Martha Maria dos Reis (centro) e sua filha Damiana da Silva Santos (esq.), trisavó e bisavó do autor, e uma amiga: “Talvez um dia não sejamos mais estrangeiros no chão em que nascemos” CRÉDITO: ACERVO PESSOAL
Geografia dos afetos
O território imaterial de quem está à margem
Paulo Vicente Cruz | Edição 188, Maio 2022
Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver,
na composição étnica da
população, as características
mais convenientes da sua ascendência europeia, assim como
a defesa do trabalhador nacional.
Decreto-lei 7967, art. 2º,
de 18 de setembro de 1945
Quem fecha os olhos para
a realidade contribui para sua
própria destruição, e quem
insiste em permanecer
num estado de inocência
quando a inocência já morreu
há muito tempo acaba por
transformar-se num monstro.
James Baldwin em
Um Estranho na Aldeia
Não é tarefa fácil descrever o lugar de onde este texto foi produzido. É um território sem mapas. Mas ele existe, assim como existem as pessoas que nele vivem – embora não falte quem se esforce para que elas deixem de existir. É uma terra de onde não se parte. Um chão feito do corpo e marcado no corpo. Aqueles e aquelas que têm essa origem recebem de toda parte a mensagem de uma voz opressiva: não queremos vocês aqui. Este texto é escrito desde a morada dos que não são bem-vindos, são permanentemente estranhos, presenças inconvenientes para quem olha e vive o autoengano de não se achar também o outro de alguém.
O terreno é inapreensível pelos que inventaram as geografias vigentes. As pessoas que o habitam são muitas vezes tidas como perigosas ou matáveis, como tudo que foge ao desencanto da norma. Não há mistério no que aqui se diz. Nem por isso é simples dizê-lo. Nem por isso deve deixar de ser dito. A cor força a dizer, o gênero força a dizer, a pobreza força a dizer. Existimos, somos muitos e muitas, estrangeiros e estrangeiras, em qualquer parte.
“O ventre da mãe foi sua única terra natal. O resto sempre foi desproteção e abstração organizada em bandeiras e fronteiras.” Esta é uma das frases de um conto chamado Na Barriga do Mundo, parte da coletânea de narrativas breves Enquanto os Gigantes Dançam, que lancei em 2021. O conto descreve em poucas linhas a travessia de um rapaz pelo mar para tentar a sorte em algum lugar. Embora o enredo remeta a imagens atuais de pessoas em situação de refúgio, o que me moveu a escrevê-lo foi a falta de pertencimento que atravessa certos sujeitos, apenas por serem quem são, sem que o mundo lhes dê direito a um lugar. E há tempos esse mundo que coleciona violências físicas e simbólicas contra grupos não hegemônicos sabe muito bem a quem negar espaço.
Circular no Rio de Janeiro, cidade em que nasci, por exemplo, é trafegar identificando fronteiras invisíveis e calcular as possíveis hostilidades ao cruzar esses limites tácitos. Corpo estranho onde aqueles como eu são minoria. Corpo como alvo onde aqueles como eu são maioria. Nunca corpo em paz. Estar na praia, experiência-síntese, é perceber o horizonte que se mostra para toda a gente, mas é acessível apenas a algumas. É pisar os grãos de um pretenso solo livre e ter a sorte de não me tornar massa inerte, produto de um arremedo de justiça misturado com omissão de socorro. É pensar na semelhança que guardo com os que estão à distância de um oceano. Eu, nascido nesse campo minado que formalmente é meu lugar de origem, comungo da mesma bandeira alienígena de almas nascidas em locais que desconheço. O mar espelhando o céu, que se abre como possibilidade para tantos, a nós parece oferecer com mais frequência perigos e abismos, suas margens e continentes além. Nas areias cariocas houve em apenas três semanas doze tentativas de linchamento no primeiro mês de 2022[1] e a morte de um imigrante a pauladas – talvez ludibriado por um hino positivista que canta estas bandas como “mãe gentil”.
Há um manual de sobrevivência dedicado a nós, sempre estranhos. Aconselha não sairmos de casa sem documentos de identificação; ignorarmos os olhares curiosos em locais onde nossos corpos sejam exceção; não corrermos em trajes de praia na paisagem da bossa nova, pois isso pode custar a vida ou a liberdade. O guia também recomenda que saibamos sempre a hora certa de estar, e o lugar certo, mesmo que seja no comércio da própria comunidade – é sempre possível ser confundido, preso ou morto em uma batida policial.[2]
Há também o aviso de que certos bens não duráveis, marcas de roupas, modelos de carro, restaurantes, clubes e festinhas não são associados a determinados grupos e de que a estranheza gerada por essa dissonância pode se transformar em caso de polícia. O guia nos avisa que não adianta juntarmos nossas economias e tomarmos um avião para a Europa ou para a América do Norte, porque teremos incômodos novos, além dos usuais. A lição fundamental é que tudo isso diz muito pouco sobre nós e muito mais sobre quem não é como nós. Há também mais um ensinamento que se depreende: nossa cartografia se constrói em outras bases e a nossa terra é feita de outra matéria, construída de memórias, de resistências e de sonhos de futuro. A esse terreno pertencemos. Nele a nossa vida é possível.
É uma sorte minha ter parcela grande de minha história familiar preservada. Em parte, a longevidade de algumas pessoas de minha família possibilitou – e ainda possibilita – a transmissão oral de nosso caminho coletivo. Outro fator importante foi o esforço de uma de minhas irmãs, a escritora Eliana Alves Cruz, em transformar os registros escritos e as informações orais sobre nossos ancestrais no romance histórico Água de Barrela. Conheço os desafios da linhagem materna de meu pai desde os tempos em que meus antepassados foram escravizados nos engenhos de açúcar de Cachoeira e São Félix, cidades do Recôncavo Baiano. Para uma família negra, recontar a própria história é um feito difícil, tanto mais em um país que escolheu o caminho do apagamento de parte de seu passado como forma de lidar com suas infâmias. Obviamente é um privilégio saber os nomes e ter imagens do passado remoto da família, assim como conhecer os marcos territoriais onde se originou a nossa trama.
A oportunidade de refletir sobre meus antepassados me trouxe um sentimento de pertença que extrapola os limites geográficos e me ajuda a construir um lugar que não depende do espaço. Embora nem todas as pessoas consigam reconstituir sua história ancestral, saber que são consequência do futuro sonhado por quem veio antes pode ser um porto de acolhida. Esse lugar não pede visto de entrada nem nos exclui por sermos o que somos. Ao contrário, nos recebe justamente por sermos dissonância. É a margem de mundo que aceita nossas cores, nossos gêneros e, no caso de muitos de nós, até mesmo nossa escassez material. Embora seja um paradoxo, foi a experiência de visitar locais onde começa a história de minha família, um segmento na diáspora africana para o Brasil, que produziu essas percepções.
A primeira vez que estive nas cidades de Cachoeira e de São Félix foi em janeiro de 2020. Guiado pelas referências de minha história, fui pisar as mesmas ruas por onde circularam cinco gerações da família. O que encontrei não foi um lugar no espaço, mas os caminhos aos quais pertenço. Esse entendimento ficou evidente depois de visitar dois pontos importantes.
Um deles foi a Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Sagrado Coração do Monte Formoso, mais conhecida como do Rosarinho ou de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em 1846 pela comunidade negra. Proibidas de pisar em templos católicos, essas pessoas reuniram esforços e ergueram sua própria igreja, como fizeram outros pretos em muitas cidades brasileiras. Meus bisavós se casaram ali, em 1916. Pensei na construção do templo à margem da cidade, no esforço coletivo da irmandade que o elevou, na criação de um território de pertencimento a quem era negado lugar e mesmo reconhecimento como gente. As fotos que fiz das paredes em amarelo esmaecido e das janelas verdes desgastadas são um registro que ajudam a recordar que meu chão é essa terra fundada na criação coletiva. Não é a cidade que possui a minha história, mas a minha história que contém a cidade.
Outro lugar suscitou em mim experiência parecida. Foi o Terreiro da Cajá, em São Félix, município que olha Cachoeira da outra margem do Rio Paraguaçu. Conta a tradição oral que, quando uma epidemia de cólera assolou a região na segunda metade do século XIX, Anacleto Urbano da Natividade, homem escravizado no engenho da Fazenda Capivari, curou muitas pessoas – dentre elas, membros das famílias escravocratas – por meio de suas ervas e saberes religiosos.
Graças a isso, recebeu um pedaço de terra e a permissão para realizar o culto aos orixás no local. Já na época havia ali a árvore de cajá, que permanece viva e reverenciada, hoje irrompendo o teto do templo religioso construído ao seu redor. As relações entre minha família e a do sr. Anacleto ainda não puderam ser reconstituídas com detalhes, mas nossas histórias cruzam-se nas interseções dos caminhos que as pessoas negras dessa comunidade encontraram para sobreviver durante a escravatura e o pós-abolição. No espaço onde estão expostos objetos de memória do terreiro há uma foto em que aparecem juntas minha trisavó, minha bisavó e uma senhora possivelmente ligada ao terreiro de Anacleto.
Embora a história do terreiro se expresse intensamente na relação com o território, percebe-se ali também a criação de um terreno que transcende a geografia. Um lugar criado pelas relações solidárias e de resistência entre aqueles para os quais só a margem era reservada. Talvez seja essa a liga que tornou possível a consolidação do imaterial no concreto. Acredito que tenha sido o elemento capaz de manter o legado de Anacleto e tornar ruína a opulência dos engenhos.
É leviano desconsiderar a importância dos territórios na construção da identidade dos sujeitos. A vida se manifesta na materialidade das coisas, apesar de ser mais do que isso. Entretanto, existe esse outro espaço onde os que são rejeitados por todas as bandeiras criam sua nação. É um espaço formado pela solidariedade entre pessoas que comungam o mesmo destino, construído diariamente para os que virão depois de nós, como fizeram os que ergueram a Igreja do Rosarinho ou a Casa da Cajá, sem imaginar que alguém registraria suas histórias. Desse lugar este texto é escrito. Meu pertencimento é o sonho. Muitos e muitas sonharam minha vida e fizeram o caminho para que ela existisse. Sonho a vida de outros e de outras e faço o caminho de quem ainda vem, como utopia paradoxalmente possível. Talvez um dia não sejamos mais estrangeiros constantes no chão em que nascemos ou estamos. Enquanto isso, levamos nosso lugar nos nossos pés e por vezes nosso sangue é derramado em qualquer solo – finalmente sem acolhida recusada.
Embora seja prudente evitar regras gerais, a arte e suas metáforas podem ser condutoras dos enfrentamentos necessários no mundo, efetivas que são, em suas formas oblíquas de comunicação. O escritor nigeriano Chinua Achebe, em seu ensaio A Verdade da Ficção,[3] chama atenção para o modo como a criação artística pode nos aproximar da realidade. A título de exemplo, lembra o incômodo causado no regime fascista espanhol pela tela Guernica, de Picasso. Por que provocaria tanto temor ao fascismo uma simples tela, se não transmitisse algum tipo de verdade? É o que nos convida a pensar Achebe. Abordo o assunto porque me lembro do poder da poesia da escritora paulista Lubi Prates, na eloquência sintética que traduz parte das articulações destes parágrafos. Em seu livro Um Corpo Negro, as cartografias aqui mencionadas ganham a força poética capaz de fazer emergir realidades que merecem fechar estas linhas:
[…] Se me arrancaram pela raiz
forço uma cartografia
desejando a terra
pois sobraram as sementes
E em outro poema:
[…] bem-vindo a este mapa
de um território sem fronteiras.
bem-vindo a este mapa:
onde guardo
no meu ventre
uma revolução.
[1] “Tentativas de linchamentos em praias do Rio já chegam a 12 em três semanas, revela levantamento exclusivo”, em O Globo de 31/1/2022.
[2] “Jovem negro preso após comprar pão no Jacarezinho é solto”, na Folha de S.Paulo, em 8/2/2022.
[3] O artigo The Truth of Fiction, de Chinua Achebe, encontra-se na coletânea de ensaios Hopes and Impediments (Penguin), infelizmente não publicada em português.
