CRÉDITO: CACO GALHARDO_2024
É o Geraldo que tá no comando: macetando
Mandei apurar se, depois do caju, a Mocidade não pensa em fazer um enredo sobre o chuchu
| Edição 210, Março 2024
1º DE FEVEREIRO_Espero que a Polícia Federal nunca descubra, mas montei uma Abin Paralela com o objetivo de me inteirar sobre as pautas chocríveis que estão fazendo a cabeça dos jovens de esquerda. Batizei-a de Abin Oriental e pus a Sininho e o Pablo Capilé no comando. Preciso ter assunto com o pessoal da repartição. Não fosse assim, não saberia que a disputa semântica entre cariocas e paulistas deixou de ser entre “biscoito” e “bolacha” para virar uma guerra entre “bloco” e “bloquinho”.
Durante a posse do Ricardo Lewandowski tive um pequeno momento de pânico. Quando cumprimentei o novo ministro da Justiça, ele me olhou no fundo dos olhos e falou: “Tá sabendo do bloquinho secreto?” Fiz a egípcia e saí de fininho para tomar um ar.
2 DE FEVEREIRO_Dia de Iemanjá. Dia de festa no mar. Celebrei no Geraldo way of life: comparecendo todo serelepe à cerimônia em comemoração aos 132 anos do Porto de Santos. À noite, por sugestão de Sininho, fui até o cais, entrei na água até o umbigo e fiz uma oferenda para Rosa Luxemburgo.
A gente se esforça para ser uma pessoa evoluída, para não deixar que sentimentos possessivos nos atravessem. Tenho ouvido todos os podcasts da Marcela Ceribelli e tive iluminações poderosas sobre a tensão relacional entre mim e o president’Lula. Será que não passo de um mero homem branco cis em busca de validação externa que subitamente se sente ameaçado no seu privilégio tóxico? Pode ser. Mas o fato é que fui tomado por um ciúme possessivo quando o president’Lula fez afagos ao governador Tarcísio de Freitas. Nem todo paulista. Mas sempre um paulista.
3 DE FEVEREIRO_Liguei na GloboNews e vi o Gerson Camarotti todo pimpão porque tinham feito um boneco de Olinda com a cara dele. Mandei apurar se vão fazer um boneco de Olinda em minha homenagem. Descobri que o samba-enredo que viralizou no Rio de Janeiro tem o caju como tema. Mandei apurar se, depois do caju, a Mocidade não pensa em fazer um enredo sobre o chuchu. Não sei aonde esse ciúme vai me levar.
4 DE FEVEREIRO_Vai começar o pré-Carnaval dos Alckmin! Esquindô! Esquindô! Juntamos a família e os amigos mais próximos e criamos o bloco Anestesiologia é Quase Amor. Foi a oportunidade para colocar toda minha ousadia para fora. Fantasiei-me de bombom Caribe. Libelu, que é da fuzarca até certo ponto, escolheu a fantasia de Dona Flor Monogâmica. Minha filha intelectualizada teve que me explicar sua fantasia de Jane Austen. Mas o que eu gostei mesmo foi dos netinhos fantasiados de minions vermelhos.
5 DE FEVEREIRO_Cid Gomes chegou ao PSB. Como resposta ao patriota do caminhão, precisávamos escalar o patriota da retroescavadeira.
6 DE FEVEREIRO_Minha Abin Oriental trouxe uma informação relevantíssima. Não sabia da tradição carnavalesca em que prefeitos entregam a chave da cidade para os Reis Momos. Achei fofo. Isso alimentou um festival de troças que sussurrei no ouvido dos populares que receberam as chaves de suas moradias do Minha Casa Minha Vida. Sou do balacobaco.
Sininho sugeriu que eu rimasse Momo com Adorno, morada com Guevara e Carnaval com Das Kapital. Sei não.
7 DE FEVEREIRO_O clima de Carnaval já tomou meu corpo e meu espírito. Ando com uma vontade incomensurável de cair na folia, de me jogar em ambientes que propiciem a fruição de um Geraldo livre, festivo e com o coração sacolejante. Por isso, fiz de tudo para encaixar hoje o almoço de posse dos Conselheiros do Instituto Brasileiro de Infraestrutura.
8 DE FEVEREIRO_Recebi um bilhete do Ministério da Justiça. Do lado de fora do envelope, apenas a inscrição: “bloquinhos secretos.” Gelei. Vou ser preso. Minha reputação foi pro ralo. Como eu tremia igual vara verde, pedi pra Libelu abrir.
Qual o quê! Estava redondamente enganado. O novo ministro Ricardo Lewandowski gentilmente me passou a agenda dos bloquinhos secretos: Sábado, 9 horas: Gigantes do Lira. Domingo, 17 horas: Cordão da Toga Preta. Segunda, 13 horas: Pipoca da Gleisi. Já senti uma mudança no ar. Flávio Dino nunca me incluiria nesses convites. Geraldinho tá ON!
Fiquei tão feliz que tirei a camisa, olhei para o espelho, trinquei o abdômen e comecei a cantar: “É sensacional/O jeito que ela faz comigo/É fora do normal/Eu tô na zona de perigo.” No meio da cantoria, Mercadante abriu a porta. Foi constrangedor.
9 DE FEVEREIRO_Hoje tem reunião com o Jerome Cadier, CEO da Latam Airlines. Como estou com a corda toda, transbordando feromônios carnavalescos, ensaiei um número com meus assessores mais talentosos. Era uma coreografia para recepcionar Jerome em alto astral. E não é que o homem deu uma gargalhada quando nos viu fantasiados de pilotos cantando o clássico do Tchakabum: “Vou te pegar/Essa é a galera do avião”? Ele ficou tão feliz que nos deu um presente. Ganhamos duas passagens para passar o Carnaval em Curitiba.
10 DE FEVEREIRO_Meu pessoal da Abin Oriental trouxe informações sobre os blocos secretos. Gigantes do Lira é o mais próspero. Parece que vai ter até carro alegórico, comida liberada, além de chopp artesanal, emendas parlamentares e farta distribuição de brindes para prefeituras de Alagoas. Achei melhor segurar meu ímpeto socializante e, dessa vez, considerei que a melhor opção seria ficar de fora.
Mas preparei uma fantasia genial para a Pipoca da Gleisi. Uma fantasia marxista que unirá o ímpeto comunista com o sabor jocoso do Carnaval. Irei de Groucho Marx.
12 DE FEVEREIRO_Não consegui me desvencilhar de um instinto primitivo ao ver a deslumbrante Paolla Oliveira virando onça na Sapucaí. Lutei, lutei, mas o perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro não me saía da cabeça.
13 DE FEVEREIRO_Lula viajou pro Egito em pleno Carnaval. Pensei em entrar em rede nacional de rádio e televisão com o seguinte pronunciamento: Aah, bebê! É o Geraldo que tá no comando: macetando, macetando, macetando, macetando.
Não rolou a Pipoca da Gleisi. Faltou organização. Além disso, houve dissidência e metade do bloco brigou com a outra metade. Esse pessoal da direção do PT tem energia de saci-pererê. Tudo em que eles se metem vira bagunça.
14 DE FEVEREIRO_Quarta-feira de Cinzas e eu lendo o excelente artigo do Altair Freitas: “O capital exerce uma duríssima, brutal e altamente espoliadora ditadura sobre a força de trabalho, impondo lógicas desumanizadoras.” Como se não bastasse, ele ainda tem a coragem de colocar o seguinte título no texto: “O fim da luta de classes.” Pois é. Lembrei de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes: “Acabou nosso Carnaval/Ninguém ouve cantar canções/Ninguém passa mais/Brincando feliz/E nos corações/Saudades e cinzas/Foi o que restou.” É de sacudir os buticacos do faraó: logo quando eu entro na luta, ela acaba.
15 DE FEVEREIRO_Na condição de presidente dessa bagaça, recebi Eva Bisgaard Pedersen, embaixadora da Dinamarca no Brasil, aos gritos de “Minha pequena Eva! Eeeeeva! O nosso amor na última astronave! Eeeeeva”. Ela adorou e quis saber onde eu comprei minha peruca de Veveta.
16 DE FEVEREIRO_Pessoal da Abin Oriental veio me dizer que a Anitta parou o bloco dela no Rio de Janeiro quando viu um assalto. Parou de cantar, ficou apontando para o ladrão, alertando a polícia. E ainda falou: “Quando acontecer algum roubo aqui, abram uma roda que a gente acompanha.” Pelo poder em mim investido como presidente da República, nomeei Anitta Interventora Federal em Mossoró. Com ela na linha de frente, a gente encontra os fugitivos em cinco minutos.
18 DE FEVEREIRO_Domingão de ressaca por causa dessas coletivas impensadas do president’Lula. Há um esgotamento relacional evidente entre nós dois. Não sei como vai ser essa eleição municipal. Liguei a tevê e… PUMBA! Novorizontino fez o segundo gol em cima do meu Santos. Sussurrei para Libelu: “Acho que a Baby do Brasil tem razão sobre o Apocalipse.”
Por Renato Terra
Leia Mais
