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    Trabalho de Banksy em Bristol, cidade inglesa onde o artista passou a infância: as pessoas gostam que ele seja anônimo e, como ninguém sabe quem ele é, Banksy pode ser qualquer um CRÉDITO: PJHPIX_ALAMY_FOTOARENA

vultos das artes

Façanhas de Banksy

A trajetória de um rebelde das ruas rumo ao establishment artístico

Damian Platt | Edição 196, Janeiro 2023

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Tradução de Rogério Galindo

De Londres

O desenho em preto e branco no muro retrata uma menininha. O vento sopra seu cabelo e seu vestido, enquanto ela deixa escapar das mãos um balão vermelho em forma de coração. Em 2018, uma versão emoldurada dessa famosa imagem, chamada Menina com Balão, foi colocada à venda pela casa de leilões Sotheby’s, em Londres. Segundos depois de o leiloeiro bater o martelo para confirmar o lance final de 1 milhão de libras esterlinas (cerca de 6,5 milhões de reais), uma pessoa não identificada dentro da sala ativou um controle remoto. O mecanismo oculto no quadro emitiu um ruído. Diante de todos, a tela com a menina começou a deslizar da moldura. À medida que isso ocorria, lâminas escondidas na parte de baixo da moldura cortaram o trabalho em tiras. A sala foi tomada por manifestações de espanto e desconsolo. De repente, o mecanismo parou: metade da tela estava intacta dentro da moldura, metade estava retalhada.

 

Dias depois, o artista por trás dessa façanha publicou um vídeo chamado Shred the Love (Retalhe o amor), que conta como foi instalado o mecanismo de corte dentro da moldura. Em seguida, o filme mostra o que aconteceu na Sotheby’s: homens de terno e mulheres em vestidos de festa conversam e tomam champanhe. Vemos o quadro. Uma voz diz que ele é o item mais comentado do leilão. Chega a hora da venda. Como uma imagem travessa de desenho animado, aparece um dedo apertando um botão. Ouvimos um ruído forte, um bipe, e o corte da obra começa. A confusão toma conta da cena. O aparelho para de triturar. Funcionários retiram a pintura semirretalhada da parede da Sotheby’s e a levam para longe. Uma legenda no filme informa: “Nos ensaios, funcionou todas as vezes.” E então vemos o que ocorreu no ensaio da estripulia: em um estúdio, em algum lugar, a mesma moldura começa a retalhar um quadro da Menina com Balão idêntico ao da casa de leilões. Mas, dessa vez, a tela se desfaz inteira e as tiras caem no chão. Uma mulher ri ao fundo.

Com a tentativa de trituração de um de seus trabalhos mais conhecidos, Banksy, o anônimo e atrevido artista de rua britânico, virou o mundo da arte de cabeça para baixo mais uma vez. Ao não conseguir destruir publicamente a tela, ele criou uma obra de arte inteiramente nova. Brincalhão como sempre, chamou essa obra imprevista de Love Is in the Bin (O amor está na lixeira).

Críticos que tradicionalmente esnobam as criações de Banksy o cobriram de elogios. Jerry Saltz, vencedor do Prêmio Pulitzer de Crítica, que havia chamado as obras do artista de “cartuns políticos melhorados que seguem uma fórmula e têm um nível palatável de anarquia”, dessa vez afirmou: “Esse trabalho eu adorei.” O crítico Will Gompertz, ex-­editor de arte da BBC, comparou Banksy ao francês Marcel Duchamp, que, em 1917, inscreveu um urinol como obra de sua autoria em uma exposição de arte. Gompertz comentou que Love Is in the Bin é a obra de arte que “melhor capta o espírito de nossa época”. Disse ainda que o trabalho “penetra na consciência do público” e é “arte que está no mundo, não separada dele, arte que coloca questões que precisam ser ventiladas. Aquilo é uma pintura? Ou será que agora é uma obra de arte conceitual? Ou será que deveria ser classificada como uma escultura? Ou é bobagem?”

 

Bobagem ou não, Love Is in the Bin é hoje a obra mais valiosa de Banksy. Em 2021, o trabalho voltou à Sotheby’s, que a descreveu como a única peça de arte jamais criada ao vivo em um leilão. Antes de confirmar a venda, o mesmo leiloeiro de 2018 afirmou: “Estou apavorado com a ideia de bater este martelo.” Mas nada aconteceu, e ele respirou aliviado. O trabalho foi vendido por 18,5 milhões de libras (cerca de 120 milhões de reais), um novo recorde para o artista. Se Banksy pretendia ridicularizar o mercado de arte ao destruir o quadro original, agora era o mercado que estava rindo dele. Imprevisibilidade e humor, porém, estão no cerne de seu trabalho, e as consequências de suas obras são frequentemente mais interessantes que elas mesmas. O próprio artista disse, certa vez: “Uma pintura não está concluída quando você larga o pincel: é nesse momento que ela começa. A reação do público é o que dá significado e valor a ela.”

 

Foi em 2001 que pela primeira vez associei o nome Banksy a alguns trabalhos de street art que apareceram em Londres. Mas eu não tinha certeza se eram todos da mesma pessoa ou de diferentes artistas. Um dia encontrei dois hipsters norte-americanos fazendo fotos do grafite de três helicópteros militares com a frase Have a nice day. Perguntei quem tinha feito aquilo. “Foi o Banksy, cara”, eles responderam, com os olhos brilhando de entusiasmo. Eu não sabia o que pensar da imagem. Era um grafite? Ou uma tolice pretensiosa?

Hoje sou eu que falo de Banksy com os olhos brilhando. Virei fã. No entanto, evito comentar sobre ele com as pessoas, por medo de parecer um chato. Todo mundo tem uma opinião sobre Banksy, que é possivelmente o artista vivo mais famoso da atualidade, mas também um anônimo. Não se tem certeza sobre sua identidade e nunca se sabe quando, onde e como ele vai atacar. Ele faz as pessoas rirem. Faz as pessoas pensarem. No mundo de Banksy, o trágico, o cômico e o extravagante coexistem. Ele abre caminho em meio à barulheira do dia a dia para nos dar presentes inesperados. Com uma arte acessível tanto a crianças quanto a adultos, sempre tem algo a oferecer a cada um de nós.

 

Banksy diz que a arte deveria confortar os que estão perturbados, e perturbar os que estão confortáveis. Essa filosofia se expressa muito bem em duas histórias verdadeiras que  conta em seu primeiro livro, Banging Your Head against a Brick Wall (Batendo a cabeça contra a parede, expressão idiomática parecida com a brasileira “dar murro em ponta de fa­ca”), publicação do próprio autor feita em 2001.

A primeira história se baseia em um trecho dos diários do tenente-coronel britânico Mervyn Willett Gonin, que participou da libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945. Cercado por mortos, moribundos e famintos, Gonin observa que “era preciso se acostumar à ideia de que o indivíduo simplesmente não tinha valor”. Quinhentas pessoas morriam ali por dia. A certa altura, um desconhecido enviou uma grande quantidade de batom para o campo. Embora não fosse um item de primeira necessidade nem o que os aliados responsáveis por libertar o campo queriam, o batom fez mais por aqueles prisioneiros do que todo o resto. “As mulheres ficavam deitadas nas camas sem lençóis e sem camisolas, mas com lábios de um vermelho-escarlate”, descreve Gonin. O batom restabeleceu a humanidade daquelas pessoas.

A segunda história que Banksy conta é a de Nica Leon, um dissidente romeno que liderou uma manifestação contra o ditador Nicolae Ceauşescu em um evento em dezembro de 1989. De acordo com Banksy, que cita a BBC, Leon só conseguiu que as pessoas na multidão, aparentemente obedientes e escolhidas a dedo para estar ali, gritassem no evento porque entenderam mal o que ele havia vociferado. Os gritos causaram grande agitação, que foi confundida com uma rebelião. Transmitido ao vivo pela tevê, o incidente foi a pá de cal do governo de Ceauşescu. Menos de uma semana depois o regime caiu.

Os dois relatos chamam a atenção para aquilo que motiva Banksy. Assim como o batom ofereceu um reconfortante sentido para quem fora desumanizado, o artista pretende com sua arte dotar os espaços públicos de alegria, humor e felicidade. Mas também deseja estimular as pessoas a pensar por conta própria, como um cavaleiro solitário que questiona o poder e se coloca ao lado dos oprimidos. “Se eu gritar forte o suficiente”, diz Banksy, “pode ser que outros gritem comigo, ainda que por acidente”.

 

Essa pauta contestadora tem raízes na infância de Banksy. Não se pode dizer com certeza onde ele nasceu, mas sabe-se que passou a infância em Bristol, um antigo porto montanhoso no sudoeste da Inglaterra, com cerca de 500 mil habitantes. É uma cidade ativa, irreverente e criativa, onde surgiram bandas e artistas como Massive Attack, Tricky e Portishead. Era de lá que exploradores, piratas, comerciantes e mercadores de escravos partiam para o Novo Mundo, entre os séculos XVI e XIX. Em 1963, inspirada pela ativista negra norte-americana Rosa Parks – que se recusou a dar seu lugar a um branco no ônibus –, a população afro-caribenha da cidade organizou um boicote a uma empresa de transporte local que se recusava a contratar funcionários negros. O boicote ajudou a forçar a criação de leis contra a discriminação racial na Grã-Bretanha. Em 2020, manifestantes do Black Lives Matter derrubaram em Bristol a estátua de Edward Colston, um escravagista que financiou a construção de escolas e hospitais na cidade.

Banksy contou em uma entrevista para a revista Squall que, em 1980, quando era menino, seu pai o levou para ver um banco ser destruído por amotinados no bairro de St. Pauls. O motim em Bristol foi um dos vários que chacoalharam as cidades inglesas naquele ano. A visão do banco incendiado deixou marcas na mente do garoto. Uma década mais tarde, ele testemunhou em Londres um grande protesto contra um imposto instituído pela primeira-ministra Margaret Thatcher. Por várias horas, os rebeldes entraram em confronto com a polícia e saquearam lojas. Mais tarde, Banksy dirá que um motim é algo que “usar drogas nunca vai te mostrar”.

Em seu livro Wall and Piece, de 2007, lançado no Brasil com o título Guerra e Spray, em 2012, Banksy explica que começou sua carreira fazendo grafites do tipo hip-hop, estilo que surgiu em Nova York nos anos 1970 e era praticado por pessoas autodenominadas “escritores”. Após escolher um nome para si, essas pessoas tentavam ficar famosas assinando velozmente com marcadores ou tinta spray os trabalhos multicoloridos feitos em muros e laterais de trens.

No início da década de 1980, todo o sistema de metrô de Nova York estava coberto por grafites. Martha Cooper e Henry Chalfant fotografaram os trabalhos antes que as autoridades os removessem dos trens para sempre. Mas, ao tentar publicar as imagens nos Estados Unidos, não conseguiram, pois o grafite era impopular e interpretado como símbolo do colapso social do país. Cooper e Chalfant só conseguiram uma editora na Inglaterra, a Thames & Hudson. O livro Subway Art (Arte do metrô) foi lançado em 1984 e as imagens correram o mundo. Com o sucesso, a editora encomendou a Chalfant um novo livro, agora documentando a difusão do grafite em outras cidades norte-americanas e em outros países. A obra, que se chamou Spraycan Art (Arte do spray), foi publicada em 1987. Em sua pesquisa, o fotógrafo visitou Bristol e registrou os grafites de um artista local chamado 3D. Banksy tinha visto esses trabalhos em muros locais quando vivia na cidade e começou sua carreira de grafiteiro imitando 3D.

A era do acid house – estilo de música eletrônica – e das raves na Grã-Bretanha também influenciou Banksy. Em 1992, ele esteve na maior e mais longa rave ilegal do país até então, em Castlemorton, uma região bucólica no sudoeste da Inglaterra. Cerca de 40 mil pessoas foram para lá. Durante cinco dias e cinco noites, o local se tornou uma república autônoma de dance music e drogas – o que levou à criminalização desse tipo de evento e do acid house pela lei inglesa. Após Castlemorton, Banksy viveu na estrada por um tempo, viajando com um infame sistema de som itinerante, chamado DIY (Do it yourself, faça você mesmo), e organizando festas ilegais onde tocava precisamente acid house. Poucos anos depois, desenhos em preto e branco começaram a aparecer nos muros de Bristol, pregando contra o consumo e criticando o sistema capitalista. Nas ruas da cidade diziam que o responsável por aqueles trabalhos engraçados e provocantes era um sujeito da região chamado Banksy.

Tudo começou na noite em que o jovem tentava pintar Late Again (Atrasado de novo) na lateral de um trem. A polícia invadiu o depósito onde o trem estava estacionado e Banksy foi obrigado a se esconder debaixo de um caminhão. Ele conta: “Enquanto estava ali escutando os policiais nos trilhos, percebi que eu precisava reduzir pela metade o tempo que levava para fazer a pintura, ou desistir de vez. Bem diante de mim, no fundo de um tanque de combustível, vi uma placa pintada com estêncil, e me dei conta que eu podia simplesmente copiar aquele jeito de pintar.” O estêncil é uma técnica de pintura em que se recorta um desenho em uma folha de papel-cartão, plástico ou metal. Sobre a área recortada na folha aplica-se a tinta, reproduzindo o desenho sobre qualquer superfície.

Os estênceis libertaram a imaginação de Banksy. Macacos com detonadores, Lênin de patins e uma garota abraçando uma bomba foram algumas das novas figuras que passaram a decorar os muros de Bristol. Graças a essa técnica, a pintura podia ser feita mais rapidamente. Ficava também mais barata, pois uma única lata de tinta às vezes bastava para fazer o trabalho. Banksy tem dito que gosta de utilizar o estêncil não só por causa da velocidade e eficiência, mas também porque essa técnica é usada “para iniciar revoluções e parar guerras”.

Em seguida, Banksy se mudou para Londres. No bairro ultrassofisticado de Shoreditch, a imagem inesquecível de um batalhão de choque da polícia com rostos sorridentes logo cobriu uma ponte ferroviária inteira. Outra imagem mostrava amotinados arremessando flores em vez de pedras. Na lateral de um vagão de metrô, apareceram macacos feitos em estêncil, perto dos quais estava escrito: “Pode rir, mas um dia nós vamos estar no comando.” E havia ratos em toda parte. Ratos usando joias. Ratos pintando coraçõezinhos. Ratos carregando cartazes com a frase I love London. Quando um amigo de Banksy disse que rat é um anagrama de art, Banksy fez que já sabia disso.

Os grafiteiros machões de Londres – hostis a pessoas de fora da cidade, chamados por eles de “caipiras” – reclamavam desse novo cara que pintava estênceis artísticos no território deles. De início desprezaram seu trabalho como sendo uma bobagem acadêmica. Mas Banksy logo conseguiu conquistar esses recalcitrantes, que passaram a admirar sua arte, seu humor e sua visão antiestablishment. O caipira do West Country tinha jogado no lixo o manual oficial dos grafiteiros. Como ele usava imagens que faziam parte do imaginário das pessoas em geral e das quais elas gostavam, logo se tornou muito popular. Qualquer um podia rir de um rato com óculos de sol. De acordo com o artista plástico Damien Hirst, a campanha de Banksy em Londres foi “um bombardeio de alto nível deflagrado por uma força anônima […] um presente para todo mundo e sobre o qual todo mundo estava falando”.

Banksy entrou clandestinamente em zoológicos e escreveu nas paredes das jaulas o que achava que os animais podiam estar pensando. “Quero sair daqui. Esse lugar é frio demais. O tratador cheira mal”, um elefante reclamou. Pinguins declararam que estavam “de saco cheio de comer peixe”. De acordo com o artista, pintar em um zoológico é “sensacional porque você está dando voz a algo que não tem voz – que é exatamente a razão de ser do grafite”. Ele interferiu em sinalizações de trânsito, sistemas de tráfego e usou caminhões para colocar estátuas, inclusive uma que homenageava O Pensador de Rodin, no Centro de Londres. Na versão de Banksy, o pensador com o queixo apoiado na mão usa um cone de trânsito na cabeça. O nome dado à escultura foi The Drinker (O bebedor), um comentário a respeito do lazer dos britânicos, muito voltado para o consumo de álcool.

No Carnaval de Notting Hill, a maior festa de rua da Europa, mãos desconhecidas lançaram centenas de cédulas de dinheiro no meio da multidão. Alguns dos foliões tentaram usar o dinheiro para comprar mais cerveja. Mas as notas eram falsas. Em vez da efígie da rainha, elas estampavam uma enigmática imagem da princesa Diana. Banksy imprimiu o equivalente a 1 milhão de libras esterlinas, num total de 100 mil notas. Mais tarde, um ex-colaborador do artista, Steve Lazarides, chegou a cobrar 1,4 mil libras (cerca de 9 mil reais) por nota.

 

À Medida que sua fama crescia, Banksy começou a atacar o establishment artístico esnobe e elitista de Londres. Em 2002, ele pintou nos degraus da escadaria do museu Tate Britain a inscrição Mind the crap (Cuidado com o lixo), uma brincadeira com a frase dita nos autofalantes dos vagões do metrô da cidade, Mind the gap  (Cuidado com o vão – entre o trem e o piso da estação). Pintar apenas letras com estêncil demora entre 30 segundos e 1 minuto. No dia seguinte, o museu serviria de palco para a entrega do mais prestigioso prêmio de arte da Grã-Bretanha, o Turner Prize.

Um ano depois, em julho de 2003, Banksy fez sua primeira exposição individual em um depósito abandonado no Leste de Londres. A exposição tinha um retrato da rainha Elizabeth II com o rosto de um chimpanzé, além de animais vivos pintados com tintas atóxicas: porcos, ovelhas e uma vaca. Embora a Sociedade Real de Prevenção à Crueldade Contra os Animais tivesse autorizado a exibição, ativistas de direitos animais conseguiram fechá-la antes do previsto.

Banksy também infiltrou trabalhos em galerias importantes. Ele voltou à Tate Britain com barba falsa, chapéu e óculos – disfarce que o fazia parecer um personagem de quadrinhos –, e colocou sem que percebessem um trabalho na parede. O quadro a óleo retratava uma estrada bucólica no campo, ao estilo das paisagens acadêmicas, mas desfigurada por um cartaz da polícia pintado à esquerda da imagem. Um cartão preso ao lado da tela afirmava: “Essa nova aquisição é um belo espécime do estilo pós-idiotista. Pouco se sabe sobre Banksy, cujo trabalho é inspirado em resina de Cannabis e programas vespertinos de tevê.”

Pouco depois, ele pendurou uma Mona Lisa com um sorriso amarelo de emoji no Louvre e, num único dia de 2005, fez intervenções em quatro museus de Nova York – o Museu de Arte Moderna (MoMA), o Metropolitan, o Museu do Brooklyn e o Museu Americano de História Natural. Em uma entrevista para a rádio norte-americana NPR, explicou que tinha decidido “eliminar a pessoa do intermediário” e colocar ele mesmo os trabalhos nos museus. “O vandalismo estúpido exige muito mais preparação do que a maioria das pessoas imagina”, disse.

No mesmo ano, Banksy foi à Cisjordânia para visitar o muro recém-erguido por Israel para separar o território palestino. Declarou que “a Palestina agora é a maior prisão a céu aberto do mundo e o melhor destino possível para um grafiteiro passar férias” e pintou nove imensas imagens no muro de 8 metros de altura. Os trabalhos mostravam uma menina sendo levada para o alto do muro por balões, um buraco pintado na muralha em trompe l’oeil, revelando uma praia, tesouras e uma linha pontilhada para recortar o paredão.

Na Inglaterra, ele continuou chocando plateias. Logo após as intervenções em Nova York e na Palestina, abriu a exposição Crude Oils (Óleos crus) em Londres, no bairro de classe alta Notting Hill, com pinturas a óleo modificadas e reinvenções de telas clássicas. Flores de Van Gogh apareceram murchas em Girassóis (do Posto de Gasolina). A supermodelo Kate Moss usurpava o lugar de Marilyn Monroe no famoso quadro de Andy Warhol. Em Show Me the Monet, um carrinho de mercado semiafundado e um cone de trânsito poluíam uma das telas da série Nenúfares, do artista francês.

Isso parecia bem comportado, mas tinha uma pegadinha, e das grandes: 164 ratos também ocuparam o espaço. Os roedores rastejavam pelo piso, andavam pelas molduras e passavam por cima de um esqueleto vestido com um terno. Também dessa vez, a participação dos animais havia sido autorizada e, apesar de muitas reclamações, Crude Oils ficou em exibição por todo o período planejado. Steve Lazarides, agente e colaborador de Banksy, leu uma declaração do artista: “Os ratos representam o triunfo das pequenas pessoas, dos indesejáveis e daqueles que não são amados. Apesar dos esforços das autoridades, eles sobreviveram, prosperaram e venceram.”

 

Em setembro de 2006, Banksy viajou para Los Angeles. Em seu site, ele anunciou um evento de três dias na cidade, chamado Barely Legal (Quase legal), e prometeu uma “orgia de vandalismo estúpido e belas imagens”. Deu início, então, a uma campanha publicitária provocativa pela cidade, exibindo imagens que incluíam ratos gigantes. Na Disneylândia, depois de pular uma cerca, colocou uma efígie em tamanho real de um preso de Guantánamo, com uniforme laranja e encapuzado, ao lado da montanha-russa Big Thunder.

A estratégia funcionou. No dia da abertura, uma fila imensa se formou em torno de um depósito abandonado escolhido para abrigar a exposição em Los Angeles. Embora o local ficasse numa área insalubre da cidade, astros de Hollywood, entre eles Brad Pitt e Angelina Jolie, visitaram a mostra. A presença deles não impediu que Banksy zombasse da cultura das celebridades. A imagem de uma macaca fumando parodiava a famosa capa da Vanity Fair com Demi Moore nua e grávida. Outra vez, o que chamou mais a atenção foi um animal vivo: nada menos que um elefante. Pintado com o mesmo visual dourado e fúcsia do papel de parede da exposição, o elefante passeava entre os visitantes, enquanto eles admiravam as obras nas paredes.

Um manifesto impresso foi distribuído, com as seguintes palavras:

Há um elefante na sala.

Há um problema do qual nunca falamos.

O fato é que a vida não está mais justa.

1,7 bilhão de pessoas não têm acesso a água potável.

20 bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.

Todos os dias centenas de pessoas são levadas a se sentir fisicamente mal por causa de babacas em exposições de arte que ficam dizendo como o mundo é ruim, mas na verdade não fazem nada para mudar isso.

Alguém quer uma taça de vinho grátis?

A então chefe do setor de arte contemporânea da Sotheby’s, Cheyenne Westphal, foi à abertura da exposição. O bairro era tão assustador que ela ficou com medo de estacionar ali, mas não desistiu de entrar e, ao fazê-lo, deu de cara com um elefante e achou aquilo “incrível e, em termos de experiência artística, uma das maiores de todos os tempos”, como disse na época. Impressões produzidas especialmente para o evento e vendidas a 500 dólares esgotaram em minutos. Uma delas retratava um leilão de arte. Outra tinha esta frase: “Não acredito que vocês realmente compram essas porcarias, seus imbecis.”

Antes da exposição, em uma conversa (publicada na revista Swindle, em 2006) com outro artista de rua, Shepard Fairey – conhecido por seu retrato de Barack Obama com a palavra Hope (Esperança) –, Banksy comentou: “O mundo da arte é a maior piada do mundo hoje. É um retiro para os superprivilegiados, para os pretensiosos e para os fracos. E a arte moderna é uma vergonha – nunca tanta gente usou tantos recursos e demorou tanto tempo para dizer tão pouco. […] O lado positivo é que se trata provavelmente do mercado mais fácil do mundo para você entrar sem ter talento algum e ganhar uma grana.”

A atriz Angelina Jolie pagou 200 mil libras por um original da exposição Barely Legal. Ela não foi a única estrela de Hollywood a sair com uma obra de arte de lá. Dennis Hopper ganhou de presente um televisor cor-de-rosa onde estavam escritas na tela as seguintes palavras: “No futuro, todos serão anônimos por quinze minutos.” Em 2010, o ator acusou a ex-mulher de roubar a obra, e Banksy mandou para Hopper uma versão exclusiva de Menina com Balão, com uma linha pontilhada no meio e esta frase: “Em caso de divórcio corte aqui.”

O rebelde de Bristol tinha chegado à cena mundial. Depois de Barely Legal, Banksy se tornou um dos artistas vivos mais comentados. Os preços de suas obras explodiram, o que ele achou complicado de encarar, especialmente porque “pinturas que no passado eu troquei por um corte de cabelo ou um baseado agora estavam sendo vendidas por 50 mil libras”, disse no documentário Exit through the Gift Shop (Saída pela loja de presentes). Ele vinha disponibilizando suas obras a preços acessíveis havia um bom tempo. Em 2003 abriu uma loja online, que depois virou galeria, chamada Pictures on Walls (Quadros nas paredes), onde eram impressos trabalhos em tiragens pequenas, de 500 a 750 exemplares, vendidos a preços entre 40 e 150 libras, dependendo se eram ou não assinadas. Entre esses trabalhos estava Menina com Balão. Em 2004, a versão assinada dessa impressão custava 150 libras. Em março de 2022, a casa de leilões Christie’s vendeu uma delas por 378 mil libras.

Embora a Pictures on Walls tivesse como objetivo oferecer obras a preços acessíveis à base crescente de fãs de Banksy, muitos compradores imediatamente revendiam os objetos para ter lucro rápido – uma prática conhecida como flipping. Banksy disse a Shepard Fairey, na entrevista citada antes: “Eu não tenho muito controle sobre o preço das coisas. Toda vez que eu vendo alguma coisa barato, alguém coloca no eBay e ganha mais dinheiro do que cobrei. Com isso o frescor da coisa logo some.” Conciliar o espírito rebelde com o sucesso global fez aumentar a tensão na trajetória de Banksy, uma vez que o valor cada vez mais alto de seus trabalhos entrava em conflito com sua visão de mundo anticapitalista.

Em 2009, ele retornou à sua terra natal, a fim de fazer uma residência de verão no Museu e Galeria de Arte Bristol, uma instituição administrada pelo governo. A exposição foi montada no mais absoluto sigilo. Em vez de mostrar seus trabalhos em um espaço específico, ele fez intervenções em vários lugares do prédio, levando com que os visitantes tivessem que percorrer todo o museu. No saguão principal, colocou um antigo caminhão de sorvete – de um lado com marcas de incêndio, de outro todo grafitado –, em cujo teto havia a escultura de um cone gigante caído e a guloseima escorrendo. Perto do caminhão, via-se o boneco de um policial com traje de choque, montado em um cavalinho de balanço para crianças.

Viajei três horas de trem de Londres até Bristol para ver a exposição. Ao chegar ao museu havia uma fila imensa na entrada, com gente de todas as idades e classes sociais. Enquanto eu esperava no fim da fila, chegaram os funcionários do museu e me disseram que o tempo de espera seria de até cinco horas e que, quando chegasse à entrada, provavelmente o local já estaria fechando. Sugeriram que eu voltasse bem cedo no dia seguinte. Fiquei desconsolado e já estava indo embora quando avistei uma saída do museu desprotegida. Sem pensar muito, entrei junto com duas adolescentes, sem que ninguém notasse a nossa pequena contravenção. “Bem, estamos dentro!”, sussurrou para mim uma das adolescentes, com um sorriso conspiratório.

Em 2010, Banksy dirigiu o documentário Exit through the Gift Shop, que foi indicado ao Oscar. O personagem central do filme é Thierry Guetta, um francês que vendia roupas usadas em Los Angeles e gravava com uma câmera de vídeo tudo que fazia, inclusive suas idas ao banheiro. No começo do filme, vemos Guetta em seu brechó, dizendo que basta falar que uma peça de roupa foi desenhada por um “estilista” para cobrar um preço exorbitante por ela e vendê-la. Por ser primo de um artista de rua francês, Invader (que também se mantém anônimo), Guetta fez amizade com Shepard Fairey e passou a filmar a comunidade dos artistas de rua. Acabou conhecendo Banksy e, apesar das diferenças entre eles, os dois travaram amizade. O artista, que não gosta de câmeras, autorizou Guetta a filmá-lo enquanto trabalhava, abrindo, num lance inesperado, as portas do seu mundo secreto – sem revelar seu rosto, é claro.

Porém, quando assistiu ao filme do amigo, Banksy percebeu que não estava bom e se ofereceu para ajudar. Decidiu pelo seguinte enredo: o protagonista é o próprio Guetta, que se autodenominando Mr. Brainwash (Senhor Lavagem Cerebral) conta no filme que deseja ser um artista de rua. Banksy então sugere que ele organize uma exposição. O que é feito. A mostra é um sucesso: Mr. Brainwash, apesar do talento duvidoso, arrecada quase 1 milhão de dólares com suas obras e ainda é convidado por Madonna para fazer o design da capa do próximo álbum da cantora.

Após o sucesso do filme, Banksy só reapareceu em 2013, com Better Out than In (Melhor fora que dentro), uma autodeclarada “residência artística ilegal” nas ruas de Nova York. A cada dia, ele publicava na internet a foto de uma nova obra em algum lugar da cidade. Os nova-iorquinos aderiram à caça ao tesouro, indo atrás dos trabalhos de um lado a outro da cidade (aventura contada na reportagem Bancando um Banksy, publicada na piauí_146, novembro de 2018). Quando vândalos depredavam algum trabalho, fãs o restauravam. Dois quadros pintados com os grafiteiros paulistas Gustavo e Otávio Pandolfo, OSGEMEOS, foram exibidos debaixo de uma ponte no bairro Chelsea (os quadros só foram mostrados novamente em 2020 na mostra Segredos, dos dois irmãos, na Pinacoteca de São Paulo). Um quiosque que vendia “arte feita com spray” por 60 dólares cada foi incluído na travessura – e só depois Banksy revelou que os trabalhos tinham sido feitos por ele mesmo (um ano mais tarde, dois deles foram vendidos por 125 mil libras, ou cerca de 800 mil reais). Banksy não estava em lugar nenhum e estava em toda parte, devolvendo o grafite a seu lugar de origem e fazendo com que os nova-iorquinos participassem de um happening artístico que durou um mês inteiro.

Para o grand finale, ele prendeu, no alto de um muro perto de uma estrada, sete balões prateados nos quais se lia: “Banksy!” Enquanto uma multidão se aglomerava para ver o trabalho, pessoas escalaram e retiraram os balões. Quando os espertinhos desceram ao nível da rua com os balões, foram confrontados por fãs irritados. Começou uma briga. A polícia chegou. No momento em que os policiais, com considerável dificuldade, enfiavam os balões na viatura, o sentido daquilo tudo ficou claro: incapazes de prender Banksy, as autoridades prenderam os balões.

 

As pessoas gostam do fato de Banksy ser anônimo. Como ninguém sabe quem ele é, Banksy pode ser qualquer um que você queira. E ele, claro, valoriza o anonimato. É a essência dele e de seu poder. Isso garante a liberdade criativa e permite que viva sem as limitações impostas pela fama. Mas Banksy já foi fotografado. E teve seu nome publicado. Também já deu entrevistas presencialmente para a grande imprensa: a última vez foi em 2003, para Simon Hattenstone, do jornal britânico The Guardian. O jornalista descreveu Banksy como “branco, 28 anos, desalinhado e casual – calça jeans, camiseta, um dente de prata, uma corrente prateada e brincos prateados”.

Em 2004, o jornal vespertino London Evening Standard, publicou uma foto que afirmou ser de Banksy. Feita na Jamaica, a imagem mostra um sujeito de cabelos castanhos ondulados, óculos de sol, calça jeans e uma camisa azul-marinho. Ele está agachado e sorri, tendo ao seu lado, no chão, um estêncil recém-usado. O fotógrafo jamaicano Peter Dean Rickards, que vendeu a imagem para o jornal, descreveu a pessoa na foto como “um homenzinho rude, com dentes de rato, que aparentemente se achava superior porque era famoso por pintar estênceis com coelhinhos e ratos lá em Londres”.

Em 2007, a jornalista Lauren Collins, da revista New Yorker, descobriu que Banksy de fato havia viajado três anos antes para a Jamaica. A gravadora britânica Wall of Sound estava lançando na época o artista de reggae Buju Banton e contratara Banksy para fazer a parte artística do trabalho. Quando Collins entrou em contato com o fotógrafo Ric­kards, ele preferiu não falar nada, dando a entender que seu silêncio tinha sido comprado. Ela mostrou a foto para Hattenstone, o jornalista do Guardian, que confirmou ser Banksy a pessoa retratada na Jamaica.

Depois, o tabloide britânico Daily Mail fez uma reportagem completa sobre o artista. O jornal republicou a foto feita por Rickards ao lado de outra, mostrando um rapaz em seus tempos de escola, e afirmou que as duas retratavam a mesma pessoa: Robin Gunningham. De fato, existem semelhanças entre as imagens, apesar dos vários anos que as separam. O nome Robin também explicaria de onde vem o pseudônimo Banksy (Robin Banksy soa, em inglês, igual a robbing banks, assaltando bancos).

O Daily Mail contou que Gunning­ham estudou em uma escola particular prestigiosa em Bristol e mostrou imagens de uma mulher que seria sua esposa, Joy Millward, ex-pesquisadora de um deputado do Partido Trabalhista inglês. Os dois teriam se casado em Las Vegas, em 2006. Uma fonte anônima, supostamente próxima do casal, disse: “Alguns dos parentes de Joy não sabem quem é o marido dela nem o que ele faz. Joy conta para as pessoas que ele é artista. Diz que ele faz arte de livros de receitas e capas de discos. Banksy tem falado para as pessoas que cria cenários para cerimônias de premiação, o que explica suas ausências frequentes.”

Em 2016, a Escola de Ciências Biológicas e Químicas da Universidade Queen Mary de Londres fez, com o Centro para a Investigação e Inteligência Geoespacial da Universidade do Texas, um estudo intitulado Tagging Banksy (Tagueando Banksy). Usou para tanto um método aplicado na criminologia, o perfil geográfico, que analisa as áreas em que ocorreram determinados crimes para encontrar “pontos sensíveis” aptos a ajudar na identificação de possíveis suspeitos. No caso de Banksy, pesquisadores analisaram padrões espaciais nas suas obras de rua, comparando esses endereços com os dos locais onde moraram Gunningham e Millward (endereços achados nos registros eleitorais). O resultado: “A localização espacial das obras de arte de Banksy tanto em Londres quanto em Bristol está associada a lugares ligados a uma pessoa em especial – Robin Gunning­ham.” O coordenador da pesquisa, Steven Le Comber, disse: “O que achei que ia fazer era pegar os dez suspeitos mais prováveis, avaliar todos e não nomear nenhum. Mas rapidamente ficou claro que só existe um suspeito sério, e todo mundo sabe quem é. Eu ficaria surpreso se não fosse [Gunningham], mesmo sem a nossa análise, mas é interessante que ela dê mais apoio a essa hipótese.”

O artista favorito de Banksy é Harry Houdini (1874-1926), ilusionista húngaro-americano que ele descreve como a pessoa que fez uma “verdadeira conexão entre a arte e a vida real”. Emulando seu herói, Banksy também é um especialista em fugas. Sua especialidade: desaparecer. Uma equipe muito leal de amigos e assistentes o protege. Até hoje, ninguém de dentro do círculo de confiança do artista o expôs. E, mesmo que Banksy seja Robin Gunningham, ninguém sabe onde encontrá-lo. Robin Gunningham sumiu.

 

Além de cuidar da proteção de sua identidade, Banksy precisa administrar um negócio muito bem-­sucedido. Durante a primeira década de sua carreira, quem cuidou disso foi Steve Lazarides, seu sócio e colaborador. Mas os dois se separaram em 2008. Lazarides criou sua própria galeria, e Banksy, uma nova empresa, chamada Pest Control Office (Escritório de controle de pragas), em homenagem a seus eternos amigos, os ratos.

Hoje, a Pest Control monitora todas as impressões feitas pela Pictures on Walls, além das pinturas e esculturas originais. A empresa não reconhece nenhum dos trabalhos de rua de Banksy, o que protege o artista de processos na Justiça (pois foram feitos ilegalmente) e garante que os preços dos objetos artísticos roubados nas ruas se mantenham baixos, preservando a sua natureza pública. Casas de leilão de prestígio só aceitam peças de Banksy certificadas pela Pest Control. Mesmo assim, ainda acontecem roubos. Em 2019, ladrões usaram uma serra especial para recortar uma porta de aço em Paris, pintada em tributo às vítimas do ataque terrorista na casa de shows Bataclan. O roubo levou a uma investigação policial internacional. A porta foi descoberta em uma fazenda no interior da Itália e devolvida às autoridades francesas em uma cerimônia oficial na Embaixada da França em Roma. Oito homens foram condenados à prisão.

A Pest Control também tentou garantir direitos básicos de propriedade intelectual para Banksy, entrando com pedidos de registro na Grã-Bretanha e na Austrália para algumas das suas imagens mais famosas, como o manifestante arremessando flores. Embora pequenos varejistas e camelôs do mundo todo tenham usado imagens criadas por Banksy em camisetas, canecas e pôsteres durante anos, a ideia da empresa foi se antecipar a uma possível exploração da obra do artista por grandes marcas ou empresas. Os registros continuavam válidos até recentemente, quando a Full Colour Black, uma companhia britânica especializada em cartões de felicitações, entrou com uma contestação judicial. A empresa alegou que, como as imagens não foram feitas originalmente com propósito comercial, o registro não era legítimo.

Em resposta, a Pest Control abriu em outubro de 2019 uma lojinha pop-up (temporária) chamada Gross Domestic Product (GDP), em Croydon, um subúrbio esquecido do Sul de Londres. Ao longo de duas semanas, os visitantes podiam ver na vitrine da loja os produtos (quadros, roupas e esculturas…) e registrar em uma loja na internet os que gostariam de adquirir. Como a demanda se revelou muito maior do que a oferta, fizeram um sorteio para selecionar quais dos interessados teriam direito à compra – e só poderiam comprar um único item.

Mas essa batalha Banksy perdeu. Como a loja não existia quando a Full Colour Black contestou o registro de marca, o Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia concluiu que a GDP foi criada de má-fé, tendo como único propósito burlar a lei.

Na disputa, o anonimato de Banksy causou problemas. A sentença afirmou: “Ele não pode ser identificado como dono inquestionável de tais obras, uma vez que sua identidade está oculta.” Também não ajudou muito o desdém de longa data do artista pela propriedade intelectual, resumido na famosa frase de seu livro Guerra e Spray: “Copyright é para perdedores.” A Pest Control entrou com recurso.

Em 2007, Banksy admitiu para a jornalista Lauren Collins – em uma troca de e-mails – que ficava desconfortável com o furor financeiro em torno de sua obra. Mas havia concluído que isso era “um problema fácil de resolver – bastava parar de choramingar e doar tudo. Não acho que seja possível fazer arte sobre a pobreza no mundo e aí embolsar tudo, isso seria levar a ironia longe demais, até pra mim”.

Durante a residência Better Out than In em Nova York, em 2013, Banksy colocou essas palavras em prática com uma tática de arrecadação de fundos muito eficaz. Ele comprou por 50 dólares, num brechó que captava recursos para a Housing Works – instituição que busca moradias para pessoas com HIV –, uma paisagem acadêmica pintada por uma pessoa desconhecida. Depois, devolveu o quadro em segredo para o brechó, mas com uma imagem inserida por ele: um soldado nazista admirando aquela paisagem. Feita a devolução, a Pest Control entrou em contato com a loja para certificar a autoria do trabalho, que recebeu o título The Banality of the Banality of Evil (A banalidade da banalidade do mal). Em seguida, a Housing Works leiloou a obra por 615 mil dólares.

Em maio de 2020, durante o primeiro lockdown na Grã-Bretanha, apareceu em um hospital público em Southampton, na Inglaterra, uma pintura em preto e branco de um menino ajoelhado perto de um cesto de lixo com bonecos de Batman e Homem-Aranha. A criança aparece brincando com uma nova super-heroína: uma enfermeira uniformizada, com uma cruz vermelha no peito. Um bilhete de Banksy acompanhava o quadro: “Obrigado por tudo que vocês estão fazendo. Espero que isso ajude a trazer um pouco mais de luz para o lugar, ainda que seja apenas preto e branco.” Quando Game Changer (Divisor de águas) foi a leilão na Christie’s, em março de 2021, alcançou o valor de 16,7 milhões de libras, que foram destinadas ao Serviço Nacional de Saúde britânico.

Banksy também doou, em 2020, um barco para Pia Klemp, capitã feminista que resgata imigrantes africanos na Costa da Líbia. Pintado na cor rosa-choque, o Louise Michel tem estampado na proa uma Menina com Balão, mas com a garota vestindo um colete salva-vidas. Em julho de 2022, o Louise Michel ajudou a resgatar 224 imigrantes no mar.

Outra doação de Banksy em 2020 foi para um hospital em Belém, na Palestina. O tríptico Mediterranean Sea View (Vista para o Mar Mediterrâneo) é composto por marinhas em estilo acadêmico, mas com numerosos coletes salva-vidas alaranjados boiando no mar ou descartados na praia. O tríptico foi leiloado por 2,2 milhões de libras. Antes de ser vendido, ficou em exposição no Walled Off Hotel, um hotel boutique em Belém, bem perto do muro que separa a Cis­jordânia e Israel. O local é próximo de onde Banksy pintou as imensas imagens de 2005 que lhe deram fama mundial (inclusive a da menina sendo levada para o alto por balões).

Foi Banksy quem escolheu a cidade de Belém para abrigar o Walled Off Hotel, inaugurado em 2017 e do qual ele é proprietário. Como sempre, o artista não conseguiu resistir à piada ao escolher o nome do estabelecimento. O verbo walled off (murado) faz referência à localização do hotel na Cisjordânia, mas também ao luxuoso Waldorf Astoria Hotel, de Nova York. A publicidade do Walled Off Hotel convida os hóspedes a experimentar “a pior vista do mundo”. Os hóspedes ricos podem ficar em suítes de luxo com originais de Banksy – há vinte deles no estabelecimento. Hóspedes com menos grana podem dormir em beliches em um quarto, no estilo dos albergues estudantis. E todos podem frequentar o bar e ver trabalhos de Banksy afixados na recepção. O hotel exibe ainda obras de artistas palestinos locais e abriga uma exposição permanente sobre a história do conflito entre Israel e Palestina, a ocupação da Cisjordânia e a construção do muro de 700 km. Ao mesmo tempo muito divertido e terrivelmente sério, o Walled Off Hotel faz uma fusão única entre ativismo, arte, história, política, turismo e empreendimento social. É um testemunho do amadurecimento de Banksy como um filantropo de respeito.

Em 2021, Banksy fez uma pintura no muro altíssimo do presídio de Reading, o mesmo em que o escritor homossexual Oscar Wilde ficou encarcerado entre 1895 e 1897, após ser condenado por “atentado violento ao pudor”. Reading é uma cidadezinha perto de Londres com a qual ninguém se importa muito, e o cárcere, fechado desde 2014, foi colocado à venda pelo Ministério da Justiça. A Câmara de Reading, desejando celebrar Wilde e transformar o local em um centro cultural, fez uma oferta de 2,6 milhões de libras pelo local. Quando a proposta foi rejeitada, Banksy foi até lá e pintou no muro, às escondidas, a figura de um condenado escapando com a ajuda de lençóis que se transformam num rolo de papel preso pela ponta em uma máquina de escrever. Depois disso, o artista garantiu a venda do estêncil original que usou, e prometeu doar a Reading os 10 milhões de libras que o Ministério da Justiça está pedindo pelo prédio.

No final do mesmo ano, Banksy anunciou o lançamento de uma camiseta exclusiva, a ser vendida em apenas cinco lojas de Bristol. A imagem na camiseta mostra apenas o pedestal da estátua do escravocrata Edward Colston, derrubada em 2020. O artista cedeu os lucros das vendas para os quatro manifestantes acusados de derrubar a estátua e que aguardavam uma decisão judicial. Em um sábado de manhã, uma rádio de Bristol anunciou os nomes das lojas onde seriam vendidas as camisetas. A peça custava 25 libras e cada pessoa só podia adquirir uma. Na tarde do mesmo sábado, as camisetas já haviam esgotado. No domingo, elas começaram a aparecer em sites de compras na internet, ao preço de 1 mil libras cada.

 

Em 2022, Banksy permaneceu em silêncio até o mês de novembro, quando reapareceu nas redondezas de Kiev com sete novas pinturas, incluindo a imagem de uma pessoa parecida com Vladimir Putin sendo jogada no chão por uma criança em uma partida de judô. Pouco depois, lançou uma série de cinquenta gravuras de edição limitada, à venda por sorteio – ao preço de 5 mil libras cada (cerca de 32 mil reais). Todos os lucros dessa venda irão para o Legacy of War, uma ong que fornece ambulâncias e veículos de emergência na zona de conflito da Ucrânia.

Também em novembro chegou outra boa notícia para fãs do artista: Pest Control ganhou seu recurso no processo do tribunal europeu contra Full Colour Black. “Essa é uma vitória significativa para Banksy, ou mais precisamente pa­ra o Pest Control Office Limited, que permite a Banksy esconder sua identidade”, comentou Lee Curtis, especialista em marcas registradas do escritório de advocacia hgf Ltda.

A fama mundial e os preços absurdos pagos por suas obras não foram suficientes para deixar a natureza rebelde e subversiva de Banksy menos afiada. O modesto artista de rua continua fazendo exatamente o que se propôs fazer desde seus primeiros anos: perturbar os confortados e confortar os perturbados.

Damian Platt
Damian Platt

Escritor, investigador cultural e skatista, publicou Nothing by Accident: Brazil on the Edge (Independent Publishing Network)

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