CRÉDITO: CACO GALHARDO_2024
In vice we trust
A Vice-Presidência institucionaliza o desapreço à glória
| Edição 215, Agosto 2024
1º DE JULHO_A Vice-Presidência institucionaliza o desapreço à glória. É como ir a um banquete e escolher a sopa de legumes. É como ver Tubarão e ficar emocionado com a sardinha que tá nadando ali nas redondezas. É valorizar o gandula imparcial que repõe bem a bola. É encontrar beleza em ser Ringo Starr. Somos, por natureza, desviralizantes. Imbuído desse espírito, pus o meu melhor terno para a cerimônia de posse do presidente eleito do Panamá, José Raúl Mulino. Em seguida, passei no free shop de lá, que é ótimo, e segui feliz para Rondônia.
2 DE JULHO_Dia intenso em Rondônia. Aprendi que Porto Velho é a única capital brasileira que faz fronteira com outro país.
3 DE JULHO_É coisa de primeiro mundo a postura da Kamala Harris. Enquanto Joe Biden é atacado por etaristas e pressionado a desistir da candidatura, a vice-presidente americana se comporta como uma antítese de Michel Temer. Elegante em sua discrição. Ainda se fazem vices como antigamente.
4 DE JULHO_Para desespero do companheiro Rui Costa Pimenta, corro o risco de soar americanizado. É que o Independence Day, 4th of July, desperta em mim o mais primitivo sentido patriótico. Isso vem desde o final da década de 1990, quando comecei a assistir àquela série West Wing. Como todos ali são bons! Me lembrava tanto o PSDB do Montoro, do Sigmaringa, da dona Ruth, do Covas, até mesmo do FHC antes de virar neoliberal. Precisei pisar em minha Pindamonhangaba querida para celebrar o meu chão. Sorte que havia um evento de vulto vice-presidenciável: a inauguração do Ponto de Parada e Descanso para caminhoneiros.
Meus olhos marejaram diante daquele recuo na estrada para o repouso. Hoje sou funcionário público. Pindamonhangaba é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói.
5 DE JULHO_Terminei estupefato a leitura de Erva-mate, patrimônio imaterial e soft power nos tempos de Juan Manuel de Rosas (1829-1852) na Revista de História da USP. É revolucionária “a valorização da erva-mate como patrimônio agroalimentar regional, no processo de construção da ideologia americanista durante a gestão de Juan Manuel de Rosas à frente da Confederação Argentina”.
Em solidariedade latino-americana, incluí cuia e bombinha de mate na minha rotina.
6 DE JULHO_Ando preocupado com Joe Biden. Um homem branco, cis, hétero, não careca e poderoso não tem quem o defenda. A pressão está muito grande.
7 DE JULHO_O Brasil não cansa de nos surpreender. De todos os crimes cometidos por Jair Bolsonaro, é possível que ele seja condenado como muambeiro.
Como é amargo esse mate. Será que colocar duas colheres de açúcar vai me transformar em imperialista? Na dúvida, comecei a preencher a cuia com cafezinho.
8 DE JULHO_President’Lula partiu para uma reunião do Mercosul e fiquei aqui reinando no lugar dele. Como eu não durmo de touca, mandei logo uma mensagem pros irmãos Batista: enquanto eu sentar nessa cadeira, vão chorar suas pitangas pro lado de lá. Não tenho saco pra essa gente.
Sempre que eu assumo a Presidência, minha companheira Libelu manda um áudio. Dessa vez, acompanhada da Banda Marcial do Corpo dos Fuzileiros Navais, ela se saiu com essa: Agora quem dá bola é o Geraldo./Geraldo é o novo campeão./Glorioso alvinegro pindamonhangabense./Campeão absoluto, homem decente. Não sei como, mas Libelu conseguiu encaixar pindamonhangabense na métrica do hino do Santos. É uma scat singer de primeira, com um senso de improvisação que deixa Ella Fitzgerald no chinelo.
9 DE JULHO_Todo feriado da Revolução Constitucionalista de 1932 a gente reúne a família para um evento eletrizante! Vamos à hemeroteca digital da Biblioteca Nacional atrás de relatos sobre Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo – o MMDC. Depois, selecionamos um texto, apagamos as luzes e eu coloco uma lanterna no rosto para dramatizar a luta dos paulistas pela liberdade!
10 DE JULHO_Demorei muito pra me enturmar com o pessoal da repartição. Muitos deles não acreditavam na minha adesão consensual ao comunismo. Mas tem uma pessoa que deu match logo de cara. Nos reconhecemos como dois homens públicos sérios que se acostumaram com as esquinas do poder. Aloizio Mercadante virou meu brother, carne e unha, alma gêmea. Estamos quase no ponto de nos chamarmos de camarada.
Alvorada! Fiz questão de receber o almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen, da Marinha, para elogiar as afinações das tubas da Banda Marcial. Ele disse que não era muito a área dele, mas agradeceu. Gritei “Selva!” em dó maior. Ele disse que não era uma saudação muito benquista pela Marinha. Só não rolou um incidente militar porque eu soube dobrar a situação com minha desenvoltura de moleque bolado criado no gueto: dei pra ele um Toblerone que tinha sobrado do free shop do Panamá.
12 DE JULHO_Acordei Libelu com uma cesta de pães artesanais do projeto social que ela mesma criou. Na bandeja, geleia de cânfora que, além de beneficiar populações ribeirinhas, rejuvenesce a zona T. Suco verde do MST e pão de queijo curado de Pindamonhangaba, quentinho. Pensei em cada detalhe para acordar bem minha companheira no dia do aniversário dela. Ela comeu tudo e disse: “Gegê, você sabe que linguagem do amor pra mim é post na rede social, né?” E lá fui eu buscar inspiração em padre Antônio Vieira para escrever um texto lindo para ela.
Joesley mandou uma picanha maturada de presente, mas eu escondi atrás do sofá.
13 DE JULHO_Lamentável o ataque contra o candidato que atenta contra a democracia. É como dizia dona Neuza, minha professora de aritmética em Pindamonhangaba. Sempre que ela via um valentão querendo corrigir uma injustiça à base de pescotapas, dona Neuza dizia: “Dois erros não somam um acerto.”
16 DE JULHO_Encaminhei para a Embaixada dos Estados Unidos um item precioso da minha videoteca. Quem sabe o jingle do doutor Ulysses em 1989 não serve de inspiração para os democratas? Bote fé no velhinho/O velhinho é demais/Bote fé no velhinho/Ele sabe o que faz pode ajudar a reduzir a rejeição ao Biden.
17 DE JULHO_Libelu me lembrou que o doutor Ulysses terminou em sétimo lugar na eleição de 1989. Terei cometido uma gafe diplomática? Morro de medo do Celso Amorim.
Dia de celebrar os 30 anos do tetra! Minha alma de vice me levou a saudar a corajosa convocação de Paulo Sérgio para a Copa de 94. Dito isso, minha Copa predileta é sem dúvida a de 98. Me comovo muito com aquela vice-liderança.
18 DE JULHO_Achei sintomático o novo hábito dos republicanos de colocar uma gaze tampando o ouvido. Todos estão surdos.
20 DE JULHO_Sempre que me pego num momento de bloqueio criativo, ligo num jogo do Flamengo. É pule de dez! Cada pênalti que inventam para o rubro-negro é mais criativo que o outro. É um benchmark disruptivo em tempo real, ao vivo na tevê. Deve inspirar bastante o empreendedorismo nacional.
Cáspite! Em São Paulo também teve decisão de arbitragem original! Se ainda estivéssemos na ditadura, VAR-Palmeiras seria uma organização militante, dessas que existem para subverter o status quo e derrubar as leis burguesas.
Por Renato Terra
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