A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
Em plena selva

    Brubeyk Garcia (centro) com Steven Bellino e Frank Giannuzzi: os americanos embarcavam para Nova York com 35 kg de ouro em uma mala rosa quando a carga foi apreendida pela polícia CRÉDITO: REPRODUÇÃO

boletim de ocorrência aurífera

Em plena selva

A trajetória de Brubeyk Nascimento, do biscoito de polvilho às toneladas de ouro contrabandeadas na Amazônia

Allan de Abreu | Edição 227, Agosto 2025

A+ A- A

Os biscoitos de polvilho acompanharam boa parte da vida de Brubeyk Garcia Nascimento, um goiano de 38 anos, estatura mediana e barba cerrada. Afinal, foi com a renda da Biscoito Estrella, uma pequena fábrica fundada por sua mãe no terreno da casa da família em Anápolis, que o rapaz pôde estudar em colégios particulares até se formar em engenharia. Mas foi outro produto, muito mais valioso, que fez dele um milionário quase da noite para o dia: o ouro da Amazônia. Entre 2019 e 2022, Nascimento comprou e vendeu nada menos que 4,6 toneladas de ouro, o que gerou um faturamento bruto de quase 1,5 bilhão de reais, de acordo com registros da Agência Nacional de Mineração (ANM). É o equivalente a 6,7% de toda a reserva de ouro do Banco Central do Brasil.

A maior parte desse ouro foi exportada para a Itália, de onde se espalhou pelo mundo, tomando múltiplas formas – entre elas, a de componentes eletrônicos em celulares da Apple ou de peças dos automóveis da Tesla. Para a Polícia Federal, é ouro ilícito, contrabandeado da Venezuela ou extraído de garimpos que arrasaram parte de terras indígenas do Pará e Roraima. De acordo com as investigações policiais, o ouro foi “lavado” por meio de um esquema envolvendo fraude nas autorizações de lavra em nome de cooperativas de garimpeiros no Sul paraense.

Nas contas da PF, Nascimento está entre os maiores contrabandistas de ouro da história recente do Brasil. Rivaliza com o famoso “rei do ouro”, epíteto que Dirceu Santos Frederico Sobrinho ganhou entre 2019 e 2020, período em que negociou 4,3 toneladas de ouro de origem ilegal, de acordo com o Ministério Público Federal. Os próprios parceiros de Nascimento confirmam seu gigantismo no mercado aurífero brasileiro. “Ele chegou a exportar 100 kg de ouro por semana”, diz um deles, o pastor evangélico Harley Franco Sandoval, também acusado de contrabandear ouro no Norte do país.

 

O metal deu a Nascimento a prosperidade com que sonhava. Hoje o empresário goiano exibe os previsíveis sinais exteriores de riqueza: automóveis Porsche e BMW na garagem e avião particular no hangar. E outros sinais, nem tão previsíveis. Colecionador de cachaça, pagou em leilão 67 mil reais por uma garrafa de edição exclusiva da destilaria gaúcha Weber Haus. Até meados da última década, Nascimento ajudava os pais a embalar e vender biscoito de polvilho no interior de Goiás.

Brubeyk Nascimento (cujo nome foi escolhido pelo pai, um policial militar, inspirado no filme americano Brubaker, de 1980) gosta de recitar chavões do mundo do empreendedorismo para contextualizar sua ascensão meteórica. “A oportunidade bate à sua porta, mas não gira a maçaneta” é uma de suas preferidas. A oportunidade não demorou muito a acontecer na sua vida. Recém-formado em engenharia mecânica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) no interior de São Paulo, no início dos anos 2010 ele precisou voltar a Anápolis para auxiliar a mãe com os biscoitos. Fez o que pôde.

Em sua jornada, mais que dobrou a produção: firmou parcerias com caminhoneiros para levar os biscoitos para outros estados e conheceu Tucumã, no Sul do Pará, onde abriu um centro de distribuição da Biscoito Estrella. Ali, o empresário diversificou o negócio e tornou-se dono de uma atacadista de alimentos. Percebeu que parte dos clientes pagava com dinheiro do ouro extraído em garimpos da região. Não teve dúvida: era a oportunidade batendo à porta. Bastava girar a maçaneta. Procurou o Centro de Gemologia de Goiás, em Anápolis, e o escritório da ANM em Goiânia, para saber detalhes da composição do metal e do comércio aurífero brasileiro.

 

Em conversa com a piauí, ocorrida em outubro do ano passado no saguão de um hotel em Goiânia, Nascimento rememorou esse tempo. “Eu não sabia nada de nada desse mercado, por isso fui estudar.” Durante uma das visitas aos técnicos da ANM, Nascimento soube que uma empresa italiana chamada Safimet abrira uma filial na capital de Goiás para comprar ouro. Decidiu então, em 2018, fundar a empresa BAMC Laboratório de Análises de Solos e Minérios, com sede em Anápolis, e passou a ser o principal fornecedor de ouro aos italianos no Brasil. Começava aí uma história singular de sucesso empresarial, recheada de irregularidades e crimes ambientais.

 

Maior rio de Roraima, com 870 km de extensão, o Uraricoera rasga a Terra Indígena Yanomami de Oeste a Leste. Suas águas caudalosas e encachoeiradas garantem a sobrevivência de dezenas de comunidades indígenas, mas também atiçam o interesse de garimpeiros em busca do ouro às suas margens e em seu leito. Desde a última década, o Uraricoera vem sofrendo uma brutal invasão de homens e de máquinas na busca pelo metal. Os yanomamis calculam que, atualmente, existem 5 mil garimpeiros explorando ao longo do rio. “O barulho de avião e helicóptero levando máquina e comida para os garimpos é diário”, diz Fernando Palimitheli, cacique na comunidade Palimiú, a maior do Uraricoera. Em decorrência da invasão do garimpo e da derrubada da floresta, os casos de malária explodiram entre os yanomamis que vivem às margens do rio. Em 2015, eram apenas 164. No ano passado, chegaram a 2 605, de acordo com dados do Instituto Socioambiental (ISA).

A situação se agravou dramaticamente durante o governo de Jair Bolsonaro. Com o incentivo do então presidente, milhares de garimpeiros correram para a TI Yanomami, incluindo as margens do Uraricoera. Apenas no ano de 2022, o último do mandato de Bolsonaro, a extração de ouro destruiu 459 hectares ao longo do rio, ainda de acordo com o ISA. De tanto o maquinário cavucar o solo, as águas do Uraricoera tornaram-se barrentas e sem peixes, agravando a falta de alimento para os indígenas. Além disso, homens armados passaram a atacar as comunidades – em uma das invasões, duas crianças da comunidade Palimiú morreram afogadas durante a fuga.

 

No Pará, Nascimento conheceu a figura que, segundo a investigação da PF, ajudou-o a girar a maçaneta ao introduzi-lo no próspero mundo do contrabando de ouro: o sergipano Fábio Monteiro da Silva. Quando era motorista de táxi em Lagarto, no interior do Sergipe, Silva trabalhou como olheiro de matadores de aluguel e narcotraficantes, monitorando os passos de quem seria assassinado. Chegou a ser condenado, mas cumpriu a pena de prestação de serviços comunitários em seu novo local de moradia, Tucumã. Ali, aprendeu a pilotar aviões e montou seu próprio garimpo.

Quando Nascimento o conheceu, Silva era dono de um grande ponto de garimpo no leito do Uraricoera, onde trabalhavam cerca de vinte homens, de acordo com investigação da PF. O garimpo ficava a apenas 25 km da comunidade yanomami Waikás, uma das mais castigadas pela predação da mineração ilegal. E Silva, a essa altura, já era um homem rico. A ligação entre os dois, na apuração da PF, apareceu em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que mostram transferências suspeitas de Silva para Nascimento no valor total de 1,74 milhão de reais.

O esquema da dupla, segundo a polícia, passava pela Cooperativa de Garimpeiros e Mineradores de Ourilândia e Região (Cooperouri), cidade vizinha a Tucumã, da qual Silva era um dos diretores. A Cooperouri é uma usina de ilegalidades ambientais. Acumula 4,9 milhões de reais em multas aplicadas pelo Ibama por extrair minérios em áreas não autorizadas. Além disso, em 2021 foi alvo de uma operação da PF por patrocinar a extração de ouro dentro da Terra Indígena Kayapó, o que é proibido por lei.

Conforme as investigações da PF, a Cooperouri é uma das maiores fornecedoras de ouro para Nascimento. A relação comercial era tão próxima que, nos e-mails do empresário goiano, a polícia encontrou indícios de que ele próprio emitia as notas fiscais da cooperativa. (À piauí, Nascimento nega ter controlado a Cooperouri. Disse que apenas estava ensinando os cooperados a trabalhar legalmente.)

Tanto a Cooperouri quanto outras cooperativas de garimpeiros eram úteis ao esquema de Nascimento porque têm a chamada Permissão de Lavra Garimpeira (PLG), documento emitido pela agência de mineração, autorizando a extração em determinado perímetro. Na época, a lei não obrigava o vendedor, cooperativa ou não, a provar que extraíra seu ouro na área contemplada pela PLG. Era a denominada “presunção de boa-fé”. Assim, os compradores sempre informavam ter feito negócio legal, com entidades detentoras de permissões com nota fiscal e pagamento de impostos. (As Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, DTVMs, são as únicas autorizadas a negociar ouro com cooperativas.)

A BAMC de Nascimento atuava neste mercado, mas era um embuste. A começar que a empresa não é uma DTVM. Mesmo assim, informou ter comprado ouro de cooperativas (e de outras empresas) que reuniam, juntas, dezesseis PLGs. Mas nem isso era verdade. O perito Ricardo Livio Santos Marques, da Polícia Federal, examinou as dezesseis autorizações (quinze no Pará e uma no Tocantins) e fez duas descobertas. Em dez, não havia nem sinal de garimpo. Nas outras seis, a área de garimpo tinha uma produção incompatível com o volume de ouro que Nascimento afirmava haver comprado. Segundo a PF, o ouro, na verdade, provinha de garimpos ilegais dentro da TI Yanomami, como aquele mantido por Fábio Monteiro da Silva, ou de áreas indígenas do Pará, em especial a TI Kayapó.

A análise dos relatórios do Coaf sobre as movimentações bancárias suspeitas de Nascimento, obtidos pela piauí, dá pistas importantes sobre quem são seus parceiros. Entre os fornecedores de ouro para a BAMC, estão dezenas de pessoas processadas na Justiça por contrabando de ouro ou por extração ilegal de minérios na Amazônia. A BAMC também adquiriu ouro da Cooperativa dos Garimpeiros da Amazônia (Coogam), cujo diretor, Edvaldo Santos Lopes, é acusado de lavar dinheiro para o tráfico de cocaína e de armas em Rondônia (a ação penal ainda não foi julgada).

Outro importante fornecedor de ouro para Nascimento era a Mineração Serra Pelada, do pastor evangélico Harley Sandoval. Entre julho de 2020 e dezembro de 2022, a Serra Pelada vendeu 294 milhões de reais em ouro para a BAMC. “Naqueles anos, eu trabalhei quase que 100% com ele [Nascimento]. Falávamos todos os dias”, disse o pastor à piauí, em uma conversa em Goiânia, em agosto do ano passado. Nas contas de Sandoval, a Serra Pelada comercializou um total de 2 toneladas de ouro, das quais 1,5 tonelada foram para a BAMC. A empresa do pastor tinha uma PLG em Natividade, no Tocantins, mas, segundo a PF, extraía ouro em uma área ilegal, vizinha à TI Kayapó, no Pará – os investigadores encontraram diálogos nos celulares de garimpeiros ligados a Sandoval negociando com os kayapós a instalação de garimpos dentro da terra indígena.

À piauí, Nascimento admitiu ter comprado ouro de procedência ilegal, mas nega que tenha tido má-fé. Ele compara a compra do ouro à aquisição de um automóvel. “Ninguém pergunta se o carro é fabricado aqui ou no exterior. Porque vem a nota fiscal, tudo correto, então a origem pouco importa. Eu comprei esse ouro de boa-fé, acreditando que a procedência era lícita”, diz.

 

Brubeyk Nascimento não foi o único empresário do ramo da mineração a usar PLGs para esquentar ouro ilegal. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) constatou que, entre 2021 e 2022, 26% da produção de ouro no Brasil tinha procedência ilegal, pois a origem declarada estava baseada em PLGs sem indícios de garimpo ou com exploração além do perímetro permitido. “O estudo escancarou o descontrole da produção de ouro na Amazônia”, diz o pesquisador Raoni Rajão. A falta de fiscalização por parte do governo federal motivou o Ministério Público Federal no Pará a ingressar com ação civil pública contra a ANM e o Banco Central, aos quais cabe investigar as DTVMs. O Ministério Público pede à Justiça que obrigue as duas instituições a fiscalizar o setor. O processo judicial ainda não foi julgado.

Ao lavar a origem ilegal do ouro, Nascimento ampliava a sua margem de lucro. Todo comércio aurífero, legal ou não, baseia-se na cotação do grama do ouro na Bolsa de Valores de Londres. O metal de origem legal costuma ser vendido no Brasil com um deságio de 5% em relação à cotação oficial. Já o metal de garimpos clandestinos custa um pouco menos, entre 7% e 8% abaixo da cotação. Ao esquentar a origem do metal por meio das PLGs, segundo a PF, Nascimento embolsava a diferença de 2% ou 3%. Parece pouco, mas, em negociações que envolvem toneladas, o lucro se acumula.

Uma vez legalizada a origem do ouro, a BAMC revendia o metal seguindo todos os passos do mercado legalizado, com notas fiscais e recolhimento de tributos. Em 2022, a BAMC ficou em 11º lugar no ranking das maiores comercializadoras de ouro no Brasil, de acordo com dados da ANM. Como a exportação do ouro é isenta de icms, ao contrário da venda no mercado interno, Nascimento priorizava a venda para o exterior. Considerando o alto valor do metal (em meados de maio, um único grama valia pouco mais de 100 dólares) e a grande quantidade de ouro comercializada pela BAMC, os lucros de Nascimento eram robustos. “Eu era um grande operador do mercado no Brasil. As grandes multinacionais me respeitavam, eu tinha credibilidade”, disse.

Pelos cálculos da PF, cerca de 90% do ouro comprado pela BAMC era revendido para a Safimet, uma empresa de refino de metais preciosos sediada em Arezzo, um dos maiores polos joalheiros da Itália. Com capital social de 8 milhões de euros e lucro líquido de 2,38 milhões em 2023 (último dado disponível), a Safimet fornece ouro para diversas multinacionais, como Tesla, Apple, Epson e Konica Minolta, e também para o mercado de joias, com destaque para a joalheria Marcel Robbez Masson, uma das maiores fabricantes de joias da França.

Assim que fundou a BAMC em 2018, Nascimento fez sua parceria com a empresa italiana. “Eu sou muito grato à Safimet. É uma empresa muito profissional”, diz o empresário. Em sua página oficial na internet, a empresa lista, entre os seus principais objetivos, “disseminar práticas que respeitam e melhoram o meio ambiente”. Procurada pela piauí, a Safimet não se manifestou.

 

Não há dados consolidados sobre a produção aurífera da Venezuela, mas as estimativas trazem números nada desprezíveis. Em estudo de 2021, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) calculou entre 30 e 40 toneladas anuais, equivalente a pouco menos da metade da produção brasileira (94 toneladas em 2024). No entanto, a OCDE estimou na época que apenas 20% do ouro extraído na Venezuela seguiam pelos caminhos oficiais. O restante acabava contrabandeado para países vizinhos, em razão dos inúmeros embargos econômicos impostos ao regime ditatorial de Nicolás Maduro.

Até o início da década atual, o Brasil era o principal destino desse ouro, uma vez que, de acordo com um levantamento do site venezuelano Armando.info, na reportagem Corredor furtivo, os garimpos ilegais concentram-se nos estados do Amazonas e Bolívar, que fazem fronteira com o território brasileiro. Com os embargos dificultando a exportação do ouro e a crise econômica produzindo escassez até de alimentos, deu-se a tempestade perfeita para os contrabandistas dos dois lados da fronteira: a troca de ouro ilegal por comida. A Polícia Federal estima que, entre 2017 e 2019, pelo menos 1,2 tonelada de ouro venezuelano foi trocada por alimentos no país vizinho e, em seguida, contrabandeada para o Brasil e exportada co­mo se fosse ouro brasileiro, livre de qualquer embargo.

O esquema fez com que as exportações do estado de Roraima para a Venezuela passassem de míseros 600 mil dólares em 2015 para 275 milhões de dólares em 2022, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Para a PF, Brubeyk Nascimento floresceu nesta farra do ouro venezuelano. Entre o fim da última década e o início da atual, o dono da BAMC enviou 48,7 milhões de reais para Roraima, de acordo com o Coaf. Metade desse valor foi para empresas do ramo alimentício, entre as quais o frigorífico Frigo 10, cujo quadro de sócios inclui o governador do estado, Antonio Denarium (PP), e a Distribuidora Solimões, que pertence a um sócio do governador. (Apesar de citados em inquérito da PF, nem o governador nem seu sócio são formalmente investigados.)

Outra autoridade política citada na investigação policial é o militar aposentado venezuelano Justo Noguera Pietri, ex-comandante da Guarda Nacional Bolivariana. Em 2020, quando era governador do estado de Bolívar, Pietri costumava transitar pela fronteira com uma caminhonete brasileira, em nome da empresa Frios Roraima, suspeita de integrar o esquema de contrabando de ouro por alimentos, segundo relatório encaminhado à PF pela Embaixada da Venezuela em Brasília. Atualmente, o militar é alvo de um mandado de prisão decretado pela Justiça argentina, onde é acusado por crimes de lesa-humanidade por uma ONG ligada aos direitos humanos.

Nascimento tinha interesse direto naquela área fronteiriça. A piauí obteve cópia de uma procuração de 2022 em que o suposto dono da fazenda São Felix, uma área de 1 192 hectares em Amajari, extremo Norte de Roraima, cede a Nascimento o controle de sua propriedade. O Center for Climate Crime Analysis (CCCA), ONG que denuncia ações ilegais que agravam as mudanças climáticas e violam direitos humanos, fez um estudo a pedido da piauí e não encontrou indícios de exploração econômica na fazenda São Félix. Mas, além de estar situada a apenas 13 km de garimpos ilegais do lado venezuelano, a fazenda está numa área onde a cooperativa Minerar, de Boa Vista, possui uma Permissão de Lavra Garimpeira. Fechando o círculo, a Minerar forneceu ouro para a BAMC e, entre seus diretores, há donos de empresas do setor alimentício em Roraima.

Na conversa com a piauí, Nascimento negou ter contrabandeado ouro da Venezuela para o Brasil. Segundo ele, as transferências para supermercados e atacadistas de alimentos em Roraima foram doações, no contexto da crise socioeconômica da pandemia. “Eu fiz doações para Boa Vista, para os venezuelanos que estavam passando fome”, afirmou. Sobre a fazenda São Félix, disse que tinha planos de criar gado de engorda na propriedade, mas o negócio ficou inviabilizado devido à dificuldade de acesso à fazenda, sobretudo em períodos chuvosos. (Quando Nascimento ganhou o controle da fazenda, claro está, a estação de chuvas já existia.)

 

No fim de 2019, Nascimento encontrou outro parceiro comercial importante no exterior: a MLBT Consulting Corp (mais tarde rebatizada como Doromet), empresa de compra e venda de ouro sediada no coração de Manhattan, em Nova York. Depois de tentar sem sucesso adquirir o metal em minas da Colômbia, os americanos Frank Giannuzzi e Steven Bellino, sócios na Doromet, conheceram Nascimento por meio da mulher do primeiro, que é brasileira, conforme revelado pelo site Repórter Brasil. O empresário goiano, que aprendeu inglês na juventude, em um intercâmbio como funcionário de um hotel na Carolina do Sul, viajou até Nova York e, durante um jantar com os sócios da Doromet, acertou a venda de 35 kg de ouro da BAMC para a empresa americana, uma carga avaliada em 6,8 milhões de reais.

Nascimento teria um lucro de 3% sobre o valor da mercadoria, ou 300 mil reais. No mês seguinte, Giannuzzi e Bellino encontraram-se com Nascimento em Manaus e alinharam os últimos detalhes do negócio. Dias antes de embarcarem com a carga para os Estados Unidos, Giannuzzi, Bellino e Nascimento apresentaram a documentação do ouro aos fiscais da Receita Federal no aeroporto local. O transporte foi autorizado, mas os fiscais desconfiaram da origem do metal e informaram à PF.

Na noite de 24 de janeiro, já no Aeroporto de Manaus, quando os dois americanos se preparavam para embarcar para Nova York com os 35 kg de ouro acondicionados em uma mala rosa, policiais federais apreenderam a carga, detiveram Nascimento e ficaram com seu celular. No dia seguinte, ele foi solto pela Justiça, sem celular, depois de pagar uma fiança de 100 mil reais. Antes disso, prestou depoimento à PF.

Disse que a carga era decorrente de joias derretidas e que fora adquirida de Werner Rydl, um polêmico empresário nascido na Áustria e naturalizado brasileiro, que declarou à Receita Federal uma fortuna bilionária em ouro, guardada em pleno Oceano Atlântico. Nascimento apresentou aos policiais um contrato em que Rydl se comprometia a lhe fornecer 700 kg de ouro por semana.

Naqueles dias, a Superintendência da PF no Amazonas acabara de receber um equipamento importado da Alemanha capaz de analisar a composição química de qualquer material. Se aquela carga fosse de fato oriunda de joias derretidas, o teor de pureza deveria ficar em torno de 75%, uma vez que há outros metais nesses tipos de objetos, sobretudo cobre e, em alguns casos, prata. Mas a pureza das barras vendidas pela BAMC era de 93,2%. Além disso, havia resquícios de mercúrio, o que, segundo os agentes federais, só ocorre quando o metal é extraído artesanalmente da natureza. Por fim, o equipamento mostrou que aquele ouro tinha características semelhantes a barras do metal apreendidas pela PF em garimpos ilegais na Bacia do Rio Tapajós, no Oeste do Pará. Além da perícia, diálogos encontrados pela polícia no celular de Nascimento reforçavam a suspeita de que o ouro vinha de garimpo.

Em 26 de março de 2020, a Doromet pediu à Justiça a restituição da carga apreendida. Em novembro de 2020, oito meses depois da apreensão, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região acatou o pedido embora houvesse comprovação pericial de que o ouro era oriundo de garimpo ilegal. Mesmo assim, o TRF1 determinou a restituição do ouro aos americanos. “Literalmente, iríamos entregar o ouro ao bandido”, disse o então superintendente da PF, Alexandre Saraiva, ao jornal Valor Econômico. Para evitar a devolução do material, a polícia recorreu a uma manobra burocrática. Em março de 2021, retirou o ouro da agência da Caixa Econômica Federal de Manaus, onde o metal estava custodiado, e levou-o para a Superintendência, com o argumento de que seriam necessárias novas perícias no mineral. No mês seguinte, a pedido de Alexandre Saraiva, a ANM apreendeu a carga administrativamente, driblando assim a decisão do TRF1. O ouro continua apreendido até hoje.

A perda do ouro não impediu que Nascimento continuasse com seu fornecimento, e a Doromet continuasse interessada em seus serviços. “Steven, prometo que não vou perder dinheiro. Depois de acertar, vou te dar uma posição para ter um bom lucro que justifique tudo isso. Acredite”, escreveu o brasileiro para Steven Bellino, em inglês, dias depois da apreensão em Manaus. Em maio de 2020, com a carga original apreendida, a BAMC exportou outra remessa de ouro para a Doromet, dessa vez com sucesso. Conversas no celular de Nascimento acessado pela PF sugerem ter sido mais de 1 tonelada de ouro. Parte dessa carga foi negociada por Bellino e Giannuzzi na Turquia.

No fim de 2020, porém, Bellino e Giannuzzi se desentenderam. Bellino entrou com uma ação na Justiça de Nova York contra Giannuzzi e Nascimento, alegando que, apesar de ter investido 750 mil dólares na empresa, não estava recebendo a sua participação no “negócio lucrativo” do ouro. O processo ainda não foi julgado.

 

Brubeyk Nascimento não sabia que, quando houve a apreensão da carga milionária no Aeroporto de Manaus, ele já estava sob investigação da Polícia Federal. Seis meses antes, no fim da manhã de 21 de junho de 2019, policiais rodoviários desconfiaram de um automóvel que seguia pela Rodovia br-174, no sentido Boa Vista-Manaus, e decidiram abordar o motorista. Sob o console do câmbio, os policiais encontraram nove barras de ouro, que somavam 4,79 kg. O motorista, José Cláudio Rabelo Rita, foi preso em flagrante e levado para a PF em Manaus. Uma perícia constatou que o ouro vinha de garimpo ilegal.

Indagado pelos policiais de quem era o ouro, Rabelo ficou em silêncio. No dia seguinte, um sábado, um delegado da PF almoçava em um restaurante em frente à Superintendência da PF quando ouviu três homens em uma mesa ao lado comentando sobre a apreensão das nove barras de ouro. Um deles disse que o produto era dele, lamentando o prejuízo. No dia seguinte, um agente da PF acompanhou da rua o mesmo trio almoçando no restaurante, provavelmente à espera da soltura de Rabelo. (Ele só seria solto dois meses depois, quando foi condenado a três anos de prisão em regime aberto por usurpação de bens da União.)

Assim que os três deixaram o restaurante, o agente entrou no estabelecimento e pediu o recibo do cartão de crédito que pagou as refeições do trio. Aí, surgiu o nome de Brubeyk Garcia do Nascimento. A partir daí, a PF começou a destrinchar o fio da meada. Descobriu que Rabelo era conterrâneo de Fábio Monteiro da Silva, o piloto dono de garimpo ilegal no Rio Uraricoera, e era filiado à Cooperouri, a cooperativa que fornecia ouro para Nascimento. Tudo se encaixava. A PF acabou fazendo três operações. A Emboabas, uma referência aos paulistas que migraram para Minas Gerais atraídos pelas jazidas de ouro no século xviii; a Eldorado, deflagrada em Roraima, que desvendou a troca de alimentos por ouro na Venezuela e a compra do metal em garimpos clandestinos na TI Yanomami; e a Lupi, voltada para as transações ilícitas de ouro entre Nascimento e o pastor Sandoval.

Na manhã de 20 de setembro de 2023, a PF lançou as três operações simultaneamente. Prendeu Nascimento e Sandoval. Nascimento deixou a cadeia treze dias depois, em razão de um habeas corpus. Sandoval ficou 39 dias preso. “Foi muita humilhação”, desabafa o pastor. “Até eu entrar [na cadeia], eu era empresário. Mas lá você não tem nome, não tem dignidade nenhuma, direito nenhum. Se você passar mal uma noite, se tiver com dente doendo, você morre de dor de dente.”

Na Operação Lupi, os dois são acusados de contrabando, receptação, falsidade ideológica e organização criminosa (Sandoval também responde pelos crimes de usurpação de bens da União e lavagem de dinheiro). O processo judicial ainda não foi julgado. Na Emboabas, o dono da BAMC e os americanos Bellino e Giannuzzi foram indiciados por usurpação de bens da União e crime ambiental – Nascimento também foi indiciado por crime contra a ordem tributária e lavagem de dinheiro. Por fim, na Operação Eldorado, ainda não houve indiciamentos.

Nascimento e Sandoval seguem com todos os seus bens bloqueados pela Justiça. “Tive que recomeçar minha vida do zero”, diz o pastor, cujos bens sob sequestro judicial somam 14 milhões de reais, nos seus cálculos. “Sei que eu não sou nenhum criminoso. Sou um empresário e meu sonho é provar que eu não devo nada do que eles estão me acusando.”

Atualmente, Sandoval é corretor imobiliário em Goiânia, enquanto Nascimento presta consultoria financeira em Manaus. “Eu não fiquei viciado no dinheiro. Eu ganhei dinheiro? Ganhei. Mas eu nunca fiquei preso a ele”, diz Nascimento. “Eu falo pra minha mãe e pro meu pai que tudo foi um grande aprendizado. Eu vou fazer acontecer de novo, em outras situações, outros ramos. Porque tudo passa, né?”

 

Em abril de 2023, cinco meses antes da prisão de Brubeyk Nascimento, o Supremo Tribunal Federal derrubou parte da lei que estabelecia a “presunção da boa-fé” na compra e venda de ouro por DTVMs no Brasil. Desde então, cabe ao vendedor provar a origem lícita do metal. Um pouco antes, em março, a Receita Federal passou a obrigar o setor a emitir nota fiscal eletrônica para qualquer transação envolvendo ouro – antes, o setor só trabalhava com notas em papel, o que dificultava a fiscalização.

As duas mudanças nas regras do mercado aurífero levaram a uma queda expressiva na arrecadação tributária com o comércio de ouro. Em 2022, ainda no governo Bolsonaro e sob as normas antigas, o mercado de ouro na Amazônia Legal movimentou 11,3 bilhões de reais. Em 2024, já sob o governo Lula, esse número caiu 38%, para 6,97 bilhões de reais, de acordo com a ANM. No entanto, 7 213,5 hectares de floresta foram destruídos por novos garimpos em 2023 e 2024, de acordo com dados do MapBiomas revelados pelo site Mongabay, o que indica que a extração ilegal do ouro continua sendo um negócio ativo – e lucrativo – no Brasil.

Tanto para o pesquisador Raoni Rajão quanto para policiais federais ouvidos pela piauí, existe a suspeita de que, como o Brasil tornou-se inóspito para “lavadores de ouro” como Nascimento, o mercado paralelo brasileiro tem buscado contrabandear o metal de garimpos clandestinos da Amazônia para países vizinhos, de onde são exportados para os Estados Unidos, a Europa e o Oriente Médio. Entre esses países está a Venezuela, que até 2022 escoava o ouro para o Brasil e, a partir do ano seguinte, passou a receber o metal brasileiro, sobretudo no período entre outubro de 2023 e janeiro de 2024, quando os Estados Unidos suspenderam as barreiras comerciais ao ouro venezuelano. “O mercado ilegal sempre encontra saídas, sobretudo para um produto com alto valor agregado como o ouro”, disse Rajão.


A reportagem contou com a colaboração de Luiz Fernando Toledo, de Londres, Cecilia Anesi, Edoardo Anziano e Andrea Palladino, de Roma, e Joseph Poliszuk, da Cidade do México.


 

Allan de Abreu
Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)

Leia Mais

boletim de ocorrência aurífera

Em alto-mar

As artimanhas criminais de um austríaco que diz ter criado um país em pleno oceano para guardar uma fortuna em ouro

02 jun 2025_16h42
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30