O dólar subiu e baixou, o risco-país subiu e baixou, acendemos velas para que a próxima parcela do empréstimo do FMI seja liberada CREDITO: ROBERTO NEGREIROS_2019
Estupor e tremores
A eleição presidencial e a vertigem econômica na Argentina
Josefina Licitra | Edição 157, Outubro 2019
Tradução de Sérgio Molina e Rubia Goldoni
Na segunda semana de agosto, sonhei com o dólar por três noites seguidas. Não me lembro de maiores detalhes além do principal: o dólar sempre disparava e eu sentia meu corpo em queda livre. A sensação de vertigem fazia com que eu despertasse, lançando-me no segundo pesadelo do dia: na vida real – ou, melhor dizendo, na vida que acontece na vigília –, tudo continuava a transcorrer como nos sonhos. Assim como num avião em pane, todos na Argentina estávamos perdendo o rumo, sem no entanto podermos contar com a grande vantagem dos acidentes fatais: a instantaneidade. Nos arreben-távamos aos poucos.
O desastre – ou, ao menos, essa última queda – começou depois das Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (Paso), pleito que transfere ao Estado o custo, tanto político quanto orçamentário, da definição dos candidatos que cada partido ou coalizão apresentará nas eleições. Até 2009, essa decisão era tomada em prévias, convocadas para escolher os candidatos que de fato concorreriam. Mas, dez anos atrás, o método mudou e surgiram as primárias, um sistema que funciona e faz algum sentido em outros nove países, mas que, no domingo, 11 de agosto, na Argentina, se tornou um ensaio geral e caríssimo que permitiu fazer uma estimativa, com dois meses de antecedência, do resultado das eleições finais, já que nenhuma das oito formações eleitorais apresentou mais de uma pré-candidatura.
Vou explicar mais uma vez, porque talvez seja difícil entender, de tão absurdo: as chapas de todos os partidos já estavam definidas, o que reduziu as Paso, ainda que sem nenhum valor vinculante – quem vencesse não assumiria nenhum cargo público –, a uma pantomima com sabor de futuro, pois o ganhador teria fortes chances de vencer também as eleições reais.
Nessa encenação, que custou ao Estado mais de 50 milhões de dólares, está a origem de uma parte do desastre. Porque, quando a coalizão vencedora – a Frente de Todos, encabeçada por Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner – suplantou com esmagadores 47,78% dos votos a chapa de Mauricio Macri, o atual presidente, e Miguel Ángel Pichetto – a qual obteve 31,79% –, começou-se a imaginar uma provável e até recentemente impensável volta do kirchnerismo ao poder – e essa simples ideia já acendeu o pavio de uma bomba econômica e política.
Em questão de horas, enquanto na oposição se falava em antecipar o fim do mandato de Macri, ao mesmo tempo que os governistas agitavam o fantasma de uma crise como a que castiga a Venezuela – caso o kirchnerismo voltasse –, alguns supermercados começaram a remarcar os preços de suas gôndolas e o dólar foi para as nuvens. Na segunda-feira, 12 de agosto, em apenas cinco horas, a moeda americana disparou 20%. Num país que leva em conta essa cotação para fixar grande parte de seus preços internos, isso teve o efeito de um furacão.
Tenho 44 anos e já passei por várias crises. Mas nunca antes ouvi o silêncio daquela segunda-feira. O país inteiro falindo em fade-out. Quem festejava a vitória kirchnerista se calou. Os que não tinham nada a comemorar, também. As ruas eram uma bruma de sussurros dignos de um velório. O grupo de WhatsApp das minhas amigas, onde costumamos conversar por dias a fio sobre qualquer coisa, emudeceu. Nenhum parente comentou a eleição, nem a favor nem contra. Não houve bandeiras partidárias nas redes sociais. Nem a favor nem contra. Começamos a assistir à disparada do dólar, tendo os noticiários como única voz de fundo, tentando falar do futuro e explicar o presente.
Todos repetiam a palavra “mercado” com a submissão e o respeito com que outros falam de Deus. O Mercado era a origem, o destino, a forma e a estrutura do nosso desastre. E era, acima de tudo, o nome do nosso vetor moral, a entidade que fiscalizava nossa estirpe cidadã. Um ano depois de a Argentina contrair a maior dívida de sua história com o Fundo Monetário Internacional – a princípio 50 bilhões de dólares, valor que logo em seguida subiria para 57 bilhões, que deverão começar a ser pagos em 2021 –, pouco mais de 47% dos cidadãos elegeram uma coalizão cuja candidata a vice-presidente, a ex-mandatária Cristina Kirchner, tinha uma relação conflituosa com o FMI, o que levava a pensar numa recusa de pagar os compromissos assumidos. Os mercados, portanto, baixaram o polegar. E o país afundou.
As ações argentinas em Wall Street despencaram até 60%. O risco-país dobrou e chegou a 1,7 mil pontos (depois atingiria um pico de 2,5 mil, superado apenas pela Venezuela, que marca 11 mil pontos). E o presidente Macri se viu diante de um nó górdio, isto é, de um problema cuja solução, paradoxalmente, só seria possível desarmando o problema.
Se Macri quisesse fazer valer sua posição de candidato em campanha, deveria reforçar seu maior argumento eleitoral. Com um salário mínimo que perdeu 30% do seu poder de compra nos últimos quatro anos – sem levar em conta as consequências da última desvalorização da moeda, posterior às primárias –, com as pequenas e médias empresas sem acesso ao crédito por causa das taxas anuais proibitivas, que superam os 70%, e com toda a economia voltada à especulação financeira – os juros altos tornam as aplicações a prazo fixo mais atraentes que qualquer investimento no sistema produtivo –, o principal argumento da coalizão governista Cambiemos não é o saneamento econômico, mas a institucionalidade: a promessa – que mais parece uma ameaça – de que a Argentina sem Macri vai virar uma Venezuela, frase apavorante para os mercados, que só de ouvir “Venezuela” saem correndo para bem longe.
Se em vez disso Macri deixasse de fazer campanha, conformado de antemão com sua derrota e desistindo da reeleição, a governabilidade da Argentina sob o comando de um presidente sem poder ficaria comprometida, e não por um ou dez dias, mas por quatro meses. Dois meses até 27 de outubro, dia das eleições; mais dois até a posse, caso ganhassem os Fernández.
Permanecer nessa situação durante 120 dias, repetindo aquela segunda–feira, 12 de agosto, mais 119 vezes, era um prenúncio de loucura que me lembrava o filme Feitiço do Tempo, com Bill Murray, mas também uma cena de Bastardos Inglórios, em que um militar enfia uma faca, lenta e metodicamente, no coração de outro.
Foi então, claro, que comecei a sonhar com o dólar. Do último sonho até guardo alguns detalhes. Estava num bar com Benjamín Vicuña – um ator que trabalha em Argentina, Tierra de Amor y Venganza, a telenovela de que sou roteirista – e falávamos do dólar, enquanto eu pagava um café com notas de 5 pesos argentinos, que são verdes, mas estão tão desvalorizados que não chegam nem a pagar meia passagem de metrô. Depois disso, acordei suando frio, com as mãos geladas e o coração em disparada no peito.
Era 15 de agosto. Tinham se passado três dias dessa nova vida em queda livre, e meu primeiro pensamento foi sombrio. O que seria de nós? Qual o desígnio que o Mercado nos reservava para hoje? Naquela quinta-feira era aniversário do meu companheiro, mas eu estava sem forças para comemorar. Quanto custaria o vinho, a comida? Na véspera, Walter – o chinês dono do mercadinho onde compro há muitos anos – tinha me pedido desculpas por cobrar mais caro por um pedaço de queijo. Quanto custaria hoje o mesmo queijo? Em que país meu filho estava acordando? Como eu podia ter trazido um filho a esta – nunca tão bem definida – terra de amor e vingança?
Liguei o celular. Altas horas da madrugada, um amigo macrista tinha mandado três mensagens: “Se você gosta do seu filho, ajude o menino a ir embora”; “Se os K voltarem, seu filho vai acabar pedalando um Glovo[1] em Barcelona”; “Continue trabalhando na tevê, junte dinheiro e ajude seu filho a ir embora do país.”
Fazia anos que meu “amigo” não perguntava por meu filho. Não respondi. Senti a mesma onda de repulsa que tomou conta de mim quando ouvi certos kirchneristas gritando “Vamos voltar!” pelos corredores de emissoras de rádio e tevê, em tom de comemoração e de ameaça. Macristas e kirchneristas se tornaram parte da mesma coisa: uma forma de violência que me esmagava contra a cama. Não conseguia sair de lá.
Finalmente me levantei por causa do meu filho, preparei seu café da manhã, esperei que ele saísse para o colégio.
E depois, aí sim: liguei para a minha mãe e desatei a chorar.
– Para com isso, Josefina. Eu vivi com você o Rodrigazo, a 1050, a hiperinflação. E continuamos aqui. Tudo passa – disse.
Eu não esperava essa resposta.
Desde então, quando fico mal, como quando era pequena, eu procuro minha mãe.
A Argentina é um país de ciclos. Qualquer pessoa que tenha passado a vida aqui pode contar sua trajetória econômica com uma narrativa digna de uma corrida de obstáculos. Em 4 de junho de 1975, treze dias antes de eu nascer, aconteceu o chamado Rodrigazo: uma crise provocada por Celestino Rodrigo, ministro da Economia de Isabel Perón, que da noite para o dia desvalorizou a moeda local em relação ao dólar em 160%, desencadeando uma inflação que chegou a 777% ao ano. Como pouco depois eu nasci – meus pais tinham então 20 e 21 anos – e nove meses mais tarde começou a ditadura, sendo que eles militavam na esquerda, o descalabro econômico foi ofuscado por vendavais de outra ordem, e minha família guardou poucas lembranças do que aconteceu: em 24 horas, os preços subiram 100% em média, houve desabastecimento de alimentos e de combustíveis, e a vida virou um caos.
Mesmo assim, sobrevivemos. E até nos recuperamos. Em 1977, meus pais compraram um apartamento com suas economias, alguma ajuda da família e um empréstimo a pagar em vários anos tomado numa financeira, que cobriu 40% do valor do imóvel. Nessas condições, e já durante a ditadura, aconteceu o segundo golpe. Em 1980, entrou em vigor a Circular 1050 do Banco Central, que indexava as dívidas até então controladas pelas flutuações do dólar. Com a súbita e aguda desvalorização da moeda local no ano seguinte, nossa casa – que ainda estava sendo paga – caiu na lógica da usura: nem vendendo o apartamento seria possível quitar a dívida.
Muita gente perdeu a moradia com a 1050, vendo-se obrigada a vender a própria casa no desespero para os bancos ou os abutres, que se apossaram de imóveis às pencas, a preço de banana. No nosso caso, com meu pai já exilado na Europa, minha mãe alugou o apartamento, para continuar pagando as parcelas do empréstimo com esse dinheiro, e foi morar comigo numa república de estudantes em La Plata, a cidade onde eu nasci. Com esse esforço e um dinheiro que meu avô paterno nos deu, conseguimos quitar a dívida, não perder o teto e voltar para Buenos Aires algum tempo depois.
E assim seguimos na corrida até a barreira seguinte, em 1989: a hiperinflação no governo de Raúl Alfonsín. Nessa época, a inflação chegou a 200% ao mês, e a vida era um furacão diário. Minha mãe – assim como muita gente – não podia esperar até o fim do mês para receber o salário, porque então o dinheiro já não valeria nada, e, assim, todo dia ela pedia um vale para fazer as compras ao voltar do trabalho. “A gente ia ao mercado às sete da noite, porque na manhã seguinte os preços já seriam outros; na verdade, eles remarcavam várias vezes por dia”, ela diz ao telefone. “E comprava o quê?”, pergunto. “As coisas mais miúdas que você possa imaginar”, responde: “Dois tomates, quatro batatas…”
Durante a “híper”, como a chamamos na Argentina, milhares de pessoas caíram abaixo da linha de pobreza, houve saques a supermercados e foi antecipada a posse do novo presidente eleito, Carlos Menem. Este, uma vez no poder, acabou de destruir o pouco que ainda restava intacto. Para ir direto ao ponto, em dezembro de 1989, o ministro da Economia, Erman González, implementou o Plano Bonex: um pacote econômico que bloqueou os depósitos a prazo fixo que boa parte dos poupadores tinha nos bancos e os converteu em bônus da dívida pública a receber em dez anos. Essa medida não afetou diretamente minha mãe – que já não tinha economias –, mas sim o marido dela, que nessa manobra perdeu parte do seu capital.
Mesmo assim, também superamos aquela situação e chegamos, como maratonistas num campo minado, a 2001, quando uma crise institucional, política, social e econômica desembocou num confisco financeiro – que, assim como o Plano Bonex, bloqueava os resgates dos poupadores – e numa nova disparada do dólar. Essa foi a primeira crise que enfrentei já adulta. Eu morava sozinha, tinha 26 anos e, assim como meus pais na juventude, tinha comprado um apartamento tomando um empréstimo de financistas privados, já que, por ser autônoma, nenhum banco me concedia financiamento. Essa reviravolta no câmbio, portanto, me pegou com uma dívida em dólares com os Monk, um casal de velhos agiotas que viraram a encarnação do meu inferno. Eu não tinha como pagar o que lhes devia. O dinheiro que eu ganhava como jornalista free-lancer nunca dava. Finalmente, minha mãe me ajudou a completar as parcelas e, paralelamente, arrumei um emprego fixo, monótono e com salário razoável numa revista que tinha como tema “trabalhos manuais”: fazia parte do meu trabalho escrever as legendas de diversas sequências de fotos que ensinavam as leitoras a fazer bonecos country, découpage com guardanapos de papel e mandalas de crochê.
Não sei quanto tempo isso durou. A única coisa que ficou em mim foi a sensação de frustração e letargia, e a violência tranquila do ritual com os Monk: entre o primeiro e o quinto dia de cada mês, eles me recebiam em sua casa de madeira rangente e contavam os dólares com seus dedos de pele venosa, encarquilhada.
A frieza dos Monk contrastava com a panela de pressão que era a Argentina. Em dezembro de 2001, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas aos gritos de “Fora, todos”, em alusão à classe política, sem suspeitar que, depois da renúncia do presidente Fernando de la Rúa, os políticos – longe de irem embora – viriam em bando. Em onze dias, houve cinco presidentes, que acompanharam com suas posses e demissões uma crise que teve seu ponto mais sinistro na repressão institucional de 19 e 20 de dezembro, quando 39 manifestantes foram assassinados pela polícia.
Desses dias de fúria guardo uma imagem em particular. Depois de uma manifestação que acabou na Plaza de Mayo, a poucos metros da Casa Rosada, fomos reprimidos com balas de borracha e gás lacrimogêneo e, na correria, perdi minhas sandálias, portanto voltei para casa descalça. Foram 5 km caminhando com os pés no asfalto e uma sensação que ainda está em mim: aquele chão quente e sujo, cheio de cacos de vidro e cusparadas, era – para o bem ou para o mal – meu lugar de pertencimento.
Suponho que seja em nome disso – disso que chamamos “origem” – que resistimos tanto na Argentina. E que seja por isso – por mais insólito que possa parecer – que esperamos grandes mudanças no último minuto.
Na quarta-feira, 14 de agosto, em algum momento da tarde, Alberto Fernández e Mauricio Macri conversaram por telefone e pactuaram uma espécie de armistício em nome da governabilidade. Para alguma coisa serviu. No dia seguinte, quando os mercados abriram, o dólar se acalmou e até baixou um pouco. Se bem que, naquela altura, nada chegava a nos animar.
Na noite de 15 de agosto, não comemoramos o aniversário do meu companheiro. Na sexta-feira, também não. Só no sábado conseguimos festejar, mas, na única foto que ficou dessa reunião, Ale e eu estamos diante de um bolo com vela, numa pose que me faz lembrar o quadro O Doutor, de Samuel Luke Fildes. Nessa tela, um médico vitoriano examina uma criança doente sob o olhar derrotado dos pais. Nem é preciso dizer quem é quem, nesse esquema: os mercados, a Argentina e esses pobres infelizes à espera de um milagre que mude o rumo das coisas.
A foto chega a ser engraçada de tão lúgubre. Também disso estamos aprendendo a rir: do medo. Do nosso destino de tragédia italiana.
Depois de 15 de agosto, o filme continuou. Ao longo das semanas, o dólar subiu e baixou, o risco-país subiu e baixou, acendemos velas – continuam acesas – para que a próxima parcela do empréstimo do FMI seja liberada, foram tomadas medidas bancárias que estabilizaram provisoriamente o câmbio, e nos acostumamos a viver consultando o risco-país e a cotação do dólar com a mesma naturalidade com que um diabético mede o nível de açúcar do sangue.
Tomei consciência desse novo hábito durante uma viagem a Medellín. No final de agosto, estive lá a trabalho e me vi mergulhada nesse estranho ritual: toda vez que se aproximavam as dez da manhã, hora de abertura dos mercados, eu olhava o celular e aguardava as 10h01 com a mesma vertigem que sinto quando, numa Copa do Mundo, vamos à decisão por pênaltis.
Alguém na viagem – algum colombiano – me perguntou o óbvio: “Como você consegue viver assim?”
Fiquei pensando nisso, enquanto obser-vava Medellín pela janela do hotel e me perdia em sua calma de trópico domesticado, impressionada com o esforço que fizeram lá para apagar a marca do narcotráfico e transformar a cidade no polo cultural da Colômbia. Se no berço de Pablo Escobar conseguiram parar de falar de drogas, será que uma hora conseguiremos parar de falar do dólar?
Fiquei nisso até as 10h01, os mercados abriram e vi que tudo tinha desandado de novo. Na véspera, Alberto Fernández falara em renegociar a dívida bonista por bonista, e essa construção – “credor por credor” – fez disparar o risco-país e despencar as ações argentinas na Bolsa. Nada de novo. Dias depois, continuamos caindo. Quando trocamos o ministro da Economia Nicolás Dujovne por Hernán Lacunza ou quando Lacunza falou em “reperfilar a dívida”, o que para muitos foi um eufemismo de moratória; enfim: cada vez que um funcionário ou candidato deu um espirro, o país caiu um pouco mais baixo e demonstrou que, como na história dos Três Porquinhos, nossos alicerces são feitos de palha.
Apesar de termos terras férteis, água doce que desce dos Andes, riqueza mineral nas montanhas, jazidas de petróleo na Patagônia e um impulso de trabalho vindo com a imigração europeia, temos uma casa que é arrasada e reconstruída a uma velocidade sideral, sujeita a uma dinâmica que ninguém consegue entender. Costumam atribuir ao Prêmio Nobel de Economia Simon Kuznets, por exemplo, a constatação de que há quatro tipos de países no mundo: os desenvolvidos, os que estão em vias de desenvolvimento, o Japão – que superou a Segunda Guerra Mundial e é uma potência econômica – e a Argentina, que fez o caminho inverso.
Nos últimos dias, a frase atribuída a Kuznets tem circulado em jornais e noticiários com certo tom de humor e amargura. E costuma ser acompanhada por outro dado que está na moda: um estudo da consultoria Ipsos Global Advisor, que mediu o índice de felicidade em 28 países, diz que os argentinos são os mais infelizes do mundo. Segundo essa pesquisa, chamada Global Happiness 2019, apenas 34% dos consultados argentinos afirmam ser felizes, contra 86% dos australianos ou canadenses e 61% dos brasileiros.
Não sei se por estar resignada ou farta, mas o resultado dessa pesquisa arrancou minha primeira gargalhada depois de semanas. A outra explodiu quando assisti à série britânica Years and Years, onde se usa o registro distópico para falar de um país com confiscos e apagões, duas circunstâncias que na Argentina já aconteceram mais de uma vez e que oferecem a melhor definição que encontro para meu país: somos distópicos. Compramos as coisas hoje porque amanhã vão ser mais caras. Temos notebooks não apenas porque são práticos, mas porque continuam funcionando quando falta energia. Vemos uma manteiga custar 10 num supermercado e 20 no supermercado ao lado. Adormecemos de madrugada na frente de uma tela onde um jornalista mostra a curva em que despencam as reservas do Banco Central. Deixamos de sonhar com nossos pais, nossos filhos, nossos amores e nossos traumas da infância, para sonhar com o país. Sonhamos com notas. E sabemos que isso também vai passar. E sabemos, acima de tudo, que voltará a se passar.
Nesse sentido, tive nesses dias um sonho moralizante. Sonhei que ia apresentar o livro de um colega e que, minutos antes de o evento começar, percebia que nem sequer tinha aberto aquele livro, de tão ocupada que estava em acompanhar o risco-país. O susto foi tão grande que acordei, e o que se seguiu foi estranho: na escuridão da noite, ficou ecoando a palavra “livros”, como se isso resumisse o verdadeiro capital que, nesses dias de crise, estou perdendo.
De lá para cá, alguma coisa aconteceu. Parei de assistir aos telejornais. Voltei a falar com minhas amigas. Terminei dois livros que tinha deixado inacabados, vi alguns filmes e séries, comecei a pas-sear. Agora, por exemplo, é um dia de sol e vim correr junto ao rio. Ao fundo se veem veleiros, há uma brisa fresca, e subo e desço ladeiras com a urgência e o ressentimento dos que pedem revanche, e enquanto isso me lembro de um trecho da extraordinária série que acabei de ver ontem, na minha nova vida sem notícias. Chama-se Apache e conta a história de Carlos Tevez, que nasceu em Fuerte Apache – uma favela a 4 km da minha casa – e triunfou no futebol graças ao seu talento, mas também por contar com uma rede de amor e proteção.
Nesse trecho que me vem à cabeça, Tevez – com uns 12 anos – sofre uma contusão num tornozelo, vinte dias antes de uma final de campeonato, e é assistido por um roupeiro que está decidido a fazer com que ele continue jogando. Para isso, o homem ignora os prazos da medicina formal – que exige de Tevez dois meses de repouso – e começa uma arriscada terapia alternativa: depois de poucos dias, tira a atadura com que imobilizaram seu tornozelo, faz com que ele caminhe e logo comece a treinar com bola, para fortalecer o chute. Claro que Tevez joga a final e ganha. Mas a questão não é essa, e sim o que acontece no meio. Durante o processo de recuperação, que é fulminante e doloroso, o homem diz a Tevez uma frase que anotei: “A dor é você. Ela nunca vai passar, ela faz parte de você. Deixe que a raiva mate a dor.”
Penso nisso agora, enquanto subo e desço os barrancos, e por algum motivo acontece o que não aconteceu nesse tempo todo: sinto uma torrente subir pelo pescoço e desato a chorar com fúria. Choro como se vertesse um miasma antigo que não tem a ver com o que somos e sim com a impossibilidade de entender o que somos. E choro também porque isso que eu não sei – do que somos feitos – tem uma pureza que me desconcerta.
Depois, quando passa, quando a maré pessoal volta a seu leito, com o corpo mais leve e sob um sol que é igual há milhões de anos, volto a correr.
[1] Aplicativo de entregas, feitas em bicicleta.
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