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A França em chamas

    Policiais cercam rapaz em Paris, em 2 de julho: a incapacidade de entender a revolta se deve ao fato de ela ter ocorrido sobretudo numa região que é um ponto cego para políticos e mídia CRÉDITO: JUAN MEDINA_REUTERS_FOTOARENA_2023

carta da frança I

A França em chamas

Como a morte de Nahel Merzouk, de 17 anos, desencadeou um turbilhão de manifestações e revelou a dificuldade da França em enfrentar seus erros e seus fantasmas coloniais

Anthony Passeron | Edição 203, Agosto 2023

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De Nice

Tradução de Claire Laribe

Os motins que aconteceram em toda a França em junho e julho aparentemente surpreenderam as autoridades. Foram consequência direta da morte de Nahel Merzouk, um adolescente de 17 anos baleado no dia 27 de junho por um policial durante uma blitz em Nanterre, na Região Metropolitana de Paris. O vídeo da ação policial circulou imediatamente nas redes sociais, despertando raiva e também incompreensão. Revoltas como essas espantam certas pessoas por sua intensidade, mas não causam surpresa alguma naqueles que vivem e trabalham nas periferias das cidades. Também não surpreendem os numerosos professores franceses que, como eu, começaram suas carreiras nos subúrbios, descobrindo aos poucos esses territórios e sua juventude, negligenciados há décadas pelas elites do país.

 

A tragédia de Nahel não é inédita. Faz parte de uma longa série de ações violentas da polícia que vem se desenrolando em diferentes temporalidades. Primeiro, no curto período de tempo em que as imagens de abusos policiais passaram a ser documentadas, alimentando o divórcio entre a polícia e uma parcela crescente da população. Segundo, no longo período de tempo em que transcorreu a sequência histórica de conflitos em bairros da periferia, cuja última grande ocorrência data de quase dezoito anos atrás. Crônica de uma catástrofe anunciada.

Em 2005, o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, já não escondia mais sua ambição de se candidatar à Presidência, quando chegasse ao fim do mandato de Jacques Chirac, em 2007. Sarkozy então anunciou que queria “limpar os subúrbios com Kärcher”, uma marca de lavadoras de alta pressão. Por meio dessa fórmula que se tornou simbólica, ele impôs, semana após semana, a questão da segurança ao debate político e midiático – até o momento em que a história o alcançou. Dois adolescentes morreram nu­ma perseguição policial e se iniciou uma insurreição raramente vista no país. Num final de tarde do dia 27 de outubro de 2005, Zyed Benna, de 17 anos, e Bouna Traoré, de 15 anos, ao fugir da polícia, se refugiaram em um transformador elétrico e foram eletrocutados em Clichy-sous-Bois, nordeste de Paris. Seguiram-se três semanas de motins nos subúrbios da capital e de muitas metrópoles francesas, algo que ninguém, nas esferas políticas, parecia ter antevisto.

De maneira apressada, o então primeiro-ministro Dominique de Villepin decretou estado de emergência. A decisão autorizou a adoção de medidas excepcionais, como o toque de recolher e a proibição de aglomerações em espaços públicos. Mas as manifestações continuaram a se espalhar pelas periferias. Em meados de novembro, Chirac colocou panos quentes no que estava ocorrendo. Admitiu que havia um “profundo mal-­estar” e se apegou aos seus ideais, lembrando aos jovens da periferia que todos são “filhos e filhas da República”. Depois de semanas de caos, fez-se de conta que se reconhecia a responsabilidade política do Estado e a situação econômica catastrófica dos bairros de periferia. Vieram, então, as promessas. Rapidamente, a questão da responsabilidade da polícia, levantada por moradores e associações locais, foi descartada em meio a discussões intermináveis sobre integração, educação, política urbana, crime e promessas vazias que nunca foram cumpridas.

 

Sinal da incapacidade francesa de entender esse fenômeno é o fato de que os acontecimentos de 2005 tiveram precedentes históricos nos anos 1970 e 1990. Foram eventos que comoveram o país na época, mas com os quais pouco se aprendeu. Cada um desses momentos trouxe ao noticiário toda uma parte da juventude francesa que crescia à sombra do desenvolvimento econômico das metrópoles e que eu descobri, como professor, ser uma juventude amargurada com o seu destino injusto. Uma juventude para a qual o mito da ascensão social já se desfez há muito tempo. Uma juventude de que o país só se lembra quando ela manifesta sua raiva, e em seguida a esquece outra vez, por alguns anos. Uma juventude cujo destino contradiz o ideal republicano que a França propagandeia há tanto tempo. Uma juventude que está em confronto permanente com a polícia, que só sabe intervir nos bairros da periferia e com a qual praticamente nenhum jovem de classe média e alta da França jamais terá algum problema. Uma juventude cuja origem étnica lhe rende, com frequência quase diária, humilhações firmemente ancoradas nas relações sociais. As gerações passam, mas esse estado de coisas permanece.

Esse tratamento especial, essa estigmatização dos bairros populares e seus moradores ressuscitam na França os fantasmas da história colonial do país. Mais especificamente, o chamado estatuto do “indigenato”, que previa um regime administrativo e penal específico para as populações colonizadas. O tratamento reservado hoje aos descendentes de imigrantes, mesmo que agora eles sejam oficialmente cidadãos franceses de pleno direito, traz de volta lembranças de uma parte da história que a França demorou a reconhecer. É como se algo houvesse sobrevivido à descolonização – e nem o lema republicano “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” nem o tempo tivessem conseguido apagar de uma vez por todas. Expressões como français de papier (franceses apenas nos documentos de identidade) estão gradualmente colonizando os discursos políticos, da extrema direita ao centro, com o intuito de diferenciar os franceses considerados de segunda classe, aqueles que não estão se esforçando o suficiente para se integrar.

 

Onze anos depois daquela onda de motins nos subúrbios em 2005, os policiais indiciados pelas mortes de Zyed Benna e Bouna Traoré foram definitivamente absolvidos. O episódio insurrecional deixou uma lembrança amarga, em cuja sombra os jovens de hoje cresceram. Autoridades locais e membros de associações solicitaram recursos ao governo, alertaram para o risco de tudo recomeçar e pediram o restabelecimento de uma força policial local capaz de reconstruir vínculos duradouros com os moradores (a chamada “polícia de proximidade”). Mas nada aconteceu. É essa mesma lembrança de 2005 que voltou agora às manchetes da imprensa, como um eco da história.

 

Os presidentes da República nunca conseguiram encontrar uma solução para esse problema, e todos eles parecem ter desistido. Nem as promessas de Nicolas Sarkozy (2007-12) nem as de François Hollande (2012-17) deram início a mudanças. Emmanuel Macron (presidente desde 2017) não é exceção. Eleito duas vezes graças aos eleitores de esquerda que se mobilizaram para impedir a vitória da extrema direita, Macron nunca concordou em fazer a menor concessão social em seu programa liberal, no qual os bairros populares de periferia existem somente para fornecer mão de obra barata às metrópoles.

O desmantelamento meticuloso dos serviços públicos franceses de saúde, educação, cultura e coesão social continua. Não acontece apenas nos bairros populares, mas é neles que causa os danos mais graves. Esses territórios, apesar de estarem tão próximos dos centros das metrópoles globalizadas, vivem como se fizessem parte de uma outra e distante realidade. A França não é evidentemente uma exceção no mundo, mas por ser um país que se ergueu sobre o mito da igualdade de seus cidadãos, enfrenta uma enorme dificuldade para encarar seus fracassos.

Como em outros lugares da Europa e do mundo, esses subúrbios populares concentram recordes de pobreza e desemprego, principalmente entre os jovens. As suas escolas sempre em dificuldade condenam os alunos ao fracasso desde a pré-­escola. O sistema de saúde é muito insuficiente, o transporte público é frágil… Pode-se sentir a omissão do Estado nesses locais com muito mais violência. A poucos metros dos colossais canteiros de obras da Olimpíada (que acontece em Paris no ano que vem), faltam recursos para que as crianças possam crescer, brincar e estudar em condições decentes. Nunca foi tão abissal o fosso entre as estatísticas concretas e os discursos repletos de ideais republicanos por trás dos quais o governo continua se escondendo. É também dessa lacuna que surgem a resignação e, depois, a raiva.

 

Para que o episódio de Nahel, o mais recente da série, não termine no mesmo impasse do de 2005, um dos desafios é não permitir que o governo retire de cena a responsabilidade estrutural da polícia enquanto faz promessas de reconstrução que não serão incluídas em lugar nenhum, nem na sua agenda nem no seu orçamento. Porque, de 2005 a 2023, as relações entre a população e a polícia só pioraram, ultrapassando os limites das periferias. Além da violência policial que aparece regularmente nas redes sociais e na mídia, a repressão ao movimento dos coletes amarelos (gilets jaunes), a partir de 2018, e aos protestos contra a reforma da previdência, em 2023, completou os danos à imagem da polícia francesa. Essa instituição, que segundo as estatísticas mata mais do que a polícia dos outros países europeus, encontra agora dificuldades para recrutar novas pessoas, o que a levou a reduzir as exigências para admissão. Seus abusos, antes mal documentados e restritos à periferia, são agora visíveis às centenas, por causa das redes sociais, e se impõem à consciência daquelas pessoas que, durante muito tempo, se recusavam a vê-los.

Outra prova de que a imagem da polícia francesa está fortemente manchada é o fato de instituições como a ONU e Anistia Internacional terem alertado a França para que cumprisse suas obrigações nessa área – justo a França, país que tantas vezes se apresentou como modelo aos olhos do mundo. Mas, em vez de tentar reformar em profundidade a política de policiamento, inspirando-se em seus vizinhos, o governo francês resiste, mesmo que isso signifique cristalizar as tensões. Enquanto isso, membros do governo continuam negando, inclusive diante das câmeras de tevê, que exista violência policial.

À medida que provas dessas ações violentas se multiplicam na mídia, o apoio incondicional de Macron e seus ministros à polícia vai se transformando em teimosia. No dia 3 de julho passado, a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, disse em uma entrevista na tevê que a polícia estava desempenhando suas funções “de forma maravilhosa”. Símbolo de uma impossibilidade de debate, a tensão se estende à escolha das palavras. Uma parte crescente da população tem percebido esse apoio inabalável como uma traição de governantes para os quais a força policial serve apenas como sustentação de poder. A polícia francesa, mais e mais violenta contra uma parte cada vez maior da população, é defendida todos os dias com crescente fervor pelos ministros e pelo presidente. É essa negação pública, repetida à exaustão depois de cada violência policial e de cada vídeo condenatório, que gera desespero. O povo, que espera que as autoridades repreendam a polícia, se desespera. A divisão do país – entre os que apoiam a polícia e os que a condenam – está bem exemplificada por duas vaquinhas online feitas depois da morte de Nahel: uma em prol do policial indiciado; outra, dos parentes da vítima.

Se os governantes são incapazes de reconhecer o racismo e a violência estruturais que assolam a polícia francesa, então não há nada a esperar deles. Essa desilusão com a polícia pode ser algo novo para os que participaram das manifestações dos coletes amarelos e contra a reforma da previdência, mas é um sentimento antigo dos moradores da periferia, que sempre conviveram com esses problemas. Muitos dos jovens que participaram dos protestos recentes já perderam a esperança há muito tempo.

A imprensa francesa noticiou, fotografou e debateu os novos motins em um clima geral de incompreensão. Essa incompreensão coletiva e a incapacidade de decifrar o novo episódio de insurreição também se explicam pelo fato de que tudo aconteceu sobretudo numa região que é um ponto cego para os políticos e a mídia. Embora tenham se passado a cerca de 10 km de Paris, as manifestações ocorreram em bairros cujo cotidiano é desconhecido pela maioria dos jornalistas e principais políticos. Poucas iniciativas têm tentado remediar essa falta de informação. Uma delas é o site Bondy Blog, criado após as revoltas de 2005.

A falta de compreensão deixa espaço para as análises de editorialistas desconectados da vida nesses locais e para o discurso político reducionista – que, na maioria das vezes, pede mais repressão e a restauração de valores morais, como a autoridade, e se pergunta por que os pais de jovens “desordeiros” não conseguem impedi-los de se envolver em violência. O questionamento feito aos pais também é parte da violência social contida na ideia de que as classes menos favorecidas não são capazes de educar os seus filhos adequadamente, de que precisam ser lembradas em público de suas obrigações, sugerindo que elas mesmas são responsáveis pelo que está acontecendo atualmente.

 

A diferença fundamental entre os movimentos de 2005 e os de 2023 é que os mais recentes não aconteceram exclusivamente em bairros da periferia. Dessa vez, lojas foram saqueadas em plena luz do dia, no Centro das cidades – em Paris, em Lille e em Estrasburgo. Até mesmo a residência de alguns governantes foi alvo em municípios nos subúrbios. Foi esse avanço geográfico do fenômeno rumo a lugares tão simbólicos do poder econômico que constrangeu o governo e obrigou-o a empregar recursos impressionantes nos locais, além de adiar certos eventos culturais, faltando menos de um ano para a Olimpíada.

Um dos aspectos mais complexos a serem compreendidos é a dimensão puramente política do fenômeno. Como costuma acontecer quando há surtos de violência muito repentinos que são difíceis de analisar de imediato, os comentaristas políticos correm para a mídia e a oposição direita/esquerda passa a ser uma constante na tevê, 24 horas por dia. Co­mo é de se esperar, os partidos de direita lamentam o desaparecimento de valores morais, como autoridade e patriotismo, e pedem mais repressão. Os partidos de esquerda, por sua vez, culpam o Estado por sua omissão em relação aos bairros populares da periferia – o que já ocorre há décadas, inclusive quando esses mesmos partidos de esquerda estavam no poder. Excepcionalmente, a direita e a extrema direita deram pouca importância à questão religiosa, pelo menos na mídia, embora ela seja um foco frequente da atenção de ambas.

A insurreição violenta, improvisada, que se seguiu à morte de Nahel, ocorreu nas camadas da população menos envolvidas em eleições. As manifestações contaram com a participação de muitos jovens que não têm idade para votar, não se identificam com nenhum partido político e não enquadram suas ações no campo ideológico. A expressão dessa raiva que se espraiou para espaços de consumo e símbolos da autoridade estatal nem por isso é apolítica. Ao contrário: é a expressão política daqueles que foram deixados para trás por todas as políticas das últimas décadas. É uma expressão política, entretanto, que não responde às expectativas do debate político tradicional e seu discurso adaptado à mídia, nem às instâncias políticas das quais já não espera mais nada. Um dos desafios mais urgentes é não mais considerar esses territórios como periferias a serem administradas, com seus cidadãos de segunda classe, mas como lugares plenamente ligados ao país e habitados por pessoas que participam de pleno direito da vida nacional.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “Fantasmas coloniais”.

Anthony Passeron

Escritor francês e professor secundarista, é autor do romance Les Enfants Endormis (As crianças adormecidas), a sair no ano que vem pela editora Fósforo.

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