da campanha presidencial de Donald Trump não tinha a menor dúvida. Para eles, fazer uso do Facebook era algo óbvio. O Twitter era uma ferramenta para estabelecer comunicação direta com os simpatizantes e reclamar da imprensa aos berros. O Facebook era o meio para conduzir a mais eficaz operação direta de marketing político de toda a história.
Entre junho e setembro de 2016, no auge da campanha eleitoral, a frente digital de Trump podia parecer em grande desvantagem. Afinal, a equipe de Hillary Clinton estava repleta de talentos de primeira linha e era também assessorada por Eric Schmidt, conhecido por dirigir o Google. A de Trump era comandada por Brad Parscale, cujo cartão de visita foi ter criado a página na internet da Eric Trump Foundation (entidade filantrópica do filho de Donald Trump). O diretor de comunicação social de Trump era seu antigo caddie (pessoa que acompanha o jogador de golfe, carregando os tacos). Ocorre, porém, que em 2016 ninguém precisava de experiência digital para conduzir uma campanha presidencial, bastava saber lidar com o Facebook.
Ao longo de três meses, a equipe de Trump transformou a plataforma num dos seus veículos básicos para a arrecadação de fundos. A campanha entrou com os arquivos de seus eleitores – os nomes, os endereços, a história eleitoral e qualquer informação que tivesse sobre eleitores em potencial – no Facebook. E então, usando uma ferramenta chamada Lookalike Audiences (Públicos Semelhantes), o Facebook relacionou as características gerais das pessoas que, por exemplo, assinavam os boletins da campanha de Trump ou compraram bonés com o nome do candidato. Isso permitiu à campanha dirigir seus anúncios para os usuários com traços semelhantes. Trump postava mensagens simples, como “Esta eleição está sendo manipulada pela mídia, que publica acusações falsas ou sem fundamento, além de mentiras deslavadas, para eleger a Hillary Vigarista”, e essas mensagens eram objeto de centenas de milhares de “curtir”, comentários e compartilhamentos. O dinheiro entrava a rodo. As mensagens bem menos assertivas de Hillary Clinton, enquanto isso, ficavam longe de obter a mesma ressonância na plataforma. Dentro do Facebook, quase todos os diretores queriam que ela ganhasse; mas sabiam que Trump vinha fazendo melhor uso da plataforma. Se ele era o candidato certo para o Facebook, ela era uma candidata para o LinkedIn.
A candidatura de Trump também se revelou uma ferramenta esplêndida para uma nova forma de estelionato, produzindo notícias inteiramente falsas que viralizavam em grande escala. Por tentativa e erro, esses vigaristas digitais aprenderam que os memes elogiando o antigo apresentador do programa O Aprendiz conseguiam muito mais leitores que memes em louvor da ex-secretária de Estado. Uma página chamada Ending the Fed proclamou que o papa tinha declarado seu apoio a Trump, e atraiu mais de 1 milhão de comentários, compartilhamentos e reações no Facebook, segundo uma análise do BuzzFeed. Outras notícias postadas afirmavam que a ex-primeira dama vinha vendendo armas ao Estado Islâmico em segredo e que um agente do FBI suspeito de vazar seus e-mails tinha sido achado morto. Parte dessas postagens vinha de americanos hiper-radicais. Outra parte vinha de usinas estrangeiras de conteúdo interessadas apenas nos dólares da publicidade. Ao final da campanha, as notícias falsas que mais circulavam na plataforma geravam uma resposta muito maior do que as reais.
Mesmo os dirigentes ativos do Facebook sabem hoje que deixaram de perceber sinais mais que evidentes de manipulação da plataforma. E, retrospectivamente, é fácil compilar uma longa lista de explicações possíveis para a miopia reinante em Menlo Park em relação às famosas fake news. A direção do Facebook sentia-se tolhida pelo malogro dos Trending Topics; tomar alguma iniciativa contra a desinformação ligada a um partido – ou mesmo simplesmente identificá-la como tal – podia ser visto como um novo gesto de favorecimento político. Por outro lado, o Facebook também vende anúncios para acompanhar as notícias, e o lixo sensacionalista era eficaz na atração de mais gente para a plataforma. Os bônus dos funcionários do Facebook podem se basear, em grande parte, na consecução de certas metas de crescimento e faturamento da empresa, o que lhes dá um incentivo a mais para não se preocupar muito quanto à natureza dos fatores que, no fim das contas, acabam atraindo mais usuários. E ainda resta o onipresente artigo 230 da Lei da Decência nas Comunicações, de 1996. Se a empresa começasse a assumir a responsabilidade pelas fake news, podia se ver obrigada a se responsabilizar por muito mais. O Facebook tinha razões de sobra para manter a cabeça enterrada na areia.
Roger McNamee, porém, continuava a acompanhar com atenção a multiplicação dos absurdos. Primeiro, foram as notícias falsas em apoio a Bernie Sanders, depois as mensagens de apoio ao Brexit, e mais tarde as que ajudavam Trump. Por volta de setembro, McNamee resolveu escrever um artigo de opinião sobre os problemas da plataforma. Mas nunca chegou a publicá-lo. “O que me ocorreu foi que eles eram meus amigos. E eu realmente queria lhes dar uma ajuda.” E assim, numa noite de domingo, nove dias antes das eleições de 2016, ele enviou um e-mail de mil palavras para Sand-berg e Zuckerberg. “Estou muito triste com o Facebook”, começava seu texto. “Eu me envolvi com a empresa mais de uma década atrás, e senti muito orgulho e alegria com seu sucesso… até os últimos meses. Hoje estou decepcionado. Constrangido. Envergonhado.”
VI
Não é fácil reconhecer que a máquina construída por você para tornar as pessoas mais próximas vem sendo usada para separá-las mais do que nunca, e a primeira reação de Zuckerberg à vitória de Trump, e ao possível papel do Facebook nesse resultado, foi de repúdio mal-humorado. Os executivos se lembram do pânico dos primeiros dias, em que a equipe de diretores entrava e saía às pressas das salas de reuniões de Zuckerberg (conhecida como “O Aquário”) e de Sandberg (apelidada de “Só Boas Notícias”), tentando se dar conta do que tinha acabado de acontecer e se alguém poderia culpá-los pelo resultado. E então, numa coletiva ocorrida dois dias depois das eleições, Zuckerberg afirmou que as bolhas sociais eram piores do lado de fora que no Facebook e que as redes sociais não exercem grande influência sobre o voto das pessoas. “A ideia de que fake news postadas no Facebook – que, vocês sabem, são uma proporção muito pequena do conteúdo – tenham influído de algum modo nas eleições, a meu ver, é uma ideia bem maluca”, ele disse.
Zuckerberg recusou-se a dar entrevista para este artigo, mas muita gente que o conhece bem sabe que ele prefere formar suas opiniões a partir de dados concretos. E, no caso em pauta, não lhe faltavam dados. Antes da coletiva, sua equipe tinha feito alguns cálculos apressados, concluindo que as notícias falsas correspondiam a uma proporção ínfima do conteúdo total relacionado às eleições postado na plataforma. Mas essa análise resultava apenas em uma visão agregada da porcentagem de notícias claramente falsas publicadas no Facebook, de fora a fora. Não media a influência das fake news, nem a maneira como afetavam grupos específicos. Era apenas um número, mas não especialmente significativo.
Os comentários de Zuckerberg não foram bem recebidos, nem dentro da própria empresa. Pareciam meio perdidos e ditados por uma visão excessivamente centrada em si mesma. “O que ele disse nos causou problemas incríveis”, declarou um antigo executivo da empresa. “E precisávamos obrigá-lo a mudar de opinião. Sabíamos que, se não conseguíssemos, a empresa enveredaria pelo caminho do ostracismo, como vinha ocorrendo com o Uber.”
Uma semana depois de seus comentários “bem malucos”, Zuckerberg viajou para o Peru a fim de proferir uma palestra a líderes mundiais sobre como a conexão de cada vez mais gente à internet, e ao Facebook, poderia reduzir a pobreza mundial. Pouco depois de pousar em Lima, postou um texto que podia passar por um mea-culpa. Explicava que o Facebook encarava com seriedade a questão da informação errada, e apresentava um vago plano em sete pontos para atacar o problema. Quando um professor da New School chamado David Carroll viu o texto de Zuckerberg, capturou a tela. Ao lado do texto, o feed de notícias de Carroll exibia uma manchete falsa da CNN acompanhada de uma foto de Trump com ar contrariado e as palavras “Eliminado; fim de linha para Trump!”.
Na conferência realizada no Peru, Zuckerberg avistou-se com um homem que entende alguma coisa de política: Barack Obama. Várias reportagens falaram do encontro, dizendo que o presidente em fim de mandato conversou em particular com Zuckerberg e lhe deu “uma chamada” sobre as fake news. Mas alguém que esteve com eles em Lima diz que foi Zuckerberg quem pediu o encontro, preocupado apenas em convencer Obama de que, sim, o Facebook pretendia lidar a sério com o problema. Estava decidido a combater a proliferação de falsas informações, disse ele, mas a solução não era fácil.
Enquanto isso, no Facebook, as engrenagens continuavam a girar. Pela primeira vez, o pessoal da empresa começou a realmente se perguntar se a empresa teria acumulado um poder excessivo. Um dos funcionários declarou que, quando olhava para Zuckerberg, lembrava-se do personagem Lennie do livro Ratos e Homens, o trabalhador rural que não tinha noção da própria força.
Pouco tempo depois das eleições, uma equipe de funcionários do Facebook começou a trabalhar numa recém-criada “Força-tarefa da integridade do Feed de Notícias”, inspirada na constatação de que, contou-nos um deles, a informação falsa de cunho hiperpartidário “era uma doença que ameaçava se espalhar por toda a plataforma”. O grupo, do qual faziam parte Mosseri e Anker, começou a ter reuniões diárias, usando quadros brancos para esboçar diferentes linhas de ação em resposta à crise das notícias falsas. Em poucas semanas, a empresa anunciou que iria reduzir a renda da publicidade para anúncios caça-níqueis, e facilitar, para os usuários, as maneiras de assinalar as notícias e posts que consideravam falsos.
Em dezembro, a empresa anunciou que, pela primeira vez, iria começar a checar os fatos divulgados na plataforma. O Facebook não queria, ele mesmo, checá-los; em vez disso, pretendia terceirizar a iniciativa, transferindo a responsabilidade para profissionais. Ao receber muitos sinais de que uma história era falsa, esta seria automaticamente enviada a parceiros externos, como o Snopes (site americano que verifica a veracidade de informações), para ser checada. No início de janeiro de 2018, o Facebook anunciou a contratação de Campbell Brown, ex-âncora da CNN. Foi a jornalista mais importante jamais contratada pela empresa.
Em pouco tempo, Brown assumiu a direção do Projeto de Jornalismo do Facebook. “O projeto foi desenvolvido basicamente durante as festas de fim de ano”, conta uma pessoa envolvida nas primeiras discussões. A finalidade era demonstrar a seriedade do empenho do Facebook em refletir sobre seu papel no futuro do jornalismo – essencialmente, uma versão mais pública e organizada dos esforços a que a empresa vinha se dedicando desde as admoestações de Murdoch. Mas o projeto também era motivado por uma ansiedade considerável. “Desde as eleições, com a vitória de Trump, os órgãos de comunicação passaram a dedicar uma atenção imensa às notícias falsas, e começamos a ser malhados. Criou-se um certo pânico com a possibilidade de que algum tipo de regulação estivesse a caminho. Então, a equipe examinou o que o Google vinha fazendo havia anos com seu News Lab (Laboratório de Notícias) – uma organização dentro da Alphabet (a empresa-mãe à qual pertence o Google) destinada ao treinamento e à produção de ferramentas para jornalistas – “e resolvemos descobrir como poderíamos criar um programa próprio que deixasse claro o quanto levamos a sério o futuro do jornalismo”.
O Facebook, porém, mostrava-se relutante em divulgar algum reconhecimento da própria culpa ou qualquer plano de ação dedicado a combater o problema da constatada propensão das bolhas de filtragem da rede social servirem como amplifi-cador da raiva dos usuários. Altos membros da diretoria achavam que essas questões não tinham solução e talvez nem devessem ser enfrentadas. Seria realmente o Facebook mais culpado pela amplificação da raiva do que, por exemplo, a Fox News ou a MSNBC? Claro, podemos incluir nos feeds de notícias de várias pessoas postagens que contradizem suas opiniões políticas, às quais, entretanto, nenhuma delas dará atenção, da mesma forma como mudam de canal se o programa desagrada a elas. O problema, como diz Anker, “não é o Facebook: são as pessoas”.
VII
A declaração “bem maluca” de Zuckerberg sobre as fake news atraiu a atenção de muitas pessoas, e uma das mais influentes foi uma pesquisadora especializada em segurança chamada Renée DiResta. Fazia anos que ela vinha estudando de que maneira informações falsas se espalham pela plataforma. Se você entrar num grupo do Facebook contra a vacinação das crianças, observou ela, a plataforma pode sugerir que entre para um grupo que acredita que a Terra é plana, ou talvez um grupo dedicado ao Pizzagate – incluindo você entre os adeptos de vários tipos de teorias da conspiração. As palavras de Zuckerberg, assim, lhe pareceram incrivelmente fora de sintonia com a realidade. “Como é que a plataforma pode dizer uma coisa dessas?”, lembra-se de ter pensado.
Enquanto isso, Roger McNamee se irritava com a reação do Facebook à sua carta. Zuckerberg e Sandberg lhe responderam prontamente, mas sem dizer nada de substancial. Em lugar da resposta esperada, McNamee viu-se envolvido durante meses numa troca fútil de e-mails com Dan Rose, o vice-presidente do Facebook para parcerias. McNamee diz que Rose foi cortês, mas também muito firme na mensagem que repisava: a empresa vinha fazendo muitas coisas boas que McNamee não estava vendo, e de qualquer maneira, no fim das contas, o Facebook era uma plataforma, e não uma empresa de comunicação.
“Enquanto isso”, conta McNamee, “eu não parava de pensar: ‘Francamente, não acho que isso funcione dessa maneira.’ Eles podem repetir à exaustão que são uma plataforma, mas o que afirmam não tem nenhuma importância se o usuário tiver outro ponto de vista.”
Como disse o poeta, “o céu não conhece fúria igual à do amor que em ódio se converte”, e a preocupação de McNamee logo se transformou numa causa – e na origem de uma aliança. Em abril de 2017, ele travou contato com Tristan Harris, ex-gerente do Google – onde trabalhava como gerente de produtos responsável por questões éticas –, depois de aparecerem juntos num programa da Bloomberg TV. Àquela altura, Harris tinha adquirido fama nacional como a consciência crítica do Vale do Silício. O programa 60 Minutes e a revista The Atlantic tinham feito reportagens a seu respeito, e ele se manifestava com elo-quência sobre os sutis estratagemas que as empresas de comunicação social empregam para promover a dependência do usuário aos seus serviços, que “podem exagerar os piores aspectos da natureza humana”, declarou. Depois da aparição conjunta na tevê, McNamee conta que ligou para Harris e perguntou: “Amigo, está precisando de apoio?”
No mês seguinte, DiResta publicou um artigo em que comparava os promotores de informações falsas nas redes sociais aos operadores mais acelerados dos mercados financeiros. “As redes sociais permitem que atores mal-intencionados operem em toda a escala da plataforma, pois foram programadas para o fluxo veloz de informação e a viralidade”, ela escreveu. Tanto os “robôs” repetidores, conhecidos como bots, quanto simples identidades falsas podem criar, usando poucos recursos, “a ilusão de uma onda poderosa de atividade de movimentos de base”, praticamente da mesma forma como alguns algoritmos antigos de compra e venda de ativos, hoje ilegais, podiam induzir o aumento inflado da demanda por certos papéis. Harris leu o artigo, ficou impressionado e enviou um e-mail à autora.
Em pouco tempo, McNamee, Harris e DiResta começaram a falar, com quem se dispusesse a ouvir, sobre os efeitos nefastos do Facebook à democracia americana. E não demorou muito para que encontrassem ouvintes interessados entre os jornalistas e os membros do Congresso americano – grupos que também cultivavam suas próprias desavenças com o gigante das redes sociais.
VIII
Mesmo quando são boas, as reuniões do Facebook com os executivos dos meios de comunicação sempre lembram os encontros de uma família infeliz. Os dois lados estão unidos por laços inextricáveis, mas nenhum dos dois gosta muito um do outro. Os executivos da imprensa veem com ressentimento a captura, pelo Facebook e o Google, de quase três quartos do mercado de publicidade digital, deixando apenas migalhas para serem disputadas no tapa pela indústria da notícia e outras plataformas, como o Twitter. Além disso, na opinião deles, as preferências do algoritmo do Facebook vêm induzindo toda a indústria da notícia a publicar materiais cada vez mais idiotas. O New York Times, por exemplo, passou anos se queixando de que o Facebook ajudava a promover o BuzzFeed; hoje, o BuzzFeed se ressente de ter sido desalojado pelas postagens caça-cliques.
E tem-se ainda a desconfiança, além do medo simples e profundo, que o Facebook inspira. Qualquer dono de jornal sabe que se transformou, no máximo, num meeiro da imensa fazenda industrial do Facebook. A rede social vale quase 200 vezes mais que o New York Times. E os jornalistas sabem que o dono da fazenda é que concentra o poder de decisão. Se o Facebook quiser, pode acionar discretamente certos botões que iriam causar grande dano aos editores – manipulando seu tráfego, sua rede de anunciantes ou seus leitores.
Emissários do Facebook, por sua vez, acham cansativo ouvir lições de pessoas que desconhecem a diferença entre um algoritmo e uma API. Sabem também que não foi por mera sorte que o Facebook conquistou o mercado da publicidade digital: simplesmente criou um produto melhor para os anunciantes. E, em seus momentos de maior irritação, devem se perguntar: Qual o sentido disso tudo? As notícias constituem apenas uns 5% de todo o conteúdo que os usuá-rios do Facebook veem no mundo inteiro. A empresa poderia abrir mão delas, e seus acionistas mal se dariam conta da mudança. E ainda existe outro problema, este bem mais profundo: Mark Zuckerberg, segundo as pessoas que o conhecem bem, prefere sempre pensar no futuro. Não se interessa tanto assim pelos problemas atuais da indústria da notícia; pensa nos problemas que pode vir a ter daqui a cinco ou vinte anos. Os editores das maiores empresas jornalísticas, por outro lado, estão preocupados com o próximo trimestre – ou até com o próximo telefonema. Quando escolhem o almoço que levarão para suas mesas de trabalho, sabem que não devem comprar bananas verdes.
Essa desconfiança recíproca – aguçada, às vésperas das eleições, quase ao ponto da inimizade – não facilitou em nada a vida de Campbell Brown quando ela estreou em seu novo emprego, chefiando o recém-criado Projeto de Jornalismo do Facebook. A primeira tarefa de sua lista foi partir para mais uma rodada de conversas com editores e proprietários dos meios de comunicação. Um dos editores descreve um encontro típico: Brown e Chris Cox, diretor de produto do Facebook, convidaram, no fim de janeiro de 2017, um grupo de dirigentes da mídia para uma reunião no apartamento de Brown, em Manhattan. Cox, um homem discreto e muito gentil, às vezes definido como “o Ryan Gosling dos Produtos Facebook”, foi quem enfrentou o grosso das queixas. “Basicamente, vários de nós mostramos a ele como o Facebook vinha destruindo o jornalismo, e ele ouviu tudo da maneira mais elegante”, conta o editor. “Nem tentou defender muito a empresa. Acho que a ideia deles era, na verdade, dar as caras e fazer de conta que nos ouviam.” Outras reuniões foram ainda mais tensas, e os comentários ocasionais dos jornalistas presentes assinalam seu interesse nas questões da aplicação das leis antitruste ao meio digital.
Por mais incômodo que isso tudo pudesse ser, a equipe de Brown confiava que seus esforços eram valorizados dentro do Facebook – até Zuckerberg publicar, em fevereiro, um pronunciamento institucional de 5 700 palavras. Ele passara os três meses anteriores, segundo gente que o conhece bem, ponderando se tinha criado algo que produzia efeitos mais negativos do que positivos. “Estamos construindo o mundo que desejamos?”, perguntava no início do texto, dando a entender que a resposta óbvia era não. Em meio a afirmações genéricas envolvendo “a construção de uma comunidade global”, assinalava a necessidade de manter as pessoas bem informadas e de pôr fim às notícias falsas e aos caça-cliques. Brown e outros funcionários graduados do Facebook viram o manifesto como um sinal de que Zuckerberg entendia as profundas responsabilidades sociais da empresa. Outros acharam o documento grandiloquente e inócuo, mais uma demonstração da tendência de Zuckerberg a sugerir que a solução para quase qualquer problema é as pessoas usarem mais o Facebook.
Pouco depois de divulgar seu manifesto, Zuckerberg empreendeu uma turnê, planejada com o maior cuidado, para ouvir interlocutores em todo o país. Aparecia de surpresa em alguma loja de doces ou lanchonete de algum estado de maioria republicana, trazendo a reboque uma equipe de filmagem e um time de relações públicas. Escreveu um texto enfático sobre o que estava aprendendo e esquivou-se de responder quando lhe perguntaram se o seu verdadeiro objetivo não seria candidatar-se à Presidência dos Estados Unidos. Tudo indica que se tratou de um bem-intencionado esforço no sentido de conquistar amigos para o Facebook. Mas logo ficaria claro que os maiores problemas do Facebook vinham de lugares bem mais distantes que o estado de Ohio.
IX
Umas das muitas coisas que Zuckerberg parece não ter percebido quando escreveu seu manifesto foi que sua plataforma tinha conferido poderes a um inimigo muito mais sofisticado que um punhado de adolescentes macedônios ou fornecedores variados de lorotas a baixo custo. À medida que passava o ano de 2017, o Facebook começou a se dar conta de que tinha sido atacado por uma operação de influência estrangeira. “Eu gostaria de fazer uma distinção clara entre as notícias falsas e as coisas vindas da Rússia”, diz um executivo envolvido na resposta da empresa aos dois problemas. “No último caso, houve um ponto em que todo mundo pensou: Puta merda, essa situação envolve a segurança nacional.”
Esse “momento puta merda”, porém, só viria a ocorrer mais de seis meses depois da eleição. No começo da campanha, o Facebook já sabia de ataques habituais provenientes de conhecidos hackers russos, como o grupo APT28, que muitos julgam ligado a Moscou. Invadiam contas fora do Facebook, roubavam documentos e criavam contas falsas no Facebook sob a bandeira do DCLeaks (site de vazamento de informações), para fomentar a discussão a respeito do que tinham roubado. A empresa não via sinais de uma campanha séria e articulada de propaganda estrangeira, mas também não se dedicou à sua procura.
Ao longo do segundo trimestre de 2017, a equipe de segurança do Facebook começou a preparar um relatório sobre a maneira como órgãos de inteligência, russos e de outros países, tinham usado a plataforma. Um de seus autores era Alex Stamos, o chefe da equipe de segurança de informação da empresa. Stamos era quase um herói no mundo digital por ter renunciado a seu emprego anterior no Yahoo!, depois de um conflito em torno de conceder ou não acesso aos servidores da empresa às agências americanas de espionagem. Nas palavras de duas pessoas com conhecimento direto do documento, Stamos pretendia publicar uma análise detalhada e específica de tudo que o Facebook havia descoberto. Mas dirigentes das equipes de estratégia e comunicações reagiram, cortando boa parte do seu relatório. Fontes próximas à equipe de segurança sugerem que a empresa preferiu não se ver envolvida no vendaval político daquele momento. (Fontes das equipes de estratégia e comunicações insistem em afirmar que cortaram boa parte do relatório só porque o maldito texto era muito difícil de ler.)
Em 27 de abril de 2017, um dia depois de o Senado ter anunciado a convocação do então diretor do FBI, James Comey, para depor sobre as investigações a respeito da ingerência da Rússia nas eleições americanas, o relatório de Stamos foi divulgado. Seu título era Operações de Informação e o Facebook, e o texto dava uma detalhada explicação passo a passo de como adversários podiam usar a plataforma, de fora do país, para manipular seus usuários. Mas os exemplos ou detalhes específicos eram poucos, e não havia qualquer menção direta à Rússia. Tudo parecia quase inofensivo e muito modesto. Como diz Renée DiResta, “lembro de ter acompanhado a divulgação do relatório e de ter pensado: Meu Deus, depois de seis meses só produziram isso?”
Um mês depois, uma reportagem da Time sugeriu à equipe de Stamos que sua análise podia ter deixado várias coisas de fora. O artigo citava as palavras de um alto funcionário da área de informações, afirmando que operadores russos haviam comprado anúncios no Facebook para fazer circular propaganda política entre leitores americanos. Mais ou menos na mesma época, a equipe de segurança também seguiu indicações que lhe foram encaminhadas por investigadores do Congresso, sugerindo que uma agência de informações estava de fato examinando anúncios russos no Facebook. Surpreendidos, os membros da equipe começaram a escavar eles próprios nos arquivos publicitários da empresa. E finalmente, depois de separar as muitas transações de acordo com vários critérios – Os anúncios foram pagos em rublos? Foram comprados por meio de programas de navegação em que o russo tinha sido definido como idioma? –, conseguiram isolar um grupo de contas financiadas por um nebuloso grupo russo chamado Agência de Pesquisas na Internet, criado com a finalidade de manipular a opinião política nos Estados Unidos. Entre elas havia uma página chamada Heart of Texas, que propunha a secessão daquele estado. E também a Blacktivist, que insistia em divulgar histórias sobre a brutalidade policial contra homens e mulheres afrodescendentes e tinha mais seguidores que a página – verificada e autêntica – do Black Lives Matter.
Muitos pesquisadores especializados em segurança se dizem consternados pelo fato de o Facebook ter precisado de tanto tempo para perceber que um exército russo de trolls vinha se valendo da sua plataforma. Afinal, o grupo era velho conhecido do Facebook. Executivos da empresa dizem que se envergonham do tempo que lhes custou localizar as contas falsas, mas assinalam que as agências de informações americanas nunca lhes deram qualquer ajuda. Um assessor da Comissão de Inteligência do Senado, por sua vez, se disse exasperado com a empresa. “Parecia óbvio que era uma tática que os russos iriam explorar”, afirma.
Quando o Facebook finalmente encontrou a propaganda russa em sua plataforma, a descoberta desencadeou uma crise, uma intensa disputa e muita confusão. Em primeiro lugar, devido a um erro de cálculo, a primeira notícia que correu pela empresa dizia que o grupo russo teria comprado milhões de dólares em anúncios, quando o verdadeiro total foi de poucas centenas de milhares. Depois que esse equívoco foi esclarecido, surgiu uma controvérsia em relação a quanto desses achados deveria ser revelado, e para quem. A empresa podia divulgar os dados para o público, entregar tudo para o Congresso ou simplesmente não esclarecer nada. Boa parte da discussão tinha a ver com a privacidade dos usuários. Membros da equipe de se-gurança temiam que o processo legal envolvido na revelação de dados particulares de usuários, mesmo associados a um exército russo de trolls, podia abrir as portas para o governo requisitar, mais adiante, os dados de outros usuários do Facebook. “A discussão interna foi intensa”, conta um executivo. “Será que a gente simplesmente diz ‘Foda-se’ e não pensa mais no assunto?” Mas finalmente a empresa decidiu que seria uma loucura abrir mão da cautela legal “só porque era o que Rachel Maddow esperava de nós”.
No fim das contas, um texto assinado por Stamos foi postado num blog, no início de setembro. Até onde a empresa podia dizer, afirmava o documento, o Facebook tinha recebido 100 mil dólares dos russos por cerca de 3 mil anúncios dedicados a exercer alguma influência política na campanha das eleições americanas de 2016. Cada uma das frases do texto parece preocupada em reduzir a importância dessas novas revelações: a quantidade de anúncios foi pequena, o valor pago não foi muito grande. E o Facebook não iria revelar quais anúncios foram esses. O público jamais viria a saber como eram, ou qual teria sido sua intenção.
DiResta não recebeu bem essa resposta do Facebook. Fazia tempo que criticava a empresa por revelar pouco demais, e dessa vez ela dava a impressão de tentar esconder mais ainda. “Não era mais simples incompetência, agora a má intenção era clara”, diz ela. Duas semanas mais tarde, enquanto esperava na fila da farmácia pelo aviamento de uma receita para um de seus filhos, recebeu uma ligação de um pesquisador do Centro de Apoio ao Jornalismo Digital da Universidade Columbia, chamado Jonathan Albright. Ele vinha mapeando os ecossistemas das informações falsas desde as eleições, e tinha excelentes notícias. “Encontrei uma coisa”, ele disse. Albright tinha começado suas pesquisas pelo CrowdTangle, uma das ferramentas de análise usadas pelo Facebook. E descobriu que os dados de seis das contas que o Facebook tinha fechado conti-nuavam lá, congelados, num estado de animação suspensa. Havia postagens defendendo a secessão do Texas e explorando as tensões raciais. E outras francamente políticas, como a que se referia a Hillary Clinton como “a sanguinária traidora antiamericana Killary”. Pouco antes das eleições, a conta do Blacktivist incitava seus seguidores a manter distância de Clinton e, no lugar dela, votar em Jill Stein, candidata do Partido Verde. Albright tinha baixado os 500 posts mais recentes de cada um dos seis grupos. E contou que, no total, eles tinham sido compartilhados mais de 340 milhões de vezes.
X
Para McNamee, a maneira como os russos usaram a plataforma não trazia surpresa, nem era uma anomalia. “Eles localizam 100 ou mil pessoas com raiva ou com medo, e depois usam as ferramentas do Facebook para dirigir seus anúncios e arregimentar gente para certos grupos”, diz ele. “Exatamente como o Facebook foi programado para funcionar.”
McNamee e Harris viajaram em julho a Washington, onde passaram um dia em reuniões com membros do Congresso americano. Em seguida, em setembro, acompanhados de DiResta, começaram a empregar todo o seu tempo livre em assistência a senadores, deputados e membros de suas assessorias. Os Comitês de Inteligência, tanto da Câmara quanto do Senado, organizavam audiências sobre o uso das redes sociais pela Rússia para interferir nas eleições americanas, e McNamee, Harris e DiResta os ajudaram a preparar as sessões. Uma das primeiras questões foi decidir quem seria convocado a depor. Harris recomendou chamar os presidentes das grandes empresas de tecnologia para criar uma cena dramática em que pudessem ser vistos lado a lado, erguendo a mão direita para fazer o juramento, mais ou menos da maneira como os executivos da indústria do tabaco haviam sido obrigados a perfilar-se uma geração atrás. Ao final, entretanto, decidiu-se que representantes legais das três empresas – Facebook, Twitter e Google – seriam chamados para a toca do leão.
E assim, em 1º de novembro, Colin Stretch veio aparar os golpes em nome do Facebook. Durante as audiências propriamente ditas, DiResta estava sentada em sua cama em São Francisco, assistindo à transmissão com os fones nos ouvidos, tentando não acordar os filhos pequenos. Acompanhava as discussões em Washington enquanto trocava comentários, através do Slack (plataforma de comunicação corporativa), com outros pesquisadores da área de segurança. Viu Marco Rubio, senador republicano pela Flórida, perguntar, muito a propósito, se o Facebook tinha pelo menos alguma diretriz que impedisse governos estrangeiros de promover uma campanha de influência por meio da plataforma. A resposta foi não. Jack Reed, senador democrata por Rhode Island, perguntou então se o Facebook se julgava obrigado a esclarecer a cada usuário atingido pelos anúncios russos que tinha sido logrado. Novamente, a resposta foi não. Mas o comentário em tom mais ameaçador foi feito por Dianne Feinstein, senadora democrata pelo estado de origem do Facebook (a Califórnia): “Vocês criaram essas plataformas que agora estão sendo usadas para o mal e cabe a vocês tomar alguma providência”, ela declarou. “Caso contrário, nós tomaremos.”
Depois das audiências, outra represa deu a impressão que estava para se romper, e ex-executivos do Facebook começaram a vir a público para revelar suas críticas à companhia. Em 8 de novembro, o empresário Sean Parker, primeiro presidente do Facebook e dono de uma fortuna de bilhões de dólares, disse que estava arrependido de ter se esforçado tanto para lançar o Facebook no mundo todo. “Não sei se eu entendia as consequências do que estava propondo”, declarou. “Só Deus sabe o que o Facebook está fazendo com a cabeça das nossas crianças.” Onze dias depois, o ex-gerente de privacidade da empresa, Sandy Parakilas, publicou um artigo na página de opinião do New York Times pedindo que o governo regulasse o Facebook: “A empresa não tem como nos proteger por conta própria, e o que está em perigo é nada menos que a nossa democracia.”
XI
No mesmo dia das audiências, Zuckerberg precisava divulgar o balanço do terceiro trimestre do Facebook. Os números, como sempre, eram excelentes, mas ele estava de mau humor. Normalmente, esses anúncios são capazes de pôr para dormir mesmo quem tenha consumido previamente doze xícaras de café: o executivo vai lá, se apresenta e diz que está tudo bem, mesmo quando não está. Mas Zuckerberg partiu para outra linha. “Já disse o quanto fiquei contrariado com a tentativa russa de usar nossas ferramentas para semear o desentendimento. Construímos essas ferramentas para ajudar as pessoas a se conectarem e se aproximarem umas das outras. E eles as usaram para tentar minar nossos valores. O que fizeram foi errado, e não vamos reagir com indiferença.” A empresa pretendia investir tanto em segurança, ele afirmou, que o faturamento do Facebook deveria se ver “significativamente” reduzido, ao menos por algum tempo. “Quero ser bem claro quanto às nossas prioridades: proteger nossa comunidade é mais importante que maximizar nossos lucros.” O que o Facebook realmente deseja é que seus usuários vejam a experiência como “tempo bem empregado”, disse Zuckerberg – usando as três palavras que se transformaram no cartão de visitas de Tristan Harris (Time Well Spent) e de sua organização sem fins lucrativos.
Surgiam também outros sinais de que Zuckerberg começava a absorver as críticas à sua empresa. O Projeto de Jornalismo do Facebook, por exemplo, parecia fazer a empresa levar mais a sério as suas responsabilidades como órgão de imprensa, e não uma simples plataforma. Por volta de outubro, a empresa anunciou que Zuckerberg tinha decidido – depois de anos resistindo à ideia – que os editores que usavam o Instant Articles podiam exigir que os leitores fossem assinantes de seus órgãos de imprensa. O pagamento por publicações sérias, nos meses que se seguiram às eleições, passou a ser visto tanto como o caminho para o futuro do jornalismo quanto um modo de resistir às pressões do ambiente político em tempos de pós-verdade. Além disso, a oferta de assi-naturas podia ajudar a criar o tipo de incentivo que, no entendimento de Zuckerberg, deveria determinar os rumos da plataforma. Pessoas como Alex Hardiman, diretora de produtos de mídia no Facebook e oriunda do New York Times, começaram a reconhecer que o Facebook tinha ajudado a criar um sistema econômico que premiava os editores da imprensa pelo sensacionalismo, não pela precisão ou a profundidade de suas matérias. “Se o conteúdo só for recompensado com base no número bruto de cliques e de leitores atraídos, podemos vir a encontrar conteúdos cada vez mais sensacionalistas, caça-cliques, polarizadores e fomentadores de divisões”, ela diz. Uma rede social que se limite a premiar a quantidade de cliques, e não de assinaturas, é como uma agência de encontros que estimula casos passageiros em vez de casamentos.
XII
Algumas semanas antes do Dia de Ação de Graças, em novembro de 2017, Zuckerberg convocou uma das suas reuniões trimestrais com todos os funcionários na sede do Facebook, num espaço ao ar livre conhecido como Hacker Square. Depois de desejar bom feriado a todos, disse: “Neste ano, com as notícias recentes, vão perguntar a muitos de nós ‘O que está acontecendo com o Facebook?’ O ano tem sido difícil… mas… o que eu sei é que temos a sorte de desempenhar um papel importante nas vidas de bilhões de pessoas. É um privilégio, que representa uma imensa responsabilidade para todos nós.” Segundo um funcionário presente, as palavras soaram mais carregadas e pessoais do que jamais tinha ouvido da parte de Zuckerberg. Ele passou uma impressão de humildade, até de culpa. “Acho que não está dormindo bem à noite”, declarou o funcionário. “Parece que sente remorso pelo que aconteceu.”
Nas semanas seguintes, as críticas continuavam a se avolumar: o Facebook foi acusado de se transformar num vetor decisivo para a difusão de propaganda mortal contra a minoria étnica muçulmana Rohingya, em Mianmar, e por ter servido para reunir apoio às políticas brutais do presidente Rodrigo Duterte nas Filipinas. E dezembro trouxe mais um baque, vindo de uma pessoa próxima. No início do mês, noticiou-se que Chamath Palihapitiya, vice-presidente do Facebook para a conquista de novos usuários antes de se demitir em 2011, tinha dito a uma plateia da Universidade Stanford que, a seu ver, plataformas como o Facebook tinham “criado ferramentas que vêm contribuindo para o esgarçamento do tecido social”, e que sente uma “culpa imensa” por ter tomado parte no processo. Declarou que procura usar o Facebook o mínimo que pode, e que não permite que seus filhos façam qualquer uso desse tipo de plataformas.
A crítica foi especialmente dolorosa, mais que qualquer outra. Palihapitiya é próximo de muitos executivos da empresa e goza de imenso prestígio no Vale do Silício e junto aos programadores do Facebook, além de ser um dos donos do time de basquete Golden State Warriors. Sheryl Sandberg às vezes usa em volta do pescoço, entrelaçadas, uma corrente que lhe foi dada por Zuckerberg e outra, oferecida por Palihapitiya, depois da morte de seu marido. A empresa divulgou uma nota afirmando que Palihapitiya já deixara de trabalhar para ela muito antes. “O Facebook era uma empresa muito diferente naquele tempo e, com o nosso crescimento, percebemos que nossas responsabilidades também ficaram maiores.” Quando perguntaram ao Facebook por que se dera ao trabalho de responder a Palihapitiya, um dos mais importantes executivos da empresa respondeu: “Chamath é – era – amigo de muita gente aqui.”
Enquanto isso, Roger McNamee empreendeu uma ofensiva na imprensa contra o Facebook. Publicou um artigo na revista Washington Monthly, seguido de matérias no Washington Post e no jornal britânico The Guardian. O que ele disse causou uma impressão menor dentro do Facebook. Os executivos acharam que ele exagerava a sua importância para a empresa, usando sua ofensiva crítica para chamar a atenção. Andrew Bosworth, vice-presidente e membro da equipe de gerenciamento, tuitou: “Faz doze anos que trabalho no Facebook e tenho de perguntar: Quem é esse tal de Roger McNamee?”
Zuckerberg, entretanto, parecia ansioso para remendar a cerca. Mais ou menos na mesma época, uma equipe de executivos do Facebook se reuniu para jantar com executivos da News Corp no The Grill, um dos restaurantes mais chiques de Manhattan. Logo no início, Zuckerberg ergueu um brinde a Murdoch, dizendo com muita graça que tinha lido uma biografia do veterano empresário e falando da admiração que sentia pelas realizações de Murdoch. Em seguida, descreveu uma partida de tênis que certa vez disputou com o empresário. Num primeiro momento, tinha achado que seria fácil superar um homem mais de 50 anos mais velho que ele. Mas logo percebeu que Murdoch tinha entrado na quadra para ganhar, contou Zuckerberg.
XIII
Em 4 de janeiro de 2018, Zuckerberg anunciou um novo desafio pessoal para o ano que começava. Em cada um dos nove anos anteriores, tinha-se comprometido com algum tipo de mudança pessoal. O primeiro foi quase uma piada – usar gravata – e os outros estavam ligados a uma vaidade quase juvenil. Decidiu aprender mandarim, ler 25 livros, correr num ano 365 milhas (o equivalente a 587 quilômetros). Dessa vez, porém, assumia um tom mais sério. “O mundo vem passando por muita ansiedade e conflito, e o Facebook tem muito a fazer – seja para proteger a nossa comunidade de abusos e do ódio, para defendê-la da interferência de outras nações ou para assegurar que o tempo que cada um passa no Facebook é um tempo bem empregado”, declarou. As palavras não eram originais – mais uma vez, tinham sido tomadas de empréstimo de Tristan Harris –, mas eram, na opinião de muita gente próxima a Zuckerberg, totalmente sinceras.
Mais adiante, ficou claro que aquela promessa de ano-novo foi um gesto coreográfico cuidadosamente ensaiado, dando início a uma série de anúncios, a começar por uma declaração, na semana seguinte, de que o algoritmo do Feed de Notícias seria reformado de maneira a privilegiar as “interações mais significativas”. As postagens e vídeos que mais atraem a atenção dos usuários – mas não suas curtidas, nem comentários – passariam a ter menos prioridade. A ideia, explicou Adam Mosseri, é que, na internet, “a interação com outras pessoas tem uma correlação positiva com vários indicadores de bem-estar, enquanto o consumo passivo de conteúdo nos traz menos satisfação”.
Para muita gente na empresa, esses anúncios assinalavam uma diferença muito importante. O Facebook decidia engatar marcha à ré num carro que vinha correndo a toda na mesma direção havia catorze anos. Desde o início, a ambição de Zuckerberg tinha sido criar outra internet, ou talvez outro mundo, dentro do Facebook, e induzir as pes-soas a usá-lo ao máximo. O modelo do negócio se baseava na publicidade, e a publicidade tem um apetite infinito pelo tempo das pessoas. Mas agora Zuckerberg dizia que essas novas mudanças no Feed de Notícias levariam as pessoas a passar menos tempo usando o Facebook. O anúncio foi criticado por muita gente na imprensa. Nos dias seguintes, Mosseri explicou que o Facebook pretendia reduzir a importância das postagens compartilhadas por empresas, celebridades e órgãos de imprensa, dando prioridade ao material compartilhado por amigos e pela família. Os críticos reclamaram, dizendo que essas mudanças não passavam de um modo de, em última instância, tratar mal a indústria da notícia. “O Facebook acaba de dizer à mídia, basicamente, que ela se dane”, escreveu o jornalista e escritor Franklin Foer na revista The Atlantic. “O Facebook pretende voltar ao seu projeto básico original, de nos deixar humilhados por tirarmos férias inferiores e termos filhos relativamente medíocres, provocando-nos a compartilhar cada vez mais elementos das nossas vidas particulares.”
Dentro do Facebook, porém, os executivos insistem em afirmar que esse não é, nem de longe, o caso. Segundo Anker, que se aposentou em dezembro de 2017, mas colaborou na criação dessas mudanças e cultiva um grande carinho pela direção da empresa, “seria um erro ver esse movimento como um recuo em relação à indústria da notícia. O recuo é em relação à ideia de que vale tudo, caso funcione com o nosso algoritmo e aumente o envolvimento do público”. De acordo com outras pessoas que ainda trabalham na empresa, a ideia de Zuckerberg não era se afastar propriamente do jornalismo. Ele só estava realmente preocupado em reduzir o lixo que circula na plataforma: menos notícias sem substância; menos vídeos que os usuários assistam sem pensar.
E então, uma semana depois de falar ao mundo sobre as “interações mais significativas”, Zuckerberg anunciou uma nova mudança que, para todos os efeitos, respondia a essa intenção. Pela primeira vez em toda a história da empresa, disse ele numa nota postada em sua página pessoal, o Facebook começaria a dar mais relevo a certos órgãos de imprensa – aqueles cujo conteúdo é mais “fidedigno, informativo e local”. Ao longo de 2017, o Facebook desenvolveu algoritmos para prejudicar os editores que publicam conteúdo falso; agora, decidia tentar dar destaque ao que é bom. Para começar, explicou ele, a empresa se basearia em pesquisas junto aos leitores para determinar quais são as fontes confiáveis. Esse sistema, vários críticos se apressaram em dizer, podia ser facilmente manipulado, e muita gente diria que confiava em certas fontes só porque era capaz de reconhecê-las. Mas o anúncio de Zuckerberg, pelo menos, foi um pouco mais bem recebido nas redações e nas reuniões de diretoria. Assim que seu texto foi postado, o preço das ações do New York Times disparou – bem como das ações da News Corp.
Zuckerberg deu a entender – e muita gente de dentro da empresa confirmou – que podemos esperar outros anúncios da mesma ordem no correr deste ano. O Facebook vem fazendo experiências no sentido de dar mais controle aos órgãos de imprensa sobre os seus paywalls e permitiu que as publicações exibam seus logotipos com maior destaque para restabelecer as mesmas identidades de marca que o Facebook desconsiderava anos atrás. Uma sugestão externa um tanto hostil veio de um antigo antagonista do Facebook. No fim de janeiro, Murdoch declarou que, se realmente dava valor aos órgãos de imprensa “mais fidedignos”, o Facebook devia lhes pagar uma assinatura pelo uso do seu material.
O destino que realmente importa para o Facebook, entretanto, é o seu próprio. O sucesso da plataforma se deve ao efeito de manada: as pessoas entraram para o Facebook porque todo mundo estava entrando. Mas o efeito de manada também pode ser poderoso quando induz as pessoas a abandonar uma plataforma. E disso Zuckerberg tem um entendimento visceral. Afinal, ajudou a criar esse tipo de problema para o My-Space na década passada e é acusado de vir fazendo o mesmo com o Snapchat nos dias de hoje. Em boa parte, Zuckerberg só conseguiu evitar esse destino porque demonstrou um tino brilhante para cooptar as maiores ameaças ao seu domínio. Quando as redes sociais começaram a ser impelidas por imagens, ele comprou o Instagram. Quando as mensagens de texto decolaram, comprou o WhatsApp. Quando o Snapchat se transformou numa ameaça, copiou seu funcionamento. Hoje, com toda essa sua insistência num “tempo bem empregado”, dá a impressão de também estar tentando cooptar Tristan Harris.
Mas quem o conhece bem diz que Zuckerberg foi realmente transformado pela crise dos últimos meses. Entregou-se a uma reflexão profunda; deu-se conta do que aconteceu; e está de fato empenhado em fazer sua empresa corrigir os problemas em que se envolveu. E segue preocupado. “O último ano modificou profundamente seu otimismo tecnológico pessoal”, afirma um executivo da empresa. “E o deixou muito mais paranoico em relação às diferentes maneiras como essa coisa que ele criou pode ser usada para o mal.”
O último ano também alterou a maneira básica como o Facebook vê a si mesmo, se um meio de comunicação ou uma plataforma. A empresa sempre respondeu a essa pergunta repetindo, em tom de desafio, “plataforma, plataforma, plataforma” – tanto por motivos ligados à regulação e às finanças quanto ainda, talvez, por razões emocionais. Mas agora, aos poucos, o Facebook vem evoluindo. Claro que é uma plataforma, e sempre há de ser. Mas também se deu conta de que tem algumas das mesmas responsabilidades que os editores dos órgãos de imprensa: em atenção aos seus leitores e em atenção à verdade. Não é possível tornar o mundo mais aberto e conectado e, ao mesmo tempo, aprofundar suas divisões. E então: órgão de imprensa ou plataforma? O Facebook parece ter enfim reconhecido que é, claramente, as duas coisas.
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[1] Slogan que virou nome de um movimento iniciado em 2013, em resposta a casos de racismo e de assassinatos de negros por policiais brancos.
[2] Político americano que fez parte da Ku Klux Klan e é fervoroso defensor de ideias racistas e antissemitas.
[3] Programa de troca de mensagens de texto, também conhecido como Google Talk, desativado em junho de 2017.
[4] Âncora da Fox News, atualmente trabalha na NBC News.
[5] Crooked Hillary, a maneira como Donald Trump até hoje se refere a sua adversária no pleito presidencial.
[6] Durante a campanha presidencial nos Estados Unidos, notícias falsas foram divulgadas apontando a pizzaria Comet Ping Pong, em Washington, como local que servia de fachada para uma rede de prostituição infantil liderada por Hillary Clinton e seu coordenador de campanha, John Podesta.
[7] Application Programming Interface (em português, Interface de Programação de Aplicativos) é um conjunto de padrões de programação que permite que um software se comunique com outro.
[8] Rachel Maddow é apresentadora e comentarista política, de tendência liberal, da rede de televisão MSNBC.
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