Luquinhas na comunidade Santo Amaro, no Rio: suas conquistas nascem do mais brasileiro dos empreendimentos do século XX, a instalação de uma família do Nordeste numa favela do Sudeste CRÉDITO: DAMIAN PLATT_2022
Em busca da melhoria
Um dia na vida de Luquinhas XV, skatista campeão e agitador cultural
Damian Platt | Edição 191, Agosto 2022
Tradução de Rogério Galindo
Estou em Santo Amaro, uma favela no coração do Rio de Janeiro, sobre uma laje de onde se avista um morro coberto pela mata tropical. Mais adiante ficam as deterioradas mansões do bairro de Santa Teresa. Do outro lado, a uma pequena distância, o Palácio do Catete, que já foi sede do governo federal. Pela manhã, o Sol está fervendo, mas a sombra e a brisa oferecem algum alívio do calor. Lá embaixo, o som das ruas se mescla com a acústica da favela: os rádios, as motosserras, as conversas aos gritos e o ruído das motocicletas.
Um antigo telefone público foi instalado num canto da laje pintada de vermelho e verde. Acima do teclado do aparelho, um adesivo com caligrafia de grafite diz: “Ademafia.” Um jovem de corpo atlético com uma densa cabeleira negra, bigode e barba rala, está ao lado do telefone. A impressão é de que ele espera uma ligação. De bermuda e chinelo, ele é naturalmente elegante, trazendo no corpo múltiplas tatuagens. Uma corrente de prata, brincos de argola e uma pulseira indígena de sementes completam o visual, estiloso sem ser chamativo. Debaixo das sobrancelhas grossas, seus olhos castanhos e vívidos transmitem humor, inteligência e charme.
“A gente chama essa laje de Laje Vegas”, diz o rapaz de 30 anos, com um sorriso. E começa a explicar que naquela noite vai inaugurar junto com o irmão um restaurante de sushi bem ali onde estamos.
“Inaugurar o quê?”, eu pergunto, para garantir que não ouvi errado.
Ademar Lucas – Luquinhas XV para os amigos – sorri. O apelido faz referência à Praça XV, a região onde ele nasceu no Centro do Rio e que é seu lugar favorito para andar de skate.
“É isso aí, um restaurante de sushi. Quando a dona Socorro ficou sabendo, não acreditou. Ela falou: ‘E, depois, você vai fazer o quê?’ Eu disse: ‘Não esquenta, mãe, vai dar tudo certo.’”
Luquinhas gosta de fazer coisas difíceis. “Depois que meu pai morreu, no ano passado, a família se aproximou até bem mais do que antes. Uma coisa que a gente queria fazer era achar um projeto novo pro Cachorrão, meu irmão mais velho. O Cachorrão trabalhou de motoboy por 25 anos. A gente queria que ele fizesse alguma coisa menos perigosa. Por isso vamos abrir esse restaurante de sushi juntos.”
Seu pai, Ademir, trabalhava como açougueiro. Era um sujeito simpático, robusto, do tamanho de um armário. Em agosto de 2021, morreu de complicações da Covid. Tinha apenas 65 anos, e a morte prematura foi um choque para a família. Logo depois, a avó materna, dona Francisca, também morreu de Covid.
Luquinhas desafia rótulos: é skatista, expert em tecnologia, produtor cultural, empreendedor social e ativista da favela. Em suas contas nas mídias sociais, com mais de 134 mil seguidores, ele se descreve como um “mau influencer”. Mas Luquinhas é um exímio construtor de redes e equipes. Lidera um coletivo de skatistas, grafiteiros e músicos que ele chama Ademafia – o mesmo nome de sua empresa de produção de vídeos, material esportivo e vestuário. “É complicado explicar o que eu faço”, diz. “Então, quando alguém pergunta, eu falo que estou à procura de melhorias. E é por isso que a gente vai chamar o restaurante novo de Melhoria Sushi.”
As origens da Ademafia remontam aos anos 1970, quando os pais de Luquinhas chegaram ao Rio de Janeiro, vindos do Ceará, e se estabeleceram na favela de Santo Amaro, erguida no entorno de uma rocha que separa os bairros do Catete e da Glória. Durante a década de 1980, da mesma forma que outras comunidades, Santo Amaro se tornou território da facção criminosa Comando Vermelho, e segue assim até hoje. Contra o pano de fundo da crescente “guerra às drogas” no Rio, Socorro e Ademir construíram uma casa e criaram os seis filhos. O nascimento do mais novo, Luquinhas, em 1991, não foi planejado. “Eu sou a faixa bônus do LP da família”, ele brinca.
Socorro, que até pouco tempo atrás trabalhava na lavanderia de um grande hotel, conta que Luquinhas era “muito, muito levado, mas sempre foi uma ótima pessoa”. A vida do menino girava em torno da favela: pipa, escola, futebol e festa. De vez em quando, a família ia à praia. Mas o Rio de Janeiro “oficial”, para além de Santo Amaro, fazia parte de outro universo. Como o Palácio do Catete, em frente do qual Luquinhas se deparou um dia com crianças e adolescentes andando de skate.
A visão dos skatistas pulando, deslizando e “flipando” cativou o menino. Ele sabia que precisava fazer parte daquilo. Quando seu pai lhe deu o primeiro skate, tudo mudou. Luquinhas ganhou a chance de pertencer àquele espaço, que até então era apenas um lugar de passagem. Ele deixou de ser um pivete de Santo Amaro: o Catete também era seu lugar. Uma simples prancha de madeira com rodas, um brinquedo, tornou-se a ponte sobre o abismo social entre a favela e o asfalto.
Com o skate debaixo dos pés, a vida passou a correr em alta velocidade. Luquinhas aprendeu rápido, desenvolvendo habilidades na pista do Aterro do Flamengo. Um dia, chamou a atenção do dono de uma loja de skate, Eduardo Duca Cavalcanti, um ex-surfista que havia recebido um patrocínio na adolescência. Ele achou que, com algum apoio, o menino poderia ir longe, e foi conversar com os pais dele. Ofereceu equipamento e dinheiro para Luquinhas viajar para os campeonatos, mas impôs duas condições: o garoto tinha que continuar na escola e não podia usar drogas. Ademir e Socorro concordaram com tudo.
Na primeira competição, em Juiz de Fora, Luquinhas teve um começo vacilante e errou quase todas as manobras. Nos últimos segundos, porém, completou a passagem final com um pulo radical de uma plataforma muito alta, de 2,40 metros. Fascinados com a coragem do pequeno skatista, os espectadores invadiram a área de competição para erguê-lo nos ombros. Segundo Duca, naquele momento Luquinhas entendeu seu potencial – e não parou de acumular prêmios nas competições, quase sempre de primeiro lugar, em várias cidades do Brasil. Nas viagens, Ademir ou Socorro ia junto, às vezes os dois. O skate transportou Luquinhas para fora da favela e do Rio – e também sua família.
Na adolescência, seu plano era ser skatista profissional. Queria ganhar dinheiro para comprar uma casa no Rio, fora da favela de Santo Amaro, para os pais. O sonho quase se concretizou em 2012, quando ele conseguiu o patrocínio de um fabricante de tênis. Mas com isso veio a exigência de fazer fotos e vídeos de manobras originais e difíceis, que exigem o máximo dos skatistas, para serem exibidas na internet. Em uma dessas sessões de fotos, Luquinhas lesionou o joelho. A lesão gerou uma tendinite. E a tendinite tirou o jovem de 21 anos do circuito profissional do skate.
É raro Luquinhas permanecer quieto num lugar por muito tempo. Numa entrevista recente para o Noir, podcast sobre assuntos pop, o apresentador Felipe Flip contou sobre uma viagem que fez de São Paulo ao Rio para se encontrar com o ex-skatista. Flip visitou Santo Amaro, passeou com Socorro e Ademir, e foi a um evento da Ademafia no bairro da Lapa. Mas só conseguiu ver Luquinhas lá pelas cinco da manhã. Seu “anfitrião” apareceu rapidamente para explicar onde Flip iria dormir e entregar as chaves do local. Depois, sumiu de novo. “Eu podia ter feito um rebuliço por ter marcado a visita e ele ter me dado o cano. Mas sei como é a vida dele”, diz Flip. “Mesmo assim, a visita foi ótima. Melhor que ser fã do cara, é ser fã do corre.” A gíria “corre” (abreviação de “correria”) designa o esforço de alguém para realizar uma tarefa ou um projeto.
Um rapaz de cabelo roxo chega à Laje Vegas. Há pouco tempo, Luquinhas comprou um pequeno espaço na casa sob a laje para abrir ali uma galeria e um ateliê de arte. A iniciativa foi inspirada em duas exposições que ele viu em 2021: OsGemeos: Segredos, na Pinacoteca de São Paulo, sobre os irmãos grafiteiros, e Pardo é Papel , com trabalhos do artista plástico Maxwell Alexandre – carioca que vive na favela da Rocinha –, no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista.
O dono do cabelo roxo é Gean Santos Lopes, cria de Santo Amaro que vai ajudar na galeria. Ele tem 22 anos, estuda design de produtos na PUC-Rio e coordena uma rede local de jovens artistas e de produtores culturais chamada On Santo Amaro. Também trabalha com “criptoarte social”, fazendo NFTS (tokens não fungíveis, na sigla em inglês) para gerar criptomoeda, que ele reinveste em atividades sociais. “O que a gente está tentando fazer é explorar a potência da periferia. Antes as pessoas não cooperavam”, afirma Gean. “Agora estamos tentando criar redes de apoio, compartilhando informação, projetos e plataformas. Temos consciência de que existe um antes, um agora e um depois. Milhões de mudanças podem vir de uma só.”
Luquinhas concorda. “A galeria vai continuar esse processo. O Gean vai ser o curador. A gente vai convidar artistas de fora para trabalhar com artistas locais. Gosto de procurar caminhos alternativos.” E acrescenta: “Se eu vejo uma rua que nunca peguei antes é sempre por ela que eu vou.”
Ele decide visitar Matheus Marques, conhecido como Abu, outro artista que vive ali. Gean e eu o seguimos pela rua principal da favela. Um caminhão descarrega engradados de cerveja perto de um Sacolão Volante, veículo que funciona como mercadinho de frutas e legumes. Mototáxis deixam passageiros. Depois de uma padaria bem abastecida, a rua acaba, e chegamos a uma praça que é o habitual ponto de encontro das pessoas da comunidade. Luquinhas sobe por outra rua, em direção ao bairro de Santa Teresa. No caminho, aponta para um mural que retrata um coração com veias e artérias que se fundem a um skate. A pintura decora a parede lateral da escola de artes marciais Morro dos Campeões. Foi lá que Dudu Dantas, o campeão de MMA, começou seu treinamento.
Descemos mais uma vez, seguindo por uma rua curva em direção ao Catete. À nossa esquerda, uma colcha de retalhos de lajes, blocos de apartamentos, casas e árvores, pouco abaixo do profundo céu azul. Mais além, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar dominam a vista. No topo de uma rocha nua ao longe, flutua a favela Tavares Bastos, outra peça deste imenso quebra-cabeça que é o Rio de Janeiro.
A rua se transforma em uma via estreita de pedra portuguesa. Seguimos para o prédio onde mora Abu, que tem 25 anos, começou a pintar por causa do interesse em pichação e nos últimos anos viu a sua carreira decolar. Foi graças ao skate que ele e Luquinhas travaram amizade. Quando membros da Ademafia viajaram a Barcelona para comemorar o aniversário de cinco anos do coletivo, em 2019, Abu foi junto. Em 2021, o artista montou um estande, o RatRio, próximo de onde se realizava a ArtRio, a feira de negócios de arte, na Marina da Glória. A iniciativa chamou a atenção de uma curadora de Brasília, que não só comprou duas telas de Abu como o convidou para uma residência artística na capital federal.
A janela da quitinete clara e arejada de Abu dá para o lado Sul de Santo Amaro, com sua confusão de casas de tijolos aparentes. Numa parede do apartamento estão encostadas várias telas que falam sobre a negritude e sobre o Rio, pintadas em cores vibrantes (roxo, laranja e rosa). Nas prateleiras, há dezenas de livros, entre eles do poeta caribenho Aimé Césaire e do sociólogo paulista Reginaldo Prandi. Enquanto Abu e Gean falam sobre processos criativos, Luquinhas escuta. Depois, ele diz: “O que eu mais gosto de fazer é conectar as pessoas e fazer com que elas conversem.” Gean e Abu integram o pequeno exército de skatistas e criadores que recebem seu apoio e incentivo.
Luquinhas pega um livro na prateleira, O Planeta dos Macacos, escrito pelo francês Pierre Boulle em 1963 e que serviu de base para o filme homônimo. O enigmático Boulle era engenheiro e trabalhou como espião para os britânicos durante a Segunda Guerra Mundial. Escreveu mais de trinta romances e gostava de colocar seus heróis em situações difíceis. “Esse é meu livro favorito. Emprestei ao Abu”, conta Luquinhas, que é fascinado por certos primatas.
Há muito tempo ele gosta de fazer zoeira recorrendo a imagens de macacos. Para promover a festa que organiza – o Baile do Ademar –, inventou um personagem chamado Homem Macaco, e várias vezes usa uma máscara do bicho no palco. “Começou com um menino na escola que ficava me chamando de ‘cacoma’ porque eu estava sempre aprontando.” “Cacoma” quer dizer “macaco” em uma gíria das ruas do Rio, o TTK (abreviatura invertida de Catete, ou KTT), criada nos anos 1980. O TTK consiste na inversão das sílabas das palavras – no que é muito parecido com uma gíria dos jovens parisienses, o verlan (inversão sonora das sílabas da palavra l’envers, o inverso). No Rio, os pichadores usam a gíria para descrever o que fazem: “xarpi”. Luquinhas gosta tanto do TTK que tem essas letras tatuadas em uma das pernas – na outra, mandou desenhar o Palácio do Catete. A reverência que tem pelos primatas também foi lembrada em seu corpo: no antebraço esquerdo ele mandou gravar a cara de um chimpanzé.
Luquinhas faz bem em admirar os símios, nossos primos frequentemente desprezados. Acrobatas fenomenais, eles são fortes, ágeis e graciosos. Para desenvolver essa destreza e confiança, fazem um grande esforço. Jovens primatas muitas vezes quebram ossos durante as suas estripulias na fase de crescimento e precisam brincar muito para aprimorar as habilidades. Boa forma física, vida social e cooperação constituem a fonte de seu sucesso.
Tudo mudou para Luquinhas depois que ele subiu num skate pela primeira vez. Quando lesionou o joelho, tudo mudou novamente. A contusão indesejada e a consequente tendinite o levaram para novas direções. A necessidade de se recuperar o libertou da pressão asfixiante dos patrocinadores e das competições. Com mais tempo à disposição, ele se juntou a Francisco Zaremba, o Cochi (Chico, na gíria TTK) – um amigo de infância do Catete que sabe editar e fazer vídeos. A dupla começou a registrar suas brincadeiras diárias, e foi então que o grupo de amigos ganhou o nome Ademafia. “A gente estava conversando na Praça XV, quando um menino disse: ‘Você e os teus amigos parecem uma máfia. É isso!’ E o nome pegou”, conta Luquinhas. Às vezes, os integrantes do coletivo são chamados de “adelangos”, em referência aos bonequinhos Lango-Lango, dos anos 1980.
Em 2014, os dois começaram a transmitir pela internet um programa semanal, o Adelife. Eram tempos tensos e imprevisíveis no Rio de Janeiro. Havia muito nervosismo nas ruas, depois de uma série de protestos políticos gigantescos. A eleição presidencial se aproximava. A Copa do Mundo também estava próxima. A Força Nacional de Segurança Pública ocupou várias favelas no Rio, inclusive Santo Amaro. No Aterro do Flamengo, passantes espancaram um suposto ladrão de bicicleta e depois o acorrentaram a um poste. Incomodados com todo esse contexto, Luquinhas e Cochi tomaram a decisão de fazer no Adelife uma narrativa brincalhona e leve sobre a vida na cidade.
O Adelife permitiu que eles mostrassem uma visão alternativa, não competitiva, do skate como ferramenta para o desenvolvimento pessoal, a mobilidade e a liberdade criativa. Apresentador e protagonista do programa, Luquinhas se tornou um flâneur do século XXI, um João do Rio sobre rodas. Mas havia uma gama enorme e variada de personagens, como sua avó, dona Francisca, Bob Burnquist, o premiado skatista carioca, e Boquetof, um sorveteiro do Catete. Eram pessoas do mundo do skate, amigos, parentes e outras personalidades que participam do teatro favorito de Luquinhas: as ruas.
Um dia, ele pegou o trem para Austin, bairro de Nova Iguaçu, a fim de apresentar Dree Beatmaker, na época um aspirante a DJ e produtor musical (que hoje abre os shows de Gabriel O Pensador). Outro dia, voou para Berlim, na Alemanha, com o sobrinho Bila. Também visitou o skatista profissional Felipe Gustavo em Los Angeles e registrou em Belo Horizonte uma das primeiras apresentações de um músico até então desconhecido, Djonga, agora um astro do rap. As gravações do Adelife acontecem sobretudo no Rio e em São Paulo, bancadas pelos próprios realizadores. Quando Luquinhas viaja a convite para outras capitais brasileiras ou para o exterior, ele aproveita e faz um novo episódio do programa.
O Adelife é também um retrato de família. No Dia das Mães de 2017, Luquinhas levou sua mãe, Socorro, e a avó Francisca para um passeio de helicóptero. Em 2019, transmitiu um especial em três episódios sobre uma viagem da família ao Ceará, o estado natal de seus pais. O nome da minissérie? Raízes da Ademafia. O Adelife conta atualmente com mais de trezentos episódios, formando uma enciclopédia online diversa e inventiva da cultura de rua contemporânea, do skate à música e às artes visuais.
Em paralelo, Luquinhas organizava o Baile do Ademar, promovendo DJs, músicos e amigos do coletivo Ademafia em boates e espaços ao ar livre, inclusive na Praça XV. Chegou a realizar uma turnê pelo Brasil, fazendo do baile uma plataforma importante para rappers emergentes da cena da Lapa. “O Baile do Ademar começou no meu aniversário de 18 anos. Tentei levar amigos da favela, meu grupo da escola e meus parceiros do skate, todos juntos, para comemorar em Santo Amaro. Mas saiu do controle. Deu tudo errado. Me proibiram de fazer festa no morro. Um dia alguém veio e me perguntou: ‘E aí? Quando vai ser o próximo baile do Ademar?’ Daí eu peguei o nome e fiz as festas em outros lugares.” Embora fossem um sucesso, Luquinhas ganhava pouco dinheiro com elas. Só recentemente, depois de um acordo de patrocínio com a marca de tênis Converse, ele conseguiu certa estabilidade financeira. Mas boa parte do dinheiro que recebe vai para a Ademafia.
Luquinhas acha que sua paixão por festas e música vem de uma experiência decisiva. Em 2007, Marcelo D2 o convidou para participar da série Aparelhagem, da MTV Brasil, filmada no Sudeste e no Sul do país. O rapper queria juntar música, grafite e skate na série, e seu filho Stephan, que morava na Rua Pedro Américo, na parte baixa de Santo Amaro, recomendou Luquinhas. “A gente foi do Rio pra Floripa pra dezessete dias de música, arte e skate. Essa viagem mudou minha vida”, diz Luquinhas. “Eu já escutava rap, mas voltei pro Rio com 80 GB de música nova no meu iPod. Tinha 16 anos e estava me apresentando com esse cara pra 50 mil pessoas. A viagem acelerou tudo pra mim e descobri que a música é universal. Você não precisa gostar de skate pra curtir.”
A viagem com Marcelo D2 estabeleceu novos parâmetros para Luquinhas, influenciando seus planos futuros. “Assim como a Ademafia já nasceu com o intuito de colaborar, a Adelife surgiu pra ser uma janela do nosso corre, de quem está perto, da galera que está querendo fazer. O primeiro Adelife sou eu saindo do Catete, indo em direção à Zona Norte, para apresentar a skate shop de um amigo. E já tinha o corre do Baile do Ademar, onde a galera que participava e se apresentava era de favela. Quando fazia eventos na Praça XV, eu sempre procurava promover arte e cultura também, com artistas e pessoas que mereciam o espaço.” Pergunto se o que ele gosta, no fundo, é de ajudar os outros. Ele diz que sim com a cabeça, e comenta: “Enfim, todo mundo que parou do meu lado eu botei pra frente. Nunca atrasei ninguém. Gasto minha energia botando os outros para frente. Puxar pra trás? Jamais.”
Depois de deixarmos a casa de Abu, seguimos a pé pela Rua Pedro Américo, antes de chegar a uma escadaria íngreme na encosta que leva a Santo Amaro. Estar em forma é pré-requisito para viver no morro. Passamos pela casa onde Luquinhas cresceu e morou até 2020, ano em que se mudou com os pais para um apartamento alugado no bairro de Fátima, no Centro do Rio. Hoje, as irmãs dele moram na casa. Luquinhas não tem endereço fixo. Ele pode ficar uma noite na casa de sua mãe, outra na de um amigo e depois em Santo Amaro. E agora, com a pandemia chegando ao fim, voltou a viajar.
Paramos para almoçar no topo da favela, ao lado de uma padaria. Vem sentar em nossa mesa um fotógrafo grisalho de óculos, vestindo uma camiseta em estilo tiedye da Thrasher, revista norte-americana criada nos anos 1980 que é a bíblia do skate. Alex Carvalho, conhecido como Besouro, encontrou Luquinhas pela primeira vez nos anos 2000, na Praça XV, e é um colaborador antigo da Ademafia. Recentemente comemorou 50 anos e foi homenageado no episódio nº 285 da Adelife, que se chamou Um Galo do Besouro. Hoje, Carvalho veio a Santo Amaro para discutir planos para uma nova camiseta da Ademafia.
Depois de uma refeição revigorante, subimos para a parte principal da favela, até o estúdio de produção de Gean. Tinta branca cobre as paredes da sala sem janelas. Um monitor de computador, disposto na vertical, como um porta-retratos, exibe uma imagem digital impressionante: um jovem traficante de balaclava com um fuzil AK-47, sobre um pedestal rosa fluorescente. Enquanto a plataforma gira, flores emergem do corpo do rapaz, tornando a imagem melancólica e terna. Mas, quando a plataforma acaba de fazer a volta, as flores somem, e o combatente ameaçador encara o espectador novamente. Esse retrato espantoso é o primeiro NFT que vi bem exposto.
É um trabalho feito por Gean. Ele vende cada NFT por até 800 reais em criptomoeda. Também faz trocas com outros artistas brasileiros. Na sua coleção pessoal, constam mais de 80 NFTs. Mas comprar e vender no metaverso pode ter consequências imprevistas. Recentemente, ladrões digitais surrupiaram dele 10 mil reais em criptomoeda.
Luquinhas segura a nova camiseta que está produzindo. “Essa imagem retrata Santo Amaro. Não o lugar, mas uma fantasia sobre o santo de verdade, chamado Amaro. Eu quero contar uma história que vai muito além de vender uma peça de roupa.” A imagem estampada em preto na camiseta branca de algodão mostra um gorila exibindo os dentes, como se grunhisse. O primata veste uma batina e, com uma das mãos, segura um skate junto ao peito. Com a outra, ergue um objeto, como se fosse um crucifixo, mas é o logo da Ademafia. O preto e branco da imagem é quebrado por uma única cor: o tom laranja do Sol abrasador atrás da cabeça do gorila, igual a uma auréola.
Gean e Alex Carvalho trocam ideias sobre como promover o novo conceito. Luquinhas tem que voltar para a Laje Vegas a fim de supervisionar os preparativos da abertura oficial do restaurante de sushi. Eu preciso cortar o cabelo. Combinamos de nos encontrar em uma quadra na extremidade Sul da favela, lá onde o recém-fundado Instituto Ademafia está dando aulas grátis de skate para a molecada.
Caminho pela via principal da comunidade. É um beco longo e tortuoso, de cerca de 1 km de extensão, que corta a crista do morro de Norte a Sul, em paralelo com a Rua Santo Amaro – que fica do lado do bairro da Glória e dá nome à comunidade. Como alguns trechos do beco só têm meio metro de largura, às vezes preciso parar para dar passagem a outras pessoas.
Passo por um bar chamado Whiscria e chego à Barbearia dos Cria. Tanto um estabelecimento quanto o outro são decorados com personagens de cores vivas, o que indica que pertencem ao coletivo On Santo Amaro, de Gean. A palavra “cria” assinala que ambos são administrados por pessoas da comunidade, que estão ali para atender seus vizinhos.
O barbeiro, com tranças sofisticadas, faz questão de oferecer diversos cortes e tinturas, incluindo uma roxa, como a de Gean. Mas eu só preciso de um corte básico, e dispenso a oferta. Ele termina o serviço rapidamente. Com meu corte novo, faço o caminho de volta. Chegar à quadra é fácil: basta continuar pelo beco principal e virar à esquerda. Mas eu erro a saída e acabo no coração da comunidade. Desorientado, tenho que voltar. Uma moradora presume que estou procurando a saída e começa a me explicar o caminho até a Rua Pedro Américo. “Não, estou aqui para visitar o projeto de skate”, explico. “Ah, a Ademafia? Bacana”, ela diz.
A moradora gentilmente me acompanha até uma entrada minúscula que não percebi quando passei pela primeira vez. Um beco escarpado desce tortuoso, passando por portas abertas e um bar, antes de desaguar numa quadra poliesportiva muito bonita. Grafites brilhantes e ousados cobrem todas as paredes. Casas construídas pelos próprios moradores, sem reboco e com até quatro ou cinco andares, circundam metade da área em torno da quadra, criando uma espécie de anfiteatro. Do lado oposto, fica um bloco de apartamentos da Rua Santo Amaro cujas janelas dão para a quadra. Os universos paralelos da favela e da cidade se encontram ali – e tenho a impressão na quadra de estar navegando numa embarcação pirata que flutua em meio a um oceano de concreto.
Cheguei cedo. Luquinhas ainda não está lá. Mas as atividades seguem a pleno vapor. Desço até a quadra, onde grupos de crianças em skates passam zunindo no piso brilhante, acelerando sobre círculos vermelhos, negros e amarelos pintados no chão, transmitindo uma alegria cinética e contagiante. Elas usam camisetas coloridas com a inscrição “Tropinha do S.A.” e a imagem de um skate com traços humanos.
O Instituto Ademafia, projeto social inaugurado por Luquinhas e sua família em março de 2021, organiza toda aquela atividade. A Tropinha ocupa a quadra dois dias por semana. Carol de Jesus, uma instrutora de 30 anos, explica que setenta crianças entre 6 e 17 anos estão inscritas, divididas em três turmas (básico, intermediário e avançado). Como é hora da aula do curso básico, a turma está aprendendo a empurrar, virar, subir e descer rampas. Aprende também uma manobra chamada mata-barata, que consiste em bater o pé em um lado da prancha para erguer o outro lado e conseguir movimentá-la, em zigue-zague.
Além do curso na quadra, o Instituto Ademafia oferece passeios e aulas em pistas públicas de skate, em outras áreas do Rio, como a Praça Duó, na Barra da Tijuca, e a Praça XV, ou mesmo em outras cidades, como Teresópolis e São Paulo. Para o instituto, as viagens são a chance de realizar o seu compromisso de alargar os horizontes. Recentemente, alguns participantes visitaram em São Paulo a ONG Social Skate, a primeira iniciativa social desse esporte no Brasil, fundada por Sandro Soares, mais conhecido como Sandro Testinha, que também participou da criação do Instituto Ademafia.
Sandro começou a promover o skate como ferramenta de desenvolvimento pessoal em São Paulo na extinta Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), em 2001. Algum tempo depois, durante um campeonato no Rio, ele se entusiasmou com um menino que competia com skatistas bem mais velhos. “O pivetinho foi andando, foi andando, chegou à final com os caras grandões e ganhou. E o pivetinho era o Luquinhas!”, recorda. Mais tarde, quando o episódio nº 15 da Adelife contou a história de Anderson Stevie, um menino de São Gonçalo, no estado do Rio, que conseguiu se afastar do mundo do crime ao se dedicar à prática do skate (hoje é um profissional do esporte e mora nos Estados Unidos), Sandro percebeu que Luquinhas compartilhava de sua visão. Eles então juntaram forças.
Durante a aula de skate intermediário, chega Luquinhas. Vendo que os degraus em torno da quadra estão cheios de dejetos, entrega vassouras para que todos ali façam a limpeza. Ele também entra em ação, varrendo o local, que fica com uma aparência bem melhor. “Queremos incentivar o desenvolvimento de uma nova geração. Com consciência social e ambiental, queremos trazer transformação para a comunidade. Porque, no futuro, a gente vai cobrar de quem?”, ele pergunta. Joara, de 14 anos, me conta que faz aula de skate há um ano. “Agora tenho uma família com briga e diversão, um lugar para aprender união e conviver com as diferenças do outro”, ela diz.
A turma do avançado entra na quadra e, enquanto faz o aquecimento, Luquinhas anda de skate no meio do círculo. Num piscar de olhos, ele bate com o pé em uma das extremidades da prancha de skate e pula. A prancha sobe com ele, e Luquinhas quica nela com um dos pés, fazendo com que dê um giro completo no ar – e ele aterrissa com perfeição no piso da quadra, sobre o skate. Parece um truque de mágica. Copiando Luquinhas, algumas crianças fazem a mesma manobra, chamada kickflip, que muitos skatistas experientes acham quase impossível de ser feita.
Uma jovem se aproxima de Luquinhas. É sua irmã Raquel de Oliveira Lopes, de 40 anos. Os dois irradiam uma sensação de bem-estar. Todas as conquistas deles nascem do mais brasileiro dos empreendimentos do século XX: o estabelecimento de uma família do Nordeste numa favela do Sudeste. Foi a partir dessa experiência que a identidade e a força de Luquinhas foram semeadas e nutridas. A estrutura familiar e a Ademafia são uma única coisa.
Junto com a irmã mais velha, Teresa Quelma de Oliveira Lopes, de 41 anos, Raquel dirige o Instituto Ademafia, cuja sede fica num quarto lotado de skates com vista para a quadra. Os recursos para a manutenção do instituto são obtidos pela Ademafia, e a ONG Social Skate também faz contribuições. A marca Converse fornece os tênis para os participantes. “Quando criamos o instituto, a minha família chegou junto e assumiu o corre”, explica Luquinhas. “Agora, dentro dessa realidade eu consigo ter uma perspectiva para buscar mais oportunidades. Venho, participo, mas não depende 100% de mim para acontecer. Esse foi o maior ganho para o instituto.” Apesar disso, ele diz que tem muito a agregar ao projeto e que vai estar sempre ali, quando for necessário. “O instituto anda, eu caminho em paralelo, e a gente anda junto.”
Enquanto Raquel e Carol assistem à aula de skate, vou com Luquinhas a uma casa minúscula, nova em folha, empoleirada numa subida perto da quadra. Ele bate palmas. Paulo César Adão, o Paulinho, de 74 anos, abre a porta e acena.
Em 2020, Luquinhas soube que o teto da casa de Paulinho estava desabando e, incentivado por Ademir, seu pai, ajudou o amigo a se mudar para uma acomodação temporária. Voluntários da rede Ademafia participaram da demolição da casa e levaram os destroços pela escada, até a rua. Depois, subiram com todo o material de construção, obtido graças a uma vaquinha online. A casa ficou pronta em semanas – confirmando para Luquinhas que seria possível realizar um antigo sonho: construir dentro da favela Santo Amaro uma pista de skate.
Seu plano era fazê-la num espaço aberto acima da quadra, a poucos metros da casa de Paulinho. Percebo que o local tem escavações recentes e pergunto se o trabalho já começou. “Infelizmente não”, diz Luquinhas. “Alguém tem outros planos pra esse lugar.” Depois de uma pausa, acrescenta: “Na favela, manda quem pode, obedece quem tem juízo.”
São nove da noite, e a Laje Vegas está transformada. Agora é um movimentado restaurante a céu aberto, bem iluminado e com música. Pratos com motivos orientais estão pendurados nas paredes. Clientes bem-vestidos sentam-se nas mesas arrumadas. Com uma roupa em estilo japonês, Cachorrão, o irmão de Luquinhas, carrega um barco em miniatura cheio de sushi. Ele o coloca na mesa de um grupo que se reuniu para celebrar a inauguração do restaurante Melhoria Sushi. Membros mais velhos da Tropinha do S.A. erguem seus copos cheios de refrigerante. Luquinhas brinda com eles e depois senta perto de Raquel.
“Pois é, ‘melhoria’ é o nome do peixe”, ele diz, sobre um dos pratos oferecidos no restaurante. E repete, aumentando a frase: “Se melhoria é o nome do peixe, correria é o nome do pescador, e compromisso é o nome do barco que navega no mar da gratidão.” E depois ri. “Não fui eu que inventei tudo isso. Eu bolei a primeira parte. Uns amigos fizeram o resto.”
Trabalho em equipe é tudo.
