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Estranho no ninho

Pêra-Manca no mercado Mundial

Audrey Furlaneto | Edição 112, Janeiro 2016

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No supermercado Mundial de Botafogo, no Rio de Janeiro, há um infiltrado. Chama-se Pêra-Manca e, para os clientes mais distraídos, pode passar despercebido. Sua rotina é quase sempre a mesma: é exposto à luz às 7h30 e espanado logo em seguida. Permanece sob os cuidados de Mariana Macário Neves da hora do almoço até o final do expediente, pouco depois das 22 horas. O que vem mudando com alguma frequência, nos últimos meses, é a etiqueta que o identifica. No final de setembro, Pêra-Manca 980 reais virou Pêra-Manca 1 280 reais. Em novembro, deu-se outra troca – dessa vez para Pêra-Manca 1 480 reais.

“É a alta do dólar”, explicou Mariana Neves, diante da prateleira mais alta de vinhos do setor de bebidas. “Ele vem de Portugal, fica refém do câmbio.” O vinho é um elemento estranho entre Miolos e Saltons, expostos em um dos mercados mais populares da cidade. Três prateleiras à direita, convivem um Dom Bosco, a 6,25 reais, e um Collina del Sole, a 6,29 reais. Mais ao fundo, o quilo da orelha salgada é vendido a 3,98 reais. Há promoções de arroz Brejeiro, macarrão Renata e salsicha aperitivo Bordon (nenhum item por mais de 10 reais). E no meio disso tudo, um Pêra-Manca. Por 1 480 reais.

“Quando vim para cá fiquei assustada. Como é que esse povo compra um vinho caro assim? Então comecei a estudar e entendi”, seguiu Neves. Sommelier do Mundial há três anos, ela tem reuniões mensais com outros 45 colegas de função, que atendem às várias lojas da rede. “Somos 42 meninas e quatro rapazes”, disse. Os sommeliers degustam algum vinho – jamais o Pêra-Manca – e ouvem Paulino Costinha, gerente comercial do supermercado, contar as histórias dos rótulos.

 

Embora nunca o tenha provado, a sommelier sabe como vender o forasteiro. “É um vinho com história, da época de dom Pedro. É feito de uma uva muito difícil de cultivar, o que explica o custo. Harmoniza bem com massas finas, queijo curado e carne vermelha”, diz, segurando a garrafa de 750 mililitros entre as mãos, para logo devolvê-la ao altar, que teve uma lâmpada removida para não afetar o sensível Pêra-Manca.

O tinto é cercado de cuidados. Fica na prateleira mais alta não só pelo sangue azul, mas como proteção do vai e vem dos carrinhos. Como a cada dez minutos os alto-falantes anunciam uma nova oferta, o movimento dos consumidores ávidos por promoções é intenso. Posicionado ao fundo da loja, um locutor pode baixar o preço da maionese Arisco de 2,59 reais para 1,99 de um instante para o outro. “Está acabando o tempo! Corre aqui no final da loja e pega a etiqueta comigo!”, ele grita ao microfone, atraindo uma horda de consumidores e carrinhos.

 

Tinto da safra de 2010, o Pêra-Manca do Mundial saiu da cidade de Évora, na região portuguesa do Alentejo, em meados de 2013. Em Lisboa, embarcou rumo ao Rio de Janeiro, com uma parada no porto de Santos. Até chegar ao supermercado, foram dois meses de viagem, embora o tinto tenha passado apenas duas semanas no mar – as seis semanas restantes foram gastas com embarque, desembarque e burocracias aduaneiras.

 

A sina de viajante acompanha o Pêra-Manca desde os tempos do Império Ultramarino Português. Criado no século XV por frades de um convento no Alentejo, era levado pelos navegantes em suas travessias oceânicas, na era dos descobrimentos. Reza a lenda que Pedro Álvares Cabral trazia algumas garrafas quando chegou ao Brasil. Em carta enviada ao reino, Pero Vaz de Caminha registrou a primeira degustação feita pelos índios, no primeiro dia de maio de 1500: “Trouxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram assim a boca e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais.”

No Velho Mundo, Pêra-Manca esteve em alta até o final do século XIX, quando então passou por um período difícil, vitimado pela filoxera, um inseto minúsculo obstinado em sugar a seiva de vinhas por toda a Europa. Pouco depois, o dono da vinícola responsável por sua produção morreu – e, com ele, seu negócio. O golpe final veio com o regime salazarista e a determinação do ditador de que a região do Alentejo, onde o tinto era fabricado, se dedicasse à cultura de cereais.

O Pêra-Manca só voltaria a ser produzido em 1987. A primeira safra do tinto redivivo data de 1990 – e desde então foram apenas treze delas. Qual um Kinder Ovo, só se descobre se o vinho será um Pêra-Manca quando já está na garrafa, mais de dois anos depois da vindima. Provadores degustam o vinho e anunciam – ou não – o “Habemus Pêra-Manca”.

 

Foi o que ocorreu com a safra de 2010, que chegou ao mercado brasileiro em meados de 2013. No Mundial de Botafogo, há apenas três garrafas em estoque, segundo os funcionários. O supermercado não confirma os números nem se pronuncia, por não ser esse “o foco dos negócios da empresa”, de acordo com sua assessoria de imprensa.

 

“Tapioca hidratada, peneirada, pronta para usar, por apenas 6,20 reais. Baixou o preço, amiga, e não contém glúten. Vem pegar a etiqueta comigo!”, diz o locutor do Mundial. A sommelier espera o fim do anúncio para retomar a fala. Mariana Neves tem 29 anos. Conseguiu seu primeiro posto no mercado há doze anos. Começou como empacotadora, já empenhada em chegar à função de caixa.

“Era difícil conciliar trabalho e estudos, mas o gerente me ajudou e consegui terminar o ensino médio”, lembra. Soube que a empresa estava fazendo seleção para o departamento de bebidas. Passou por provas de português e matemática, participou de uma dinâmica organizada pelo RH e acabou sendo escolhida, três anos atrás. Desde então, chega ao meio-dia e só deixa o mercado às 22h20, quando volta para casa, no Vidigal.

Não ganha comissão pelas vendas. Diz que os compradores do vinho raro e custoso são “pessoas que fazem reuniões importantes”. Em geral, ligam para saber de quantas garrafas o mercado dispõe. “Eles compram logo uma caixa. Aqui é muito cheio. Esses clientes gostam de vinho, não gostam de fila”, explica. Ela e os 45 outros sommeliers planejam fazer uma vaquinha para um dia provar o infiltrado.

Audrey Furlaneto

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