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    Em A invenção do outro, korubos olham imagens num laptop: uma antropóloga que os estudou disse que eles têm aversão a registros audiovisuais deles próprios, mas isso não impediu que autorizassem um ensaio fotográfico de Sebastião Salgado

questões indígenas

A suspensão do outro

Por que a Funai mandou tirar de circulação o filme sobre uma expedição liderada por Bruno Pereira

Bernardo Esteves | Edição 221, Fevereiro 2025

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Em 28 de fevereiro de 2019, teve início a maior expedição de contato com indígenas isolados realizada neste século pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A expedição foi conduzida pelo indigenista Bruno Pereira, que liderou uma equipe de 31 pessoas em busca de um grupo de korubos no coração da Terra Indígena Vale do Javari, nas imediações da fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia.

Desde 1987 o Brasil adota a política de não se relacionar com os povos originários que vivem isolados do resto da sociedade por entender que essa é uma escolha deles. No caso dos korubos, a exceção se justificava porque eles estavam na iminência de um conflito territorial com os matis e corriam risco de vida. Os korubos estão entre os indígenas mais temidos da Amazônia e são conhecidos por matar seus inimigos com golpes de borduna. Mas, no caso de um conflito, os matis triunfariam, porque têm acesso a armas de fogo desde que foram contatados nos anos 1970.

A expedição de contato aconteceu pouco depois da posse de Jair Bolsonaro, mas vinha sendo planejada desde o ano anterior, durante o governo Michel Temer. Bruno Pereira coordenava a divisão da Funai responsável por lidar com os povos indígenas isolados e de recente contato. (Sete meses mais tarde, ele seria exonerado do cargo pelo governo Bolsonaro, depois de comandar uma expedição que combateu o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.)

 

Dentre os servidores da Funai recrutados para a expedição estavam Jair Candor, um indigenista experimentado que já tinha feito contato com outros povos isolados, e Bernardo Natividade Vargas da Silva, um geógrafo que estudou os korubos no mestrado e aprendeu a falar o idioma deles. O grupo contava ainda com um núcleo médico da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), uma equipe de quatro pessoas liderada pelo médico Lucas Infantozzi Albertoni, inclusive a enfermeira Luziane da Silva Lopez, a única mulher da equipe. Completavam o time alguns colaboradores dos povos Marubo, Mayoruna e Kanamari, além de seis korubos de grupos já contatados pela Funai. Entre eles, estava Takvan Vakwë, o korubo que melhor domina o português.

Pereira fez questão de também incluir na equipe um cineasta. Convidou o documentarista Bruno Jorge, recifense como ele, codiretor de Piripkura, com Mariana Oliva e Renata Terra. Lançado em 2017, o filme acompanha Jair Candor na busca por dois dos últimos sobreviventes do povo Piripkura que vivem isolados no Noroeste de Mato Grosso.

Para o filme sobre os korubos isolados, Jorge viajou até o Vale do Javari com passagens e diárias bancadas pela Funai. Voltou com mais de sessenta horas de filmagens feitas ao longo de quase um mês, que resultaram no documentário A invenção do outro. Jorge levou três anos e meio para concluir o filme, que ele mesmo escreveu, filmou e montou – as outras pessoas envolvidas na realização foram Bruno Palazzo, que fez a música e participou da edição de som; o colorista Eduardo de Andrea; Felipe Macedo, responsável pelos videografismos; e Takvan Vakwë, que traduziu as cenas faladas em korubo.

 

Uma portaria de 2006 da Funai determina que indígenas retratados em registros audiovisuais precisam dar autorização expressa para a captação e reprodução de sua imagem. Antes disso, o Brasil já era signatário de uma convenção internacional – que foi assinada em 1989 e virou lei em 2004 – segundo a qual os povos indígenas devem ser consultados para dar o consentimento livre, prévio e informado sempre que uma atividade puder afetar diretamente sua cultura ou forma de vida.

Não estava claro como os korubos isolados – que não fazem ideia do que é uma câmera ou um documentário – poderiam dar uma autorização. Essa exigência nunca impediu que as filmagens de expedições de contato fossem veiculadas, mesmo depois da portaria de 2006. Às vezes eram distribuídas à imprensa pela própria Funai. “Precisaremos estar bem afinados para poder passar por cada etapa, sobretudo da autorização da Funai e o trabalho com os Korubo”, escreveu Bruno Pereira a Bruno Jorge, em um e-mail enviado depois da expedição.

Jorge colheu a autorização para uso da imagem dos indígenas de recente contato que haviam feito parte da expedição, mas entendeu que não era o caso de pedir a anuência do grupo que acabara de ser contatado pela Funai.

 

Pereira não teve tempo de viabilizar a articulação com os korubos. Em junho de 2022, foi emboscado e morto, aos 41 anos, junto com o jornalista britânico Dom Phillips por um grupo de pessoas envolvidas com a pesca ilegal e o narcotráfico. Da noite para o dia, o filme de Bruno Jorge ganhou uma camada inesperada de sentido por ser um registro sem equivalente da atuação de Pereira, que se tornou uma figura emblemática da resistência às violações aos direitos dos indígenas durante o governo Bolsonaro. Mas Jorge não modificou o roteiro do documentário depois da morte de Pereira. Apenas incluiu no final uma cartela informando o destino trágico do protagonista e dedicou o filme à sua memória.

A invenção do outro estreou em novembro de 2022, no Festival de Brasília, como desejava Pereira. Apesar do assassinato, certo otimismo se espalhara entre os indigenistas com a vitória de Lula, que prometera criar um ministério para os povos originários. A sessão de estreia foi acompanhada pela viúva e pela filha mais velha de Pereira. Ao fim da projeção, o filme recebeu aplausos demorados e ouviram-se gritos que pediam justiça. O documentário ganhou os prêmios de melhor filme, fotografia, montagem e edição de som. Recebeu outras distinções depois, entre elas o prêmio de melhor documentário internacional do festival belga Docville.

Em junho de 2023, vi o filme pela primeira vez, no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, em Goiás (GO). Participei do evento na condição de integrante do júri de imprensa, ao lado dos colegas Clenon Ferreira e Thalys Alcântara. Decidimos dar ao documentário o prêmio de imprensa do festival, escolha que justificamos nos seguintes termos: “O filme lança uma luz nova sobre Bruno Pereira, sua empatia com os indígenas e a defesa incondicional que fazia de seus interesses. Com isso, nos ajuda a entender o indigenista melhor do que toda a cobertura jornalística feita por ocasião de seu assassinato.”

Os espectadores que assistiram ao filme nos cerca de sessenta festivais em que foi exibido talvez sejam os únicos a vê-lo. Quando o documentário estava prestes a ser lançado em circuito comercial, em 2024, a Justiça atendeu a um pedido da Funai e determinou que sua exibição fosse suspensa. O motivo alegado era que os korubos retratados em A invenção do outro não haviam autorizado a circulação de sua imagem.

 

Homologada em 2001, a Terra Indígena Vale do Javari é a segunda mais extensa do país, com uma área protegida do tamanho da Áustria. É também a região com a maior concentração de povos isolados do mundo – o portal Terras Indígenas no Brasil registra a ocorrência de dezenove grupos de isolados, fora os sete povos que vivem em contato com o restante da sociedade brasileira. O território sofre intensa pressão do crime ambiental, sendo visado por garimpeiros, madeireiros, caçadores, pescadores ilegais e narcotraficantes internacionais. Não bastasse isso, está na mira de missionários religiosos que querem arrebanhar fiéis entre os indígenas.

Os korubos são conhecidos como “os caceteiros da Amazônia”, por causa das bordunas com que caçam e fazem guerra. O livro Os fuzis e as flechas, do jornalista Rubens Valente, registra várias ocasiões em que esses indígenas mataram sem cerimônia agentes a serviço do Estado, fossem eles da Funai ou da Petrobras, que já quis explorar petróleo naquela área.

A história dos korubos está entrelaçada à dos matis, que também vivem no Vale do Javari. À medida que o território ocupado por esses povos foi se redesenhando em função da disponibilidade de recursos e de outros fatores, ocorreu a superposição e o conflito territorial, frequentemente resolvido com violência.

Mas defini-los pela rivalidade é uma perspectiva redutora e equivocada. Korubos e matis falam idiomas da mesma família e têm laços de parentesco. No começo do século XX, duas meninas korubos foram raptadas e levadas para viver com os matis. Por causa disso, os matis se consideram parentes dos korubos, aos quais se referem com um termo que pode ser traduzido ao pé da letra como “nossos outros”, conforme registrou a antropóloga Barbara Arisi, que estudou a relação entre os dois povos em sua pesquisa de mestrado.

 

Depois que o Brasil adotou a política de não forçar o contato com povos isolados, passou a ser dever do Estado monitorar e defender o território onde vivem. “A política do não contato pressupõe um sistema que garante que, apesar da recusa da relação com a sociedade, os indígenas isolados estejam assim mesmo protegidos”, explica a antropóloga Beatriz Matos, pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e estudiosa dos povos do Vale do Javari. “Essa proteção é um direito dos que não querem direitos.” Matos é a viúva de Bruno Pereira e mãe de dois dos três filhos deixados pelo indigenista. Em 2023, foi nomeada diretora do departamento responsável pelos povos isolados no Ministério dos Povos Indígenas.

Mas nem sempre foi essa a forma de o Brasil lidar com os isolados. Até a Constituição de 1988, vigorava a ideia de que eles deveriam ser incorporados ao resto da sociedade. De acordo com essa perspectiva, era legítimo que agentes estatais fossem atrás dos “índios arredios”, como eram chamados. O Serviço de Proteção aos Índios e, mais tarde, a Funai, que substituiu o antigo órgão em 1967, fizeram contato com dezenas de povos indígenas, frequentemente com a finalidade de tirá-los de seu território para abrir estradas ou construir obras. As expedições de contato eram chamadas de frentes de atração e pacificação, eufemismos que escondem a violência de uma interação forçada que costumava resultar em doenças e morte para os indígenas. “Essa política levou ao desaparecimento de etnias inteiras”, disse à piauí Sydney Possuelo, ex-presidente da Funai. “Quando dava tudo certo numa expedição de contato, morriam de 30% a 40% dos índios.”

Possuelo tem 84 anos e começou a trabalhar no tempo em que os agentes do Estado que lidavam com os povos originários eram chamados de sertanistas. Ele participou de expedições de contato com sete grupos de indígenas isolados. “Antes disso, só os irmãos Villas-Bôas fizeram contato com mais grupos”, afirmou, referindo-se a Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas, três dos mais importantes sertanistas do século XX, com quem Possuelo, aliás, aprendeu seu ofício.

Foi numa expedição de contato com um grupo do povo Arara, no Pará, que o sertanista se deu conta de como o contato é nocivo para os indígenas isolados: cedo ou tarde, eles acabam por abrir mão da língua, do território, da autonomia e da própria dignidade. Dali em diante, Possuelo passou a trabalhar para que os isolados não fossem perturbados pelo Estado, a menos que estivessem ameaçados. “Nosso trabalho virou demarcar a terra e proteger grupos indígenas que você nunca viu nem vai ver”, contou. Em 1987, ele organizou um encontro de sertanistas em Brasília que formulou as bases para a política de não contato, formalizadas numa série de portarias da Funai.

Foi Possuelo quem conduziu a primeira expedição de contato com um grupo de korubos, em 1996, nove anos depois de formular os pilares da política de não contato. O que justificou a exceção foi a percepção de que os indígenas corriam risco de vida, caso a Funai não entrasse em ação: um homem e uma mulher korubos haviam sido mortos a tiros por ribeirinhos de uma comunidade perto da terra indígena. Depois disso, um grupo de dezoito indígenas se escondeu mais fundo na floresta.

O sertanista descobriu onde estavam os korubos e montou um grupo para ir ao encontro deles. Era importante anunciar de alguma forma aos indígenas que a expedição estava chegando em missão de paz. Possuelo decidiu que seu grupo avançaria cantando. “Quem chega em silêncio é inimigo, gente com boas intenções não faz isso”, justificou. Escolheu a canção Mulher rendeira. “Uns três minutos depois, os korubos começaram a cantar na maloca, respondendo ao nosso canto.”

Os korubos contatados naquela expedição passaram a viver numa aldeia nas imediações de uma base montada pela Funai, na margem do Rio Ituí. Aos olhos do Estado, já não eram mais indígenas isolados, mas sim de recente contato. “Índio isolado precisa de proteção e de um ambiente limpo para poder viver”, disse Possuelo. “Uma vez feito o contato, ele precisa de saúde, educação, terra – e aprender a se defender.”

O contato de 1996 serviu de estímulo para a demarcação da Terra Indígena Vale do Javari, mas a proteção da área não bastou para diminuir a tensão com ribeirinhos e outros povos que viviam ali. Em 2014, dois outros grupos de korubos isolados foram levados à base do Rio Ituí, depois de circularem pelo território dos kanamaris. O grupo de recente contato aumentou novamente em 2015, dessa vez por causa do conflito com os matis.

Desde o início daquela década, os matis vinham se aproximando do território ocupado por um grupo de korubos isolados. A tensão chegou a um ponto crítico depois que duas lideranças matis foram mortas a bordunadas pelos korubos. Os matis revidaram com armas de fogo, matando ao menos uma dezena de korubos. Outros dois grupos de korubos isolados foram capturados pelos matis, que os entregaram à Funai. Agora, já eram mais de sessenta indivíduos vivendo junto à base do Rio Ituí.

Para os indígenas isolados, o encontro com a sociedade brasileira costuma ser o início de uma longa derrocada. “Depois do contato, os parentes passam por um processo avassalador de coisas ruins”, disse à piauí Beto Marubo, um dos coordenadores da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Marubo participou da equipe envolvida nos eventos de contato de 2014 e 2015 – algo de que não se orgulha – e testemunhou o efeito do encontro para os indígenas. “A gente via os parentes saindo do mato altivos, todos magros e fortes e com muita autonomia. Depois, eles começam a comer arroz e esses lixos industriais, ficam gordões e passam a ter diabetes e doenças que nunca tiveram.”

O conflito territorial com os matis não foi resolvido em 2015. Depois disso, eles se queixaram à Funai de que alguns korubos andavam frequentando suas roças. A fundação entendeu que a vida dos korubos estava ameaçada, e decidiu intervir. Fazer contato não foi uma decisão unânime. Possuelo recomendou a Bruno Pereira que não fosse atrás dos isolados, pois no seu entendimento os indígenas não corriam perigo. “Não vai ser bom para eles, nem para o Vale do Javari”, disse Possuelo ao colega. Mas prevaleceu o entendimento de que era preciso salvar os korubos.

“Não havia outra saída”, disse o indigenista Jair Candor à piauí. “Ou fazíamos contato ou eles seriam exterminados pelo matis.” Foi o que alegou também o relatório da Funai sobre a expedição, elaborado por Bernardo Natividade. “Não realizar a expedição de contato poderia resultar em efeito contrário ao que corresponde a missão da Funai, direcionada aos povos isolados, que é salvaguardar suas vidas”, diz o documento.

 

Bruno Maciel Jorge Arantes nasceu no Recife em 1981 e mudou-se para São Paulo aos 10 anos. Estudou publicidade, mas gostava mesmo de cinema. Depois da faculdade, iniciou na Bélgica um mestrado em artes do espetáculo, com ênfase em cinema, que não chegou a concluir. De volta ao Brasil, ganhou a vida fazendo vídeos para empresas ou colaborando em filmes de colegas. O projeto mais conhecido de que participou foi o documentário Democracia em vertigem, da diretora Petra Costa, no qual fez parte das equipes de fotografia e montagem. Mas Bruno Jorge prefere trabalhar sozinho, para não ter que fazer concessões estéticas nas muitas etapas da produção coletiva de um filme.

A fim de se concentrar em seus projetos pessoais e reduzir o custo de vida, ele decidiu se instalar, em 2014, na pequena cidade mineira de Gonçalves, na Serra da Mantiqueira, com sua companheira e o filho de 1 ano do casal (no ano seguinte, o menino ganhou uma irmã). O casal se separou em 2019, mas Jorge e a ex-mulher continuam vivendo naquela região – agora na cidade de São Bento do Sapucaí, no lado paulista da serra.

Isolar-se na Mantiqueira foi também um jeito de se colocar à distância do mundo da produção audiovisual, um ambiente que Jorge considera altamente corruptível. “Ou você faz amigos ou faz cinema, é uma escolha”, disse o diretor, quando recebeu a piauí em sua casa, numa tarde de novembro de 2024. “Vim para cá criar filhos e filmes, da forma mais livre possível.”

Jorge mora em um sobrado de dois quartos que é um de seus dois únicos bens, com um Uno 2017. A casa tem um pátio onde ele instalou uma piscina e no fundo do qual construiu um cômodo que virou seu espaço de trabalho. As crianças passam com o pai semana sim, semana não (o menino tem agora 11 anos, e a menina, 9). O custo de vida mensal da família é de 5 mil reais, na estimativa do diretor.

A invenção do outro foi o quarto longa-metragem de Jorge, que já terminou outros três desde então. No ano passado, ele lançou Inutensílios, que define como uma autoetnografia filmada na Mantiqueira ao longo de cinco anos. Neste ano, deve lançar Zero grau, um estudo sobre a masculinidade, filmado numa área rural da Lapônia, na Finlândia, onde Jorge conviveu com três homens – avô, pai e filho.

O cineasta enxerga um fio condutor na sua obra: “Sempre trabalhei a ideia do isolamento como forma de se emancipar do olhar do outro.” Quando recebeu o convite para integrar a expedição de contato com os korubos, pareceu-lhe que só tinha vivido até ali para participar daquela experiência única. “A oportunidade de filmar os isolados era a radicalização desse conceito de isolamento.”

 

Uma das primeiras cenas de A invenção do outro mostra o médico Lucas Albertoni apalpando os gânglios do pescoço de um expedicionário. O paciente estava com o nariz escorrendo e, na véspera, começara a tossir. Não era o único com sintoma de gripe a bordo do Kukahã – a mesma embarcação da Funai usada quase trinta anos atrás pela equipe de Sydney Possuelo no primeiro contato com os korubos. A regra era clara: a expedição só se aproximaria do território indígena depois de cumprida uma quarentena estrita de sete dias desde o último contágio verificado entre os tripulantes.

“A história do contato dos pais de vocês fala um pouco por que a gente trabalha assim hoje”, justifica Bruno Pereira na cena seguinte do filme, durante uma reunião com os indígenas da expedição. “Morreu muita gente por causa de doença. A gente se esforça para não acontecer isso, esforço que não houve em 2014 e 2015”, continua. Lucas Albertoni toma a palavra e diz que a gripe pode ser muito mais grave para os indígenas isolados. “Num resfriado comum, que você está só escorrendo o nariz, eles podem morrer em três dias.”

Os korubos de recente contato – que atuariam como intermediários no encontro com seus parentes isolados – foram os últimos a embarcar no Kukahã, no dia 3 de março de 2019, e só então o tempo de quarentena começou a ser contado. Pelados e com um corte de cabelo marcado por uma larga faixa raspada no meio da cabeça, eles roubam a cena tão logo se juntam ao grupo. Somos apresentados a Xuxu, o jovem korubo de olhar expressivo e cavanhaque ralo que é o personagem mais carismático do filme. Os matis haviam assassinado suas duas mulheres e outros parentes, e ele queria reencontrar seus irmãos, inclusive Makwëx Korubo, líder do grupo de korubos isolados. Makwëx achava que os matis tinham matado seus parentes, que haviam desaparecido, e estava à beira de atacá-los.

Em uma cena do meio do filme, Xuxu simula um combate com inimigos imaginários para uma plateia sentada no chão do acampamento, como se fosse um ator. “Quando algum índio vem me enfrentar, eu consigo matar até cinco, mas alguém tem que me ajudar”, afirma o korubo, de borduna na mão. “Eu mato dois de uma vez, depois mais dois.” Na sua história, ele distribui bordunadas para proteger seu irmão. Narra cenas violentíssimas com um sorriso no rosto, enquanto simula os golpes.

Outra cena mostra árvores altas vindo abaixo, serradas pela equipe da Funai para a construção de um grande acampamento que servirá de base ao grupo. Longas ripas de madeira são cortadas para fazer mesas e bancos para as refeições. A primeira metade do filme ilustra em detalhes os desafios práticos de uma expedição como aquela, a começar pela busca por comida. O cardápio do grupo teve peixe, tartaruga, jacaré, queixada, preguiça e muito macaco, além de açaí, pupunha, castanhas, coquinhos e frutas variadas, como mostra o documentário.

Com o avançar do filme, os isolados vão dando sinais de sua presença cada vez mais próxima. Os expedicionários fazem uma incursão pela floresta e os colaboradores indígenas encontram rastros da passagem recente dos korubos. Em uma reunião, Bruno Pereira explica que o grupo já está no território onde os isolados circulam. Diz que, quando a equipe fizer contato, deve se apresentar com um grupo grande de pessoas. E faz um alerta: quem estiver circulando sozinho precisa ficar atento. “A partir de hoje não pesco nem cago mais”, brinca Jair Candor, provocando uma risada geral.

Na manhã do vigésimo dia de expedição, a equipe de busca se divide em duas para explorar caminhos diferentes. Por sorte, Bruno Jorge está no grupo que encontra os primeiros isolados. É Xuxu quem topa com eles, seguindo vestígios bem recentes na floresta. Ele depara com dois rapazes que calham de ser seus dois irmãos mais jovens, Vëtsuisvo e Txipo Vakwë, que estavam caçando macacos, separados dos parentes isolados. O resto do grupo de expedicionários fica na retaguarda, aguardando, até serem autorizados a se aproximar.

As primeiras imagens dos korubos isolados aparecem quando o filme já atingiu cerca de 1 hora e 14 minutos de duração. O diretor Bruno Jorge mantém a câmera apontada para baixo no momento da aproximação, seguindo uma orientação de Bruno Pereira, mas enquadra a sequência em que Xuxu apresenta ao resto do grupo seus dois irmãos, que estão sorridentes e curiosos. Um deles aponta para o cineasta: quer saber quem é e o que está carregando. “Isso não machuca, é só para pegar nossa imagem, não precisa ter medo”, responde Xuxu.

O reencontro ruidoso culmina com um demorado abraço a três entre os irmãos, que não se viam havia quatro anos. Eles se acariciam, riem alto, choram e entoam cantos de saudade. Um dos irmãos diz a Xuxu, na língua korubo: “Eu pensei que você estava morto, mas está tudo bem contigo.” A sequência é uma das mais emocionantes do filme – e talvez de todo o cinema brasileiro, como escrevi em um texto sobre o documentário publicado em 2023 no site da piauí.

O encontro com Makwëx, o líder dos isolados, e outros parentes provoca outro choro copioso em Xuxu. Junto com os korubos da expedição e a equipe da Funai, os isolados se lançam todos numa roda de ike (pronuncia-se “i-é”), ritual em que dançam de mãos dadas, olhando fixamente uns aos outros e marcando o ritmo com batidas dos pés no chão.

A segunda metade do filme se desdobra em sucessivos encontros dos expedicionários com os isolados. Depois do grupo de Makwëx, aparecem finalmente as mulheres e bebês e, por fim, um grupo que tinha saído em expedição pela floresta – no total, 34 korubos isolados foram contatados pela Funai. O filme alterna conversas em que os parentes separados se inteiram das novidades com cenas de prantos, abraços e renovados ikes. Uma sequência no fim do filme mostra um grupo grande de korubos com expressão de maravilhamento, enquanto olham para o laptop de Bruno Pereira. A imagem não mostra a cena exibida no computador, que retrata parentes contatados em expedições anteriores sendo vacinados.

 

O documentário foi elogiado pela crítica. “Não é exagero dizer que se trata de um filme estupendo, fora de série e destinado a marcar presença entre as obras incontornáveis do cinema de temática indígena”, escreveu Luiz Zanin Oricchio no jornal O Estado de S. Paulo. No site da piauí, o crítico e diretor Eduardo Escorel registrou que, além de documento valioso, A invenção do outro é um filme admirável. “Bruno Jorge demonstra extrema sensibilidade na maneira de gravar e no modo de enquadrar imagens de beleza constante”, escreveu.

Durante o Festival de Brasília, o diretor foi procurado pelos representantes de uma plataforma de streaming que tinham gostado de A invenção do outro e desejavam licenciá-lo para exibição. Com uma condição: queriam cortar 40 minutos do filme, que tem 2h24 de duração. Que o cineasta, porém, não se preocupasse com o corte, pois a plataforma dispunha de uma equipe de roteiristas profissionais para fazer o trabalho, eles disseram. Jorge ficou ofendidíssimo. “Quando você compra uma escultura, você pede para tirarem o braço para ela caber na sua sala?”, comparou. Ele então respondeu ao representante da plataforma: “Não quero ouvir a proposta, acho inclusive desrespeitosa.”

Jorge também não cedeu quando, após o assassinato de Bruno Pereira, foi procurado por parlamentares e ONGs que desejavam usar suas imagens com finalidade política. O diretor resistiu a fazer do filme um libelo em defesa dos povos originários ou uma crítica à política anti-indígena do governo Bolsonaro. “Sei que seria muito mais fácil para a repercussão fazer um filme mais curto, criar campos heroicos no próprio filme ou me vincular a um espectro ideológico”, me disse Jorge. Mas ele não quis abrir mão da independência e autonomia. “O filme é o que é porque não tem subserviência a nenhum espectro ideológico.”

Em Brasília, quando subiu ao palco para receber o prêmio de melhor longa-­metragem, o cineasta frustrou quem esperava dele um discurso político. Jorge não falou da Funai, de Bruno Pereira, dos korubos ou da situação dos indígenas. Em vez disso, fez um pronunciamento um tanto hermético com uma provocação velada à pauta identitária. Ele evocou a comparação feita por Jacques Lacan entre a cebola e o eu, que para o psicanalista é também composto de camadas sucessivas, resultantes de processos de identificação com os outros. Se essas camadas forem retiradas uma a uma do eu, continuou Jorge, por fim não sobrará nada. “Queria agradecer imensamente ao júri por – no lugar de premiar um trabalho que tenha uma reivindicação de um caroço inexistente – premiar um trabalho que tem um deslocamento do eu, uma reflexão, certa desterritorialização da autoimagem”, concluiu.

A identidade política de Bruno Jorge confunde seus interlocutores. “Afinal, você é de direita ou de esquerda?”, costumam lhe perguntar. A resposta mais honesta, de acordo com o cineasta, talvez seja dizer que ele é punk, referindo-se ao movimento cultural surgido nos anos 1970, marcado pelo anticonformismo e a crítica ao sistema. Jorge não vota desde 2016, quando participou de Democracia em vertigem, e se considera um desertor político. “Não me interessa esse tipo de discussão, e aí incomoda mesmo.”

 

Nos meses seguintes à estreia, A invenção do outro seguiu seu périplo pelos festivais, até que Bruno Jorge assinou um contrato com a distribuidora Embaúba Filmes para lançar o documentário no circuito comercial. A estreia foi marcada para 23 de maio de 2024. O cineasta notificou a Funai sobre a data ao final de uma reunião realizada em fevereiro, na sede da fundação em Brasília, quando também foi discutida a autorização de uso de imagem pelos korubos.

A notícia de que o filme entraria em cartaz deixou os servidores da Funai alarmados. A fundação já estava atenta ao caso desde pelo menos agosto de 2023, quando, em um encontro com matis e korubos para promover um acordo sobre o território que eles compartilham, foi alertada de que circulavam nas redes sociais vídeos dos korubos contatados em 2019, sem que estes soubessem disso.

Um dos participantes do encontro foi o linguista Sanderson Castro Soares de Oliveira, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) que conhece os idiomas matis e korubo e foi contratado como intérprete. No relatório que elaborou sobre a reunião para a Funai, Oliveira contou que os korubos não autorizaram que ele gravasse as conversas. “[Isso] se deve em parte a confusões gerais entre o trabalho de documentarista e de pesquisadores, o que leva ao entendimento de que estes últimos também se beneficiam diretamente e lucram com o trabalho; e em parte a problemas com a produção do filme A invenção do outro de Bruno Jorge, o qual resultou em uma disputa sobre os direitos autorais e que chegou ao conhecimento dos korubos”, escreveu o linguista.

Oliveira afirmou à piauí não se lembrar de quem se queixou do filme de Bruno Jorge durante o encontro. Mas disse que quem fez a queixa foi um korubo – e não um matis, como consta num despacho da Funai. O linguista afirmou também que os korubos têm um histórico de resistência a pessoas que fazem registros de seu povo, tanto que ele próprio foi impedido de gravar o encontro. Na ocasião, porém, os korubos não se opuseram a serem filmados pelos matis ou por funcionários da Funai.

Na reunião com Bruno Jorge em fevereiro de 2024, os servidores da Funai disseram que o cineasta deveria apresentar o documentário aos korubos que filmou. Eles são agora indígenas de recente contato e vivem nas proximidades de um acampamento da Funai. Jorge deveria contar a eles que o filme já havia sido mostrado em vários festivais e consultá-los sobre o uso de sua imagem, negociando algum tipo de compensação, se fosse o caso. Os servidores propuseram que Jorge voltasse ao Vale do Javari para participar de uma atividade com os korubos.

A ideia pareceu interessante ao cineasta – ele poderia até fazer um novo filme a partir dessa experiência. Saiu da reunião otimista e entendeu que estava em bons termos com a Funai. Na troca de e-mails que se seguiu, surgiu o impasse. A Funai propôs que a exibição do documentário fosse suspensa, até que o cineasta o mostrasse aos korubos. Mas Jorge não queria que o filme ficasse indisponível por tempo indeterminado, por entender que a nova expedição poderia nunca acontecer. A estreia comercial estava prevista para dali a três meses. Jorge disse que conseguiria adiá-­la por um mês e meio, até 10 de julho.

A Funai não aceitou a proposta, avaliando que era preciso dar tempo aos indígenas para que eles entendessem o que é o filme e quais são as implicações de sua exibição. Num despacho endereçado à Procuradoria Federal Especializada (PFE) junto à Funai – que a representa em ações judiciais –, a fundação alegou que era impossível prever quanto tempo isso levaria. “Pode ser que este procedimento dure um mês, como pode durar anos”, diz o documento. A Funai estimou que o processo exigiria ao menos três encontros com os korubos, sendo que o cineasta não poderia estar presente no primeiro deles. “O tempo de realização da consulta deve se adaptar ao tempo dos Korubo, e não o contrário”, afirma o despacho. Em 23 de maio de 2024, a data originalmente prevista para a estreia, a PFE entrou com uma ação na 1ª Vara Federal de Taubaté, reivindicando a suspensão imediata do filme.

 

O gesto da Funai surpreendeu Bruno Jorge por mais de um motivo. Ele não entende por que, cinco anos depois da expedição, a fundação decidiu criar caso com um filme do qual sempre teve conhecimento. A própria Funai pagou as passagens e diárias para o cineasta filmar a expedição. E ela, obviamente, sabe do desafio que é pedir a um grupo de indígenas isolados para autorizarem o uso de sua imagem. No raciocínio de Jorge, o aval de Bruno Pereira e da Funai à sua participação na expedição já implicava na autorização para seguir com o filme. Esse entendimento tácito ficou bem mais difícil de sustentar depois que Pereira, o aliado do cineasta na Funai, saiu de cena.

Para Jorge, a solicitação é totalmente descabida: como pedir a autorização para uso das imagens a um povo que não entende o que elas representam? “Isso é uma aporia”, me disse o cineasta, recorrendo a um termo que designa um problema filosófico sem solução aparente. Jorge diz que os korubos contatados em 2019 não dominam o conceito de imagem reprodutível e que seria preciso tirá-los da condição de isolamento para lhes explicar do que se trata, o que significaria uma violação da política de não contato. “É maluco achar que a gente precisa aculturar todo um povo para que ele dê anuência sobre um valor que é nosso, e não deles.”

Ao se pronunciar sobre o caso nos autos do processo judicial, um representante da divisão de indígenas isolados e de recente contato do Ministério Público Federal (MPF) reconheceu que a Funai errou ao não detalhar para Bruno Jorge as condições a serem seguidas por ele para poder exibir o filme. Isso não eximia o diretor, porém, da obrigação de buscar a autorização dos korubos. O representante notou ainda que a consulta aos indígenas não era inviável, e que a lei não previa sua dispensa em casos difíceis como aquele. O laudo do MPF ponderou, contudo, que essa autorização deveria ser feita “por pessoa ou entidade isenta, sem conflito de interesses”. Em outras palavras, não poderia envolver nem a Funai, nem o cineasta, que se enfrentavam na ação judicial, o que, na prática, inviabilizava a iniciativa.

Em 15 de julho, a juíza Carla Cristina Fonseca Jório acatou o pedido da PFE e determinou que o documentário tivesse a comercialização e a exibição suspensas. Na decisão, ela chamou o filme o tempo todo por um nome errado: “A descoberta do outro”.

 

Em novembro de 2018, aconteceu no Rio de Janeiro uma oficina para a elaboração de dicionários de línguas indígenas que reuniu representantes de vários povos. O evento foi promovido pelo Museu do Índio, instituição que está em vias de mudar seu nome para Museu Nacional dos Povos Indígenas. Durante a oficina, Takvan Vakwë e Malevo Korubo – dois korubos que já estavam em contato com a sociedade – contaram sobre um dicionário da língua de seu povo, com seiscentos verbetes, que eles estavam começando a elaborar. Em sua primeira viagem fora da Amazônia, eles estavam acompanhados pelo linguista Sanderson Oliveira.

Durante a viagem, Takvan e Malevo usaram seus celulares para fazer fotos e vídeos no Rio de Janeiro. “Eles tinham muito interesse em registrar elementos do mundo da floresta que apareciam na cidade, como os micos que andam pelos fios de eletricidade, e o comportamento dos brancos”, disse à piauí a antropóloga Juliana Oliveira Silva. Eles filmaram, mas não se sentiram muito confortáveis ao serem filmados. Quando um funcionário do Museu do Índio apareceu com uma câmera para gravar um depoimento, os dois indígenas recusaram. Só aceitaram fazê-lo com Sanderson Oliveira ao lado deles.

Juliana Silva participou da oficina, na qual contou sobre seu projeto de morar com os korubos de recente contato para poder estudá-los. Ela havia sido escolhida para a missão depois que a Funai pediu ao Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que designasse um aluno de doutorado para fazer a primeira pesquisa etnográfica sobre esse povo indígena. Autorizada pelos korubos, a antropóloga foi para o Vale do Javari em janeiro de 2019 e viveu um ano e dois meses em quatro aldeias situadas junto à base da Funai no Rio Ituí.

No dia em que chegou à Amazônia, assim que entrou no escritório da Funai em Tabatinga, Silva ouviu algumas indígenas sussurrarem seu nome. “Foi aí que percebi que os registros que o Takvan e o Malevo haviam feito no Rio tinham circulado bastante”, disse a antropóloga. “Os korubos têm uma forma de comunicação eficaz, e a informação circula muito rápido.”

Quando criança, Takvan Vakwë costumava ser enviado por seu pai, Xikxuvo, para ficar com Sydney Possuelo e os funcionários da Funai. Foi assim que se tornou o primeiro korubo a aprender português. Foi também o primeiro de seu povo a desvendar a internet, que ele acessa pelo celular. “Quando o Takvan percebe que, ao colocar o nome ‘korubo’, aparecem várias imagens do primeiro contato com a mãe e o pai dele, ele começa a entender o que é a internet”, afirmou Silva. Isso ajudou a sedimentar nos korubos que deixaram o isolamento a ideia de que os brancos ganham dinheiro com suas imagens.

Em sua tese de doutorado, defendida em 2022, Juliana Silva escreveu que os korubos têm aversão a registros audiovisuais. A desconfiança se estende a outros tipos de registro, inclusive escritos. A antropóloga contou que, durante uma oficina com um grupo de korubos, ao começar a escrever a lista dos participantes, ela foi interpelada: “Por que é que você quer anotar nossos nomes?” Com o tempo e a convivência, porém, a desconfiança foi se dissipando.

A aversão dos korubos aos registros visuais não impediu que eles dessem a anuência para que o fotógrafo Sebastião Salgado fizesse e expusesse uma série de fotos de integrantes desse povo em 2017, no âmbito do projeto Amazônia. A autorização foi intermediada pela Funai.

Perguntei à antropóloga se ela achava que os korubos isolados que foram contatados por Bruno Pereira reagiriam com desconfiança ao saber que sua imagem estava circulando em um documentário. “Acho que haveria certa desconfiança para entender quem são esses brancos, quem vai ver o filme, para que ele serve ou por que temos esse fetiche de registrar imagens e de congelar o tempo”, respondeu Silva. Ela acredita que, se os indígenas fossem consultados, talvez sua principal preocupação seria entender que tipo de contrapartida teriam com o filme. Mas a antropóloga lembrou que os korubos contatados em 2019 desconhecem a internet e não têm noção de como aquelas imagens vão circular. “É tudo tão recente, que ouso dizer que eles ainda não têm nem mesmo uma ideia consolidada do que é uma anuência”, afirmou Silva, que desde o fim de 2024 atua como professora do Instituto de Natureza e Cultura da Ufam.

Mandei mensagens para Takvan Vakwë e Txitxopi Korubo, dois korubos que falam português e fizeram parte da expedição de 2019, a fim de ouvir sua perspectiva sobre a controvérsia, mas não recebi resposta.

 

A invenção do outro se inscreve numa linhagem de documentários chamados “filmes de contato” – na definição de Clarisse Alvarenga, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que estudou o gênero em seu doutorado em comunicação. Esses filmes são movidos por “um desejo de captura do outro, um fetiche absoluto” do imaginário ocidental pelo registro do primeiro contato com um povo indígena, como disse à piauí o antropólogo Paulo Roberto Maia Figueiredo, também professor da UFMG. “O primeiro contato é uma catástrofe ancestral, e quando vemos a cena nos tornamos todos um pouco cúmplices dessa catástrofe”, continuou o pesquisador, lançando mão de uma expressão consagrada pela antropóloga americana Elizabeth Povinelli, autora de Catástrofe ancestral: resistência no liberalismo tardio.

Nem todos, porém, enquadram o filme de Bruno Jorge nessa perspectiva. “O filme não fetichiza o outro, é uma obra de arte”, disse o diretor de fotografia Alan Schvarsberg durante um debate realizado no Festival de Brasília. “É um filme em que a câmera não machuca”, acrescentou a crítica de cinema Maria Caú. Ao fim do debate, houve uma intervenção da antropóloga Beatriz de Almeida Matos, viúva de Bruno Pereira. Ela disse que tinha visto a primeira versão do filme com o marido e que os dois haviam gostado do documentário. “O Bruno tinha consciência de que o contato tinha que ser filmado com arte, beleza, seriedade e respeito e sem a exotização dos korubos”, afirmou. À piauí, ela disse que achou o filme “maravilhoso”, embora não goste do título, mas deu razão à Funai sobre condicionar a exibição à consulta aos indígenas.

Numa conversa com Bruno Jorge, meses após a estreia de A invenção do outro, Matos teria dito que Bruno Pereira também deveria ser considerado diretor do filme, e que ela iria reivindicar a coautoria na Justiça, segundo alega o documentarista. A antropóloga de fato enxerga Pereira como coautor do documentário, por ele ter coordenado a expedição e todos os movimentos da equipe – exemplo disso seria a sequência em que orienta o cineasta a baixar a câmera na cena do primeiro contato. Matos, porém, nega ter ameaçado fazer uma demanda judicial de reconhecimento de coautoria e diz que não pretende fazê-lo.

 

O mais clássico filme de contato brasileiro talvez seja Corumbiara, de Vincent Carelli, que levou o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado de 2009. Filho de um brasileiro e uma francesa, Carelli nasceu em Paris há 71 anos. Ele vive no Brasil desde os 5 anos de idade e é uma figura de proa do cinema etnográfico do país, não só pelos trabalhos que fez, mas também por estimular os indígenas a fazerem seus próprios filmes, por meio do projeto Vídeo nas Aldeias.

Em Corumbiara, Carelli acompanha uma missão do indigenista Marcelo dos Santos, da Funai, que pretendia mostrar que kanoês isolados haviam sobrevivido a um massacre promovido por fazendeiros na gleba de terra Corumbiara, no Sul de Rondônia. Se provasse à Justiça que os kanoês ainda estavam lá, Santos conseguiria proteger sua terra. A busca e as filmagens começaram em 1986, mas somente nove anos depois os indígenas foram localizados, com a ajuda de imagens de satélite.

Quando Santos identificou onde estavam os kanoês, decidiu não ir até eles e aguardar que fossem ao seu encontro, se assim desejassem. Uma mulher e um homem vieram andando na direção do grupo do indigenista, paramentados de arco e flecha. A câmera registra o encontro carregado de tensão, a exploração do outro pelo toque e as tentativas frustradas de comunicação. “Esperamos tantos anos por esse momento, achando que tudo se explicaria naquele encontro, mas a impossibilidade de se comunicar nos colocava de novo diante de um mistério: quem são eles?”, diz Carelli, o narrador do filme.

A cena guarda algum paralelo com o encontro entre Xuxu e seus irmãos em A invenção do outro. “Primeiro contato com um povo é uma coisa muito marcante e emocionante”, disse Carelli à piauí. “São encontros muito esperados e decepcionantes. A gente não sabe, não entende a língua, e temos que inventar uma forma de comunicação, tal qual vemos no filme A invenção do outro.” Carelli disse ter gostado do documentário de Bruno Jorge. A cena do contato lhe pareceu tensa e difícil de decifrar. “É muito louco o jeito que eles se pegam, choram, riem, se abraçam, se agarram.”

A foto dos kanoês isolados foi parar na capa do jornal O Estado de S. Paulo, e as imagens captadas por Carelli passaram no Fantástico. “Eles vieram não se sabe de onde, falam uma língua misteriosa, e dão um nó na cabeça dos especialistas”, diz o apresentador William Bonner na chamada da reportagem, incluída anos depois no filme Corumbiara. A imagem dos indígenas isolados cumpriu seu objetivo: a Justiça Federal determinou a interdição da área onde eles vivem.

Mas o filme não terminou aí. Mais adiante, os indigenistas encontraram vestígios de outro grupo de isolados, que faziam buracos misteriosos dentro das malocas em que viviam. “Na falta de outro nome, a gente os chamou de ‘índios do buraco’”, diz o narrador de Corumbiara. “Não existe na literatura nenhuma menção a um povo assim.” Junto com a equipe de Santos, o cineasta passou a perseguir uma imagem desses indígenas, mais uma vez no intuito de proteger seu território.

Só em 1996 Carelli conseguiu filmar um deles, aparentemente o último sobrevivente de seu grupo. Uma imagem que dura poucos segundos mostra o rosto daquele que ficou conhecido como “o índio do buraco”, olhando assustado por trás das paredes de palha da maloca onde se escondia. Acuado, o indígena ameaçou atacar o diretor, que flagrou a flecha apontada para a câmera numa imagem eletrizante. “Provavelmente ele associou a câmera a uma arma apontada para ele”, o cineasta disse à piauí. Depois do episódio, Carelli e sua equipe decidiram não fazer mais abordagens daquele tipo.

Em setembro de 2022, o homem filmado por Carelli foi encontrado sem vida, deitado em uma rede e enfeitado com penas de araras, aparentemente esperando a morte. A portaria da Funai de restrição do uso das terras em que ele circulava vale até este ano. Indigenistas se articulam para estender essa proteção.

 

Carelli não pediu aos kanoês ou ao índio do buraco autorização para o uso da imagem deles. “No passado não existia isso de bater a foto do cara e ir lá pedir para assinar uma autorização”, disse o cineasta. Em 2009, quando Corumbiara foi lançado, a portaria da Funai que trata da autorização de uso da imagem dos indígenas estava em vigor havia três anos. Apesar disso, a fundação nunca fez qualquer questionamento ao diretor.

Da mesma forma, Bruno Jorge, Mariana Oliva e Renata Terra, diretores de Piripkura, não foram incomodados por não ter a autorização expressa dos dois indígenas isolados que foram retratados no filme. A única indígena a dar o consentimento para a exibição de sua imagem no documentário é a irmã de ambos, que deixou o isolamento há muito tempo. Por isso, Jorge entendeu que poderia repetir a fórmula em A invenção do outro, colhendo apenas a anuência dos indígenas de recente contato, mas não dos isolados.

Questionada pela piauí, a Funai não explicou por que criou caso com A invenção do outro, mas não com Corumbiara ou Piripkura. Para Jorge, o pedido de suspensão de seu filme é motivado por pura implicância. “A Funai não está efetivamente preocupada com as imagens dos índios”, disse. “A questão ali é a picuinha comigo.”

Embora A invenção do outro tenha sido suspenso pela Justiça, as imagens do contato com os korubos – as mesmas que despertaram desconforto em alguns indígenas, segundo a Funai – estão disponíveis no documentário Vale dos isolados, dirigido pela jornalista Sônia Bridi, da Rede Globo, sobre o assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips. Jorge licenciou dez minutos das imagens da expedição para uso no filme de Bridi. Vale dos isolados mostra as cenas do reencontro de Xuxu com os dois irmãos, de exames médicos feitos nos korubos recém-­contatados e de uma roda de ike dos indígenas com a equipe da Funai. Inclui ainda imagens de korubos isolados contatados anteriormente, em 1996 e em 2014.

O documentário de Bridi está disponível no Globoplay, plataforma de streaming por assinatura em que as imagens dos korubos isolados têm um alcance muito maior do que teriam no filme de Bruno Jorge. Num evento em junho de 2024, um diretor da Globo afirmou que o Globoplay alcança mensalmente mais de 25 milhões de pessoas. Filmes etnográficos, por sua vez, costumam atrair aos cinemas apenas um público de nicho. Jorge contou que Piripkura teve cerca de 5 mil espectadores em salas de cinema (mas uma cópia pirata disponível no YouTube conta quase 1 milhão de visualizações).

A Justiça e a Funai estão cientes das imagens dos korubos isolados no filme de Bridi. As sequências incluídas em Vale dos isolados são citadas nos despachos internos da Funai, na ação protocolada pela PFE e na própria decisão da juíza que suspendeu a exibição de A invenção do outro. Na prática, porém, nem a Funai, nem a PFE, nem a Justiça se mexeram para impedir a circulação das imagens no Globoplay. Ao contrário do que aconteceu com Bruno Jorge, a Globo e Sônia Bridi não receberam qualquer notificação judicial ou extrajudicial referente ao caso.

Procurei a Funai e a Advocacia-Geral da União (AGU), à qual a PFE está vinculada, para entender a diferença de tratamento dos dois casos. Em notas enviadas à piauí, as duas instituições alegaram que tanto o pedido feito pela AGU quanto a decisão da Justiça contemplam todas as imagens filmadas na expedição de 2019, inclusive as que foram parar no filme de Bridi. A Funai, por seu lado, parece não querer comprar briga com a Globo. “O cineasta deveria e deve providenciar a retirada de circulação de todo e qualquer material que veicule imagens capturadas durante a expedição de contato em questão, para tanto, suspendendo, rescindindo ou anulando os contratos que tenham celebrado com terceiros, compreendendo, inclusive, o contrato de licenciamento das imagens para o filme Vale dos isolados”, afirma a nota da fundação. A Funai não se manifestou sobre a autorização de exibição das cenas dos korubos de 1996 e 2014, que continuaria pendente, mesmo que as imagens filmadas por Bruno Jorge fossem retiradas do documentário de Sônia Bridi.

 

As imagens do contato feito por Sydney Possuelo em 1996 foram filmadas pelo sueco Erling Söderström, diretor que o indigenista costumava levar a tiracolo em expedições pelo Vale do Javari. Daquela vez, chamou toda uma comitiva de imprensa, inclusive uma jornalista da revista National Geographic, que publicou na internet relatos diários sobre a expedição, e um repórter da revista Manchete (hoje extinta), entre outros. “Eu sempre levei cinegrafistas e jornalistas porque nunca tinha ninguém da Funai para registrar coisíssima nenhuma”, disse o sertanista. “Se você não se preocupar, vai perder momentos históricos para aquelas pessoas e para nossa recordação.”

Possuelo defende que o registro é benéfico para os indígenas contatados. “No momento, essas imagens não significam nada para eles, mas daqui a quinze ou vinte anos, os jovens que já falam português vão querer saber como foi”, afirmou. “Quanto mais você fizer esses registros, melhor para a história deles.” O sertanista ficou indignado ao saber que a Funai havia pedido a suspensão do filme A invenção do outro. “É burrice, não tenho outra palavra.”

O caso de Possuelo está longe de ser exceção. “Vários contatos feitos no Brasil foram televisionados, trazendo informações praticamente ao vivo”, disse o linguista Sanderson Oliveira. Em nenhum desses casos consta que tenha havido questionamentos da Funai quanto ao direito à imagem dos indígenas retratados.

Num episódio recente, a Funai deu a entender que o interesse público justificava a divulgação de imagens de indígenas isolados, mesmo que eles não fossem consultados. Em dezembro de 2024, a própria fundação tomou a iniciativa de distribuir aos jornais O Globo e The Guardian, do Reino Unido, imagens de um grupo de isolados da Terra Indígena Massaco, fotografados por câmeras de disparo automático deixadas na floresta, quando apanhavam machados e outras ferramentas deixadas para eles pela equipe do indigenista Altair Algayer. Esse grupo vive na primeira terra indígena demarcada, no começo dos anos 1990, para usufruto exclusivo de um povo isolado.

A divulgação da filmagem de um contato pode chamar a atenção da sociedade para a causa dos indígenas isolados. Numa entrevista à piauí, o antropólogo Ruben Caixeta Queiroz, da UFMG, lembrou o caso do cineasta brasileiro de origem italiana Andrea Tonacci, que filmou o contato com os araras liderado por Possuelo, na série Os Arara, feita para a Rede Bandeirantes no começo dos anos 1980. “Ele foi filmar o primeiro contato com a perspectiva de que a câmera pudesse, por um lado, denunciar situações graves de extermínio e, por outro lado, ser um instrumento para divulgar a causa indígena”, disse Queiroz.

A Terra Indígena Vale do Javari talvez não tivesse sido criada se as imagens do contato com os korubos em 1996 não tivessem rodado o mundo. O olhar profundo do índio do buraco e a flecha apontada para a câmera de Vincent Carelli foram determinantes para a proteção do território por onde o indígena circulou até sua morte. “E a gente anda tendo muita dificuldade para demarcar terra indígena”, lamentou Jair Candor. O indigenista acredita que, se a sociedade souber mais sobre a situação dos isolados, vai entender por que eles precisam de uma área para viver e apoiar sua proteção. “Tem que ter cuidado com o que vai mostrar, mas as imagens de contato têm que aparecer, sim.”

Os registros dos isolados também podem ajudar a combater a desinformação sobre os indígenas. “O pessoal ligado às madeireiras, ao garimpo e ao agronegócio diz que os isolados são uma invenção da Funai”, afirmou Beto Marubo. O líder da Univaja – que reúne os indígenas do Vale do Javari – disse que conversou com Bruno Pereira sobre como as imagens do contato dos korubos em 2019 poderiam incentivar a proteção aos isolados. “Bruno e eu sonhávamos em apresentar esse filme para o STF, o Ministério Público e a Câmara.”

Em 2023, o Congresso aprovou uma lei instituindo o marco temporal, dias depois de ele ter sido considerado inconstitucional pelo STF. De acordo com a tese do marco temporal, os indígenas só têm direito às terras que ocupavam no momento da promulgação da Constituição Federal, em 1988, o que dificulta muito a proteção dos povos isolados. Há 114 registros da presença de indígenas isolados no território brasileiro, a maioria na Amazônia. Parte desses registros está em áreas não protegidas. “Como é que você vai demarcar essas terras, se os indígenas isolados tiverem que comprovar que estavam lá em 1988?”, questionou Marubo.

 

Em sua edição de 2024, o Festival de Brasília premiou mais uma vez um filme de temática indígena. A diferença é que, dessa vez, havia indígenas entre os realizadores premiados: Sueli Maxakali e Isael Maxakali levaram o prêmio de melhor direção com Roberto Romero e Luiza Lanna pelo filme Yõg ãtak: meu pai, kaiowá. A premiação é sintomática do crescimento de um movimento chamado “demarcação das telas”. Os indígenas estão cada vez mais avessos à ideia de que outros falem em seu nome, e reivindicam assumir as câmeras, assinar o roteiro, a direção e as demais tarefas da produção audiovisual.

O empoderamento do cinema indígena é um dos motivos pelos quais filmes de contato como A invenção do outro são um gênero em extinção – outro motivo é o fato de que expedições como a registrada pelo documentário são casos excepcionais, pois o que prevalece é a política de não contato. Agora, os indígenas também querem contar a sua versão da história, como fizeram no filme Pïrínop: meu primeiro contato, de 2007, assinado por Mari Corrêa e Karané Ikpeng. Ali, os ikpengs, que vivem na região do Xingu, resgataram as filmagens do contato feito com seus ancestrais nos anos 1960 e reencenaram o encontro, a partir do próprio ponto de vista. Pïrínop é fruto do Vídeo nas Aldeias, o projeto de Vincent Carelli para estimular a formação de cineastas indígenas, que já acumula dezenas de filmes desde sua criação, em 1986.

“O que os indígenas estão dizendo é: ‘Chega de brancos fazerem imagens sobre nós. Queremos fazer as nossas próprias imagens e controlar a narrativa’”, resumiu o antropólogo Ruben Caixeta Queiroz. Ele é um dos criadores e organizadores do forumdoc.bh, o Festival do Filme Documentário e Etnográfico, que apresentou na abertura de sua 28ª edição, em novembro de 2024, o filme A queda do céu, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, baseado no livro homônimo de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Em entrevista à piauí, o antropólogo Paulo Roberto Maia Figueiredo, que é cofundador do forum­doc.bh, citou A queda do céu como exemplo de articulação bem-feita com os indígenas para viabilizar a realização de um filme. Nesse caso, a Hutukara Associação Yanomami entrou como coprodutora e foram promovidas oficinas para a formação de comunicadores indígenas. “Essa costura é trabalhosa, mas tudo isso sustenta o filme”, disse o antropólogo. “Quando você não tem nada que o sustente, fica no vácuo.”

Figueiredo acredita que a fragilidade dos acordos para a realização do documentário de Bruno Jorge ajuda a explicar o impasse que levou à suspensão do filme. As combinações feitas com os indígenas, para filmes ou pesquisas de campo, podem se desfazer rapidamente e precisam ser constantemente atualizadas, explicou o antropólogo. “É como se você tivesse que dar continuidade à relação para o filme poder existir”, disse. “A coisa não acaba ali.”

 

Não há solução à vista para o impasse em torno de A invenção do outro. Os advogados de Bruno Jorge pretendem recorrer da decisão de primeira instância suspendendo o documentário, que, embora continue inacessível, tem cópias pirateadas circulando pela internet. Dificilmente a exibição do filme será autorizada sem uma consulta aos korubos – e essa é uma perspectiva cada vez mais improvável.

Se, antes, Bruno Jorge estava animado com a ideia de voltar ao Vale do Javari para mostrar o filme aos indígenas e pedir a autorização para lançar o documentário, agora não está mais. O diretor cita a morte de Bruno Pereira e de Maxciel Pereira dos Santos, indigenista da Funai assassinado em Tabatinga em 2019, para justificar que não estaria em segurança na região. Mas a situação do Vale do Javari não mudou muito desde a reunião de 2024 em que que Jorge disse à Funai que estava disposto a revisitar os korubos.

Para complicar, Jorge não concorda que deve condicionar a exibição do filme à anuência dos korubos. “Eles não precisam gostar desse filme, eu não posso dar importância a isso como artista”, disse. Ele acha que um documentarista se corrompe quando subordina sua obra à aprovação do outro. “Isso não é cinema, é propaganda.”

Jorge não se sente em débito em relação aos korubos. Disse que tentou envolver os indígenas na realização do filme, ao chamar Takvan Vakwë para traduzir as sequências faladas em korubo. Mas considera que a realização das imagens, que valorizam o trabalho da Funai e a cultura indígena, encerrou suas obrigações em relação à fundação e aos korubos. “A contrapartida é a própria existência do filme.”

Vincent Carelli, cineasta cuja trajetória foi marcada pela prática de devolver aos indígenas as imagens em que foram retratados, tem outro ponto de vista. “Antes que tenha polêmica, que sejam eles os primeiros a ver e discutir o filme”, disse. Para Carelli, os cineastas têm que ouvir questionamentos à sua obra. “Às vezes, você atravessa alguma coisa que não era para ser mostrada.” Ele acha que Jorge deveria ter feito esse esforço para viabilizar a circulação do documentário. “Se você faz um filme desses, é para dar uma força. Seja respeitoso e atencioso até o fim.”

 

Em 8 de março de 2022, Bruno Pereira enviou a Bruno Jorge uma sequência de mensagens de áudio. Queria lhe contar que tinha visto cerca de uma hora e meia do filme e se emocionado com as imagens. Estava animado com o barulho que o documentário poderia fazer naquele momento, em meio aos ataques promovidos pelo bolsonarismo tanto aos povos indígenas quanto à Floresta Amazônica. “Lançar o filme esse ano vai ter um impacto do caralho”, disse o indigenista em uma das mensagens. “Os isolados estão expostos e a política pública está aos frangalhos, mas estamos resistindo.”

Ao ver o filme, Pereira se convenceu de que tinha tomado a atitude correta ao contatar os korubos isolados. A expedição fora bem-sucedida: o conflito com os matis tinha sido evitado e nenhum indígena adoecera depois de interagir com a equipe da Funai. Por outro lado, os korubos contatados não voltariam mais a ser isolados, e agora era responsabilidade do Estado prestar-lhes assistência. Os korubos que se relacionaram com a expedição passaram a viver na beira do Rio Coari, não muito longe da base onde a Funai passou a manter uma equipe de indigenistas, técnicos de saúde e intérpretes indígenas (trata-se de uma base diferente daquela que a fundação mantém no Rio Ituí, junto à qual vivem os korubos contatados em 1996, 2014 e 2015). A Funai sabe de pelo menos mais um grupo de korubos que permanece em situação de isolamento no Vale do Javari.

“Fico muito preocupado com o futuro”, continuou Pereira em outra mensagem de áudio para Bruno Jorge. Ele disse que, depois do contato, chegava uma hora em que o Estado deixava de prestar assistência, e a situação dos indígenas se deteriorava pouco a pouco. “Eles só se fodem. O clássico é esses índios irem ficando doentes e perdendo território.” Mas notou também que a situação dos korubos contatados ainda não tinha chegado a esse ponto.

Depois que foi exonerado da coordenação de indígenas isolados pelo governo Bolsonaro, Bruno Pereira pediu licença não remunerada na Funai e passou a atuar como assessor da Univaja. Estava trabalhando na criação de uma força indígena para a defesa de seu território. O Vale do Javari continuava sendo um lugar perigoso para os indígenas, ameaçados pela invasão de suas terras por traficantes de drogas e criminosos ambientais.

O indigenista tinha planos de voltar àquela região com Jorge para que o diretor fizesse um filme sobre essa força que estava articulando. Na viagem em que seria assassinado, Pereira visitou um grupo de marubos para o qual daria uma oficina de segurança em setembro. Levou na bagagem cópias das imagens que Jorge havia feito durante a expedição de 2019, mostrou-as aos indígenas e disse a eles que gostaria que o cineasta filmasse a oficina para um novo documentário.

Pereira mandou uma mensagem animada a Jorge para contar que o cacique havia autorizado as filmagens e que o diretor podia voltar ao Vale do Javari em setembro para uma temporada. “Bota 45 dias aí, Brunão”, disse ele. A conversa entre os dois no aplicativo de mensagem, em junho de 2022, termina com um pedido aflito de notícias enviado por Bruno Jorge, depois que a notícia do sumiço do indigenista começou a circular. “Peloamordedeus, aparece mano. Puta angústia aqui.”

Bernardo Esteves
Bernardo Esteves

Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)

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