ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016
Grande Hotel Laid
Um lar na Cracolândia
Juliana Faddul | Edição 113, Fevereiro 2016
Quem passa pelo largo Coração de Jesus, em plena Cracolândia, no Centro de São Paulo, nem imagina que a casa pintada de verde, com gradil de ferro na frente, guarda, para quem quiser entrar e apreciar, mais de 350 quadros. “Adoro arte. Assim como os livros, que são alimentos para a mente, as pinturas são alimento para os olhos”, explica Maria Laide dos Santos Bueno, administradora do Hotel Laid, que funciona no local.
Antiga proprietária de um sebo na região da Paulista, Laide, uma senhora morena de porte mignon, sempre maquiada, há oito anos trocou a tranquilidade do comércio de livros usados pela gerência do estabelecimento, localizado no epicentro do “fluxo” – nome dado à aglomeração de dependentes químicos no momento do consumo de drogas. Em troca das vagas que oferece aos usuários de crack, o Laide recebe recursos do programa da prefeitura paulistana que pretende reabilitá-los por meio de trabalho remunerado, alimentação e moradia.
“Quando vim para cá, pensei em colocar uns cortinões nas paredes, já que pintar dá uma aparência de sujeira, e também muita despesa. Mas eu tinha tantos quadros que era uma judiação deixá-los guardados”, disse. A delicada e atenta curadoria do material exibido nos aposentos e corredores do hotel é eclética. Numa mesma parede há réplicas do modernismo brasileiro (Abaporu, de Tarsila do Amaral) e do Renascimento (A Última Ceia, de Leonardo da Vinci), naturezas mortas (como O Buffet, de Cézanne) e até uma adaptação livre do famoso coração multicolorido de Romero Britto.
Como num museu, o conjunto exposto sempre pode sofrer alguma alteração. “Alguns quadros sumiram, mas foram poucos”, comentou a proprietária. “E os hóspedes também me presenteiam com outros. Então fica tudo bem.” E onde os moradores conseguem as telas? Laide tem a delicadeza de não procurar saber a origem dos presentes que recebe.
Ao contrário de outros hotéis na região, cujo denominador comum é a impessoalidade, não é preciso passar muito tempo no Laide para se dar conta de que aquilo ali parece um lar. Assim como numa residência humilde, mas digna, os pequenos defeitos – portas que rangem, maçanetas tortas, vidros quebrados – são ofuscados por um sem-número de cuidados – flores artificiais, panos coloridos, enfeites de todo tipo.
O estilo do ambiente não é obra do acaso: ele é cuidadosamente pensado por Brenda, decoradora e braço direito da proprietária. “Morei na Europa, né, meu bem? Tenho bom gosto”, ela diz. A jovem, de 31 anos, limpa, organiza e decora o hotel. Mas cuida sobretudo do sossego de sua chefe. “Eu estou tentando sair completamente das drogas, e ela me deu oportunidade. Não só o emprego, ela me deu tranquilidade. Sou travesti, e as pessoas têm muito preconceito com a gente”, explicou a dependente de crack, que disse já ter conseguido passar longas temporadas longe do cachimbo.
“A gente, que se prostitui, precisa estar sempre alerta. Quando fui deportada da Itália, entrei numa depressão profunda e acabei me viciando”, contou. “Olha, a gente não pode se arrepender de nada, mas eu fico muito decepcionada comigo mesma. Vamos que vamos! Levanta o pezinho, princesa, que eu preciso passar pano aqui. Vamos, vamos.”
Com o hotel lotado (são sessenta hóspedes, distribuídos em quarenta quartos) e a certeza de que nem todos os moradores zelam pela higiene pessoal, o local recebe duas faxinas por dia. Laide pede apenas que a arrumadeira não mude muito a disposição dos móveis, já que dois dos hóspedes são deficientes visuais. José dos Santos França é um deles: um senhor negro, franzino, que perdeu a visão há quatro anos, devido a um glaucoma. É o morador mais antigo, há dezesseis anos no casarão. “Eu não posso sair daqui. Deus me deu uma missão: evangelizar as pessoas. Preciso pegar os nomes delas e orar. Se eu não fizer isso, ninguém fará por elas.” Simpático e conversador, ele se vale da memória para tentar salvar a alma dos companheiros – e de quem mais cruza o seu caminho. “Qual seu nome de novo? Vou orar por você também.”
O casarão onde funciona o hotel, construído em 1822, foi tombado como patrimônio histórico em 2013. Já abrigou barões do café. Quando passou às mãos da família de Laide, em meados do século passado, tornou-se uma recatada pensão para moças de família. Com o declínio do Centro, um novo público se formou, composto de imigrantes de todos os cantos do Brasil, que chegavam à capital paulista pela antiga rodoviária da cidade, não muito longe dali.
O declínio final do estabelecimento – e do bairro – se deu quando o fluxo dominou a área, prontamente batizada de Cracolândia. De todo modo, de vez em quando ainda aparece por ali um figurão. “O príncipe Harry veio nos visitar quando esteve no Brasil”, disse a proprietária. “Ele foi muito simpático, mas eu não sabia quem era aquele gringo, porque pessoalmente ele é muito diferente das fotos”, contou. A atriz Grazi Massafera e também Eduardo Suplicy já passaram por lá. “Tratei eles como trato os meninos daqui. Normal, ué.”
Tia Laide, como é mais conhecida, não é dada a sorrisos, a não ser quando o assunto é a “neta-filha”, Maria Paula. A pequena de 2 anos, a pele cor de canela e os olhos de jabuticaba, reside na Cracolândia desde o 22º dia de vida. Laide a considera um presente divino. Conta que sua nora teve um sonho, antes mesmo de conceber a criança, no qual Deus lhe dizia que iria engravidar, e que a menina, ao nascer, teria que ser criada pelos avós: Laide e o marido. E assim foi.
Com frequência o casal passeia com a pequena nas redondezas. Ao atravessar o fluxo com os avós, Maria Paula é uma espécie de Moisés de chupeta abrindo o mar Vermelho. “Esconde, esconde as pedras que o anjo está passando”, disse um dos usuários, numa tarde em janeiro, quando avistou o carrinho. Todos a admiram de longe, já que nem na loucura da droga eles se atrevem a tocar a pequena, que está sempre retribuindo os acenos e olhares com sorrisos e gracejos. Seu humor só se altera aí pelas três da tarde, hora do sagrado soninho diário.
