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    Não sou religioso, mas sabia que naquele lugar os homens eram obrigados a cobrir a cabeça em respeito a Deus, e que entrar descoberto poderia ser interpretado como uma grave afronta. Eu não queria ofender ninguém, longe de mim, mas tampouco queria ser confundido com um “deles” FOTO: ABIR SULTAN/EFE/EPA

questões de identidade II

Judeu ma non troppo

Dúvidas e constatações em torno de uma viagem a Israel

Ricardo Teperman | Edição 140, Maio 2018

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Foi minha mãe quem me ensinou a palavra “gói”, que se refere àqueles que, como ela, não são judeus. Guardo um punhado de histórias que ela me contou a respeito do preconceito que percebia em parte da família de meu pai ou nos poucos círculos sociais judaicos que frequentávamos na minha infância. Gosto particularmente de um episódio ocorrido no clube em que éramos sócios. Enquanto me observava brincar no parquinho, ela começou a conversar com outra mãe. Em meio ao papo animado, permitiu-se perguntar o nome de sua interlocutora, que amavelmente respondeu e devolveu a pergunta. “Maria Helena”, disse minha mãe, e a até então simpática senhora não foi capaz de conter sua surpresa e seu desgosto: “Góóói?”

Lembro de inúmeras vezes perguntar a ela se eu era judeu ou gói. A resposta variava, mas não muito: vira-lata, mezzo-aliche mezzo-muçarela, brasileiro, não se preocupe com isso. No judaísmo tradicional, só é judeu quem é filho de mãe judia. Ou seja, eu não era – por mais que meu nariz, meu sobrenome e minha mãe procurassem relativizar a resposta.

Nosso calendário de festas era dobrado. Páscoa e Pessach, Hanuká e Natal. Mas as celebrações judaicas tinham mais peso, não só porque pouco convivíamos com a família de minha mãe, mas também pelas tradições que se mantinham no ramo judaico: comidas típicas como varenikes, deliciosos raviólis recheados com batata-doce e cobertos com tiras de cebola frita, ou gefilte fish, bolinho de peixe servido com chrein, uma pasta de beterraba com raiz-forte; o matzá, o pão sem fermento, escondido no guardanapo; além das eventuais rezas em hebraico, durante as quais os homens cobriam a cabeça com quipás (na minha família usávamos a palavra iídiche kapele).

 

Os costumes judaicos na casa da minha avó, bem como nas demais festas de minha família paterna, nunca tiveram conotação propriamente religiosa para mim – meu pai nunca me ensinou a rezar, nunca compartilhou histórias bíblicas ou me falou sobre Deus. Aliás, não tenho registro de tê-lo ouvido pronunciar a palavra Deus uma única vez, nem mesmo em frases banais como “graças a Deus”, “pelo amor de Deus”, “se Deus quiser” – uma higiene verbal que não deixa de demonstrar rigoroso respeito a um dos Dez Mandamentos: “Não tomarás o nome de D’us em vão.”

Seu zelo pelo sentido de pertencimento a uma tradição sempre me impressionou. Trata-se de um vínculo tão forte quanto sumário, praticamente reduzido a um único ritual, com periodicidade anual: o Yom Kippur. No Dia do Perdão, meu pai vai à antiga sinagoga Beth-El, outrora na rua Martinho Prado, na Bela Vista, e hoje na rua Caçapava, no Jardim Paulista, em São Paulo, cofundada por seu avô Salomão e onde meu avô Eife tinha uma cadeira com seu nome na primeira fila – o que era motivo de orgulho para mim, ainda que por vezes invejasse amigos cujos avôs tinham uma cativa no estádio do Morumbi.

Não sei quantas vezes o acompanhei, não muitas. Mas de uma dessas visitas tenho uma das memórias mais vivas de meus primeiros anos. A caminho da sinagoga, nós – nenhum dos dois cumprindo o jejum de rigor – paramos numa papelaria e meu pai solenemente anunciou a compra de algo muito divertido. Não entendi bem como um pequeno bloquinho de papel amarelado poderia oferecer tamanho interesse, mas tudo bem. Nós nos acomodamos tranquilamente em nossos lugares no gargarejo – homens sentavam embaixo, mulheres lá em cima, algo que me causava estranhamento e algum incômodo. Enquanto esperávamos o início do serviço, meu pai me ensinou como esconder e caçar porta-aviões, destróieres, encouraçados, cruzadores e submarinos. Não há cinema 4D que supere a emoção de jogar Batalha Naval pela primeira vez. Ainda mais numa sinagoga.

 

Os relatos do Bar Mitzvá de meu pai, tios e primos sempre enfatizavam a quantidade e a qualidade dos presentes recebidos. Aos 12 anos, aluno de uma escola particular laica, mas frequentada por muitas crianças judias, eu tinha vários colegas que se preparavam para o ritual que marca a entrada de meninos judeus na vida adulta, com a primeira leitura da Torá (as meninas fazem Bat Mitzvá). Muitos tomavam aulas com um certo professor Nelson, reputado como divertidíssimo, e eu ouvia as histórias do curso com um misto de curiosidade e desconforto. Não me sentia suficientemente judeu para fazer Bar Mitzvá, ou talvez não tivesse vontade de me tornar suficientemente judeu. E a ideia de promover a festa só para receber os presentes me parecia moralmente condenável. Um bom judeu não faria isso.

Certa noite, durante o jantar, tocou o telefone lá de casa. Era para mim: um rabino me perguntava se eu não teria interesse em me preparar para o Bar Mitzvá. Um pouco assustado, recusei, não sem uma ponta de orgulho. Primeiro por ter despertado o interesse de alguém que nem me conhecia. Depois por ter preferido não me tornar sócio nesse clube que estava pronto a me aceitar, mesmo na condição de meio gói. Não me ocorreu perguntar como ele havia obtido meu nome e telefone. Carreguei essa dúvida durante muito tempo e só recentemente me ocorreu que pode ter sido coisa da minha avó Pepa. A mesma que certa vez, sabendo de minha paixão por música, me recomendou um saxofonista que ela havia visto no programa do Jô Soares e que lhe parecera excepcional: Leo Gandelman. Demorei um pouco para entender que ela gostara menos dos solos do músico que de seu sobrenome.

Aquele telefonema do rabino ainda me faz pensar sobre ser ou não ser judeu. Apesar da mãe batizada, carrego uma espécie de atestado de judaísmo irremovível, até porque o que havia para ser removido já o foi. Meu Brit Milá – na minha família falava-se Bris, na pronúncia asquenaze – foi objeto de longa discussão entre meus pais. Nasci prematuro, com pouco mais de 36 semanas, e demorei a ganhar peso. Minha mãe se opunha frontalmente a me submeter a um procedimento que, para todos os efeitos, não lhe parecia indispensável. Convenceu-se, assim me explicaria bem depois, quando meu pai disse que ter um filho não circuncidado equivaleria a trair “seu pai, seu avô, o avô do seu avô e assim por diante”.

 

A excisão propriamente dita foi feita no hospital, sem plateia nem bufê de café da manhã. Imagino que tenha sido exigência da minha mãe. Com seu pavor de micróbios e demais ameaças atômicas, jamais teria autorizado que um mohel extirpasse meu prepúcio num salão de festas qualquer. Maria Helena, a despeito de ser gói, é uma mãe judia como poucas.

Foi ela quem me iniciou em filmes de Woody Allen e em autores como Isaac Bashevis Singer, Philip Roth e Amós Oz. E em Freud e seu pacote neurose-psicanálise, claro. Sobre a circuncisão de meninos filhos de casamentos mistos, ela explicou que a nossa não era a única família mista que havia preferido que o pinto do filho parecesse com o do pai. E numa conversa mais séria sobre judaísmo e acabamento peniano, relatou como ficara aterrorizada com uma cena do filme 25ª Hora em que na Alemanha nazista os homens eram obrigados a abaixar as calças para provar que não eram judeus.

A prova dos nove do filme me lembra um episódio desagradável. Eu teria 10 ou 12 anos e curtia as férias com minhas primas na Riviera de São Lourenço, trecho do litoral paulista que então era uma novidade – em meio a um gigantesco canteiro de obras, só havia dois prédios prontos. Certo dia fomos convidados para uma festa na qual meninos deveriam se vestir de meninas e vice-versa – não sei se era Carnaval, festa junina ou mera curtição. Animadíssimo, peguei emprestados trajes e adereços, caprichei na maquiagem e desci com minhas primas e suas amigas, devidamente fantasiadas com camisas masculinas, chapéus e bigodes desenhados a lápis. Ao chegar à festa, constituída majoritariamente pela turma do prédio vizinho, percebi que eu era o único garoto que havia topado a brincadeira. Fui eleito o objeto do mais frenético e desmedido bullying (prática que na época ainda não tinha esse nome). Depois de uma hora de suplícios, os pequenos tiranos abaixaram minha saia – o objetivo era comprovar que eu não tinha pinto. Estavam errados, mas àquela altura já não era o que mais importava. A história nada tem a ver com judaísmo, mas afinal trata de questões que, para o bem e para o mal, lhe diziam respeito: identidade, normatividade, discriminação.

A humilhação na Riviera não me impediu de voltar a me vestir de mulher em bailes de Carnaval ou em outras farras desde então, feito que devo ao menos em parte à psicanálise. Aliás, numa sessão recente, tratando dos temas que remexi ao escrever este artigo, lembrei de um dia em que deparei com meu pai arrumando os acessórios religiosos que usara em seu Bar Mitzvá. Curioso e provocador, me paramentei com talit (xale tradicionalmente usado nas rezas), kapale e tefilin (uma longa fita de couro, em que estão costuradas duas caixinhas também de couro, que devem ser amarradas no braço e na cabeça). Dava para ver que meu pai não estava gostando nada da brincadeira. Comecei a balançar meu corpo para a frente e para trás, mimetizando o gestual e os sons de uma reza em hebraico, e fiz que não ouvi seus pedidos para que parasse, até ser interrompido por um grito atípico dele. Foi a maior bronca que jamais levei: “Nunca mais brinque com isso.”

Na mesma sessão de análise, ficou claro que me preocupar com uma posição definitiva quanto a ser ou não judeu seria mais ou menos como me obrigar a responder à tão incômoda quanto clássica (e às vezes irrespondível) pergunta: “Você gosta mais do papai ou da mamãe?”

Há cerca de dois ou três anos, num movimento comum a amigos de geração que se tornaram pais, me conectei a lugares, instituições e grupos que podem ser incluídos na grande aba do judaísmo secular humanista. Foi um desses amigos que me indicou a leitura de Minha Terra Prometida: O Triunfo e a Tragédia de Israel, em que o jornalista Ari Shavit reconstrói os cento e poucos anos da história de seu país natal, ancorando a narrativa em experiências pessoais e de dezenas de entrevistados. O livro começa em 1897, quando seu bisavô Herbert Bentwich, distinto cidadão britânico, visitou a Terra de Israel movido por um sionismo algo romântico, que precedeu em alguns anos o movimento político liderado por Theodor Herzl. E termina com os levantes de 2011, ponto de inflexão no sistema político israelense. O mote da série de manifestações que se estenderam entre julho e outubro daquele ano, com foco em Tel-Aviv, mas com reverberações em dezenas de outras cidades, era a alta do custo de vida no país. Estima-se que 450 mil pessoas saíram às ruas no dia de maior afluência – número que representa nada menos que 6% da população total de Israel. Mal comparando, foi o Junho de 2013 deles. Aqui como lá, após um estopim provocado pela esquerda foi a direita quem se fortaleceu – e os líderes políticos ainda não conseguiram anotar a placa do carro.

Shavit é brilhante ao descrever seu sentimento de ambivalência em relação a Israel, inscrito no dístico do subtítulo de seu livro, “triunfo e tragédia”. Li a última linha de Minha Terra Prometida pousando no Aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, na minha primeira visita ao país, em janeiro passado. Até 2016, quando recebeu uma série de acusações de assédio que o levaram a abandonar a vida pública, Shavit era um dos mais celebrados colunistas do Haaretz, principal jornal israelense de centro-esquerda. Mas só fiquei sabendo disso em Israel, ao comentar sobre ele com uma amiga e ver seu sorriso simpático se transfigurar numa careta.

Viajei a convite do congresso Perspectivas Internacionais sobre Multiculturalismo, Inclusão e Alteridade: Brasil, Israel e Palestina, realizado na Universidade Hebraica de Jerusalém, com apoio do Instituto Brasil-Israel. Compunham a delegação Guilherme Melles, criador da página Quebrando o Tabu, Giovana Xavier, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e a francesa Alexandra Loras, que após temporada no Brasil, acompanhando o marido, então cônsul da França, decidiu se instalar por aqui tendo se tornado uma polêmica ativista do feminismo negro. Cada mesa do seminário, salvo uma ou outra exceção, reunia um brasileiro, um israelense e um palestino.

Uma das falas mais interessantes foi a de Meir Margalit, membro do Conselho Municipal de Jerusalém pelo partido Meretz, de centro-esquerda. Margalit, que nasceu em Buenos Aires, foi para Israel aos 19 anos, em 1972 – escapou da ditadura argentina para lutar na Guerra do Yom Kippur. Ele abriu sua conferência exibindo uma série de fotos de placas de trânsito que, em Israel, costumam trazer inscrições não apenas em hebraico e árabe – as duas línguas oficiais –, mas também com as denominações originais adaptadas ou traduzidas para o inglês, para facilitar a vida dos turistas. Nas imagens selecionadas por Margalit, as indicações em árabe haviam sido danificadas ou pichadas – segundo ele por judeus ultraortodoxos.

Em seguida, ele mostrou outras fotos de placas de orientação da prefeitura, desta vez intactas. Nada me chamou a atenção nas imagens até que Margalit explicasse que apenas os bairros e monumentos judeus estavam sinalizados. Saindo do campus da Universidade Hebraica no monte Scopus, por exemplo, era preciso passar pelo importante bairro árabe de Beit Safafa para chegar ao assentamento judeu de Gilo – e no entanto só havia placas para este último (em hebraico, em árabe e em inglês). Ele argumentava que o desaparecimento da identificação das localidades de maioria palestina era um sinal eloquente do processo de apagamento da história e dos direitos dos árabes israelenses, tratados no país como cidadãos de segunda classe. Não era apenas intolerância e vandalismo de uma fração da sociedade, mas uma política de Estado.

A fala de Margalit irritou o historiador e romancista israelense Gadi Taub, também participante do seminário. Taub, além de autor de um importante livro sobre os assentamentos, fez muito sucesso com livros infantis e com o romance Allenby Street, transformado em série de tevê cuja adaptação brasileira, sob o título Rua Augusta, estreou recentemente. Ele questionou a menção a “cidadãos de primeira e segunda classe”, defendendo o sentido fundamentalmente democrático do Estado de Israel. E sua fala provocou novo aparte, dessa vez de Elias Zananiri, vice-presidente do Comitê Palestino para Interação com a Sociedade Israelense, que também compunha a mesa. A qualidade da argumentação e a disponibilidade para a escuta do contraditório dos três davam temperatura ao debate, no que talvez tenha sido o melhor momento dos três dias de seminário.

Amós Oz escreveu muitas vezes sobre o judaísmo como “cultura do questionamento e do debate”. No livro Os Judeus e as Palavras, que ele assina junto com sua filha Fania Oz-Salzberger, menciona-se uma passagem talmúdica em que o próprio Deus intervém num debate rabínico, fazendo milagres para tentar vencer a querela. Em vão: os rabinos consideram os milagres irrelevantes para a disputa. Deus não é capaz de encerrar o debate e a polêmica prossegue. “O Talmude é muito bonito quando carrega uma grande discordância com dignidade”, escrevem os autores.

Jantando com dois colegas israelenses do meio editorial, comentei sobre a polêmica entre Margalit e Taub. Os editores torceram o nariz ao ouvir o nome do segundo, tido como polemista e defensor do governo de Benjamin Netanyahu. Procurei argumentar que, ao contrário de um polemista, Taub parecia um ótimo interlocutor à direita: bem formado, bem informado e com capacidade de escuta. A conversa embalou ainda mais quando discordamos quanto ao emprego do termo apartheid para o que acontecia em Israel. Enquanto os dois enchiam a boca para denunciar o absurdo das ocupações – que eu não negava –, me vi defendendo a legitimidade de se chamar o regime em vigor no país de democracia, apesar de tudo – uma democracia em risco, é bem verdade, como também é o caso da democracia brasileira. Ao final, não concordamos.

Saímos do restaurante e fomos a um bar justamente na rua Allenby, cenário do romance de Taub. Tampouco chegamos a um acordo a respeito de qual seria o melhor filme de Woody Allen (cada um de nós defendia seu preferido entre Hannah e Suas Irmãs, Manhattan e Annie Hall). Também discordamos quanto ao nível de imoralidade implicado no ato de se envolver com o ex de um amigo ou amiga próximo. Bebemos até a madrugada numa noitada memorável.

Dentre as muitas surpresas que a viagem me reservou, talvez nenhuma tenha sido mais impactante que o pequeno corredor construído às portas da cidade palestina de Belém, franqueando aos israelenses o acesso a um dos lugares mais sagrados para a tradição judaica: o túmulo de Raquel.

Como aprendi ali na hora, a história está em Gênesis: Jacó, neto de Abraão, levava sua família para o Hebron e teve de interromper a viagem quando sua mulher Raquel entrou em trabalho de parto. Ela não resistiu e morreu após dar à luz Benjamin. Jacó enterrou a matriarca Raquel e erigiu um monumento sobre seu túmulo justamente às portas de Belém. Os dez filhos de Jacó, mais dois rebentos que ele adotaria, dariam origem às doze tribos de Israel, uma espécie de matriz étnica para o judaísmo – segundo a tradição.

O soldado que guardava o portão abordou a van em que estava o grupo do qual eu fazia parte – íamos visitar o célebre santuário. Nosso tour por Jerusalém Oriental e adjacências era uma atividade da ONG Ir Amim, que procura “apresentar os impactos sociais, econômicos e políticos na vida dos múltiplos grupos religiosos, culturais e nacionais da cidade, bem como o papel de Jerusalém no conflito Israel-Palestina”, como consta no site da organização.

Paramos a poucos metros do enorme checkpoint pelo qual moradores de Belém precisam passar, se têm a fortuna de ter uma licença para ir a Jerusalém. Depois de uma rápida espiada no interior do veículo, o soldado perguntou ao motorista, em hebraico: “Algum deles é muçulmano?” O guia, um israelense de 40 e poucos anos que concluía seu doutorado em geografia, reagiu com alguma animosidade: “Isso não lhe diz respeito, inquirir quanto à religiosidade de alguém é contra a lei neste país” (ou pelo menos foi assim que ele nos traduziu o diálogo, num inglês irretocável). Fiquei pensando se eu teria presença de espírito e coragem para agir assim diante de semelhante abuso de autoridade por parte de um policial militar em São Paulo. Algo contrariado, o soldado autorizou nossa entrada e seguimos por uma rua cercada de muros altíssimos. Passados 200 metros, a van estacionou num pequeno largo onde já estava uma dezena de carros e ônibus.

A entrada principal era reservada aos homens. Alexandra e Giovana tiveram de se contentar com um acesso lateral – digamos que não era o melhor cartão de visitas do judaísmo para duas feministas como elas. O corredor murado, a entrada exclusiva e a presença de dezenas de judeus ultraortodoxos compunham um cenário que eu percebia como opressivo. Ao me aproximar do santuário, fui tomado por um impulso irresistível de cobrir a cabeça, como meu pai me ensinara a fazer ao entrar em qualquer sinagoga. Sem ter comigo um kapele, levei as mãos ao cachecol, pensando que poderia ser uma alternativa. Logo desisti, me sentindo um pouco ridículo, menos pela deselegância do traje do que por certo artificialismo do gesto.

Não sou religioso, mas sabia que naquele lugar os homens eram obrigados a cobrir a cabeça em respeito a Deus, e que entrar descoberto poderia ser interpretado como uma afronta. Não queria ofender ninguém, mas tampouco queria ser confundido com um “deles”.

Um homem velho me interpelou, oferecendo (digamos, enfaticamente) um kapele e me perguntando em inglês: “Você é judeu?” Confirmei um tanto inseguro, e ele prontamente buscou um talit e, com um sorriso, fez menção de colocá-lo sobre meus ombros. Recusei procurando ser gentil e dizendo que não era religioso. Insistente, ele perguntou se minha mãe era judia. Ao ouvir a negativa, perdeu por completo o interesse por mim e retornou a seus afazeres.

Foi com um misto de alívio e algum desapontamento que segui adiante.

O homem não era de todo antipático e, como tantos que zanzavam por ali, poderia facilmente fazer uma ponta num filme dos irmãos Coen, do tipo “velho sábio”. Eu teria gostado de perguntar sobre a passagem bíblica que tornava aquele cantinho tão especial, de saber que tipo de culto ou estudo era praticado ali, de ver mais de perto cada detalhe da pequena construção, de tirar fotos. Mas um gói não era digno de atenção.

Ao mesmo tempo, não me via sentando para uma conversa com dezenas de homens barbudos que rezavam ou estudavam em voz baixa, vestidos de preto e paramentados com toda a panóplia do judaísmo ultraortodoxo. Era impossível esquecer que o corredor murado e os soldados nos apartavam de dezenas de casas palestinas da cidade de Belém. O ar me pareceu irrespirável e não aguentei mais que cinco minutos lá dentro. Mas aquele era apenas um pedacinho do enorme muro que separa israelenses e palestinos, para a proteção dos primeiros e o infortúnio dos últimos.

Em Israel, as narrativas pessoais são eminentemente políticas. No último dia de minha breve estadia, encontramos Shaul Judelman e Noor A’wad, ativistas da ong Shorashim, instalada a poucos metros do importante entroncamento de Gush Etzion, na Cisjordânia, palco de inúmeros episódios de violência. O fim de tarde estava muito frio, e fomos acolhidos numa cabana rústica, com almofadas no chão. A madeira crepitava numa estufa, um cão dormia ao lado dela, roncando baixinho. Antes de começar a conversa, eles nos serviram chá.

Judelman nasceu na periferia de Londres, em 1979 (um ano depois de mim), e cresceu em Seattle, nos Estados Unidos, numa família judia não praticante, cujos antepassados haviam se dispersado pelo mundo após o Holocausto, a que ele se refere pela palavra hebraica Shoah. Nos anos 90, ele decidiu se instalar em Israel, viveu um ano em um kibutz e meses antes do início da Segunda Intifada começou a estudar rabinato na ieshiva do célebre rabino Menachem Froman. Froman era um líder ortodoxo pacifista, inspiração que legou a Judelman – e que eu considerava, equivocadamente, um oximoro.

Desde que se tornou rabino, Judelman mora no assentamento de Bat Ayin, na região de Gush Etzion – ele conta que várias vezes teve o carro apedrejado ao passar por vilarejos palestinos. Casado e observante, mantém a longa barba e os peiot – cachos de cabelos laterais emaranhados quase como nos dreadlocks rastafári – característicos dos judeus ortodoxos. Em vez das roupas pretas e formais dos ultraortodoxos que eu conhecia de filmes e reportagens de televisão, ele usava um kapele colorido e vestia roupas meio surradas. Parecia alguém que voltava de trinta dias de caminhada na Chapada Diamantina.

Shaul Judelman explicou que as atividades na Shorashim partem da constatação de que não há nada mais nocivo para a paz do que viver com medo, uma realidade constante em Israel. “Uma das maneiras de aprender a lidar com o medo é conhecer melhor o que é que nos amedronta. Descobre-se muito sobre si mesmo, sobre os outros, sobre o que temer – e há muito a temer. Mas também se conhecem, como conheci, muitas pessoas de quem não é preciso ter medo.”

O outro ativista, Noor A’wad, é filho de refugiados palestinos e nasceu na Jordânia, em 1991. Em 1995, entusiasmados pela perspectiva dos acordos de paz de Oslo, seus pais decidiram se mudar para Belém, onde viveram alguns anos de relativa normalidade, até o início da Segunda Intifada. A’wad e seu irmão souberam pela tevê que um muro estava sendo construído entre Belém e Jerusalém. Pegaram suas bicicletas, certos de que poderiam encontrar um acesso livre à cidade onde o pai deles trabalhava numa quitanda, e pela qual eles circulavam diariamente. Mas a partir daquele dia, até que obtivesse uma autorização provisória para trabalhar como guia, treze anos depois, A’wad se viu ilhado em Belém. “Percebi que minha vida não começara em 1991, mas em 1948, quando meus pais foram expulsos de Jerusalém pela primeira vez. Desde então nosso cotidiano é marcado pela incerteza e pela falta de perspectiva.” A’wad usa a palavra Nakba – termo árabe que significa catástrofe – para se referir aos acontecimentos da mesmíssima guerra de 1948, que os israelenses chamam de Guerra da Independência, marco de fundação do Estado de Israel.

Como Ari Shavit, eles nos contam suas histórias de vida – e as histórias de amigos e familiares, histórias que, de um modo ou de outro, remetem à Nakba e à Shoah – para dar sentido à maneira como veem hoje o conflito. Ao ouvir esses relatos duros, belos e complexos, Guilherme Melles entusiasmou-se com a possibilidade de produzir vídeos para as redes sociais. Respaldado pelo sucesso do Quebrando o Tabu, ofereceu seus préstimos a Judelman e A’wad, argumentando que divulgar massivamente a singular relação de amizade entre os dois poderia dar ao mundo uma prova de que o conflito tem solução.

Eles usam um grupo fechado no Facebook para manter os colaboradores em contato, disse Judelman, mas preferem não alimentar a página pública. A’wad explica que passou quase um ano tentando convencer um vizinho – para quem a ideia de sentar à mesa com um judeu parecia inaceitável – a participar de uma das reuniões da Shorashim. Para A’wad, essa era a prova de que a complexidade das narrativas não cabe em um vídeo para as redes sociais: seriam certamente mal compreendidos e jogariam por terra anos de esforços. Curtidas, compartilhamentos e textões são ferramentas grosseiras demais para o que está em jogo. Nenhum dos dois diz acreditar na resolução do conflito, ainda que ambos dediquem parte importante de seus dias a imaginar uma.

Naquela mesma noite, já em Tel-Aviv, fomos nos encontrar com o jornalista Elias Inbram, no café de uma belíssima livraria em frente à praça onde Yitzhak Rabin foi assassinado em 1995, e que hoje leva seu nome. Judeu nascido na Etiópia, Inbram é comentarista político num dos principais canais da televisão local. Ele nos contou que fazer aliá – termo hebraico que designa a imigração judaica para a Terra de Israel – era o grande sonho de sua família, que, no início dos anos 80, integrou a primeira grande onda de imigração etíope. Também explicou que os judeus na Etiópia não se veem como negros, e que foi grande sua surpresa ao ser percebido como tal em seu país de adoção. Em abril de 2015, Inbram divulgou um vídeo no qual um soldado do Exército israelense, de origem etíope, é espancado por um policial após uma abordagem. O vídeo viralizou e deu origem a uma série de protestos que reuniram milhares de judeus etíopes nas ruas de Tel-Aviv. Ocorrências como essa, e outras bem mais graves, são cotidianas no Brasil.

Giovana Xavier, a professora da UFRJ que compunha meu grupo em Israel, comentou com Inbram que a principal curiosidade de seus amigos e amigas no Brasil com quem ela vinha se comunicando por mensagens de WhatsApp ou Facebook era: “Você já encontrou os judeus da Étiopia? Eles são nossos irmãos?” A questão desconcertou Inbram, que rebateu perguntando a Xavier de que parte da África sua família vinha. A historiadora explicou que sempre foi muito difícil para os negros brasileiros localizar suas raízes ancestrais. “Mesmo que hoje, por minha posição na universidade, seja possível uma pesquisa desse tipo, não a considero o assunto mais importante. Prefiro me dedicar à história das intelectuais negras e à militância pela ampliação de sua área de influência.” A conversa se alongou por mais duas horas, tratando das diferenças e similitudes da discriminação racial no Brasil e em Israel.

Lembrei de um episódio vivido naquele clube judaico de São Paulo, nos idos de 1990, numa tarde em que me juntei a um grupo de meninos mais velhos para jogar basquete. Talvez pelo meu fraco desempenho, talvez por puro sadismo, os caras começaram a me sacanear. A situação foi ficando insustentável, mas eu não via saída honrosa. Era menor que eles, e estava sozinho. Um dos provocadores era um menino negro – fato raro entre os sócios do clube, mas não mais raro do que era na minha escola ou nos demais círculos burgueses em São Paulo.

Os preconceitos são perniciosos justamente por serem padrões introjetados, a respeito dos quais no mais das vezes permanecem inconscientes. Devo ter tido atitudes ou sentimentos racistas inúmeras vezes, mas tenho dificuldade de me lembrar deles. Em todo caso, lembro bem deste caso. A maneira que encontrei de sair do jogo de basquete naquela tarde foi responder à última provocação daquele menino negro me afastando da quadra e gritando: “Você nem é judeu!”

Não sei como o que falei reverberou naquele a quem dirigi o insulto, ou em seus amigos. Em mim, até hoje serve como alerta de quão pequeno e mesquinho eu fui capaz de ser quando jogado contra as cordas. De que o racismo – assim como o antissemitismo – se alimenta de nossos medos, inseguranças e neuroses.

Saí da quadra sem olhar para trás, e não lembro de ter revisto aqueles garotos. Frequentava o clube ocasionalmente, meus pais e irmãos nem isso, de modo que pouco depois abrimos mão do título familiar. Não sinto falta. Minha lembrança de infância a respeito da convivência na comunidade judaica é sempre acompanhada de uma sensação claustrofóbica, do ranço de espaços fechados. Será que eu queria fazer parte de um clube que me aceitava como sócio com ressalvas – filho de mãe gói é gói (ainda que seja convidado para fazer Bar Mitzvá) – e que me incitava a fazer ressalvas (racistas) a outros sócios, na primeira oportunidade?

Muitos amigos e primos foram a Israel no fim da adolescência ou ainda bastante jovens, em viagens promovidas por algum dos muitos movimentos judaicos de juventude como o Taglit ou o Dror. Para mim, o desejo de conhecer Israel só aflorou muito recentemente, e a ideia de integrar uma delegação de não judeus me pareceu mais confortável do que o contrário. Na noite em que chegamos, fomos até o Centro de Jerusalém para participar de uma manifestação contra o premiê Benjamin Netanyahu. Objeto de graves acusações de corrupção e responsável por guinadas políticas cada vez mais à direita, Bibi anunciara a expulsão de 37 mil imigrantes africanos ilegais. De lá para cá, o decreto foi revogado, mas no geral as coisas só pioraram: o primeiro-ministro voltou a ameaçar a situação dos imigrantes, novas e mais graves denúncias de corrupção praticamente o derrubaram, e boa parte da sociedade israelense e da comunidade internacional recebeu mal a violenta repressão do Exército à primeira de uma anunciada série de manifestações de palestinos na Faixa de Gaza, que marca os 70 anos da Nakba e da Independência de Israel, celebrados em 15 de maio no calendário gregoriano e em 5 do mês Iyar no calendário judaico. Em janeiro, junto àqueles manifestantes, mais ou menos judeus, aprendi minhas primeiras palavras em hebraico que não fossem “obrigado” ou “boa noite”.

Ricardo Teperman

Doutor em Antropologia pela FFLCH-USP e publisher na editora Zahar/Grupo Companhia das Letras.

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