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A internação

    A escritora Helena Lahis: em vários aspectos, a vida dela hoje está pior do que era antes da­quela tarde de domingo em que foi le­vada para dentro de uma ambulância, de modo abrupto CRÉDITO: FE PINHEIRO_2025

anais da justiça

A internação

Como uma mulher apaixonada foi confinada, contra a própria vontade, em uma clínica psiquiátrica

Angélica Santa Cruz | Edição 223, Abril 2025

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Foram quase 100 minutos de puro constrangimento. Na noite de 12 de setembro do ano passado, dez conselheiros do Tribunal Regional de Ética Médica do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) se reuniram em sessão online para o julgamento do processo ético-profissional nº 2998/2022. Era o ponto final de uma investigação sigilosa que durou dois anos e se esparramou por um volume de mais de mil páginas.

A denunciada era a psiquiatra carioca Maria Antonia Serra Pinheiro. A autora da denúncia: a escritora Helena Tavares de Souza – que assina seus livros como Helena Lahis e teve dez minutos para fazer um inventário do que a levou a pedir a punição da psiquiatra.

Lahis contou que, além de escritora, é dona de uma editora de livros infantojuvenis, a Lago de Histórias, e professora em uma escola judaica no Rio. Em 2019, sofreu uma internação involuntária em uma clínica psiquiátrica particular da cidade. Na época, tinha 45 anos e suas duas filhas estavam com 14 e 19 anos. Ambas são fruto de um casamento que durou 24 anos com Paulo Henrique de Lima, presidente da Universal Music Brasil.

 

A escritora relatou que, à altura da internação, costumava encontrar a psiquiatra Serra Pinheiro e sua família com certa regularidade havia cerca de seis anos. As duas se conheceram por intermédio dos maridos, colegas de trabalho. Embora nunca tenham sido confidentes, a convivência entre elas era afetiva e amigável.

No dia 28 de setembro de 2019, Lahis pediu o divórcio. Três semanas transcorreram até que ela fosse internada contra sua vontade. A última semana antes da internação foi particularmente tensa. Nesse período, ela atribuía as “situações de agressividade” promovidas pelo ex-­marido ao desespero de alguém que era deixado depois de um casamento tão longo. Até que, disse ela aos conselheiros, Paulo Lima invadiu seu iPad, entrou em seu e-mail e encontrou conversas que ela manteve com Alexandre Barreto, com quem estava começando a se relacionar e é hoje seu atual companheiro.

Na tarde de 20 de outubro de 2019, um domingo, a escritora estava no apartamento onde a família morava, na Urca, quando viu Serra Pinheiro se aproximar, acompanhada de dois homens altos e corpulentos. Eram enfermeiros. (A psiquiatra entrou no apartamento com ajuda de Paulo Lima.) “O quarto onde eu estava era o último da casa. Eu não tinha como sair. Fiquei absolutamente rendida.”

 

Serra Pinheiro entrou no quarto e disse que estava ali para levar Lahis a uma clínica psiquiátrica – e que ela poderia escolher se iria por bem ou por mal. A escritora, atônita, perguntou o motivo da internação. A psiquiatra respondeu que levara em conta dois elementos: a leitura de suas conversas com Alexandre Barreto, que lhe foram mostradas por Paulo Lima, e as respostas de um questionário-padrão que apontavam “afirmativamente” para um quadro de hipomania – transtorno mental cujos sintomas são autoestima excessivamente elevada, agitação, aumento exacerbado de energia, de produtividade e de libido.

Lahis perguntou quem respondera ao questionário. Serra Pinheiro disse que fora Paulo Lima. Em seguida, pediu pressa, porque não tinha o dia inteiro. A escritora tentou argumentar. Contou que já era acompanhada por um psicanalista, Manoel Ribeiro Castro Sá. A psiquiatra respondeu que sabia disso e que ligaria para ele da clínica.

O celular de Lahis foi retirado. Os dois enfermeiros se aproximaram, um de cada lado. Quando sentiu que seria levada à força, a escritora pediu que ninguém tocasse nela. Naquele momento, relatou, ela se deu conta de que qualquer reação que demonstrasse – se chorasse, se gritasse, se esperneasse – faria com que fosse realmente considerada louca. Foi, então, conduzida a uma ambulância estacionada na porta de seu prédio. Como era domingo, não havia porteiro. Ninguém viu nada.

 

Lahis já estava dentro da ambulância quando Serra Pinheiro perguntou se ela queria sua companhia ao longo do trajeto. A escritora disse: “Precisa responder?” A psiquiatra se afastou. Lahis foi colocada em uma maca, deitada na ambulância, e presa a um cinto de segurança de três pontas. Pediu a um dos enfermeiros para que colocasse a maca de pé, e foi atendida.

Quando a ambulância chegou à clínica Espaço Clif, que funciona em um casarão no bairro de Botafogo, Lahis foi atendida pelo plantonista, um residente em psiquiatria, e passou por procedimentos de internação. Ficou nua, agachou três vezes, soprou um bafômetro. Teve os cabelos revistados, a bolsa recolhida. Foi mantida na clínica durante 21 dias. Passou todo esse período – como contou aos conselheiros – implorando por um diagnóstico, perguntando qual era a “sua loucura”.

Em 10 de novembro de 2019, ela deixou a internação. Conseguiu sair com a ajuda de uma psicóloga, mãe de uma adolescente internada na mesma clínica, que se declarou comovida com a situação da escritora e se ofereceu para levar uma carta para quem ela quisesse. Lahis escreveu para Alexandre Barreto, seu namorado, pedindo socorro. Foi libertada com um habeas corpus expedido pela Justiça. Na manhã do dia seguinte, foi a uma delegacia denunciar o ex-marido e todos os envolvidos em sua internação involuntária.

 

Quando o relato da escritora acabou, os conselheiros do Cremerj passaram a palavra a Maria Antonia Serra Pinheiro. Seguindo orientações de seu advogado, Alexandre Lopes, a psiquiatra não fez suas alegações pessoalmente. O advogado falou em seu lugar, também por dez minutos. Argumentou que a cliente não fora a responsável pela internação, mas apenas ouvira a descrição feita pelo amigo Paulo Lima, confirmada pela filha mais velha, e suspeitara que Lahis estava com um quadro de bipolaridade hipomaníaca causada por remédios para emagrecer. Por isso, sugerira que ela fosse levada a uma clínica para passar por uma avaliação e fora pessoalmente para ajudar na remoção.

Terminadas as alegações, os conselheiros do Cremerj iniciaram uma batelada de perguntas que desenharam a seguinte paisagem: pode uma psiquiatra colocar uma amiga da família em uma ambulância, em plena tarde de domingo – o que pressupõe emergência absoluta – e ajudar a despachá-la para uma clínica, sem antes examiná-la? Pode tomar essa iniciativa com base no relato de um marido em fase de separação e que havia lido uma troca privada de mensagens entre a mulher e seu namorado? E, mais importante: a escritora seria de fato internada sem essa participação ativa de Serra Pinheiro?

À medida que as perguntas eram respondidas, o clima foi esquentando. Um dos conselheiros comentou: “Não sei como a denunciante se recuperou disso…” Outra conselheira foi mais longe: “Me parece que estou vendo uma versão no século xxi do que nós sabemos que foi muito comum nos séculos passados. A condição da mulher ser sempre questionada, com sanidade ou não, quando não atende às expectativas do homem ao seu lado. Essa alegação de insanidade sempre foi muito útil ao longo dos séculos para fazer exatamente isso: apartar as mulheres do convívio com a sua família, com a sociedade, independente da sua vontade […] Fico estarrecida de ter ouvido um relato como esse. […] E lamento que isso ainda tenha tido a participação de outra mulher.”

A psiquiatra foi condenada. Com base na lei nº 3268/57, acabou punida por infringir os artigos 5º e 80º do Código de Ética Médica – ou seja, por “assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não participou” e por “expedir documento médico sem ter praticado ato profissional que o justifique, que seja tendencioso ou que não corresponda à verdade”. Recebeu a pena prevista no artigo 22, alínea b: “Censura confidencial em aviso reservado.” Na língua dos leigos, foi pouco mais do que um puxão de orelha, uma punição branda em que o médico recebe apenas uma advertência em sua ficha no Cremerj. E, por ser confidencial, ninguém de fora da instituição deveria ficar sabendo de sua existência.

Os médicos que participaram do julgamento discutiram não exatamente se Lahis tinha um diagnóstico, mas se Serra Pinheiro poderia ter atuado da maneira como atuou. A relatora do caso, uma neurocirurgiã, concluiu que a médica não emitiu laudo que justificasse a internação e votou pela absolvição. O voto divergente, proferido por uma pediatra e seguido pelos outros oito conselheiros, considerou que “as declarações verbais dos médicos são revestidas de fé pública, equivalente, neste caso, à força de uma declaração por escrito”. E que as iniciativas de caráter profissional de Serra Pinheiro – a opinião sobre o diagnóstico e as idas até a clínica, primeiro para ajudar a explicar o caso para o plantonista e ver se havia vaga, depois para acompanhar a entrada da escritora – “foram suficientes para garantir que todo o planejamento das ações referentes à remoção e internação da sra. Helena se concretizassem”. Foi ainda mais longe. Afirmou que a psiquiatra “não consignou por escrito nenhuma das etapas de sua atuação médica, a fim de não subsidiar prova contra si mesma em provável processo ético-profissional futuro”.

Dois meses depois, Serra Pinheiro recorreu da decisão ao Conselho Federal de Medicina (CFM). Na tarde de 6 de março passado, quinta-feira depois do Carnaval, cinco conselheiros da Câmara Técnica de Psiquiatria da entidade se reuniram, de novo em uma seção online. Dessa vez, o julgamento foi rápido – não teve nada que lembrasse o debate indignado que o tema provocara no Cremerj. A própria Serra Pinheiro falou em sua defesa. Argumentou que, ao ouvir o relato de Paulo Lima, ela enxergara sinais de hipomania no comportamento da amiga, fizera a sugestão de que ela fosse analisada em uma clínica e, por isso, foi ao apartamento dela para acompanhar a remoção. Discorreu sobre sua reputação profissional, lembrou que nunca respondera por um processo ético e pediu que os colegas se colocassem em seu lugar. E, no final, usou um argumento surpreendente: o de que, apesar de sua participação ter se encerrado quando Lahis chegou à clínica, ela é a única, dentre todos os médicos envolvidos na internação, que está respondendo por isso – provavelmente porque é a única mulher.

O relator, um psiquiatra, lamentou pelo episódio e disse que percebe o mal que o caso fez a todos os envolvidos. Considerou que Serra Pinheiro fora engolfada por uma briga familiar e disse que não percebeu em suas atitudes sinais de infringência disciplinar. Pediu a sua absolvição. Um voto divergente, dado por uma clínica geral, afirmou que Serra Pinheiro de fato não poderia ser condenada por um laudo que não emitiu, mas manteve a conclusão do Cremerj de que Helena Lahis não teria sido internada se não fosse pela participação ativa da psiquiatra. Por isso, pediu a manutenção de sua condenação.

Serra Pinheiro, dessa vez, foi absolvida, por 4 votos a 1.

Os julgamentos no Cremerj e no CFM podem ter repercussões em outro processo, agora penal, que já chega a 3 mil páginas. Nele, Paulo Lima, o ex-marido de Lahis, é réu pelo crime de “privar alguém de sua liberdade mediante sequestro ou cárcere privado” e pelo delito de “invasão de dispositivo automático”. Serra Pinheiro responde por cárcere privado. Gabriel Bronstein Landsberg, ex-diretor técnico da clínica Espaço Clif, também integra o rol dos denunciados. Ele pediu que Lahis, antes de deixar o local, assinasse uma declaração de internação voluntária. Responde por fraude processual, por tentar forjar uma internação consentida para se livrar de eventuais enroscos na Justiça.

Os três foram denunciados em agosto de 2023 pela 2ª Promotoria de Investigação Penal de Violência Doméstica, do Ministério Público do Rio de Janeiro. O processo corre em segredo de Justiça no Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Os réus já apresentaram suas defesas. Agora cabe à juíza decidir pela absolvição sumária de todos ou pela continuidade do processo, chamando outras audiências.

 

Helena Lahis e o escritor Alexandre Ferreira Barreto se conheceram em uma oficina de texto na editora Lago de Histórias. Em setembro de 2019, começaram a trocar mensagens sobre literatura e métodos de escrita. Em apenas três dias, a coisa evoluiu para uma paquera epistolar e, em seguida, escalou para uma troca de mensagens feérica. Eles consideram como marco zero do namoro o dia 23 de setembro, quando trocaram o primeiro beijo, depois de um evento de contação de histórias. Paulo Lima estava em uma viagem de negócios aos Estados Unidos, representando a Universal Music Brasil. Retornou ao Rio em 27 de setembro. Na tarde do dia seguinte, a escritora pediu o divórcio.

Lahis e Lima passaram a dormir em quartos separados no apartamento na Urca, enquanto ela procurava outro lugar para morar com as duas filhas. Começou então a “terceira guerra mundial”, na definição dela, porque tanto o marido quanto a família dela reagiram mal à ideia da separação e à relação com Barreto. As conversas por Whats­App que explodiram os níveis de tensão aconteceram entre os dias 6 e 11 de outubro de 2019. Quando o ar começou a ficar rarefeito em casa, Lahis apagou os diálogos do celular. Mas resolveu salvá-­los em um arquivo, para usar depois como material de escrita, e mandou para o próprio e-mail. Em sua defesa, Paulo Lima diria depois que encontrou tudo sem querer, no dia 15 de outubro, quando pegou um iPad que emprestara à sua mulher e acessou a conta da editora Lago de Histórias, da qual era sócio, para checar pendências financeiras. A escritora afirma que ele bisbilhotou o iPad pessoal dela e testou combinações de senhas até conseguir abrir seus e-mails.

Os diálogos entre Lahis e Barreto são um típico enamoramento online, madrugadas adentro e manhãs afora. Ali aparecem declarações arrebatadas, passagens picantes, combinações de programas, trocas de arquivos de músicas, opiniões sobre textos escritos por ambos, piadas infames. Barreto faz comentários cabeçudos sobre Hegel e a linha do tempo da filosofia. Lahis envia um poema erótico que escreveu pensando nele. Barreto se empolga: “Minha personal pombagira, deusa suprema soberana donation do além céu.” Ele usa emojis de diabinhos. Ela, de sorrisinhos.

As filhas já sabiam do divórcio, e Lahis queria começar a falar de Barreto para elas. No dia 8 de outubro, a escritora disse ao namorado que revelara à filha mais velha que “gostava dele” e que, juntas, viram vídeos em que ele fazia comédia stand-up, uma das atividades dele na época. Contou que a filha reagiu bem: “Adorou você, completamente.” Barreto, surpreso, comentou: “Porra, dá logo um tiro no céu da boca do Paulo. O maluco vai pular do vão central.” Lahis perguntou como é fumar maconha, e se poderia causar depressão. Ele respondeu que o efeito “não dá grandes alterações existenciais”. Os dois combinaram de se encontrar na Central do Brasil e, de lá, ir ao culto de uma igreja evangélica.

Para a escritora, era um transe febril e privado de casais apaixonados, um idioma próprio recheado de piadas internas e até de experimentações literárias. Para Paulo Lima, era mais uma prova de que Lahis estava fora de si – e de que ele deveria agir para fazê-la voltar a ser quem era antes.

Quatro dias antes da internação, Lahis comia uma pizza com Barreto, depois de uma oficina literária, quando recebeu uma mensagem de Paulo Lima. Ele avisava que trouxera a mãe dela, Maria Luiza Baumgarten, e a irmã de criação de Lahis, Leomar, que moram em Petrópolis, para participar de uma conversa no apartamento da Urca sobre o inventário da família. A escritora estranhou e respondeu: “Ah… pelo amor de Deus.”

Quando chegou em casa, ela encontrou o que costuma definir como “julgamento”. Diante da mãe e da irmã, Paulo Lima comentou em voz alta trechos dos diálogos por WhatsApp entre Lahis e seu namorado. A escritora afirma que Lima se deteve em palavras como “pombagira” e “maconha” e deu ênfase às passagens picantes. Declarou que a ex-mulher estava sob o domínio de espíritos malignos e que o novo namorado era um homem diabólico que a levou a beber, a se drogar, a falar frases sexualizadas sobre a filha mais velha e tramar sua morte, como indicariam expressões como “tiro no céu da boca”.

Lima e Lahis discutiram. A mãe e a irmã passaram a noite no apartamento e, na manhã seguinte, já de volta a Petrópolis, enviaram mensagens por WhatsApp que atestam a alta voltagem do encontro na Urca. A piauí teve acesso aos áudios. Confrontada por Lahis por ter aceitado participar da reunião, Maria Luiza Baumgarten disse:

[Foi] Pra te preservar, porque eu tive muito medo. Imagine se eu não estivesse lá. Ele estaria esperando você desde sei lá que horas, você chegou quase [às] duas. Deus me livre, eu não sei nem o que poderia acontecer, porque você sabe bem como ele é estourado. Ele é nervoso, ele tá mordido, se sentindo traído, tá doendo nele, porque ele te ama de verdade.

A mãe também reclamou que a filha reagiu à exposição dos e-mails, feita pelo marido, com ironia. Em outro áudio, a irmã a aconselhou a levar a filha mais nova para dormir no seu quarto.

Aí ele vai respeitar, né? […] Então você toma cuidado. […] O Paulo, quando tá nervoso, fica violento. Você sabe melhor que eu.

Na noite de 18 de outubro, dois dias antes da internação, Lahis pediu que sua sessão de análise com Manoel Ribeiro Castro Sá fosse realizada online. Psicanalista e psiquiatra, ele a atendia havia três anos e já tratara dela em 2003, em um episódio de depressão pós-parto, quando ela precisou ser medicada durante quatro meses. Castro Sá mora e atende em Petrópolis. No meio da conversa feita por Messenger, ele comentou que naquela tarde fora procurado em seu consultório pela mãe de Lahis, que queria lhe mostrar as conversas da filha com o namorado por WhatsApp. O psicanalista já sabia do clima tenso na família e da exposição dos diálogos. Respondeu que não iria devassar a vida de sua paciente e que não havia nada de errado com ela – pelo contrário, Lahis estava em um processo “bonito de empoderamento”. A mãe foi embora dizendo: “Não se meta com a minha família.” Tempos depois, quando o caso foi parar na Justiça, o psicanalista diria em depoimentos que a mãe de Lahis também reclamou que a filha estava se drogando e correndo riscos.

No sábado, um dia antes da internação, Paulo Lima encontrou dois casais de amigos. Mostrou a eles o arquivo das conversas no WhatsApp. As duas amigas que participaram da conversa prestariam meses depois depoimentos por escrito e registrados em cartório, anexados aos processos judiciais.

A publicitária Marcela Mahfoud foi uma delas. Em 29 de setembro de 2020, um ano depois da internação, ela escreveu que Paulo Lima apareceu em sua casa “visivelmente transtornado”. Ele falava de modo apressado, não queria ser interrompido. “Percebemos uma inquietação mais do que o normal e uma necessidade de confirmar que Helena estava doente. Para isso, nos apresentou teses que por ele já estavam confirmadas. Uma, que o demônio e a pombagira estavam incorporados em Helena, e a outra linha da doença (já diagnosticada por ele) era uma dupla personalidade causada por medicamentos para emagrecer.” Mahfoud ainda relatou que Paulo Lima dizia já ter “tomado as devidas providências e, através de seus ‘guias espirituais’, estavam todos desfazendo esse ‘trabalho de macumba’ e que ‘o amor dele era mais forte para ele salvar Helena’”. A descrição prossegue: “Paulo, em dado momento, disse que precisaria internar Helena, que não teria outro jeito do mal ficar longe dela.”

A psicóloga Bianca Toledo Trufelli, a outra amiga que participou do encontro, escreveu seu depoimento em 28 de setembro de 2020. Disse que Paulo Lima “relatou que precisava de nossa ajuda com orações e energia positiva, pois Helena estava doente e sob influência espiritual maligna. Disse que procurou um pai de santo famoso no Rio de Janeiro e outro na Bahia, que, segundo ele, confirmaram essa questão”. E completou dizendo que Paulo Lima comentara “que [Helena] estava se arriscando, andando em bairros do subúrbio e que até havia bebido caipirinha na Central do Brasil. […] Disse-nos ainda que achava que nossa amiga estava doente, com alguma questão psiquiátrica e que podia ser sequela do uso dos medicamentos para emagrecer, nos chamando atenção para a recente perda de peso dela e mudança de comportamento, em especial em sua escrita, que deixou de ser voltada ao doce universo infantil e passou a ser sobre coisas do cotidiano adulto”.

Os dois casais se alarmaram com o estado de frenesi que Lima demonstrara no encontro de sábado, repetindo que Lahis precisava “voltar a ser o que era antes”. Ficaram mais tranquilos, no entanto, quando ele contou que na manhã seguinte procuraria a psiquiatra. “Imaginamos que [Serra Pinheiro] iria explicar com mais recursos científicos […] que pessoas mudam, que de fato aquela não era mais a Helena ‘de Paulo’ […] que talvez tudo que ele via naquele momento, muito mais que preocupação e proteção, podia ser sentimento de posse, orgulho ferido e incapacidade de deixar ir”, relatou Trufelli.

No mesmo sábado, dia 19 de outubro de 2019, Lahis concluía um dia inteiro de eventos literários em sua editora. Autores que lá estiveram testemunhariam depois, também por escrito. Segundo disseram, a escritora estava articulada, calma e feliz, porque dali a alguns dias lançaria seu primeiro livro de literatura adulta, chamado Amores virados pra cá, escrito em coautoria com a amiga Isabelle Borges. “Ela se comportou como sempre à frente de todas as atividades: dinâmica, amiga e, até o momento em que estive em sua companhia, às 19h30, absolutamente tranquila”, descreveu o escritor Luís Pimentel.

 

A lei 10216/2001, que ficou mais conhecida como Lei Antimanicomial, organiza os tipos de internações psiquiátricas e estabelece os direitos das pessoas com transtornos mentais. De acordo com o artigo 6º, a internação involuntária, como qualquer outra, só pode ser feita com laudo médico que a justifique – e com a descrição detalhada dos motivos. E mais: só é indicada quando todas as alternativas extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. Ou seja, quando não houver mais nenhum recurso – nem remédio, nem terapia – capaz de ajudar o paciente.

O artigo 31 da Resolução n° 2057/2013 do CFM detalha esses procedimentos. Diz que um paciente com doença mental só pode ser internado de forma involuntária se apresentar uma das seguintes condições de emergência médica: “Incapacidade grave de autocuidados, risco de vida ou de prejuízos graves à saúde, risco de autoagressão ou de heteroagressão, risco de prejuízo moral ou patrimonial ou risco de agressão à ordem pública.”

Quando, na manhã do domingo da internação, Paulo Lima procurou Maria Antonia Serra Pinheiro no apartamento em que ela mora com a família, em Copacabana, relatando mudanças no comportamento da ex-mulher e, de novo, mostrando as conversas dela por WhatsApp, a psiquiatra entendeu que Lahis estava em “risco de prejuízo moral”. Concluiu que a amiga exibia sinais indicativos de um quadro de hipomania, possivelmente causado por medicamentos para emagrecer. Lahis estava na reta final de um tratamento que a levara a perder 20 kg em quase três anos. Seguindo orientações de um endocrinologista, fizera uso dos remédios cloridrato de bupropiona, sibutramina, orlistate e semaglutida, em momentos diferentes, conforme o médico ajustava o tratamento. Bupropiona, um antidepressivo, e sibutramina, um inibidor de apetite, podem provocar viradas maníacas, especialmente em quem tem bipolaridade.

Em depoimento por escrito prestado mais tarde, a psiquiatra diria que os sinais que apontavam para esse diagnóstico seriam a “redução acentuada de necessidade de sono, aumento significativo de produtividade, especialmente textual, sugerindo aumento de velocidade de pensamento, aumento de libido, engajamento em atividades de risco e falta de percepção desses riscos”. E explicou: “Reduzir a possibilidade de que ela se comportasse fora do padrão aceito por si – e lamentasse profundamente as consequências futuramente – levou a que eu sugerisse que Helena fosse conduzida a uma clínica psiquiátrica para avaliação e provável internação. Internada, as medicações para emagrecimento que ela estava tomando e que provavelmente eram desencadeadoras do quadro seriam suspensas, e se garantiria a ingesta de medicações para reversão da hipomania em algumas semanas.”

Naquele mesmo domingo, pela manhã, Serra Pinheiro foi à clínica Espaço Clif, junto com Paulo Lima, para perguntar se havia vagas disponíveis e pedir orientações sobre como levar a escritora até lá. Foram recebidos por Silas Ferreira Barbosa, na época residente em psiquiatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), convocado para cobrir o plantão dominical de outro médico – função chamada de “coringa”, no jargão dessa área profissional. O plantonista ouviu a suspeita de diagnóstico e explicou que, no caso de internação involuntária, seria preciso usar uma ambulância.

Helena Lahis foi, então, removida – sem ter ideia de aonde seria levada. Paulo Lima e Serra Pinheiro seguiram para a clínica em outro carro. Ele, aos prantos. No caminho, a psiquiatra telefonou para Manoel Ribeiro Castro Sá, o psicanalista de Lahis, e avisou que estava pensando em interná-la. Castro Sá não conhecia Serra Pinheiro e ficou surpreso com a notícia. Desconfiado, por causa do clima de guerra na família de Lahis, perguntou se a psiquiatra tinha algum contato com o marido da escritora. Ela respondeu que estava ao lado de Paulo Lima. O psicanalista avisou que não concordava com a internação e que preferia não conversar. Serra Pinheiro perguntou se ele toparia falar com um psiquiatra da clínica. Castro Sá respondeu que sim.

 

Em uma tarde de novembro do ano passado – depois do julgamento do Cremerj e antes da sessão do CFM –, a psiquiatra Maria Antonia Serra Pinheiro conversou com a piauí, no escritório de uma amiga dela, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que deu entrevista sobre o episódio. Contou que tinha uma relação próxima com a família de Lahis e que as duas se tratavam por apelidos usados por seus parentes e amigos: Nena e Tota, respectivamente. A psiquiatra tem quatro filhos, dos quais três são meninas. Seu filho fez o ensino médio com a filha mais velha da escritora.

Cinco anos depois do episódio, a médica disse que não se lembra de ter percebido em Paulo Lima uma disposição anterior para internar a ex-mulher, de ter recebido qualquer sugestão de diagnóstico ou ter notado nele intenção de evitar o divórcio. Afirmou que o recebeu apenas como um amigo que se mostrava muito aflito com as mudanças no comportamento de Lahis – alterações também perceptíveis para outros membros da família dela, como a filha mais velha e a mãe.

Serra Pinheiro tem mestrado e doutorado em psiquiatria e saúde mental pela UFRJ, onde também se formou. “Com meus 28 anos de prática, com meu conhecimento, com a minha boa reputação, me sinto violentada de cogitarem que posso ter sido um joguete para ajudar alguém a fazer uma coisa burra pra caramba, que seria internar uma pessoa que estivesse sã pra ela não se divorciar. Não se trata disso. Não tem nada a ver com a questão do divórcio”, disse. Mostrou-se indignada com os termos da denúncia feita contra ela no Cremerj pela defesa de Lahis. O texto a acusava de ter emitido um laudo falso, afirmando que a escritora estaria “possuída pelo demônio e precisaria ser internada por estar perturbada mentalmente”. Serra Pinheiro protestou: “Imagina, uma psiquiatra ser acusada de dizer que uma pessoa estaria endemoniada!”

Ela descreveu a remoção de Lahis: “Falei para o Paulo: ‘Acho que ela deve ser levada para uma clínica. E a clínica Clif, para onde ela foi levada, é referência no Rio de Janeiro, não é o sanatório de Barbacena.’” Prosseguiu: “Pensei: ela é minha amiga, vão chegar lá os técnicos de enfermagem, conduzi-la para a ambulância, que coisa chata. Se estou achando que tem uma questão, deixa eu subir e ver. Tentei ser o mais seca possível, não queria que tivesse discussão naquela hora. Ela morava num prédio com oito apartamentos, iria voltar, aquilo era uma coisa cíclica, que iria passar.”

A psiquiatra completou: “Helena disse que queria ligar para o médico dela. A minha informação era que ela não tinha atendimento regular, que existia alguém que tinha tratado dela quando sofreu uma depressão pós-parto vinte anos atrás e que, não tenho certeza, prescrevera lítio, uma medicação para doença bipolar. Então falei: ‘Olha, agora a gente vai para a clínica, depois a gente vê isso.’”

Com os caminhos que o caso seguiu, ela reavalia: “Vi na minha amiga sinais que me deixaram muito preocupada. Avisei desses sinais, disse que eu não podia acompanhar [o tratamento médico] e tentei ser solidária com a internação. Essa última parte, obviamente, eu não devia ter feito, devia ter deixado. Podia ter dado a minha opinião; ela teria sido levada à clínica do mesmo jeito e nem saberia que eu estava participando. Quis subir para que ela não passasse por aquilo sozinha.” Acrescentou: “Eu gostaria que nada disso tivesse acontecido, para todos os lados. Essa história me traz muita dor, quis ajudar alguém de quem eu gostava.” E, por fim, criticou o julgamento do Cremerj: “Foi uma palhaçada; muito pouco qualificado.”

 

A história da internação involuntária de Helena Lahis foi definida de maneira alegórica por uma das advogadas que a defenderam ao longo desses cinco anos: é como uma sinopse de Manoel Carlos que se misturou a um enredo, cheio de repercussões judiciais, escrito por Gilberto Braga. Lahis sempre transitou entre a cidade de Petrópolis, onde nasceu, e a Zona Sul do Rio de Janeiro, onde trabalhou por décadas e criou suas filhas, daí a analogia com as Helenas de Manoel Carlos. Formada em pedagogia e professora do ensino básico, Lahis tem 51 anos e modos delicados. Quando solta um ou outro palavrão, isso não parece especialmente desbocado ou ofensivo. É eloquente – enquanto fala, vai tirando do ar, rapidamente, diferentes maneiras de se expressar.

Quando, naquela tarde de domingo, foi retirada do apartamento em que morava com a família, percebeu que estava numa situação sem volta. “Ali, dentro da ambulância, eu já pensei: ‘Cara, já era… Agora eu ganhei um carimbo. Isso não podia ter acontecido, isso é desumano e isso não pode ficar assim’”, disse ela à piauí, na Lago de Histórias, uma casa com paredes pintadas de amarelo, portas rosa-choque e quintal grudado no Morro do Pão de Açúcar, na Urca. Ainda assim, ela achava que, se conseguisse manter certa calma, poderia contar o que estava lhe acontecendo e voltar rapidamente para casa.

Aconteceu tudo menos isso.

A ambulância chegou à clínica Espaço Clif às 14h44. No relatório de anamnese, obrigatório nas internações, o então plantonista Silas Barbosa anotou: “Esposo relata que paciente decidiu por se separar, de forma impulsiva, imediatamente informando as duas filhas do casal, e tem tido mudanças na forma do agir como, por exemplo, dormindo pouco, com excessiva produtividade na escrita: ‘escreve dia e noite, às vezes deixa de tomar café’, deixando filhas sozinhas sem dar notícia conforme fazia sempre […]. Afirma que a paciente, que sempre escreveu histórias infantis, após o falecimento do pai passou a redigir histórias para adultos, com temas que envolviam a vida e a morte. Além de ter escrito alguns contos com conteúdo sexual. Iniciou novo relacionamento, logo após término com o marido, com quem relata ter grande afinidade.”

Na hipótese diagnóstica, escreveu: “Hipomania? Reação aos estresses da vida? Induzida por substância (bupropiona + sibutramina)?” No motivo da internação, colocou: “Risco para si com alterações da personalidade.” No campo em que precisava justificar a internação involuntária, preencheu: “Alteração no humor prejudicando decisões, com necessidade de monitoração.”

Em depoimento que prestaria mais tarde, Barbosa disse que Lahis “estava calma e colaborativa, com o juízo de realidade preservado” e que “no dia chegou a pensar na possibilidade de sugerir que a paciente concordasse com a internação voluntária, que ficou com essa dúvida. Mas acabou não fazendo a proposta”.

Paulo Lima assinou a declaração de autorização de serviços médicos prestados pela clínica. Contratou para a mãe de suas filhas um apartamento privativo com banheiro individual e sistema de refrigeração, com diária de 970 reais. Liberou o uso da cantina e da lavanderia (14 reais por peça de roupa, 12 reais por peça íntima). Com o passar dos dias, a escritora chegou a pedir por outros itens permitidos no lugar, como aluguel da televisão. Soube que o ex-­marido não autorizara.

O contrato, em duas vias, foi assinado por Lima e duas testemunhas: uma funcionária da clínica e a psiquiatra Serra Pinheiro. Enquanto isso tudo se desenrolava, Lahis dizia para o ex-marido: “Você sabe que isso não vai ficar assim, né?” Ele não respondia.

Como se declarou impedida de acompanhar o caso, por causa de sua proximidade com a família, Serra Pinheiro indicou um antigo professor dela na UFRJ. O médico, por sua vez, passou o nome de um colega, Leonardo Lessa Telles – também conhecido na universidade, onde fez residência em psiquiatria e psicogeriatria e integra o Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Quando soube que um psiquiatra logo chegaria, Lahis se tranquilizou. “Ele me ouviria contar o que vinha acontecendo comigo, telefonaria para o psicanalista que me acompanhava, saberia do tumulto que a minha separação e minha relação com Alexandre estavam causando na minha família, veria que eu não tinha nenhum diagnóstico de problemas mentais. E, beleza, tudo seria esclarecido”, diz ela.

Leonardo Lessa chegou à clínica duas horas depois da internação. A escritora achou por bem narrar sua história, desde o começo.

 

Contou que nasceu em Araras, um distrito de Petrópolis, em uma família de cinco irmãos. “Sempre fui muito paparicada, a filha bonitinha que todo mundo acha o máximo tudo o que faz”, disse à piauí, ao reconstituir o que descreveu ao psiquiatra. Paulo Lima era amigo de seu irmão mais velho, ambos engenheiros de som que trabalhavam no mesmo estúdio de gravação, no Rio. Certo dia, o irmão fez um churrasco e Paulo Lima foi convidado. Ele tinha 20 anos, ela estava com 17. Os dois começaram uma paquera. Lima tinha uma namorada no Rio, onde morava. Ao sair do churrasco em Araras, foi direto à casa dela, para terminar a relação. Planejava voltar correndo para ver Lahis. Mas pegou uma pneumonia, que virou tuberculose. Só retornou dois meses depois, e passou a ir a Petrópolis todo fim de semana, hospedando-se sempre na casa da família da escritora. A intimidade se ampliou, a mãe dela passou a se referir a ele como seu “sexto filho”. Ele passou a chamar a sogra de “tia”.

Lima foi o primeiro namorado de Lahis. Quando ela completou 21 anos, em 1995, os dois se casaram. Cinco anos depois, nasceu a primeira filha. A escritora teve depressão pós-parto, aquela tratada pelo psiquiatra e psicanalista Manoel Ribeiro Castro Sá. Em 2002, ela fez sua primeira tentativa de se separar, depois de se apaixonar por um professor, seu colega de trabalho em uma escola em Botafogo. “Eu tinha 27 anos. Estava amadurecendo, virei uma mulher… Pedi o divórcio, foi um caos. O Paulo dizia que, se me separasse, ia tirar a minha filha de mim, porque eu não conseguiria sustentá-la com meu salário de professora”, contou. “Eu me lembro dele deitado no colo da minha mãe, e ela fazendo cafuné nele para consolá-lo. A família inteira começou a me pressionar. Falavam de uma macumbeira de Araras que tinha prometido destruir a família do meu pai – e ouvi várias vezes que o trabalho pegou em mim, porque eu tinha a cabeça fraca e deixava os pensamentos entrarem. A certa altura me levaram para fazer uma limpeza com uma mãe de santo em Paquetá.”

Ela foi se convencendo de que estava totalmente errada. “Se continuasse separada, mereceria ficar sem dinheiro, sem filha, sem família. Pensei: não consigo sustentar isso, vou voltar para o casamento. E foi o que fiz. Fiquei empenhada: vou ficar boazinha, vai dar certo, eu vou amar o Paulo. O ano letivo acabou, pedi demissão da escola e sumi de repente da vida do professor por quem estava apaixonada. Troquei até de telefone”, recordou. Três anos depois, Lahis e Paulo Lima tiveram a segunda filha.

Em 2014, aos 40 anos e duas filhas, ela começou a escrever com mais frequência, enquanto dava aulas no Colégio Santo Inácio, a nova escola onde se empregou, também em Botafogo. Diz que, graças à escrita, sua maneira de olhar o mundo sofreu uma mudança radical. Participou de oficinas literárias, passou a conviver com escritores e roteiristas, e estreou na literatura infantojuvenil. Em 2016, com investimento de cerca de 450 mil reais, feito por Paulo Lima, abriu a editora Lago de Histórias. Três anos depois, se aproximou de Alexandre Barreto. “Foi uma troca intelectual do tipo que nunca tinha vivido antes”, disse.

O psiquiatra Leonardo Lessa esperou que ela terminasse sua história. Ao final, disse que, como já era noite, lhe daria um comprimido para dormir e voltaria no dia seguinte, quando veriam o que fazer. De acordo com o que disse o plantonista Silas Barbosa em depoimentos na Justiça, Lessa e ele concluíram que era “difícil chegar ao diagnóstico, pois havia histórico de depressão pós-parto e uso de medicamentos que causam dúvida se a paciente apresentava hipomania medicamentosa ou reativa à situação e que precisariam fazer acompanhamento”.

Castro Sá, o psicanalista de Lahis, declararia depois, também em depoimentos, que Lessa lhe telefonou, identificou-se como médico responsável pela escritora e afirmou que, a princípio, não havia encontrado motivo para mantê-la internada. Mas que, a fim de se resguardar, gostaria de fazer uma junta médica – e perguntou se ele gostaria de participar. Castro Sá se disse impedido e deixou claro que não concordava com a manutenção dela na clínica. Combinou com Lessa que mandaria uma declaração de que Lahis não apresentava transtorno mental que justificasse uma internação involuntária.

Oito dias depois da internação, em 28 de outubro de 2019, Castro Sá enviou a declaração. Como Lessa não respondeu, mandou uma mensagem no dia seguinte, por WhatsApp, às 14h11: “Leonardo, bom dia. Enviei ontem declaração de Helena. Recebeu? Alguma notícia? Sei que é complicado, mas também é perigoso mantê-la sob internação a despeito da pressão familiar.” Sem resposta, insistiu, às 21h44: “Obrigado pela atenção. Um abraço grande.” Às 21h45, Lessa disse: “Boa noite. Recebi e estive com ela. Mas espero que entenda que a resolução desse impasse não passa apenas por mim.” Às 22h06, Castro Sá escreveu: “Entendo, em parte. A paciente está sob sua responsabilidade. E a decisão é sempre do médico responsável a despeito das pressões que sempre sofremos dos familiares. Por favor, entenda como uma conversa amigável. Acima de tudo nossa preocupação é com a saúde mental dos pacientes sob nossos cuidados e responsabilidades. E tenho certeza de que você está buscando fazer o melhor por ela. Um abraço grande e carinhoso.” Lessa ficou em silêncio.

A essa altura, Lessa já havia chamado outro psiquiatra, Leonardo Fernandez Meyer, seu amigo de longa data, para avaliar a escritora. Meyer é psiquiatra clínico do Instituto de Psiquiatria e coordenador do programa de residência médica e da pós-graduação de psiquiatria forense da UFRJ, além de perito do Tribunal de Justiça do Rio. Ele conversou por uma hora com Lahis e achou que havia indicação para internação. No dia seguinte, mandou mensagem para Paulo Lima dizendo: “A situação é complexa, mas se resolverá. Ela está com um excelente profissional.”

Em depoimento, Meyer diria depois que esse tipo de análise clínica é feito com base em um tripé: relato dos familiares, avaliação presencial e estudo de prontuários. Antes da visita, ele falou por telefone por uma hora com Paulo Lima e conversou com Leonardo Lessa. Depois, leu os prontuários fornecidos pela clínica Espaço Clif. Quanto à conversa com Lahis, afirmou que a hipomania se caracteriza por quadro de “exaltação afetiva, impulsividade, irritabilidade, ausência de crítica de morbidade (não entende que é doente, não aceita tratamento), dissimulação dos sintomas da patologia. Esse tipo de paciente é articulado e muito comumente testa os limites do tratamento psiquiátrico”.

 

Em suas primeiras horas na clínica, Helena Lahis foi mantida no primeiro andar, reservado à triagem de pacientes, ouvindo gritos de um interno em surto. Em seguida, foi levada para o quarto 207, no segundo andar. É uma suíte com janelas de vidro que não abrem, reforçadas com grades. Dali conseguia ver prédios do bairro de Botafogo e mais de uma vez pensou que deveria conhecer muitos de seus moradores, pais de seus alunos no Colégio Santo Inácio.

Em alguns dias, dormiu até as quatro da tarde, ela acha que por causa dos estabilizadores de humor – de acordo com a explicação de Lessa, em depoimentos, ela recebeu fumarato de quetiapina e carbonato de lítio. Lahis tinha medo de ser medicada demais, de transpor os limites da sanidade e nunca mais sair da clínica. Às vezes, tentava o recurso clássico dos pacientes involuntários: enganar os enfermeiros e não tomar os comprimidos. Se esforçava para participar das terapias coletivas e achava brecha para perguntar por que era mantida ali.

O segundo andar da clínica é reservado às mulheres. No período em que a escritora esteve lá, quase todas as pacientes eram adolescentes, acompanhadas das mães. E todas chegaram depois dela e saíram antes. Lahis relatava em um caderno tudo o que lhe acontecia. Anotava nomes das pessoas da equipe, às vezes escrevia palavrões. “Era meu espaço de liberdade”, define. Tinha autorização para receber suas filhas, a mãe, os irmãos e Paulo Lima, que a visitava aos domingos. Lessa autorizou que ela falasse com seu psicanalista. A escritora telefonou para Castro Sá uma só vez. Nos cinco minutos em que era permitido falar, antes que a ligação caísse, ele contou para Lahis que estava em contato com Lessa. Ela não foi autorizada a ligar para outras pessoas, como seu namorado, Alexandre Barreto, e suas amigas.

Do lado de fora, a vida de Lahis foi paralisada. A rotina de cuidados com as filhas, como levar a caçula na escola, foi assumida por sua mãe. O lançamento de seu livro foi cancelado e pegou de surpresa os mais próximos dela e da coautora, a amiga Isabelle Borges – alguns haviam viajado para o Rio de Janeiro especialmente para a noite de autógrafos. Eventos da Lago de Histórias, como a participação em feiras literárias, foram suspensos ou feitos a toque de caixa, com Lima orientando os envolvidos sobre como seriam realizados.

Amigas da escritora ficaram aflitas. Lima criou um grupo de WhatsApp, chamado “Pela Helena”, para falar com algumas delas. Em um dos áudios aos quais a piauí teve acesso, ele informa, em tom atribulado, sobre o estado de sua ex-mulher:

Ela está na melhor clínica, com os melhores médicos. Vai ser um processo bastante doloroso para todo mundo, mas não tem o que fazer. O importante é que é uma bipolaridade medicamentosa causada por remédio de emagrecer com antidepressivo. Simples assim. Uma hora ela vai acordar e aí ela vai ficar na realidade de tudo. Eu sei que vocês três amam muito a minha querida Helena. Por favor, rezem para que ela tenha paz de espírito e que a mente dela clareie para que possa voltar o mais rápido possível ao estado normal.

Em seguida, completou:

Vou botar a foto do Alexandre Barreto aqui, porque é assustador, ele é um maníaco. Não é o foco agora, eu acho que existe um trabalho também espiritual que foi feito por ele para capturar ela. Como estava com essa abertura física, ela acabou embarcando nessa brincadeira. O cara não tem antecedentes criminais, mas não é flor que se cheire. O papo é brabo entre eles, é muita baixaria. […] O mais importante é que Deus me iluminou […], tem uma junta médica trabalhando para limpar ela. E o estrago é grande, mas tudo na vida tem salvação. Consegui interromper antes do mal maior. Como minha sogra falou, Deus em primeiro lugar. E eu consegui descobrir tudo o que estava acontecendo.

Lima encerrou enviando duas fotos retiradas das redes sociais de Barreto: em uma delas, ele aparece em close; na outra, com o queixo coberto por creme de barbear.

Nessas mensagens, o executivo não dizia o nome da clínica. Com os dias passando, as amigas da escritora foram se afligindo. Criaram outro grupo de Whats­App chamado “Onde está Helena?”, sem a participação de Lima. Fizeram uma lista dos principais centros psiquiátricos particulares do Rio de Janeiro. Em depoimento que também prestaria por escrito, uma das amigas, a atriz Claudia Mauro, disse que chegaram a telefonar para a Espaço Clif perguntando se Lahis estava lá. A atendente respondeu que não.

Dentro da clínica, Lahis pressionava Lessa para saber de seu diagnóstico. Ela conta que o médico não respondia. A escritora passou a pedir que ele conversasse também com Alexandre Barreto, para atestar que seu namorado “não era um bandido que estava desvirtuando uma mocinha”. Repetia que a paciente era ela, e não Paulo Lima, e que precisava ter sua versão considerada. Dizia que Barreto tinha o direito de saber onde ela estava – e ela, o de falar com ele.

O psiquiatra, então, deu uma ideia: Lahis escreveria uma carta para o namorado. Lessa anotaria seus telefones fora do envelope, para que Barreto pudesse entrar em contato, e o enviaria. A escritora redigiu uma carta, contando o que lhe acontecera. “No dia seguinte, Lessa foi me atender e disse que mandou a carta. Nos outros dias, dizia: ‘Ele não ligou ainda.’ Até que falou: ‘Olha, ele já deve estar em outra, não me ligou.’ Vi ali que o Lessa tinha ficado com a carta”, conta.

 

No 15º dia de internação, todos os pacientes e funcionários da Espaço Clif já tinham ouvido a história que Lahis repetia sobre como fora parar ali. A psicóloga que se ofereceu para ajudá-la, mãe de uma paciente adolescente, saiu da clínica com uma segunda carta endereçada a Alexandre Barreto, escondida no sapato.

“Xande, essa é a segunda carta que eu escrevo”, dizia o texto, “estou prisioneira nesse manicômio de luxo sob alegação de que sofro de algum transtorno psiquiátrico.” A escritora pedia para que o namorado procurasse duas pessoas: Castro Sá, seu psicanalista, e Alessandra Jappone Rocha Magalhães, uma amiga juíza, que saberia o que fazer, porque ela precisava de advogados para sair dali. “Não sei o telefone dela, mas ela está no Facebook”, instruiu.

Naquele mesmo domingo – dia 20 de outubro de 2019 – em que Lahis foi levada para a clínica, Barreto ficou apavorado porque ela faltara a um encontro marcado com ele e, além disso, deixara de responder às suas mensagens. Como sabia que o ambiente no apartamento da Urca estava em pé de guerra, chegou a ir a uma delegacia na Tijuca, bairro onde mora, fazer um boletim de ocorrência, mas a delegada o aconselhou a esperar mais uns dias. Telefonou para o psicanalista Castro Sá, soube que Helena estava internada e que o médico acompanhava o caso. Em uma terça-feira, dia em que aconteciam as oficinas de escrita na Lago de Histórias, ele foi até a editora e ouviu o informe dado pela mãe dela: Lahis estava fora de circulação para tratar de uma crise de estresse.

No dia 5 de novembro, depois de receber a carta levada pela psicóloga, Barreto mandou mensagem pelo Facebook para a amiga juíza de Lahis, avisando que a namorada estava em uma clínica contra sua vontade. Como Alessandra Magalhães não o conhecia, enviou um WhatsApp para Paulo Lima e perguntou quem era ele. O executivo da Universal Music respondeu que estava em um show e ligaria em seguida. Acrescentou: “Esse cara é maluco.” Não disse que a ex-mulher estava internada.

A juíza escreveu a Lahis e estranhou que ela não respondia às suas mensagens. Entrou em contato com um amigo em comum no Facebook e levantou informações sobre Barreto. Ouviu que ele não era um golpista – e resolveu responder. Recebeu dele uma foto da carta enviada pela escritora e comparou a letra com a das dedicatórias que ela fizera em alguns de seus livros. A caligrafia, grande e levemente arredondada, batia.

Juntos, Alexandre Barreto, Alessandra Magalhães e amigos da escritora entraram em contato com duas advogadas, que redigiram um pedido de habeas corpus, apontando ilegalidade na internação involuntária. O documento incluía um laudo fundamental, escrito de próprio punho pelo psicanalista Castro Sá.

Quando soube da carta que Lahis escrevera ao namorado, Castro Sá mandou, às 9h41 do dia 6 de novembro, outra mensagem para Leonardo Lessa: “Bom dia, tenho tentado entrar em contato via telefone e não consigo. Como médico psiquiatra e psicanalista de Helena me sinto responsável por sua saúde mental. Gostaria de ser informado sobre a situação atual de Helena. Um abraço grande. No aguardo.” Às 10h13, Castro Sá insistiu: “Leonardo, como médico que acompanha a Helena me sinto responsável por sua situação. Necessito urgente de informações a respeito da mesma. Grato.”

Sem resposta, ligou para a clínica e insistiu em falar com Lahis. Conseguiu na terceira tentativa. Na conversa, avaliou que ela estava orientada no tempo e no espaço, com pensamento lógico e coerente. Escreveu, então, o laudo, que embasaria o pedido de habeas corpus. No laudo, contou que sua paciente passara nos últimos anos por uma jornada de busca de autonomia afetiva e econômica, que recentemente conseguira pedir o divórcio e que o ex-marido devassara seus e-mails. Reiterou que, nos três anos em que a acompanhava, em “processo psicoterápico de base analítica”, ela não havia apresentado sinais ou sintomas de transtorno psiquiátrico, estava absolutamente apta para gerir a própria vida e não representava riscos para si ou para outras pessoas.

As advogadas impetraram o habeas corpus no Plantão Judiciário. Uma juíza plantonista determinou, em caráter liminar, a imediata liberação da escritora. Era quase nove da noite de 10 de novembro de 2019, domingo, e Lahis estava no quarto da clínica, escrevendo, quando soube que uma oficial de Justiça chegara ao local para soltá-la.

A clínica Espaço Clif virou, literalmente, uma loucura. Rapidamente, juntou-se uma pequena multidão. Em dado momento, ocuparam a recepção a amiga juíza, as advogadas, Alexandre Barreto e outros amigos de Lahis. Despachados às pressas por Paulo Lima, também chegaram a mãe, a filha mais velha, mais alguns familiares da escritora e até uma advogada da Universal Music Brasil.

Um vídeo do momento confuso, obtido pela piauí, mostra a filha mais velha da escritora chorando e falando para alguém no telefone: “Tem um bando de maluco aqui querendo tirar a minha mãe.” A mãe de Lahis, Maria Luiza Baumgarten, tentou dissuadir a oficial de Justiça. Apontou para Alessandra Magalhães, que estava sentada em um canto. “Essa moça, ela chamou as advogadas, ela foi aliciada pelo bandido”, disse Baumgarten, referindo-se a Barreto. Quando viu que estava diante de uma decisão judicial verdadeira, a advogada da Universal Music foi embora. Magalhães olhou para o celular e leu um WhatsApp enviado por Paulo Lima: “Você está cometendo um erro muito grave.”

Escoltada por dois policiais, a oficial de Justiça foi até o segundo andar da clínica ler para a paciente os termos do habeas corpus. As adolescentes internadas se jogaram em cima de Lahis, abraçando-a, em comemoração. Dias depois, várias delas compareceriam ao lançamento do livro da escritora – que fora cancelado por Paulo Lima e ela pôde finalmente realizar.

Lahis saiu da clínica eufórica, mas com medo de que o ex-marido derrubasse o habeas corpus e a internasse de novo. Como Lima estava em Las Vegas, acompanhando a 20ª edição do Prêmio Grammy Latino, resolveu dormir no apartamento da Urca, para conversar com as filhas. A escritora conta que a mais velha pediu que ela não denunciasse o pai, argumentando que isso deixaria a família ainda mais fraturada e colocaria em risco a carreira dele. Lahis explicou que iria, sim, denunciá-lo. Um dos motivos: não desejava que suas filhas achassem normal um homem colocar a sanidade de uma mulher em dúvida, a ponto de interná-la.

 

Cinco anos depois, a internação de Helena Lahis virou uma terra arrasada de contenciosos. Entre os principais há um processo penal e um cível – em que a escritora pede indenização ao ex-marido –, além das investigações sigilosas no Cremerj. O inquérito policial na 14ª Delegacia, no Leblon, aberto depois da denúncia feita por Lahis, não deixou de fora nenhum personagem do caso. Foram ouvidos desde os principais até os coadjuvantes – incluindo um ou outro figurante. Falaram os dois enfermeiros e o dono da empresa da ambulância, funcionários da Espaço Clif e da Lago de Histórias. Foram chamados amigos e familiares de Lahis. Depuseram médicos que acompanharam a escritora antes, durante e depois de sua internação.

Esse último grupo, o dos médicos, é o mais impressionante. A pluralidade de suas opiniões inaugurou outra trama, passando em meio aos autos. Nela, o personagem principal é a mente de Helena Lahis.

“Essa internação foi uma experiência que se assemelha a um filme de terror. Fiquei impressionado com a participação, inclusive, de médicos”, afirmou, no processo, o endocrinologista Pedro Assed, que prescreveu os remédios para a escritora emagrecer, em um tratamento que incluía nutricionista e exercícios físicos. Assed disse que trabalhou seis anos com psiquiatras no Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares (Gota). Por isso, tinha conhecimento empírico para identificar eventuais alterações psíquicas nos pacientes. Garantiu que, caso tivesse notado mudanças no comportamento da escritora, que ele atendera quatro dias antes da internação, teria suspendido as medicações, registrado no prontuário e ligado para o psicanalista dela.

O psiquiatra Vicente Nunes examinou Lahis em duas consultas, logo depois de ela deixar a clínica. Atestou que, naquele momento, a escritora não era portadora de doença mental aguda e demonstrava apenas ansiedade compatível com o estresse de uma internação involuntária. Especialista em neuropsicologia, a psicóloga Maria de Fátima Sousa Nunes avaliou Lahis em uma bateria de exames – e afirmou que ela só apresentava sintomas decorrentes da situação pela qual havia passado na clínica. “Estava ansiosa, assustada, nervosa” e “com dificuldades de dormir, além do receio de que alguém a internasse de novo contra a sua vontade”, escreveu. A psicóloga Ana Cristina Bohrer, atual psicanalista da escritora, declarou nos autos que, no tempo de seu atendimento, “não foi observado nenhum quadro que configurasse diagnóstico psiquiátrico”.

Ao final do inquérito, os psiquiatras Leonardo Lessa e Silas Barbosa foram indiciados por cárcere privado. O Ministério Público, entretanto, os deixou de fora da denúncia, por entender que as características peculiares dos transtornos mentais dificultam um diagnóstico imediato e que, mesmo “sabendo indevida” a internação, não havia indicação de “existência prévia de conluio” entre os dois psiquiatras e os demais envolvidos, como Lima.

Lessa também foi denunciado no Cremerj pela defesa de Lahis, que o acusou de tê-la submetido “cruelmente a tratamentos medicamentosos absolutamente incompatíveis com sua condição”. A entidade abriu a sindicância sigilosa nº 13059/2020. Em sua defesa, o médico foi bastante enfático. Disse que foi chamado para fazer o acompanhamento psiquiátrico do caso não só por Paulo Lima, mas também pela mãe da escritora. Declarou: “À época, destacavam-se as seguintes alterações clínicas: sentimento de onipotência, fluxo aumentado de ideias, ausência de crítica de morbidade e tendência a diminuir a relevância das alterações de comportamento e a se desresponsabilizar pelos acontecimentos que motivaram a sua internação psiquiátrica.”

Ele também anexou a última avaliação que fez de Lahis, em 10 de novembro de 2019, mesmo dia em que ela saiu da clínica, na qual notou que a paciente apresentava “atitude dissimulada e não cooperativa”, demonstrava “aumento da irritabilidade, marcadamente quando era contrariada, fluxo aumentado de ideias, ideação sobrevalorizada de onipotência, tendência à verborragia”. Para comprovar que estabelecera relação de “profundo respeito e confidencialidade” com Lahis, transcreveu um áudio enviado por ela no dia 23 de janeiro de 2020, três meses depois da internação, no qual viu uma expressão de gratidão:

Oi, Lessa, bom dia, queria te agradecer muito por mandar a carta pra Natashy, minha advogada. Foi muito importante pra mim, é um resgate da minha história e enfim vou poder entregar a carta para o destinatário. Obrigada, viu?

A piauí teve acesso à conversa completa. Era um diálogo em que a escritora insistia para que o psiquiatra devolvesse a primeira carta que escreveu para o namorado, e ele nunca recebera. Depois de mudar de versão duas vezes – primeiro disse que a carta não estava com ele, depois que estava com sua secretária –, Lessa ao final a enviou para o endereço indicado por Helena, o de sua então advogada (atualmente, a defesa da escritora na ação penal é feita pela advogada criminal Larissa Mendes)*. Quando recebeu enfim a carta, ela leu em voz alta para Barreto – os dois choraram. A escritora manifestou gratidão, portanto, pelo médico ter devolvido a carta, não pelo tratamento recebido na clínica.

Os conselheiros do Cremerj concluíram que não havia indícios de infração ético-profissional na conduta de Lessa e o absolveram. E deram um inesperado cavalo de pau no caso. Sem que ninguém tivesse entrado com uma denúncia, resolveram investigar a conduta de Manoel Ribeiro Castro Sá, o então psicanalista de Lahis que foi contrário à sua internação. A suspeita de infração ético-profissional: ele poderia ter assinado o atestado anexado ao habeas corpus que soltou a escritora sem antes examiná-la pessoalmente? A investigação, também sigilosa, está em curso. Castro Sá afirmou à piauí que não fala sobre o caso de sua ex-paciente porque ele está sub judice.

Em fevereiro do ano passado, Lessa foi ouvido outra vez pelo Cremerj, agora no âmbito da investigação sobre a conduta de Serra Pinheiro. Concordou que uma internação involuntária só deve ser feita depois de esgotadas as estratégias de tratamento ambulatorial, mas afirmou que as informações disponíveis em seu primeiro contato com Lahis, na clínica, indicavam que não fora possível fazer esse tratamento prévio porque a “paciente não concordara”. Perguntado se, do ponto de vista médico, havia “dúvida salutar quanto à internação da sra. Helena”, disse que “tanto havia dúvida que convidou outros médicos, inclusive Castro Sá, para participar da avaliação – e que sua responsabilidade ética e técnica esteve presente o tempo todo. Não poderia interromper de forma súbita a internação”.

Nesse mesmo depoimento, ele afirmou que a escritora certamente teria alta “muito em breve, porque sua situação já estava estabilizada”. É uma versão diferente da declaração que ele assinou em 12 de novembro de 2019, anexada ao processo penal. Nela, o médico afirmou que Lahis “evoluiu sem melhora sintomática e sem estabelecer juízo crítico de morbidade, até a interrupção do tratamento por força de decisão judicial não apoiada pelos familiares”.

Na audiência, o psiquiatra também foi convidado a explicar o que quis dizer quando respondeu para Castro Sá, por WhatsApp, que “o impasse não passava só por ele”. Lessa respondeu: “O impasse da internação permanece até o momento atual, pois dependia de uma série de fatores, inclusive de estrutura envolvendo a família da paciente.”

Leonardo Lessa não respondeu aos pedidos de entrevista feitos pela piauí. Em julho do ano passado, discorreu sobre o mecanismo das internações involuntárias no Fuga de Ideias Cast, um podcast de entrevistas com psiquiatras. Explicou que a crise que leva um paciente a ser internado pode surgir de um “aspecto clínico a partir de sintomas e sinais” ou de “aspectos ligados a uma questão mais sociofamiliar, que naquele momento precisa ser repensada”. Comentou também que são cada vez mais frequentes os questionamentos feitos a psiquiatras sobre esse tipo de internação. “Os cuidados em relação a essas indicações estão sendo reafirmados […] no Poder Judiciário, no Ministério Público, na própria imprensa – que têm papel de nos alertar sobre eventuais riscos que a gente representa, porque uma internação acena com dois grandes medos do ser humano: um é a perda da liberdade, e o outro é a perda da sanidade”, disse.

 

No caso de Helena Lahis, o gênio não voltou para dentro da lâmpada. Em vários aspectos, a vida dela hoje está pior do que era antes daquela tarde de domingo em que foi levada para dentro de uma ambulância de modo abrupto.

Por ter apoiado Paulo Lima na internação, Maria Luiza Baumgarten, a mãe de Lahis, foi indiciada por cárcere privado. Acabou excluída da denúncia do Ministério Público, que entendeu que não havia como provar que ela sabia que a filha não tinha doença psíquica. Logo que saiu da clínica, com medo de ser internada de novo, a escritora chegou a pedir medida protetiva contra a mãe. O episódio causou uma fissura na sua relação com a família, que não a perdoa até hoje, inclusive por continuar denunciando a internação involuntária. “Perdi completamente a convivência com minha mãe, com todos os meus irmãos”, diz.

A relação com as filhas, que antes da internação era considerada pelos amigos como umbilical, entrou em altos e baixos. A mais velha, Luiza, escreveu um texto nas redes sociais, apagado depois, em que defendia o pai: “Quando a internação aconteceu, minha mãe vinha agindo de forma muito diferente do que sempre foi. Ela não conta, mas tem histórico depressivo desde os 17 anos. No meu parto foram quatro meses ausente com depressão pós-parto. Se manteve em equilíbrio à base de remédios até o próximo surto, e neste último com uma mistura de remédios de emagrecimento, onde perdeu 22 quilos. Entre os remédios, sibutramina. Conhecem?”

Os atritos da escritora com a filha nessa fase foram fartamente descritos no processo penal pela defesa de Paulo Lima – feita pelo escritório Arthur Lavigne Advogados Associados – como indicação de que Lahis, mesmo depois de sair da clínica, continuaria fora de si. Lima arrolou as filhas como suas testemunhas de defesa. Também argumentou que a intenção dele não era impedir o divórcio, tanto assim que, em novembro de 2019, mesmo mês em que Lahis saiu da clínica, começou a namorar uma produtora de eventos, com quem se casaria no ano seguinte e está até hoje.

Helena Lahis e Paulo Lima se divorciaram formalmente em dezembro de 2019. Ela deixou de usar o sobrenome dele e, em seus escritos, adotou o Lahis – um acrônimo de Lago de Histórias. Afirma que tudo o que recebeu na partilha de bens foi gasto com honorários de advogados nos primeiros anos depois da denúncia. Precisou vender seu apartamento para pagar custas do processo e mudou-se para a casa onde funciona a sua editora. Nos últimos anos, conseguiu que alguns advogados atuassem pro bono em seus processos. O namorado da escritora, Alexandre Barreto, de 51 anos, estreou na literatura infantojuvenil e não conseguiu construir uma convivência com as filhas dela. “Elas não querem vê-lo”, diz Lahis.

Com o passar do tempo, o redemoinho judicial foi se espalhando também por outras ações. A defesa de Lahis entrou com duas medidas protetivas contra Lima. A primeira, logo depois que ela saiu da clínica. A segunda, meses depois, porque ele teria lançado um olhar ameaçador quando foi buscar a filha mais nova no apartamento onde a escritora morava. O executivo, então, revidou com um processo por denunciação caluniosa – e Lahis foi, por decisão judicial, proibida durante alguns meses de citar o nome dele em redes sociais ao falar de sua internação. Barreto, por sua vez, ao saber dos comentários depreciativos que Lima fizera a seu respeito, prestou queixa em uma delegacia contra o executivo. O inquérito foi arquivado.

Paulo Lima também distribuiu processos contra terceiros. Ganhou uma ação por calúnia e difamação contra o produtor musical Clemente Magalhães, que publicou em suas redes sociais comentários indignados sobre a internação. O executivo processou ainda o influenciador Leandro Santos, que fez uma live inflamada com Lahis. Depois da ação, Santos apagou suas contas em redes sociais.

Por causa da saraivada de processos e da posição de Paulo Lima, no topo da cadeia alimentar do mercado musical, inúmeros amigos do ex-casal temem falar em público. Alguns lhe atribuem poderes extraordinários e temem retaliações. De modo geral, esses amigos descrevem Lima como um marido que gostava de mostrar, sem comedimento, seus cuidados com Lahis. Ele descobria, por exemplo, o restaurante em que sua mulher ia jantar com amigas e pedia para que o garçom servisse na mesa, de surpresa, uma entrada especial. Com os mais próximos, desde pelo menos 2017 ela comentava que pensava em se separar. Também contava da tentativa de divórcio que fizera aos 27 anos – e previa que um novo pedido provocaria um caos similar na família.

Procurado pela piauí, Paulo Lima não respondeu aos pedidos de entrevista. Em novembro de 2023, ele prestou depoimento, também no processo que investigava a conduta de Serra Pinheiro no Cremerj. Perguntaram a ele se “tem procedência o argumento de que a internação foi feita por vingança ou por razões espirituais”. Ele respondeu: “Essa afirmação é extremamente agressiva e ofensiva.”

 

Diagnósticos psiquiátricos, especialmente o de hipomania, podem ser complexos. Em sua conversa com a piauí, a psiquiatra Maria Antonia Serra Pinheiro chamou atenção para o ônus profissional que pode vir dessa complexidade. “Há vários graus de bipolaridade. A maior parte é de pessoas que têm episódios repetidos de hipomania ao longo da vida e tratam com antidepressivos. Diante de sinais de um surto, um médico pode decidir: não tenho nada com isso ou vou tratar. Se a sociedade achar que psiquiatras que internam com base nos sinais que estão vendo devem ser levados à polícia e ao Conselho Regional de Medicina, o.k. Mas doenças mentais estão aí, são prevalentes. Muita gente vai ficar sem tratamento.”

Helena Lahis, entretanto, foi levada e mantida em uma clínica psiquiátrica em circunstâncias que excedem a delicadeza de um diagnóstico. A escritora foi retirada de sua casa em meio a uma situação doméstica conflagrada por um divórcio – e apesar da oposição veemente de seu então psicanalista, que também é psiquiatra. E, mesmo considerando a hipótese de que ela realmente estivesse em surto, a internação involuntária ocorreu sem que tivesse direito às alternativas de tratamento indicadas em lei antes que se decida por essa medida radical. Ao final da leitura de 4 317 páginas de processos, aparece uma inusitada ciranda na qual ninguém se responsabiliza formalmente pela internação de Helena Lahis.

A escritora pergunta: “Como me internaram sem um diagnóstico? Fiquei 21 dias presa em uma clínica. Quem sabe o que fica disso? Foi um ataque à minha dignidade, à minha capacidade cognitiva, relacional, profissional. Principalmente, tocou no que me é mais caro: minha relação com minhas filhas. E estou aqui, cinco anos depois, ainda na tentativa de responsabilizar os que participaram dessa atitude intempestiva, cruel e criminosa, com as pessoas discutindo em audiências o meu comportamento. E, acima de tudo, discutindo a minha sanidade mental.”

Ela acrescenta: “Uma parte de mim ainda está dentro daquela ambulância.”

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*Trecho incluído na versão digital do texto

Angélica Santa Cruz
Angélica Santa Cruz

É jornalista da piauí

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