A cozinheira Camila Rodrigues da Silva, em Fernando de Noronha: “Comecei a trabalhar com 13 anos. Sofri muito, chorava dia e noite. Mas aprendi muito com cada etapa da minha vida” CRÉDITO: VICTOR MORIYAMA_2025
Geração democracia: parte V_O cuidado e a desolação
Uma sociedade deve ser avaliada pela forma como cuida dos mais frágeis
José Henrique Bortoluci | Edição 228, Setembro 2025
GENTE QUE VIVE COMO EU
Ouvi Camila Rodrigues contar sua história de vida por acaso, numa manhã de agosto de 2024. Ela substituía a cozinheira de uma pousada em Fernando de Noronha onde eu passava férias com amigos. Eu estava sonolento e atrasado para um passeio de barco, mas não pude deixar de prestar atenção naquela mulher que aparentava ter mais ou menos a minha idade e narrava a uma hóspede sua biografia, farta de reviravoltas e desafios. Além de cozinheira e camareira da pousada, Camila era cuidadora de idosos. Ela também já havia se empregado, desde os 13 anos, como babá e empregada doméstica – ambos trabalhos de cuidado.
Desde que meu pai foi diagnosticado com câncer no final de 2020 e passou por um intenso tratamento ao longo de três anos, o tema do cuidado começou a me preocupar cada vez mais. Dois anos depois desse diagnóstico, meu avô materno, à época com 92 anos, sofreu uma queda no quintal de casa, e a partir de então passou a depender de cuidadoras, pagas com o dinheiro que ele e minha avó juntaram ao longo da vida – antes da queda, vô Aristides saía para caminhar todos os dias e cuidava de uma horta num terreno baldio ao lado de nossa casa em Jaú, no interior de São Paulo, arrancando mandiocas do chão com a enxada e as mãos. Minha mãe, agora com 74 anos, já começa a exigir cada vez mais cuidados, em um ritmo que se acelerou desde que ela recebeu, recentemente, um diagnóstico de Parkinson.
Estou certo de que a preocupação com os cuidados dos meus velhos deve só crescer pelos próximos anos. Além do mais, muitos amigos tiveram filhos recentemente, e eu tenho acompanhado, num misto de admiração e espanto, as enormes dificuldades desses pais e mães que se dividem entre seus trabalhos e os cuidados com os pequenos, geralmente sem a ajuda de parentes ou de uma comunidade de apoio.
Como toda geração, aquela à qual pertenço convive com os fatos frios da demografia e as mudanças dos hábitos e práticas culturais: se nossos pais e avós cresceram cercados de muitos irmãos, vários de nós somos filhos únicos, ou temos um ou dois irmãos apenas. A expectativa de vida é cada vez maior, e nossas famílias são mais insulares, em grande contraste com os arranjos familiares das gerações anteriores, nos quais o cuidado dos filhos costumava ser compartilhado com irmãs mais velhas, tias e mesmo vizinhas.
Meu pai teve sete irmãos que chegaram à idade adulta (o oitavo, Roberto, faleceu aos 6 anos, depois de sofrer intensas dores de barriga, como era comum em famílias pobres, sobretudo na zona rural). As irmãs mais velhas, as tias e sobrinhas ajudaram minha avó a cuidar dos filhos mais novos, enquanto ela gestava, paria e amamentava mais e mais crianças. Mais tarde, a mais nova entre as irmãs, solteira, cuidou de minha avó até a morte dela, aos 85 anos. Minha mãe é a filha mais nova de uma família de quatro irmãos, e viveu a experiência de cuidar de crianças quando ela própria era uma menina.
Hoje, nossos pais chegam às últimas décadas de suas vidas com expectativa de viverem, em média, entre cinco e dez anos a mais do que os pais deles viveram. Muitas pessoas de minha geração enfrentam o quebra-cabeça de ter que cuidar ao mesmo tempo de seus pais mais velhos e de seus filhos, com redes de cuidados menores e políticas públicas de apoio precárias, enquanto trabalham em rotinas exaustivas fora do lar.
Esse é um quadro sem resolução fácil: o contexto atual é marcado pela individualização dos cuidados, por famílias menores, pela maior presença de mulheres no mercado de trabalho, por demandas de produtividade nos empregos e na vida pessoal, exigências estafantes feitas às mães, perda de laços entre vizinhos, insegurança dos espaços públicos – os mesmos espaços onde crianças como eu, nascidas em cidades do interior, passávamos grande parte de nosso tempo. Em paralelo, as profissões do cuidado – enfermeiras, cuidadoras, trabalhadoras domésticas, babás – tornam-se cada vez mais o destino de mulheres, em sua maioria negras e de classes populares, que também cuidam de seus próprios filhos, pais e avós, muitas vezes sem a ajuda do marido ou companheiro, cumprindo jornadas de trabalho que muitas vezes ultrapassam doze horas por dia.
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Uma sociedade deve ser avaliada pela forma como cuida dos mais frágeis. A ideia não é nova, mas é frequentemente esquecida. Tendemos a naturalizar ou esconder de nossos olhares os trabalhos de cuidado, assim como escondemos em quartinhos nos fundos das casas ou em bairros periféricos distantes das regiões mais abastadas de nossas cidades aqueles que assumem o fardo pesado de cuidar de crianças, doentes e idosos.
Cuidado e democracia são duas forças que se somam e se confundem; são amálgamas de políticas, de formas de organização, de sensibilidades e maneiras de viver que se contrapõem à violência, aos maus-tratos, à solidão do sofrimento sem amparo e à tendência insistente que as sociedades têm em se afundarem no individualismo, na competição, na desolação. Uma ética do cuidado é uma resposta ao problema fundamental de que todos dependemos de outras pessoas para sobrevivermos e para termos uma vida digna. Essa interdependência, inerente à condição humana, faz do cuidado não apenas uma questão ética das mais importantes, mas também uma lente com a qual se pode olhar a vida coletiva e avaliar a experiência de uma democracia e de toda uma geração, em seu convívio com as gerações passadas e futuras.
É preciso observar, então, como a sociedade organiza os cuidados: quem cuida e quem é cuidado, como se cuida, com que recursos, e como se cuida dos cuidadores. Esse olhar revela uma série de pontos cegos. Sabemos bem que o trabalho de cuidar sempre recaiu desproporcionalmente sobre mulheres e grupos marginalizados. Esse trabalho, sobretudo doméstico, frequentemente não remunerado, foi também uma das lentes que nos foram transmitidas para ler o mundo: mulheres cuidam, homens mandam.
No Brasil, mulheres pobres, em sua maioria negras, seguem sendo a base social e a força de trabalho que permite que famílias brancas de classes médias e altas dediquem seu tempo a ganhar dinheiro e preparar a transmissão de capital material e simbólico para as gerações seguintes – as “mães pretas”, que serviram a muitos de meus colegas brancos nascidos ricos, quando crianças nos anos 1980 e 1990, mas também a multidão de empregadas, faxineiras, babás, cozinheiras e cuidadoras.
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Fiquei um pouco mais naquele restaurante da pousada em Fernando de Noronha, tomei outra xícara de café e chamei Camila Rodrigues. Perguntei se ela queria me contar sua história. Ela aceitou e, depois de muitas conversas, me explicou a razão:
Eu quero contar minha história porque acho que tem ainda nesse Brasil muita gente que vive como eu. Vive excluída. Vive necessitada. Porque as pessoas, quando não conhecem a história da outra, acham que, com aquela sua origem, nunca podem melhorar de vida. E eu vejo que a minha vida mudou. Minha cabeça mudou. Então, a pessoa que olhar pra minha vida vai ver uma superação e vai achar que ela também vai conseguir. Tenho certeza disso. E ainda vou conhecer uma pessoa que vai dizer assim: “Li o artigo que o escritor escreveu, li tua história e hoje consegui mudar a minha vida através da tua história.” Porque eu fui uma menina que tomei veneno, fui uma menina que sofreu nesse mundo, fui uma menina que viveu como escrava em uma casa de família. Isso tudo eu vejo que ainda existe no Brasil. Mas vejo que isso tudo pode mudar.
O QUE SE PODE AO NASCER
A data de nascimento é um dos fatos que mais ditam as possibilidades de uma vida. Um acontecimento silencioso, mas dos mais marcantes para a geração nascida em meados dos anos 1980 foi o fato demográfico de que, nessa época, a expectativa de vida no Brasil já caminhava na direção da média dos países desenvolvidos. No início dos anos 1980, a expectativa de vida de um brasileiro era próxima dos 62,5 anos. Em comparação, alguém nascido em 1943, como meu pai, tinha expectativa de viver cerca de 46 anos; os bebês que vieram ao mundo em 1951, quando minha mãe nasceu, viveriam em média 48 anos.
Nas últimas décadas, essa média subiu de forma constante, impulsionada pela criação do Sistema Único de Saúde (sus), por campanhas maciças de vacinação, pelos avanços na medicina e a expansão, ainda que tímida, do saneamento básico. Em 2018, essa expectativa já alcançava 76,3 anos. A pandemia de Covid, embora tenha imposto um revés temporário ao derrubar o indicador para 72,8 anos em 2021, revelou-se um tropeço momentâneo, já que a recuperação foi rápida. Dados recentes do ibge mostram que, em 2023, a expectativa de vida ao nascer voltou a 76,4 anos, superando o patamar pré-pandemia. As projeções para o futuro são otimistas: o país pode alcançar a marca de 83,9 anos em 2070.
Observamos também nas últimas décadas uma redução inquestionável da mortalidade infantil. Nos anos 1960, a taxa rondava os 122,9 óbitos por 1 mil nascidos vivos, refletindo as precárias condições sanitárias e de saúde da época. A cada década, os números recuaram com consistência: em 1980 caíram para 79,4 por 1 mil nascidos vivos; em 1990, para 44,6; em 2000, para 28,6; e em 2023 para 12,5. Nessa progressão, especialistas projetam um recuo para 5,8 mortes a cada 1 mil bebês nascidos vivos em 2070.
No Brasil, entretanto, as desigualdades já nos visitam desde o berço e nos acompanham até o fim – e este fim será mais ou menos precoce, a depender da cor com que nascemos, de nosso local de origem, de nossa relação com o gênero que nos é atribuído no nascimento. As disparidades são muitas e alarmantes. Olhemos para algumas delas: no Brasil, a expectativa de vida de pessoas transexuais gira em torno de apenas 35 anos, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) – menos da metade da média nacional. O número de travestis e pessoas trans mortas no Brasil é assustador: foram 122 em 2024, segundo a Antra. A isso se soma a marginalização social e econômica, que as exclui da educação formal e do mercado de trabalho, empurrando muitas para a informalidade e a prostituição. A transfobia dificulta o acesso a cuidados médicos, limitando tanto a prevenção quanto o tratamento de doenças. Esse painel de violências contribui para altos índices de ansiedade, depressão e, em muitos casos, de suicídios – na verdade uma espécie particularmente cruel de homicídio coletivo imposto pela transfobia.
Diante dos números que sinalizam um progresso na média de expectativa de vida, persiste também o abismo racial: jovens negros brasileiros – especialmente homens – morrem muito mais cedo que jovens brancos. Um jovem negro tem 2,7 vezes mais chance de ser assassinado do que um branco: a cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil. Jovens negros e negras são desproporcionalmente expostos à pobreza, ao saneamento básico precário e ao acesso limitado à saúde e à educação. Em algumas cidades, a diferença na expectativa de vida entre pessoas negras e não negras ultrapassa duas décadas. O Mapa da Desigualdade de São Paulo 2024 mostra que um morador dos Jardins, área rica da cidade, vive em média 80 anos; já no bairro Iguatemi, área pobre da Zona Leste, a expectativa mal chega aos 59 anos.
Essas disparidades, que fazem parte do cotidiano de nossas cidades, expõem a fragilidade e os limites para se pensar em uma geração como uma experiência compartilhada – somos, do nascimento e até a morte, muitas gerações em uma.
NUNCA CONSEGUI CONTAR
Camila Rodrigues me fala de sua infância e adolescência:
Eu nasci pobre, meus pais são gente muito humilde. Meu pai tinha quatro irmãos, e cada um tinha quatro filhos. Minha avó acolheu todo mundo na casa dela. A gente morava junto nessa casa. Eram cinco famílias, cada uma vivendo num quarto meio apertado. No nosso, tinha meu pai, minha mãe, eu e meus dois irmãos. Eu sou a filha do meio. Nasci em 27 de janeiro de 1987, lá em Fortaleza. Depois que nasci, minha mãe teve uma depressão pós-parto e não quis cuidar de mim. Por isso, foi minha avó que me criou. Meu pai bebia, bebia muito. Mesmo depois que meus pais melhoraram um pouco de vida e saíram da casa da minha avó, eu continuei lá com ela. Teve uma época em que meu pai alugou uma casa pra gente morar, porque ele tinha se separado da minha mãe. Mas ele expulsava os filhos da casa pra ficar com outras mulheres lá. A gente, então, ia pra casa do meu irmão.
Por isso minha infância foi bem sofrida. Meu pai batia muito na minha mãe. Com 6 anos, tive um trauma, porque sofri um abuso, bem pequenininha. Nunca consegui contar isso pra ninguém. A única pessoa pra quem eu contei foi pra uma colega minha. Ela veio conversar comigo, e eu abri o jogo. Ela disse: “Camila, tu tem que tirar essa mágoa de dentro de ti.” Sabe por que resolvi falar disso pra você? É que não dá pra falar de quem eu sou sem falar dessa ferida. Tenho muito medo que aconteça alguma coisa parecida com minha filha e que ela não me diga nada. Por isso, tenho que contar, colocar no mundo.
Meus pais sempre foram alcoólatras. Minha mãe chegava do trabalho às cinco da tarde e bebia cachaça até dormir. Por causa de tanto sofrimento – meus pais bebendo, o abuso, as agressões –, eu decidi cedo que ia sair de casa se encontrasse alguém. Com 12 anos, engravidei do meu primeiro filho, o Felipe. Eu gostava da escola, de estudar, mas depois que engravidei ficou tudo mais difícil. Não dava pra conciliar as coisas.
Com 13 anos, depois que tive meu filho, comecei a trabalhar em casa de família pra me sustentar e tive que abandonar a escola. Com 15 anos, eu me separei do pai do meu filho. Como a família dele tinha mais condições financeiras, eles conseguiram a guarda do menino. Alegaram que eu não tinha estrutura, nem psicológica, nem financeira, e que meus pais também não eram capazes. Aí eles ficaram com a guarda provisória do meu filho quando eu me separei. Eu poderia ter dado uma vida melhor pra ele, mas na época não tinha estrutura nem apoio.
Eu só podia ver meu filho se a tia dele fosse junto. Ele nunca passava um final de semana completo comigo. Só podia ir no shopping, dar uma volta, sempre com a tia por perto. Sozinha, eu não tinha esse privilégio. Uma vez, quando eu estava com 17 anos, encontrei com ele numa terça-feira. Eu me lembro como se fosse hoje. Eu me despedi dele e de todo mundo, dizendo que seria a última vez que a gente se veria.
Na quarta-feira, tomei veneno de rato pra tirar minha vida. Passei três meses em coma. Depois, me envolvi com drogas que eu não conhecia até ali: pó, maconha. Graças a Deus, hoje não uso mais. Mas tudo isso aconteceu por causa da minha vida difícil. Tinha dia em que eu comia, dia em que não comia. Dormia num lugar hoje, amanhã em outro. Foi isso que me levou a querer tirar a vida.
Não morri porque uma prima minha chegou na hora, viu e derrubou o resto do veneno. Eu já tinha tomado um pouco. Só lembro de começar a me debater na cama, minha prima me dando leite, minha avó desesperada, e minha vizinha chamando a ambulância. Como não chegava, ela me jogou no primeiro carro que viu e me levou pro hospital. Mesmo em coma, eu escutava vozes ao longe e, mesmo não conseguindo abrir os olhos, eu via tudo verde, como se estivesse numa nuvem verde. Escutava as pessoas rezando por mim, mas não conseguia falar.
Eu sobrevivi. Estou aqui. Minha vida mudou, porque depois procurei uma igreja e comecei a frequentar grupos de jovens católicos. Tinha passeios, a gente interagia muito, falava bastante sobre drogas. Pra mim, foi tipo uma reabilitação. Quem me levou foi a Tamires, neta da minha vizinha, a dona Olga, que fazia parte desse grupo de jovens. Ela disse que eu ia me sentir muito bem. Porque, depois que tomei o veneno, eu me sentia muito isolada. Lá, eu conheci muitas coisas que mudaram minha vida. Não quis mais saber de droga a partir daquele momento.
Hoje, o Felipe, meu filho mais velho, não fala comigo. Ele deve ter a impressão de que eu sou uma mãe muito ruim. Ele quase não conviveu comigo, nunca deixaram. Quando ele crescer mais e quiser escutar a minha parte, eu vou estar lá pra atender ele. Hoje ele tem 24 anos, é dentista. Eu tenho 38.
CORRE!
Eu não imagino o Brasil melhorando. Se fosse com o Bolsonaro na Presidência, podia até ser. Porque, quando o Bolsonaro entrou, não sei se você viu, as pessoas tinham mais segurança. Hoje eu não vejo isso. Eu estava conversando com uma pessoa que está há treze anos aqui. Ela disse: “Camila, hoje em dia eu não me vejo andando à meia-noite sozinha em Noronha. Eu tenho medo.”
Tem muito tráfico. E corrupção, porque tem muita gente corrupta. Tem traficante que é criminoso altíssimo e você nem acha que ele pratica o crime. Se eu fosse presidente por um dia, ia tentar acabar com a corrupção, mesmo que me matassem no dia seguinte. Acho tudo isso muito triste, muito desonesto.
Muita família perdeu suas casas por causa de tráfico. Tanta família saiu do seu lugar porque o traficante expulsou! A pessoa não tem direito de sair nem com suas coisas – só com a roupa do corpo. Eu já vi eles entrarem, invadirem a casa da pessoa, e eu sem poder chamar a polícia, sem poder fazer nada. Eu vivi isso. A família, que fez tanto sacrifício para construir um quartinho, tem que deixar tudo lá, pegar os filhos e ir embora às carreiras.
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O tráfico e a violência imposta por criminosos a comunidades pobres não são um tema sobre o qual Camila se informou pela tevê ou pela internet. Talvez por isso sejam tão marcantes em sua maneira de pensar o que a política pode ou não pode fazer por ela:
Quando meu filho João Vitor tinha uns 4 anos, apareceu um terreno invadido e a pessoa me chamou: “Camila, tem um pedaço aqui pra tu, tu quer?” Aí eu fui pra lá, nesse pedaço que tinha pra mim, em Fortaleza, do lado da praia. Era tudo sem liderança, sem legalização de nada, o povo ocupando de jeito espontâneo. Montei um barraco de lona ali, e morava com meus filhos. Eu vendia comida. Montei tipo uma merceariazinha. Quando eu saía pra igreja, meu marido trocava mercadoria por cachaça.
Depois, conheci outra ocupação, onde fui morar. Vendi a minha casa de lá, da ocupação anterior, e fui morar nessa outra. Eu vivia uma vida normal. E uma líder comunitária de lá, a Simone, me disse assim: “Camila, já que tu passa muito tempo aqui na tua casa na ocupação, eu quero te ajudar.” Eu disse: “Como tu quer me ajudar?” Ela disse: “Quero te ajudar, tu fica como minha secretária, me dando um apoio pra resolver as coisas, e eu te ajudo a construir tua casa aqui.”
Foi assim que eu fui líder comunitária de uma ocupação. Se você olhar meu histórico no Facebook, vai ver eu fazendo doação de cesta básica, de ovos de Páscoa, festinha pras crianças, com as coisas que a gente recebia pra distribuir. Isso tudo tá marcado na minha vida. Eu ia atrás de energia, de água pra comunidade. As pessoas me procuravam. Mas tudo terminou quando fui ameaçada de morte pelos traficantes que controlavam a região lá. Tudo que acontecia dentro da ocupação eu tinha que passar pra eles. E, se eu não passasse, eles me ameaçavam. Eram dois traficantes que brigaram, e aí um deles começou a ameaçar a comunidade. Começou a vir pesado pra cima da liderança da ocupação, querendo grana, dizendo que a gente estava desviando dinheiro.
Apanhei cinco vezes de coronhada na cabeça, e não morri. Aí, nesse período, uma pessoa lá de dentro que gostava muito de mim conseguiu me tirar deles, viu que eu não tinha nada a ver e me disse: “Corre, Camila!” E eu corri.
Pouco tempo depois, quando eu tava internada depois de uma cirurgia em que tive que tirar o útero e os ovários, recebi uma ligação. A pessoa me disse assim: “Eu já sei onde tu tá, vou te buscar.” No outro dia, peguei o pouco que eu tinha na minha conta do banco e fui pro Recife, fiquei lá uns dois anos, trabalhando. E cheguei em Noronha em 2023. Eu tinha comprado duas casas na comunidade, uma pra mim e uma pra minha mãe. Perdi tudo que tinha.
Sabe, meu maior medo é de ficar só na vida. Hoje eu me encontro longe da minha família. Meus dois filhos mais novos fazem aniversário no mesmo mês, e era pra ser uma festa, mas pra mim é o mês pior que tem. Então, eu me arrependo muito de ter entrado nisso, era pra eu ter ficado lá sem precisar ser líder comunitária. Era pra eu ter ficado como uma pessoa normal, com qualquer outra ocupação, como uma cidadã, entendeu? Hoje estou pagando as consequências. Eu quero voltar pra Fortaleza, mas não consigo mais. Minha visão é de querer comprar uma casa em Natal pra poder trazer meus filhos e eles ficarem perto de mim.
TUDO QUE NÓIS TEM É NÓIS
Janeiro de 2021. O Brasil alcançou a trágica marca de 220 mil mortos por Covid, sendo apontado como um dos casos de pior gestão pública durante a pandemia no mundo. Em pronunciamentos diários, muitas vezes sem máscara em meio a aglomerações, o então presidente Jair Bolsonaro reforçava sua posição contrária às medidas de isolamento social, argumentando que a política de “fechar tudo e ficar em casa” não havia surtido efeito. Em suas palavras, “o povo brasileiro é forte, o povo brasileiro não tem medo do perigo”.
Alguns meses antes, ele já havia pronunciado frases que poderiam ilustrar com destaque nossa história da desolação, não fosse pelo fato de serem tantas, ditas quase diariamente, que acabavam banalizadas, como: “O brasileiro tem que ser estudado. O cara não pega nada: eu vi um cara ali pulando no esgoto, sai, mergulha… Tá certo? E não acontece nada com ele.” Ele está longe de ser o único trovador da desolação em nossa história política recente: não faltaram líderes públicos, em diferentes contextos, que justificaram chacinas (“Quem não reagiu está vivo”), desdenharam da violência sexual (“Tá com vontade sexual, estupra, mas não mata”), celebraram a matança policial (“A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo!”).
Enquanto isso, no mesmo mês de janeiro de 2021, cenas de terror ocorridas no país ganhavam destaque nos noticiários nacionais e internacionais. Algumas das mais marcantes vinham do Norte. O colapso do sistema de saúde em Manaus levou pacientes a morrerem sem oxigênio. Valas eram abertas em ritmo industrial, para enterrar às pressas os mortos. Dada a gravidade da situação, foi implantado um toque de recolher que restringiu o movimento entre as 19 horas e as 7 horas do dia seguinte. Somente nos primeiros meses de 2021, Manaus registrou mais de 4 mil mortes pela Covid, superando o total de óbitos acumulados no ano anterior.
Também em janeiro de 2021 foi feita a fotografia que considero uma das mais significativas das últimas décadas. Vi aquela imagem-síntese na tela do meu celular, enquanto aguardava com meu pai mais uma consulta num hospital público de Jaú, ele e eu cercados de pacientes de câncer, a maioria usando máscaras de pano mal ajustadas ao rosto, acompanhados de mulheres, filhas, mães. Era a fotografia de um indígena carregando seu pai nas costas para tomar a vacina contra a Covid. O jovem era Tawy Zo’é, de 24 anos, e seu pai, de 67 anos, Wahu Zo’é.
Os Zo’é são um povo de recente contato, composto por cerca de 325 indígenas que vivem em territórios no Norte do Pará. Enquanto algumas autoridades pregavam contra vacinas ou propunham falsos tratamentos, Tawy Zo’é carregou seu pai por horas em meio à mata para que ele pudesse receber a imunização. Em momentos de desolação, é em Tawy Zo’é e seu pai que procuro pensar.
A comunidade São Remo, na divisa dos bairros paulistanos do Butantã e Rio Pequeno, organizou-se rapidamente para enfrentar a pandemia. O Projeto Alavanca, com doações iniciais e apoio de lideranças e organizações, formou o Coletivo São Remo Contra o Covid-19, que coordenou a compra e distribuição de alimentos, priorizando mães solo e pessoas com doenças crônicas. Também arrecadou fundos para confeccionar e distribuir máscaras feitas por costureiras da comunidade, gerando renda e ajudando na prevenção. Esse projeto era uma das muitas iniciativas no país de organização comunitária para a promoção do cuidado durante a pandemia.
Costumamos nos lembrar desses atos de inovação e cuidado coletivo com menos frequência do que das cenas de morte e sofrimento – essas se agarram a nossa memória e retornam com frequência em nossos pesadelos. Mas as iniciativas de cuidado durante a pandemia foram muitas: profissionais da saúde trabalharam em plantões muito longos, além do suportável; cientistas lutaram contra todos os limites materiais e institucionais para desenvolver vacinas; professoras inventaram novas formas de ensinar crianças a distância, pelas telas do computador; organizações de bairro criaram cozinhas comunitárias; famílias fizeram compras para vizinhos mais velhos ou doentes.
Esse tipo de invenção coletiva de cuidado não é novo. Em escalas menores, acontece o tempo todo pelo país, sobretudo entre comunidades que têm pouco amparo público e dependem de si próprias para cuidar dos doentes, das crianças, dos mais velhos. Em momentos de crise, essa força coletiva do cuidado é vital.
Um exemplo notável, entre tantos: em 1984, durante a epidemia de Aids, Brenda Lee (1948-96), uma travesti pernambucana, fundou a Casa de Apoio Brenda Lee em São Paulo para acolher pessoas com HIV. Inicialmente apelidada de Palácio das Bruxas e depois renomeada por Brenda como Palácio das Princesas, a instituição ofereceu abrigo a pessoas LGBTQIAPN+ soropositivas e marginalizadas. Brenda Lee, conhecida como o “anjo da guarda das travestis”, buscou apoio e recursos, estabelecendo parcerias importantes, como a que fez com o Hospital Emílio Ribas. E até hoje, nas periferias das grandes cidades brasileiras, redes de mães se auto-organizam para criar redes de creches informais para cuidar das crianças de seus bairros – as “mães crecheiras”, espalhadas pelo país, em regiões esquecidas pelos olhos do poder e dos moradores de bairros luxuosos.
MÃE, MÃES
As mulheres de nossa geração tratam desse tema mais abertamente do que nossas mães e avós: o sentido e as formas da maternidade, a divisão de tarefas entre diferentes cuidadores de crianças e idosos, as enormes desigualdades de gênero e classe na atividade do cuidado. Essa preocupação, tão central para compreender quem somos como sociedade, tornou-se constante em conversas, debates online, livros e filmes. É uma questão que muitas vezes deságua em divórcios, como já constatei várias vezes por meio de casais de amigos e conhecidos: muitos homens, até então ótimos namorados e defensores polidos do feminismo, se convertem depois do casamento e do nascimento dos primeiros filhos em pais negligentes, repetindo o exemplo de seus próprios pais, para a surpresa e indignação das companheiras.
Como dizem muitas mães que conheço – e como lemos em textos que circulam na internet dia sim, dia não –, mesmo os pais “participativos” e “desconstruídos” raramente assumem metade do fardo do trabalho mental e físico dos cuidados, das obrigações com a saúde e a educação das crianças. Além disso, eles poucas vezes são alvos das demandas de instituições como as escolas e postos de saúde, que, em caso de necessidade, ainda hoje acionam a mãe, mesmo que ela e o pai tenham compromissos de trabalho idênticos.
Camila reflete sobre isso:
A coisa do cuidado parece que é uma questão mais no ombro das mulheres. Hoje em dia os homens são mais secos. Um casal de mulher com mulher é mais recíproco. Casal homem com homem é também mais recíproco que homem com mulher. Hoje eu não vejo o homem muito recíproco nas coisas. Ele não é companheiro, não é prestativo. Você vê que a mulher está tomando um espaço tão grande dos homens que hoje em dia tem mulher pintora, mulher mecânica, mulher que trabalha em construção, pedreira, que bota a mão na massa mesmo.
Você vê mulher tomando conta de tudo. Porque a mulher, além de gostar de trabalhar, o que a maioria desses homens não gosta, ela trabalha com cuidado e com atenção. A mulher gosta de detalhes. O homem não. O homem faz de qualquer jeito, porque pra ele já está bom. A mulher é mais cuidadosa. Se ela vai pintar, ela pinta com jeito, bem “pintadozinho”, sem defeito. A gente é muito perfeccionista nas coisas que faz. Os homens não.
Não tenho muita esperança de que isso mude. Vai depender da criação de cada mãe. Mas o preconceito também já começa dentro da escola. Todos os homens começam a se retrair dali. Todas as crianças. “Ah, esse menino quando crescer vai virar viado. Ah, essa menina quando crescer vai virar sapatão.” Então é difícil hoje a educação das crianças, eu sinto isso na criação dos meus filhos.
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Vivemos uma complexa disputa entre diferentes modelos de maternidade. Muitas mães veem como inconveniente o modelo de criação que muitos de nós tivemos nos anos 1980, em que elas, já estafadas e muitas vezes com pouca ajuda paterna, tiveram de criar seus filhos com apoio da televisão, de produtos industrializados e aceitando que crianças e adolescentes ficassem longas horas sem a supervisão intensa de adultos. Esse diagnóstico tem gerado uma série de respostas e de dilemas (a começar por dúvidas cotidianas insistentes, como permitir ou não que crianças acessem telas antes de uma certa idade, que comam doces e alimentos processados).
Essa avaliação, quando se associa a um contexto de neoliberalismo turbinado, fomenta uma ideologia do maternalismo heroico, que impõe às mulheres a quase impossível tarefa de conciliar pesadas rotinas de trabalho com as exigências do “tempo de qualidade” dedicado aos filhos. Essa idealização da mãe gera uma pressão insustentável, resultando em culpa, esgotamento (a síndrome de Burnout materna, fenômeno tão contemporâneo) e, com frequência, no sufocamento da individualidade de muitas mães. A crítica a esse maternalismo heroico, que muitas mulheres têm desenvolvido e amplificado, desafia a noção de que a felicidade e a realização pessoal estão intrinsecamente ligadas à descendência, e confronta a visão utilitária da mulher como cuidadora e do homem como provedor.
Em paralelo, surge também uma espécie de maternalismo nostálgico, outra resposta aos mesmos dilemas e à reflexão sobre os modelos de criação que tivemos nos anos 1980 e início dos 1990. Se no maternalismo heroico impera uma ideia de mãe profissional, neste retorna e se atualiza a ideia de uma “mãe do lar”. Surge aqui e ali uma fantasia de retorno idealizado ao paradigma da maternidade em que mães abdicam de suas carreiras para se dedicarem integralmente ao cuidado dos filhos. Esse modelo de cuidados ganha versões tanto entre uma esquerda meio hippie quanto em uma direita “conservadora nos costumes”; na primeira, a fascinação por “desinstitucionalizar” as crianças e educá-las em casa, os planos de fuga para o campo, até a rejeição a vacinas; na segunda, o encanto com as tradwives, as esposas tradicionais, “belas, recatadas e do lar”, integralmente dedicadas ao cuidado dos maridos e filhos, que povoam as redes sociais e o imaginário religioso e conservador da família tradicional.
Esses dilemas e tentativas de respostas parecem fazer parte da vida de famílias de diferentes classes sociais – com a diferença de que nas classes médias e altas se pode contar com o apoio de babás e faxineiras. Nas classes populares, a realidade é marcada pela persistente falta de apoio, a escassez de creches, o fardo das mães solo e a reduzida disponibilidade de redes familiares para a coletivização do cuidado.
Em 2022, estavam fora da rede pública de creches 2,3 milhões de crianças de até 3 anos, apesar do direito constitucional e de decisão recente do STF garantindo o acesso. Apenas 40% das crianças dessa faixa etária tinham matrícula em creches, apesar de a maioria das famílias desejar o serviço. Mais de 632 mil crianças aguardavam vaga em creches públicas, com 44% dos municípios relatando filas de espera. A escassez afeta especialmente mulheres em comunidades marginalizadas, que enfrentam dificuldades para trabalhar devido à sobrecarga do cuidado. A falta de creches perpetua a desigualdade de direitos das mulheres, mantendo ciclos de pobreza e exclusão social e aumentando as chances da perpetuação desse ciclo na geração de seus filhos.
Por trás dessa teia de necessidades e desses modelos de maternidade em constante mutação, pulsa uma crescente economia do cuidado. Mulheres negras ocupam 45% dos postos de cuidado remunerado e são 61% das trabalhadoras domésticas. No ano seguinte, muitas das mais de 24 milhões de mulheres formalmente empregadas no Brasil enfrentavam jornadas duplas, combinando trabalho remunerado com cuidado doméstico. Em 2022, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados, as mulheres dedicavam 21,3 horas, quase o dobro, comprometendo renda, oportunidades e saúde mental.
CASA DE FAMÍLIA
Camila continua sua história:
Quando comecei a trabalhar com 13 anos em casa de família, depois que tive meu primeiro filho, eu fazia faxina e já cozinhava. Eu morava na casa, passava lá uns quinze dias direto. Fui muito humilhada. As patroas eram muito ignorantes, muito brutas. Não podia comer as mesmas coisas que eles, a nossa comida era diferente. Eu cozinhava, passava roupa e ainda cuidava de um filho de 10 anos. Tinha que aguentar ser chamada de burra e outras coisas. Eu não tinha hora pra dormir, só pra levantar. Se fosse meia-noite e a filha dela chegasse da faculdade, eu tinha que fazer o café dela. Sofri muito, chorava dia e noite, mas precisava do emprego pra me sustentar. Mas aprendi muito com cada etapa da minha vida.
Depois, fui trabalhar como babá, e ali eu gostei mais, porque a patroa via como eu cuidava do filho dela e sempre me tratou muito bem, não me tratava como se eu fosse uma escrava. Era um recém-nascido, cuidei dele até os 3 anos. Se a família ia pra pizzaria, eu ia junto e sentava na mesma mesa. Na hora do almoço, a gente também sentava todo mundo junto. Sempre gostei de crianças e de cuidar delas. Tinha época em que eu nem queria ir pra casa nos dias de folga, de tanto que eu gostava de ficar com eles. Queria passear, ir pra praia, cinema com a criança. Num lugar eu fui escrava e no outro fui amada.
Quando o meu filho João Vitor tinha 5 anos, tive meu primeiro emprego de cuidadora. Eu trabalhava numa clínica com quarenta idosos. Esse meu primeiro contato com idosos acamados me assustou muito. Alguns falavam um pouco da vida deles e depois esqueciam. Tinha funcionário público, advogado, juiz e tudo. Tinham sido abandonados pela família, que não queria cuidar deles. Cada senhora que eu cuidava tinha uma história diferente.
QUANDO DESCOBRI ESSE AMOR
Depois da separação do meu primeiro marido, fui trabalhar um tempo numa barraca na praia e morar com a minha mãe, que tinha se separado do meu pai. Foi nessa época que conheci o homem que seria o pai dos meus outros dois filhos. Ele era evangélico, mas depois descobri que era alcoólatra também. A gente ficou junto treze anos. Ele me pediu pra voltar pra igreja pra eu ajudar ele. Pois, muito bem, voltamos pra igreja juntos. Com dois meses de relacionamento, engravidei da Joana Clara, e quando ela tinha 1 ano tive o João Vitor. Eles são do mesmo mês, com um ano de diferença.
Na gravidez do João Vitor, sofri muito. O pai dele começou a me bater. Ele batia muito na minha barriga, muito mesmo, com o bebê lá dentro. Ele começou a me humilhar, a beber, a usar droga. Saía, bebia com um monte de mulheres, e eu via tudo isso. Cheguei a cair da bicicleta porque fui atrás dele, grávida. O João Vitor nasceu de 8 meses, com a pele escura por falta de ar. O médico achava que ele não ia sobreviver.
Quinze dias depois, ele começou a ter uns espasmos. Quando completou 5 anos, eu voltei pra igreja, e lá o pastor disse que o menino tinha sido curado, que eu não precisava mais dar remédio pra ele. Eu tinha que acreditar em Deus que ele tinha sido curado. E foi depois disso que o João Vitor teve a primeira crise na escola, se estressou com a professora, mordeu um menino e correu pra debaixo da mesa, não queria sair de lá. Ele ficava gritando, batendo a cabeça na parede e me chamando.
A psicóloga do colégio falou comigo, me disse que eu tinha que ir na escola, que meu filho precisava com urgência de um médico, de um psicólogo e de uma neuropediatra, pra saber realmente o que ele tinha. Eu disse pra ela: “Não vou sair, não, porque ele não é doente, ele foi curado.” Por causa do pastor, demorei pra aceitar que ele era doente. Depois aceitei, não teve outro jeito. Quando o João Vitor tinha 8 anos, deixei de trabalhar de carteira assinada pra cuidar dele, levar pro médico, fazer todo o tratamento pra saber realmente o que ele tinha. Meu filho é esquizofrênico e epiléptico. E agora descobriram que ele tem um pouco de autismo também. O mais difícil de estar aqui longe é que não posso cuidar dele no dia a dia. É minha mãe quem cuida. Mas só assim consigo mandar dinheiro pra eles, e tento conseguir uma coisa melhor pra nós no futuro.
A gente voltou a morar com a minha mãe de novo, mas no começo, ela passava o dia fora e, quando chegava, bebia com meu padrasto, então não ouvia nada do que acontecia comigo no quarto, não via que ele me batia. Eu sempre escondia, porque tinha medo da minha mãe não querer mais ele lá, e eu gostava muito dele, apesar de tudo que ele fazia.
Mas uma vez vi esse meu marido da época dando cerveja pra nossa filha, que estava com uns 2 anos. Me revoltei. Eu estava balançando o João Vitor pra dormir, peguei um cabo e bati nele. Aí ele se acalmou. Mas, depois, voltou e me deu um soco no olho. Meu olho fechou na mesma hora.
A minha vizinha, dona Olga, queria denunciar, mas eu não quis. Na época, eu gostava dele, era difícil. Mas hoje eu vejo de outra forma. Hoje eu não admito ninguém triscar um dedo em mim! Porque eu posso me achar do jeito que for, mas em primeiro lugar vem o meu amor-próprio. Eu acho que naquela época eu não tinha amor-próprio, não amava o que era próprio a mim mesma. Quando descobri esse amor, eu vi que isso não é normal, que a gente tem que denunciar, sim, porque a gente não foi feita pra apanhar.
Hoje eu tenho medo que minha filha sofra violência. Por isso sempre converso com ela, digo que nós duas temos que ser amigas, não importa o que aconteça. Aprendi a dar amor, coisa que eu não sabia, acho que é por causa dos meus traumas de infância. Acho que eu aprendi isso sendo cuidadora: eu sentia amor dos idosos, e aí eu podia passar amor pra eles. Fui amada pelos idosos que cuidei. Fui tendo paciência, sabendo que eles tinham uma vida muito sofrida. E, às vezes, quando você ia cuidar, eles não queriam, porque faziam tudo sozinhos. Então, se você tenta ajudar, eles vão tentar te ofender de alguma forma. E, quando vinham me ofender, eu não ofendia de volta, eu brincava, tá entendendo? Com jeito, dava pra eu mostrar que eu amava e cuidava deles, por mais que me maltratassem, eu tava ali do mesmo jeito.
ENVELHECER
A atual crise do cuidado, agravada por mudanças demográficas, aponta para um modelo em ruínas. Enquanto a população experimenta um aumento notável na longevidade, a infraestrutura do cuidado necessária para amparar essa nova realidade segue frágil, assentada em bases fiscais e em soluções culturais temerárias. A geração dos nascidos em meados dos anos 1980 já começa a enfrentar de forma dramática essa nova realidade demográfica – neste momento como cuidadores, mas em algumas décadas como idosos que precisarão de cuidados. Essa nova realidade expõe ainda os problemas de um sistema que historicamente dependia de soluções precárias e machistas, como a figura da tia solteira, que assumia os cuidados dos pais.
A transformação demográfica é silenciosa, mas acelerada. A projeção indica que a população brasileira crescerá até 2047, alcançando 233,2 milhões de habitantes, para então diminuir gradualmente para 228,3 milhões em 2060. Nesse ano, aproximadamente 25% da população terá mais de 65 anos. Em apenas duas décadas, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais poderá dobrar (de 15% para 30%), enquanto a proporção daqueles com 80 anos ou mais poderá triplicar (de 2,3% para 7%). Esta rápida transição de um país jovem para um país envelhecido impõe desafios significativos aos modelos econômicos, à previdência social, às estruturas familiares e às concepções acerca dos cuidados necessários.
O impacto mais forte será sentido na dependência de idosos. Em 2020, havia 22 idosos para cada 100 pessoas em idade ativa. Em 2060, esse número deve saltar para 65. E as pessoas da minha geração (nascidas em meados dos anos 1980) seremos parte expressiva desse grupo. Isso significa que cada adulto poderá ter de sustentar quase dois idosos – uma mudança radical tanto para nossas concepções sobre cuidado e interdependência, quanto para o Estado e as políticas públicas, em todos os níveis da federação.
ATÉ O FIM
A dona Fátima, que eu vim cuidar aqui em Noronha e morreu faz pouco tempo, me disse uma vez: “O dia que eu parei de comer, Camila, foi o dia mais difícil da minha vida.” Teve um dia que a filha dela botou a comida no prato pra ela comer e disse: “Come, mãe.” Ela queria comer, mas não conseguia. As lágrimas começaram a descer dos olhos da dona Fátima: e ela não queria que a filha soubesse que a mãe dela tinha perdido a força dos braços.
Ela passou uma semana sem pôr nada na boca. Por causa de uma doença degenerativa, foi perdendo os movimentos, e nisso também não conseguia fumar, que era a coisa que mais gostava na vida. Eu segurava o cigarro na boca dela, acendia e segurava até ela fumar o cigarro todinho. Ela olhava pra mim: “Por favor, Camila, me dá um cigarro.” Eu dizia assim: “Não vou dar, não, dona Fátima.” Ela pedia de novo: “Ah, Camila, só um.” Eu então dizia: “Tá certo, mas se tua filha souber, ela vai dar bronca em nós duas.” Aí eu dava o cigarro pra ela, ela me pedia de meia em meia hora, até mesmo de madrugada ela pedia. Até o fim da vida dela.
Quando eu cheguei, ela disse assim: “Camila, foi Deus que mandou tu pra minha vida.” Ela falava pra todos os filhos lá: “Quando essa menina botou os pés aqui, que eu vi o rostinho dela, pronto, eu disse assim: ‘Agora eu vou ter paz.’” Eu sempre fui assim: do jeito que me tratavam eu queria também tratar as pessoas.
Quando dona Fátima faleceu, eu tinha acabado de voltar do Recife. Tinha passado dez dias lá. Cheguei numa sexta-feira. Ela usava aquele aparelho com máscara de oxigênio. Nada fazia ela melhorar. Dei um cigarro pra ela, e ela disse: “Tô cansada. Bota uma nebulização em mim.” Botei. Mas o cansaço não passava. “Camila, quero outro cigarro.” Eu disse: “Não pode, a senhora tá fazendo nebulização.” Ela insistiu: “Me dá, Camila, por favor.” E eu dei. “Camila, me deita.” Eu deitava. “Me senta.” Eu sentava. Eu percebi quando ela ia partir. Olhei pra filha dela e disse: “Tua mãe não tá bem. Hoje ela vai embora.” Ninguém acreditou.
Coloquei dois ventiladores em cima da dona Fátima. Quando fui olhar, a mão dela já tava ficando preta, a unha escura. Ela me pediu: “Me dá meu último cigarro. Segura minha mão. Não solta.” E eu fiquei ali, segurando a mão dela, e com a outra mão segurando o cigarro. Aí ela disse: “Já vou agora.” Soltou minha mão. E morreu. A filha dela estava do outro lado. Perguntei: “Você conseguiu se despedir dela?” A filha respondeu: “Não consegui, não.” E ficou desesperada. Foi no dia de São Pedro. Dona Fátima gostava muito de São Pedro.
Fechei os olhos dela. Disse: “Agora acabou toda a dor.” A filha me pediu: “Camila, eu não vou conseguir ir. Faz tudo por mim.” Fui pro hospital, cuidei dos trâmites. Contei pra família, porque a filha não teve coragem. Falei com o irmão mais novo, que era o mais centrado. Dona Fátima tinha uma irmã, Bambina, muito amiga e confidente. Cuidava das finanças dela. Pra contar pra Bambina, tive que ir com calma. Ela já estava com 65 anos. Depois disso, Bambina quis me levar pra São Paulo, pra cuidar dela. Disse: “Camila, a próxima da fila sou eu.”
FUTURO
O que eu tô ganhando aqui em Noronha, não vou conseguir ganhar em canto nenhum, infelizmente. Eu consigo mandar dinheiro todo mês pra minha mãe cuidar dos meninos, e ainda tô tentando guardar porque quero montar meu negócio no futuro, uma padaria. Eu tô trabalhando muito. Tem dias que eu durmo só três horas.
Meu dia começa às cinco da manhã. Eu levanto, boto o café na pousada, trato tudo como sempre faço, com alegria no rosto. Posso estar passando o que for, mas ali eu me alegro pra todo mundo. Teve um dia, por exemplo, que meu filho tentou tirar a própria vida. E, mesmo assim, sorrindo, eu não demonstrei minha preocupação pra nenhum hóspede. Porque, quando eu entro no trabalho, eu viro um personagem: a Camila sorridente, feliz, sem preocupação. A Camila alegre.
O café começa às cinco da manhã e vai até as dez. Recebo os hóspedes sorrindo, conversando. Sempre querem saber como cheguei na ilha, como é viver aqui. Às dez horas termina o café, vou pros quartos, limpo tudo: arrumo as camas, limpo os banheiros. Quando tem muita gente deixando a pousada, é mais corrido. Depois, ainda vou pra lavanderia, lavar e estender a roupa.
Às vezes consigo parar ao meio-dia. Quando não dá, só à uma da tarde. Almoço e vou dormir. Mas muitas vezes nem almoço. Prefiro dormir pra estar bem pra trabalhar à noite. Como alguma besteira e deito. Durmo uma ou duas horas. Aí aproveito pra estender roupa ou limpar mais algum quarto. Às cinco horas eu paro e tomo banho. Às cinco e meia já começo no meu outro trabalho, na barraca de crepe. Chego lá, faço massa, preparo a produção: carne, frango, deixo tudo pronto pro dia seguinte. E fico atendendo até uma da manhã. No dia seguinte, a mesma coisa. E é isso que eu tô fazendo pra poder ganhar dinheiro e comprar minha casa lá fora e trazer meus filhos pra perto de mim. Meu sonho é comprar uma casa e montar minha padaria. E eu vou conseguir. Pra isso eu tô trabalhando dia e noite.
NADA ME PROIBIU
Um dia, depois de várias conversas presenciais e online, Camila Rodrigues me liga para contar as novidades. Ela tinha acabado de noivar e iria se casar em breve. Sua voz revelava um estado de ânimo mais jovial e esperançoso. Alguns meses antes, em Fernando de Noronha, o trabalho duro e a distância dos filhos impunham uma névoa de cansaço e solidão à sua fala.
Depois de compartilhar as boas-novas, ela me diz:
Tem uma coisa que eu não te falei. Eu não sei escrever direito. Eu sei ler, mas escrever não sei. Não sou uma pessoa alfabetizada direito. Às vezes, pra conseguir um emprego eu mentia, dizia que tinha estudado até a oitava série, mas só estudei até a quinta. Mas avancei mesmo assim, fiz meu curso de cuidadora, mesmo não sabendo escrever direito. Hoje em dia, dá pra usar o celular que tem um microfonezinho que você fala e ele digita pra você. Então, muitas mensagens que eu envio escritas no WhatsApp, na verdade, são desse microfone escrevendo por mim.
Nada me proibiu de chegar até aqui. Mas eu tenho vontade de aprender a escrever. Antes, tinha muita vergonha de falar disso. Hoje em dia, não tenho mais. Eu penso por tudo que eu passei, por ter que aprender sozinha, aprender tudo, aprender apanhando… Então eu vejo que não devo mais mentir sobre isso. Acho que era por isso que eu tinha o sonho de escrever meu livro, o livro da minha vida. Ou contar minha história pra alguém e a pessoa escrever por mim.
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