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“Estou no mundo, sendo quem sou”

    Luedji Luna: em um meio no qual a mulher negra costuma aparecer apenas como intérprete potente, compor, para ela, equivale a afirmar o lugar de autoria, lingua­gem e pensamento CRÉDITO: BOB WOLFENSON_2025

cantoras do brasil

“Estou no mundo, sendo quem sou”

De projeto político de seus pais a estrela da música, Luedji Luna traça a própria rota – e se recusa a ser uma coisa só

Emily Almeida | Edição 227, Agosto 2025

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Foi a primeira vez que ela comemorou seu aniversário em um palco. Às 14h15 do dia 25 de maio de 2024, sábado, a cantora Luedji Luna entrou em cena, junto de Larissa Luz e Xenia França, suas companheiras no trio Ayabass. Era o primeiro dia do festival Doce Maravilha, no Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro. O céu estava carregado de nuvens, mas podia-se avistar o Cristo Redentor ao fundo. Não demorou muito para a chuva irromper.

O aguaceiro não alterou o ânimo festivo do público, nem o de Luedji, que festejava seus 37 anos. Para quem foi uma pessoa solitária durante tanto tempo, a comemoração, daquela vez, foi abundante. Além disso, a cantora se encontrava na companhia de duas mulheres negras baianas que, como ela, são exemplos de êxito na música brasileira nos últimos anos.

Aos 17 minutos do show, Xenia França disse à plateia: “Essa grande estrela brasileira que é influência hoje para tanta gente, para tantas meninas, tantas mulheres, tantas cantoras: uma salva de palmas, bem barulhenta, para Luedji Luna!” O público atendeu, com palmas e gritos. Em seguida, artistas e plateia entoaram em coro o Parabéns pra você. Quando Luedji cantava Banho de folhas, seu maior sucesso, entrou no palco o rapper Zudizilla, seu marido, carregando um bolo com cobertura branca.

 

Depois do show, no camarim, um grupo brindou de novo o aniversário da cantora, agora com uma garrafa de espumante rosé – seu favorito. “Estou fazendo o que faz sentido para mim e que, por isso, faz sentido para outras pessoas também”, disse ela à piauí, cercada de amigos. “É a primeira vez que comemoro um aniversário no palco e é muito simbólico celebrar expressando a minha vida.”

Desde a adolescência, Luedji quis viver um sem-número de histórias, de amor ou não. Enquanto não via a chance de materializar seus desejos na vida concreta, encontrou nas palavras escritas um tipo de irrupção da vontade. Mas as coisas mudaram. Ela conseguiu encontrar seu lugar no mundo – e tornou-se um dos nomes em ascensão na música brasileira. “É mais um ano de vida fazendo o que eu vim fazer na Terra e o que eu vim fazer na vida, que é compor e cantar”, afirmou, no camarim.

Desde seu primeiro álbum, Um corpo no mundo, lançado em 2017, Luedji abriu um espaço relevante na cena musical do país, especialmente devido ao sucesso das canções Banho de folhas (30 milhões de reproduções no Spotify e 9,7 milhões no YouTube) e Acalanto (21 milhões de reproduções no Spotify e 1,2 milhão no YouTube). Seguiram-se outros dois álbuns – e a carreira de Luedji disparou. Ela fez turnês internacionais, participou de festivais mundo afora, foi indicada ao Grammy Latino, tornou-se tema de dissertações de mestrado, fez parcerias com artistas brasileiros e internacionais, participou de programas de tevê e interpretou a música de abertura de uma novela das nove da Rede Globo (no remake de Renascer, cantou Lua soberana com Xenia França). Em abril de 2023, subiu ao palco ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Ivete Sangalo para se apresentar no Festival da Cidade, que comemorou os 474 anos de Salvador. Neste ano de 2025, com uma diferença de apenas dezessete dias, lançou dois álbuns: Um mar pra cada um, em maio, e Antes que a Terra acabe, em junho.

 

Com seus múltiplos interesses, chegou até o cinema. Luedji é uma das atrizes do novo filme de Anna Muylaert, A melhor mãe do mundo, cuja estreia está prevista para este mês de agosto. O longa-metragem conta a história de Gal, uma catadora que abandona sua casa com os dois filhos pequenos para fugir da violência do marido. Cogitada para interpretar a protagonista, Luedji chegou a fazer um teste para o papel. “Comecei a estudar essa mulher que apanhava do marido. Fui para o teste com a energia dessa mulher, até chorei. Ali eu fui muito atriz”, diz ela, agora na cozinha de sua casa em São Paulo. Apesar dessa entrega, não se sentia muito próxima da personagem. “Meu pai nunca bateu na minha mãe, meu avô nunca bateu na minha avó, meus tios não batem nas mulheres. Esse imaginário da família negra em um cenário de violência não existia para mim.”

Muylaert gostou do teste de Luedji, mas preferiu que ela fizesse outra personagem, Valdete, a prima da protagonista. O papel de Gal ficou com a atriz Shirley Cruz, que contracena com Seu Jorge, o marido violento. “Anna achou que eu deveria estar no filme de algum jeito. Foi uma experiência boa. Ela me deixou muito livre para improvisar”, recorda a cantora. Luedji já havia atuado em publicidades e nos clipes de suas músicas (mais recentemente fez uma aparição no remake da novela Vale tudo, mas como ela mesma), entretanto foi a primeira vez que atuou como atriz – trabalho “muito cansativo”, segundo ela. “Se eu fizesse como atriz algo que fosse muito importante para mim, até daria uma pausa na carreira de cantora. Mas faria sem maluquice, sem a ansiedade de querer engolir o mundo, de fazer tudo que aparece.”

Nos últimos tempos, Luedji tem pensado com mais cuidado sobre como quer aparecer para o público – e, sobretudo, quando não quer aparecer. “Nessa era atual, quero prezar muito pelo conforto. Quero prezar muito pela fluidez”, diz. Isso inclui uma estética mais simples, menos construída, mais próxima dela mesma, parecida com a do início da carreira. “Só não vou usar meu cabelo black porque ainda não está do tamanho que eu desejo. Mas à medida que ele for crescendo, vou usar meu próprio cabelo.” O desejo de se mostrar mais natural e de se expor menos está nos seus planos – tem a ver com os novos discos, mas também com uma decisão mais ampla. “Eu já entrego muita coisa para a música e não quero entregar a minha imagem também.”

 

É uma atitude incomum no meio artístico, em que a exibição nas redes sociais e em eventos tem sido tratada como exigência. “Se eu não aparecer em tal festa, em tal evento, em tal revista, eu sumo?” E ela mesma responde: “Não, eu não vou sumir, porque é a minha música que me leva.” Luedji reflete sobre a importância de ser ela mesma, do jeito que deseja: “O eu é a coisa mais potente que existe, no momento que vem à tona, não tem mais como conter.” Não importa o peso das expectativas – da indústria, do público, da fé, dos pais. “No final, o eu se impõe. Eu estou no mundo, sendo quem sou, e não tem nada nem ninguém que possa conter isso.”

 

Luedji Luna recebeu a piauí em sua casa, numa quarta-feira de abril. Ela e Zudizilla haviam comparecido pela manhã a uma reunião escolar de Dayo, o único filho do casal, de 4 anos. A cantora é alta – 1,80 metro –, fala pausadamente, de maneira refletida e precisa, pensando no silêncio entre as frases. Seu rosto de traços firmes tem uma beleza serena. À tarde, quando cheguei à sua casa, no bairro da Lapa, ela e o marido tinham acabado de voltar do supermercado, com os ingredientes para fazer uma moqueca. Enquanto ela tirava as compras das sacolas, ele foi estender roupas em um varal. A própria cantora iria preparar a moqueca a ser servida no Domingo de Páscoa, dia 20 de abril, para seus pais, que estavam chegando da Bahia dali a poucas horas para passar o feriado em São Paulo.

Sua mãe, Adelaide Gomes Santa Rita, de 65 anos, é economista. O pai, Orlando Santana Santa Rita, de 66 anos, é historiador. O casal está junto há 43 anos e vive em Lauro de Freitas, um município na Região Metropolitana de Salvador. Ambos trabalharam como funcionários públicos e hoje estão aposentados. Foram militantes do movimento negro e logo entenderam que a educação era o único caminho possível para obter segurança, sobretudo financeira, e para ascender socialmente. “Viemos de uma família de operários. Não tínhamos alternativa. Então ficou muito evidente na nossa vida que a gente precisava estudar”, conta Orlando. “Fizemos todo o investimento na formação dos dois.” Os dois são Luedji e seu irmão Usman, sete anos mais novo que a cantora.

Luedji Gomes Santa Rita nasceu em Salvador, em 25 de maio de 1987. Ela costuma dizer que foi uma criança planejada, um projeto político dos pais, a começar da escolha de seu nome, que veio do livro Lueji: o nascimento de um império, do escritor angolano Pepetela. A obra de ficção, de forte conteúdo político, é uma reflexão sobre o passado e o futuro de Angola a partir de duas mulheres, Lu e Lueji, cujas histórias aconteceram com uma diferença de quatrocentos anos.

A infância de Luedji não teve sobressaltos: ela pôde contar com o afeto dos pais, a comida na mesa, boas escolas particulares, o acesso a atividades culturais, as viagens de férias. Até os 7 anos, era filha única – e querida por todos os lados da família. O mundo só parecia desandar do lado de fora. “É a história de todas as crianças negras, principalmente nas escolas particulares: a de ser uma figura única. Você não tem muitos amigos, é considerada feia, sofre”, recorda Luedji. “O nome disso tudo é racismo, né? Mas as pessoas chamavam de bullying…” Havia ainda um tipo específico de omissão e silêncio: “Sem contar que tem esse lugar de abandono dos próprios professores, que eram passivos e coniventes com aquela violência.”

A solidão da menina continuava em outros ambientes. “Luedji era uma criança negra fazendo balé, e era só ela, uma criança negra que frequentava aulas de inglês, e era só ela”, lembra Orlando. “De todo modo, foi essa formação que contribuiu para o lugar de referência que ela ocupa hoje no mundo da música e das artes.”

Luedji passou muitos anos vivendo dentro de sua própria cabeça. “A gente falava que ela era meio viajada no seu mundo pessoal”, conta Usman. A cantora reconhece que, adolescente, vivia no seu universo privado. “Tenho muito essa experiência de me bastar, de criar minhas histórias, de criar meus amores. Por isso eu escrevo tanto. E acho que sou tão criativa porque habitei muito um lugar só meu. Porque o mundo não estava interessado em mim.”

Usman atribui essa distância do mundo real ao racismo que a irmã sofreu na escola. Não que ele estivesse imune. Afinal também era um jovem negro de classe média em uma escola particular majoritariamente branca. Mas, para ele, é possível que a solidão de Luedji tenha sido maior, ou mais dolorosa, por questões de gênero. “Esse lugar da solidão foi muito difícil para ela. Quando existe uma interação, parece que as mulheres são mais cruéis. A socialização para mim foi mais fácil, eu curtia mais esporte, por exemplo, e isso dava uma brecha”, diz Usman, que é formado em engenharia ambiental e trabalha com gestão de projetos em ONGs.

Ele e Luedji sempre foram muito próximos. Quando criança, Usman foi diagnosticado com síndrome de Kawasaki, uma doença inflamatória rara, da qual se curou por volta dos 3 anos de idade. Foi a irmã que ajudou a cuidar dele, enquanto os pais trabalhavam. Ela chegou a começar a alfabetizá-lo, antes que ele fosse para a escola. Também o introduziu na língua inglesa. A relação de cuidado entre os irmãos persiste na vida adulta. “Somos confidentes e parceiros. Hoje, a defendo de críticas, a acolho quando ela se sente insegura. Por outro lado, também sou o primeiro a criticar quando discordo de alguma conduta ou ação dela”, diz Usman.

Quando estava com 17 anos, Luedji assistiu ao videoclipe do megassucesso All the things she said, da banda t.A.T.u, e alguma coisa despertou nela, ao ver as cantoras russas Lena Katina e Julia Volkova se beijarem. “Era só um selinho, mas eu fiquei meio assim: wow! Sou de uma geração que não tinha muito isso. Não davam nome às coisas, então eu não pensava muito nisso.” (A banda passou a ser criticada, anos depois, por ter ganhado dinheiro e fama em cima da comunidade LGBTQIAPN+, da qual nunca fizera parte). Aos 18 anos, Luedji deu o primeiro beijo em uma mulher – e não demorou a se assumir bissexual.

Também aos 17 anos, depois do primeiro beijo em um rapaz, escreveu sua primeira canção: Pele – presente no disco Bom mesmo é estar debaixo d’água (Deluxe). Sua infância foi permeada por música. Luedji conta que, desde criança, sempre escreveu e cantou. “Era um lugar de brincadeira, com minhas amigas, sempre nesse tom lúdico.” No começo, criava as canções sem instrumentos, só de cabeça, guardando de memória a letra e a melodia. Foi com Pele que a composição veio de forma mais consciente. Mais tarde, ganhou um violão do namorado e, apesar de não tocar o instrumento, aprendeu acordes suficientes para vislumbrar como poderiam ser as suas músicas. “Era um violão bem baratinho, para iniciante mesmo. Mas muitas canções nasceram assim, como Acalanto”, conta. Depois, ela deixou o violão de lado e se colocou somente no lugar de letrista, compondo com músicos parceiros.

Seu pai garante que foi ainda aos 17 anos que Luedji falou com ele e a esposa sobre sua vontade de se dedicar à música. “Talvez ela nem se lembre, mas falou assim: ‘Vocês podem pedir para eu fazer o curso que quiserem, mas eu vou ser cantora e compositora’”, lembra Orlando. O anúncio causou surpresa, embora a música não fosse um assunto estranho na família: até recentemente, Orlando era integrante de um grupo musical chamado Raciocínio Lento. As primeiras referências musicais de Luedji vêm, aliás, dos artistas que ouvia com os pais, como Djavan, Milton Nascimento e Luiz Melodia (em Joia, do álbum Um mar pra cada um, ela sampleia a canção Pérola negra, de Melodia).

Adelaide teve mais dificuldade para aceitar o projeto da filha. “Eu estava muito focada que Luedji fizesse a graduação e depois um concurso público”, diz a mãe. “Na nossa família, eu, Orlando e meus cunhados fomos os primeiros a fazer um curso superior, com o maior esforço. Cheguei a entrar na Universidade Federal da Bahia, mas tive que largar para trabalhar, aquela história corriqueira das famílias negras… Só pude retomar a faculdade depois.”

Mãe e pai acolheram a vocação da jovem, mas Orlando fez uma ressalva: “De qualquer forma, você deve fazer primeiro uma graduação, porque é importante para a sua formação geral, independentemente do que você queira seguir depois como profissão.” Assim, o projeto de Luedji de se dedicar à música acabou ficando adormecido por alguns anos.

Em 2007, aos 20 anos, ela ingressou na escola de direito da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). A faculdade a aproximou da vida concreta. “Eu só fui começar a ser eu mesma, a explorar minha sexualidade e o mundo neste começo da vida adulta”, conta. “De repente, algo que ouvi a vida inteira – que eu não era desejável – deixou de ser verdade. Foi quando me dei conta de que havia um mundo acontecendo fora da minha cabeça, fora do meu quarto, fora das minhas escritas. Foi então que comecei a saber o que é viver, no sentido de me relacionar de verdade com o mundo.”

Durante a faculdade, Luedji chegou a estagiar no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Mas trabalhar com o direito não era o que queria. Aos 25 anos, terminada a faculdade, resolveu que finalmente tinha chegado a hora de apostar no seu projeto de se tornar cantora e compositora. “Tive uma epifania na cozinha. Morava com meus pais, estava lavando os pratos. Falei: ‘Vou cantar. Não sei como, não sei no que vai dar, mas eu vou cantar.’”

No dia seguinte, matriculou-se na Escola Baiana de Canto Popular. Logo, começou a fazer recitais. “Antes disso, a música parecia que era brincadeira, algo que nunca ia passar disso. Algo muito íntimo meu”, conta Luedji. “Eu achava que ser artista, na minha cidade, não era para mim. Só se eu cantasse axé ou fosse filha de artista, como da família Gil.” Seu primeiro show, intitulado Fiz uma canção para o vento, aconteceu em 2015, no Teatro XVIII, no Pelourinho, com composições próprias e de outros artistas. Ela estava com 27 anos.

Não é fácil ganhar a vida com a arte, e as perspectivas em Salvador eram ainda mais desalentadoras, conta Adelaide. Para ser reconhecido, o artista precisava se mudar de lá. “Infelizmente, a Bahia é uma terra cruel com seus filhos. Tem muita gente boa, é um celeiro de excelência de artistas, poetas, escritores, mas você não vê um aproveitamento.” A mãe se entristecia ao ver Luedji cabisbaixa, aborrecida por não conseguir um espaço para cantar. Depois de muito se angustiar com a situação, Adelaide um dia sugeriu: “Ô, Lu, se você quer tentar, vá para um lugar que te dê oportunidade.” Luedji foi.

 

A vida cultural de São Paulo atrai artistas de todas as partes do país com a promessa de visibilidade, conexões e – se a sorte ajudar – uma chance concreta de sucesso. Neste ano, completou uma década desde que Luedji fez seu primeiro show e trocou Salvador pela capital paulista, decidida a investir na carreira de cantora e compositora. Sua mãe pagou a passagem e encontrou a primeira moradia para a filha: por um ano, Luedji viveu na casa de uma amiga de Adelaide, no bairro da Barra Funda.

De início, a vida paulistana não teve nada de glamourosa. Para se manter na metrópole, a cantora foi atrás de um emprego. Conseguiu uma vaga como recepcionista bilíngue numa seguradora suíça estabelecida na Avenida Paulista. Enquanto trabalhava, ela começou a planejar sua carreira a partir do que intuía e, sobretudo, observava. Fez uma pesquisa sobre os artistas de que gostava em São Paulo e passou a prestar atenção nos passos que davam: em que casas de shows tocavam, onde apareciam, para que veículos davam entrevistas. A partir disso, procurou os mesmos lugares de shows, com um pequeno portfólio, apresentando-se como uma cantora baiana recém-chegada em São Paulo.

Luedji chegou a criar uma produtora fictícia para contatar algumas casas de shows na cidade. “Eu ficava na internet mandando meu portfólio. Escrevia em terceira pessoa, como se não fosse eu mesma escrevendo, como se tivesse uma produção atuando para mim, sabe?”, ela conta, rindo. As coisas não demoraram a acontecer. “Eu tive muito mais ‘sim’ do que ‘não’ em São Paulo. Por isso que eu digo que foi uma cidade muito generosa comigo.”

Ao participar do projeto Sofar Sounds, que apoiava músicos autorais, Luedji conseguiu uma assessoria, e sua carreira foi se profissionalizando. Uma apresentação de Banho de folhas que fez para esse projeto viralizou na internet. A música ainda não havia sido gravada. “Foi hit antes mesmo de nascer”, diz a cantora. Graças a contatos com pessoas negras que trabalhavam com cinema, gravou seu primeiro clipe em uma fábrica de cultura que oferecia equipamentos profissionais sem custo – era só entrar numa fila. “Foi assim que gravei Um corpo no mundo, porque na época eu era dura”, recorda. “Eu ganhava só o suficiente para sobreviver. Não daria para custear um estúdio, músicos, mixagem.”

Na internet, o clipe teve certo alcance. Pessoas famosas, como o cantor Chico César, passaram a segui-la nas redes sociais, e os novos fãs pediram um disco. Ela então começou a esboçar o projeto do álbum Um corpo no mundo. Criou uma vaquinha, inscreveu-se em editais públicos e foi contemplada pelo Prêmio Afro, projeto patrocinado pela Petrobras. Ficou em primeiro lugar, e recebeu 80 mil reais. “Tive que ter coragem, bater na porta e fazer por mim. Eu vim para São Paulo sozinha. Não tinha expertise de nada, mas aprendi fazendo. Aprendi tendo que fazer”, diz.

Quando ainda trabalhava na seguradora na Avenida Paulista, Luedji tirou férias para se iniciar no candomblé, já que precisava de algum tempo de isolamento. Um dia antes de voltar ao trabalho, quando estava em um quarto de santo – cômodo sagrado dentro de um terreiro onde ocorrem os rituais de iniciação –, Luedji lamentou ter que voltar ao trabalho. Coincidentemente, no dia seguinte, a empresa terceirizada para a qual prestava serviços a demitiu. Ela viveu da indenização durante algum tempo, enquanto prosseguia em seu projeto na música.

Em 2017, quando já estava em São Paulo havia dois anos, Luedji lançou Um corpo no mundo, com onze faixas, inclusive Banho de folhas e Acalanto. Produzido pelo sueco Sebastian Notini, que trabalhou com artistas como Virgínia Rodrigues e Tiganá Santana, o disco transitava entre a mpb, o jazz e ritmos afro-brasileiros. Seu nome aludia à solidão, ao não pertencimento a um lugar, à busca por um território próprio, entre o íntimo e o coletivo, como sugere a letra de Acalanto:

Eu vou andando pelo mundo como posso

E me refaço em cada passo dado

Eu faço o que devo, e acho

Não me encaixo em nada

Não me encaixo em nada.

Bem recebida, a estreia de Luedji recebeu em 2018 uma indicação ao Prêmio Multishow de Música Brasileira, na categoria Artista Revelação. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian descreveu a cantora como uma “estreante cativante”, elogiando a combinação entre os seus vocais suaves e os arranjos delicados de Notini.

Ainda em 2018, durante a gravação do EP Mundo (Remix) – lançado um ano depois, com novas versões das músicas de seu disco de estreia –, Luedji conheceu o rapper Zudizilla, dois anos mais velho que ela. Com produção e direção musical do DJ Nyack, o EP tinha uma versão de Banho de folhas, da qual o rap­per participou. Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Zudizilla havia lançado em 2015 seu primeiro álbum, Faça a coisa certa (em referência ao filme do diretor Spike Lee). O nome artístico de Júlio Cesar Correa Farias vem de uma junção de “Zulu”, apelido que recebeu na adolescência, e Godzilla, o conhecido monstro do cinema.

Em julho de 2020, nasceu Dayo, o filho de Luedji e Zudizilla. Dois meses depois, quando a pandemia ainda não havia arrefecido, Luedji anunciou o seu segundo álbum, Bom mesmo é estar debaixo d’água, com doze faixas, gravado em São Paulo, Salvador e Nairóbi, no Quênia. O lançamento foi em outubro do mesmo ano. “Impressiona de imediato o quão refinado é o som deste seu segundo álbum, que mira em como a música africana tem se desenvolvido na atualidade”, definiu um texto do portal Monkeybuzz, em 2020. No mesmo ano, o jornalista Dom Phillips, no The Guardian, definiu o álbum como um dos “mais entusiasticamente resenhados do país” e destacou que a voz de Luedji transita “entre a delicadeza contida e a potência arrebatadora”, com suas letras “ao mesmo tempo cirúrgicas e poéticas”.

Em 2022, o mesmo disco ganhou uma versão deluxe – que é o nome que se dá à reedição de um álbum, com novas faixas e arranjos. Na verdade, Bom mesmo é estar debaixo d’água (Deluxe) era um disco praticamente novo: das treze faixas, dez são originais, e somente três trazem novas versões de músicas do disco anterior. Luedji explica que a opção por continuar com o título Bom mesmo é estar debaixo d’água na versão deluxe ocorreu porque o primeiro álbum “não pôde ser vivido em sua plenitude”, já que foi lançado durante a pandemia. “Eu não queria encerrar a história daquele álbum. Era como se, com esse nome, eu prolongasse essa vida.” No Deluxe, ela se aproximou de uma linguagem mais pop, de uma estética mais internacional, mais “gringa”, como ela diz. “Até pelo nome, quis trazer essa ideia de luxo, de requinte. Tem muito brilho, uma banda grande.” Bem recebida por crítica e público, a turnê teve shows esgotados pelo Brasil e em Londres.

Ela mesma fez todo o investimento no disco. “Gastei o que tinha e o que não tinha com esse álbum. No início de minha carreira, eu não contava com uma equipe e era muito amadora. Estava começando de fato, então só pensei em fazer um disco que fosse bom, para ser feliz. No Deluxe tive uma equipe para pensar, uma direção criativa, um styling, um diretor de arte. Se eu estava botando uma proposta mais moderna, isso também tinha que se refletir na minha imagem.” Foi com esse disco que Luedji entendeu que sua imagem precisaria conversar com o som. “Sempre usei cabelo natural. No Deluxe, botei peruca pela primeira vez, usava unhas grandes e uma boca bem marcada.”

Ainda em 2022, a cantora americana Erykah Badu, um dos grandes nomes do neo soul – ritmo que une o soul e o R&B contemporâneo –, anunciou que faria duas apresentações no Brasil no ano seguinte, uma delas no festival Nômade, em São Paulo. A programação original contava com shows de abertura das bandas Gilsons e Bala Desejo e da cantora Céu – o que causou certa revolta. Nas redes sociais, fãs da cantora criticaram o fato de as atrações selecionadas pouco terem a ver com o estilo de Badu, que é uma referência da música negra mundial.

Cantoras negras e indígenas resolveram fazer uma carta-manifesto, dizendo que a curadoria do festival estava desconectada do mundo atual. “O que se observa é um mercado viciado, fazendo as mesmas escolhas de sempre: ignorar artistas negros/indígenas no Brasil, sobretudo mulheres.” Entre as dezoito signatárias, estavam Luedji, Teresa Cristina, Gaby Amarantos, Anelis Assumpção e Kaê Guajajara. “Se o dinheiro que promove os grandes festivais são de imensas labels brancas, o mínimo que queremos é que suas curadorias sejam negras, femininas e indígenas, onde a representatividade não seja o DJ Alok usando um cocar ou a Claudia Leitte se intitulando negalora”, diz o manifesto. “Vivemos um verdadeiro Big Bang musical, que não se resume apenas a ‘representatividade’ ou ‘empoderamento’, termos cansativos que o mercado usa e abusa como mote conveniente para continuar estereotipando as pessoas, e tentando deixá-las no mesmo lugar de sempre. Estamos falando de arte.”

As críticas surtiram efeito. Algum tempo depois, Céu e a banda Bala Desejo (formada por músicos brancos) anunciaram sua saída da programação. Os músicos negros Larissa Luz, Anelis Assumpção, Majur, DJ Tamy e DJ Nyack entraram na lista de apresentações. O festival se pronunciou nas redes sociais: “Mais uma vez, agradecemos os comentários e indicações, e permanecemos aqui, escutando e construindo o #MundoNômade com vocês.”

Um ano depois do show de Badu e da carta-manifesto, Luedji começou a pensar no que poderia fazer para mudar o padrão que se repetia nos eventos de música no Brasil: sempre os mesmos nomes, as mesmas fórmulas. O caso de Erykah Badu a ajudou a encontrar um caminho. “Quando anunciaram o festival, não tinha dj preto, não tinha artista preto de verdade. Era só o hype da vez.” Ela decidiu então criar a Manto da Noite, uma festa com ambição de festival.

A primeira edição aconteceu em agosto de 2024, na casa de shows Audio, em São Paulo. A proposta era reunir num único evento artistas brasileiros e do exterior, novos e já conhecidos, com um recorte claro e rigor estético. “A gente quer fazer tudo com qualidade, estética, conceito. Não quero fazer nada pobre, sabe? Nem austero, no mau sentido. É para ser chique”, disse Luedji à piauí alguns meses antes da estreia da festa.

No lançamento, em 30 de agosto, ela chegou por volta das 21h30, acompanhada de Usman, seu irmão, e de sua maquiadora, Welida. A cantora, Zudizilla e o filho do casal tinham acabado de voltar das férias em Nova York. Tudo correu como previsto, com apresentações de nomes do rap, do R&B e do soul, como Rapsody, YOÙN, Zudizilla, Lino Krizz, Stefanie e Ajuliacosta, além de um set da festa Punga!, que reúne artistas independentes do rap.

Já passava da meia-noite quando Seu Jorge subiu ao palco. O cantor, que se apresentou com uma flauta transversal, tomou o microfone e elogiou o evento: “Luedji, festa da hora.” No camarote de onde ela assistia a tudo com amigos, perguntei se a participação de Seu Jorge estava prevista, já que não constava na programação, ou se foi improvisada naquela mesma noite. Em uma das mãos, ela segurava uma taça de champanhe rosé (que ela ressaltou ser francês). Na outra, o celular com a tela trincada e a foto de seu filho Dayo como papel de parede. Entusiasmada, Luedji respondeu que foi uma surpresa mesmo, inclusive para ela. (Em 10 de junho deste ano, a cantora e Seu Jorge lançaram juntos a música Apocalipse, que também faz parte do disco Antes que a Terra acabe, divulgado no mesmo mês.)

Em 20 de setembro de 2024, quase um mês depois do lançamento da festa Manto na Noite, Luedji foi uma das estrelas do Rock in Rio. Na apresentação que começou às 15h30, ela apareceu com um vestido longo de lantejoulas prateadas que refletiam a luz do Sol. Nas orelhas, argolas longas e grossas, também prateadas, que quase chegavam à altura dos ombros. Usava uma peruca cacheada, curta, em tom castanho-médio. Os oito músicos e as seis backing vocals vestiam branco. No final do show, seu filho, Dayo, entrou em cena, durante a apresentação de Banho de folhas. O menino dançou, alegre, pelo palco.

Erykah Badu retornou ao Brasil em novembro do ano passado para três shows: em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Salvador. Luedji foi a atração de abertura da apresentação na capital paulista. “Aquela história toda com Erykah Badu tocou num ponto muito sensível, porque ela é muito cara para mim e para várias artistas negras nesse país”, diz Luedji.

Também em novembro, no dia 19, Luedji estreou o espetáculo Luedji Luna canta Sade, uma homenagem à cantora britânica Sade Adu, no Circo Voador – a casa de shows no Rio de Janeiro onde costumam se apresentar alguns dos principais nomes da música brasileira. Sucesso estrondoso nas décadas de 1980 e 1990, com canções como Smooth operator e No ordinary love, Sade foi redescoberta agora pela nova geração, por causa de sua voz extraordinária e seu visual – roupas clássicas em tons neutros, argolas douradas, batom vermelho –, uma imagem elegante, minimalista, que voltou a circular como tendência.

O show aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra. Algo, porém, não estava bem algumas horas antes de Luedji pisar no palco. Perto das dez da noite, Regiane Silva, empresária da cantora, entrou no camarim da banda. “Luedji está passando mal, está vomitando”, avisou. “Talvez ela precise sair por alguns minutinhos durante o show, aí vocês improvisam.” Não foi necessário. “É uma noite difícil, mas estamos aqui”, Luedji disse ao público, entre uma canção e outra, sem explicar o que havia acontecido. Apesar de estar gripada e com náuseas, ela fez o show inteiro, sem interrupção, abrindo com a canção Kiss of life. Movimentava-se sua­vemente, os cabelos com tranças soltas e cachos castanhos, usando um vestido longo marrom com drapeados na parte superior. Animada, a plateia acompanhou-a várias vezes.

Há um motivo maior para sua admiração por Sade. “Quero ser como a Sade, como a Solange: alguém que faz coisas tão boas que nem precisa aparecer”, diz ela. A cantora americana Solange é outra referência importante para Luedji. Não só pela música, mas pela forma como articula música, imagem e estética. Solange construiu uma carreira à margem do pop tradicional, mais próxima da arte do que da indústria. É esse caminho – mais autoral, menos palatável – que atrai Luedji. Entre as duas, há uma conversa silenciosa: de ritmo, de textura, de intenção. Não à toa, Pele, faixa de Bom mesmo é estar debaixo d’água (Deluxe), foi produzida pelo músico John Key, que também foi baterista e produtor do álbum When I get home, de Solange.

Outro motivo para a escolha de Sade é que, para Luedji, a cantora britânica é um modelo de permanência. “Ela segue sendo celebrada, sendo ouvida, mesmo sem lançar discos, sem aparecer, sem fazer um single por mês”, diz a cantora baiana. É esse o tipo de permanência que ela busca. Uma música que sobreviva às tendências. “Quero que a minha música seja relevante, de forma que eu não precise nem cantar se eu não quiser. Nem fazer show, nem aparecer na tevê.”

Foi pensando na centralidade da música que Luedji lançou em maio deste ano o álbum Um mar pra cada um, com onze faixas, do qual participam como convidadas somente duas cantoras: Tali e Liniker. No mais, só músicos e instrumentistas. “Foi uma escolha de dar espaço para a música, dar espaço para o som”, explica. “Propositalmente escolhi usar algumas frequências de som, usar instrumentos de sopro, trazendo a referência de John Coltrane.” O álbum A love supreme, lançado em 1965 pelo saxofonista americano e considerado um dos melhores discos da história do jazz, é a principal fonte do novo trabalho da cantora.

Em junho passado, quando lançou Antes que a Terra acabe, seu quinto álbum, ela o fez sem alarde. Os fãs só ficaram sabendo poucos minutos antes, pelas redes sociais, que o disco estaria disponível nas plataformas digitais à meia-noite do dia 13, uma sexta-feira. O propósito de fazer uma versão mais sofisticada da música popular fica evidente no novo disco, que, embora mais pop que o anterior, ainda bebe no universo do jazz e traz parcerias com músicos de peso, como Alaíde Costa, Arthur Verocai, Seu Jorge e o pianista e produtor americano Robert Glasper, ganhador de três Grammys.

 

Entre todas as suas atividades – cantora, compositora, atriz e até executiva –, Luedji prefere a de compositora, antes de tudo. “Eu sempre coloquei a compositora na frente, porque sempre soube da importância de quebrar esse paradigma do silêncio”, diz. Em um meio no qual a figura da mulher negra costuma aparecer apenas como intérprete potente ou presença cênica, compor, para ela, equivale a afirmar o lugar de autoria, de linguagem e de pensamento.

Por muito tempo, na visão de Luedji, o Brasil produziu uma cena musical onde mulheres compositoras eram exceção – e mulheres negras, uma raridade. “O lugar da composição ficou muito restrito ao homem. A gente tem até Chico Buarque com um alter ego feminino. Entre as compositoras, dava para contar nos dedos.” Ela acha que ocorreu uma virada nos últimos anos. “Hoje, estamos cercados de compositoras. É uma geração farta.” Para Luedji, compor também é produzir saber. “A gente não está acostumada a ver mulheres negras num lugar de intelectualidade, de produção de conhecimento, de saber, de epistemologia.” A escritora Conceição Evaristo é uma de suas bússolas. “Quando eu componho, faço como ela diz: crio novos imaginários. Não só nas histórias que eu conto, mas a partir da minha própria existência.”

Em sua noção de saber, Luedji explode a hierarquia entre o que vem da academia e o que se aprende no terreiro, na cozinha, com o corpo. “Pescar um peixe, fazer um acarajé, trançar um cabelo – isso também é episteme.” A ciência, para ela, é apenas uma das formas de conhecimento. Há outras, e todas contam. “Sempre me interessei por filosofia, por religião, pelo que a ciência não explica”, disse, enquanto se preparava, no camarim de um galpão em São Paulo, para fazer as fotos e os vídeos de divulgação dos discos lançados neste ano.

Seus temas são, principalmente, a experiência de ser uma mulher negra no mundo, a solidão e o amor. Na música Cabô, ainda de seu primeiro álbum, Luedji vai além e narra o lamento de uma mãe negra que tem seu filho morto pela violência policial. A letra é inspirada na Chacina de Costa Barros, ocorrida em novembro de 2015, no Rio de Janeiro. Na época, cinco jovens foram assassinados por policiais militares com 111 tiros. Com idades entre 16 e 25 anos, os rapazes haviam saído para comemorar o primeiro emprego de um deles quando o carro em que estavam foi metralhado pela pm. A canção diz:

Quem vai pagar a conta?

Quem vai contar os corpos?

Quem vai catar os cacos dos corações?

Quem vai apagar as recordações?

Quem vai secar cada gota de suor e sangue?

Em Ain’t I a woman?, quinta faixa de Bom mesmo é estar debaixo d’água, lançado na pandemia, a referência de Luedji é um discurso de Sojourner Truth, uma ex-escravizada, feito durante uma convenção de mulheres em Ohio, em 1851. Truth disse:

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?

A canção de Luedji diz:

Você vai me pagar

Ó se vai

Vou lhe rogar uma praga

Vou lhe fazer um feitiço

Jogar teu nome na lama

Eu juro você vai me pagar

Cada lágrima que eu chorei

Eu guardei só pra te dar

E você vai beber no Inferno

No Inferno.

 

Eu sou a preta que tu come e não assume

E não é questão de ciúmes

Tampouco de fé

Por acaso eu não sou uma mulher?

Por acaso eu não sou uma mulher?

Por acaso eu não sou uma mulher?

Apesar dos temas de suas letras, Luedji não define sua música como militante. Para ela, as questões sociais estão ali simplesmente porque fazem parte da sua experiência no mundo. O que escreve – ela pontua – nasce daquilo que vive e do que a atravessa, sendo quem se é, nunca de uma intenção de educar o outro. Ela viveu uma vida confortável – sempre foi uma mulher negra de classe média –, algo que ainda parece causar estranheza em um país onde a imagem da negritude é tão associada à pobreza.

Outros temas aparecem no trabalho de Luedji. No primeiro disco lançado neste ano, ela mergulha mais fundo no universo do amor e da água. Um mar pra cada um faz do oceano uma metáfora para as camadas menos visíveis do amor, aquelas que não cabem em fotos de viagem. “Quando a gente imagina o amor e quando a gente imagina o mar, a gente imagina ambos como a coisa mais linda, a paisagem mais bonita”, diz ela. O álbum quer desmontar essa imagem. É um retrato do mar que não se vê: o mar profundo, abissal, povoado por criaturas estranhas, luminescentes, às vezes monstruosas. Como na música Rota:

Mistérios são

Porque ninguém contou

Revela-me teu segredo, eu sou

Um copo vazio

Pra matar a tua sede de água.

 

Transborda em mim, amor

E alguns medos

Receios e dúvidas,

Desperta aos poucos

De peito aberto, sigo.

A capa mostra uma hidromedusa – um organismo marinho translúcido, de poucos milímetros (na imagem feita pelo biólogo Alvaro Migotto) – que vive nas profundezas dos oceanos, fora do alcance da luz. Invisível a olho nu, o corpo da hidromedusa pulsa lentamente, quase sem ser notado. Na leitura de Luedji, representa as nossas zonas internas que, mesmo sem se exporem continuam vivas e vibrantes. “Esse animal microscópico representa esse mar que a gente não vê, que a gente não enxerga, o que a gente tem de mais íntimo, de mais escondido ali na nossa subjetividade”, diz a cantora. “Porque às vezes parece amor, mas é ego. É amor, mas também é carência. É amor, mas também é medo da solidão. É amor, mas também é necessidade de validação. Então nem tudo é sobre amor.”

O amor, como não podia deixar de ser, é um dos temas centrais do trabalho de Luedji. Mas, depois de anos cantando a respeito, ela diz que chegou a um limite. “Estou emocionalmente exausta. Cansada de sentir tanto. Eu parei com essa história de amor”, diz. “Essa história de amor já deu para mim.”

Em Banho de folhas, o maior sucesso de Luedji, ela canta:

 

Foi em uma quarta-feira

Saí pra te procurar

Andei a cidade inteira

Mas cadê você?

Cadê você?

A cidade é grande

As pessoas muitas

E eu por aí

Sem te encontrar

Vou pedir a Oxalá

Oxalá quem guia

Oxalá quem te mandou.

Tanta volta pra nenhuma resposta

Tanta volta pra nenhuma resposta.

A música, segundo Luedji, conta a história de sua busca por um pai de santo pelas ruas de Salvador. “Apesar disso, as pessoas ouvem e acham que eu estava atrás de um amor. Todo mundo espera isso. Está todo mundo atrás de um amor. Mas eu saí naquela quarta-feira para procurar um pai de santo”, ela diz, rindo.

Ao encontrar o pai de santo, que ela buscava junto com a amiga Emillie Lapa, Luedji fez um jogo de búzios – que não deu respostas diretas a suas perguntas, mas recomendou um banho de folhas. “Ele falou para mim: ‘Você tem um Oxumarê de família para cuidar. Tem alguém da sua família que é de terreiro?’ Eu falei que não”, ela conta. “Meu pai não tem religião, minha mãe é católica. Na minha família não tem ninguém. Mas ele disse para eu procurar saber.” Ela frequentou a Igreja Católica quando criança, por causa da mãe, e esteve em um templo da Igreja Universal, levada por uma tia. “Mas até então, de fato, eu não tinha sido sequer batizada”, conta. “Não tinha religião alguma.”

Quando se mudou para São Paulo, em 2015, uma prima lhe contou que havia familiares dela morando no estado. “Ela me disse que tinha várias pessoas com o sobrenome Santa Rita aqui.” Luedji foi atrás e encontrou alguns parentes em Osasco, na Grande São Paulo. “Quando fui até a casa deles, descobri que lá funcionava o terreiro de uma prima do meu pai, chamada Mãe Neide. Parecia que eu tinha entrado num portal. Era um lugar lindo, cheio de pássaros”, ela conta, enquanto guarda as compras da moqueca para o Domingo de Páscoa. “Naquela época, fui atrás de parentes, não de religião. Mas eu lembrei daquele primeiro jogo que fiz em Salvador. No final das contas o pai de santo viu tudo.”

Ela começou a frequentar as festas do terreiro, mas só na condição de parente, para conhecer. “Com o tempo, comecei a incorporar e a me desenvolver na religião.” Hoje, Luedji tem nove anos de iniciação no candomblé e é irmã de santo da cantora Liniker, que visitou o local a convite da amiga e depois se iniciou. O terreiro que elas frequentam não cultua orixás, mas voduns, devido a diferenças de nações dentro do próprio candomblé.

O pai de santo que fez o jogo que originou Banho de folhas era da nação Ketu – de origem iorubá, hoje na região da Nigéria – e o terreiro que Luedji frequenta é da nação Jeje, de origem Fon, atual região do Benin. De qualquer forma, o orixá Oxumarê é equivalente ao vodum Bessem, no qual a cantora é iniciada. Ele é representado por um arco-íris ou por uma cobra que engole a própria cauda, como um círculo que não tem princípio nem fim. É um símbolo da vida que se renova, eternamente.

Emily Almeida
Emily Almeida

Repórter e editora-assistente de redes sociais da piauí

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