CRÉDITO: ALLAN SIEBER_2022
Lula no país dos lunáticos
Apesar de tudo, pode dar certo. Mas estamos no fio da navalha
Fernando de Barros e Silva | Edição 196, Janeiro 2023
Jair Bolsonaro foi derrotado, o país tem um novo governo, ou, melhor, voltamos a ter governo no país. O fim do mundo foi adiado – e isso não é uma metáfora. A constatação de que a sobrevivência do planeta depende do que o Brasil fará daqui em diante com a Amazônia tornou-se um lugar-comum. A repercussão internacional de alívio e esperança com a vitória de Lula se deve, em primeiro lugar, a isso: a expectativa de que o país voltará a assumir a parte que lhe cabe nos esforços para desativar, ou pelo menos retardar, a bomba-relógio ambiental que o governo anterior havia posto para funcionar em ritmo alucinado.
Em segundo lugar, a vitória de Lula teve ressonância internacional porque ela responde a uma outra emergência – a democrática. Em 2018, ao eleger um genérico de Donald Trump, entramos oficialmente no rol dos países empenhados em promover a corrosão da democracia, até que ela, mais e mais desfigurada, fosse incapaz de se reconhecer no espelho. Cada país tem as suas especificidades, mas a receita de asfixia paulatina de instituições e de direitos virou uma espécie de commodity no mercado da política internacional.
Quatro anos depois da ascensão de Bolsonaro ao poder, o Brasil escapou por muito pouco da catástrofe. A diferença a favor de Lula foi de 1,8 ponto percentual – equivalente a pouco mais de 2 milhões de votos. Bastaria que 1,1 milhão de cidadãos mudassem de lado, trocando o 13 pelo 22, para afundar o país. O transatlântico Pindorama passou a poucos centímetros do iceberg, e só não se chocou com ele porque os brasileiros mais pobres seguraram o timão. João Moreira Salles escreveu no mês passado, neste mesmo espaço, sobre o sentido e as implicações do voto de quem não tem quase nada para a vitória de Lula. Bolsonaro foi mais votado que o petista em todas as faixas de renda acima de dois salários mínimos, o que não é trivial.
O resultado da eleição inspirou duas ordens de argumentos. A primeira diz que Bolsonaro perdeu apesar de ter colocado a máquina estatal a serviço de sua reeleição. O calote nos precatórios, a farra do orçamento secreto, o aparelhamento da polícia, a criação do “estado de emergência” para ampliar o valor do Auxílio Brasil e tentar comprar os mais pobres – o governo patrocinou ao longo da campanha toda sorte de abusos, ilegalidades e descalabros. E mesmo assim perdeu.
A segunda argumentação inverte o raciocínio: apesar de ser quem é e de ter feito tudo o que fez (e deixou de fazer), incluindo aí o saldo da pandemia, Bolsonaro teve impressionantes 58,2 milhões de votos. E por muito pouco não desbancou o maior líder popular do país, com Marina Silva, com Simone Tebet, com Geraldo Alckmin, com frente ampla, com tudo.
Os pontos de vista não são excludentes. Enquanto o primeiro destaca o feito extraordinário de Lula, o segundo nos joga na cara como a democracia no país está vulnerável. Duas verdades – e a primeira não deveria ofuscar a segunda.
Parte expressiva dos derrotados ainda não aceitou o resultado das urnas. Nos dois meses transcorridos entre o fim da eleição e a posse, ocuparam as ruas, acamparam em frente aos quartéis, bloquearam estradas, incendiaram pneus, carros, caminhões, depredaram postos de gasolina, saquearam lojas, transtornaram a vida de muita gente. Em alguns lugares, como na cidade de Novo Progresso, no Pará, a polícia foi recebida e enxotada a tiros pelos golpistas. Em outros lugares, vimos policiais pedirem desculpas antes de abordar aglomerações de patriotas ou, pior, confraternizarem com os manés.
A semelhança desses grupos com seitas de fanáticos os torna alvos fáceis de chacota. O comportamento delirante de gente que parecia razoável atesta que o catecismo bolsonarista foi bem-sucedido em sua missão evangelizadora. Pessoas rezando com a cabeça enfiada em muros de quartel ou reunidas em círculos com o celular na cabeça para invocar poderes extraterrestres na esperança de que um et qualquer venha dar a forcinha que falta à intervenção militar – não há como negar: temos hoje um Brasil paralelo. Mas o que fizemos de tão errado para que isso tenha se tornado possível?
Em 1967, dois anos antes de sua morte, Theodor Adorno fez uma conferência em Viena sobre o avanço da extrema direita na então Alemanha Ocidental. O filósofo tentava explicar aos austríacos a ascensão recente do Partido Nacional Democrático, criado três anos antes. As atenções de Adorno, no entanto, se voltam menos para a política institucional e muito mais para os movimentos da sociedade alemã. Queria entender como as disposições sociais e psíquicas que haviam permitido uma monstruosidade como o Holocausto se mantinham vivas e podiam prosperar no interior de um regime democrático.
A palestra atravessou mais de meio século numa espécie de semiclandestinidade até ser redescoberta e publicada pela Suhrkamp em 2019. Aspectos do Novo Radicalismo de Direita, já traduzido no Brasil pela Editora Unesp, soa espantosamente atual.
Ouve-se com frequência, diz Adorno, “que haveria em toda democracia algo como um resíduo de incorrigíveis ou de idiotas, uma assim chamada lunatic fringe, como dizem nos Estados Unidos”. Sim, isso acontece com intensidades variadas por toda parte, ele admite, mas essa constatação pode funcionar como “consolo” diante da dificuldade de encarar o tamanho real da encrenca.
O que aconteceu no Brasil não é obra de meia dúzia de lunáticos. E o fato de que esses movimentos autoritários tenham sido em grande medida financiados por grupos privados não os torna menos autênticos, pelo contrário, só agrava o quadro. O mesmo raciocínio se aplica à adesão aos atos golpistas por parte de membros das forças de segurança do país – policiais e militares. Agem espontaneamente? São mercenários? Uma mistura das duas coisas, muito provavelmente.
As cenas ocorridas em Brasília horas depois da diplomação de Lula estavam contratadas – vale o duplo sentido. Assim como estava contratado, como consequência da cruzada armamentista de Bolsonaro, o surgimento de milícias politicamente orientadas, dispostas a praticar atentados e atos terroristas.
É o caso de perguntar o que está contratado do lado de cá da trincheira. Não me refiro apenas à punição dos sabotadores da democracia, mas ao pacto político dos que se juntaram em torno dela. (Aliás, uma pergunta, como exercício de imaginação: em que pé estaria agora o país se o presidente do Tribunal Superior Eleitoral nos últimos meses não fosse Alexandre de Moraes, mas, digamos, alguém com a fibra e a firmeza democrática de Dias Toffoli?)
Escrevo antes da posse presidencial, com o sentimento de que o compromisso da frente ampla que elegeu Lula chega em janeiro desidratado. Como se a democracia, vitoriosa nas urnas, fosse um amálgama frágil para acomodar tantos interesses conflitantes diante de perspectivas econômicas difíceis, num cenário de demandas represadas e novas demandas. Ou, pior ainda, como se sua conquista já tivesse ficado para trás, cada um agora que cuide da sua vida. Setores do PT agem como se estivéssemos em 2003. E o mercado responde dizendo que tanto faz se estamos em 2023 ou em 1964. A isso se somam a correlação de forças desfavorável ao campo progressista no Congresso e a capacidade de mobilização e baderna do bolsonarismo, nas redes e nas ruas.
Apesar de tudo, pode dar certo, é claro. Mas estamos no fio da navalha. Em sua palestra, Adorno diz que não era incomum ouvir na Alemanha dos anos 1960 o seguinte argumento: “Antes de ele ter feito aquela guerra idiota, com Hitler estava bastante bom para a gente.” Não precisamos ir tão longe. No Brasil, editoriais da grande imprensa começaram a dizer coisa parecida antes mesmo da posse de Luiz Inácio.
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