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A golpista do Bumble

    Eu precisava de água: “Você banhou mil anos da minha secura. Eu fico brega, brega. Que delícia” CRÉDITO: BILL MAYER_2022_DO LIVRO TALES FROM THE PICKLE PATCH (BILL MAYER STUDIO)

anais do tesão

A golpista do Bumble

Tatá, 42 anos, ghost-writer – esse foi o personagem que criei para ver o que a paquera virtual me reservava

Tati Bernardi | Edição 188, Maio 2022

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Sabe aquele papo de que a pessoa está vendo Big Brother Brasil por causa de um mestrado na USP cujo título cabeçudíssimo é algo como: Uma Etnografia do Grande Outro e o Elã Persecutório a Posteriori? Pois bem, eu entrei em um aplicativo de paquera para escrever este texto para a piauí. Estou aqui em dúvida entre dois títulos: “O neoliberalismo e o aliciamento consentido de adeptos virtuais como forma de não engajamento a priori” e “Resistência e ativismo: Vai ter mãe divorciada trepando, sim”. Qual será que o editor vai escolher? (Acabei de saber que escolheram um outro, menos militante.)

O Bumble, que meus amigos progressistas com algum dinheiro chamam de “o Tinder menos pior” (e aqui é importante analisar que, se por um lado não queremos pessoas com poucos livros, tampouco queremos muitos quilômetros que nos afastem da região de Pinheiros, em São Paulo – somos apenas mais um tipo de gente merda e não os heróis do Instagram), é um aplicativo autointitulado feminista. Não quer dizer que não tenham babacas, quer dizer apenas que é a mulher que começa o papo com os babacas. Valeu aí, Bumble, eu já nem termino meu dia cansada mesmo!

Antes de criá-lo, a empresária norte-americana Whitney Wolfe foi cofundadora e vice-presidente de marketing do Tinder – até o dia em que processou a empresa por assédio moral e teve a ideia de um aplicativo antimachista. Ficou bilionária aos 31 anos. E essa frase final, sim, me soa verdadeiramente feminista.

 

Não entendo muito de algoritmos, mas em dois meses de Bumble eu jamais tive o desprazer de dar virtualmente de cara com um bolsonarista declarado. Muitos escreviam em sua apresentação que eram de centro, e tantos outros que não gostavam de política. Mas não era difícil arrastá-los para o mar de rejeitados: em sua maioria, faziam o tipo “olha minha cara de mau e os pesos de academia lá no fundo” ou “olha como sou muito esportista nesse jet ski” ou ainda aquela pose ridícula de empresário que sobe de cargo e dá entrevista pro site Meio e Mensagem.

Tenho uma preguiça profunda de pessoas muito corpo. Sou uma colecionadora de rapazes de óculos que vivem dentro de suas cabeças.

A assinatura Premium te possibilita enxergar quem te curtiu enquanto você estava fora do aplicativo, ou mesmo dar uma segunda chance para os caras que você lançou no limbo do amor. Você também pode pagar valores extras para que seu perfil seja mais “rodado” ou para dar supercurtidas em tipinhos que lhe apetecer. A coisa mais engraçada é quando aparece um aviso dizendo mais ou menos assim: “Chega por hoje. Você já viu todo mundo.” É tipo: “Ô, gata, tá exigente, hein, filha?” Você andou a festa inteira 89 vezes e não escolheu nadinha? Minha solidão doía mais do que minhas falsas bolhas nos pés. E daí você tem a opção de mudar seus filtros e, quem sabe, topar sair com caras de 19 ou 70 anos – ou mostrar que você é realmente a legalzona sem preconceitos que diz ser no Instagram e não torcer o nariz para um nome de cidade ou bairro que jamais ouviu na vida.

 

Eu estava separada havia algumas semanas quando entrei no Bumble com uma foto em que meus cabelos, bem compridos à época e jogados pra frente, escondiam quase que totalmente o meu rosto. Minha amiga Michele ria demais e dizia: “Você parece a Samara, de O Chamado.” Não sabia quem era Samara, tampouco que O Chamado era um filme, mas dei um Google e achei que ela tinha um ponto. Embaixo dessa foto meio macabra (mas que deixava ver um pescocinho gracioso, uns três centímetros de nariz com personalidade e uma quina de boca apetecível), eu escrevi a frase: “Se você valer a pena, eu te conto quem eu sou.” Adicionei alguns filmes e séries de que eu gosto: Caro Diário, A Grande Beleza, O Cidadão Ilustre, I May Destroy You, The White Lotus e Succession. Na minha versão do que é sexy, esses seis exemplos “imprimem” mais sucesso do que uma bunda malhada. Mas a minha versão do que é sexy atravessou pântanos de solidão em muitos momentos da minha vida amorosa.

Tatá. Ghost-writer, 42 anos. Esse foi o personagem que criei, mas que abarcava em si a mais honesta curiosidade de ver o que a paquera virtual poderia me reservar.

Tatá é como meus pais me chamam. Ghost-writer é a profissão mais oposta possível à minha: sou uma escritora que tem compulsão por expor a própria vida. Aos 20 anos achei que era imaturidade. Aos 30 achei que era desespero pra fazer dinheiro. Agora já aceitei. Por fim: 42 anos é a idade em que achei que jamais entraria num aplicativo de paquera. Que bom que eu estava errada.

 

Importante dizer que um ex-namorado, com profissão, idade, beleza e poder aquisitivo semelhantes aos meus, também entrou no Bumble e em poucas semanas conheceu uma quantidade razoável de mulheres interessantes e bonitas dispostas a viver alguma história. E eu… bem… de que adianta o aplicativo não ser machista, se o mundo é?

Agora vamos ao que interessa (ainda que a maioria não seja de fato interessante):

O bibliotecário de livros técnicos

O primeiro match que dei foi com um rapaz bem bonito, que trabalhava meio período em uma biblioteca e meio período fazendo xilogravuras com a temática “centros urbanos”. A parte “biblioteca” me pegou, mas ele insistia que não era nada de mais: “São livros técnicos.” Se você está há muito tempo sem transar, vai me entender. Eu fantasiei que o bibliotecário de livros técnicos estava nu, imerso em uma banheira cheia de clássicos russos, me dizendo: “É o fim da picada o Bar da Dona Onça ter cancelado o estrogonofe, né? Vamos salvar vodcas e Dostoiévskis!”

Tentei puxar qualquer assunto que rendesse um tantinho de exibicionismo intelectual ou ao menos uma ironia marota ao estilo “não sou exatamente culto, mas tenho aquele tipo de inteligência raiz que é rara e dá vontade de cometer sexo” – mas nada ia pra frente. Contudo, segui em minha imaginação: eu me transformaria em uma peroba sem expectativas e ele me entalharia um Copan mal desenhado.

O bibliotecário de livros técnicos pediu pra me seguir no Instagram e fui obrigada a dar meu nome verdadeiro. Daí começou a ladainha do adeus: “Minha irmã te lê, minha sobrinha te lê, minha prima te lê, minha ex-mulher te lê.” Nessa hora eu sei que o típico machinho “meu pênis, minha vida” vai surtar de medo de não performar e ser exposto no jornal a todo um núcleo feminino de seu convívio. Fico sempre impressionada com a autoestima do homem branco, hétero e cis. E olha que esse nem era branco. Por que, por Deus, com tanto assunto no mundo, eu escreveria sobre ele? (Bem, é o que eu estou fazendo agora.)

Ele sumiu antes do deleite inenarrável de me conhecer pessoalmente e provar da minha imensa capacidade de fazer uma pessoa insegura se sentir pior. Interessante que, em 22 anos como colunista de revistas e jornais, a única vez que eu escrevi sobre uma brochada foi quando um meliante do prazer pediu com jeitinho que eu não o fizesse: “Se sair no jornal eu te processo! Eu te mato!”

 

O “oi, lisinha”

Na sequência, garrei papo com um sanitarista-surfista belíssimo de humor afiado e com uma ansiedade interessante: em vinte minutos de conversa ele já tinha me contado toda a sua vida amorosa, toda a sua saga com barbitúricos, o nome dos seus três cachorros e o bode pelo emprego, que ao mesmo tempo salvaria o mundo e consistia, nada mais nada menos, em lidar com dejetos humanos.

Venho de uma família que me ensinou, desde muito novinha, a mostrar interesse pelo outro, pensando toda a sorte de piadas grotescas para concluir conversas – e senti que a vibe do jovem era parecida com a minha. A gente se mandava jocosidades o dia todo, áudios imitando pessoas, histórias constrangedoras com amigos bêbados e conclusões hilárias sobre a vida um do outro. Eu sabia que isso não era exatamente sensual no mundo dos adultos maduros do Itaim, mas os adultos maduros do Itaim me interessam o mesmo que um mamão quente e passado. No mais, ele morava na Vila Madalena, o que me fez achar que minha predisposição a ser o oposto da mulher Vogue tinha uma chance.

Depois de duas semanas trocando memes de pum, a gente descambou pra sempre, virou brother, e eu estava verdadeiramente animada com isso. Como diria uma analista idosa que eu tive, “nem tudo precisa ter sexo envolvido”. Ela estava certa, apesar dessa máxima ser bem chata.

Nosso único momento mais quente foi virtual. Ele me perguntou se eu fazia o tipo feminista com sovaco peludo, porque tinha tesão nisso. Eu lamentei e contei que era old school: há mais de dez anos tinha feito um laser quase que no corpo todo. Daí ele mandou um “oi, lisinha”, e nisso escalonamos pra um maravilhoso papo de putaria. Papo esse que, jamais vou entender por quê, ele achou interessante printar e mandar para um amigo. Que mandou pra outro. Que provavelmente jogou num grupo de WhatsApp de héteros top. Eu não sou a Sharon Stone nem estou em uma ilha deserta para alguém lamentar me conhecer e não poder contar para os amigos. Mas, ao que tudo indica, na bolha Zona Oeste paulistana algumas pessoas acham mais legal printar um papo quente com uma escritora conhecidinha do que de fato sair com ela. Meia hora depois de eu escrever obscenidades pro garoto, recebi, por um conhecido, o print da minha conversa.

Depois da cagada quase criminosa do fake desconstruidão, eu nunca mais quis falar com o sanitarista-surfista. Mas a coisa já tinha ido mesmo pelo ralo (sim, desde que ele me contou que era sanitarista eu nunca mais parei de fazer piadas de banheiro). Nosso amor não teve sequer uma chance, talvez porque (visualizei pelo passado do Instagram do rapaz) ele só pegava altas gatas modelos saradas praianas e atrizes incrivelmente belas. Talvez porque eu tenha dito que via nele (e via mesmo) uma alma de roteirista de comédia ou de cronista de humor, e me lembro de ele ter ficado meio incomodado e dito algo como: “Eu não preciso ser igual a você pra ser legal.” Levei pra análise.

Eu nunca encontrei pessoalmente o sanitarista-surfista.

 

O Romero Britto de macacão

Romero Britto de macacão foi o apelido que Anna, minha amiga sensação do momento, deu a esse senhor que estava sempre de macacões de linho feitos sob medida e que, apesar de muito bem-sucedido como presidente de uma multinacional, queria mesmo era ser respeitado como artista angustiado pela bolha de artistas angustiados onde ele buscava namoradas e parcerias intelecto-financeiras (ele entrava com a grana, as pessoas entravam com um “vem aí na festinha não-sei-qual onde vai estar o Caetano Veloso”).

Anna lançou essa alcunha um dia em que eu estava largada no meu sofá, assoando o nariz compulsivamente, sofrendo horrores porque o Romero Britto de macacão havia me dado um pé na bunda. Eu insisti que não era um bom apelido (meu algoz era belíssimo e tinha bom gosto), disse que o pior artista rico desse país pelo menos ganhava dinheiro como artista. Anna concluiu: “Tá vendo? Era melhor você estar sofrendo pelo Romero Britto então, pra você ver o absurdo dessa situação!” E a gente riu tanto, mas tanto, que eu comecei a me curar a partir daquele segundo.

Quando comecei a sair com o Romero Britto de macacão, umas três amigas que o conheciam me mandaram um “Hmmmmm, Tati, sei não, bastante maluco”. Gente, fica aqui registrado pra sempre: quando quiserem me proteger de alguém, não digam que a pessoa é doida. Isso é o mesmo que me dar 100 litros de uma bebida afrodisíaca.

Mas vamos à história. Se você está no Bumble, certamente já viu o Romero Britto de macacão. Ele se destaca na multidão. Tem aquele olhar fura-paredes da alma. Posa em poltrona de rico, com um fundo de parede cheio de quadros de rico. Cigarrinho, café e o olhar de quem quer ler os mistérios gravados nas dobras mais retorcidas das suas entranhas (mas ele só quer mesmo é falar dele). Então você arrasta o Romero Britto de macacão para o seleto hall dos escolhidos, não tem jeito. Sua beleza tem um quê de Nando Reis com Christian Grey, e essa confusão de você nunca saber se ele vai fazer uma poesia pro seu All Star ou te estapear gostoso numa mansão é algo que me atraiu de forma um tanto desenfreada.

Ele vem te buscar em casa com um carro que tem 67 vezes o tamanho dele, mas é inteligente o suficiente pra tirar sarro disso antes que você o faça. Eu sentia tanta vergonha de andar naquele carro. Sempre achava que estava em uma ambulância ou numa Kombi. Meses depois do pé na bunda, eu ainda via Kombis ou ambulâncias pela cidade e me tremelicava toda: “Ai, meu Deus, é ele!” Não tinha nenhum rali pra gente fazer nas esquinas dos Jardins, então por quê? Era tudo meio ridículo, mas meu corpo tinha compulsão por se jogar em cima do dele, e eu resolvi ouvir a voz do meu coração. Só que o coração da gente – e aos 42 anos eu já deveria ter aprendido isso – muitas vezes lateja em partes que nada têm a ver com o coração.

Por horas, a cada encontro, o homem fala e fala e fala e fala e fala, e você visualiza todos os astrólogos que conheceu na vida passando na sua frente com um mapa astral aberto e o signo de Gêmeos em todas as casas, e essas pessoas dançando na sua frente enquanto fazem muitos nãos com as mãos e com a boca. Mas você persiste. A voz dele, curtida em cigarro e obsessão, é bonita demais, a risada dele é de tirar o fôlego e toda a sua ladainha sobre traumas familiares e profissionais e amorosos é estrategicamente moldada pra você achar que pode não só suportar tanta neurose como se apaixonar perdidamente. Romero Britto de macacão tem, sim, um enorme talento e sabe tirar bastante proveito disso: em todas as vezes que saímos, no longo período de dezenove dias que durou nosso louco amor, sempre tinha uma mulher que vinha cumprimentá-lo com um semblante péssimo de “Eu também estava me achando especial igual a essa coitada! Você fez o mesmo comigo mês passado!”.

Mas não podemos acusá-lo de não ser honesto. Já no primeiro date ele me contou que ficou duas décadas casado e queria um relacionamento aberto. Contou ainda que nem perde tempo vendo as mulheres do Bumble, paga o Premium pra ver quem curtiu seu perfil e, a partir dessa pré-triagem (que fizeram dele), faz sua seleção. Eu deveria ter percebido que a soma “pavor de ser rejeitado” com “estratégico demais pra transar” com “me atraio por artistas, mas como sobreviver à sombra deles?” com “me atura aí cem anos contando da minha vida, mas se quiser falar de você eu vou te dizer que ainda acho cedo pra opinar sobre suas angústias” era a matemática da desgraça cósmica. Mas, por Deus, como eu achei aquele homem bonito. E, bem, o primeiro sexo depois de um divórcio vai parecer pra sempre o maior amor de pica da sua história.

Quando Romero Britto me largou, dois dias depois de cantar Roberto Carlos no meu ouvido e dizer que estava perdidamente apaixonado por mim, eu caí de cama. Poucas vezes fiquei tão mal na vida. Ele me largou dizendo que estava “refratário” a mim. Eu pesquisei o que era “refratário” e não entendi nada ao ver aquelas fotos de travessas de vidro para assar frango. Eu me arrastava pela casa, para trabalhar e para cuidar da minha filha. Aumentei o antidepressivo e ligava para todos os amigos muito próximos e também para os conhecidos mais distantes e ainda pra gente que eu tinha visto duas vezes na vida. Mandei áudios de sete minutos para pessoas com as quais troquei dois minutos de conversa numa festa, apenas porque eu queria gastar todas as maneiras possíveis de ser ridícula e que nenhuma força vital sobrasse em mim para implorar ao Romero Britto de macacão que ele voltasse. Eu não parava de pedir socorro e fiquei tão fronteiriça com a psicose que pedi meu analista e meu agente em casamento (na mesma semana). Até o dia que entendi que eu estava desse jeito por causa do fim do meu casamento de quase dez anos e não por causa do Romero Britto de macacão.

Romero Britto de macacão me dizia: “Eu não posso ser o primeiro homem depois da sua separação, isso não vai funcionar.” E ele estava certíssimo, achei que tinha sido um gênio ao me largar. Depois de um tempo, ele me contou que na verdade o que o fez desistir, no auge da coisa toda, foi uma “propensão sentimental” que descobriu que tinha e que apelidou de “histeria rebelde”. Pois bem, amigos. É isso. Eu me apaixonei perdidamente por um cara que padecia de algo que poderia ser tranquilamente o nome de uma novela do SBT.

 

O velho de guerra

Na sequência, comecei a papear com um fotógrafo de “áreas de conflito”. Um homem de 56 anos, com dois filhos pré-adolescentes e mais de setenta prêmios escondidos nas gavetas da sua enorme biblioteca. Maduro, macho e humilde. Desculpem usar a palavra “macho” aqui, mas este é meu diário e não posso mentir. Macho era exatamente o que eu pensava sobre ele. Guerras, pandemias, tiroteios em favelas, corredores da morte, cartéis mexicanos, máfias. Passei semanas vendo o Instagram do homem e sentindo um tesão louco. Eu, que tomo Rivotril para suportar os desgastes de uma ponte aérea, achei sinceramente que estava diante de um super-herói.

Nós nos encontramos algumas vezes, e o beijo era ótimo, mas ele não parecia interessado em transar. Dizia que sua libido estava em outro lugar. Eu pensava que era no trabalho e achava sexy – 90% da minha libido também está no trabalho. Achava que nos encontraríamos nos 10%, e que seria lindo. Um casal de amigos gays me garantiu que não era nada disso: “A libido dele provavelmente está no cu”, me disseram. Bem, eu estava tão encantada pela pulsão de morte daquele tiozinho desbravador, que pendurava no armário colete antibalas ao lado de ternos, que comecei a pesquisar onde comprar uma cinta-caralha e jamais desistir do amor.

Foi quando meu psiquiatra me alertou: “Pergunta qual antidepressivo ele toma.” E, sim, o velho de guerra tomava uma porradona química pra sair da cama, outra pra se manter fora da cama durante o dia e mais uma pra voltar pra cama. Perguntei se era isso, se eram os remédios. Ou se ele apenas não tinha tesão em mim, e tudo bem (tudo bem nada, eu queria comer aquele desgraçado). E ele me confessou: era tarado mesmo pelas “aluninhas” do curso de fotografia. Meninas com 20 e poucos anos. Tinha preferência pelas que chegavam bem caipirinhas e se deslumbravam demais com toda a sua sapiência. Mesmo eu sendo catorze anos mais nova que o senhor com consideráveis pelancas e rugas, me senti idosa e acabada. Me despedi dizendo que precisava ir para a guerra, aparentemente sem fim, contra o sexismo, o etarismo e outros “ismos”.

 

O intelectual tranca pau

Na sequência conheci um professor que já estava no segundo pós-doutorado e falava sete línguas. Ele se sentava daquele jeito de professor muito nerd mesmo, pernas cruzadíssimas para trancar o pau, para castrar qualquer intenção que não fosse a de ser excessivamente respeitoso e generoso e progressista e capricorniano. Confesso que achava isso lindo. Sua capacidade para uma troca quente de mensagens era tão deficitária que chegava a ser sexy. Eu dizia “sonhei com você” e ele respondia “eu também, estávamos na farmácia tentando comprar máscaras cirúrgicas”. E nisso acabava o assunto.

No dia seguinte eu tentava de novo: “Quando vamos nos ver?” E ele: “Assim que eu acabar essa tradução.” Quase sempre ele estava na página 20 de algo que tinha 567 páginas.

Na minha fantasia, ele era um homem que, após infinitas décadas enfurnado em livros e projetos de livros e uns cinco processos correndo na Justiça por difamação de políticos escrotos de direita (casos que ele transformaria em livros), o Intelectual Esmaga-Bolas ficaria tão excitado com a possibilidade de um sexo canalha, desasseado e fora da sua salinha universitária que abandonaria tudo e viraria um maconheiro, um dançarino de forró, um maluco vagabundo, acorrentado à minha cama por livre e espontânea vontade. Imaginava ele rasgando livros após três orgasmos seguidos. Gritando. Silenciando a Rua Mateus Grou com seu urro primal engarrafado há mais de quarenta anos. Eu tinha a missão de salvar aquele homem e faria de tudo para contar para as minhas amigas que ele falava sete línguas, mas gostava mesmo era da minha.

O máximo que eu consegui, depois de uma noite em que bebemos vinho, foi dar umas lambidas por cima da sua máscara, que ele levantava só pra bebericar com parcimônia, e já colocava de novo: “As aulas vão voltar ao presencial, eu não posso.” Com o logotipo da 3m todo babado, ele ficou em silêncio durante algumas quadras, enquanto eu o levava pra casa no meu carro. Até que teve um ataque de riso. Ele ria e ria e ria. E eu achei que era isso. Esse era o sexo. Desmontar aquele homem a ponto de levá-lo a um ataque de risos de tirar seu ar. Ficamos amigos. Hoje em dia ele tenta retomar alguma coisa sexual, alguma intenção daqueles dias, mas o bom de ser uma compulsiva por histórias é que gosto mesmo é de uma novidade.

 

O sequestrador de jardim da infância

Ele tem cara de que vai me pegar em casa com um Opala azul-claro, me acorrentar e me desovar no Jardim Guedala. Marcamos o date. Ele me manda um áudio, com voz trêmula, dizendo que a mãe não pode emprestar o carro. Nunca mais nos falamos.

 

O amor

Escrevo esse texto na manhã seguinte após ter dormido com você pela primeira vez. Eu não tenho nenhuma dificuldade para me apaixonar, depois da imensa dificuldade para encontrar alguém por quem me apaixonaria. Eu tenho 12 anos quando isso acontece, e há uma semana faço esteira chorando de emoção porque você existe.

Já senti isso outras vezes, mas, ao mesmo tempo, fico achando que nunca dessa forma (e já senti isso outras vezes também). Eu perguntei se existia ficar com alguém pra sempre e você me respondeu que “existe querer, e eu quero”. Achei uma boa resposta. Fiquei ontem vendo você andar pela minha sala e pensando que nunca vi nada tão bonito se mexer na minha frente, e olha que eu já observei as ondas num fim de tarde na Praia do Espelho. O tempo todo faço poesia mental (com a temática mar) sobre você. Seus olhos calmos, meu peito em arrebentações. Isso é brega, sei lá, mas a moça do feng shui e a moça do horóscopo chinês falaram tanto que eu precisava de água. Você banhou mil anos da minha secura. Eu fico brega, brega. Que delícia. A gente está na fase que conversa se beijando porque é impossível parar. Transa escovando os dentes porque é impossível parar. Faz sacanagem em meio aos sonhos, porque algo para além dos nossos corpos continua se querendo, mesmo quando a gente descansa.

A gente está na fase em que nenhum filme é bom, porque a gente não quer ver ou entender mais nada além de pintas e pelos. Eu quero ficar com você pra sempre. Por causa da sua mão que é mais velha do que você, por causa da sua “crítica à esquerda”, que sempre começa depois de seis horas do melhor discurso pró-esquerda que já ouvi, porque você tem mestrado em Marguerite Duras, mas manda música do Justin Bieber pra mim, de madrugada. Porque você tem um buraco no peito, um abaulamento sexy no esterno, um charme a mais do seu desenho perfeito. E eu tento enfiar minha cabeça ali. E a gente ri. Porque você fez uma listinha de “tudo o que eu quero fazer com você” no terceiro date e, ao lado de “espetáculo da dança”, você escreveu “contra a parede bem molhada”.

Eu sou tão tarada por você que no meio do dia, trabalhando aqui no meu escritório, me lembro do que sinto quando você chega perto, e preciso abaixar a cabeça na mesa, fazer uma espécie de caracol com o meu corpo, pra me conter e seguir com as tarefas do dia. Você derruba a minha pressão. Eu sempre acho que vou desmaiar quando estou com você. Quando nos falamos por telefone, no meio da tarde, eu sinto tanto desejo que me dá dor no saco. E eu não tenho saco. Aquela dor de “se não for agora eu vou morrer”. Você me dá pau duro no coração. Às vezes eu sinceramente acho que tenho um pau. Sim, estou na terapia há quinze anos.

Devo estar enganada. Provavelmente deve acabar em algumas semanas. Mas como disse uma das mulheres do golpista do Tinder, no documentário da Netflix: eu nunca vou deixar de acreditar no amor. E eu nunca vou deixar de acreditar num amor que dá vontade de transar o dia inteiro e morrer de mãos dadas daqui a 50 anos. Você me perguntou ontem como é meu nome inteiro. E eu não lembro o nome da sua mãe. A gente está louco de se gostar tanto? Isso provavelmente vai desandar? Você acordou agora. Acaba de entrar no meu escritório. Estamos começando o sexto date. Eu quero ficar com você pro resto da vida. Entro no Bumble pra cancelar minha conta. O aplicativo me pergunta: “Encontrou sua cara-metade?” Seja o que as deusas quiserem.

Tati Bernardi
Tati Bernardi

É escritora e roteirista, autora de Homem-Objeto e Outras Coisas Sobre Ser Mulher e Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha (ambos pela Companhia das Letras)

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