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A gigante depenada

    El Helicoide, construído para ser um shopping nos anos 1950, tornou-se uma prisão temida, com torturas e outras violações graves dos direitos humanos – e, assim, ganhou uma tenebrosa semelhança com o inferno de Dante CRÉDITO: PIETRO PAOLINI_TERRAPROJECT_2012

à sombra do império I

A gigante depenada

Entre traições, expurgos e reviravoltas, a estatal do petróleo – alvo da cobiça americana – é o retrato do fracasso venezuelano

Angélica Santa Cruz | Edição 233, Fevereiro 2026

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José Ángel Pereira Ruimwyk dormia em sua casa, em Houston, nos Estados Unidos, quando foi acordado por uma mensagem de WhatsApp enviada por um amigo. “Você viu o que está acontecendo?”, perguntava o texto, disparado direto da Venezuela. Era 3 de janeiro, uma hora da manhã no horário do Texas e três da manhã em Caracas. Ele pulou da cama e ligou a televisão. Pouco mais de duas horas depois, soube que Nicolás Maduro havia sido sequestrado em uma operação militar empreendida pelo governo Donald Trump. No dia seguinte, assistiu, embasbacado, às primeiras imagens em que o ditador venezuelano aparecia algemado, em uma base aérea em Nova York.

“Quando vi aquele homem com as algemas que na Venezuela são chamadas de el pulpo [o polvo] – porque acorrentam as mãos e os pés – cercado pelos guardas, praticamente arrastado para fora do caminhão… Foi um choque, um evento que causou emoções conflitantes na minha família e em mim”, descreveu ele em conversa com a piauí. “Porque foi exatamente o que ele fez comigo”, completou.

José Pereira, como é conhecido no setor energético, ocupou cargos-chave na estrutura da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), a estatal que, por ser a principal fonte de receita do país, é não só o coração da sua economia, como também o epicentro de sua política. Foi presidente da Citgo Petroleum Corporation, subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos, que chegou a ser a sexta maior refinaria do país – opera 4,5 mil postos de gasolina em território americano e é um dos ativos mais valiosos da Venezuela.

 

Seu edifício-sede fica em Houston, em uma área conhecida como Energy Corridor, um polo corporativo onde se espraiam várias gigantes de petróleo e gás, como BP America, Shell Oil Company e ConocoPhillips. Pereira transitava por esse mundo com desenvoltura, lambendo um certo orgulho pelo ponto alto que alcançou na carreira. Era um tecnocrata, um integrante de um corpo técnico que tocava a empresa enquanto a política se desenrolava em Caracas. Estava a meses de se aposentar. Pretendia ficar em Houston com a família – a mulher, Mervis Ruiz, com quem àquela altura estava casado havia 31 anos, dois filhos e dois netos.

No sábado, 18 de novembro de 2017, Pereira resolveu dar uma pausa na vida estressante de alto executivo que o fizera desenvolver diabetes e ganhar muitos quilos. Levou Mervis para assistir ao filme Liga da Justiça – ele é fã do Super-Homem. O casal foi a uma sala premium de cinema. Ele pediu um uísque; ela, vodca com suco de laranja. A comida chegou, o filme começou e eles se prepararam para relaxar na poltrona. Mas o telefone dele começou a tocar.

Era o seu chefe, Nelson Martínez, um homem com ar acadêmico, estourado e direto que, em seus anos de formação na Europa, aprendera a admirar a boa gastronomia. Martínez era um nome lendário na empresa. Tinha quase 35 anos de serviço,  mestrado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e doutorado na Universidade de Reading. Depois de quatro anos como presidente da Citgo em Houston, voltara à Venezuela para ser ministro de Petróleo de Nicolás Maduro. Ficou no cargo durante sete meses e, depois, assumiu a presidência da PDVSA.

 

No telefonema, Martínez deu uma instrução inusual. Pediu que Pereira fosse para Caracas no dia seguinte, para participar de uma reunião de emergência na sede da estatal, marcada para a segunda-feira. Também instruiu que ele levasse alguns de seus executivos, que nominou um por um.

Como tinha uma reunião marcada com a primeira-ministra de Aruba, Evelyna Wever-Croes, para tratar do projeto de arrendamento de uma refinaria inativa, Pereira tentou se esquivar do convite inesperado. Não adiantou; Martínez insistiu que ele reagendasse o compromisso. O programa no cinema foi abortado. Pereira voltou para casa a fim de se preparar para a viagem e tratou de acalmar a mulher – prometeu estar de volta dali a cinco dias, no Dia de Ação de Graças.

Na manhã do domingo, ele chegou com seu motorista particular ao hangar do aeroporto Sugar Land Regional, a meia hora da sede da empresa, onde encontrou os outros seis executivos da Citgo.

 

Todos eram nascidos na Venezuela e, em algum ponto de suas carreiras, se mudaram para os Estados Unidos. Entre eles, estavam Tomeu Vadell, vice-presidente de Refino, um descendente de espanhóis alto e grisalho, com vasta experiência na PDVSA e na Citgo; Jorge Toledo, vice de Comércio e Abastecimento, oriundo de uma família de italianos, tão elegante que recebera dos colegas o apelido de golden boy; os sorridentes irmãos José Luis Zambrano, vice de Serviços Compartilhados e adepto de uma estética caubói que usava botas e cinto texanos, e Alirio Zambrano, gerente-­geral da refinaria da Citgo em Corpus Christi, também no Texas. Completavam o grupo Calixto Ortega, vice de Finanças, um jovem de ar concentrado e apadrinhado pelo então ministro de Finanças; Edoardo Orsoni, vice de Assuntos Jurídicos, um afável descendente de italianos com cabelos cacheados; e, enfim, Gustavo Cárdenas, vice de Relações Institucionais, um homem de fala mansa, integrante de uma grande e tradicional família venezuelana, admirado na empresa por sua eficiência.

O grupo embarcou em um Falcon 900, o avião com nove lugares da Citgo. Enquanto cruzava o Mar do Caribe, trocou impressões sobre o caráter insólito da reunião. Alguns achavam que seria apenas mais um evento chato, outros ponderavam que havia algo de estranho no convite. Cinco horas depois, o avião chegou ao hangar do La Guaira, no aeroporto de Maiquetía, em Caracas. Os executivos seguiram direto para a sede da PDVSA, um complexo com duas torres de vidro no bairro La Campiña, que marca a paisagem de Caracas.

Foram recebidos por Nelson Martínez e levados para uma imensa sala de reuniões na torre Leste. As coisas só ficavam mais estranhas. O chefe olhou para Edoardo Orsoni, vice-presidente da área jurídica, e mandou que ele voltasse imediatamente para Houston, para resolver um imprevisto. Na reunião, os executivos foram pautados: deveriam detalhar novos projetos e os planos de refinanciamento da dívida da empresa. A apresentação seria liderada por Pereira, no dia seguinte, às 8h30.

Três meses antes, os Estados Unidos haviam imposto sanções à PDVSA, cujo acesso a novos financiamentos e à emissão de dívida estavam bloqueados. Nelson Martínez confidenciou a Pereira que também havia sido surpreendido com a reunião de emergência e que, até onde pudera entender, a cúpula do governo queria saber como a empresa poderia operar nessas condições.

Os seis altos funcionários da subsidiária foram para um hotel e passaram as horas seguintes preparando uma apresentação. Na segunda-feira, 20 de novembro, o grupo seguiu para o Auditorio Simón Bolívar, na sede da PDVSA. Estavam no evento representantes de todas as subsidiárias da estatal e autoridades graúdas, como o então vice-presidente da República Tareck El Aissami, o ministro de Petróleo, Eulogio Del Pino, e o ministro de Economia e Finanças, Simón Alejandro Zerpa Delgado.

A apresentação de José Pereira ficou para o último lugar. Começou somente às 17 horas e terminou com aplausos da plateia. Aliviado por ter se saído bem na missão emergencial, ele pediu que preparassem o avião para seu compromisso seguinte, a reunião com a primeira-ministra de Aruba – essa seria sua última viagem de negócios antes da aposentadoria. Foi, no entanto, chamado de novo por Nelson Martínez, que, outra vez, mandou que ele adiasse o compromisso para participar de mais uma reunião no dia seguinte, também no auditório da PDVSA. Pereira tentou argumentar. E, de novo, foi em vão.

Na terça-feira, 21 de novembro, Pereira chegou a La Campiña, como é chamada a sede da empresa entre seus funcionários, e se sentou na primeira fila da plateia, esperando o evento começar. De repente, entraram no auditório cerca de vinte homens vestidos de preto, com o rosto coberto com máscaras em forma de caveira e uniformes com logotipos amarelos fosforescentes onde se lia: Dgcim. Na definição de Pereira, “pareciam ter saído do filme Robocop”. O executivo perguntou a um colega: “Que diabos é Dgcim?” Ouviu a resposta: “É a Direção-Geral de Contrainteligência Militar do governo venezuelano.” Alguns dos executivos olharam em volta, tentando encontrar o chefe, Nelson Martínez, mas ele não estava lá.

Não haveria reunião, era uma cilada.

O grupo da Citgo foi levado para uma sala privada ao lado do auditório. Calixto Ortega, vice-presidente de Finanças, foi liberado. Os outros seis ouviram do general Ramón Agustín Balza Liotta, vice-diretor da Dgcim, que estava à frente do destacamento: “Vocês estão presos, acusados pelo procurador-geral da República.” Todos tiveram celulares, computadores e malas confiscados. Saíram algemados do auditório, diante de todos os colegas e de populares que já se aglomeravam na rua.

Os executivos da Citgo foram jogados em uma van, que percorreu a cidade durante horas, inclusive com uma parada para que os policiais mascarados pudessem comer cachorro-quente em uma barraquinha na rua. Perto da meia-noite, com os ternos amassados, suando em bicas e sempre algemados, os seis chegaram às instalações da cadeia da Dgcim, mais conhecida pelo nome do bairro onde fica, Boleíta. Ali, Pereira pôde telefonar para um de seus filhos, Joao. Soube que a notícia da prisão do grupo já corria o mundo. Enquanto eles eram presos, o procurador-­geral Tarek William Saab anunciava, em cadeia nacional, que eram acusados de espionagem, traição, corrupção, desfalque, conspiração, conluio com contratados, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

José Pereira ficou preso por cinco anos, em um calvário que incluiu dois anos e um mês na Boleíta, dois períodos em prisão domiciliar em Caracas e dois anos e meio no temido El Helicoide, a casa de detenção que se transformou em símbolo da repressão na Venezuela. A prisão funciona em um prédio projetado na década de 1950 para ser um shopping center futurista. É um edifício com cúpula geodésica, rodeado por rampas em espiral concebidas para que os consumidores dirigissem pelos andares para chegar às lojas. Costuma ser comparado a um imenso molusco cravado na paisagem de Caracas – é onde funciona a prisão do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin). Relatórios feitos por missões da ONU e organizações como a Anistia Internacional apontam El Helicoide como o local de um desfile penoso de violações graves dos direitos humanos, como torturas e prisões arbitrárias.

Em suas passagens pelos dois cárceres, o ex-presidente da Citgo presenciou e ouviu torturas, ficou dias seguidos sem comida – só no primeiro ano, perdeu 50 kg. Teve sarna, dormiu empilhado com outros presos. E sofreu um ataque cardíaco que o deixou três dias em coma. Foi um voo rasante pelo inferno que ele descreve em detalhes no livro From hero to villain (De herói a vilão), que conta a história dos cinco anos do sequestro dos seis executivos da Citgo, o “Citgo6”, como o caso ficou conhecido. Lançado em 2024, o livro é uma mistura de manual de superação, panorâmica dos bastidores da PDVSA e memórias do cárcere – com descrições angustiantes que incluem o costumeiro sadismo sem limites de torturadores em regimes ditatoriais.

O governo Maduro acusou os seis executivos de participar de um plano de refinanciamento de dívidas da Cit­go de maneira irregular, sem conhecimento do conselho da PDVSA e do governo. A defesa do grupo apresentou a gravação e a ata da reunião que mostrava que a junta diretora da estatal e o primeiro escalão do governo não só sabiam da operação como assinaram a autorização para que a operação fosse feita – a ata tinha até mesmo a assinatura de Delcy Rodríguez, atual presidente interina da Venezuela, na época vice-presidente.

O refinanciamento da empresa, que nunca foi concluído, teria como propósito evitar a venda da Citgo e jogar dinheiro no combalido caixa do governo venezuelano. Os cinco vice-presidentes que foram presos junto com José Pereira sequer haviam participado das negociações. Eles só foram promovidos a VPs de suas áreas dois meses depois.

José Pereira tem residência permanente nos Estados Unidos, os outros cinco executivos são cidadãos americanos. O episódio virou um imbróglio diplomático entre a Venezuela e os Estados Unidos, cheio de idas e vindas.

“Durante anos, o governo Maduro nos levava até o prédio do Palácio da Justiça, onde ficam todos os tribunais, apenas para assinar a ciência de que a audiência havia sido adiada. O traslado era um espetáculo: fechavam as ruas de Caracas inteira, colocavam viaturas em todos os semáforos e, quando chegávamos ao tribunal, algemados, fechavam os corredores. Se encontrassem alguém com o celular tentando nos filmar, prendiam a pessoa”, descreveu Pereira à piauí.

Nos Estados Unidos, o embaixador Roger D. Carstens foi nomeado enviado presidencial especial para assuntos relacionados a reféns por Donald Trump e mantido por seu sucessor, Joe Biden. Para tentar desatar o caso Citgo6, Carstens passou a viajar para Caracas em missões secretas, junto com outros altos funcionários do governo americano. Foram meses de conversas. Em algumas dessas viagens, Carstens conversou com Pereira e seu grupo na prisão. A partir dessas visitas, o grupo foi tirado dos porões sem janelas e banheiro e transferido para celas maiores, com camas.

Com a saúde em frangalhos, pai de um rapaz que sofre de uma doença metabólica rara que atrofiou seu crescimento físico, Gustavo Cárdenas acabou solto em março de 2022. O resto do grupo só seria libertado sete meses depois, em troca de dois sobrinhos criados como filhos por Cilia Flores, a mulher de Maduro – Franqui e Efraim Flores, que cumpriam pena por tráfico de drogas nos Estados Unidos.

Em seu livro, Pereira descreve o momento da troca secreta, feita em São Vicente e Granadinas, uma pequena ilha no Caribe. No avião da Casa Branca, o embaixador Carstens chegou com os sobrinhos Flores, que a imprensa apelidara de “narcosobrinhos”. Em um segundo avião, atordoados e sem saber para onde eram levados, estavam os ex-­executivos da Citgo.

E, em um terceiro, viajava o psiquiatra e político Jorge Rodríguez – irmão de Delcy Rodríguez, ex-prefeito de Caracas, hoje presidente da Assembleia Nacional da Venezuela. Com todos em solo, Rodríguez ordenou que se retirassem as algemas e tornozeleiras dos Citgo6. Em seguida, os instruiu a caminhar até o avião americano.

Quando chegou à base área de San Antonio, no Texas, Pereira foi abraçado pelo terceiro neto, de 3 anos, que só conhecia por fotos e chamadas de vídeo. Hoje, Pereira tem uma consultoria e dá palestras sobre resiliência para ex-reféns. Depois da conversa com a piauí, ele entrou em mais uma chamada por Zoom, dessa vez para uma seção de terapia – que faz há três anos. Outros três executivos do grupo – Tomeu Vadell e os irmãos Zambrano – processam a Citgo que, a despeito de ter um contrato que garantia assessoria jurídica aos seus altos funcionários, os deixou sem apoio.

No ano passado, Jorge Toledo, outro dos integrantes dos Citgo6, também publicou um livro, chamado 1,775 days of captivity: survival and growth (1 775 dias de cativeiro: sobrevivência e crescimento). O prefácio é assinado pelo embaixador Carstens. “Esses homens haviam sido presos sob acusações forjadas de desvio de recursos e condenados à prisão depois de enfrentarem um processo judicial prolongado que só pode ser descrito como uma farsa”, escreveu ele.

Se é indagado sobre o que acha de os Estados Unidos terem entrado em um país para retirar seu líder político à força, José Pereira dá o tipo de resposta que escancara a complexidade da Venezuela: “O país tentou de tudo, por todas as vias democráticas. Eleições, manifestações que acabaram com pessoas presas e torturadas – eu conheci muitas delas na cadeia. Maduro não é presidente da Venezuela, ele roubou as eleições. Francamente: I don’t care.”

 

Criada em 1976, a PDVSA é a espinha dorsal da Venezuela, um país que não é apenas um vendedor de petróleo – é um “petroestado” com dependência completa de seu recurso natural. O petróleo vendido pela PDVSA significa 95% das exportações do país. Só entre 2007 e 2012, a PDVSA repassou 450 bilhões de dólares para a Venezuela. E todo o dinheiro que gerava, se não era drenado pela corrupção, se misturava imediatamente com o do país. Por isso, a estatal virou também uma força política sem precedentes – o que inclui uma engrenagem novelesca de traições, expurgos, disputas selvagens pelo poder.

Na estrutura da PDVSA, há uma grande probabilidade de que o poderoso de hoje seja o detento ou fugitivo de amanhã. Desde 2017, mais de cem funcionários da empresa e suas subsidiárias foram acusados de corrupção e presos, incluindo 28 executivos. Como é próprio dos regimes autoritários, é difícil saber quais são os casos de punições seletivas de roubalheiras reais e quais são fábulas criadas para tirar do caminho pessoas incômodas ou vítimas de intrigas.

Quatro ex-presidentes da PDVSA, todos aliados históricos de Hugo Chávez, foram presos durante o governo de Maduro. Um deles morreu na cadeia em dezembro de 2018, um ano depois de ser enviado a “La Boleíta”. Com complicações cardíacas e renais, agonizou por dias, sem conseguir falar e se movimentar, com tremores no corpo. Só foi levado para uma uti quando seu quadro já era irreversível, segundo denunciou depois sua mulher, Beatriz Arias. O preso? O ex-ministro Nelson Martínez, o chefe de José Pereira.

Até hoje os Citgo6 especulam se Martínez sabia da arapuca montada para prendê-los. Não conseguem chegar a uma conclusão. O então chefão da PDVSA acabou preso nove dias depois dos subordinados que, voluntariamente ou não, ajudou a atrair para a emboscada. Vestindo camiseta azul, foi levado de casa pelos homens de preto da Dgcim, sob as mesmas acusações que caíram na cabeça dos seis executivos.

Logo em seguida, também foi preso Eulogio Del Pino, ministro do Petróleo, um engenheiro geofísico com mestrado na Universidade Stanford que passara pela presidência da PDVSA meses antes. Del Pino foi acusado de desvios na Petrozamora, outra subsidiária da estatal. Poucos dias antes de sua prisão, ele gravou um vídeo, que postou nas redes sociais. Em pânico, pedia direito à defesa, dizia que havia, ele mesmo, denunciado desvios na empresa. Também reafirmava seu compromisso com os valores da Revolução Bolivariana, o projeto iniciado por Chávez para implantar o “socialismo do século XXI” na Venezuela. De nada adiantou. Usando uma camisa da seleção venezuelana, acabou levado de casa pelos mascarados de preto. Permanece preso, na Boleíta, até hoje.

Martínez e Del Pino viviam se digladiando – o primeiro era da corrente contrária à venda da Citgo, achava uma temeridade o país se desfazer de um ativo de tamanha importância no exterior; o segundo fazia parte da turma que achava que o governo americano, em algum momento, confiscaria a subsidiária, portanto era melhor vendê-la logo. As duas correntes armavam emboscadas internas e contrainformações, a ponto de, em determinado momento, os executivos da subsidiária americana terem que ir ao mercado para montar duas operações contraditórias: vender a empresa e, ao mesmo tempo, prospectar refinanciamentos de suas dívidas. Martínez e Del Pino acabaram presos na mesma cela.

Depois deles viriam outros – vários outros.

 

Em 17 de dezembro de 2025, o conselheiro de segurança interna da Casa Branca, Stephen Miller, postou no X: “O suor, a engenhosidade e o trabalho americanos criaram a indústria petrolífera na Venezuela. Sua expropriação tirânica foi o maior roubo já registrado de riqueza e propriedade americanas. Esses ativos saqueados foram então usados para financiar o terrorismo e inundar nossas ruas com assassinos, mercenários e drogas.” E, em janeiro, depois do sequestro de Maduro, em um pronunciamento em Mar-­a-Lago, Trump deixou claríssimo o motivo da operação militar para tirar o ditador do poder: “Vamos ter o nosso petróleo de volta”, disse.

Diante desses torpedos, ficou no ar a pergunta: a qual evento, especificamente, o governo Trump estaria se referindo? Só restou evidente que vai sobrar para a PDVSA.

A história da exploração do petróleo na Venezuela é uma gangorra que ora pende para a nacionalização, ora para a privatização da produção. É uma linha do tempo que se entrelaça com várias versões da Lei de Hidrocarbonetos, a principal legislação que rege a indústria petrolífera no país – a primeira é de 1920. E que também se confunde com a jornada de inúmeras famílias venezuelanas, como a de José Pereira. O ex-presidente da Citgo integra a terceira geração de profissionais da indústria petroleira, caminho que um de seus dois filhos também seguiria.

O petróleo, em si, não é juridicamente privado na Venezuela – as riquezas naturais do subsolo pertencem à nação. As extrações pioneiras feitas por companhias privadas começaram com a venezuelana Compañia Petrolia del Táchira. A primeira grande empresa estrangeira a entrar em cena foi a New York & Bermudez Company, de início com foco em asfalto, que perfurou seu primeiro poço de petróleo em 1913 e já se meteu em um imbróglio político, porque foi acusada de financiar a tentativa de derrubada do então presidente Cipriano Castro.

A exploração em larga escala começou em 1914, no poço Zumaque I, perto do Lago de Maracaibo – é o evento considerado o marco zero dos destinos do país, que passariam a ser irrevogavelmente enganchados no ouro negro.

O avô materno de José Pereira, um holandês chamado John Edward Ruim­wyk, chegou à Venezuela em 1920 para trabalhar na área administrativa da Royal Dutch Shell, empresa cuja subsidiária, a Caribbean Petroleum Company, era encarregada justamente da perfuração desse poço. O país ainda era essencialmente rural. Vivia da produção de café, cacau e gado.

Em 1922, veio o segundo grande marco dessa linha do tempo, agora em versão cinematográfica. Também perto do Lago de Maracaibo, um poço chamado Los Barrosos II “explodiu” quando a perfuração atingiu grandes depósitos no subsolo. Fotografias da época mostram homens de branco, em mangas de camisa e usando chapéus, posando diante de um líquido preto que jorrava desenfreadamente do chão, como um imenso gêiser. O petróleo ficou ali, esguichando sem controle, por nove dias, a uma taxa estimada de 100 mil barris. Foi uma das maiores explosões de todos os tempos – um acidente que, no entanto, revelou ao mundo o imenso potencial das reservas do país.

Nesse período, incentivadas pelo ditador Juan Vicente Gómez, dezenas de empresas petrolíferas começaram a perfurar poços em solo venezuelano. A maioria delas, americanas – o que, nas décadas seguintes, foi moldando uma simbiose entre a elite do país e os Estados Unidos.

“A gente encontra muito na literatura o termo ‘excepcionalismo venezuelano’, um fenômeno gestado ao longo do século XX em que os venezuelanos se entendiam como uma nação diferente. Até a eleição de Hugo Chávez, eram totalmente voltados para os Estados Unidos, nem sequer se viam como sul-americanos – vamos lembrar que Caracas e Miami ficam a apenas três horas de voo”, explica Carolina Silva Pedroso, professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora da tese de doutorado Entre o bolivarianismo e a adesão à hegemonia: a relação de Venezuela e Estados Unidos durante o chavismo (1999-2013).

Na famosa era dourada, em que o país era chamado de Venezuela Saudita, as elites faziam até mesmo compras triviais em Miami. “O petróleo foi se transformando nesse éthos venezuelano de ‘não somos um país latino-­americano comum, somos petroleiros’. É algo tão pronunciado que se reflete até na cultura das misses, por exemplo: mulheres que não parecem latinas, mas europeias ou norte-americanas. Além de tudo, a partir de 1958, era um país democrático rodeado por ditaduras militares”, completa Pedroso.

Esse vínculo se expressava até mesmo na paisagem.

“Quando fui designado para Houston, tive um déjà-vu impressionante. Ao aterrissar, ver as fazendas ao redor era exatamente como ver a Mesa de Guanipa [região petrolífera no Leste da Venezuela]. Meses depois, viajei de carro para Austin e o déjà-vu foi ainda mais forte. As empresas americanas fizeram praticamente um copy-paste do urbanismo: estradas, casas, tudo. É lógico: se você é brasileiro e vai fundar um acampamento na África do Sul, leva seu modelo cultural para se sentir confortável”, conta José Pereira. E lembra: na Venezuela, o beisebol é o esporte principal, as pessoas chamam pipoca de cotufa – uma corruptela para corn to fry, ou “milho para fritar”, que vinha escrito nas embalagens importadas – e calças jeans até hoje são chamadas de wrangler, em referência à marca. E assim por diante.

Em meio à projeção internacional, o país ia oscilando na tentativa de ter controle sobre o próprio petróleo. Avançava, andava várias casas para trás, avançava de novo. Em 1928, o país já havia se transformado no maior exportador do mundo e, em 1943, uma nova lei de hidrocarbonetos fixou um prazo de quarenta anos para as companhias transnacionais devolverem as concessões para o Estado, além de estabelecer um imposto sobre a renda do petróleo. Depois, uma lei tributária aprofundou essa diretriz e forçou as petroleiras que operavam no país a dividir com o Estado 50% de seus lucros líquidos com a exploração.

Na década de 1950, durante o governo do ditador Marcos Pérez Jiménez, o país suspendeu a outorga de novas concessões e, em 1958, já na transição democrática, estabeleceu uma participação estatal ainda maior nos rendimentos petrolíferos, que passou a incluir tributos que garantiam ao Estado cerca de 60% da renda gerada no setor.

Era dinheiro a rodo e foi nesse período que a economia do país viveu seu auge. Entre os anos 1950 e 1970, embalada pelos petrodólares, a Venezuela virou uma das economias com maior PIB per capita da América Latina. Em 1960, o governo eleito por voto popular de Rómulo Betancourt criou a Corporação Venezuelana de Petróleo (CVP), uma estatal concebida para concorrer com as companhias privadas. Era uma espécie de antecessora da PDVSA.

O pai de José Pereira trabalhou na CVP. Chegou a ser enviado pela companhia para fazer doutorado em Tulsa, Oklahoma. As empresas que atuavam na Venezuela despachavam funcionários promissores para se especializar na cidade americana conhecida como “a capital mundial do petróleo”. Fazer uma carreira ascendente seria questão de tempo, mas ele morreu jovem de um ataque cardíaco.

Apesar das medidas protecionistas, nos anos 1970 empresas estrangeiras – sobretudo americanas, como Exxon, Gulf, Texaco e Chevron – ainda controlavam a maior parte da produção de petróleo bruto no país, por meio do sistema de concessões. Em 1975, o Congresso Nacional da Venezuela aprovou a lei orgânica que nacionalizou a indústria e o comércio do petróleo. A Venezuela indenizou as empresas pelos ativos, em grande parte por meio de títulos da dívida pública, avaliados à época em cerca de 1 bilhão de dólares. As petrolíferas estrangeiras espernearam, alegando que o valor não chegava nem perto dos investimentos realizados em suas extensas estruturas de exploração e produção.

O presidente Carlos Andrés Pérez foi em frente e criou a PDVSA. Em 1º de janeiro de 1976 hasteou a bandeira da Venezuela no poço Zumaque I – aquele que, em 1914, havia marcado o início da exploração petrolífera no país. “O petróleo move hoje a história; devemos nos mover com ela!”, discursou no evento.

Para organizar a coluna vertebral da estatal, o governo nomeou uma junta diretiva formada por ex-funcionários das empresas estrangeiras do setor, presidida pelo general Rafael Alfonzo Ravard. O militar incutiu na PDVSA um padrão de respeito à hierarquia e à meritocracia e estabeleceu algumas prioridades. Uma delas era voltar a encontrar petróleo. Como teriam que encerrar suas atividades em 1983, as empresas concessionárias simplesmente haviam parado de investir e, por isso, as reservas do país seriam suficientes para apenas mais uma década.

Uma outra prioridade foi reorganizar a estrutura operacional da indústria venezuelana. Depois da nacionalização, a PDVSA herdou quinze concessionárias. A junta decidiu agrupá-las em torno de apenas quatro grandes operadoras. Assim nasceram a Lagoven, formada principalmente a partir da estrutura deixada por uma subsidiária da Exxon; a Maraven, a partir da Shell; a Corpoven, resultante da integração da antiga CVP com ativos da Mobil e de outras concessionárias menores; e a Meneven, formada a partir de uma subsidiária da Gulf Oil.

E lá estava a família Pereira Ruimwyk de novo. “Comecei minha carreira trabalhando em uma dessas empresas, a Meneven”, conta José Pereira.

Nos anos 1980, a PDVSA adotou uma estratégia agressiva de internacionalização. A estatal apostou em um sistema de refino mais próximo de seus principais mercados consumidores. Passou a deter participações em oito refinarias na Europa. Foi nesse período, em 1986, que adquiriu a Citgo.

Já na década seguinte, a empresa avançou com a chamada apertura petrolera: convênios operacionais que reabriram campos e trouxeram empresas privadas para auxiliar na exploração dos vastos depósitos de petróleo. O primeiro acordo operacional foi um projeto fechado por uma equipe da qual participava José Pereira. Pelo acordo, a empresa japonesa Teikoku Oil Co. ficou encarregada de reativar campos inativos ou de baixa produtividade na região centro-norte do país.

Nesse período, a PDVSA fundiu três de suas subsidiárias, Lagoven, Maraven e Corpoven, e passou a figurar entre as maiores petrolíferas do mundo. Rivalizava em escala e influência com gigantes estatais como a Saudi Aramco, da Arábia Saudita, e a National Iranian Oil Company, do Irã.

A Venezuela produzia 3,4 milhões de barris diários de petróleo. Os altos funcionários da PDVSA planejavam alcançar, em 2010, a marca de 6 milhões de barris diários. Se, com essa produção, a Venezuela tivesse a sorte de pegar um período de alta do preço do barril, ganharia tanto dinheiro que poderia se transformar no país com o maior PIB per capita da América Latina.

Era um belo plano de dominação mundial, não fosse um probleminha: onde tem muito dinheiro, tem disputas políticas – e das grossas. E onde tem petróleo esse combo ganha uma escala incomensurável.

 

“A PDVSA tornou-se algo como ‘um Estado dentro do Estado’. Seus executivos venezuelanos compartilhavam o ponto de vista das companhias petrolíferas internacionais, para as quais haviam trabalhado durante muitos anos”, escreveu o franco-venezuelano Bernard Mommer logo no início do artigo Petróleo subversivo, publicado em 2002 em uma coletânea chamada O petróleo no pensamento econômico venezuelano, da qual foi coautor.

Mommer, um matemático com doutorado em ciências sociais, foi parar em Caracas nos anos 1970, onde virou um aguerrido intelectual de esquerda. No artigo, ele afirma que, no período anterior à chegada de Chávez ao poder, a política venezuelana foi dilacerada por dois movimentos subversivos. Um deles, bem conhecido, ocorria dentro das Forças Armadas. Outro, invisível, dentro da PDVSA.

O intelectual traçou até o que chamou de “alguns paralelos notáveis” entre o desenvolvimento de ambas as correntes. “Chávez fundou seu movimento por volta de 1982; os executivos da PDVSA embarcaram em sua estratégia de internacionalização em 1983”, escreveu ele. E prosseguiu:

Tanto os executivos da PDVSA quanto Chávez e seus seguidores estavam convencidos de que o regime político vigente naquele momento já não tinha solução. No julgamento de ambos os grupos conspiradores, o desperdício das receitas petrolíferas desempenhou um papel crucial nesse declínio contínuo. Tanto os militares quanto a PDVSA assumiram uma atitude moralizante e culparam a corrupção pela crise. Os militares sonhavam em salvar o país; os executivos da PDVSA sonhavam apenas em salvar a indústria petrolífera das mãos do país.

Com esse ideário, o franco-venezuelano se transformou no principal ideólogo da política chavista para o setor energético – e acabaria cruzando o balcão da academia para assumir postos importantes, como o de vice-ministro de Hidrocarbonetos, diretor de PDVSA e, depois, da PDV UK, subsidiária da estatal em Londres. Hugo Chávez costumava brincar que o francês era a única pessoa capaz de falar de petróleo de uma maneira que ele entendia.

O artigo de Mommer é o sumo do argumento usado pelo lado chavista na peleja entre duas visões de mundo que aconteceu na PDVSA – e que se transformaria em um abraço de afogados para o país.

De um lado, tecnocratas que entendiam tudo do setor, mas acreditavam que era preciso deixar a administração da empresa longe das garras do Estado para que ela pudesse produzir riqueza – a ponto de operar suas empresas no exterior sem dar satisfação ao Estado. Mommer escreveu que eles fizeram a internacionalização da estatal “com o objetivo de criar um mecanismo para transferir lucros para fora do alcance do governo”.

De outro, o chavismo, que acreditava que cada tostão que entrava na estatal deveria ser imediatamente distribuído para o povo, na forma de programas sociais. Chávez acusou a elite da PDVSA de receber “salários obscenos que ultrapassam a imaginação de qualquer pessoa” – 24 mil dólares por mês, em um país onde a maior parte dos trabalhadores ganhava 180 dólares mensais. Em sua retórica inflamada, às vezes engraçada, dizia que eles viviam em “suntuosos chalés nos Andes”, e faziam “bacanais onde o uísque corre solto”.

Essa corda foi esticada até romper. Assim que assumiu, Chávez manteve a autonomia técnica da empresa e se limitou a indicar seus presidentes. As rusgas com a cúpula começaram quando ele planejou vender a Citgo. Acabou dissuadido por dois generais que ele mesmo colocara na presidência da PDVSA e da subsidiária americana. Os generais o levaram para a sede em Houston e, em uma apresentação, argumentaram que o país não havia desembolsado dinheiro vivo com a compra da refinaria, feita com estoques de barris. Chávez mudou de ideia: ‘A Cit­go não está à venda”, declarou.

Esse episódio terminou pacificado, mas a guerra ideológica dentro da estatal não demorou a começar. No documentário PDVSA: de la esperanza al colapso, produzido por um grupo de opositores do chavismo e de Maduro, o general Guaicaipuro Lameda, nomeado em 2000 por Chávez para a presidência da estatal, conta os bastidores do começo do azedume. Em 2001, Lameda foi levado por Chávez a Cuba e teve um almoço particular com Fidel Castro.

Fidel, diz ele, tentou convencê-lo a transformar a PDVSA em um braço financeiro para a “expansão do pensamento revolucionário no continente americano”, implantando a seguinte receita: calcular a quantidade de renda petroleira necessária para manter a população venezuelana em nível de subsistência, mas com esperança, e “queimar” o excedente. Quando o general perguntou a Fidel o que isso significava, ouviu que esse dinheiro seria muito útil para “comprar consciências e colaborações no nível nacional e internacional para apoiar nossa expansão”.

Lameda voltou para a Venezuela e, em janeiro de 2002, renunciou à presidência da PDVSA. Chávez o chamou de traidor da pátria.

Nas semanas seguintes, a cúpula da empresa passou a se queixar de que Chávez estava afastando diretores e gerentes que entendiam do riscado para substituí-los por indicados políticos, sem experiência no setor. A empresa começou a borbulhar por dentro. Funcionários deixaram a sede de La Campiña e foram protestar em semáforos, denunciando a politização da atividade petroleira. Lideranças da estatal publicaram um manifesto no jornal El Nacional, de linha conservadora, exigindo a renúncia do presidente da PDVSA que sucedera Guai­caipuro Lameda – Gastón Parra Luzardo, um economista de esquerda – e ameaçaram interromper os embarques de petróleo.

Chávez meteu o pé na porta. No dia 7 de abril de 2002, em uma transmissão ao vivo na televisão e no rádio, demitiu sete executivos da PDVSA. Leu o nome de cada um e ordenou: “Fora! Você está demitido!” Sob aplausos de apoiadores, soprou um apito e gritou: “Offside! […] essas pessoas se tornaram sabotadoras de uma empresa que pertence a todos os venezuelanos!”

A partir daí, o conflito transbordou. Os funcionários da PDVSA se somaram a outros setores descontentes com um pacote de leis recém-aprovadas, que iam da reforma agrária à legislação financeira e pesqueira. Entraram em cena a Fedecámaras (na época, a principal câmara de comércio da Venezuela), a CTV (Confederação dos Trabalhadores da Venezuela), a Igreja Católica e parte da imprensa. Juntos, organizaram uma primeira paralisação, ainda parcial.

Quatro dias depois da demissão dos executivos, multidões foram às ruas de Caracas exigir a renúncia de Chávez, enquanto outra multidão saiu para defendê-lo. O encontro entre os dois grupos terminou em tiroteio – dezenove pessoas morreram. Na madrugada de 12 de abril, militares de alta patente retiraram Chávez do Palácio de Miraflores, a sede do governo, e o conduziram a uma base militar em Caracas. O golpe militar durou dois dias. Chávez retornou ao poder, impulsionado por uma mobilização gigantesca de apoiadores – organizada, em grande parte, por meio de rádios comunitárias – e por manifestações de lealdade da guarda presidencial.

Em um primeiríssimo momento, Chávez adotou um tom conciliador. Reintegrou os diretores da PDVSA que haviam sido demitidos e substituiu novamente a presidência da empresa. Aos poucos, porém, começou a demitir funcionários que identificava como lideranças do movimento que desaguara em sua breve saída do poder.

Eles revidaram. Em dezembro, a PDVSA tornou-se o epicentro de uma ampla greve, o chamado paro petrolero, que se estendeu por dois meses. A aposta era clara: uma paralisação na época do Natal provocaria uma pane no país e geraria revolta suficiente para derrubar Chávez mais uma vez. Não foi o que aconteceu e a greve foi perdendo o fôlego até se esgotar. Quando o movimento terminou, Chávez endureceu de vez: demitiu 20 mil funcionários da estatal – aproximadamente metade do quadro da empresa – em uma cacetada só, que ficou conhecida como “o expurgo”.

A partir daí, tomou conta da PDVSA.

“Esses eventos mudaram toda a política do chavismo. É a partir daí que começa a nascer de forma muito mais intensa a polarização política no país, de realmente haver uma divisão entre as pessoas”, analisa a professora Carolina Pedroso, da Unifesp.

 

Durante o paro petrolero, Rafael Ramírez era o ministro de Energia e Minas, encarregado de enfrentar a chamada “sabotagem petrolífera”. Quase um ano depois do fim da greve, Chávez o nomeou também presidente da PDVSA. Ramírez ficou nos cargos por quase uma década, até 2013. Tornou-se um dos personagens mais poderosos e, ao mesmo tempo, controversos da história recente da Venezuela. Sob sua gestão, a estatal passou por mudanças profundas. A empresa deixou de ser apenas uma operadora do setor petrolífero tradicional e se transformou no motor da Revolução Bolivariana. Passou por uma reestruturação para financiar e administrar programas sociais, as misiones.

A PDVSA ganhou subsidiárias criadas para administrar necessidades populares que não tinham relação direta com o negócio do petróleo. A PDVAL (Produtora e Distribuidora Venezuelana de Alimentos), por exemplo, importava e vendia comida a preços tabelados, porque Chávez acusava o setor privado de estocar alimentos para gerar escassez e vender mais caro.

Ramírez defendia que essa estratégia reduziria a pobreza no país. Era o que chamava de “semeadura do petróleo”, feita para benefício popular. Em 2003, George Bush invadiu o Iraque e, a partir daí, o valor do barril de petróleo foi para as al­turas, o que permitiu ampliar o financiamento de programas sociais. De fato, a pobreza no país encolheu, e muito. Entre 2003 e 2011, a pobreza caiu 54,5%. A pobreza extrema caiu 38%. Tudo com o dinheiro que jorrava da PDVSA.

Chávez criou também o Fonden (Fundo de Desenvolvimento Nacional). A PDVSA passou a transferir seus petrodólares direto para esse fundo, e os recursos eram usados pelo governo para financiar de programas sociais à ajuda financeira a outros países.

Em 2007, Chávez fez a segunda grande nacionalização do setor. Determinou que todos os projetos da Faixa Petrolífera do Orinoco, a maior reserva de petróleo pesado do planeta, fossem convertidos em empresas mistas, com participação obrigatoriamente majoritária da PDVSA. A ExxonMobil e a ConocoPhillips, que até então se fartaram com lucros polpudos, deixaram o país e iniciaram processos de arbitragem internacional para buscar compensação pelos investimentos que fizeram.

José Pereira participou da fase de arbitragem internacional da ExxonMobil na Câmara de Comércio Internacional. Como se saiu muito bem, acabou entrevistado por Chávez em seu programa dominical de televisão, Aló Presidente, onde foi chamado de herói. A sua “façanha épica” foi alardeada até nos protetores de tela dos computadores da PDVSA.

“A Exxon cometeu um erro grave, porque trabalha basicamente com out­sourcing (terceirização de serviços) e o escritório de advocacia contratado pa­ra cuidar do caso traçou uma péssima estratégia jurídica. Recebeu uma indenização em torno de 300 milhões de dólares, quando havia investido bilhões. O problema é que eles conduziram a arbitragem muito mal”, disse Pereira à piauí.

À medida que a era Chávez avançava, a politização da estatal era escancarada, sem pudores. Rodou o mundo o vídeo em que Rafael Ramírez bradou, em um evento, que a PDVSA agora era roja, rojita (vermelha, vermelhinha) e que aqueles funcionários que não apoiassem a Revolução Bolivariana deveriam sair. A ocupação vermelha horrorizou os tecnocratas que ainda tocavam o dia a dia da empresa.

José Pereira, por exemplo, pegou o finalzinho desse período, quando saiu da CVP, que a essa altura havia de novo se transformado em uma subsidiária da PDVSA, e foi transferido para a sede da estatal. Chegou em janeiro de 2012 para ser diretor financeiro. Trabalhou em uma sala ampla com móveis de madeira e couro no oitavo andar da torre Oeste de La Campiña. Chocado, descreve em seu livro detalhes da festa chavista. Define a recepção como um “mercado persa”, sempre lotado de pessoas com camisetas e bonés vermelhos, esperando “não se sabe o quê”.

Conta que havia um culto à personalidade, com fotos de Chávez em absolutamente todos os lugares e que, toda semana, os executivos precisavam deixar pronto o “livrinho de sexta-feira”, como chamavam um relatório semanal sobre as divisas recebidas pela PDVSA, além de projeções mensais e todos os fundos discricionários. A preparação do documento, escreveu, deixava a todos estressadíssimos.

“Chávez carregava esse livrinho no bolso da camisa todo fim de semana, quando apresentava seu programa Aló Presidente, ou quando participava das reuniões com as comunidades, conhecidas como ‘governo de rua’. Dessa forma, ele distribuía os recursos da nação de maneira pródiga e demagógica, como se fosse o Papai Noel no Natal”, criticou.

A estatal também virou um imenso cabide de empregos. Rafael Ramírez, que no livro de José Pereira é identificado apenas como R. R., tinha vários parentes na folha de pagamento – mulher, irmãos, cunhado, primos e a sogra, Hildegard Rondón de Sansó, magistrada que trabalhou como assessora jurídica da empresa nos processos de nacionalização e era uma aguerrida defensora da venda de todos os ativos da estatal no exterior, como a Cit­go (Pereira também não a nomeia diretamente no livro).

“A falta de moral e de ética permeava todos os departamentos ligados à área de finanças, que mais parecia uma coleção de amantes e favoritismos”, escreve o ex-presidente da Citgo em outro trecho. Uma de suas gerentes, relatou ele, era amante do vice-­presidente de Finanças, Víctor Aular Blanco, e estava grávida de um filho dele. Segundo Pereira, o sócio-gerente da empresa que fazia auditoria na PDVSA perguntou a Victor Aular o que ele, casado, faria em relação à moça na empresa. Ele respondeu, às gargalhadas: “Não se preocupe, eu gosto de ter muitos bebês.”

A passagem de José Pereira pela sede da PDVSA em La Campiña, para seu alívio, durou pouco. Cinco meses depois, ele foi transferido para Houston – primeiro como vice de Finanças, depois virou presidente.

Quando Chávez descobriu que o câncer havia retornado, em 2012, precisou pensar em sua sucessão política. Ficou entre três opções: Diosdado Cabello, militar da reserva então presidente da Assembleia Nacional; Rafael Ramírez, o czar do petróleo; e Nicolás Maduro, vice-presidente e chanceler.

Chávez morreu em 5 de março de 2013 e, como se sabe, optou por Maduro – cujos problemas começaram logo. Em 2014, houve uma queda global nos preços do petróleo. A PDVSA, encrencada em uma crise de fluxo de caixa, foi forçada a retirar milhões de dólares em empréstimos do Banco Central da Venezuela. Ou seja, em vez de jogar dinheiro para o governo, teve que pedir.

Assim que o dinheiro do petróleo sumiu, o país entrou em colapso. Os ganhos sociais evaporaram rapidamente, a hiperinflação explodiu, a fome se generalizou – veio a diáspora, que expulsou mais de 7 milhões de venezuelanos do país. Estudos como a pesquisa Encovi, de 2021, feita pelas principais universidades venezuelanas, indicaram que mais de 90% da população estava em algum nível de pobreza.

A PDVSA, que já era um ninho de cobras, ganhou um alçapão.

 

Em um mesmo pacotão, o governo Maduro colocou boa parte da velha guarda do chavismo que estava na PDVSA para correr. Um mês depois da prisão dos Citgo6, chegou a vez do próprio Rafael Ramírez e de seus aliados.

Bernard Mommer, o guru de Chávez e arquiteto da soberania petrolífera, teve prisão decretada e só escapou de um destino parecido com o dos Citgo6 porque estava fora da Venezuela. Acusação: teria manipulado dados sobre os preços do petróleo bruto venezuelano para beneficiar empresas compradoras.

Também caiu Diego Salazar Carreño, primo de Ramírez. Foi acusado de gerenciar uma rede de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de euros através de bancos em Andorra, usando o nome da PDVSA. Está no tenebroso El Helicoide.

O efeito dominó ainda pegaria dezenas de pessoas, como Luis Mariano Rodríguez Cabello, primo, advogado e braço direito de Diego Salazar, apontado como testa de ferro que ocultava o dinheiro do esquema em bancos de Andorra. Ou Fidel Darío Ramírez, diretor-geral de Serviços de Saúde e Assistência da PDVSA durante a gestão do irmão Rafael Ramírez. Foi enviado para a Boleíta.

Victor Aular Blanco, o vice de Finanças que adorava ter bebês à custa da PDVSA, foi preso e acabou gravando um vídeo, divulgado pelo procurador Tarek William Saab. Em 9 minutos, confessou que, em 2012, Ramírez havia pedido sua ajuda para fazer um empréstimo em bolívares com uma empresa privada chamada Atlantic, com pré-acordo para pagamento em dólares à taxa oficial do Banco Central. Era um esquema que violava a legislação cambial venezuelana. E a diferença entre a taxa oficial e a taxa paralela permitiu que funcionários da estatal obtivessem ganhos extraordinários.

Rafael Ramírez foi acusado de participar desse esquema e de outras cositas más. Depois de dez anos à frente da estatal, ele já havia sido afastado por Maduro da PDVSA e enviado a Nova York para ser embaixador quando a Venezuela entrou no Conselho de Segurança da ONU. No momento em que as denúncias explodiram em Caracas, Maduro o chamou de volta. Ramírez foi mais ligeiro. Enviou uma carta de quatro páginas renunciando ao cargo e fugiu para a Itália, onde vive até hoje, a despeito dos pedidos de extradição e dos alertas vermelhos enviados à Interpol, feitos pela Venezuela.

Usando um capacete vermelho com o logo da PDVSA, Maduro aproveitou um evento para esbravejar no microfone: “O rato imundo Rafael Ramírez, protegido pelo império americano, vivendo num castelo, uma mansão na Itália! A Justiça venezuelana vai te pegar, seu ladrão de galinhas!”

Ramírez nega as acusações e diz que é vítima de perseguição política, porque representava uma ameaça a Maduro. E diz que o ex-ditador traiu o ideal chavista.

A novela da PDVSA continuou – com capítulos dramáticos e grandes viradas.

 

Em 2022, Tareck El Aissami que já fora vice-presidente de Maduro e àquela altura acumulava o cargo de ministro de Petróleo com o de presidente da PDVSA, foi ao Ministério Público da Venezuela apresentar uma denúncia de empréstimos fraudulentos contra Rafael Ramírez, a mesma que depois motivou a confissão gravada de Aular. El Aissami chamou Ramírez de “ladrão miserável”, que teria feito os desvios enquanto Hugo Chávez estava muito doente.

Mas então, em abril de 2024, aconteceu o inconcebível: chegou a vez do próprio Tareck El Aissami, chavista de primeira hora e personagem novelesco da política venezuelana. Sobrinho-neto de um ex-vice-presidente da Síria nos anos 1960, El Aissami foi líder estudantil na Universidade de Los Andes, onde se formou em direito e se aproximou do professor Adán Chávez, o irmão de Hugo Chávez.

Costuma ser descrito pela imprensa venezuelana, ou pelo que restou dela, como um sujeito misterioso, sempre rodeado por empresários da comunidade árabe. Quando os Estados Unidos apertaram o torniquete em torno de Maduro, ele teve importância crucial nos contatos diplomáticos com o Irã e com a Turquia, para abrir rotas alternativas de exportação do petróleo da PDVSA e importar alimentos.

No começo de 2023, uma auditoria interna achou um rombo de 21,2 bilhões de dólares nas contas da PDVSA, que aparecera bem no período em que El Aissami presidia a empresa. De acordo com a Bloomberg, em uma reunião ministerial Delcy Rodríguez informou a El Aissami que o governo iniciaria uma investigação sobre acusações de corrupção na estatal. No dia 20 de março, o ministro anunciou em suas redes sociais que estava se afastando do governo para respaldar a investigação e “a cruzada contra os antivalores que estamos obrigados a combater, até com a vida”. Depois, submergiu. Só reapareceu um ano depois, em fotos e vídeos divulgados pelo governo em que está de camiseta cinza, algemado e preso – adivinhe só, pelos mascarados de preto.

O procurador-geral Tarek William Saab informou que El Aissami burlou os controles administrativos da PDVSA, escondendo operações ilegais por meio de criptomoedas. O esquema desviou mais de 23 bilhões de dólares. Com ele, foram presos outros setenta funcionários da estatal, cujos nomes não foram divulgados. Mas o mistério em torno dele continua: ninguém sabe onde ele está preso.

Dois dias depois da renúncia de El Aissami, o Ministério de Petróleo foi entregue a Pedro Tellechea Ruiz, que já estava na presidência da PDVSA. Tellechea é um coronel de 48 anos que já presidiu a Pequiven (Petroquímica de Venezuela, uma outra estatal) e integrava a trupe de militares gradualmente colocada por Maduro em lugares estratégicos na administração petrolífera do país.

Assumiu os dois postos se comprometendo a varrer a corrupção entranhada na estatal e a aumentar sua produção, que estava reduzida a 200 mil barris por dia, para 1,7 milhão. Conseguiu atingir 900 mil. Não bateu a meta, mas foi elogiado por Maduro, que resolveu transferi-lo para o Ministério das Indústrias e Produção Nacional. “Ele já fortaleceu a PDVSA e temos de recuperar o parque industrial”, disse o ditador, ao nomeá-lo para o novo cargo. Em outubro de 2024, foi subitamente afastado. Colocou a imagem de um Jesus crucificado em suas redes sociais e anunciou que estava saindo por motivos de saúde.

Acabou preso três dias depois em sua casa, na madrugada de um domingo. O procurador Tarek William Saab emitiu um comunicado curto, dizendo que ele foi detido “junto com seus mais imediatos colaboradores” por graves delitos contra interesses da nação. Entre eles, a entrega do controle do sistema de transferência automatizada “conhecido como o cérebro da PDVSA, a uma empresa controlada pelo serviço de inteligência dos Estados Unidos”. Como no caso de El Aissami, não se divulgou o nome dos outros presos – e nem mesmo para onde ele foi levado.

 

A PDVSA, a estatal que se confunde com um país inteiro, é hoje sombra do que já foi. Na era Chávez, se transformou em um instrumento de financiamento da Revolução Bolivariana; na era Maduro virou uma estrutura de sobrevida para o governo, tateando um mercado paralelo global para contornar sanções americanas – o governo Trump bloqueou as contas da empresa nos Estados Unidos e proibiu a venda dos diluentes necessários para processar o pesado petróleo venezuelano.

A produção diária caiu para 700 mil barris, depois gradualmente se recuperou para 1,2 milhão, patamar em que se encontra hoje. Sem manutenção, sem equipe especializada, a infraestrutura ficou sucateada. No país do petróleo, os moradores precisam fazer rodízio definido pelo número final da placa do carro para abastecer automóveis.

A situação da Citgo tornou-se ainda mais insólita. Se a PDVSA era um ‘Estado dentro do Estado’, sua subsidiária transformou-se em um enclave do Estado em solo estrangeiro.

Em 2019, o ex-presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, usou um artigo da Constituição para se autoproclamar presidente interino da República, na marola causada pela declaração de ilegitimidade da reeleição de Maduro. Os Estados Unidos reconheceram Guaidó na Presidência da Venezuela, e a Citgo, com sua sede americana, passou a ser administrada por um conselho administrativo nomeado pelo autointitulado presidente do país. O conselho chama-se PDVSA Ad Hoc.

É um grupo formado por vários ex-­altos funcionários da PDVSA que entraram em atrito com Chávez durante as quedas de braço que deram no paro petrolero. Coube a esse grupo, de forma totalmente independente de Maduro, tentar blindar a Citgo dos credores e trabalhar em coordenação com a nova administração da empresa.

E a confusão já era grande. Em 2008, descontente com a nacionalização feita por Chávez que resultou na expropriação de uma de suas minas, a canadense Crystallex entrou na Justiça pedindo indenização da Citgo. Outras empresas adoraram a ideia e fizeram o mesmo. Juntas, cobram 19 bilhões de dólares da subsidiária da PDVSA em Houston.

Como nada está tão ruim que não possa piorar, a Justiça dos Estados Unidos acabou autorizando a compra da Citgo pela empresa americana Elliott Investment Management, por cerca de 5,9 bilhões de dólares. Um juiz do Tribunal Federal de Delaware entendeu que a empresa é um “alter ego” do governo venezuelano e, por isso, seus bens podem perfeitamente ser usados para pagar dívidas por expropriações feitas por Chávez e Maduro. A PDVSA  Ad Hoc entrou com recurso para tentar impedir a venda, alegando que o valor oferecido pela empresa está muito abaixo do seu valor de mercado, avaliado em 12 bilhões de dólares.

Menos de uma semana depois de sequestrar Maduro e anunciar que os Estados Unidos tomariam as rédeas da produção de petróleo na Venezuela, Donald Trump se reuniu na Casa Branca com executivos das gigantes do setor. Pediu que o grupo investisse 100 bilhões de dólares no país. O presidente da ExxonMobil, Darren Woods, respondeu que a Venezuela é “não investível”. E justificou: “Nossos bens foram confiscados duas vezes e, portanto, você pode imaginar que para entrar uma terceira vez seriam necessárias algumas mudanças bastante significativas em relação ao que historicamente vimos aqui”, disse. Trump, bem ao seu estilo, ficou irritado. “Não gostei da resposta da Exxon. […] Eles estão se fazendo de engraçadinhos demais”, reclamou, a bordo do avião Air Force One.

Dias depois, Trump compartilhou em sua rede social, a Truth Social, uma montagem em que ele aparece como presidente interino da Venezuela em sua página na Wikipédia. Delcy Rodríguez reagiu: “Vi algumas imagens sobre quem manda na Venezuela. Bem, aqui há um governo que manda na Venezuela, aqui há uma presidente em exercício e há um presidente refém nos Estados Unidos, e governamos junto com o povo organizado.” Mas negócios são coisas à parte, mostrou ela em seguida. No dia 16 de janeiro, Delcy Rodríguez apresentou à Assembleia Nacional uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos – e esse foi exatamente o pedido do presidente da Exxon. Aprovado no dia 29, por unanimidade, o novo pacote autoriza as empresas privadas a explorar e comercializar a produção de petróleo sem a participação do Estado.

“Conheço bem o funcionamento desse mundo, o presidente da Exxon foi só o porta-voz. As demais empresas não se manifestaram publicamente, mas isso já estava acordado entre eles antes”, diz José Pereira. Ele prevê que, agora, as empresas americanas vão pressionar bastante para estabelecer suas condições. A nacionalização do petróleo venezuelano, até a próxima reviravolta, foi para as cucuias.

 

Em 1977, a revista The Economist criou o termo “doença holandesa” para descrever a crise que quase soterrou a Holanda depois que imensas reservas de gás natural foram descobertas em Groningen, na década de 1960. Ocupado em extrair e exportar o recurso natural em grandes volumes, o país quase destruiu sua indústria têxtil e outros setores.

A expressão se alastrou pelo mundo e é exaustivamente aplicada ao caso venezuelano. Duas décadas antes da invenção da expressão, nos anos 1950, o brasileiro Celso Furtado já mostrara que a montanha de dinheiro oriunda do petróleo no país criava uma economia artificial que asfixiava os outros setores produtivos. Em Os ares do mundo, sua bela autobiografia intelectual, Furtado, que foi um estudioso incansável das armadilhas econômicas que aprisionam a América Latina na pobreza, lamenta que a Venezuela tenha sido uma oportunidade perdida: foi o primeiro país latino-americano com chances reais de virar uma nação desenvolvida.

O ex-presidente venezuelano Rómulo Betancourt (o que criou a CVP, onde José Pereira e seu pai trabalharam), publicou em 1956 o livro Venezuela, política y petróleo, considerado uma joia do nacionalismo petrolífero venezuelano. Ele escreveu: “Uma avalanche de dólares e de libras esterlinas chegou a um país que não havia democratizado nem modernizado seus sistemas de produção, que no século XX produzia nos moldes do século XVIII, governado por uma tirania grosseira e predadora, incapaz de reformar a estrutura econômica para utilizar o petróleo.”

E prosseguiu:

A presença avassaladora do petróleo operou, porém indiretamente, como um fator deformador da economia e da vida nacionais em seu conjunto. Os setores privilegiados da população começaram a adquirir uma mentalidade mineradora, de novos-ricos esbanjadores. O fluxo ininterrupto de dólares estimulou as importações, o comércio se hipertrofiou e configurou-se, por anos, essa fisionomia de nação principalmente consumidora de mercadorias estrangeiras que a Venezuela teve por muito tempo. E começamos a parecer demais com aquela Califórnia desarticulada e movediça, paraíso de aventureiros e de trapaceiros dos anos da “loucura do ouro”.

Enquanto isso, o povo, ó: “Indefeso, analfabeto, humilhado”, escreveu.

Mesmo no auge da chuva de petrodólares, a desigualdade no país era abissal. Até para olhos brasileiros, os contrastes sociais em Caracas costumam ser impressionantes, com seus bairros ricos com prédios arrojados completamente cercados de comunidades populares construídas nas encostas.

Não à toa Juan Pablo Pérez Alfonzo, ministro de Minas e Hidrocarbonetos durante o segundo governo de Betancourt e idealizador da Opep junto com o saudita Abdullah al-Tariki, fez uma profecia que ficou famosa, principalmente porque se concretizou de forma retumbante: “Daqui a dez anos, daqui a vinte anos, você verá: o petróleo nos trará ruína. O petróleo não é o ouro negro, é o excremento do diabo. Estamos nos afogando no excremento do diabo.”

Há pouquíssimos países que escaparam dessa sina. Um dos exemplos mais cintilantes é o da Noruega – em parte, graças a um geólogo iraquiano, Farouk al-Kasim, que testemunhou como um país pode de fato se afogar nos próprios recursos naturais.

Executivo da Companhia Iraquiana de Petróleo, ele migrou em 1968 para a Noruega, país onde sua mulher nascera, atrás de um tratamento de ponta para o filho mais novo, que tinha paralisia cerebral. Conseguiu emprego no Ministério da Indústria e pegou a tarefa solitária de se debruçar sobre dados do Mar do Norte. Previu que ali estava um grande campo de petróleo. Os noruegueses, de fato, o acharam, no último poço aberto pela última empresa a desistir da prospecção. Era o campo de Ekofisk, uma das maiores bacias petrolíferas marítimas do mundo.

Depois, Al-Kasim foi para uma cabana na floresta e escreveu uma lista de recomendações para que o país não virasse um “Iraque do frio”. Entre uma polêmica e outra, o país acabou seguindo as diretrizes.

Criou um fundo soberano para administrar quase 100% dos lucros que o governo tem com petróleo, por meio da então estatal Statoil – uma PDVSA que deu certo. Não entra nenhum tostão na economia norueguesa, tudo vai para o exterior e é investido em ações, títulos e imóveis pulverizados em mais de setenta nações. Com isso, os petrodólares não invadem o país e não desvalorizam a moeda local – os outros setores produtivos, como indústria e pesca permanecem competitivos. O governo norueguês só pode colocar as mãos nos rendimentos do fundo se for para fechar as contas do orçamento do país. A gestão desse fundo é feita pelo Banco Central, longe de mãos ministeriais. E o pouco que é permitido usar do lucro é investido, obrigatoriamente, em educação e tecnologia.

É um espelho perfeitamente invertido de tudo o que foi feito na Venezuela, o país em que a maldição do petróleo tomou contornos de Realismo Mágico. E está agora voltando a ser uma colônia – desta vez, dos Estados Unidos.

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Branca Vianna | 28 nov 2011
 

Angélica Santa Cruz
Angélica Santa Cruz

É jornalista da piauí

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